Estive a Ler: A Jornada do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #4

Perguntei brevemente a mim próprio se os súbitos planos para a partida teriam alguma coisa a ver com a cena noturna que presenciara, mas depois vi a libertação de uma ave que levava a notícia da nossa partida e decidi que as novas nos teriam sem dúvida sido trazidas pelas mesmas asas.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Jornada do Assassino”, quarto volume da série Saga O Regresso do Assassino

O livro Fool’s Fate é o último da trilogia The Tawny Man, da autora de fantasia Robin Hobb. Em Portugal foi dividido em dois volumes, tratando-se este livro da sua primeira metade. Lançado em 2012 pela Edições Saída de Emergência, com tradução de Jorge Candeias, A Jornada do Assassino é o quarto volume da versão em português da saga intitulada O Regresso do Assassino.

Licenciada em Comunicação pela Universidade de Denver, a autora californiana Margaret Ogden é autora de diversos livros de fantasia contemporânea sob o pseudónimo Megan Lindholm, dedicando-se à fantasia épica com o nome Robin Hobb. Após alguns anos a viver no Alasca, reside atualmente em Tacoma, Washington.

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Fogojelo (Fonte: lollo.deviantart.com)

Os preparativos para a viagem

Para bem dos Seis Ducados, o Príncipe Respeitador deve contrair matrimónio com a princesa Eliânia, a narcheska das Ilhas Externas. Um falhanço no enlace pode conduzir os povos a uma guerra tão letal quanto foi a Guerra dos Navios Vermelhos. Todavia, uma ofensa do príncipe levou a narcheska e erguer-lhe um desafio. Para se casar com ela, deve entregar-lhe a cabeça de uma figura lendária, o dragão Fogojelo, enterrado na ilha de Aslevjal. A Jornada do Assassino começa com os preparativos para a viagem.

FitzCavalaria, sob o disfarce de Tomé Texugo, prossegue a sua função como Mestre do Talento do Príncipe. Claro está, tanto ele como o seu mentor Breu ou o atrasado Obtuso irão participar na jornada do príncipe, uma vez que são o seu Círculo de Talento, peça provavelmente fundamental na tarefa de matar o dragão. Quem também irá acompanhá-los é o Círculo de Manha de Respeitador. Para além de dotado na magia da nobreza, o Talento, o Príncipe Respeitador é também Manhoso, precisando exercitar-se na magia dos animais.

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(Fonte: starvingdesigner.blogspot.com)

O que preocupa Fitz é, acima de tudo, a profecia do Bobo. O seu velho amigo, que dá agora pelo nome de Dom Dourado, parece gastar fortunas ao jogo, apenas para se ver livre de todo o seu pecúlio. Afinal, ele profetizou que iria morrer na demanda para Aslevjal, de modo a conservar o dragão vivo e proporcionar o encontro entre Fogojelo e Tintaglia, o dragão fêmea dos Ermos Chuvosos, e garantir a sua prole. Enquanto Fitz parece bastante preocupado com a ideia de ver o amigo morrer, Breu está incomodado com a ideia do Bobo em salvar o dragão, podendo com isso arruinar os planos da Rainha.

Os temores de Breu e Fitz unem-se numa concordância: o Bobo não deve partir de Torre do Cervo. Enquanto ganha coragem para resolver velhas querelas e deixar o destino do filho adoptivo, Zar, entregue a ele mesmo, Fitz tem ainda um problema a resolver. Ele descobre que Veloz, o filho de Castro, o homem que o criou, com Moli, a mulher que sempre amou, está em Torre do Cervo para servir a Rainha e treinar a Manha, não com o aval dos pais, mas por sua própria conta e risco.

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Bobo (vlac.deviantar.com)

Aterrorizado com o desassossego dos pais para com o desaparecimento de Veloz, Fitz contacta Urtiga, a sua filha, criada por Castro como dele, dando-lhe conta de que o irmão está em segurança e que em breve estará de regresso a casa. De facto, Fitz manda-o embora, quase ao mesmo tempo que descobre algo inquietante: Teio, o Mestre da Manha, vinculado a uma gaivota chamada Risca, sabe quem ele é. FitzCavalaria Visionário, o herdeiro bastardo de Cavalaria. O lendário Bastardo Manhoso.

Breu consegue impedir que o Bobo viaje com o grupo para as Ilhas Externas. Através das suas influências, o conselheiro da Rainha faz com que o Bobo seja feito prisioneiro, pelo menos o tempo suficiente até zarparem e estarem longe e em segurança. Apesar de saber que não podia deixá-lo viajar consigo, sabendo que ele iria morrer, Fitz não se sente confortável com aquilo, pesando-lhe a consciência. A viagem para as Ilhas Externas é morosa e terrível, muito por culpa de Obtuso. Fitz é destacado para o acompanhar, o que se revela uma tarefa árdua. O jovem está sempre enjoado e a vomitar, e só quer voltar para casa.

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Fitz e o Bobo (Fonte: foolsbeloved.tumblr.com)

Apenas a ajuda de Teio socorre Fitz do seu calvário. O homem parece dotado na arte de acalmar e a forma como lida com as pessoas fá-lo lembrar do modo como Castro lidava com os animais, na sua infância. Também Urtiga, através dos sonhos, consegue acalmar Obtuso e minimizar o seu sofrimento. E é nos sonhos que Fitz é surpreendido pelo dragão Tintaglia, que tenta desesperadamente saber informações sobre Fogojelo e se é mesmo verdade haver outro dragão, um dragão vivo e capaz de lhe servir como parceiro.

Fitz descobre que Veloz desobedeceu à sua instrução e não voltou para os pais, integrando a frota e o Círculo de Manha do príncipe. Através de Urtiga, informa Castro de que o seu filho está com ele e em segurança, sabendo que, ao fazê-lo, o informa também de quem é e que está vivo. As repercussões de tal revelação podem fazer colapsar a relação de Castro com Moli, mas Fitz desconfia que essa relação está há muito puída.

A instabilidade de Obtuso é uma constante e Fitz martiriza-se por obrigá-lo a continuar, mesmo sabendo que ele é o mais poderoso de entre eles na arte do Talento. Vítimas de comentários trocistas e da volatilidade dos homens, chegam às Ilhas Externas, onde o Hetgurd, um concílio de clãs, deixa claro que, qualquer que seja o resultado da caça ao dragão, poderão haver conflitos prejudiciais para todos. Peotre Águapreta, o tio de Eliânia, rouba-os ao concílio para os levar até à narcheska. Fitz percebe que ela está mais adulta do que a conheceram em Torre do Cervo, como também percebe que o desprezo entre ela e o príncipe se transformou em algo, que pode muito bem resultar em amor.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Os poderes do Assassino tornaram-no uma lenda.
Mas quando ensinar o herdeiro a usá-los, ficará o reino mais seguro ou irremediavelmente perdido?
Depois do desafio lançado ao Príncipe Respeitador pela narcheska das Ilhas Externas, só lhe resta embarcar para o país de Eliânia em busca do dragão de Aslejval que tanto pode existir como não passar de uma lenda antiga.
Fitz, o mais famoso e temido assassino do reino, irá com ele. Mas a partida do herdeiro ao trono dos Seis Ducados para uma atribulada viagem marítima até uma terra de antepassados e inimigos não é algo que se faça de ânimo leve.
Que desafios irão ter de enfrentar os nossos heróis? As magias que ambos manejam imperfeitamente, serão uma ajuda ou um empecilho?
E o que acontecerá aos Seis Ducados se o herdeiro desaparecer
para sempre nessa terra misteriosa e distante?

OPINIÃO:

A leitura deste livro foi deliciosa. Atrevo-me a dizer que foi “só” o melhor que já li este ano. Robin Hobb supera-se, livro após livro, e só não dou este A Jornada do Assassino como o melhor livro que já li graças a um obstáculo chamado precedentes. Falta-lhe a excentricidade de Scott Lynch e a paixão visceral de George R. R. Martin, mas ainda assim a escrita dela é de uma candura, de uma maleabilidade, de um encanto, de me deixar com o queixo caído. Robin Hobb conseguiu, nesta segunda série dedicada a FitzCavalaria, tornar-se uma das minhas autoras favoritas.

O que dizer das relações que ela cria? Cada personagem é de um maravilhamento fantástico, estejamos a falar de Fitz, Bobo, Obtuso, Breu, Respeitador ou Eliânia. Até mesmo a personagens muito mais secundários como Enigma ou Berbigão a autora consegue dar uma humanidade palpável. Fitz é o cúmulo de toda a sua grandiosidade como contadora de histórias. Sentimos cada desilusão, cada nó no estômago, cada linha de relacionamento daquele personagem. E é impossível não adorá-lo, mesmo quando ele erra, mesmo quando ele se escuda de um orgulho desnecessário. É uma personagem admirável.

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Cenas de Fool’s Fate (Fonte: ginger-snuffkin.deviantar.com)

A história ganhou mais fôlego e mais potencial com a saída para as Ilhas Externas. Esta jornada é uma brisa de ar fresco na narrativa e fica a sensação de que tudo pode acontecer para os nossos protagonistas. Eles estão todos ali. E mesmo com os personagens que não vemos, como Moli, Castro ou Kettricken, sentimos o que está a acontecer com eles, através das informações que chegam ao narrador. Desde que li As Crónicas de Gelo e Fogo que não me sentia tão viciado numa série literária. Acabo este livro com vontade de devorar o próximo.

“Fitz é o cúmulo de toda a sua grandiosidade como contadora de histórias. Sentimos cada desilusão, cada nó no estômago, cada linha de relacionamento daquele personagem.”

Robin Hobb não se reserva a plot-twists. Não lhe basta fazer variações de rumo narrativo, coser linhas de relacionamentos genuínas e maravilhosas, e fazer evoluir as personalidades dos personagens. Ela também cria surpresas. E quantas. A autora consegue a proeza de contar uma história dedinho a dedinho, correndo o risco de incorrer numa narração lenta, e fazer-nos sempre tropeçar em surpresas quando menos esperamos. Até as imensas páginas de enjoos marítimos de Obtuso conseguiram agradar-me. Senti vontade que o livro não acabasse, o que é muito raro de acontecer.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Estive a Ler: As Nuvens de Hamburgo

Olho-o nos olhos, decidida a enfrentá-lo. O que vejo deixa-me sem pingo de sangue. Estaco, incapaz de poder sequer falar. Abro e fecho a boca como um peixe fora de água.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro As Nuvens de Hamburgo

Publicado pela Flybooks, As Nuvens de Hamburgo é o novo trabalho de Pedro Cipriano, um dos grandes entusiastas da Ficção Especulativa em Portugal, a que dá voz através da editora que fundou – a Editorial Divergência. Depois de trabalhar na Alemanha durante anos, como cientista ligado ao CERN, o autor teve a ideia de criar um romance que ligasse o presente ao passado da cidade de Hamburgo, cidade cuja História, pessoas e locais conheceu bem de perto.

Assim nasceu As Nuvens de Hamburgo, um romance intemporal sobre culturas, pessoas e viagens no tempo, lançado no passado dia 18 de junho na Biblioteca Municipal de Vagos. No último domingo, 16 de julho, decorreu a apresentação do livro no Auditório 1 do Instituto Superior Técnico de Lisboa, apontamento inserido na convenção de ficção científica Sci-Fi Lx.

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Apresentação do livro no Sci-Fi Lx

Uma rapariga normal…

Marta é uma rapariga normal. Ou deveria sê-lo. Os conflitos com os pais não parecem ser de agora, mas se não tiveram influência na decisão de ir estudar para o estrangeiro, seguramente tal empreendimento veio agudizar o relacionamento conflituoso entre eles. A estudar Erasmus em Hamburgo, Marta tem aquilo a que se pode chamar de uma vida normal. Até um dia.

Recém-chegada à cidade, o seu círculo de amigos não é muito grande, como seria de esperar, focando-se essencialmente em Eleni, uma beldade grega, e em Miguel e Jose, dois estudantes espanhóis. Enquanto é visada pelas atenções de Miguel, Eleni parece mais virada para Jose, que lhe é um pouco mais indiferente. Marta sente-se profundamente grata em estar fora desse triângulo amoroso, divertindo-se com a situação. Para Marta, as relações amorosas não estão, definitivamente, nos seus planos. É um espírito livre, sem paciência para amarras ou cobranças. Sem dúvida que um namorado lhe iria roubar tempo para os jogos de computador.

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Vista de Hamburgo (Fonte: wykop.pl)

… ou talvez não

É neste contexto que Marta é surpreendida, uma e outra vez, por visões estranhíssimas. Ao aproximar-se de monumentos que marcaram a História da Alemanha nazi, a rapariga avista suásticas, marcas da Segunda Grande Guerra e até militares fardados à época. O que inicialmente lhe parece uma confusão ou até uma encenação qualquer, rapidamente se transforma numa verdade inquietante. Marta é transportada para o passado, para os anos dolorosos da Segunda Guerra Mundial, e não consegue descobrir como ou porquê.

Os “transportes” têm, por norma, uma duração curta e surgem espaçadamente, sem um padrão inteligível. Ainda assim, começa a achar que está a ficar louca e é obrigada a contar a verdade à sua amiga Eleni. De cada vez que é transportada para o passado, Marta vê o mesmo rosto, o rosto de um oficial alemão que devia estar há muito morto. As coisas começam realmente a complicar-se para Marta quando, na visita a um monumento icónico de Hamburgo, um caça britânico desce dos céus e aponta-lhe a mira.

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Capa Flybooks
SINOPSE:

Marta é uma jovem que consegue ver o passado.
Assim que chega a Hamburgo, como estudante de Erasmus, vê-se transportada para a época Nazi, onde testemunha as brutalidades do Holocausto.
Nas suas viagens, Marta é atraída para um jovem soldado, encontrando-o nos recantos mais sombrios da história da cidade. A frequência dos encontros leva-a a procurar no presente a sua identidade.
O que é que os une? Apercebendo-se que consegue interagir com o passado, Marta procura descobrir qual o propósito deste dom. Mas será ela um mero peão num jogo que não consegue controlar ou será capaz de alterar o passado?


Um romance apaixonante, passado sob o manto da Segunda Guerra Mundial, que não irá deixar ninguém indiferente.

OPINIÃO:

Fui para o Sci-Fi Lx já com a ideia de comprar o livro do Pedro e com mais vontade fiquei de o ler após a apresentação do mesmo. O Pedro Cipriano não precisa de grandes argumentos para “vender o peixe” dele, basta olhar para a forma carinhosa com que ele trata a ficção e o trabalho que nela deposita. Também foi notório, pelo menos para mim, os sentimentos que tem em relação à cidade onde viveu e o quão bem a conhece. O anúncio de um equilíbrio entre História e Ficção Especulativa não me deixou grande hipóteses de fugir ao repto. Li As Nuvens de Hamburgo na viagem de regresso a casa.

Em relação à escrita, pouco há a dizer. Fluída e dinâmica, a escrita do Pedro não revela grande riqueza de vocabulário, mas pouco se dá por ela e isso é agradável. Se tenho algo a apontar, talvez o excesso de frases muito curtas, especialmente na ponta inicial do livro. Somos atirados para As Nuvens de Hamburgo já a “viagem” começou. O ritmo é altíssimo e assim se mantém ao longo das 97 páginas do livro. Se, ao início, isso pode gerar alguma confusão ou estranheza, posso dizer que agradou-me. O autor foi direito ao búsilis da questão e não desiludiu.

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Capa, contracapa e orelhas (Fonte: pedrocipriano.wordpress.com)

Confesso, na fase inicial do livro tive dificuldade em olhar para a Marta como a Marta. A narração é em primeira pessoa, e não conseguia desligar o personagem principal do autor, sobretudo sabendo que ele viveu ali. Pouco a pouco, no entanto, sobretudo pelas nuances e história pessoal da protagonista, fui dando traços e feições à rapariga. Se o início do livro já me tinha agarrado, o remanescente foi sempre a melhorar.

Pode-se até dizer que este livro é demasiado pequeno, mas parece-me que tem o tamanho certo para aquilo que o Pedro se propôs a contar, o tamanho certo para o tipo de escrita dele e o tamanho certo para passarmos uma hora e meia de bom entretenimento. Se o livro As Primeiras Quinze Vidas de Harry August reduzisse algumas das suas muito bem escritas viagens no tempo, talvez o tivesse colocado nos píncaros da FC. Não que o volume de páginas retire qualidade ao livro, mas neste tema em específico parece-me que o bater demasiado na mesma tecla e o repetir de situações cansa o leitor.

“Somos atirados para As Nuvens de Hamburgo já a “viagem” começou. O ritmo é altíssimo e assim se mantém ao longo das 97 páginas do livro.”

A história pode não parecer muito original, mas acaba por conseguir fugir a uma série de clichés expectáveis, pelo menos na minha ótica. Não precisamos de explicações, científicas ou de outro género, sobre o que aconteceu à Marta, não precisamos de respostas mais elucidativas. Tanto o autor como a crítica, por norma, sentem necessidade de ver respostas concretas para avalizar a competência na execução do plot, para perceber se não escreveu aquilo às três pancadas e só porque sim, mas na prática é o mistério que deixa o leitor apaixonado. E este As Nuvens de Hamburgo, pequenino e ainda com pouca visibilidade, é testemunha de que os autores nacionais têm muito para dar ao mundo das letras, independentemente do género.

Avaliação: 7/10

Estive a Ler: Conquista da Liberdade, Rebeldes Europeus #1

— Claro que sei! Posso não ter muita experiência, mas tenho carta de condução! Tu sabias disso!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Conquista da Liberdade”, primeiro volume da série Rebeldes Europeus

Nascida em Vila Franca de Xira no ano de 1994, Jay Luís foi criada entre as verdejantes encostas de Alenquer e o profundo azul marítimo de Sines, entre a camaradagem de bombeiros e o seio de uma família numerosa. Percorreu um ensino técnico ligado aos animais e à alimentação e começou a trabalhar como bombeira, nunca desistindo da escrita e do sonho de publicar os seus livros.

Publicado pela Edições Pastel de Nata, uma chancela do Grupo Capital Books, Conquista da Liberdade é o primeiro volume da série Rebeldes Europeus, um livro de ficção distópica passado num futuro não muito distante. A obra foi lançada no Centro de Artes de Sines no passado dia 8 de julho.

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Capa Pastel de Nata Edições

O controlo da Terra

O mundo que conhecemos sofreu um terrível revés quando o terrível déspota de origens islâmicas Yabdul Hassin aproveitou uma grave crise mundial para se afirmar no poder. A sua ideologia passava por enfraquecer o ser humano e dobrá-lo à sua vontade através dos mais diversos mecanismos. Com legiões de mercenários, redes de espiões e um controlo efetivo do submundo da droga, Hassin arrebanhou armas e homens, desafiou as grande potências e conquistou-lhes importantes bases militares.

A audácia de Hassin chegou à destruição de cidades importantes, como Nova Iorque ou Washington, mas também as maiores capitais da Europa dobraram-se à sua hegemonia. Com o poder em mãos, Hassin exigiu a cada uma das famílias dos territórios dominados que lhe cedessem duas crianças, de preferência um casal, para que a rapariga servisse como escrava de casa enquanto o rapaz alimentaria as fileiras dos seus exércitos.

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Promocional Pastel de Nata Edições

A Terra atravessou assim tempos difíceis, não fosse a ação dos Protetores do Espaço, então conhecidos como Rebeldes. Era um grupo concertado de cientistas e militares, que haviam sobrevivido à mão cruel de Hassin e desenvolvido um programa competente de resgate e salvamento. Nesse grupo destacaram-se duas irmãs de forte temperamento e desenvoltura militar: Mira e Lora Addams.

Nos últimos anos anteriores à nova contagem da passagem dos anos, fizeram-se as primeiras descobertas para a permanência de vida no espaço, através de naves, de modificadores de atmosferas e geradores de gravidade. Porém, no ano zero dessa nova contagem, Yabdul Hassin aproveitou a crise mundial instalada, para subir ao poder e mergulhar a Terra inteira em trevas, escravidão e pobreza. Foi, logo no início, que a oposição a este líder tirano se formou.

Com o passar dos tempos, os Rebeldes conseguiram estabelecer bases secretas e aceder a tecnologia de ponta, assim como edificar colónias espaciais, para onde enviavam todas as famílias que conseguiam salvar das garras de Hassin, que controlava todo o Planeta Terra. As equipas no terreno eram normalmente compostas por um Engenheiro Aeroespacial e um Guardião, militar de relevo encarregado da sua proteção.

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Cena do filme “Seven Sisters” (Fonte: indiewire.com)

Duas irmãs de garra

Mira Addams ocupa a dupla função de engenheira aeroespacial e organizadora de gado e mantimentos para as Colónias, enquanto a sua irmã Lora, a quem era muito ligada desde a morte dos pais, ocupou o lugar de sua Guardiã. Os pais estavam separados há anos quando se deu a destruição de Lisboa, mas encontravam-se na conservatória para tratar de pormenores relativos ao seu divórcio quando a tragédia se deu.

Mira e Lora tinham irmãos mais jovens, frutos das novas relações dos progenitores. As crianças haviam sido levadas como cativos para as ilhas, onde estavam sediados os colégios privados onde o regime de Hassin guardava as crianças e as preparava para o novo mundo. Excelente piloto de aviões, Mira tinha em mente resgatar as irmãs Lyana e Iara, mas também os primos Carina, Jorge e Filipe, aprisionados na Ilha de S. Miguel nos Açores.

Para tal, estava disposta a engolir um veneno no caso de ser apanhada, para não poder desvendar segredos dos Rebeldes sob tortura, mas a irmã Lora não a abandonou em nenhum momento. Juntas, as irmãs Addams atravessaram meio mundo, de Espanha até à Rússia e da Rússia até à Holanda, na tentativa de travar as intenções malignas do regime de Yabdul Hassin.

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Cena do filme “Into the Forest” (Fonte: screenfish.net)
SINOPSE:

Mira e Lora são duas irmãs, envolvidas na luta contra um regime tirânico, elas lutam pela liberdade do Mundo inteiro e para encontrar toda a sua família, no seio dos Rebeldes elas mostram ideais antigos que estão mortos e arriscam a vida para os manter, inspirando outros a serem como elas. Os Rebeldes detêm a única forma de escapar, o conhecimento sobre como ir para o Espaço e Mira faz parte da equipa ligada a essa área que foi permitida a permanecer na Terra, com condições, para evitar que o seu conhecimento caia em mãos inimigas, uma dessas condições é que esteja sempre acompanhada por um Guardião e Lora tomou essa posição. Podendo estar em paz, longe da Guerra, estas irmãs decidiram ficar e lutar, mas será que chegarão ao fim da luta?

OPINIÃO:

Conheci a Jay Luís no facebook quando ela procurava uma opinião ao seu livro de estreia e foi com agrado que aceitei o repto. Conquista da Liberdade é o primeiro livro da série Rebeldes Europeus, uma distopia com alguns toques de ficção científica. Quem me conhece sabe que não sou grande apreciador de distopias e tenho alguma aversão a livros do género Jogos da Fome, pelo que entrei nesta aventura com um pé atrás em relação ao que iria encontrar.

Ainda assim, quando o livro me chegou às mãos e percebi não só o tamanho reduzido do livro, como o grafismo atrativo do mesmo, concluí que não demoraria muito em devorá-lo. Achei alguma piada à forma como a autora nos introduziu no mundo criado, através de uma aula de História, e comprei a ideia do livro. Ao ler, tive sempre em conta que a autora é iniciante, pagou para publicar o seu trabalho e não tem qualquer experiência literária, como tantos jovens autores que por aí se lançam no mercado através de vanities.

Como disse, sem grande originalidade, a ideia é agradável. Gostei que a autora tenha partido do nosso mundo real e explorado um futuro distópico que abarcasse o nosso país. A ação do livro foi consistente, repleta de boas passagens e o ritmo foi sempre elevado sem parecer apressado. As cenas sucederam-se de forma natural e fluída e esse é, de facto, um dos maiores elogios a apontar. O sentido de humor da autora também foi uma constante, tenha sido ou não pertinente ou bem sucedido em alguns momentos.

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Jay Luís (Fonte: facebook.com/jayluisescritora)

Conquista da Liberdade é, porém, um livro por maturar. Aparte ser destinado a um público mais juvenil, patente na forma tipicamente “Barbie + Ken” com que os personagens são definidos na sua maioria, havia muitas arestas para serem limadas antes de o livro ser proposto a publicação. Em primeiro lugar, falta maturidade literária à autora. Tem talento, mas é visivelmente uma pedra em bruto e um autor deve ter vários anos de escrita contínua para que o seu trabalho tenha qualidade. Falta trabalho e traquejo, acima de tudo.

“A ação do livro foi consistente, repleta de boas passagens e o ritmo foi sempre elevado sem parecer apressado. As cenas sucederam-se de forma natural e fluída e esse é, de facto, um dos maiores elogios a apontar.”

Ainda assim, se ignorarmos o uso ostensivo de vírgulas, que nos faz sentir verdadeiros robôs ao ler o livro em voz alta, a descrição de personagens completamente estandardizada e a linguagem de corredor, estamos perante um livro que pode agradar a várias classes etárias. A história agradou-me, mesmo sem ser o meu género de eleição, e fico à espera de ver mais desta jovem autora que tem ainda muito caminho a desbravar no mundo das letras. Neste primeiro volume mostrou alguns conhecimentos sobre animais e sobre ciências e irei, com certeza, continuar a acompanhar os seus passos.

Avaliação: 4/10

Estive a Ler: Despertar, Monstress #1

Citando os poetas… Estamos fodidos.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Despertar”, primeiro volume da série Monstress (formato BD)

A autora americana Marjorie Liu é conhecida pela participação em BD’s da Marvel Comics como X-23 ou Viúva Negra, mas foi com Monstress que acabou indicada ao Eisner, em 2016. É um trabalho a quatro mãos com a premiada artista japonesa Sana Takeda, também ela muito ligada à Marvel, em títulos como X-23 ou Miss Marvel, e à Sega, onde trabalhou como designer. Monstress é um dos títulos de maior sucesso da Image Comics, nomeado este ano para três Eisner e para o Hugo Awards na categoria Melhor História.

Publicado pela Edições Saída de Emergência, Monstress faz parte do novo segmento da editora dedicado às bandas desenhadas, iniciado com Nimona. Disponível nas bancas a partir de amanhã, dia 7 de julho, conta com a tradução de Renato Carreira e edição de Safaa Dib. O primeiro volume, Despertar, reúne os números 1 a 6 da publicação original.

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Prancha Saída de Emergência

As Cinco Raças

Os Velhos Deuses quase foram esquecidos no tempo. Pouco ou nada se sabe sobre eles, para além de serem entidades de um poder corrosivo, vistos como algo terrível no tempo em que viveram. Foram banidos do mundo pela deusa primordial, Ubasti, mas diz-se que o pior entre eles ainda vive hoje neste mundo, adormecido…  Filhos de Ubasti, os gatos são a raça mais antiga no mundo. Eles ajudaram-na a expurgar os Velhos Deuses e vivem até aos dias de hoje.

Já a origem dos anciãos é um mistério. São figuras imortais, devotas à deusa lunar, com corpos metade humanos e metade animalescos. Viveram durante séculos em guerra, divididos entre duas cortes: a Corte do Ocaso e a Corte da Aurora. Apesar da guerra, as duas castas nunca se privaram à companhia dos humanos, cuja origem remonta aos mares. E foi do cruzamento entre anciãos e humanos que nasceu uma outra espécie: os arcânicos.

O mundo de Monstress está fraturado. Uma cisão evidente entre arcânicos e humanos agudizou-se, despoletando a terrível Batalha de Constantine e a edificação de uma muralha. Os humanos sempre foram uma raça problemática, representada pela Ordem das Cumaea, bruxas que procuram crianças humanas com poderes mentais que possam igualar os poderes arcanos. São também responsáveis por flagelar arcânicos, para lhes roubar os poderes.

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Prancha Saída de Emergência

Maika Meiolobo

O poder e a ascensão das Cumaea está relacionado ao uso de lilium, uma substância que provém dos ossos dos arcânicos mortos e que pode prolongar vidas e até ressuscitá-las, o principal móbil para a guerra que impera entre as duas espécies. Maika Meiolobo é uma rapariga arcânica, pertencente à minoria desta espécie que tem aparência humana. Aprisionada e leiloada pelas Cumaea, Maika sente-se confusa em relação ao passado e ao legado da mãe.

A sua mente é atravessada por lembranças difusas e vozes que lhe sussurram fragmentos de informações. Parece ser uma menina frágil e sem um braço, mas algo dentro dela mais poderoso e terrível parece querer despertar… cheio de fome. Segundo as Cumaea, a mãe de Maika fora enviada pelo senhor do seu povo para perseguir o túmulo da Imperatriz-Xamã, a arcânica mais poderosa de sempre, responsável pelo mundo ter parecido regredir à Idade das Trevas.

Muito embora a criatura que habita dentro de si tenha a responsabilidade pelos massacres que deixa à sua passagem, a personalidade de Maika não é a de uma menina frágil. Os seus pensamentos são sempre direcionados à pequena Tuya, uma rapariga com quem partilhou os horrores da guerra. Mas é com a pequena Kippa e um gato chamado Mestre Ren que Maika irá tentar escapar às garras das Cumaea e transpôr a muralha que divide os territórios.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Num mundo alternativo de beleza art déco inspirado na Ásia oriental, eis que nos chega uma história de coragem, vingança e compaixão…

Maika Meiolobo é uma adolescente que sobreviveu a uma guerra cataclísmica entre humanos e arcânicos, uma raça híbrida que descende dos Anciãos. Escravizada por bruxas inimigas que suspeitam dos seus poderes latentes,
Maika começa a desvendar o seu misterioso passado e, durante o processo, descobre que tem uma ligação psíquica com uma poderosa criatura de outro mundo.
Perante a opressão e o terrível perigo, Maika torna-se caçadora e presa, perseguida por aqueles que desejam usá-la, colocando-a no centro de uma guerra devastadora entre forças humanas e sobrenaturais. Enquanto isso, o monstro no seu interior começa a despertar…

OPINIÃO:

Parabéns pela publicação, Edições Saída de Emergência. Monstress é, de facto, monstruoso. Precisei de pouco mais de quatro páginas para perceber que esta era uma das melhores BD’s que já li, e não me enganei. Somos atirados para o centro da ação, não compreendemos muito bem – ou quase nada – do que se está a passar, mas o mundo é original, as falas geniais e a história incrível. O contexto é oferecido ao longo do livro, e só nas últimas páginas percebemos perfeitamente o motivo e as implicações da história de guerra entre os povos apresentados.

O álbum começou com tudo. De facto, gostei muito mais dos personagens humanos, do seu modo de vida e excentricidades, do que da Corte do Ocaso, quando os anciãos foram apresentados. Maika Meiolobo, no entanto, é o cerne de toda a narrativa. Não se enganem pelo ar frágil da protagonista, ostracizada pelo mundo e derruída por uma guerra que lhe levou família, amigos e um braço. A rapariga solta palavrões com frequência, não se refreia pela moral e, graças a uma criatura terrível que tem dentro dela, é até capaz de comer criancinhas. E há ainda um gato falante que é o alívio cómico do álbum e só posso qualificá-lo de absurdamente hilariante.

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Prancha Saída de Emergência

A história passa-se na Ásia, ainda que não seja claro se se trata de uma Ásia paralela, uma vez que as crenças do passado não batem com as nossas, ou de algo muito futurista, já que armas de fogo e objetos científicos são utilizados com frequência. Marjorie Liu demonstra um talento incrível com o argumento deste livro, e não só a narrativa como a própria escrita da autora são deliciosas. A reta final do primeiro álbum revelou-se algo mais cliché, mas não deteriorou o fulgor inicial. Os vários flashbacks funcionaram muito bem no entremear da história, e o gancho final deixou muito em aberto.

“A rapariga solta palavrões com frequência, não se refreia pela moral e, graças a uma criatura terrível que tem dentro dela, é até capaz de comer criancinhas.”

As personagens são todas elas ricas e muito fortes, e até mesmo a pequena Kippa consegue representar o leitor, dando voz aos medos e inseguranças em relação à protagonista. As personagens femininas são muitas e variadas, com especial ênfase para as enigmáticas Cumaea e as Inquisidoras. O traço vivo de Sana Takeda, de fácil associação ao grafismo Marvel e ao mangá, conseguiu refletir o clima de terror e suspense, assim como atribuir-lhe os detalhes asiáticos, dos dourados às tatuagens e embutidos, que a história exigia. Com efeito, o talento de duas grandes criativas resultou numa série que tem tudo para ser brilhante.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Monstress (Saída de Emergência):

#1 Despertar

Estive a Ler: Monge Guerreiro

Morrerá templário quando sua hora chegar, um monge sim, mas um monge guerreiro.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro Monge Guerreiro

Fugindo aos estéreotipos de romance histórico ou fantasia medieval, Monge Guerreiro é um livro passado na turbulenta primeira metade do século XIII. Recheado de liberdades históricas e fantásticas, foi produzido pelas mãos do autor estreante Romulo Felippe, amante de História e jornalista de profissão.

Publicado pela brasileira Editora Drakkar, sediada no Brasil, Monge Guerreiro foi publicado em dezembro de 2016, mas assistiu-se a uma repercussão tão positiva que foi já vendido para Itália. As 420 páginas do romance são divididas em 10 partes, todas elas adornadas pelos trabalhos gráficos do também brasileiro JD Burton, enquanto a arte de capa pertence ao artista espanhol A. J. Manzanedo.

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Arte de JD Burton (Fonte: mongeguerreiro.com.br)

Os artefactos sagrados

À frente de sete mil guerreiros e dotado de uma ambição desmedida, Slatan Mondragone é um líder guerreiro destemido e invencível. Nasceu após a morte da mãe, razão pela qual alega ter nascido da morte, e foi criado e encaminhado na sua senda de poder pelo enigmático Nuray, um velho conhecedor de magias negras. Carregado de um poder bélico inigualável, Mondragone – também chamado de Rei Negro – cerca a icónica Fortaleza Ilhada, que pertenceu por mais de mil anos à linhagem Jaroslav.

Sophyr Jaroslav, o rei de Orhan, na Bulgária, é assim sitiado por um inimigo bem instruído e armado. Confiante na inexpugnabilidade do seu reduto, é surpreendido quando corpos ceifados pela peste são arremessados por catapultas para o interior das suas muralhas. Em pouco tempo, vê o seu pequeno filho morrer, e tanto ele como a esposa, a chamada Rainha Corvo, têm um destino horrível às mãos do odioso Mondragone.

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Arte de JD Burton (Fonte: acervodoleitor.com.br)

Enquanto o Rei Negro tomava Orhan como quartel-general, o rei Luís IX de França, alheio a tal infortúnio, destaca um monge miguelino a transportar a lendária Lança do Destino, a sagrada lança que perfurou o flanco de Jesus Cristo na Cruz, para a França.  Também os Cavaleiros Templários, oriundos da Terra Santa, transportariam consigo um objecto sagrado: a Coroa de Espinhos. A Fortaleza Ilhada fora o local predeterminado para o encontro entre monge e cavaleiros, para que daí conduzissem ambos os artefactos em segurança para o coração da França.

Christopher Blanche é o grão-mestre da Ordem do Templo. Guerreiro lendário, um dos melhores do seu tempo, teve um papel fundamental nas Cruzadas e travou-se com o temível Nuray, conhecendo de perto os segredos negros da sua magia. Ele sabe melhor que ninguém que o seu percurso estará cheio de obstáculos, mas está disposto a tudo para chegar a França com a Coroa de Espinhos. Nem que tenha de se travar com os hunos de Odoacro, o Lobo, descendente de Átila, e ver a grande maioria dos seus homens tombar.

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Arte de JD Burton (Fonte: mongeguerreiro.com.br)

O Monge Guerreiro

O monge miguelino destacado para portar a Lança do Destino é Bastian Neville. Trata-se de um homem marcado pelo tempo e pela vida, que pertenceu em tempos à Ordem do Templo, à qual virara costas. Convocado para desempenhar um papel fundamental na História da Fé Cristã pelo próprio rei da França, e convicto de que tal poderá mitigar os sentimentos de culpa que o corroem por dentro, Bastian lança-se numa demanda heróica, que, mais cedo ou mais tarde, viria a cobrar o seu preço.

Bastian começara a guerrear era ainda um menino, tendo participado na lendária Cruzada das Crianças, na qual um grande número de crianças marchara para o Sul de Itália com o objetivo de libertar a Terra Santa. Segundo alguns relatos, todos haviam sido mortos ou escravizados. Na Grécia, Bastian Neville tornou-se um monge, recluso no Mosteiro Suspenso devoto a São Miguel Arcanjo, mas as marcas do seu corpo não escondem um passado de dor e violência.

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O autor, Romulo Felippe (Fonte: aquinoticias.com)

Após lhe ser atribuída a tarefa sagrada de portar a Lança por um dos monges, o Mosteiro Suspenso é alvo de um ataque por parte do Duque de Monos, um senhor vizinho, que muito embora acabe morto por Bastian, assassina muitos dos religiosos do Mosteiro. Depois de encontrar um belo cavalo negro com uma deficiência na fronte, a quem chamou Noitelonga, Bastian dirige-se ao vilarejo de Athos, em busca do guerreiro mongol que o guiaria até à Fortaleza Ilhada. Consigo porta uma espada templária, lembrete dos seus tempos na Ordem, chamada Viacrucis.

Na pequena povoação grega, Bastian percebe que o filho do Duque de Monos está no seu encalço, como também percebe que o guia mongol que lhe fora prometido trata-se de uma bela mulher chamada Setseg, nada mais, nada menos que a neta de Genghis Khan. Enfrentando nobres cobiçosos, guerreiros incríveis e reis lendários, Bastian e Setseg avançam com a lendária Lança do Destino para a Bulgária, onde o tenebroso Rei Negro espera reunir os artefactos sagrados para dominar o mundo.

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Capa Drakkar Editora
SINOPSE:

Maior rei da história da França, Luiz IX (hoje São Luiz) determina que duas das mais importantes relíquias do Cristianismo sejam transportadas dos confins da Terra Santa e da Grécia binzantina até o coração do seu reino. De Jerusalém partem os valentes Cavaleiros Templários liderados pelo grão-mestre Christopher Blancher, um experiente combatente que carrega preso à armadura a coroa mais poderosa do mundo; do Monte Meteóra, e por decisão do destino – quiçá divina –, parte o monge ortodoxo Bastian Neville, um dissidente da Ordem do Templo, cuja missão é levar de encontro aos antigos irmãos de armas a Lança de Longinus. Entre as duas relíquias sagradas, entretanto, há um rei pagão de nome Slatan Mondragone. Sua missão? Reduzir a pó todos os reinos Cristãos. E para isso uma profecia deverá ocorrer na boca do Vesuvius, o vulcão mais furioso da Europa. Com mais de oitenta personagens e combates épicos – eclodindo em um final apoteótico no coração de Veneza – Monge Guerreiro narra não uma, mas diversas odisseias no coração negro do século XIII.

OPINIÃO:

Um antigo Templário a montar um unicórnio? Um dragão a sobrevoar as maiores cidades da Itália medieval? Fantasia e História face to face num relato histórico de fundações reais? A ideia tinha tudo para ser desastrosa, mas o autor brasileiro Romulo Felippe mostrou-me que não. Foi com um grande sentimento de honra que recebi o convite do Romulo, um autor tão apreciado no Brasil, para ler e comentar o seu livro. Posso dizer que foi uma leitura proveitosa, fluída e, diria até, compulsiva. Monge Guerreiro venceu o meu sono por algumas noites e ganhou o meu apreço.

A leitura, porém, teve os seus espinhos (tal como a Coroa, by the way). Romulo conseguiu fazer interagir Balduíno II, Luís IX, Frederico II, o Papa Gregorius IX, até aqui tudo bem. Mas ter um descendente direto de Átila e a neta de Gengis Khan em grande foco pareceu-me um pouco irreal, e se lhes acrescentarmos um senhor nórdico… As distâncias percorridas pelos personagens também me custaram a engolir. Se a urgência em que Bastian e Blanche chegassem a Orhan era tanta, como raios o pequeno Kyriacos ou o huno Odoacro conseguiram tomar caminhos que os ultrapassaram? Sinceramente, não estou a dizer que era impossível, mas tive dificuldade em aceitá-lo.

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Arte de JD Burton (Fonte: acervodoleitor.com.br)

Confesso, a narração ser feita no presente, os pensamentos dos personagens serem feitos entre travessões, confundindo-se com diálogos, e os ocasionais erros ortográficos morderam uns dois valores na minha avaliação global. A passagem de Bastian e Setseg pelo Reino das Sequóias também me desagradou. Não que tenha sido mal escrito ou algo parecido, simplesmente a cena pareceu um deja-vu demasiado explícito da estadia no reduto do Senhor do Caúcaso, exatamente a passagem anterior. A criticar tenho também a forma apressada com que as cidades italianas foram apresentadas e as batalhas travadas, na reta final do livro. Precisamente, as passagens que mais gostei em todo o volume.

“Um antigo Templário a montar um unicórnio? Um dragão a sobrevoar as maiores cidades da Itália medieval? Fantasia e História face to face num relato histórico de fundações reais? A ideia tinha tudo para ser desastrosa, mas o autor brasileiro Romulo Felippe mostrou-me que não.”

Romulo Felippe abusou de alguns estéreotipos na sua criação. Um protagonista debilitado pelas marcas do passado, mas fiel à honra. Uma mulher guerreira bela, brava e corajosa. Um mestre bom, um mestre mau, animais amiguinhos e um senhor das trevas. Nada de mal advém daqui, mas gostaria de ver mais nuances em qualquer um destes personagens. Alguns foram eliminados para dar protagonismo a outros, e a meu ver faltou alguma consistência no esqueleto do livro. A primeira metade podia ter sido cortada a meio, a metade final mais desenvolvida.

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O autor e o “seu monge” (Fonte: allevents.in)

Senti que as mulheres foram bastante sexualizadas ao longo do livro, uma vez que as zonas íntimas eram sempre realçadas nas suas descrições, e a maioria só servia para ser estuprada ou morta, mas tal parece-me mais defeito do tempo em análise do que defeito do autor. Romulo Felippe revelou-se talentoso em múltiplos aspetos. A escrita dele é empolgante, o vocabulário rico e algumas cenas foram tão brilhantemente descritas, que me fizeram senti-las em primeira mão. Essa é uma das grandes qualidades do Romulo. Desde o primeiro momento do livro, sentimo-nos sugados para dentro da ação do livro. Monge Guerreiro não é uma fantasia que tenta aproximar-se à realidade histórica. Ainda que muitos personagens e até reinos sejam fictícios, sentimo-lo como um romance histórico credível, com traços fantásticos.

“Romulo Felippe revelou-se talentoso em múltiplos aspetos. A escrita dele é empolgante, o vocabulário rico e algumas cenas foram tão brilhantemente descritas, que me fizeram senti-las em primeira mão.”

As cenas de mortes às mãos do Rei Negro foram deliciosamente macabras, as descrições de batalha, fantásticas, e as inclusões de fantasia – dragões e unicórnios, sim – conseguiram, surpreendentemente, parecer verosímeis. A descrição de Romulo Felippe é rica sem perder tempo em minúcias; por vezes, a sua escrita pareceu-me demasiado apressada, mas nunca deixou de ser versada. No fundo, senti a paixão de Romulo ao escrever e fui contagiado por ela durante a leitura. Com uma revisão mais aprofundada de texto e um melhor equilíbrio narrativo, Monge Guerreiro seria uma das melhores leituras do ano. Em vários momentos, senti que estava a ler uma versão mais real e adulta de O Hobbit, escrita por Bernard Cornwell. Romulo Felippe, um nome a não esquecer.

Avaliação: 6/10

Estive a Ler: O Homem que Roubou o Mundo, Velvet #3

Há perigo e sexo? Por vezes, sexo perigoso, até? Sim, sim, sim… e, oh, sim. Mas essas são as excepções. Uns surtos de adrenalina que nos recordam do porquê de termos escolhido este trabalho.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Homem que Roubou o Mundo”, terceiro volume da série Velvet (formato BD)

Com Ed Brubaker ao leme, chegou no passado dia 29 de junho às bancas o terceiro e último volume da série Velvet.  Responsável por argumentos de sucesso como Capitão América, Fatale, Daredevil, Batman e Catwoman, Brubaker é uma das maiores apostas da G Floy Studio no nosso país nos últimos tempos. Em Velvet, conta com o contributo fundamental de Steve Epting no desenho e Elizabeth Breitweiser nas cores.

Intitulado “O Homem que Roubou o Mundo”, o terceiro álbum reúne os números 11 a 15 da publicação original, editada pela Image Comics. O volume final leva-nos ao encontro da espia Velvet Templeton, na tentativa de desvendar uma conspiração que destruiu a sua vida.

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Prancha G Floy

Quem é quem?

Depois da apresentação do plot no primeiro volume e da libertação e perseguição de Damian Lake no segundo, Velvet chega ao livro final da trilogia a exigir explicações sobre a trama de intrigas que a atirou de detrás de uma secretária para a mira dos seus superiores, no caso do homicídio do agente X-14.

Em “O Homem que Roubou o Mundo”, Velvet Templeton encontra em Maximillion Dark, o maior agente secreto que o mundo já conheceu, um possível manancial de respostas e não mede meios para as obter. Convencida da participação de Max na conspiração que a afetou, Velvet envolve-se com o espião na tentativa de fazer jogo duplo e, para isso, usa-se das suas maiores armas: discrição e sensualidade.

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Prancha G Floy

Uma conspiração governamental

É a partir do reencontro com Damian Lake, o homem que ela havia libertado antes de descobrir o seu envolvimento, que a ação se torna uma roda-viva de emoções e perseguições. Ao contactar Rachel Tanner, uma jovem que possuía conhecimentos importantes sobre o período de desaparecimento de X-14, Velvet encontra o perigoso espião, que a confronta com uma arma. Rachel foge e é acolhida por Max, que vem a encontrar Damian e Velvet num frente-a-frente desfavorável para a espia.

Damian mata Max com um tiro, o que desconstrói a convicção de Velvet de que eles pertenciam à mesma cabala. A partir daí, Velvet foge para reencontrar Rachel, ao mesmo tempo que descobre que a trama onde está envolvida pode ter contornos muito maiores do que especulava, e decide raptar o Presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon. Uma nova sucessão de perseguições e confrontos levam Velvet aos verdadeiros culpados pela morte de X-14.

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Capa G Floy
SINOPSE:

Todas as pistas e todos os destinos que constituem o mistério que rodeia Velvet acabam por a levar de volta aos Estados Unidos e a Washington, para o final explosivo da saga de Velvet Templeton. Por dois dos criadores de comics mais aclamados de hoje, Ed Brubaker e Steve Epting, a dupla responsável também pela série Fatale.

A primeira grande aventura de Velvet Templeton, a secretária que era uma espia e operacional de missões secretas, chega ao fim com este terceiro volume da série. E a conclusão levará Velvet até ao topo das hierarquias do poder do mundo Ocidental e ao perigoso jogo das agências secretas. Quem foi que tentou incriminá-la e destruir a sua carreia e imagem, deixando um rasto de destruição no seu caminho? Descubra tudo no último volume de VELVET!

OPINIÃO:

E se o Caso Watergate escondesse algo mais terrível? O Homem que Roubou o Mundo é o remate perfeito para a trilogia Velvet de Ed Brubaker e Steve Epting, emocionante da primeira à última página. Perseguições, tiroteios e revelações preenchem mais um álbum genial de uma das duplas criativas mais respeitadas dos nossos dias. A um ritmo alucinante, o leitor segue a espia Velvet Templeton na peugada de respostas sobre a cabala que a fez matar o homem que amava.

Ainda que me tenha surpreendido em vários momentos, sobretudo com a inclusão do Presidente Nixon e da questão Watergate, a narrativa atira a esmo uma série de clichés que não nos obriga a pensar muito de onde os conhecemos. Velvet é um autêntico James Bond de saias, e muitas das suas passagens são facilmente reconhecíveis para os fãs de espionagem, assim como o verdadeiro rosto dos vilões não surpreende. Mesmo assim, o ritmo alto e a revelação constante de segredos são pontos fortíssimos a favor do argumento.

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Prancha G Floy

A história é curta e três álbuns deixam uma sensação de nostalgia no ar, se bem que o timing de publicação e o tamanho da série foram os adequados para a narrativa que Brubaker quis contar. Somos apresentados a personagens verosímeis, duros, secos e carregados de segredos, que me apaixonaram da primeira à última página. Gostei dos três volumes, mas este terceiro acabou por ser o que se destacou mais, como seria previsível.

“Velvet é um autêntico James Bond de saias, e muitas das suas passagens são facilmente reconhecíveis para os fãs de espionagem, assim como o verdadeiro rosto dos vilões não surpreende.”

Pessoalmente, porém, o que mais me agradou foi a arte. Steve Epting revela um talento inigualável, com um traço vivo que revelou-se consistente, maduro e elegante. Muito embora não me tenha agradado a expressão facial de Velvet, quase tridimensional, tudo o resto roçou a perfeição. A forma como mostrou toda a sensualidade da personagem sem a sexualizar em demasia foi um dos bónus do desenho.

No seu todo, é uma BD cheia de ritmo e de surpresas que me convenceram. Se estás à procura de uma série concluída com qualidade, não percas tempo. Velvet, de Brubaker e Epting, é uma aposta ganha.

Avaliação: 9/10

Velvet (G Floy Studio Portugal):

#1 Antes do Crepúsculo

#2 Vidas Secretas de Homens Mortos

#3 O Homem que Roubou o Mundo

 

Estive a Ler: Regressos, Southern Bastards #3

O Euless espancou mesmo aquele homem até à morte no meio da rua… e toda a gente ficou parada a ver?

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Regressos”, terceiro volume da série Southern Bastards (Formato BD)

Lançado no XIII Festival Internacional de BD de Beja, o terceiro volume de Southern Bastards chega agora às bancas e livrarias portuguesas, pelas mãos da G Floy Portugal. É mais um capítulo da violenta saga sobre as gentes do Alabama criada por Jason Aaron e Jason Latour, autor e ilustrador norte-americanos. Este volume reúne os números 9 a 14 da publicação original editada pela Image Comics.

Com o título Regressos, adaptação do original Homecoming, que alude a uma espécie de SuperTaça do futebol americano, assistimos ao fim das férias e à aproximação do maior jogo do ano para a equipa do Condado de Craw, os Runnin’ Rebs. Southern Bastards venceu o Prémio Harvey para Melhor Nova Série em 2015.

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Prancha G Floy

O jogo mais aguardado

Depois de assistirmos à trágica morte do protagonista Earl Tubb e conhecermos a história do seu assassino, o treinador dos Rebs, Euless Boss, a narrativa sobre a população de Craw incide agora sobre um jogo de futebol por que todos esperam. Uma partida decisiva, entre os Rebs e os Warriors do condado de Wetumpka. No passado, de todas as vezes em que eles se defrontaram, os Rebs foram vitoriosos, muito por “culpa” do treinador Big.

No entanto, o homicídio brutal de Earl Tubb deixou as suas marcas em Big. Envergonhado por Boss e pela comunidade em geral, o antigo treinador acaba por suicidar-se, deixando a equipa entregue a si mesma. A história deste volume, porém, não se foca nos preparativos para o jogo, mas nos múltiplos personagens que povoam o Condado de Craw.

O primeiro é o xerife Hardy. Ensombrado pelo seu papel na morte de Tubb, o homem recorda-se de quando fora um jovem jogador com um futuro brilhante, e em como se viu enredado nas teias labirínticas do treinador Boss. Acompanhamos também Esaw Goings, o libertino lacaio de Boss que, após o suicídio de Big, vê-se arrastado para o campo de futebol. Ainda assim, não consegue deixar os maus hábitos de lado, nem de olhar para todas as mulheres como peças de caça. Um religioso segue os seus passos, mas é sucessivamente humilhado.

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Prancha G Floy

Há justiça em Craw

Existe em Craw quem nutra um ódio de estimação pelo futebol. Boone é um caçador e manipulador de cobras. Ele vive nas profundidades da floresta e é obrigado a testemunhar os atos mais cobardes por parte dos jogadores de futebol e amigos de Boss. Mais tarde, revela-se um justiceiro atento, que usa arco e flechas para abater assassinos e violadores.

O arco de Regressos avança com a história de Tad Ledbetter, o menino que fizera amizade com Earl Tubb e ficara hospitalizado, mas há ainda tempo para conhecer a esposa do Mayor e um grupo de cães pouco amigáveis. A história termina com o tão aguardado jogo de futebol e, principalmente, com o regresso a Craw de Roberta, a filha de Tubb. Militar de vulto, a jovem regressa do Afeganistão com vontade de vingança e de justiça. Roberta Tubb quer saber quem foram os homens que mataram o seu pai, e fazê-los pagar por isso. A forma como lida com os vizinhos é um pequeno indício do que está para vir.

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Capa G Floy
SINOPSE:

Chegou a semana do Homecoming, o fim das férias e o maior jogo do ano para a equipa do Condado de Craw, os Runnin’ Rebs. Mas o Coach Euless Boss tem muito mais inimigos do que os que vai enfrentar no campo de jogo. O xerife cujo passado negro o continua a assombrar. O misterioso caçador sempre pronto a fazer a sua justiça rural muito peculiar. O estranho rapaz em coma. A maquiavélica mulher do Mayor. Os cães selvagens.

E há também Roberta Tubb, do Corpo de Fuzileiros dos Estados Unidos. A filha do homem que Euless Boss matou a sangue-frio. Todos estão a regressar a casa, como que atraídos por uma promessa de violência e vingança. Mas o Coach Boss não tem medo de sangrar. Nem de verter o sangue de outros, se isso for necessário para ganhar o jogo.

Seis histórias. Seis grandessíssimos cabrões. Uma série “frita à moda do Sul”.

OPINIÃO:

Southern Bastards nunca precisou de um grande argumento para me conquistar. A linguagem dura e a expressividade visual cativaram-me por si só. Mas, se os dois primeiros volumes valeram pela realidade gráfica e pela escultura detalhada dos seus maravilhosos personagens, o terceiro volume superou os álbuns anteriores com um argumento aliciante e um perscrutar intensivo às gentes de Craw. Na verdade, este livro ganhou-me com a sinopse e não me desiludiu.

Mais do que os seis personagens de que se fala, assistimos a uma aproximação consistente ao interior profundo do Condado de Craw, sem esquecer o legado de Tubb ou o personagem Boss. Os dois autores conseguiram enriquecer a série e abrir novas perspectivas para a mesma, ao mesmo tempo em que submergiram o leitor num ritmo assertivo e crescente. Finalmente, a impunidade do treinador Boss parece ameaçada.

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Prancha G Floy

Regressos é um retorno em grande à obra de Jason Aaron e Jason Latour, arrastando consigo a toada brutal dos volumes antecessores, o cheiro a sangue, a suor e a óleo acumulado nas frigideiras. O cheiro ao Sul dos E.U.A e aos seus incorrigíveis bastardos. Corrupção, manipulação e tomadas de consciência, jogos de futebol e sede de justiça. Uma parafernália de personagens consistentes,  brutais, crus e sangrentos. 

“Os dois autores conseguiram enriquecer a série e abrir novas perspectivas para a mesma, ao mesmo tempo em que submergiram o leitor num ritmo assertivo e crescente.”

A arte de Jason Latour é muito boa. O argumento de Jason Aaron convence. E se todo o álbum me apaixonou com histórias críveis e viscerais, ele termina no seu ápice, com a apresentação da personagem mais fucking badass até aqui criada, Roberta Tubb. Euless Boss, parece-me que vais ter problemas dos grandes.

Avaliação: 8/10

Southern Bastards (G Floy Studio Portugal):

#1 Aqui Jaz Um Homem

#2 Sangue e Suor

#3 Regressos

 

Estive a Ler: Sangue do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #3

Respirar o ar frio fez-me doer as costelas sovadas. Não havia muito a fazer quanto a isso. Havia uma doentia familiaridade na dor dos meus nós dos dedos inchados. Perguntei a mim próprio, com apatia, quando seria suficientemente velho e sensato para parar de me meter em lutas físicas.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Sangue do Assassino”, terceiro volume da série Saga O Regresso do Assassino

Sangue do Assassino é o terceiro volume da série O Regresso do Assassino, segunda série da autora Margaret Ogden sob o pseudónimo Robin Hobb, publicada em português pela Edições Saída de Emergência. Corresponde, na verdade, à segunda metade do livro Golden Fool, iniciado em Portugal com o volume Os Dilemas do Assassino. Foi lançado em 2011 por terras lusitanas, com tradução de Jorge Candeias.

A leitura deste livro está incluído no desafio Vamos Viajar com Robin Hobb, por mim concebido o mês passado no âmbito do lançamento nacional do livro O Assassino do Bobo, em parceria com a Edições Saída de Emergência. Este desafio consiste na leitura de um ou mais livros desta autora. Se ainda quiserem participar, podem enviar-me até dia 8 de julho uma opinião a um dos livros de Robin Hobb que leram durante este período.

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A autora com o nosso “avô sonecas” Martin (Fonte: youtube.com)

Uma amizade quebrada

A ação continua em torno de FitzCavalaria Visionário e as suas tentativas de preservar Torre do Cervo e a família real à qual pertence. O último livro terminou com a chegada da delegação de Vilamonte, exigindo apoio numa guerra aparentemente inevitável contra Calcede, o que coincidiu com o grito de revolta de Eliânia, a narcheska das Ilhas Externas prometida ao príncipe Respeitador. Ferida pelo desinteresse do noivo, a narcheska exigiu que apenas se casaria com ele caso o príncipe cortasse a cabeça a um dragão. Fogojelo, uma lenda das Ilhas Externas. Surpreendentemente, o príncipe aceitou o repto.

As gentes de Vilamonte abandonaram Torre do Cervo, assim como o séquito de Eliânia. À medida que os preparativos para a viagem do príncipe avançavam, FitzCavalaria, sob o disfarce do criado Tomé Texugo, via vários problemas a serem resolvidos. O Bobo parecia agora irreconhecível. A aparição de Jeque, mulher da delegação de Vilamonte, veio mostrar a Fitz uma nova perspetiva sobre o seu amigo de sempre, que se exibia agora como o nobre jamailiano Dom Dourado. Em Vilamonte, o Bobo fora visto como uma mulher de nome Âmbar, e havia esculpido a proa de um navio com o rosto de Fitz.

Os inúmeros rumores sobre a sexualidade de Dom Dourado e a relação entre ambos levaram Fitz a confrontá-lo, temendo que tais comentários chegassem aos ouvidos do seu filho adotivo, Zar. O Bobo revelou então a Fitz o seu amor por si, como sublinhou também nunca lhe ter pedido nada que não lhe quisesse dar. Um fosso de amargura ergueu-se entre os dois, e desde então o Bobo começara a lidar com Fitz como se fossem Dom Dourado e o seu criado Tomé, mesmo sem testemunhas à sua volta.

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Fitz e o Bobo fan art (Fonte: foolsbeloved.tumblr.com)

O círculo de Talento

A viagem do príncipe tornou também imperial que ele aprendesse as artes do Talento, o que se tornou de difícil realização depois de ele perceber que fora constrangido mentalmente por Fitz, com uma ordem de Talento. Ultrapassada a “birra” do rapaz, Breu conseguiu instar Fitz a tornar-se Mestre do Talento, pois tornou-se necessária a existência de um círculo capaz de proteger o príncipe durante a sua aventura. Obstinado em não deixar que envolvessem a filha Urtiga nesse projeto, Fitz aceitou forjar esse núcleo. O único possuidor de Talento à vista, no entanto, era Obtuso, o criado de Breu que, embora mentalmente retardado, revelou um dom incontrolável para a magia.

Apesar de Obtuso não gostar de Fitz, a quem chamou correntemente de “fedor de cão”, o Bastardo Manhoso conseguiu suborná-lo com um apito, um cachecol e muitos doces, levando-o a confiar em si. Através dessa confiança ténue, Fitz descobriu que Obtuso era um espião dos pigarços dentro da torre, levando-lhes informações confidenciais, mesmo que não as compreendesse. Ao descobrir que Louvovinho, o líder dos pigarços, encontrava-se na cidade, e exortado por Respeitador, que acreditava ter o seu amigo Cortês Bresinga em perigo, Fitz desceu à cidade.

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Bobo e Fitz (Fonte: goodreads.com)

Os Bresinga tinham sido utilizados pelos pigarços como isco para atrair Respeitador, e continuavam a ser manietados por eles, sob a ameaça de verem exposta ao mundo a sua natureza manhosa. Fitz encontrou Cortês à beira de ser estrangulado pelos homens de Louvovinho, e entrou em campo para o salvar. A intervenção de Fitz eliminou os pigarços em questão e um cavalo, animal de manha de Louvovinho, mas apesar de ter salvo a vida a Cortês, ficou gravemente ferido e sob a acusação de homicídio.

A ação concertada de Breu e de Dom Dourado transformou o criado num herói, através da história encenada de que os pigarços haviam roubado as penas coloridas de Dom Dourado, e que o seu criado os enfrentara para recuperar tais pertences. Porém, o resgate de Fitz e o regresso a Torre do Cervo não lhe curaria as feridas. Entre a vida e a morte, viu os seus amigos mais próximos a realizar uma tarefa inusitada. Os conhecimentos anatómicos de Breu, o imenso Talento de Obtuso, o controlo de Talento de Respeitador e a ligação que unia Fitz ao Bobo conseguiram-lhe reparar a terrível ferida.

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Breu (Fonte: moriadat.deviantart.com)

A preparação para a viagem

A recuperação, porém, foi lenta. À medida que ia compreendendo que encontrara, finalmente, o Círculo de Talento de Respeitador, testemunhou também o descontrolo e sede de Talento de Breu, a quem a arte fora vedada desde sempre, por ser um bastardo. Tal preocupação enublou a relação entre ambos, e mesmo a quase morte de Fitz não restaurou a amizade entre este e o Bobo, que acreditava veementemente que a viagem com o príncipe tinha um propósito: não matar o dragão, mas encaminhá-lo, de modo a garantir a sua descendência.

FitzCavalaria mostrou-se preocupado com a viagem, com o Círculo de Talento e com os seus amigos e família, mas também com o futuro. Com a visão de Hênia, a aia da narcheska, após a morte de Louvovinho, tornou-se provável a influência da chamada Mulher Pálida, a suposta Profeta Branca que influenciou a Guerra dos Navios Vermelhos, na ameaça pigarça.

Um elo foi finalmente forjado entre a rainha Kettricken e os Manhosos, deixando que vários se tornassem seus serviçais, tentando afastar o estigma que assombrava os que se proclamavam de Sangue Antigo. Entre os novos servos estava Veloz, filho de Castro e Moli, o que atraiu novamente Fitz para o seu passado e para os seus terrores, quando, ao contactar a filha Urtiga através do Talento, foi sondado por uma voz terrível e enigmática.

Sem título 2
Capa Saída de Emergência
SINOPSE:
Os poderes do Assassino tornaram-no uma lenda. Mas quando ensinar o herdeiro a usá-los, ficará o reino mais seguro ou irremediavelmente perdido? Apesar de profundamente enredado nos seus conflitos pessoais, o Assassino tem de preparar uma expedição infalível às Ilhas Externas. Para isso há que ensinar ao príncipe dos Seis Ducados tudo o que conseguir sobre as duas magias – duas misteriosas e temidas magias inerentes ao sangue que ambos partilham. Mas na vida de Fitz nada é fácil, e o seu próprio desconhecimento de muito do que diz respeito a essas magias pode ter consequências catastróficas, tanto para si como para o herdeiro… e, em última instância, para o próprio reino. Mas as ameaças não se ficam por aí: quem são realmente aqueles estranhos vilamonteses que apareceram inesperadamente em Torre do Cervo? E os manhosos, que resultará dos seus conflitos internos e que atitude tomará a respeito deles a coroa dos Seis Ducados?
OPINIÃO:

Se a ação deste livro não se desenvolveu rapidamente ou de forma apaixonante, posso dizer que dificilmente seria um livro melhor se tal tivesse sucedido. A maravilha desta história não é a narrativa em si, mas sim a forma como é contada. A Saga Regresso do Assassino não se foca em magias, em sede de poder ou em batalhas, mas sim na natureza humana. Temas como o estigma e o preconceito são bastante debatidos, através das várias nuances de personagens. Fez-me rir que um personagem como Fitz, estigmatizado e até “arrancado ao mundo” primeiro por ser bastardo e depois por ser manhoso, se tenha mostrado tão desconcertado com suspeitas de homossexualidade.

Ainda assim, a evolução do herói é digna de registo. Em alguns momentos, Fitz consegue ser mais maduro que o próprio Breu e, muito embora revele algum amadorismo na educação de Zar, os seus conselhos e advertências revelam muito do seu amadurecimento. A grande mais-valia de ler Robin Hobb é conhecer personagens credíveis e imperfeitos como Gina, a bruxa ambulante, que consegue ser uma pessoa tão palpável, real, que impressiona.

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Capas originais da trilogia

Também a relação entre Fitz e o Bobo é digna de destaque. Com tanta fantasia e irrealidade, vemos ali uma ligação extremamente humana, a prova visível como uma amizade pode levar anos a forjar-se e que basta um ato irrefletido para provocar danos irreversíveis. Tudo isto demonstra uma grande maturidade por parte da autora. Robin Hobb é maravilhosa a descrever relações, seja entre pessoas ou com animais, e é esse grande parte do seu mérito.

“A grande mais-valia de ler Robin Hobb é conhecer personagens credíveis e imperfeitos como Gina, a bruxa ambulante, que consegue ser uma pessoa tão palpável, real, que impressiona.”

Esta série tem um ligeiro problema que é, passo a redundância, o excesso de problemas com que o protagonista se depara em simultâneo. Ele tem de manter uma fachada, lidar com pessoas e as suas idiossincrasias, resolver atritos pessoais e as expectativas dos outros, preocupar-se com os filhos e com o uso desmesurado do Talento por parte dos seus alunos. Para além disso, tem uma viagem para preparar, a ameaça pigarça e o fantasma daquilo que os espera, a pairar no horizonte, quando for obrigado a lutar com mais inimigos e talvez dragões nas Ilhas Externas. Um rol de problemas que, ao mesmo tempo que se tornam cansativos, também acrescentam ritmo e uma sequência corrente de ações à narrativa.

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WTF (Fonte: knowyourmeme.com)

A inclusão do contingente das Ilhas Externas e a promessa de criaturas sobrenaturais é um sopro de ar fresco nesta história de traço tão marcadamente medieval e credível. É, também, a expectativa em torno dessa demanda que me leva a desejar ter o próximo livro na mão o quanto antes. A temática da Manha tem sido até aqui muito bem explorada, mas – matem-me! – dei por mim a sentir também um certo preconceito para com os manhosos e para com as coisas que são capazes de fazer.

Resumindo, Sangue do Assassino resolve grande parte das questões levantadas em Os Dilemas do Assassino (trata-se do mesmo livro na versão original) e desenvolve de forma contínua e dinâmica as relações humanas entre os vários personagens. E, ainda que não esteja entre as personagens mais desenvolvidas, Kettricken continua a ser uma das minhas preferidas. Como é possível não a adorar? Tudo se encaminha para um final de série em grande, com os dois volumes finais.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Estive a Ler: Duas Vezes Contado, Harrow County #2

Estiveste a arrastar-te pelo quarto, à minha espera? Podias ao menos tentar não desarrumar tudo.

O texto seguinte pode ter spoilers do livro “Duas Vezes Contado”, segundo volume da série Harrow County (Formato BD)

Vencedor de um Gasthly Award e nomeado para o Prémio Eisner de Melhor Série em Continuação no ano passado, Harrow County surpreendeu os leitores portugueses e regressa este mês às bancas nacionais com o segundo volume, Duas Vezes Contado, que inclui os números 5 a 8 da publicação original.

Com argumento de Cullen Bunn e arte de Tyler Crook, Duas Vezes Contado retoma a publicação da série pela G Floy Portugal, apresentada pela editora no Festival de BD de Beja. A história foi concebida por Bunn no formato prosa, mas acabou por não ser terminada para publicação. Através da editora Dark Horse, Harry County transformou-se numa banda-desenhada, um dos produtos gráficos de terror mais elogiados das últimas décadas.

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Prancha G Floy

Após a pacificação

Harrow County é uma pequena vila isolada no Sul dos E.U.A., assombrada por um passado ligado ao sobrenatural. A jovem Emmy descobre da pior forma ter surgido no mesmo local onde uma mulher acusada de bruxaria morreu, quando estava prestes a completar dezoito anos. Após resolver uma série de questões e afastar as aparições macabras que assombravam o local, Emmy vê-se com mais problemas em mãos.

Após essa corrente de acontecimentos, Emmy torna-se respeitada entre a comunidade. Se Hester forjara em tempos um acordo com os habitantes para os livrar de todo o tipo de problemas mundanos, a aliança que se estabelece com Emmy ganha contornos mais sobrenaturais, após a descoberta de verdades terríveis sobre o passado da comunidade. No entanto, uma noite de tempestade traz uma revelação que pode colocar toda a paz conseguida em cheque. Emmy tem uma irmã gémea.

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Prancha G Floy

A irmã gémea

Uma rapariga igual a ela chega da cidade. Ao descobrir ter uma irmã, Emmy descobre também que a sua outra face não é tão amigável como se podia prever. Vale-se do misterioso espectro que a acompanha, como pilar contra as malvadezas de Kammi, que pretende angariar toda uma variância de monstros e criaturas para pôr em prática os seus planos diabólicos.

O despique entre as duas gémeas revela-se inevitável, ainda que Emmy recorra aos seus poderes para proteger a vila. Esperta e munida de armas para as quais a irmã não estaria preparada, Emmy demonstra todo o seu poder para manter Harrow County em segurança. O álbum termina com uma vasta sequência de estudos e esboços do ilustrador, devidamente comentados pelo mesmo, e uma galeria de pinups, desenvolvida por vários artistas.

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Capa G Floy
SINOPSE:

Depois de desvendar a estranha e terrível história de Harrow County, bem como a sua bizarra ligação às suas gentes, Emmy forjou uma nova e profunda relação com as terras que a rodeiam e com as suas criaturas – mas enquanto Emmy procura aprofundar a sua relação com os seus vizinhos da vila, uma presença ao mesmo tempo familiar e sinistra reúne uma força negra com a qual irá desafiá-la…

OPINIÃO:

Não é propriamente fácil fazer uma opinião a este segundo volume. Por um lado, Harrow County não pára de surpreender e este Duas Vezes Contado traz não só uma narrativa bem oleada e convidativa, como uma arte maravilhosa. Mas… esperem, esperem, esperem, já lá vamos. Muito embora aprecie imenso a carga intrínseca de intriga e mistério que Bunn imprime à sua narrativa, acabei por não gostar tanto deste volume como do livro inaugural, o que não me roubou a vontade de ler mais sobre Emmy e esta vila amaldiçoada.

Após os eventos do primeiro volume, a paz regressou a Harrow County, e assistimos em primeira fila ao show da protagonista, enquanto ela usa a sua panóplia de poderes para manter essa mesma paz. A chegada de outro personagem, porém, vem ameaçar o seu estado de graça. Parece-vos familiar? Sim, se Assombrações Sem Fim presenteou o leitor com grandes segredos e revelações em catadupa, este segundo livro traz uma história mais cliché. A luta do bem contra o mal, duas irmãs gémeas em competição e uma menina sobredotada a acostumar-se aos seus poderes.

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Prancha G Floy

Só por si isso seria suficiente para eu não gostar da história. De facto, Cullen Bunn pegou numa premissa mais tradicional neste segundo álbum, mas acabou por fazê-lo com grandiosidade, com a sua dose de mistério e com uma evolução palpável por parte da personagem principal. A grande série de clichés fez-me perder parte do maravilhamento em relação à série, mas ainda assim Bunn consegue deixar o leitor com vontade de ler mais para saber o que espera Emmy e que futuro terá Harrow County.

“A luta do bem contra o mal, duas irmãs gémeas em competição e uma menina sobredotada a acostumar-se aos seus poderes.”

A Tyler Crook deve-se boa parte da minha avaliação. As pinturas em aguarela são lindíssimas, com um traço forte e uma predominância de detalhes que evocam as sombras e o sobrenatural, sem esquecer a ruralidade que a obra alude. O foco nos jogos de cores é extraordinário e é na dinâmica gráfica que posso garantir que Harrow County: Duas Vezes Contados é uma experiência extremamente agradável.

Avaliação: 7/10

Harrow County (G Floy Studio Portugal):

#1 Assombrações Sem Fim

#2 Duas Vezes Contado

Estive a Ler: Uma Ruína Sem Fim, Outcast #2

Já não sou digno de fazer o Teu trabalho? É por isso que não tenho poder sobre estes demónios? Ofendi-te Senhor?

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Uma Ruína Sem Fim”, segundo volume da série Outcast (Formato BD)

Compreendendo os números 7 a 12 da publicação original, o segundo volume de Outcast chegou às bancas portuguesas em meados de junho, retomando as atribulações do personagem Kyle Barnes num mundo acossado por possessões demoníacas. Acusado de abusar a filha e a esposa, após uma vida marcada por abusos físicos por parte da mãe, Kyle tem de conviver com as mentiras sopradas para a sociedade, sabendo que tanto a mãe como a esposa estavam possuídas por demónios em ambas as circunstâncias.

Da autoria de Robert Kirkman, o famoso argumentista de The Walking Dead, responsável por levar aos ecrãs algumas das tramas mais conhecidas da Image Comics, e com ilustrações de Paul Azaceta, que já colaborou em inúmeros trabalhos da Marvel como Demolidor, Punisher Noir ou Homem Aranha, Uma Ruína Sem Fim marca o retorno da série Outcast às bancas nacionais.

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Prancha G Floy

Um passeio de terror

Após perceber que todas as pessoas com quem convivia estavam possuídas por demónios, e que possuía um dom inusitado para as “purgar”, Kyle Byrnes aliou-se ao Reverendo Anderson na busca de uma solução para a praga de possessões e para desvendar os seus imensos mistérios.

Neste segundo volume somos reapresentados aos personagens, com especial destaque para Megan, a irmã adotiva de Kyle, em quem incide grande parte das incidências deste volume. Kyle tenta aproximar-se da velha Mildred, na tentativa de a curar, muito embora o reverendo o mantenha afastado, garantindo-lhe ser problema para ele. Os dois metem-se num carro e param em várias casas, para averiguar em que estado se encontram algumas das pessoas que haviam sido arruinadas pelos problemas da possessão. Numa dessas viagens, Anderson revela a Kyle uma cicatriz no peito em forma de pentagrama, trabalho do próprio Diabo.

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Prancha G Floy

Exorcismos

Kyle e Anderson procuram uma mulher chamada Sherry, que acabam por encontrar entre um grupo de sem-abrigos. Ela chama Kyle de Outcast e foge. Quando a conseguem alcançar, revela-lhes que Kyle é uma chave contra as possessões. Debate-se contra ele até que, após um esforço conjunto, os dois homens conseguem exorcizá-la. A mulher, porém, fica inconsciente.

Anderson e Kyle travam-se de razões, uma vez que este julgava ter arruinado a vida de Sherry, enquanto o reverendo insistia na ideia de que a salvaram. O debate acaba por separá-los, e enquanto Kyle se reaproxima da família, procurando a filha Amber e acabando por ser reconhecido pela ex-mulher, Allison, o reverendo encontra uma figura sinistra. Trata-se de Sidney, que por alguma razão misteriosa e terrível consegue manobrar os possuídos e procura ganhar Kyle para si.

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Capa G Floy
SINOPSE:

Toda a vida, Kyle Barnes foi perseguido por influências demoníacas, que lhe assombram a sua vida e a de todos os que alguma vez amou. Quando finalmente consegue fazer a ligação entre uma estranha série de novos casos, e a terrível possessão da sua mãe, que lhe destruiu a infância, sente que está finalmente no caminho de desvendar o segredo dos seus temíveis dons sobrenaturais.
Infelizmente, aquilo que ele vai descobrir poderá significar o fim do mundo tal como o conhecemos..

OPINIÃO:

O tom lúgubre continua a pautar as páginas de Outcast, e Uma Ruína Sem Fim traz consigo o rasto de negrume e mistério que a premissa da BD promete. Não será, certamente, dos melhores argumentos de Robert Kirkman e, na minha humilde opinião, é um produto de menor qualidade que a obra-prima do autor norte-americano (The Walking Dead), o que não lhe retira mérito de execução. A série literária cumpre o que promete.

De algumas passagens mais lentas a várias páginas de discussões um pouco banais, vamos vendo montadas as peças do puzzle e reconhecendo, aqui ou ali, os laivos de mestria Kirkman. A dupla Kyle/Anderson funciona na perfeição, seja no debate de ideologias, seja nas horas de maior atividade. Dois personagens cheios de nuances e também de potencial que, penso, possam ser melhor explorados em volumes vindouros. De realçar, ainda, uma exuberância de personagens secundários cheios de segredos e mistérios, que só adensam a curiosidade do leitor.

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Prancha G Floy

Também o mistério em redor das possessões alimenta essa ânsia por respostas. Se a temática da possessão é, por si só, interessante – muito embora nunca tenha tido especial apreço por essas áreas – Kirkman lança, neste volume, algumas pistas de que esta luta pode ter um caráter mais científico, do que uma luta tradicional entre o Diabo e os humanos, representados pela Igreja. Pistas que me deixaram com vontade de saber muito mais sobre Sidney e o enigma do Outcast.

“De algumas passagens mais lentas a várias páginas de discussões um pouco banais, vamos vendo montadas as peças do puzzle e reconhecendo, aqui ou ali, os laivos de mestria Kirkman.”

Por fim, um especial destaque para o desenho de Paul Azaceta. Se no primeiro volume sublinhei o casamento perfeito entre o argumento e a arte, neste segundo álbum posso garantir que as ilustrações foram ainda mais notáveis, detetando-se uma maior maturidade na execução do artista. Apesar de ainda não me sentir imerso neste mundo, posso garantir que se trata de um bom entretenimento e de mais uma aposta ganha de Robert Kirkman no mundo das bandas-desenhadas.

Avaliação: 7/10

Outcast (G Floy Studio Portugal):

#1: As Trevas que o Rodeiam

#2: Uma Ruína Sem Fim