Estive a Ler: O Olho do Mundo, A Roda do Tempo #1

A folha vive o tempo que lhe cabe, e não luta contra o vento que a leva embora.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O OLHO DO MUNDO”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE A RODA DO TEMPO

Robert Jordan foi o nome com que ficou mais conhecido James Oliver Rigney Jr. no mundo da literatura, mais concretamente no âmbito do fantástico, graças à sua famigerada série A Roda do Tempo. Nascido em Charleston, na Carolina do Sul, Jordan foi militar no Vietname entre 1968 e 1970, vindo mais tarde a destacar-se como engenheiro nuclear. Começou a escrever em 1977, embora nunca tenha vindo a terminar a sua obra maior, que publicara de 1990 até à data da sua morte.

Em 2005, Robert Jordan soube que lhe restava pouco tempo de vida e então dedicou-se profundamente ao último volume da série, que se tornaria um manuscrito enorme. Após a sua morte em 2007, a viúva do escritor contactou o então quase desconhecido Brandon Sanderson para adaptar aquele manuscrito e dar um final digno à saga do marido, que acabou por resultar nos últimos três livros de uma série de 14. A versão nacional do primeiro volume, pela Bertrand Editora, tem um total de 814 páginas.

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Fonte: https://geekandsundry.com/the-wheel-of-time-is-officially-coming-to-television/

Andei dois meses a pegar e a largar este livro e terminei com uma sensação de indiferença absurda. Atenção: O Olho do Mundo tem as suas qualidades, simplesmente não é um livro para mim. Talvez se o tivesse lido há dez anos atrás, estas aventuras e desventuras de um grupo de miúdos escolhidos contra um Senhor das Trevas me dissesse algo. Hoje em dia, este tema só me apaixona se for tratado de maneira subversiva, o que aqui claramente não foi.

“Os Aes Sedai masculinos enlouqueceram, mas as mulheres continuam a conseguir manusear a magia e a esconder os antigos segredos.

Gostei do início e tentei abstrair-me aos traços óbvios que a narrativa “comprou” a J. R. R. Tolkien.  A escrita do autor é competente, mas sem grandes dotes e, na grande maioria das vezes, exageradamente descritiva. É raro acontecer comigo, mas adormeci a ler este livro. Isso significa que o achei enfadonho? Não necessariamente. O livro tem muitas cenas cheias de ação e ritmo, mas muitas vezes o autor perdeu capítulos inteiros só para descrever uma cidade.

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Fonte: https://www.bertrandeditora.pt/produtos/ficha/o-olho-do-mundo/194919

A premissa do livro é interessante. Uma divindade conhecida como o Criador criou o universo e a Roda do Tempo. A Roda não tem fim nem início, ela apenas existe e tece os dias na Terra. Ela roda graças ao Poder Único, obtido da Fonte Verdadeira, composta da energia de metades masculinas e femininas (saidin e saidar, respectivamente). Humanos que conseguem manipular essa força são chamados de canalizadores, e a principal organização mencionada nos livros capaz disso são as Aes Sedai, na atualidade apenas composta por mulheres.

O Criador aprisionou Shai’tan no momento da criação, mas uma experiência fracassada das Aes Sedai libertou acidentalmente a sua energia maligna no mundo. O Tenebroso (Shai’tan) é, portanto, o dark lord da série, prometendo poder e imortalidade para aqueles que aceitam juntar-se a ele. Um século após a sua fuga, iniciam-se guerras abertas entre as forças do Tenebroso e os seguidores da Luz, tendo estas como seu líder Lews Therin Telamon, o Dragão.

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Fonte: https://www.imagekind.com/x-Lan-and-Moiraine-from-the-Wheel-of-Time_art?IMID=cb1c46f1-90a6-4fd4-9e22-f987d6652f91

O Dragão liderou um grupo de homens e conseguiu selar novamente a prisão do Tenebroso, mas a repercussão foi nociva para eles, uma vez que os os saidin saíram de lá maculados pelo Shai’Than. Os Aes Sedai masculinos enlouqueceram e causaram a ruptura do mundo, dando fim à Era das Lendas. As profecias diziam que um dia “O Sangue do Dragão Renascido sobre as pedras de Shayol Ghul libertará a humanidade da Sombra”.

“O livro tem muitas cenas cheias de ação e ritmo, mas muitas vezes o autor perdeu capítulos inteiros só para descrever uma cidade.”

Em O Olho do Mundo conhecemos Rand al’Thor, Matrim Cauthon e Perrin Aybara, que podem ser considerados os três grandes protagonistas da história. Uma vez que comungam da idade e da origem, Dois Rios, são os mais bem cotados para serem aquele de que falam as profecias, o Dragão Renascido. A Rand, Mat e Perrin juntam-se Egwene, o interesse amoroso de Rand, Nynaeve, a Sabedoria de Dois Rios, Tom Merrilin, um menestrel, e dois estranhos visitantes, Moiraine, uma Aes Sedai bastante sábia e misteriosa e Lan, um Guardião taciturno.

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Fonte: https://www.dynamite.com/htmlfiles/viewProduct.html?PRO=C72513018417702211

Após o ataque à aldeia de Dois Rios, perpetrado por Trollocs e Semi-Homens, que deixou Tam, o pai de Rand, gravemente ferido, é através de Moiraine que eles sabem que estão a ser perseguidos pelas forças do Tenebroso, oferecendo-lhes ajuda a chegarem a Tar Valon, onde as Aes Sedai os poderão proteger e explicar a sua importância para a Roda do Tempo. Os Aes Sedai masculinos enlouqueceram, mas as mulheres continuam a conseguir manusear a magia e a esconder os antigos segredos.

Um dos grande problemas de A Roda do Tempo é a semelhança gritante com O Senhor dos Anéis, de que o autor era fã. Apesar de introduzir elementos do hinduísmo e do budismo no conceito da Roda e das culturas islâmicas e mesmo cristãs, evidentes na dualidade Criador – Shai’tan (Shaytan é a palavra árabe para Diabo), não só as personagens como a estrutura narrativa assemelham-se largamente à obra de J. R. R. Tolkien. E há muito tempo que me cansei destas imitações.

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Fonte: ww.denofgeek.com/us/tv/wheel-of-time/263967/wheel-of-time-tv-series-moves-forward

Dois Rios é uma povoação passada a papel químico do Shire tolkieniano, os Myrddraal são semelhantes aos espectros do anel, os Trollocs são uma espécie de orcs (embora tenham focinhos de animais), para além de não faltar o clássico grupo de jovens heróis quase acidentais que se tornam a única esperança da Humanidade na clássica luta bem contra o mal, que o zoroastrismo transformou no drama literário dos últimos séculos.

Ao mesmo tempo, Jordan confere à história um cunho pessoal e consegue fugir aos estereótipos numa ou noutra ocasião, deixando o painel de protagonistas desenvolver-se em igual medida, sem deixar um único demarcar-se dos demais por si só. Gostei bastante de Lan e da história dos Falsos Dragões. A garantia de que a história melhora nos próximos volumes faz-me ponderar se continuarei A Roda do Tempo, mas, no global, O Olho do Mundo não foi seguramente nenhuma experiência enriquecedora.  

Avaliação: 4/10

A Roda do Tempo (Bertrand Editora):

#1 O Olho do Mundo

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Estive a Ler: One-Punch Man #7

Para de palrar. Já acabou?

O texto seguinte aborda o sétimo volume da série One-Punch Man (Formato mangá)

O sétimo volume de One-Punch Man, a série de sucesso criada por One, foi publicado em Portugal no passado mês de maio. Neste tankobon, originalmente publicado em 2014 no Japão, estão reproduzidos os capítulos #35 a #37 da publicação original. Tal como é habitual nesta série, o livro inclui várias bandas desenhadas bónus, desta feita em número de três.

One é o pseudónimo do argumentista que iniciou a publicação de One-Punch Man na internet em 2009. Em junho de 2012, a série tinha mais de 10 milhões de visualizações, começando a ser publicada em volumes a partir de 2014. É também autor de Mob Psycho 100 e Makai no Ossan.

Yusuke Murata, o ilustrador, é mais conhecido pelo seu trabalho em Eyeshield 21. Ganhou o 122º Prémio Hop Step com Partner, em 1995 e ficou em 2º lugar com Samui Hanashi, em 1998. Iniciou a colaboração em One-Punch Man em 2012, redesenhando a série para a Young Jump Web Comics.

Fonte: Devir

Os heróis de Classe S tentam defender a Terra contra uma invasão de extraterrestres. Dentro da nave-mãe, o nosso herói Saitama luta com Boros, mas enfrenta um poder terrível. Será ele capaz de defender o mundo desta ameaça alienígena? Bang, Genos, Puri Puri, Tormenta e os restantes membros da Classe S fazem o que podem, mas será Saitama a decidir os destinos do mundo.

“Este álbum é um óbvio exemplo das razões que o levaram a tornar-se uma das obras mais emblemáticas do mangá moderno.”

A batalha, a revelação do poder de Boros e a colisão são os principais destaques deste álbum, publicados em 2014 no Japão. A premissa da série é muito boa. Apesar de derrotar seres extremamente fortes que até mesmo os maiores heróis da associação são incapazes de derrotar, Saitama é desrespeitado devido à sua aparência física, e alguns o apontam como um falso herói. Apenas um pequeno número de indivíduos reconhecem seu incrível talento. Por tudo isto, não admira que, em dezembro de 2015, o acesso ao site de One tivesse atingido mais de 100 000 visualizações diárias.

Fonte: Devir

One-Punch Man é uma série que comecei por desfavorecer, só me vindo realmente a conquistar a partir do terceiro volume para diante e, afirmo sem hesitações, tem melhorado de álbum para álbum, chegando a este sétimo como um caso sério de qualidade para um mangá. Com apenas três números com outros três de bónus, One e Murata conseguem transmitir toda uma série de emoções prancha atrás de prancha.

E isto num arco de história com pouquíssimos diálogos, com uma batalha que se revela rápida e fácil, ainda que inste à participação de todas as personagens envolvidas. A panóplia de personagens vem a revelar-se incrivelmente bem “implantada” nesta série, ainda que pouco desenvolvida. Todavia, a grande mais-valia do livro é mesmo a arte de Murata. Que cenas extraordinárias!

Fonte: Devir

Visualmente arrebatador, o volume 7 de One-Punch Man coloca a fasquia lá bem alto, fechando o arco de história e deixando o leitor na expectativa do que se seguirá. Pessoalmente, agradar-me-ia que desenvolvessem agora mais as personagens secundárias, mas não me queixo se a série continuar a mostrar cenas de combate como as deste álbum.

One tem muito mérito no sucesso deste One-Punch Man, mas acredito muito que foi a arte de Murata, que só começou a ilustrar a série já ela era um sucesso na Internet, que lhe deu o prestígio que hoje se lhe conhece. Este álbum é um óbvio exemplo das razões que o levaram a tornar-se uma das obras mais emblemáticas do mangá moderno. Fico à espera do próximo.

Avaliação: 8/10

One-Punch Man (Devir):

#1 One-Punch Man Vol. 01

#2 One-Punch Man Vol. 02

#3 One-Punch Man Vol. 03

#4 One-Punch Man Vol. 04

#5 One-Punch Man Vol. 05

#6 One-Punch Man Vol. 06

#7 One-Punch Man Vol. 07

Estive a Ler: O Gigante Enterrado

Talvez tivesse havido um tempo em que tivessem vivido mais perto do fogo, na companhia dos filhos.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO O GIGANTE ENTERRADO

Vendedor do Prémio Nobel da Literatura de 2017, Kazuo Ishiguro é um autor japonês que vive em Inglaterra desde os cinco anos e que já escreveu uma variedade de romances, contos e argumentos para cinema, tendo vencido o Booker Prize em 1989 com a sua magnum opus Os Despojos do Dia, tendo sido nomeado para o mesmo prémio com outros dos seus romances.

Em 1995, Ishiguro foi feito Oficial da Ordem do Império Britânico, por serviços prestados à literatura, e em 1988 recebeu a condecoração honorífica francesa de Chevalier de L’Ordre des Arts et des Lettres. A sua obra foi traduzida em mais de 28 países e o mais recente dos seus livros é precisamente O Gigante Enterrado, publicado em 2015. Em Portugal, foi publicado pela Gradiva, com um total de 412 páginas.

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Fonte: http://flavorwire.com/610422/kazuo-ishiguro-is-this-years-nobel-prize-winner-for-literature

A ação do livro acontece num passado longínquo, numa Bretanha macerada pelas guerras entre saxões e bretões.  Axl e Beatrice são um casal de idosos que vive numa gruta profunda, numa comunidade que não gosta muito de falar do passado, até porque ninguém se lembra muito bem dele. Certo dia, o casal decide que devem procurar o filho que não vêem há muito tempo, do qual não se recordam da voz nem do rosto, nem se recordam sequer de ele ter ido embora. 

“Os momentos de maior aflição e suspense foram resolvidos de forma simplista, e as descrições de combates rapidíssimas e bem infantis.”

Esse esquecimento é provocado por uma névoa que paira no ar. E as dúvidas são permanentes nas mentes de Axl e Beatrice. Eles não sabem o que foram ou o que são, se tiveram sequer filhos ou porque estão tão longe, eles perguntam-se se o amor que sentem acabará por definhar com o esquecimento ou se é a ausência de memórias que o torna tão forte. Estas questões provocam uma incerteza e uma dualidade permanente nos seus avanços.

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Fonte: http://catalogorbca.cm-arganil.pt/Pacwebv3/SearchResultDetail.aspx?MFN=161615&pageformat=np405

Mas eles decidem ir ao encontro do seu filho, e iniciam então uma demanda que os leva a cruzar-se com outras personagens, do guerreiro saxão Wistan ao jovem Edwin e a Sir Gawain, cavaleiro do Rei Artur. Porém, são muitas as criaturas com quem se deparam ao longo do seu trajeto, de fadas a ogres, de gigantes a dragões, todo o tipo de seres imagináveis travam a sua marcha confusa rumo à aldeia do seu filho. E à medida que avançam, constatam o quanto o seu amor é genuíno e forte, não obstante as dúvidas e as adversidades.

Na altura em que foi publicado, O Gigante Enterrado suscitou uma enorme polémica quando Kazuo Ishiguro, enveredando pela primeira vez na literatura fantástica, afirmou que o livro não pertencia ao género. Muitas vozes apoiaram essa ideia, realçando que era um livro introspetivo e alegórico, com uma mensagem profunda sobre a humanidade que há em nós. Possivelmente, tanto o Kazuo como essas vozes nunca foram leitores de boa literatura fantástica. Poucos são os livros bons, dentro do género, que não tragam esse tipo de profundidade.

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Fonte: http://robertfrankhunter.com/work/the-buried-giant/

O Gigante Enterrado é, claramente, um livro de fantasia. E dos mais tradicionais, até um pouco fraco se pensarmos que foi já escrito nesta década. Antes de mais, devo dizer que os primeiros capítulos e o último valem por todo o livro. Sufocante e até opressivo, este livro acaba por ser uma bela história de amor que nos obriga a reflectir sobre a importância das memórias, sobre o quão de bom ou de mau elas nos podem trazer. E há uma cumplicidade enternecedora entre os dois protagonistas.

“E à medida que avançam, constatam o quanto o seu amor é genuíno e forte, não obstante as dúvidas e as adversidades.”

Ishiguro aborda o significado e importância da memória individual e da memória coletiva, obrigando-nos a parar, a parar de nos preocupar com o destino das personagens e convidando-nos a olhar para o passado, a descortinar o que foi daqueles dois e quem foram eles, afinal.

O Gigante Enterrado é um livro de fantasia tépido. Magistral na mensagem, no desenvolvimento de relações, no convite à reflexão. Fraquíssimo na abordagem, no desenvolvimento da trama, no circuito narrativo. Axl e Beatrice revelaram-se duas personagens incríveis, mas as suas aventuras foram sempre muito aleatórias e os encontros que se sucederam não enriqueceram em nada a narrativa. Os momentos de maior aflição e suspense foram resolvidos de forma simplista, e as descrições de combates rapidíssimas e bem infantis.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=BAj_JE5BqKo

Talvez, desta forma, o autor quisesse agradar a miúdos e graúdos, mas sempre ouvi dizer que não se consegue agradar a gregos e troianos e a mim, sinceramente, não me agradou muito, como um todo. Senti-me extremamente aborrecido em algumas passagens, senti-me subestimado e até “gozado” em outras, e seguramente que não vejo neste livro uma clara noção do porquê de Ishiguro ter vencido o Nobel.

Mas cabe-me ser totalmente sincero, e se a grande maioria do livro me desagradou, aquela mensagem sobre as memórias fez-me reflectir e a relação entre Axl e Beatrice fez-me sorrir. E é o final do livro que me faz dar-lhe uma nota positiva. Adorei a conclusão. A verdade sobre o passado do casal, sobre o seu filho, as decisões a que eles chegaram. A dor e a cumplicidade dos dois velhos. E a forma como Ishiguro conclui a jornada. Sim, vale a pena ler aquela tortura de encontros pouco convincentes para chegar a este final maravilhoso. 

Avaliação: 6/10

Estive a Ler: Quem Teme a Morte

Mas eu ainda tinha de lidar com o meu medo. E a única maneira de fazê-lo era enfrentá-lo. Foi uma semana depois, num Dia de Descanso.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO QUEM TEME A MORTE

Quem Teme a Morte é um romance pós-apocalíptico da autora nigeriana e americana Nnedi Okorafor, conhecida pelo seu trabalho nos géneros da fantasia, ficção científica e realismo mágico para adultos e crianças. É professora na Universidade de Buffalo, em Nova Iorque, e vive com a sua família em Illinois, EUA. As suas obras incluem Quem Teme a Morte, a trilogia Binti, The Book of Phoenix, a série Akata e Lagoon.

Foi vencedora dos Prémios Hugo, Nebula e World Fantasy Award e este seu romance Quem Teme a Morte tem prevista uma adaptação televisiva pela emissora HBO, com a mão de George R. R. Martin, conforme noticiamos aqui no NDZ. A edição portuguesa da Saída de Emergência é uma das mais recentes apostas da Coleção BANG! com um total de 384 páginas, marcando a primeira publicação em Portugal desta consagrada autora de Ficção Especulativa.

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Fonte: http://forreadingaddicts.co.uk/adaptations/fears-death-not-george-r-r-martin/19772/attachment/who-fears-death-novel

Leve, despretensioso e envolvente, Quem Teme a Morte é um livro pós-apocalíptico que nos remete às próprias raízes de África. Não fossem as aparições ocasionais de computadores e motas, podia até pensar-se tratar de um mundo passado, tal é a desolação e a mendicância daqueles redutos. Somos atirados de chofre a um mundo de feitiçarias, de enigmas e de morte, com propósitos malignos escondidos a cada recanto.

“A história de Onyesonwu é, mais do que uma luta para matar o seu pai, uma luta para mitigar as desigualdades na sociedade fraturada em que cresceu.

Mas apesar de todos esses elementos fantasiosos, não é só sobre fantasia que o livro fala. E atrevo-me a dizer que também não é sobre vingança, embora seja esse o principal móbil da protagonista ao longo do livro. Ele fala sobre relações humanas e sobre confiança, sobre preconceitos e sobre como eles moldam o ser humano. A protagonista, Onyesonwu, é obrigada a fazer escolhas e a encarar de frente a forma como o mundo a discrimina.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/quem-teme-a-morte-oferta-os-pilares-do-mundo/

Num Sudão futurista que sobreviveu a um holocausto nuclear, as classes estão divididas entre Nurus e Okekes. Os primeiros são agressivos por natureza, conhecidos como estupradores e seguidores do Grande Livro, que os incita a exterminar a população Okeke. Após um violento confronto em que apenas uma mulher sobreviveu à destruição de uma aldeia, ela é violada por um Nuru. Najirba consegue escapar e sobreviver ao deserto, mas rapidamente descobre estar grávida.

À filha decide chamar Onyesonwu, que significa Quem Teme a Morte numa língua antiga. A rapariga é uma Ewu (nascida da dor), ou seja, mestiça entre Nuru e Okeke, com cabelo e pele da cor da areia, e desde logo todos pressupõem que é o fruto de um estupro. Rapidamente ela se molda à sociedade onde a sua mãe a conduz, aprende os seus ritos e estabelece amizades, mas nem sempre é capaz de agir de sorriso feito perante o preconceito.

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Fonte: https://www.tor.com/2017/11/07/hope-and-vengeance-in-post-apocalyptic-sudan-who-fears-death-by-nnedi-okorafor/

Jwahir é a terra onde elas se fixam e onde somos apresentados a Fadil Ogundimir, o ferreiro do local, e vemos como Onyesonwu contribuiu para que ele a mãe se viessem a casar. Conhecemos também Mwita, que partilha com Onyesonwu a cor da pele e alguns dons “especiais”, muito embora nunca tenha conseguido tornar-se feiticeiro. Vários personagens destacam-se nesta sociedade, como Binta, Diti e Luyu, as amigas de Onyesonwu, Fanasi, o noivo de Diti, Aro, um poderoso feiticeiro ou mesmo Ada, uma anciã.

“Somos atirados de chofre a um mundo de feitiçarias, de enigmas e de morte, com propósitos malignos escondidos a cada recanto.

Mas o mistério que mais me envolveu na primeira metade do livro, mais do que as metamorfoses físicas e espirituais da protagonista, foi aquele que apresentou a Casa de Osugbo, um edifício misterioso com vida própria e um significado bem alegórico. O rito de circuncisão das raparigas também foi um bom espelho das tradições seculares de alguns povos que influenciaram esta obra, bem como a aura suave e melodiosa que a autora deu ao livro.

Da metade para a frente conhecemos outros povos e tradições, como o Povo Vermelho, mas acima de tudo assistimos ao desvanecer de relações e à fragmentação que o convívio no deserto deixou nas personagens. A demanda de Onyesonwu pelo seu pai Daib revelou-se uma jornada de vingança pessoal, mas não obstante o cliché do Olho Que Tudo Vê que a perseguiu ao longo do livro, Nnedi Okorafor soube jogar com as emoções do leitor. Desde logo, ao sabermos desde cedo como seria a sua morte.

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Fonte: https://thenovelettesblog.wordpress.com/2014/03/09/nnedi-okorafors-who-fears-death-a-review/

A representatividade foi um dos focos da autora ao longo de Quem Teme a Morte, mostrando a maravilhosa protagonista no seu melhor e no seu pior, sempre como um ser humano com defeitos e virtudes e não como uma heroína tradicional. Depois, ao criticar o racismo e o preconceito em todas as suas facetas, jogando ainda com um livro canónico, O Grande Livro, que estimula esses mesmos preconceitos, uma crítica visível aos nossos lugares-comuns religiosos.

Apesar da aura decadente, Quem Teme a Morte fala muito de esperança. E fala de resiliência, de ultrapassar as dificuldades, de enfrentar os estereótipos e aqueles que se julgam superiores. Fala de opressão e da dor que ela pode inflingir sem que nós, à distância, a consigamos compreender. A história de Onyesonwu é, mais do que uma luta para matar o seu pai, uma luta para mitigar as desigualdades na sociedade fraturada em que cresceu.

É em pequenos pormenores que espelham o nosso mundo que compreendemos a sua fome de mudança. Com uma escrita ágil e escorreita, bastante simples, Nnedi Okorafor consegue envolver-nos e transportar-nos para um mundo de sensações e de pormenores ambíguos, onde o terror e a beleza andam de mãos dadas. Conhecemos personagens credíveis e poderosas, e somos convidados a sobreviver com elas.

Avaliação: 8/10

Estive a Ler: Cem Anos de Solidão

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO CEM ANOS DE SOLIDÃO

Publicado em 1967, Cem Anos de Solidão é uma das obras mais incontornáveis de Gabriel Garcia Márquez, vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1982 e falecido em 2014 na Cidade do México. Considerado um dos autores mais importantes do século XX, Márquez foi um dos escritores mais admirados e traduzidos em todo o mundo, com mais de 40 milhões de livros vendidos em 36 idiomas. Foi considerado o pai do chamado realismo mágico, um subgénero de Ficção Especulativa difundido nos países da América Latina.

Foi com Cem Anos de Solidão, que viria a ser considerada uma das maiores obras-primas contemporâneas e traduzida em todas as línguas do mundo, que Garcia Márquez atingiu o reconhecimento. E foi o sucesso deste livro, a biografia fictícia da família Buendía-Iguaran, que o levaria a colecionar prémios, entre eles o tão famoso Prémio Nobel. Li a edição da Dom Quixote, com um total de 336 páginas e tradução de Margarida Santiago.

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Fonte: https://nuevocronica.es/las-claves-periodisticas-de-cien-anos-de-soledad-en-los-cursos-de-verano-de-la-urjc-36651

Não é difícil perceber porque Cem Anos de Solidão se tornou uma obra tão célebre em todo o mundo. Num livro de tamanho relativamente pequeno, Gabriel Garcia Márquez escrutina as peculiaridades mais virtuosas e as mais negras da face humana, sempre numa toada leve e com um diálogo extremamente fluído, uns toques de humor aqui e ali e o claro intuito de subverter convenções. O autor fez aquilo a que se comprometeu, mesmo que não me tenha empolgado.

“Cem Anos de Solidão é acima de tudo um convite à reflexão.

A escrita do autor colombiano é bastante boa, as passagens sucedem-se e não tenho qualquer problema em confessar que li o livro em dois dias. A história também tem qualidade. As peculiaridades da família protagonista são bem interessantes e os volte-faces que aquelas personagens vivem têm muito de intemporalidade, bem como de reflexão sobre a natureza humana. Porém, como um todo, achei que o livro podia ter sido uma experiência bem mais enriquecedora.

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Fonte: http://www.dquixote.pt/pt/literatura/romance-traduzido/cem-anos-de-solidao/

Digo isto porque, a dado momento, achei que para além de as histórias se repetirem sem muito que as demarcasse umas das outras, e para além de as personagens terem quase todas os mesmos nomes, o que me provocou alguma confusão em determinados momentos da leitura, não consegui criar grande empatia com elas. E creio que é aqui que encontrei o meu maior problema com o texto do autor colombiano, e digo “meu problema” porque não tenho como o apontar como um erro, uma vez que se trata de uma escolha narrativa.

Garcia Márquez escreveu o livro como quem narra uma história de forma oral, tudo bem que com linhas de diálogo aqui e ali, mas a maior parte do tempo contando como foi, em vez de nos mostrar realmente o dia a dia daqueles atores literários. Por vezes senti que quando me estava a afeiçoar a uma personagem, o autor mudava a direção da história para outro. Ainda assim, gostei do estilo de prosa do autor, que por vezes nos spoilou com mortes antes de elas acontecerem.

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Fonte: https://exame.abril.com.br/mundo/cem-anos-de-solidao-o-dom-quixote-latino-americano/

A história passa-se numa aldeia fictícia da América Latina chamada Macondo, fundada pela família Buendía-Iguarán. A primeira geração desta família peculiar é formada por José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán, que tiveram três filhos: José Arcadio, um rapaz forte, viril e trabalhador; Aureliano, filosófico, calmo e introvertido; e Amaranta, a típica dona de casa de uma família de classe média do século XIX. A estes, juntar-se-ia Rebeca, que foi enviada da antiga aldeia de José Arcadio e Úrsula, sem pais.

“Não é difícil perceber porque Cem Anos de Solidão se tornou uma obra tão célebre em todo o mundo.”

A história desenrola-se à volta desta geração e dos seus filhos, netos, bisnetos e trisnetos, com a particularidade de que todas as gerações foram acompanhadas por Úrsula, que viveu entre 115 a 122 anos. É através dela que temos a perceção de que as características físicas e psicológicas dos seus herdeiros estão associadas a um nome: todos os José Arcadio são impulsivos, extrovertidos e trabalhadores enquanto que os Aurelianos são pacatos, estudiosos e muito fechados no seu mundo interior.

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Fonte: http://praler.org/2012/03/23/sete-geracoes-em-cem-anos-de-solidao/

Os Aurelianos têem, ao longo do livro, a missão de desvendar os misteriosos pergaminhos de Melquíades, o Cigano, que foi amigo de José Arcadio Buendía, pergaminhos estes que encerram o futuro de todos os membros da família, apenas decifrados quando o último da estirpe estiver às portas da morte. Pairado de uma aura quase mágica, especialmente nos escritos do cigano, nas visões de Úrsula e nos rabos de porco que nascem a alguns membros da família, Cem Anos de Solidão é acima de tudo um convite à reflexão.

Gostei do livro, tanto das introspecções a que ele nos obriga, como da crítica sócio-política à América Latina no mundo em que o autor cresceu e se desenvolveu. Mas sinto que andei à deriva em muitos momentos, por situações que não levaram absolutamente a lugar nenhum, sem que houvesse um momento para nos afeiçoar às personagens, sem qualquer profundidade narrativa. Foi um livro com uma temática interessante e uma prosa lindíssima, que se perdeu na abordagem.

Avaliação: 6/10

Estive a Ler: Má Raça

Oh Meu Deus. Foda-se! Meu Deus!

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO MÁ RAÇA (FORMATO BD)

Lançado em 2016 pela G Floy Studio, Má Raça é a versão nacional de Men of Wrath, uma violenta história auto-contida com argumento do famigerado Jason Aaron (Scalped, Southern Bastards, Os Malditos) e ilustrações de Ron Garney (Wolverine, Daredevil, Ultimate Spider-Man). Aaron, que começou a ser conhecido por Scalped, que criou para a Vertigo, trabalhou com Garney numa série de livros da Marvel. O bom entendimento entre os dois levou a que o escritor escrevesse uma história para Garney ilustrar, e o resultado foi este Má Raça.

Ron Garney tinha ganho já nome como ilustrador de grandes sagas de ação e de super-heróis, notabilizando-se particularmente pela sua fase como artista do Capitão América nos anos 90. Como se pode ler na nota de imprensa da editora, Garney viu aqui a hipótese de fazer um trabalho diferente daquele que tinha desenvolvido anteriormente, de apresentar um estilo original, mais negro, usando um traço mais forte e grosso, sendo da sua mão também a arte-final na maioria dos números da mini-série. Má Raça reúne os comics #1 a #5, originalmente publicado pela chancela editorial Icon da Marvel entre outubro de 2014 e fevereiro de 2015.

Fonte: G Floy

O que chama logo a atenção neste comic é a violência e a vivacidade das suas pranchas. A arte de Garney mescla o negro difuso e cheio de sombras com a cor e a lucidez característica dos melhores momentos da Marvel. Esta alternância de estilo poderia ter prejudicado o livro como um todo, mas pessoalmente agradou-me, acima de tudo porque ele soube quando usar um ou outro, casando na perfeição com os momentos de maior ou menor tensão visual.

“O álbum levanta uma série de questões, o porquê de rivalidades antigas e o porquê da intolerância entre membros da mesma família.”

Depois, temos o argumento de Jason Aaron. Não é preciso dizer muito sobre ele, até porque já conhecemos bem o seu trabalho de Southern Bastards e de Os Malditos. Se a série que narra a vida brusca e violenta no sul dos states me agradou bem mais do que o álbum pré-diluviano, a verdade é que Aaron esteve sempre à altura dos acontecimentos em qualquer das obras. Mais do que uma coerência ou linearidade a nível do argumento, é a violência quase astral, transmitida em poucas palavras, que distingue este autor da maioria.

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Fonte: G Floy

Como tal, encontramos em Má Raça um trabalho de relevo, não só por unir um autor e um ilustrador dotados, como por eles se conseguirem encontrar ao melhor nível. Má Raça não tem um argumento fortíssimo e uma história que nos maravilhe. É um volume único, pegando numa premissa simples e desenvolvendo-a de forma visceral e desumana, chamando a nós as nossas noções de família, fazendo os nossos corações acelerarem no peito com a necessidade premente de perceber como irá acabar aquilo, sabendo já de antemão que não acabará bem.

A ideia original para Men of Wrath nasceu duma história da minha família. O meu trisavô matou mesmo um tipo à facada, numa discussão por causa dumas ovelhas. E essa é a cena que abre este livro. E o meu bisavô, o filho dele, morreu mesmo de raiva. São essas as raízes camponesas que inspiraram a criação da família Rath e este livro, e a história de ciclos de violência que ele conta. Pode não ter sido um homicídio a sangue-frio, mas é o que desencadeia tudo e, a partir daí, a bola começa a rolar e as coisas vão piorando de geração para geração, até culminarem no dia de hoje. – Jason Aaron

Em Má Raça, somos apresentados uma família disfuncional, os Rath, conhecidos pelas suas características desafiadoras e violentas. As suas histórias terminam sempre em mortes e tragédias desde os inícios do século XX, quando uma rixa por causa de umas ovelhas terminou num homicídio. Ira Rath, um implacável assassino profissional, aceita uma missão, sem imaginar aquilo que teria de enfrentar. Dilacerado por um cancro, para Ira não há travões morais. Para Ira, valerá tudo.  Mas Ira não é o último dos Rath, e quando alguém se determina a defender uma mulher grávida, tudo pode acontecer.

Fonte: G Floy

O álbum levanta uma série de questões, o porquê de rivalidades antigas e o porquê da intolerância entre membros da mesma família. O ódio que destilam é palpável e visceral, a frivolidade dos acontecimentos impressiona e procura encontrar lógica num mundo em que há uma total ausência de amor. A indiferença de Ira contrasta com a sua debilidade física e mental, ao mesmo tempo que conhecemos mais das outras personagens e nos perguntamos até que ponto são elas tão diferentes umas das outras.

A panóplia de traços bem executados por Garney é um contraste vívido e honesto de uma família erodida pela falta de amor, ao mesmo tempo que nos apresenta momentos visuais de grande impacto tanto físico como psicológico, com cenas de esfaqueamentos, lutas e sexo a sucederem-se de forma fluída e bem distribuída. No fim, fica a pergunta se a maldade é mesmo uma questão de sangue. Recomendadíssimo. 

Avaliação: 8/10

Estive a Ler: A Demanda do Bobo, Saga Assassino e o Bobo #3

Perguntei a mim mesmo por que motivo tinha voltado para ali. Perguntei a mim mesmo o que aconteceria se voltasse a montar a cavalo e me fosse embora. Fiquei em silêncio durante muito tempo, consciente de que Enigma se viera pôr a meu lado, mas sem me virar para o olhar.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A DEMANDA DO BOBO”, TERCEIRO VOLUME DA SÉRIE SAGA ASSASSINO E O BOBO

Publicado originalmente pela HarperCollins em agosto de 2015, Fool’s Quest é o penúltimo livro da autora californiana Margaret Ogden, mais conhecida entre os fãs de ficção fantástica como Robin Hobb. A famosa autora, licenciada em Comunicação pela Universidade do Denver, vive atualmente em Tacoma, Washington, e estará a 27 de outubro no Pavilhão Carlos Lopes em Lisboa como convidada de honra do Festival Bang!

A versão nacional de Fool’s Quest foi dividida pela Edições Saída de Emergência, com a primeira metade publicada em fevereiro e a segunda em maio. A Demanda do Bobo corresponde à segunda metade, retomando assim a ação que ficara pendente com o final do livro A Revelação do Bobo. Com um total de 416 páginas, este volume tem edição de Luís Corte Real e conta mais uma vez com o extraordinário trabalho de Jorge Candeias na tradução.

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Dos três volumes já lançados desta última saga, este foi sem dúvida aquele que me disse menos. Mas para ser honesto, sabemos que na versão original o segundo e o terceiro são o segundo volume de uma trilogia, e como tal não tenho como não tecer laudas a um maravilhoso livro de transição. A Demanda do Bobo é mais um exemplo vívido de que Robin Hobb é uma das melhores escritoras do nosso tempo, e não só no género fantástico.

“Ainda assim, é mais um dos livros brilhantes desta autora, e não tenho como lhe dar uma pontuação menor do que esta.”

Vazio, desilusão, julgamentos morais, expectativas, medos. Robin Hobb usa um mundo fantástico e personagens fictícios para jogar com todas estas emoções dentro de cada um de nós, de um jeito palpável, incapaz de nos deixar indiferentes. Cada uma das emoções sentida por estas personagens encontra uma repercussão fortíssima no nosso íntimo, e tal não seria possível se a autora californiana não fosse mestra naquilo que faz.

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A forma com que nos enreda nos conflitos morais de FitzCavalaria Visionário consegue ser tão recompensadora como extenuante. A profundidade daquela personagem sexagenária que conhecemos desde criança, a vivacidade e a dramaticidade das suas experiências, conduzem-nos num túnel ramificado de experiências e sensações. Ficamos presos à vontade inequívoca de vê-lo a encontrar a paz de espírito que lhe escapa por entre os dedos, ao mesmo tempo que sabemos que o seu sofrimento está para durar.

Robin Hobb oferece dicotomias interessantíssimas e dilemas morais para Fitz resolver dentro dele, mas convida-nos também a reflectir sobre o que faríamos em determinada situação. As escolhas do personagem nem sempre são as mais acertadas, mas são lógicas e guiadas pela emoção e não temos como dizer de maneira alguma que estão erradas, mesmo quando sabemos de antemão que as consequências podem não ser as melhores.

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Fitz é um personagem riquíssimo e cheio de nuances, que mesmo no pináculo da sua vida enquanto homem reserva ainda alguma da inocência que o caracterizou na juventude. Mas estar dentro da cabeça deste homem por vezes impede-nos de ver aquilo que as outras personagens vêem. Como, por exemplo, a forma como ele se julga severamente a si próprio, mais do que os demais alguma vez o fizeram. Porque ele foi moldado em valores como a lealdade e a dedicação ao próximo, e é isso que o enobrece.

“A Demanda do Bobo é mais um exemplo vívido de que Robin Hobb é uma das melhores escritoras do nosso tempo, e não só no género fantástico.”

Nada disto teria valor sem a prosa elegantíssima de Robin Hobb. A bagagem literária da autora é venerável, sem deixar de ser acessível em toda a sua largura. A cada parágrafo lido, ficamos cada vez mais com a certeza que estamos perante mais do que uma escritora competente. Estamos perante uma mulher experiente, dotada de conhecimentos e de uma gentileza que pouco se vêem neste tipo de literatura.

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Se não leste nenhum volume da Saga Assassino e o Bobo, recomendo que fiques por aqui. Os parágrafos seguintes contêm spoilers dos volumes anteriores.

Começamos A Demanda do Bobo no Castelo de Torre do Cervo, onde Fitz finalmente foi reconhecido como primo do rei e príncipe, tanto pelo povo como pela Coroa. A identidade de Tomé Texugo ficou no passado, agora que toda a gente sabe quem ele é. Também a sua vida oculta como assassino parece ter ficado para trás. Chegou a hora de lhe ser dada justiça, bem como a paz que tanto lhe escapou ao longo da vida.

Tudo isto seria bonito se não lhe tivessem raptado a filha, a pequena Abelha. Uma composição variegada de Servos, os mesmos profetas brancos vindos de Clerres que torturaram o Bobo até quase à morte e de mercenários calcedinos, liderados por Ellik, um duque renegado de Calcede. Os Servos acreditam que a filha de Fitz e Moli é o Filho Inesperado do Bobo de que falavam as profecias, e raptaram-na com o propósito de a levar para a Ilha Branca de Clerres.

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Pelo caminho, deixaram uma esteira de destruição. Vindeliar, um Servo flácido e gordo, aparentemente apalermado mas ainda assim o mais poderoso, incute em todos aqueles por quem passa o esquecimento do que viram, roubando-lhes o ânimo para reagir. Dwalia é a líder do grupo. Floresta Mirrada tornou-se um mundo de sombras após a sua incursão, com muitos empregados mortos, outros estropiados e violados pelos calcedinos. Abelha e Expressiva, a filha de Breu, foram raptadas. E enquanto viver, Fitz não descansará até as recuperar.

“Porque ele foi moldado em valores como a lealdade e a dedicação ao próximo, e é isso que o enobrece.”

Mas Breu está doente. Após a traição dos Remexidos, a companhia fracturada que traiu Fitz e Breu no regresso a casa, o velho mentor de Fitz parece perder-se nas marés da magia conhecida como Talento, ao mesmo tempo que faz revelações incríveis sobre os filhos e começa a enublar-se numa velhice cada vez mais palpável. Por sua vez, o Bobo parece mais saudável, graças ao sangue de dragão que o jovem empregado chamado Cinza lhe aplicou. A sua visão, porém, tarda em regressar.

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Fitz sabe que, antes de se lançar em perseguição dos Servos e da sua filha, precisa fazer preparativos. Sabe que o Rei Respeitador não o deixará empreender essa jornada de livre e espontânea vontade, e sabe que qualquer atitude irrefletida deixará a sua filha Urtiga desiludida consigo. Fitz tem muito trabalho a fazer antes de procurar dar azo aos seus planos. Mas também sabe que não tem tempo a perder. Cada hora, cada minuto, cada segundo podem ser determinantes para a sobrevivência de Abelha.

É por isso que encarrega Rapoluva, uma velha militar de Torre do Cervo, a liderar a sua guarda pessoal. Enquanto avança nos seus preparativos, certo de que terá que deixar Bobo para trás, ainda que este esteja determinado em segui-lo, Fitz conhece Centelha, uma jovem criada que sempre conheceu com uma outra identidade, ao mesmo tempo que recebe os regressados de Floresta Mirrada com outros olhos. O sempre frívolo e irritante Lante nada fez para salvar o simplório Obtuso da jocosidade dos Remexidos remanescentes, como pouco fizera para lhe salvar a filha.

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Mas é com o Bobo, com Lante, com Centelha, com o moço de estrebaria Preserverança e com o corvo malhado Matizada que Fitz se lançará numa aventura através dos portais de Talento para reencontrar a filha. A sua determinação em avançar sozinho é tenaz, mas todos parecem igualmente determinados em frustrar-lhe os planos. Afinal, encontrar Abelha e vingá-la é tudo o que eles desejam.

“Cada hora, cada minuto, cada segundo podem ser determinantes para a sobrevivência de Abelha.”

Esta demanda é, porém, a fase menos brilhante do livro. Os instintos assassinos de Fitz contra os calcedinos, a sua sede amarga de encontrar a filha, os sentimentos de impotência, de falhanço, que vai coleccionando, são os momentos mais ricos de A Demanda do Bobo. E o amor de Urtiga, a lealdade incomensurável de Enigma, a mente nem sempre lúcida de Breu e a amizade sincera de Respeitador são marcas maravilhosas que este volume me deixa.

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Fonte: https://vernichtenalles.deviantart.com/art/Amber-8-711775103

Os melhores momentos, para mim, porém, são aqueles protagonizados por Kettricken. A história comum dela e de Fitz é incrível, e os momentos em que ambos estão juntos, mesmo que poucas ou nenhuma palavras sejam trocadas, são de uma sinergia maravilhosa. É difícil encontrar, na literatura, uma personagem tão carregada de emoções quanto Kettricken, mesmo que seja pouco o protagonismo que venha tendo na saga. O amor que sentem um pelo outro, nem romântico nem fraternal, deslumbra-me.

No miolo do livro estão os seus momentos mais emocionantes. A fase inicial irritou-me, porque prenunciava uma maior morosidade narrativa, mas uma reviravolta mudou tudo, e a fase final, embora enérgica e expectável, não me encantou tanto pela falta de propósito e pelo empolamento fantasioso que lhe acresceu. Ainda assim, é mais um dos livros brilhantes desta autora, e não tenho como lhe dar uma pontuação menor do que esta.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

O Reino dos Antigos:

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Saga Assassino e o Bobo (Saída de Emergência):

#1 O Assassino do Bobo

#2 A Revelação do Bobo

#3 A Demanda do Bobo

 

 

Estive a Ler: O Caminho das Mãos, Saga do Império Malazano #3

Kamist Reloe e o seu exército aguardavam-nos; o brilho de ferro estendia-se, claro, sob a luz matinal, estandartes de cidades e pendões tribais pendiam, parados e apáticos sobre um mar de elmos pontiagudos.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O CAMINHO DAS MÃOS”, TERCEIRO VOLUME DA SÉRIE SAGA DO IMPÉRIO MALAZANO

O universo do Império Malazano foi criado por Steven Erikson e Ian C. Esslemont no início dos anos 80 para uma campanha de RPG, inspirado no jogo de mesa Dungeons & Dragons e na obra de Glen Cook, The Black Company, autor que viria a considerar Malazan Book of The Fallen uma obra-prima da imaginação. O livro inaugural, da autoria do canadiano Steven Erikson, demorou dez anos até encontrar a receptividade de uma editora, mas Jardins da Lua foi apenas o início de uma trilha indelével, marcada pelo sucesso.

Lançado no ano 2000, Deadhouse Gates veio agigantar o género fantástico em geral e a Saga do Império Malazano em particular. Dezoito anos depois, a obra chega ao nosso país numa versão dividida pelas mãos da Saída de Emergência, fazendo desta uma das séries mais fortes da Coleção Bang! dos últimos anos. Com um total de 496 páginas, tradução de Carol Chiovatto e adaptação de Susana Clara, O Caminho das Mãos é o terceiro volume da versão portuguesa de Malazan Book of The Fallen, após a publicação de Os Portões da Casa dos Mortos em novembro de 2017.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/483574078710967830/

Em O Caminho das Mãos, o épico supera todas as escalas conhecidas até então. Dragões mortos-vivos, macacos metamorfos, dimensões paralelas, histórias de vida pesadíssimas, um império fraturado, um deserto terrível e uma profeta reencarnada são alguns dos ingredientes que este livro maravilhoso tem para oferecer. Se sofreste com A Guerra dos Tronos, ainda não viste nada. Prepara os lenços para enxugar as lágrimas, porque com este livro corres esse risco.

“O desgaste emocional que sentimos quando chegamos ao fim do livro é notório.

Este não será o meu livro preferido dentro do género fantástico, e se estivermos a falar da versão original como um todo, seguramente que não será, mas não tenho problemas em dizer que é, muito possivelmente, o mais bem escrito e executado que já li. É difícil encontrar um livro que concilie um mundo extremamente credível, histórias emocionalmente desgastantes e uma escrita exuberante, senhora de um vocabulário denso riquíssimo.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/o-caminho-das-maos-oferta-o-terceiro-desejo/

Não é uma história para qualquer estômago. A leitura por vezes não flui, tanto por conta da escrita trabalhada do autor canadiano, como por conta da imensidão de personagens e cenários a que somos apresentados. Acima de tudo, porque precisamos de reler várias passagens, não tanto para entender o que lá está escrito (também), mas para digerir os acontecimentos e processá-los na nossa mente e nas nossas entranhas.

Se achei que a primeira parte pecou por falta de empatia com as personagens, senti que este O Caminho das Mãos trouxe maior proximidade para com elas, talvez porque já estava familiarizado ou simplesmente porque a trama assim o ditou. Todas elas sofreram imenso durante este volume e, de uma forma ou de outra, o leitor é convidado a sofrer com elas. Afinal, este é o Livro Malazano dos Caídos. Aqui, dos vencedores não reza a história.

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Fonte: https://www.pinterest.es/pin/372250725432173914/

Se Jardins da Lua nos apresentou a uma Casa Azath, e se sabemos também que existe um portal correspondente na Cidade de Malaz, a Casa dos Mortos, O Caminho das Mãos sugere-nos a existência de uma dessas casas em cada continente, ligadas através de caminhos ancestrais. Ela também pode aceder ao inóspito deserto do Raraku através da Azath chamada Tremorlor. Para além de funcionarem como transporte entre continentes, estas casas podem também funcionar como um caminho para a Ascendência, motivo pelo qual todos os metamorfos conhecidos como d’ivers e soletakens usam o Caminho das Mãos.

“Mortes horríveis, corpos carbonizados, nuvens de moscas e crueldades horríveis acompanham a sua jornada, onde ninguém está imune à morte nem à derrota.

É aqui que a história de Violinista, Crokus e Apsalar se expande. Depois de encontrarem o sumo-sacerdote da Sombra Iskaral Pust, percebem que este é apenas uma ferramenta nas mãos dos Ascendentes Trono Sombrio e Cottilion, duas faces escuras que foram outrora importantes, de uma forma diferente do que são hoje, nos destinos do Império. À medida que compreendem quem é o Servo de Pust e as intenções do sumo-sacerdote, os companheiros vêm os seus destinos entrelaçados ao de Sha’ik.

Sha’ik é a profeta do Apocalipse, que move os seus exércitos ao longo do Império Malazano numa contenda direta com a Imperatriz Laseen, usando os métodos e os instrumentos menos ortodoxos, como traição, logros e massacres que ficarão escritos nas crónicas. Arrastados nesse clima de destruição e enganos, o trell Mappo e o jhag Icarium vêm a sua amizade posta à prova quando o primeiro é obrigado a esconder do amigo as suas memórias, para o proteger de uma terrível verdade sobre o próprio.

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Fonte: malazan.wikia.com/wiki/File:Kalam_by_Simon_Underwood.jpg

Kalam, por sua vez, encontra em Minala sentimentos conflitantes e um emaranhado de propósitos. O cabo dos Queimadores de Pontes, outrora assassino da Garra, leva avante a sua ideia de assassinar a Imperatriz, tendo para isso que atravessar um Labirinto com Minala e a sua família, bem como o alto-mar que o levará à Cidade de Malaz, onde é obrigado a enfrentar um mago poderosíssimo sem poder contar com a ajuda do seu amigo Ben Ligeiro. Para levar a sua determinação avante, terá de valer-se do auxílio de uma aptória, um monstro ciclópico com intenções bem definidas.

Todos estes núcleos conectam este livro ao primeiro, até porque Kalam, Violinista, Crokus, Apsalar, Topper, Laseen, os Cães do Encapuzado e a própria Cidade de Malaz já nos foram apresentadas em Jardins da Lua, mas para mim o grande trabalho de Steven Erikson neste livro está nos núcleos protagonizados por Felisin e Duiker. A irmã mais nova de Ganoes Paran vê o seu destino ligado ao de Sha’ik, mas o seu percurso é, dentro do fantasioso, extremamente credível.

Ao lado de personagens incríveis como Heboric, Kulp ou Baudin, Felisin Paran tenta ganhar coragem para enfrentar a própria irmã, a Conselheira Tavore, avançando para as entranhas do Raraku com esse objetivo, onde o Furacão ganha cada vez mais poder. Mortes horríveis, corpos carbonizados, nuvens de moscas e crueldades horríveis acompanham a sua jornada, onde ninguém está imune à morte nem à derrota.

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Fonte: https://forum.malazanempire.com/topic/32194-deadhouse-gates-spanish-cover-spoilers/

E o que dizer de Duiker? Sem a mais pequena dúvida, a melhor personagem do livro. O velho historiador acompanha o êxodo monumental do Sétimo Exército Malazano, comandado pelo Punho Coltaine. Contra todas as intempéries, tribos hostis e privações que os acompanham ao longo do trajeto, o exército tenta a proeza incrível de escoltar 50 mil refugiados até à cidade mais próxima capaz de os acolher, Aren. Os acontecimentos finais têm uma brutal analogia a um dos momentos bíblicos mais celebrados pelo Cristianismo.

“Porque em O Caminho das Mãos, elas [as personagens] sofrem a bom sofrer.”

Coltaine é uma personagem fantástica. Com poucas falas e sem um único capítulo com ponto de vista, conseguimos seguir os seus ideais, as suas estratégias militares e a sua extrema generosidade como ser humano. Todo o seu percurso foi extremamente credível, acompanhamo-lo pelos olhos de Duiker e as suas passagens foram das mais bem escritas que eu já li em fantasia. A marcha conhecida como A Corrente de Cães é um exemplo de maestria literária. Mérito de Steven Erikson.

O desgaste emocional que sentimos quando chegamos ao fim do livro é notório. Ninguém está a salvo nesta saga, e embora acompanhemos com maior atenção o percurso de personagens com ponto de vista, qualquer um deles é de suma importância para o desenvolvimento da série, mesmo alguns quase imperceptíveis como Pérola, Mogora, Leoman, o toblakai ou Lostara Yil. É impossível não odiar Korbolo Dom, Nethpara ou o Alto Punho Pormqual, como é difícil não sentir comiseração por Nil e Nether, ou torcer por Gesler, Tempestade e Vontade.

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Fonte: http://malazan.wikia.com/wiki/Tremorlor

O que realmente me faz vibrar com um livro de fantasia é a palpabilidade, a credibilidade do mundo, quando tudo dá errado. Durante muito tempo achei que era difícil um autor ser tão credível quanto George R. R. Martin. Temos hoje em dia nas nossas prateleiras vários autores que o conseguem ser, como Robin Hobb, por exemplo, mas como é possível apresentar-nos um mundo tão “cara chapada” dos jogos de tabuleiro, com magia por tudo quanto é lugar, e ser tão terrivelmente credível?

Steven Erikson consegue sê-lo. Consegue superar Bernard Cornwell e George R. R. Martin em descrições de batalha, consegue igualar Robin Hobb na profundidade de sentimentos e consegue fazer-nos odiá-lo pelas crueldades que imprime às suas personagens. Ainda não consegui sentir realmente muita empatia para com elas, mas não consegui ignorar de maneira nenhuma o seu sofrimento.

Porque em O Caminho das Mãos, elas sofrem a bom sofrer. Há dragões, há mortos-vivos e há dragões mortos-vivos, há macacos de aparência amigável que são tudo menos isso, há Labirintos e magia por todo o lado, mas também há crianças a falecer a cada capítulo, animais maltratados, uma violência física e emocional a todos os níveis. Um nível de desolação profundo.

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Fonte: https://subterraneanpress.com/deadhouse-gates

E é essa desolação um dos pontos mais positivos deste livro. Erikson transporta-nos até ao estado mais primário do ser humano, fazendo-nos tocar na terra árida com as nossas próprias mãos e obrigando-nos a olhar para cada página como uma luta pela sobrevivência. Afinal, a Saga do Império Malazano é uma luta pela sobrevivência, mas também uma luta pela justiça, uma luta contra as desigualdades e contra o despotismo. Uma batalha cruel, em nome de juramentos prestados, em nome daquilo que qualifica estas personagens como seres humanos.

Deixo ainda os meus parabéns à Saída de Emergência, não só pela publicação do livro como pela aposta num ilustrador nacional para o trabalho de capa, ainda que a adaptação deste volume para português tenha pecado por algumas pequenas falhas, como uma das partes se chamar Portais da Casa dos Mortos quando a versão portuguesa é “Portões”, ou mesmo concluir o volume a dizer que terminou a segunda história do Livro Malazano dos Caídos, como tanto este é o terceiro livro como o título da série em português é outro. Pormenores de edição que não beliscam o fantástico trabalho de tradução. Venham mais!

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência

Avaliação: 9/10

Saga do Império Malazano (Saída de Emergência):

#1 Jardins da Lua

#2 Os Portões da Casa dos Mortos

#3 O Caminho das Mãos

Estive a Ler: Entre Mulheres, Y: O Último Homem #6

É bom que estejamos prestes a bater num icebergue, meninas. Não durmo quatro horas seguidas desde —

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “ENTRE MULHERES”, SEXTO VOLUME DA SÉRIE Y: O ÚLTIMO HOMEM (FORMATO BD)

Chegou a bancas no princípio de abril o álbum Entre Mulheres, o sexto volume da série Y, O Último Homem, da autoria de Brian K. Vaughan e Pia Guerra, que encerra assim a sua segunda fase de publicação pela Levoir, que tinha editado os primeiros 2 volumes em 2017. Fica a faltar à editora publicar os 4 últimos volumes para encerrar a coleção publicada pela Levoir com o jornal Público. Este sexto álbum teve ainda a colaboração de Goran Sudzuka na arte, substituindo a artista principal durante grande parte do mesmo.

Com um total de 128 páginas e formato em capa dura, Y: O Último Homem continua a contar a história de Yorick Brown, o último homem à face do planeta, e do seu macaco Ampersand, os últimos sobreviventes masculinos de uma praga calamitosa que vitimou todos os portadores do cromossoma Y no nosso planeta. Yorick persegue a noiva, desaparecida do outro lado do planeta, na Austrália, enquanto procura respostas para a sua sobrevivência.

Fonte: Levoir

A série de Brian K. Vaughan tem vindo a melhorar significativamente, e não posso dizer que desgostei deste sexto álbum. Os diálogos são bons, as referências cinematográficas e musicais sucedem-se, sempre a mostrar o lado mais irreverente do protagonista, e finalmente deu-se a tão aguardada cena lésbica entre duas das co-protagonistas. A arte de Pia Guerra tem vindo a melhorar e Sudzuka conseguiu manter-se fiel à ilustradora.

“Espero que a Levoir publique em breve os quatro volumes finais para ver o rumo que esta história irá tomar.

Ainda assim, a história continua a derivar num nada insubstancial. As motivações das personagens em seguir em frente são esparsas, não há realmente grandes ganchos e começa a tornar-se repetitivo que em todos os volumes Yorick se envolva com uma mulher diferente e que ela desapareça logo depois. Para além disso, numa história que se queria diferencial na questão da igualdade de géneros, parece-me extremamente sexualizada, e há até preconceitos na questão do amor lésbico. Tipo, se não há ali homens há mais de dois anos, queriam o quê?

Fonte: Levoir

Yorick, 355 e a bioengenheira Mann partem para o Japão num cruzeiro em busca do macaco capuchinho Ampersand, que fora sequestrado por uma japonesa mascarada.  Aparentemente, o macaco é a resposta para a praga que assolou a espécie masculina. Durante a viagem, Yorick é descoberto por uma das tripulantes e é entregue a Kilina, a capitã do navio, acabando por passar a noite na cabine desta. A empatia entre ambos é evidente, transformando-se numa paixão assolapada.

Tudo muda, porém, com o advento de um submarino australiano, que coloca uma espia a bordo do navio. Nas últimas páginas do livro, Beth, a namorada de Yorick, é aprisionada pelo remanescente feminino de uma tribo aborígene, onde é guiada num ritual estranho que a conduz a uma série de flashbacks que se interligam uns aos outros, dando a conhecer mais sobre o seu relacionamento com Yorick e da personalidade de ambos.

Fonte: Levoir

Apesar de ter gostado da aura marítima e dos volte-faces ocorridos a bordo do navio, o arco mais interessante acabou por ser a pequena história que fechou o álbum, protagonizada por Beth. As recordações que dão conta do início da sua relação com Yorick trazem mais conteúdo e uma ideia tátil do que a sua história significa, do que foi e do que poderá vir a ser, bem como traz maior empatia ao leitor para com as duas personagens e para com a demanda de Yorick.

Y: O Último Homem continua a ser uma BD bem escrita e com rasgos de genialidade, afinal estamos a falar de Brian K. Vaughan, um dos melhores guionistas do nosso tempo, mas o descolar de histórias, a falta de cenas impactantes e de personagens mais empáticas tem vindo a torná-la morna, aos meus olhos. Espero que a Levoir publique em breve os quatro volumes finais para ver o rumo que esta história irá tomar.

Avaliação: 6/10

Y: O Último Homem (Levoir / Público)

#1 Um Mundo Sem Homens

#2 Ciclos

#3 Um Pequeno Passo

#4 A Senha

#5 O Anel da Verdade

#6 Entre Mulheres

Estive a Ler: O Anel da Verdade, Y: O Último Homem #5

Se pretendem doações, eu tenho comida! E enlatada, mas… A chave partiu. Se tiverem um abre-latas…

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O ANEL DA VERDADE”, QUINTO VOLUME DA SÉRIE Y: O ÚLTIMO HOMEM (FORMATO BD)

Chegou no final de março às bancas nacionais o quinto volume da coleção da Levoir com o diário Público, Y: O Último Homem, a qual foi escrita por Brian K. Vaughan e desenhada por Pia Guerra. Este quinto volume, intitulado O Anel da Verdade, tem arte-final de José Marzán Jr. e inclui os números #24 a #31 de Y: The Last Man publicados pela Vertigo em 2004.

Vencedor de três Eisner, Y: O Último Homem continua a narrar as aventuras da personagem Yorick e o resultado de uma praga terrível que matou toda a população masculina do planeta, bem como as formas que a sociedade, agora feminina, lidou com a situação. Ao longo da jornada, Yorick encontra várias e diferentes figuras, com intenções bem distintas em relação à sua pessoa. 

Fonte: Levoir

Eis uma BD que tive muita dificuldade em compreender o seu sucesso, numa fase inicial. É uma jornada que releva as dicotomias homem-mulher no seu estado mais primário, apesar de trazer a lume vários debates interessantes e explorar uma situação que tinha tudo para arrebatar o público, o desaparecimento repentino dos homens. Agradável em conteúdo, ainda que pobre em forma, Y: O Último Homem é uma alegoria da mente humana e faz-nos pensar na sociedade em que vivemos.

“Com momentos de bom humor e uma série de perspetivas a serem desenvolvidas em simultâneo, Y: O Último Homem atinge, em O Anel da Verdade, o seu melhor momento até agora.

A trajetória de Yorick continua esparsa, sem um enredo narrativo que me consiga prender ou dizer: bem, que álbum bom! Parece uma história arrancada aos soluços, com momentos mais interessantes do que outros e sem um fio narrativo consistente. Ainda assim, é notória a evolução neste últimos volumes, e O Anel da Verdade é mais um livro repleto de diálogos bem cuidados e frescos, para além de a arte de Pia Guerra ter melhorado significativamente.

Fonte: Levoir

Dois anos passados sobre a catástrofe que arrasou a população masculina do planeta, deixando Yorick Brown e Ampersand, o seu macaco capuchinho, como os únicos sobreviventes portadores do cromossoma Y, a bioengenheira Allison Mann e a Agente especial 355, designada para proteger Yorick, chegam finalmente ao laboratório secreto da Dra. Mann, em São Francisco, onde ela vai tentar desvendar o segredo da sobrevivência de Yorick e de Ampersand.

Depois de longos meses de viagem, o grupo finalmente tem agora um lugar para descansar. Só que isso dá aos seus perseguidores a possibilidade de o apanharem. E embora Yorick, Allison e 355 tenham lidado com sucesso com os algozes que já cruzaram os seus caminhos, talvez não sejam capazes de encarar tão facilmente os inimigos ainda desconhecidos.

Fonte: Levoir

Seitas misteriosas, o passado familiar dos Brown posto em evidência, um anel de noivado peculiar e duas Beths são os ingredientes secretos deste livro onde as fezes do macaco podem trazer respostas para a sobrevivência dos dois machos que protagonizam a série gráfica. Com momentos de bom humor e uma série de perspetivas a serem desenvolvidas em simultâneo, Y: O Último Homem atinge, em O Anel da Verdade, o seu melhor momento até agora.

A estadia em São Francisco e a procura mais palpável para a questão mais importante do comic acaba por trazer mais estabilidade e interesse à série, muito graças à performance de Brian K. Vaughan enquanto guionista. Os diálogos voltam a ser um espetáculo à parte, ainda que me tenha sentido mais aliciado pelas cenas hot do primeiro terço do álbum. Apesar de, para mim, continuar no patamar mínimo do bom, Y: O Último Homem está a melhorar significativamente.

Avaliação: 6/10

Y: O Último Homem (Levoir / Público):

#1 Um Mundo Sem Homens

#2 Ciclos

#3 Um Pequeno Passo

#4 A Senha

#5 O Anel da Verdade

#6 Entre Mulheres