Estive a Ler: O Assassino do Bobo, Saga Assassino e o Bobo #1

Com toda a honestidade, não existe forma de matar alguém misericordiosamente. Há aqueles que não consideram crime afogar um recém-nascido imperfeito em água aquecida, como se o bebé não lutasse desesperadamente por encher os pulmões de ar.

O texto seguinte aborda o livro “O Assassino do Bobo”, primeiro volume da série Saga Assassino e o Bobo

Margaret Lindholm Ogden, também conhecida pelos pseudónimos Megan Lindholm e sobretudo Robin Hobb, é considerada como uma das autoras que definiu a fantasia épica como é vista nos dias de hoje. O Reino dos Antigos é a macro-série que começou a publicar em 1995, que inclui, para além de duas séries anexas sem a participação de FitzCavalaria Visionário, as três trilogias protagonizadas pelo famoso assassino que dá título a este livro.

Em Portugal, a Saga do Assassino e a Saga O Regresso do Assassino catapultaram o nome Robin Hobb para os píncaros da fantasia atual, e esta Saga Assassino e o Bobo vem apenas cimentar essa condição. Com tradução de Jorge Candeias e um total de 624 páginas, a edição nacional do primeiro volume, O Assassino do Bobo foi lançado pelas mãos da Saída de Emergência, que anunciou, inclusive, a vinda da autora a Portugal para o Festival Bang! de 2018.

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Fonte: https://robinhobb.deviantart.com/gallery/50931509/Fitz-and-the-Fool

Pergunto-me várias vezes o que mudou na narrativa de Robin Hobb para eu ter torcido o nariz à primeira série e começar a amar a história de FitzCavalaria e do Reino dos Antigos a partir da segunda. Muito possivelmente deveu-se à forma como Hobb desenvolveu o seu mundo. A primeira saga começa com um mundo marcadamente medieval, em que o jovem bastardo de um rei torna-se aprendiz de um velho assassino. A premissa não marcou pela originalidade.

No entanto, Robin Hobb apenas usou-se dos clichés como ponto de partida. O final abrupto e talvez exageradamente fantasioso da primeira série desagradou a muitos, mas a mim particularmente marcou-me como um ponto de viragem, depois da lentidão cansativa a que havia sido sujeito. As personagens foram desenvolvidas de forma absurdamente credível, com especial foco nas relações humanas. E é esse foco de desenvolvimento individual e coletivo que diferencia Robin Hobb dos restantes autores.

É a escrita, porém, que a coloca no meu top de autores prediletos. Envolvente, suave, elegante e charmosa, a prosa de Hobb cativa pela forma fluída e detalhada com que descreve cenários e emoções com igual ritmo. Lento, é certo, mas não um lento maçante. Antes um lento que nos delicia e faz saborear a história como ela deve ser saboreada. Como um chocolate quente e cheio de natas numa noite gelada de inverno. Neste quesito, dedico um louvor particular ao trabalho de tradução; como vem sendo hábito, o trabalho de Jorge Candeias faz jus às qualidades da autora.

“Robin Hobb consegue fazer-nos sofrer, vibrar e conhecer um homem, personagem fictício, como poucas vezes conhecemos pessoas que vivem connosco no dia-a-dia.”

O Assassino do Bobo tem todos estes ingredientes e mais alguns. Um livro com mais de 600 páginas, praticamente todo ele passado na mesma casa / propriedade e com um lote restrito de personagens, e mesmo assim consegue maravilhar com dezenas de acontecimentos, de assaltos a mortes e nascimentos, mas acima de tudo com as dúvidas e inseguranças de um homem que nós, leitores, conhecemos desde a infância.

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Fonte: http://www.robinhobb.com/2013/10/the-fools-assassin/

FitzCavalaria conseguiu finalmente voltar para Moli, reconquistá-la depois de anos entregue aos braços de Castro. Fixos em Floresta Mirrada com os filhos dela e com a velha Paciência, o casal parece mais feliz do que nunca, muito embora tenham que enfrentar uma dura realidade. Os anos passaram por eles. Especialmente por Moli, uma vez que uma cura da magia hereditária chamada Talento mitigou a dureza dos anos no corpo de Fitz.

A vida parece correr de feição para o casal, mas o espetro de Torre do Cervo e das redes de espiões do Trono Visionário ainda paira sobre eles, principalmente agora que Urtiga, a única filha de Fitz e Moli e legítima proprietária de Floresta Mirrada, se tornou Mestra do Talento no Castelo de Torre do Cervo. Paralelamente a isso, o antigo assassino tem ainda de lidar com as idiossincrasias dos seus muitos empregados, e a forma como eles o encaram e respeitam, agora que todos o conhecem como Depositário Tomé Texugo.
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De um repente, todas as tramas parecem voltar a conduzi-lo para lá. Um aprendiz de assassino chamado Lante é visto como pouco qualificado para essa tarefa por Breu, e cabe a Fitz vir a protegê-lo e arranjar-lhe utilidade. Urtiga continua a tratar Fitz com mais frieza do que a relação de um pai e de uma filha devia impor, enquanto Enigma se estabelece cada vez mais como o grande amor da jovem e um verdadeiro amigo para o pai desta, conquanto as decisões deste não a embaracem.

É nas relações humanas que Hobb expande o seu mundo, deixando-nos curiosos com os povos e acontecimentos que são apenas abordados para nos fazer morder o anzol, porque sabemos que mais tarde ou mais cedo eles irão emergir na trama para virar o mundo de Fitz novamente ao contrário e arrancá-lo da realidade para mais uma demanda impossível em que será, queira ou não, o protagonista. A autora californiana conhece o seu Fitz como ninguém, e também parece não cansar-se de fazê-lo sofrer.

Todo um espetro do passado de Fitz volta à tona, quando personagens morrem, quando outras que não davam sinais de vida há décadas surgem num roldão de novas tramas, perspetivas e tarefas. Até personagens que haviam morrido ressurgem nas recordações, nos sonhos e nos sentidos. Cheiros, sensações e detalhes saltam de cada página com uma intensidade e verosimilhança notáveis.

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Fonte: https://www.pinterest.com/twayhatch/robin-hobb/

Robin Hobb consegue fazer-nos sofrer, vibrar e conhecer um homem, personagem fictício, como poucas vezes conhecemos pessoas que vivem connosco no dia-a-dia. Cada tonalidade de personalidade, cada reserva, cada vertente emocional, cada detalhe da sua pessoa. Arrisco-me, no entanto, a dizer que FitzCavalaria está longe de ser a única razão por que esta saga é incrível. Abelha, Moli, Urtiga, Breu, Enigma, Esquiva, Lante, Kettricken, assim como o enigmático Bobo, são todas elas bem construídas, que encantam pela credibilidade com que são pinceladas.

“A relação entre estes dois protagonistas transcende o amor romântico ou fraternal, porque o Profeta Branco e o Catalisador completam-se como um só.”

Olharmos para a história deste personagem, que vivemos na pele através da leitura dos livros anteriores, faz arrepiar. Faz-nos considerar as nossas próprias histórias e a dos nossos pais e avós, e pensar que a panorâmica com que as olhamos hoje pode não estar nem perto daquela que eles vivenciaram. A forma como os filhos de Moli e de Fitz encaram Castro, por exemplo, aquela personagem que deu tanto a esta trama, pode ser tão confusa para eles como incrível para nós.

A forma como Hobb escreveu este livro também foi especial. Ao contrário de um salto de tempo abrupto, ela ofereceu-nos a passagem do tempo por Fitz como gradual, um pouco à imagem do que havia feito no primeiro volume de O Regresso do Assassino. De uma mensageira misteriosa num Festival de Inverno, até ao crescimento de uma criança que vem a ganhar tanto destaque como pontos de vista. Pela primeira vez, a trama não foi exclusivamente contada pelo protagonista, ainda que ele continue sempre atolado em problemas para resolver em simultâneo.

Desenganem-se, porém, se pensam que a alusão ao Bobo no título é um logro. Visível ou não, sentimo-lo presente ao longo de toda a narrativa, sobretudo nos momentos em que Fitz mais parece sentir a sua ausência. A relação entre estes dois protagonistas transcende o amor romântico ou fraternal, porque o Profeta Branco e o Catalisador completam-se como um só. Especialmente estes dois.

Mas poderão as profecias do Bobo terem sido erradas? A questão do Filho Inesperado é abordada neste livro, questionando a exatidão das previsões do Profeta Branco e, mais especialmente, a sua interpretação. Mas, na verdade, tanto a filosofia do Bobo como a sua participação acabam por estar num segundo patamar neste livro, ganhando apenas destaque no final. O livro foca-se em Fitz e na sua família, assim como nas suas capacidades para lidar com ela e com pequenas trivialidades do dia-a-dia.

“O final de O Assassino do Bobo foi qualquer coisa que me surpreendeu.”

As relações com personagens do passado também se alteraram, conforme elas amadureceram ou se separaram. Podemos não ver Esporana ou Eliânia, ter breves vislumbres de Respeitador e Obtuso, e ver a relação filial de mentor e aprendiz entre Fitz e Breu a tornar-se uma quase inimizade quando o instinto protetor que há no assassino o vê como ameaça, mas os laços que os ligam a todos estão lá e movem-se subtilmente, fazendo-se sentir nos momentos mais determinantes. Abelha, a maior adição à trama, é uma lufada de ar fresco por que, penso, ninguém podia estar à espera.
O final de O Assassino do Bobo foi qualquer coisa que me surpreendeu. E deixou-me de água na boca, tantos foram os mistérios que ficaram por resolver. Ficou não só a vontade de descodificar todos os mistérios, como de ver o discorrer daqueles acontecimentos a materializar-se. A interpretação dos Servos sobre Abelha, a génese de Esquiva e Lante e a verdade sobre o Bobo são questões pendentes que me fazem querer o segundo volume, A Revelação do Bobo, o quanto antes.
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Abstenho-me a revelar pormenores sobre a trama porque acredito que a experiência de leitura deste livro pode ser tremendamente afetada por eles. A grande magia deste volume em particular, para além de tudo o supracitado, é irmos sendo surpreendidos com as mais incríveis mudanças que vão acontecendo no transcorrer do livro. E sim, apesar do ritmo aparentemente lento, elas estão sempre a acontecer. Estamos a falar de um livro lindíssimo, e tudo o que ele me inspira é ternura.
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Avaliação: 10/10
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O Reino dos Antigos:
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Saga do Assassino (Saída de Emergência):#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Saga Assassino e o Bobo (Saída de Emergência):

#1 O Assassino do Bobo

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Estive a Ler: O Deus no Sarcófago

Arus, o vigia, sentiu as mãos que seguravam a besta tremerem, e pingos de suor pegajoso surgirem à flor da pele ao descobrir o corpo tombado no chão de mármore diante de si. Não lhe agradava nada deparar-se com a Morte naquele local desolado durante a noite.

O texto seguinte aborda o conto “O Deus no Sarcófago”

“The God in the Bowl” é um dos contos originais do herói de espada & feitiçaria Conan, O Cimério, escrito pelo autor americano Robert E. Howard. Publicado somente após a morte do autor, o conto passa-se na Era Hiboriana e conta como Conan rouba um museu do Templo de Kallian Público e, ao fazê-lo, se vê enredado numa sequência de acusações e de eventos bizarros.

A história foi publicada pela primeira vez em setembro de 1952 na Space Science Fiction e foi reproduzida muitas vezes desde então. A versão que li, traduzida por Luís Filipe Silva para a coletânea A Rainha da Costa Negra das Edições Saída de Emergência em setembro de 2007, foi chamada “O Deus no Sarcófago”.

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Fonte: https://io9.gizmodo.com/what-is-best-in-life-to-see-brand-new-conan-the-barbar-1753300337

Continuo então a participar no ciclo de leituras em volta de Robert E. Howard, um dos meus autores de eleição, que dura até meados de dezembro. “O Deus no Sarcófago” é mais um belo exemplo daquilo que o autor americano conseguiu fazer com o seu protagonista. Mais uma vez, Howard deixa claro que foi muito mais que o pai de um herói fanfarrão, dançando entre o policial e o horror com carisma e um talento irrevogável.

“Uma noite no município de Numalia, a segunda maior cidade de Nemedia, Conan entra num lugar incrível: um edifício antiquíssimo que os leigos chamavam Templo de Kallian Publico.”

A proficiência de Howard salta à vista neste conto, onde não só testemunhamos a ginástica narrativa de Howard com um certo encanto não deliberado, como compreendemos como este herói pulp se consegue transmutar nas mais diversas contingências. Leio e releio a obra de Howard e só consigo dizer que Conan é muito mais do que os media fizeram chegar até nós.

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Fonte: https://grimdarkalliance.com/2016/12/07/the-god-in-the-bowl-by-robert-e-howard/

Uma noite no município de Numalia, a segunda maior cidade de Nemedia, Conan entra num lugar incrível: um edifício antiquíssimo que os leigos chamavam Templo de Kallian Publico. Ele planeia roubar o museu do templo, mas vê-se arrastado para uma investigação de assassinato quando o cadáver estrangulado do dono e curador do templo é encontrado por um vigia noturno.

Embora Conan seja o principal suspeito, tanto o magistrado investigador, Demetrio, como o prefeito da polícia, Dionus, oferecem-lhe o benefício da dúvida, permitindo-lhe não só permanecer livre, como também manter a espada enquanto os seus homens procuram provas que o condenem ou absolvam no interior daquelas instalações sombrias. Muita dessa tolerância deveu-se, porém, à imponência e brutalidade que a figura de Conan lhes inspirava.

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Fonte: https://guilhermeon.wordpress.com/page/2/

À medida que a investigação se desenrola, o magistrado é informado por Promero, funcionário do Kallian Publico, que o templo recebeu da Stygia um estranho sarcófago, semelhante a uma tigela, que encontram aberto e vazio. Diz-se tratar-se de uma relíquia inestimável, encontrada entre os túmulos escuros muito abaixo das pirâmides estigias e enviada para Caranthes de Hanumar, sacerdote de Ibis, “por causa do amor que o remetente prestava ao sacerdote de Ibis”.

Apoderando-se desse artefacto raro, os funcionários do Templo acreditavam que o sarcófago continha o lendário diadema dos reis gigantes, cujos parentes primordiais moravam naquela terra do sul escuro antes que os ancestrais dos stygianos lá chegassem. No entanto, claramente, o objeto no interior não era qualquer diadema, mas algo muito mais terrível.

“Sem adjetivos para além do muito satisfatório, considero este um dos contos de Robert E. Howard que mais me surpreendeu”

Enquanto o magistrado e os seus homens se preocupavam em investigar sobre tal informação, a hipótese de que o conservador do Templo tenha sido atacado por algo inumano ganha forma, ainda que as suspeitas sobre Conan não sejam afastadas de todo. Com vários dedos apontados para si, Conan revela o seu propósito naquela noite e prepara-se para enfrentar o mal ali encerrado com a sua espada.

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Fonte: https://whitedevilblog.wordpress.com/2014/03/26/frank-frazetta-chained/

Já tinha lido este conto há tantos anos, que não me lembrava sequer da história. Por isso, foi com a surpresa de quem lê algo pela primeira vez que me senti enredado neste conto, suspeitando de tudo e de todos, até mesmo do protagonista. A história começa como um policial envolvente, com vários detalhes e pormenores a serem considerados, fazendo-me lembrar dos romances de investigação criminal do século passado.

De uma aura Agatha Christie, o conto toca o exótico, o suspense, a aventura e o horror lovecraftiano, de forma consistente e, para lá de bem escrita, credível. Sem adjetivos para além do muito satisfatório, considero este um dos contos de Robert E. Howard que mais me surpreendeu, embora não seja das melhores histórias curtas do autor norte-americano.

Avaliação: 8/10

A Divulgar: “Tolkien, Construtor de Mundos” na Faculdade de Letras de Lisboa

Pelo quinto ano consecutivo, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa organiza um seminário internacional em volta do famigerado autor britânico J. R. R. Tolkien. A edição deste ano ocorrerá no dia 6 de dezembro, no Auditório 1 da Faculdade de Letras.

Desenganem-se, porém, se julgam que o V Seminário Internacional focado em Tolkien não explorará outros nomes da literatura. Ursula K. Le Guin, George R. R. Martin e William Morris serão alguns dos nomes em debate, com várias panorâmicas sobre os seus trabalhos e os paralelismos com a obra do autor nascido em África, um dos pioneiros da literatura fantástica como a conhecemos hoje. Fiquem com o programa completo.

Estive a Ler: Nocturno

Ele pensa que morreu e que está condenado a errar pelo mundo. Pensa que os peixes são almas que flutuam e que o vento são demónios que sussurram palavras que lhe causam dor.

O texto seguinte aborda o livro Nocturno (Formato BD)

Radicado na Europa, o autor mexicano Tony Sandoval regressa aos escaparates nacionais com o novo título da Kingpin Books. Nocturno foi uma personagem criada pelo autor no discorrer da sua juventude, posteriormente retocado com maior maturidade. A figura familiar do justiceiro mascarado traz uma nova face, na perspetiva de Sandoval de um cantor de rock caído em desgraça.

Depois de As Serpentes de Água, Rendez-vous em Phoenix e Mil Tormentas, a Kingpin Books volta a apostar em Tony Sandoval e na singularidade do seu traço, fomentando o portfolio já relevante da editora nacional. Trata-se da edição completa de Nocturno, originalmente publicado em 2008 e 2009 no formato comic. O formato em capa dura contém 242 páginas e foi publicado no primeiro semestre do ano.

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Fonte: https://www.metal-archives.com/artists/Tony_Sandoval/245173

Uma leitura de caráter íntimo que transpira tanto o amor pela música como pelos elementos marinhos, Nocturno não é uma novela gráfica de super-heróis, como podem facilmente pensar, mas uma reflexão sobre o mundo em que vivemos, sobre as inseguranças e pequenas obsessões do ser humano e do papel que desempenha no mundo.

Os tons fortes e negros são outro dos chamarizes do álbum. As pranchas desfilam com elegância e fluidez, carregando de significados o mundo de Seck e as incongruências da vida que levou. A tentativa de mudar é linear, ainda que a forma como o faça nem sempre corresponda às expectativas. Um personagem forte e cheio de quês a que Sandoval deu vida com um toque único e singular.

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Fonte: Kingpin Books

Desde logo conhecemos Seck como um carismático vocalista da banda de rock Kraneus. O cantor vive acossado pelas visões do pai, então falecido, que parece querer ditar o destino do filho mesmo após a morte. Ao subir ao palco, porém, todas as suas fragilidades e inseguranças dissipam-se. O talento tornou-o uma lenda viva do rock e o seu potencial garante que qualquer banda que integre seja um sucesso, o que se revela um pau de dois gumes. Muitos são os invejosos que o tentam subverter.

“A transfiguração de Seck revela muito do génio criativo de Tony Sandoval.”

Esse sentimento de desdém gratuito pelo sucesso de Seck resulta num ato de violência que leva o seu melhor amigo à morte e o deixa como desaparecido. Dado como morto, vagueia pelos bosques, num estado traumático que o deixa permeável aos vários espíritos e vozes que lhe povoam o espírito. É desse combate de identidades que nasce Nocturno, um justiceiro sem par.

Claro está, não podia faltar o par amoroso. Karen é uma jovem repórter que sonha com leviatãs dos mares e avista-os em transe durante as barulhentas actuações dos Kraneus, a banda de Seck. A união entre os dois é palpável e após o desaparecimento do músico a jornalista entra em desespero, fazendo-a olhar de outro modo para a relação de ambos quando ele reaparece.

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Fonte: Kingpin Books

A transfiguração de Seck revela muito do génio criativo de Tony Sandoval. Não sendo um álbum que apele às massas, sem a espetacularidade que o género tende a fomentar, Nocturno tem um estilo inconfundível, alimentando aquilo que pode ser considerada uma mitologia de autor, aludindo aos elementos marinhos e à míriade de simbologias que os definem. O mar como início de tudo é também uma imagem que dificilmente passará indiferente durante a assistência do reerguer da personagem principal.

“…todo um mundo de caminhos incertos a desbravar e demónios interiores a enfrentar.”

Se o roteiro exibe uma estética singular neste género de álbuns, que torna a marca de autor discernível ao longo das suas pranchas, confesso que foi o estilismo gráfico de Tony Sandoval a agradar-me sobremaneira neste livro. Os tons negros e a acutilância do traço maduro do autor mexicano são sem sombra de dúvida um dos maiores atrativos de Nocturno. Visualmente apelativo e igualmente sombrio, o estilo de Sandoval tem poucas similaridades em outros autores dentro do seu nicho.

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Fonte: Kingpin Books

Um álbum descomplexado e revigorante, que encerra com as notas de autor, os esquissos e as pistas sobre a origem de Nocturno, um personagem que Sandoval criou ainda durante a adolescência. Foi uma história que não me assoberbou, mas cativou pela aura intimista em que somos convidados a entrar, todo um mundo de caminhos incertos a desbravar e demónios interiores a enfrentar.

Avaliação: 8/10

 

 

Estive a Ler: Liberdade e Revolução, Império das Tormentas #2

— Tens andado a contar histórias sobre mim, Hume?

O texto seguinte aborda o livro “Liberdade e Revolução”, segundo volume da série Império das Tormentas

Após a chegada de Poder e Vingança, o primeiro volume do Império das Tormentas de Jon Skovron, em março, eis que a Saída de Emergência não perde tempo em lançar o segundo volume, publicado pelo autor em fevereiro deste ano. Conhecido dentro do género Young Adult, onde escreveu livros como Misfit, Man Made Boy e This Broke Wondrous World, Skovron sai da sua área de conforto para conceber o Império das Tormentas, uma trilogia de fantasia adulta passada num mundo onde piratas e feiticeiros coexistem com hostilidade.

Jon Skovron tem vários contos publicados em revistas como a ChiZine e a Baen’s Universe, assim como em antologias como Summer Days e Summer Nights, da Harlequin Teen. Vive com os dois filhos e os gatos nas proximidades de Washington, nos Estados Unidos. Bane and Shadow, o segundo volume de Império das Tormentas foi publicado pela Saída de Emergência como Liberdade e Revolução, um livro de 432 páginas com tradução de Maria João Trindade.

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Fonte: https://www.orbitbooks.net/2015/07/23/meet-jon-skovron/

Quando falamos de fantasia é difícil não comparar um autor com outro, mas por vezes tal empresa é ingrata. O Império das Tormentas de Jon Skovron dificilmente seria comparado a um Robert E. Howard ou a uma Robin Hobb, uma vez que tanto as temáticas como o estilo são incomensuravelmente distintos. Agora, se estivermos a falar de um Scott Lynch ou de um Brandon Sanderson, são nomes que me vêm à cabeça de imediato, tal a semelhança a nível de ambiente e plot utilizados. Infelizmente, ao estabelecermos tal comparação, Jon Skovron fica a perder por larga escala.

Alquimistas malignos, ninjas, piratas, gangues, ladrões e prostitutas são alguns dos ingredientes que Skovron nos oferece neste Império das Tormentas. O worldbuilding tem grande qualidade e a ambientação é das que mais me agradam neste género de fantasia. O que falta ao autor para chegar ao nível de alguns dos melhores escritores da nova geração é mesmo mais credibilidade, senso de continuidade narrativa e um maior propósito em fazer o leitor comprar a história. Mas… já lá vamos. Sinceramente, acho que este segundo volume trouxe um salto qualitativo em relação ao primeiro.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/liberdade-e-revolucao/

A história de Liberdade e Revolução começa um ano após os acontecimentos narrados em Poder e Vingança. Se não leste o primeiro volume, aviso que este texto trará spoilers. Se podíamos esperar ver o Ruivo amarrado ou feito prisioneiro numa cela às mãos dos biomantes, encontramo-lo mais endiabrado e irreverente do que nunca. Ele é usado pelos biomantes e treinado por eles, mas vive uma tranquila vida de lorde no Palácio Imperial de Pico da Pedra. Aliás, os servos do Imperador encarregaram-se de eliminar o seu avô para atribuir-lhe o título de Lorde Pastinas mas, apesar da rédea curta, Ruivo passeia-se pelo Palácio e redondezas a seu bel-prazer.

Conhecemos também a família imperial, de quem nem sequer conhecíamos os nomes no volume inaugural da história. Durante o ano que ninguém viu, o protagonista – filho de uma pintora e de um prostituto, que sobrevivera nos bairros da lata de Círculo do Paraíso após a morte destes – tornou-se amigo íntimo do Príncipe Leston. O príncipe é tímido e inseguro, para além de não conhecer muito do que se passa para lá das suas próprias paredes e nem suspeitar da malignidade dos biomantes. Sim, os alquimistas do Imperador fazem experiências com homens e animais e sequestram pessoas em todos os cantos do Império para esse efeito.

“Alquimistas malignos, ninjas, piratas, gangues, ladrões e prostitutas são alguns dos ingredientes que Skovron nos oferece neste Império das Tormentas.”

Já o Imperador Martarkis é praticamente apenas a casca de um homem, com mais de um século de vida. Usou o poder dos biomantes para se rejuvenescer, permitindo-lhe conceber um filho que prolongasse a sua dinastia, mas nos dias de hoje permite que o Conselho de Biomantes faça a gestão do Império a seu bel-prazer. A fragilidade do Imperador é conhecimento da população, tanto que várias figuras da cidade tramam uma conspiração para depor o imperador e colocar no trono o seu filho, Leston. Isto fez-me lembrar Elantris, muito embora a atitude deste príncipe não se equipare à da personagem de Brandon Sanderson.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/497577458804169268/

Leston é gentil mas solitário, e tenta desesperadamente fugir ao cerco das suas pretendentes, usando Ruivo para o ajudar. O que Ruivo não previa era que ele próprio caísse na pretensão de uma das damas da corte. Com um humor apurado e um espírito leve, lady Merivale Hempist é uma das melhores personagens do livro e aquela que mais me agradou. Ela ajudará Ruivo a fugir de apuros… quando não for ela o seu maior apuro. Já a mãe de Leston, a Imperatriz Pysetcha, refugiou-se em Ponta do Ocaso, na península, possivelmente para estar longe das tramas dos biomantes.

Um dos principais motivos pelo qual as ações aberrantes dos biomantes são encaradas tão levianamente é a perspetiva de salvaguarda que eles tentam demonstrar. Não são apenas um grupo de alquimistas poderosos tentando dominar o mundo com a sua prepotência e com as suas artes, eles acreditam e levam a acreditar, que o seu comportamento é uma defesa para o futuro. As suas experiências têm como resultado desejável toda a sorte de recursos para proteger o Império dos inimigos. Segundo a profecia do Mago Negro, um povo estrangeiro virá para os esmagar a todos, e o único povo estrangeiro com uma civilização tão sofisticada que fosse capaz de ombrear com o Império é Aukbontar.

Por isso, quando Pico de Pedra recebe uma delegação de Aukbontar com o intuito de encetar alianças com o Império, delegação essa encabeçada pela embaixadora Nea Omnipora e por um curioso estudioso da flora chamado Etcher, os biomantes começam a mover os seus cordelinhos para os silenciarem. Cabe ao príncipe Leston e a Ruivo enfrentá-los, mesmo que o preço a pagar seja, quiçá, demasiado caro.

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Fonte: https://www.pinterest.com/explore/arte-pirata/

A mulher por quem Ruivo se apaixonou, a guerreira Vinchen Esperança Sombria, procura desesperadamente encontrar soluções para resgatar Ruivo às mãos dos biomantes. Durante o ano que se passou espalhou o terror pelos mares do Império, sob o título Terrível Desgraça, acompanhada por Brigga Lin, o biomante que mudara de sexo e desafiara a ordem, e pelos velhos amigos de Ruivo, Urtigas, Grosso, Sadie, Ausente Finn e o primo Alash. Ao conquistarem o navio Guardião, capitaneado pelo corajoso capitão Brice Vaderton, Grosso e Urtigas reconhecem o pequeno Jillen como Jilly, uma menina de Círculo do Paraíso que se fizera grumete para procurar a mãe.

“Sem a necessidade de apresentar a sua linguagem peculiar, a introdução das falas típicas daquele mundo pareceu-me muito mais fluída neste Liberdade e Revolução.”

A guerra contra os biomantes, porém, ainda nem sequer começara. Quando surgem evidências de que os biomantes andam a sequestrar centenas de meninas para formar exércitos sobrenaturais, Esperança Sombria recorre à Velha Yammy, a velha amiga de Ruivo com o dom da adivinhação, mas também ela havia desaparecido. A maré leva Urtigas e Grosso de novo a Círculo de Paraíso, com o intuito de recrutar gente para a sua causa, mas tudo o que encontram é morte e vingança, enquanto Esperança procura recuperar a fé e a sua própria esperança.

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Fonte: https://pbario.deviantart.com/art/Pirate-attack-114247588

A nível de escrita, a gíria criada por Jon Skovron para o seu mundo não teve tanto impacto neste livro como no primeiro. Não me parece, porém, que tal se deva somente ao entranhar da mesma na minha mente. Sem a necessidade de apresentar a sua linguagem peculiar, a introdução das falas típicas daquele mundo pareceu-me muito mais fluída neste Liberdade e Revolução.

“Em suma, Liberdade e Revolução é um livro descomplexado e sem grandes propósitos, mas que se lê muito bem.

De facto, este volume é todo ele mais fluído e maduro do que o primeiro, assim como exibe uma aura mais negra. As personagens apresentadas no primeiro volume são bem desenvolvidas, e as adições ao elenco são refrescantes e bem-vindas. Adorei Merivale, Heme, Vassoura e a bela Lymestria, assim como a história do passado de Urtigas e os deliciosos Moxy Poxy e Senhor Chapeleira. Toda a ação foi intensa e o ritmo elevadíssimo. E somos surpreendidos. Vimos personagens importantes a morrer.

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Fonte: https://za.pinterest.com/pin/669980882036219167/

O livro só não é aquela coca-cola toda porque, de facto, se Ruivo continua carismático e fora da caixa, por vezes de tal forma exagerado que faz o livro parecer um mangá, Esperança Sombria continuou sem expressão, sem a fibra que me parecia ser necessária para realizar tudo o que ela realizou. Já Brigga Lin, que era suposto ser outra personagem mega badass, passou-me completamente ao lado. Não gostei dela nem um pouco.

A verdade é que, se a magia fosse explicada e não parecesse tão básica e fácil, e se o autor não se focasse tanto nos problemas amorosos e lamechices das personagens, este seria um livro extraordinário. Se já havia gostado da Batalha dos Três Cálices no primeiro volume, os núcleos de Círculo do Paraíso, de Pico da Pedra e o discorrer de batalhas navais foram todos eles bem desenvolvidos neste novo livro. Em suma, Liberdade e Revolução é um livro descomplexado e sem grandes propósitos, mas que se lê muito bem.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 7/10

Império das Tormentas:

#1 Poder e Vingança

#2 Liberdade e Revolução

Estive a Ler: Solomon Kane

Il sole era tramontato. Kane lanciò uno sguardo alla forma mobile della giovane che giaceva dove era caduta, e si preparò per dormire.

«Svegliami dopo la mezzanotte», disse, «e monterò la guarda fino all’alba.»

O texto seguinte aborda o livro Solomon Kane

Associado ao personagem que maior estatuto ganhou dentro da fantasia pulp, o cimério Conan, Robert E. Howard percorreu vários géneros, da fantasia ao horror, passando pela aventura histórica e ficção policial. Howard escreveu mais de trezentas histórias e setecentos poemas, sendo largamente conhecido pelas suas descrições palpáveis ​​e cenários visuais. Foi através da icónica revista Weird Tales que deu a conhecer ao mundo muitos dos seus contos, a maioria protagonizados por Conan, o Bárbaro.

Antes do suicídio, aos 30 anos, após a morte da mãe, Robert tinha sido amigo de H. P. Lovecraft e deixara no papel uma obra que marcaria todo um género literário, sendo frequentemente aceite como o pai do subgénero de espada & feitiçaria. Conan não foi, porém, o seu único personagem a merecer destaque. O puritano Solomon Kane protagonizou várias das suas pequenas histórias e poemas, que foram coligidas em vários países em edições literárias memoráveis, assim como adaptado ao cinema, num clássico com James Purefoy e Max von Sydow nos papéis principais.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/103653228894181011/

Já tinha passado com as mãos pela edição portuguesa de Solomon Kane, a coletânea de histórias protagonizadas pelo puritano inglês de Howard, mas foi a versão italiana da Newton Compton Edition aquela com que finalmente me adentrei na história de um dos personagens mais emblemáticos de um dos meus autores preferidos. Posso dizer que não me entusiasmou tanto quanto as narrativas protagonizadas por Conan, mas em qualidade não lhe fica nada atrás.

A coletânea inclui os contos “Skulls in the Stars”, “Red Shadows”, “Rattle of Bones”, “The Moon of Skulls”, “The Hills of the Dead”, “Wings in the Night” e “The Footfalls Within”, todos eles publicados na revista pulp Weird Tales, e os textos publicados após a morte do autor “The Right Hand of Doom” (publicado em 1968 em Red Shadows), “Blades of the Brotherhood”, “Hawk of Basti” e “The Children of Asshur”, os fragmentos “Death’s Black Riders” (publicado em 1974 em Lone Star Fictioner) e “The Castle of The Devil” (Red Shadows) assim como os poemas póstumos “The One Black Stain” (The Howard Collector, 1962), “The Return of Sir Richard Grenville” (Red Shadows) e “Solomon’s Kane Homecoming” (Fanciful Tales, 1936).

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Fonte: https://www.abebooks.com/9788834701706/Solomon-Kane-libro-doro-Robert-8834701704/plp

Solomon Kane é uma coleção de contos e poemas que se concentram no herói com o mesmo nome. É uma personagem brilhantemente concebida e desenhada com maestria, um aventureiro inquieto com um ódio apaixonado por injustiças e crueldades. Muito embora não seja propriamente um santo, o cavaleiro inglês é um devoto puritano, age por instinto e abraça como dever a proteção dos fracos e oprimidos contra os atentados dos prepotentes, chegando a percorrer longas maratonas só para perseguir e punir os responsáveis ​​por injustiças com que se depara pelo caminho.

“Posso dizer que não me entusiasmou tanto quanto as narrativas protagonizadas por Conan, mas em qualidade não lhe fica nada atrás.”

A personagem é complexa em termos de fé, assumindo as suas ações como consequências de um chamado divino, não obstante as reservas do autor em qualificá-lo como um traço mental do mesmo, mais do que uma tendência religiosa. Solomon Kane é uma personagem dura, não só na violência com que faz a justiça como na capacidade de roubar vidas sem perder o espírito. Kane não procura justificações para os seus atos, ele age de acordo com a sua consciência e é a indignação que sente que o leva a agir para com a vítima como para com o malfeitor.

De realçar que Robert E. Howard não era religioso, ao contrário da sua personagem principal, o que resulta numa abordagem interessante à temática do puritanismo religioso e num paradigma em relação à questão do bem contra o mal.

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Fonte: https://filmow.com/solomon-kane-o-cacador-de-demonios-t10927/

A escrita de Howard incluiu tanto ficção histórica como fantasia, e ambas podem ser encontradas nesta coletânea. A maioria das histórias completas têm premissas sobrenaturais, mas algumas levam a personagem por caminhos plenamente reais. No caso dos fragmentos de história, é difícil dizer como o autor planeou desenvolvê-los, até porque são muito curtos e incompletos, o que pode causar alguma confusão e sentimento de frustração.

Muitas das histórias são passadas em África, num contexto bastante realista, apesar de o autor recorrer várias vezes tanto às mitologias europeias como ao campo do sobrenatural durante os seus enredos.

“Os elementos de horror sobrenatural que permeiam várias das histórias são uma adição deliciosa à trama, mas é na linguagem utilizada que Howard define o ritmo da obra.”

Acima de tudo, o que se destaca na obra de Howard é o seu estilo de prosa verdadeiramente jardinado (como diria Martin), temas recorrentemente épicos em lutas frenéticas do bem contra o mal e personagens que, estereotipadas ou não, surpreendem pelas escolhas que fazem. Ao longo das histórias, fiquei com a nítida ideia que a grande pretensão do autor, mais do que divertir o leitor, foi obrigá-lo a julgar moralmente as suas personagens, tanto os vilões como os heróis.

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Fonte: https://www.artstation.com/artwork/o04JJ

Fica a sensação que o cenário tinha todo o potencial para ter sido mais explorado pelo autor, não fosse a sua morte precoce; um contexto rico e personagens cruas em fé e em ideologias. Os elementos de horror sobrenatural que permeiam várias das histórias são uma adição deliciosa à trama, mas é na linguagem utilizada que Howard define o ritmo da obra. Não obstante alguma falta de verosimilhança na construção das personagens (Kane tem atitudes que um puritano não teria e os grupos apresentados parecem mover-se por um pensamento coletivo) e algum racismo evidente que é fruto da época em que o autor viveu, temos aqui uma obra particular de grande interesse.

Para concluir, Solomon Kane é, muito mais do que uma coletânea de histórias intemporais que podem agradar a qualquer um, um documento único que retrata Howard na sua melhor forma, dançando em temas complexos e especialmente delicados à época para revelar uma prosa forte e elegante, bem como uma poesia de travo lúgubre que conquista não só pelos dotes literários do escritor, como também pelas tramas que consegue contar em tão poucas palavras.

Depois de ler todas estas histórias protagonizadas por Solomon Kane, voltarei em breve para Conan, num ciclo de leituras e releituras em torno de Robert E. Howard que é sempre um prazer enfrentar, ou não tivesse sido o autor norte-americano um dos meus autores de eleição durante muito tempo e um dos que mais me instigou a escrever literatura fantástica.

Avaliação: 7/10

A Divulgar: Antologia de Ficção Especulativa Nacional (Base de Dados)

E que tal uma antologia que represente o melhor da Ficção Especulativa publicada em português de Portugal? É este o projeto que Ricardo Lourenço pretende levar a cabo, razão pela qual começou por edificar uma base de dados online que inclua tudo o que já foi publicado por autores nacionais no nosso país, dentro dos géneros da Ficção Científica, Fantástico e Horror. Tendo atingido já uma quantidade considerável de entradas (mais de um milhar, e isto considerando apenas obras publicadas no séc. XXI),  o autor e entusiasta português decidiu divulgar este projeto de forma a atrair colaboradores para a primeira fase de avaliação de textos.

Nesse sentido, para além da base de dados (https://docs.google.com/spreadsheets/d/1ldvs3ynrRJoyN3FEictYkTbhtVEITR2PkfCkgBYeh84/edit#gid=1434191562) de acesso livre, criou também um fórum (https://www.tapatalk.com/groups/projectoadamastor/antologia-de-fic-o-especulativa-portuguesa-f2/) para facilitar o debate.

O objetivo, claro está, seleccionar os melhores contos nacionais já escritos e introduzi-los naquela que será uma antologia representativa do melhor da Ficção Especulativa no nosso país. Integrar o projeto exigirá não só disciplina e disponibilidade, mas também alguma experiência no meio, por isso quem se achar à altura do desafio, interajam com o Ricardo no fórum ou no facebook. Por aqui, estarei disponível para o divulgar da melhor forma.

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Estive a Ler: Origem

As sombrias religiões retiraram & a doce ciência reina.

O texto seguinte aborda o livro “Origem”, quinto volume da série Robert Langdon

Natural do Exeter, o norte-americano Dan Brown publicou o seu primeiro livro, Fortaleza Digital, em 1998, ao que se seguiram Ponto de Impacto e Anjos e Demónios, a primeira aventura protagonizada pelo simbologista de Harvard, Robert Langdon. O seu maior sucesso foi o polémico best-seller O Código da Vinci, mas os outros cinco livros também obtiveram um êxito estrondoso.

O sucesso foi tal que Dan Brown colocou os seus quatro primeiros livros na lista de mais vendidos do The New York Times em simultâneo. O mais recente romance, Origem, chegou a Portugal em outubro, pelas mãos da Bertrand Editora. Com 552 páginas e tradução de Nuno Castro, o novo livro foi apresentado em Portugal pelo próprio autor, que esteve presente no Centro Cultural de Belém no passado dia 15 de outubro.

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Fonte: http://voceetaolivro.com.br/2016/10/novo-livro-dan-brown-2017/

Origem é o livro de Dan Brown que menos gostei, mas dificilmente o poderei catalogar como uma desilusão. Bem mais otimista e menos inquietante que Inferno, o mais recente livro do autor norte-americano encontra-se no meio termo entre a riqueza de conhecimentos oferecida em O Código DaVinci e a aposta mais aprofundada no plot de O Símbolo Perdido.

Dizer que Dan Brown é mera leitura de entretenimento é negligenciar as toneladas de conhecimento que ele verte ao longo das suas páginas, sempre numa toada de perseguição e ritmo alucinante permeado pelo bom-humor que lhe é característico. Em Origem, não consegui deixar de rir aquando da referência ao “Já Passou” da Frozen, apenas um dos vários momentos leves que entremearam a perseguição mais soft a que Robert Langdon já foi sujeito.

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Fonte: https://www.bertrand.pt/ficha/origem?id=19198452

Neste livro, novamente protagonizado pelo famoso simbologista, Langdon é incitado pelo seu antigo aluno de Harvard, Edmond Kirsch, hoje um génio da computação, milionário e celebridade mundial, a aparecer no Museu Guggenheim de Bilbau, a fim de assistir a uma apresentação que, na sua ótica, irá mudar o mundo. Não irei revelar os segredos do livro, mas fica desde já advertido que continuar a ler esta opinião poderá influenciar bastante a tua experiência de leitura.

“Origem é o livro de Dan Brown que menos gostei, mas dificilmente o poderei catalogar como uma desilusão.”

O personagem central do livro, Edmond Kirsch, afirma ter descoberto a resposta para duas das perguntas mais inquietantes da Humanidade. “De onde vimos?” “Para onde vamos?” Robert Langdon pensa tratar-se de uma nova análise para estas velhas questões, certo da aversão do seu antigo aluno a qualquer espécie de religião, mas a forma como Kirsch o adverte que a sua descoberta mudará tão profundamente o pensamento mundial inquieta-o.

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Fonte: https://www.headstuff.org/humour/i-robert-langdon-4-friar/

Para coroar essa sensação, Kirsch compara a sua descoberta às de Darwin e diz ter-se encontrado com três líderes espirituais, o bispo católico António Valdespino, amigo próximo da família real espanhola, o rabino Yehuda Köves e o imã islâmico Syed al-Fadl, que ficaram tão aterrorizados com a sua descoberta, que o próprio bispo fez-lhe uma chamada telefónica ameaçadora. Ludibriando os três religiosos, Kirsch diz-lhes que revelará a verdade ao mundo um mês depois, mas em apenas três dias convida um naipe restrito de celebridades para comunicar a descoberta em pleno Guggenheim de Bilbau.

“Dizer que Dan Brown é mera leitura de entretenimento é negligenciar as toneladas de conhecimento que ele verte ao longo das suas páginas”

Robert Langdon depressa descobre que o anúncio será também reproduzido via online, para milhões de pessoas em todo o mundo, e que Kirsch o incluiu na apresentação. Através dos fones usados tradicionalmente como guias de museu, Langdon toma contacto com Winston, um afável acompanhante que depressa revela-se não como uma gravação, mas como uma Inteligência Artificial criada por Kirsch (cuja pronúncia britânica faz Langdon lembrá-lo de Hugh Grant) que não só guia o simbologista até à apresentação como parece ter um controlo remoto sobre todas as tecnologias à sua volta.

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Fonte: https://www.tripadvisor.co.uk/LocationPhotoDirectLink-g187454-d190276-i214301825-Guggenheim_Museum_Bilbao-Bilbao_Province_of_Vizcaya_Basque_Country.html

Quem também está presente no evento é Ambra Vidal, que não só é a diretora do museu, como a noiva do príncipe de Espanha, Julián. E é também a responsável pela inclusão no evento de um convidado de última hora: o almirante aposentado da Marinha Luís Ávila, cujos propósitos não parecem ser os melhores. Do Museu Guggenheim de Bilbau à Sagrada Família de Barcelona, passando pela Casa Milà e pelo Palácio da Zarzuela, Dan Brown dá-nos a conhecer uma variância de personagens intrigantes como o padre Beña, os membros da Guardia Real Díaz e Fonseca, o comandante Diego Garza ou a relações públicas da família real Mónica Martin, ao mesmo tempo que explora questões como o ateísmo, a Igreja Palmariana ou a credibilidade dos meios de Comunicação Social.

Personalidades famosas como Winston Churchill, Charles Darwin, António Gaudi, Joan Miró, Francisco Franco, Friedrich Nietzsche ou William Blake são referências de destaque ao longo da obra, fazendo de Origem uma leitura de pendor especulativo com uma forte componente de entretenimento, ao mesmo tempo que oferece imensas curiosidades e informações de cultura geral. Desta vez, Robert Langdon é acompanhado por Ambra Vidal numa aventura de crime e perseguição que não se distingue por aí além das anteriores, voltando à formula que lhe deu sucesso e da qual parecia estar a afastar-se com Inferno.

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Fonte: http://ultimas-curiosidades.blogspot.pt/2015/03/barcelona-tecnologia-3d-acelera.html

Com menos suspense, menos velocidade e menos conhecimentos surpreendentes, Origem parece uma simulação bastante menos brilhante de O Código DaVinci, desta feita passada em Espanha. A inovação passa, desta vez, por o livro estar virado para o futuro e para as tecnologias. De facto, o brilhantismo dedutivo de Robert Langdon é aqui ultrapassado pela Inteligência Artificial que acompanha os protagonistas e os salva de quase todos os problemas. Winston alia uma panóplia interminável de recursos a um bom humor refrescante, ainda assim senti muito mais inquietação do que empatia para com o personagem ao longo da narrativa.

“Na verdade, as grandes descobertas de Edmond Kirsch não beliscaram minimamente as crenças religiosas, e até expuseram a pouca fiabilidade da crença ateísta do personagem.”

De facto, Dan Brown desliga-se um pouco da História e parece fazer uma nova abordagem aos problemas discutidos por Isaac Azimov, enquanto faz as pazes com a Igreja. Se durante quase todo o livro parecemos estar a ser conduzidos para uma verdade inquietante que esmagará as religiões, acabamos por assistir a uma tentativa de conciliação entre a ciência e a religião. Na verdade, as grandes descobertas de Edmond Kirsch não beliscaram minimamente as crenças religiosas, e até expuseram a pouca fiabilidade da crença ateísta da personagem. Sem a sua intervenção, a simulação não teria lugar, pelo que deixa facilmente em evidência a necessidade de uma figura criadora.

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Fonte: https://spainattractions.es/la-pedrera-barcelona/

Quanto à descoberta futurista, gostei bastante da forma como foi exposta, embora não se possa dizer que seja uma surpresa para qualquer um nos dias que hoje se vivem. O cenário conciliatório exposto pela personagem é que acabou por entrar em contradição com tudo o que ela vinha defendendo, apesar de me ter agradado a perspetiva otimista que sentenciou o livro.

Acabou por ser uma ótima leitura, apesar de todas as lacunas supracitadas, uma aventura viciante com uma mão cheia de personagens e debates interessantes. Mais uma vez, o vilão não foi muito fácil de encontrar (apesar das pistas flagrantes) e as cenas na Sagrada Família foram as melhores do livro; posso dizer, as únicas que me fizeram sentir o hype que senti durante a leitura dos livros anteriores do autor. Origem não trouxe nada de novo, mas voltou a provar que Dan Brown sabe conservar o seu público.

Avaliação: 7/10

Robert Langdon (Bertrand Editora):

#1 Anjos e Demónios (lido não comentado)

#2 O Código DaVinci (lido não comentado)

#3 O Símbolo Perdido (lido não comentado)

#4 Inferno

#5 Origem

 

 

 

Estive a Ler: A Torre do Elefante

— Existe sempre uma maneira, se a vontade estiver associada à coragem — respondeu abruptamente o cimério irritado.

O texto seguinte aborda o conto “A Torre do Elefante”

“A Torre do Elefante”, publicado originalmente na revista Weird Tales em 1933, é um dos contos protagonizados pelo herói Conan, o Cimério, escrito pelo autor norte-americano Robert E. Howard. Está definido na era pseudo-histórica de Hyborian e conta como Conan se infiltrou numa torre cheia de perigos para roubar uma jóia lendária ao terrível feiticeiro Yara. Devido à sua visão única sobre o mundo criado e elementos fantásticos atípicos para a época, a história é considerada um clássico na tradição de Conan e é frequentemente citado pelos seguidores de Howard como um dos seus contos mais incríveis.

Robert Ervin Howard, mais conhecido como Robert E. Howard, foi um talentoso escritor norte-americano que deixou testemunhos incríveis no fantástico ao longo dos seus 30 anos de vida. Constante colaborador das revistas pulp fiction, muito populares nos Estados Unidos da Grande Depressão dos anos de 1930, o escritor é atualmente mais conhecido por ter sido o criador dos personagens Conan e Solomon Kane, bem como por ser considerado, historicamente, o “pai” do subgênero de espada & feitiçaria (sword and sorcery).

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Fonte: https://www.counter-currents.com/tag/robert-e-howard/

Howard trabalhou para que quase todas as suas histórias do gênero sword and sorcery pudessem ocorrer sem contradição num mesmo mundo, começando com as aventuras pré-históricas das vidas passadas de James Allison, evoluindo para a saga de Kull, passando então para os tempos da Atlântida e da Lemúria, para chegar à Era Hyboriana de Conan e então, finalmente, na História conhecida pelos humanos. Nos seus trabalhos, Howard teceu a sua obra de forma a que um grande cataclismo sempre separasse uma era da seguinte. Dessa forma, cada civilização sabia muito pouco sobre a anterior, sendo recordada apenas por mitos e lendas.

Confesso que, muito embora a escrita de Howard pareça simplista e as suas histórias pouco cativantes nos dias em que vivemos, sou um fã incontornável de Howard e da sua prosa leve e dinâmica, que consegue ser rica em vocabulário sem aborrecer. Para além de que todas as características fantásticas das suas histórias eram uma novidade na época em que foram escritas. Robert E. Howard foi um criador de mão-cheia, e a melhor forma de reverenciá-lo é ler os seus escritos, uma e outra vez, e continuarmos a apaixonar-nos por ele.

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Fonte: http://www.badassoftheweek.com/conan.html

É verdade que Conan é uma personagem que faz parte do imaginário coletivo da cultura de massas. As aventuras do bárbaro conquistador, mercenário, pirata e a maioria das vezes, um mero errante, são com certeza clássicos pulp, pura leitura de entretenimento que, não obstante a ausência de algo que obrigue o leitor a pensar, oferece uma míriade de características únicas que a definem como uma literatura exótica, única, atemporal. “A Torre do Elefante”, que leio pela segunda vez, é um tradicional exemplo deste paradigma. Ler os contos originais de Conan é sempre um refresh na mente de qualquer leitor (e autor).

“Robert E. Howard foi um criador de mão-cheia, e a melhor forma de reverenciá-lo é ler os seus escritos, uma e outra vez, e continuarmos a apaixonar-nos por ele.”

A história deste conto é situada em Zamora, também chamada de Cidade dos Ladrões. Conan está a embebedar-se numa típica espelunca barulhenta quando ouve um homem a descrever uma joia fabulosa chamada Coração do Elefante. A joia é mantida numa torre por um terrível feiticeiro chamado Yara, de quem até mesmo o Rei de Zamora tem medo, uma vez que ele transformou um príncipe numa aranha, pisando-a em seguida. Quando Conan pressiona o patife para obter mais informações, seguem-se insultos e dá-se um combate. Na confusão, uma vela é derrubada por alguns dos espectadores, e a taberna mergulha na escuridão. Nesse momento, Conan mata o sujeito e escapa para as ruas da cidade, onde salva uma mulher de origens abastadas, a quem o malfeitor pretendia sequestrar e vender como escrava.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=Z2nXpgLamAQ

Depois de toda a confusão na taberna, o cimério decide-se a roubar a jóia, encontrando no caminho Taurus de Nemedia, também conhecido como o Príncipe dos Ladrões, que possui um desejo similar. Os dois ladrões concordam em trabalhar juntos e, depois de lutar contra os leões nos jardins da torre, escalam o pináculo da mesma. Ao chegar ao topo, Taurus é morto pela picada venenosa de uma aranha gigante que Conan, por sua vez, mata num duelo frenético. Isto é apenas o início de uma demanda hercúlea por parte do herói cimério na enigmática Torre do Elefante.

“”A Torre do Elefante”, que leio pela segunda vez, é um tradicional exemplo deste paradigma.”

Dono de uma vontade férrea e quase sempre de espada em punho, Conan enfrenta monstros terríveis, conspiradores volúveis e fanáticos religiosos. Muito embora a sua moral seja muitas vezes questionável, Conan tende a salvar os povos e as mulheres que encontra, pagando por vezes com o próprio corpo. O bem contra o mal é uma dualidade presente ao longo do conto, como em todos os que o precedem e seguem, com a vitória do bem a prevalecer. Ainda assim, as lutas morais das personagens, o detalhe de cada envolvimento e motivação e o mero mistério em torno das índoles dos protagonistas mostra que Howard não se limitava a seguir o modelo simplista dos pulps com régua e esquadro.

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Fonte: https://abepapakhian.deviantart.com/art/In-the-Tower-of-the-Elephant-552932208

O próprio Conan, como um personagem tendenciosamente bom, parece a maior parte das vezes apático e indiferente, e não o herói que acorre ao perigo de imediato assim que se depara com um problema. Não só ponderado como ardiloso, o protagonista é um estratega ímpar, que quase sempre age apenas depois de considerar algum tempo sobre os perigos em mãos. Como se pode ver neste conto, o desejo material leva a que aja como um ladrão, ainda que pareça comer demónios e deuses caprichosos ao pequeno-almoço.

“Ainda assim, as lutas morais das personagens, o detalhe de cada envolvimento e motivação e o mero mistério em torno das índoles dos protagonistas mostra que Howard não se limitava a seguir o modelo simplista dos pulps com régua e esquadro.

Concluindo, “A Torre do Elefante” é mais um testemunho incrível de um autor inusitado que nos deixou trabalho para ser lido e relido por gerações e gerações. Conan é uma personagem incrível, temperada a fogo como o aço, e por muito que a fórmula nos pareça batida e repetida, consegue sempre surpreender com a inconstância dos seus pensamentos e com a forma como combate a aparente impermeabilidade dos seus inimigos. Selvagem e intempestivo, Conan é aquele velho amigo que sabe sempre bem revisitar.

Avaliação: 8/10

Estive a Ler: Mulheres Perigosas

Aquilo a que os colonos chamavam de “vão branco” era uma secção da estrada ladeada por campos de cogumelos. Levaram cerca de uma hora pelas Florestas para alcançarem o vão e Silêncio, quando chegou, estava a sentir o preço de uma noite sem sono.

O texto seguinte aborda o livro Mulheres Perigosas

Depois de, em finais de 2015 e meados de 2016, a Edições Saída de Emergência ter lançado em dois volumes a célebre antologia Rogues organizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois, com os títulos Histórias de Aventureiros e Patifes e Histórias de Vigaristas e Canalhas, a editora volta a apostar na série de antologias organizadas pelos célebres autor e editor. Mulheres Perigosas traz até nós vários dos contos apresentados no original Dangerous Women, mas ainda é uma incógnita se os restantes serão publicados, como aconteceu com a anterior antologia.

Com tradução de Rui Azeredo e um volume de 448 páginas, a mais recente antologia da Coleção Bang! traz até nós uma panóplia de contos de alguns dos maiores autores no campo da Ficção Especulativa atual. O original foi publicado originalmente em dezembro de 2013, cruzando géneros como a ficção científica, a fantasia, o mistério, o romance paranormal, o thriller psicológico e o western, embora a peça uniforme em todos eles seja o tema que dá título ao livro: a mulher perigosa. E quem melhor para nos falar delas que o renomeado autor de A Guerra dos Tronos?

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Fonte: http://www.businessinsider.com/george-rr-martin-role-of-religion-got-game-of-thrones-westeros-2015-4

No cômputo geral, a antologia prima pela variância de géneros literários e de estilos linguísticos, mas acima de tudo tem o mérito de, ao falarem sobre o mesmo tema, os contos não caírem na repetição. Todas as histórias têm uma alma própria e os plots dizem muito dos seus autores, mais até do que sobre as mulheres perigosas. Cada conto, por si só, podia ser o preâmbulo de um livro que eu, pessoalmente, não me importaria de ler. Ainda assim, claro está, acabei por preferir os contos de fantasia, talvez por ser o género que nos dias de hoje mais me apaixona.

Mulheres Perigosas é uma oferta bem consistente da Edições Saída de Emergência ao público nacional. Dos traços mais contemporâneos aos cenários mais vintage, os vários contos coligidos por George R. R. Martin e Gardner Dozois parecem apelar ao interesse de variados públicos, o que vai, sem qualquer dúvida, fazer com que os fãs de cada género elejam certamente dois ou três contos em detrimento dos restantes e, por natureza, influenciar negativamente a avaliação do livro no seu todo. Mas essa é, porém, uma consequência que não rouba o mérito à antologia.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/litfantastica-bang/fantasia-o-202346/-mulheres-perigosas/

O primeiro dos contos apresentados é Completamente Perdida de Joe Abercrombie. Ambientado no mundo de A Primeira Lei, Red Country e Best Served Cold, a história apresenta Shy South, a protagonista de Red Country, num cenário de faroeste. Apercebi-me que se passava no mundo da trilogia A Primeira Lei pela referência à moeda (o marco) e à União, mas mais tarde percebi que o próprio conto era o spin-off de um romance, o que justifica, talvez, a falta de um maior worldbuilding por parte do autor. O conto está bem escrito e puxa pelo leitor, mas mais um final em aberto deixa-me a ideia que Abercrombie está determinado em frustrar os seus leitores. Faltou ali um plot-twist e um pouquinho mais de sal para o conto me encher as medidas.

“E quem melhor para nos falar delas (mulheres perigosas) que o renomeado autor de A Guerra dos Tronos?”

Megan Abbott escreveu para esta antologia o conto Ou o Meu Coração Está Destroçado. Muito ao estilo de Gillian Flynn, este conto de pressão psicológica apresenta-nos o casal Lorie e Tom Ferguson e fala-nos sobre o desaparecimento da pequena Shelby, a filha deles. O conto passou muito por levar o leitor a olhar para a esposa como a “mulher perigosa” da trama, apostando muito no julgamento público para tentar um volte-face final que, não só não surpreendeu, como quis ser mais do que foi. História bem ok, ganha a Flynn em termos de escrita.

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Fonte: https://www.joeabercrombie.com/2013/06/10/lamb-shy-and-essential-fantasy/

O conto As Mãos Que Não Estão Lá é a única história de ficção científica deste volume. Escrita por Melinda M. Snodgrass, que participou, entre outras, na série Star Trek: The Next Generation, situa-nos num bar onde o segundo-tenente da Liga Solar Tracy Belmanor ouve uma história mirabolante da boca de um alcóolico. Rohan narra a forma como se apaixonou pela mestiça cara / humana Samarith, uma stripper mais conhecida como Sammy, e as consequências que daí resultaram. Muito bem escrito e envolvente, só pecou por exagerar na ridicularização do comportamento sexual dos homens.

Raisa Stepanova é o conto de Carrie Vaughn. Apesar de gostar desta autora, que para além de escrever bem consegue ser extremamente credível na criação e desenvolvimento das suas histórias, este conto passou-me muito ao lado. Ele fala sobre uma jovem piloto de caças russa na Segunda Guerra Mundial, nas cartas que enviava ao irmão e nas suas melhores amigas: a colega Inna e o seu próprio Yak. Foi um conto que caiu muito para o romântico, mas valeu sobretudo pela forma como a autora contextualizou os personagens.

Escrito por Lawrence Block, Eu Sei Escolhê-las a Dedo foi o pior conto da antologia. Ainda que estivesse relativamente bem escrito, o tom degradante e as revelações doentias sobre o passado do personagem central, Gary, foram o mote para uma série de descrições eróticas desnecessárias. O conto caiu no banal e a resolução final soou forçada. Para além de as mulheres perigosas deste conto não o serem tanto quanto foi o protagonista. Fica a sensação que o autor queria escrever sobre um personagem com tendência para escolher as mulheres erradas, mas acabou por fazer o inverso e a história soou fraca.

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Fonte: https://www.amazon.co.uk/Dangerous-Women-George-R-R-Martin/dp/0007549407

O conto de Brandon Sanderson é mais uma viagem alucinante ao universo da Cosmere. Passado no mundo de Threnody, o conto Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno é, de longe, o melhor da antologia. Enquanto os ricos vivem protegidos em fortes, as florestas são lar de espíritos de olhos verdes que devoram quem quer que faça barulho ou derrame sangue nos seus territórios. Mas aqueles domínios são frequentemente cruzados por mercadores, comerciantes, e é num desses caminhos tortuosos que fica a estalagem de Silêncio Montane, uma boa mulher que pode esconder alguns… esqueletos no armário. História bem escrita e bem desenvolvida, embora confesse que esperava um final mais Woow!

“O conto de Brandon Sanderson é mais uma viagem alucinante ao universo da Cosmere. Passado no mundo de Threnody, o conto «Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno» é, de longe, o melhor da antologia.”

Uma Rainha no Exílio de Sharon Kay Penman foi um conto aborrecido. Embora a história de Constança de Hauteville e do seu esposo Henrique von Hohenstaufen, Rei da Germânia e herdeiro do Sacro Império Romano-Germânico seja bastante interessante, a forma documental como foi contada deu-me sono. Para além de que a mulher só se revela realmente perigosa… na nota de autora final. Faltou-lhe aqui muita coisa para me agradar.

Passado no mundo de Os Mágicos, a obra mais conhecida do autor Lev Grossman, A Rapariga no Espelho foi um conto engraçado e juvenil. A escrita revelou-se competente e o mundo uma clara “imitação” de Harry Potter, com uma pequena e deliciosa referência a Hermione Granger. Passada na escola de Brakebills, fala de como a presidente da Liga, Plum, investiga a razão por que Wharton anda a servir muito pouco vinho às refeições. Simples e dinâmico, serviu para entreter mas só.

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Fonte: http://mirandameeks.com/portfolio/brandon-sanderson-book-cover/

Chegamos então àquele que foi, para mim, a maior revelação da antologia. Eu já conhecia o trabalho de Sam Sykes pelas redes sociais e plataformas digitais, mas nunca tinha lido nada dele. Ao ter o primeiro contacto com a sua prosa, adorei. Posso dizer que a sua escrita bastava para tornar este conto um dos meus preferidos da antologia. Mas houve mais. O filho de Diana Gabaldon trouxe em Dar Nome à Fera uma das suas criações literárias, os shicts. Eles assemelham-se a elfos com ar de índios, mas talvez sejam mais parecidos ainda aos na’vi do filme Avatar.

Sam atira-te para um ritual de iniciação inusitado, não te entrega a história e obriga-te a um esforço permanente para não te sentires perdido. Todo narrado pelo ponto de vista da shict Kalindris, em dois planos temporais distintos, o conto faz-nos temer as feras para surpreender quando elas são finalmente reveladas e fazer-nos questionar quem é quem. A questão que permeia o terço final do conto fica sem resposta, mas a ideia que passa é que os povos estão tão agarrados às suas tradições que aquilo que fazem é justificável por si só porque tal faz parte da sua identidade.

Sem Título
Fonte: http://www.samsykes.com/lost-pages/shicts/

As Mentiras Que A Minha Mãe Me Contou é o penúltimo conto da antologia. Passada no ambiente da série antológica de George R. R. Martin Wild Cards, a história de Caroline Spector apresenta-nos os Wild Cards Michelle, que projeta bolhas, Joey, fabricante de zombies, e ainda Adesina, uma menina cujo rosto pende de um corpo de inseto mas ainda assim pergunta-se se será cortejada pelos colegas de escola. Uma história divertida, simples e leve, mas que, talvez por não ser bem o meu género, e ser bem longa, não me agradou por aí além.

A antologia termina com a maior de todas as histórias do livro. A Princesa e a Rainha ou Os Negros e os Verdes, de George R. R. Martin, conduz-nos ao mundo de A Guerra dos Tronos, para narrar o período conhecido como A Dança dos Dragões. O rei Viserys I Targaryen deixou claro que o Trono de Ferro seria herdado pela filha mais velha, Rhaenyra, filha única do seu primeiro matrimónio, mas quando morre, nem a sua viúva, a Rainha Alicent, nem o filho de ambos, Aegon II, nem mesmo a Mão do Rei, Sor Criston Cole, parecem dar grande consideração a tal facto, pois é inconcebível que o trono seja tomado por uma mulher. Assim, Rhaenyra e Aegon começam uma batalha incrível que colocará todos os Sete Reinos em sentido.

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Fonte: http://char-portraits.tumblr.com/post/142748682337/fire-and-blood-by-ludvikskp

A história é enorme e contada de forma meio documental, com o discurso direto usado pontualmente. Confesso que prefiro, muito mas muito mais, os pontos de vista usados por Martin nas suas Crónicas. Mas, se o conto de Sharon Kay Penman, narrado desta forma, não me aliciou minimamente, posso dizer que George R. R. Martin agarrou-me sobremaneira e só consegui largar a história ao último parágrafo. Uma sequência vertiginosa de combates entre dragões, mortes e traições, “A Princesa e A Rainha ou Os Negros e Os Verdes” é uma história extraordinária, bem melhor que o “Príncipe de Westeros” que Martin escrevera em Histórias de Aventureiros e Patifes.

“Mas, se o conto de Sharon Kay Penman, narrado desta forma, não me aliciou minimamente, posso dizer que George R. R. Martin agarrou-me sobremaneira e só consegui largar a história ao último parágrafo.”

Esta história de George R. R. Martin peca um pouco no que diz respeito à edição, por não conciliar totalmente os termos com os usados nas Crónicas de Gelo e Fogo da mesma editora (por exemplo, o Estranho é aqui chamado de Forasteiro), já para não falar de algumas falhas de coerência, ao usar tanto a palavra valiriano, como valyriano ou valyrian na mesma história. Também Larys começa por ter o cognome Pé-Torto para terminar como Larys, o Coxo.

Concluindo, Mulheres Perigosas é uma excelente antologia que, tão certamente não agradará a todos, como todos terão histórias de que irão gostar. A nível de edição, confesso que adorei a capa e o facto de a lombada casar na perfeição com as das antologias anteriores. O conto de Brandon Sanderson, “Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno” é o meu preferido, com “Dar Nome à Fera” de Sam Sykes na segunda posição, mais pelo que me fez sentir do que pela história em si, e “A Princesa e a Rainha ou Os Negros e os Verdes “de George R. R. Martin encerra o meu Top 3, graças ao envolvimento e ação que me fez matar as saudades daquele mundo incrível que é Westeros.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 7/10