Estive a Ler: A Louca do Sacré-Coeur

Quando há oito anos puseste em prática uma das tuas geniais “teorias”… passaste a ser um “monge universitário”… deixaste de fazer amor para te vestires de violeta!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Louca do Sacré-Coeur” (Formato BD)

Alejandro Jodorowsky e Moebius, dois dinossauros da Nona Arte, uniram-se para conceber A Louca do Sacré-Coeur. Os autores dispensam apresentações. Vanguardista e conhecido pela polémica dos seus escritos, seja na banda-desenhada, no teatro ou no cinema, Jodorowsky ganhou amores e ódios com a peculiaridade e sordidez da sua obra. Já Moebius, pseudónimo do artista Jean Giroud, foi um dos mais notáveis ilustradores franceses do último século.

Dividido em três partes, uma vez que o álbum foi publicado originalmente em três volumes, entre 1992 e 1998, A Louca do Sacré-Coeur saiu por cá em 2015, incluído na Colecção Novela Gráfica da Levoir em parceria com o Jornal Público. Com tradução de José de Freitas e Pedro Cleto, trata-se de uma crítica religiosa e social mirabolante e tresloucada.

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Capa Levoir / Público

Um professor violeta

A Louca do Sacré-Coeur apresenta-nos Alain Mangel, um professor de filosofia na Sorbonne que parece um homem cheio de valores. É um daqueles professores intelectuais que atraem os alunos com tanta facilidade que quase se tornam uma super-estrela na Universidade. Aquele professor que todos os alunos gostariam de ter. Todas as certezas e seguranças deste selecto professor vestido de roxo parecem desaparecer quando é seduzido por uma jovem aluna e é enredado numa aventura alucinante.

Mangel parece sofrer uma daquelas crises de meia-idade, o que compromete definitivamente o seu casamento. Elizabeth é a aluna que lhe vai dar a volta à cabeça, arrastando-o para uma loucura de contornos místicos e sexuais. Ela leva-o para um mundo iniciático que utiliza a religião em cerimónias lascivas de pura loucura e blasfémia, com recurso a drogas.

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Prancha Levoir / Público

Uma rapariga louca

Tendo como objetivo gerar o novo Messias, a seita onde Mangel se inicia leva-o a pactuar com uma loucura desenfreada, a um baptismo sui-generis, a uma gravidez desejada, ou nem tanto, mas também aos caminhos perversos do crime. Mas o que parece uma brincadeira sórdida pode comprometer não só a sua reputação, como pôr em risco a própria vida e convicções.

A atração física por raparigas bem mais jovens desvirtua este professor catedrático de tal forma, que nem mesmo as suas ideologias religiosas escapam impunes. Drogas, sexo e brincadeiras blasfemas transformam-se numa reflexão sobre a natureza humana e numa corrida pela própria integridade numa história inquietante que mistura dramas pessoais, xamãs, guerrilheiros da América Latina e a conservadora religião estanque no Sagrado Coração de Paris.

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Prancha Levoir / Público
SINOPSE:

Moebius, pseudónimo usado por Jean Giraud, foi um dos mais inovadores artistas de banda desenhada, e encontrou no escritor chileno Alejandro Jodorowsky o parceiro perfeito para desenvolver um estilo muito variado, marcado pelo sentido do real aliado a uma componente onírica e surrealista muito fortes. Juntos, assinaram uma das mais revolucionárias obras de banda desenhada de sempre, a série do “Incal”. Nos inícios da década de 1990 voltariam a reunir-se para este livro, talvez o mais singular da obra destes dois autores.

Alain Mangel, professor de filosofia na Sorbonne, é seduzido por uma das suas alunas, Elizabeth. Possuída por verdadeiros delírios místicos, ela arrastará o professor para um furacão de acontecimentos inesperados e delirantes que irão pôr à prova a racionalidade de Mangel. Um misto de paródia mítica, farsa sagrada, caminho iniciático e exorcismo, o percurso do protagonista vai levá-lo a abrir os seus olhos para outra realidade.

OPINIÃO:

Uma sátira à espiritualidade, à religião e à natureza humana, A Louca do Sacré-Coeur de Moebius e Jodorowsky é também uma espécie de reflexão pessoal do Homem enquanto ser que erra e se deixa influenciar pelo pensamento coletivo. De certa forma autobiográfico, o que se percebe quando Moebius desenha o protagonista do álbum como o próprio Jodorowsky, este livro deixa claramente uma mensagem de que todos pagam o preço pelas próprias escolhas e todos somos falhos enquanto seres humanos. É a partir daqui que se desenvolve uma narrativa louca, que promete alguma diversão e crítica moral.

Não gostei muito deste álbum. Jodorowsky não encanta na escrita. Muito embora tenha adorado o seu trabalho em Os Bórgia, em colaboração com Milo Manara, o autor chileno já não me havia conquistado com Bouncer, e este livro não trouxe melhorias a esse respeito. O que mais me apraz neste autor é mesmo a ousadia e a forma com que escancara a podridão da mente humana. A arte de Moebius é boa, revelando nos traços fortes e cores densas a identidade inconfundível do melhor estilo franco-belga. Confesso que nunca vi mais nada deste célebre artista francês para comparar, mas a fama que o precede não me desapontou.

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Prancha Levoir / Público

Esperava mais deste A Louca do Sacré-Coeur, mesmo tratando-se de uma aventura de bom ritmo com momentos marcantes e cenas bem-humoradas. A forma disparatada com que os temas religiosos foram tratados não me chocou, mas em nenhum momento senti uma justificativa ou um “oh yes” de uma cena mais genial. As várias histórias a que somos apresentados entrelaçam-se mas acabam por não trazer nada de relevante para o plano principal.

“A forma disparatada com que os temas religiosos foram tratados não me chocou, mas em nenhum momento senti uma justificativa ou um “oh yes” de uma cena mais genial.”

Em alguns momentos frívolo, em outros pertinente, o álbum A Louca do Sacré-Coeur não foi, porém, uma leitura má. Tanto a proposta como as imagens agradaram-me, a concretização das ideias e a frugalidade dos diálogos e das histórias, porém, comprometeram as minhas expectativas.

Avaliação: 5/10

Estive a Ler: Os Senhores do Norte, Crónicas Saxónicas #3

O destino é inexorável.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Os Senhores do Norte”, terceiro volume da série Crónicas Saxónicas

Bernard Cornwell é um nome que figura na linha da frente da ficção histórica em todo o mundo. O autor londrino é o responsável por uma sucessão de best-sellers de grande êxito, da trilogia dos Senhores da Guerra às aventuras de Sharpe, passando pelas Crónicas de Nathaniel Starbuck, Stonehenge ou a série Crónicas Saxónicas, que relata a vida do personagem fictício Uthred de Bebbanburg.

Publicado pela Edições Saída de Emergência no passado mês de abril, o livro Os Senhores do Norte é o terceiro volume das Crónicas Saxónicas, com tradução de Paulo Alexandre Moreira. O livro foi adaptado pelas mãos da BBC, correspondendo a parte da segunda temporada da série televisiva The Last Kingdom.

Era o destino que me guiava. Tinha vinte e um anos e acreditava que as minhas espadas podiam ganhar o mundo para mim. Era Uthred de Bebbanburg, o homem que matara Ubba Lothbrokson junto ao mar e que derrubara Svein do Cavalo Branco da sela em Ethandun. Era o homem que devolvera a Alfredo o seu reino, e odiava-o. Por isso ia abandoná-lo. O meu caminho era o caminho da espada, e seria esse caminho que me conduziria até casa. Iria para norte.

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Arte (Fonte: pinterst.com/viking-art)

Uma vingança há muito adiada

De modo algum Uthred de Bebbanburg esqueceu a falta de gratidão de Alfredo para consigo. Depois de liderar as suas forças e fazer o rei vencer a célebre batalha de Ethandun, quando não só o destino de Alfredo como o de toda a Inglaterra podia ter sido desvirtuado em favor dos dinamarqueses, o rei ofereceu-lhe em agradecimento apenas cinco peles, que mais não era que uma pequena porção de terreno. Magoado, Uthred dirige-se a norte, decidido a recuperar o que é seu por direito: Bebbanburg, a fortaleza que o viu nascer, a inexpugnável casa que o tio Ælfric reclamou para si após a morte do seu pai, quando Uthred foi acolhido pelos dinamarqueses e criado entre eles.

O Wessex está mais forte do que nunca. O homem que liderava as forças dinamarquesas, Guthrum, foi derrotado e declarou-se cristão, sendo mesmo batizado e colaborando com Alfredo por imposição tácita. Ragnar, o irmão de criação de Uthred, e a sua amante Brida continuam reféns de Alfredo, mas nada isso impede Uthred de cumprir o seu destino. As tecedeiras fazem as suas tramas aos pés de Yggdrasil e o destino é inexorável.

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Vikings (Fonte: pinterest.com)

Se pudessem, Ivarr e Kjartan transformariam a Nortúmbria num bastião pagão, e Alfredo queria evitar que isso acontecesse. Como tal, Beocca devia pregar a paz e a conciliação, mas Steapa, Ragnar e eu iríamos armados de espada. Éramos os seus cães de guerra, e Alfredo sabia muito bem que Beocca seria incapaz de nos controlar.

E é o destino a colocar Uthred na Nortúmbria natal, onde cães raivosos tentam reclamá-la para si. Junto de Hild, a freira que se tornara sua amante depois de a libertar da prostituição, Uthred regressa às suas origens. Por vontade dos deuses, tropeça em Guthred, um dinamarquês convertido ao Cristianismo. Foi feito escravo, mas quando o liberta das garras dos seus inimigos, percebe também que ele é um rei. Ou, pelo menos, o rei que o Wessex necessita. Num norte fustigado por irascíveis senhores dinamarqueses, Guthred é o pregador da vontade de Deus. Acompanhado por um séquito de padres velhos e irascíveis, como o intragável Hrothweard, e pela irmã Gisela, por quem Uthred se encanta, Guthred defende Cair Ligualid, um pequeno povoado que herdara do seu pai, um afamado conde local.

Uthred torna-se amigo de Guthred com facilidade, não só pelo charme natural do jovem senhor, como pela sua genuína ingenuidade para com a guerra. Guthred deseja semear o Cristianismo no norte, mas os homens que o seguem não são os mais indicados. Por mais disparatadas que sejam, as vontades dos padres convencem sempre Guthred, desde que lhe digam que sonharam com São Cutberto e que ele lhes disse o que haveriam de fazer. A credulidade de Guthred é uma das coisas que Uthred mais odeia nele, assim como a obsessão em ser tolerante para com os outros e seguir o exemplo de Alfredo, que Uthred tanto odeia.

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Guerreiro dinamarquês (Fonte: amuse.laurakress.com)

As relíquias dos santos são levadas para todo o lado por estes homens, consideradas mais valiosas que as suas próprias vidas. Uthred serve os saxões, mas é um dinamarquês de alma e coração, e cuspir em toda aquela fantochada é uma tentação grande, apenas refreada porque não só deseja ardentemente a irmã de Guthred e gosta do autoproclamado rei, como os seus inimigos são também os dele. Ælfric, o seu tio, em Bebbanburg. Kjartan, O Cruel, em Dunholm, e Ivarr Ivarson, nas terras em redor.

Se Uthred olhava para Ælfric como o seu maior inimigo, não guardava por Kjartan melhor estima. Fora o responsável pela morte do seu pai de criação, Ragnar Lothbrokson, e o raptor da filha deste, a jovem Thyra, em desforra por este ter mutilado o olho do seu filho como castigo por ele a desnudar. Uthred havia estado lá, e tivera papel determinante em tudo aquilo. Agora, era tempo de se vingar. Ivarr não lhe suscitava tanto ódio, mas ele era filho de Ivar, irmão de Ubba, e os irmãos Lothbrokson haviam sido temíveis quando ele era apenas um garoto, o que não o impediu de matar o mais poderoso de entre eles.

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Os Ragnar são todos iguais :p (Fonte: pastemagazine.com)

Uma traição óbvia

Quando a terra de Guthred é atacada por uma esquadra de assalto formada por oito homens de Kjartan, Uthred percebe que os jovens que defendem Cair Ligualid não são tão despojados de valor quanto presumia. Assim sendo, decapita os inimigos, deixando apenas um filho bastardo de Kjartan como aprendiz e refém, Sihtric, e envia-lhes as cabeças como resposta de uma figura fantasmagórica, que antes havia assustado o primogénito do seu inimigo: Sven, o Zarolho. Mas essa ação acontece tardiamente, quando Ivarr já havia sido derrotado pelos escoceses e Guthred se dispusera a abrigá-lo em troca de uma aliança.

A identidade de Uthred é colocada a descoberto, e os planos de Guthred rapidamente saem do controlo do bravo guerreiro. Usando a irmã Gisela como vaca de paz, possível chave para uma aliança estratégica, promete-a ao filho de Ivarr, Ivar, para cimentar a sua aliança ténue. Envenenado por Ivarr e pelos padres, Guthred acaba por sacrificar Uthred, de modo a alcançar um acordo com Kjartan que fosse favorável a todos. Absorto com tal surpresa inesperada, Uthred entrega a Hild a espada Bafo de Serpente e a sua armadura e fá-la jurar que as guarda para si, enquanto é vendido por Guthred a um navio, como escravo.

Nos dois anos em que vive como escravo em alto-mar, Uthred não esquece Gisela nem a sua sede de vingança. Ali conhece Finan, um escravo irlandês com quem enceta uma amizade duradoura, mas é quando regressa ao local onde foi vendido, onde reencontra velhos amigos e inimigos, que irá despoletar uma guerra à escala global, onde Alfredo lançará Uthred e os seus melhores homens como dados para um tabuleiro onde pretende fazer com que Guthred ganhe o norte.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Uma poderosa história de traição, romance e luta numa Inglaterra cheia de convulsões, sublevações e glória

Corre o ano de 878, e o Wessex está livre de vikings. Uhtred, o filho expropriado de um senhor da Nortúmbria, ajudou Alfredo a obter a vitória, mas sente-se desgostado com a falta de generosidade de Alfredo e repelido pela insistente piedade do rei. Parte do Wessex, com destino ao Norte, em busca de vingança pela morte do pai adoptivo e para salvar a irmã adoptiva, capturada num ataque. Para tal, precisa de encontrar o seu velho inimigo, Kjartan, um lorde dinamarquês renegado que se esconde na formidável fortaleza de Dunholm.
Uhtred chega ao Norte para se deparar com a rebelião, o caos e o medo. A sua única aliada é Hild, uma freira saxã ocidental em fuga à vocação, e a sua maior esperança reside na própria espada, com a qual construiu uma reputação formidável enquanto guerreiro. Para obter a tão desejada vingança, precisará do auxílio de outros guerreiros para confrontar os poderosos e cruéis senhores vikings do Norte.
OPINIÃO:

Sem grandes adjetivos que possam fazer-lhe justiça, estamos perante um livro de leitura compulsiva, e sinceramente dos melhores romances históricos que já li. Os Senhores do Norte, terceiro volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, é um livro vibrante, que só nos deixa descansados quando passamos a última página. À semelhança, aliás, dos livros anteriores.

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Guerreiro viking (Fonte: youtube/channel/UC)

Estou a falar de um livro despretensioso. Ele não tem uma história rocambolesca nem muito mais trabalho de fundo que os livros anteriores, nem sequer a escrita de Bernard procura surpreender os leitores com a sua erudição. Não precisa. O autor britânico escreve bem por naturalidade, de forma fluída e descomplexada. De tal modo que certas passagens parecem casuais, e quando estamos a deixar-nos fluir no caudal sereno da sua escrita, ele mata-nos. Não literalmente. Ele surpreende e dá-nos plot twists deliciosos sem dar qualquer indício disso, sem qualquer suspense ou chamada de atenção. E é isso que eu amo em Bernard Cornwell.

“O autor britânico escreve bem por naturalidade, de forma fluída e descomplexada. De tal modo que certas passagens parecem casuais, e quando estamos a deixar-nos fluir no caudal sereno da sua escrita, ele mata-nos. Não literalmente.”

A história em si foi muito bem montada. Parece algo avulsa, sem uma predefinição explícita. Uma ideia momentânea do autor. E, de repente, ele une pontas soltas e resolve os problemazinhos que ele tinha deixado lá no primeiro livro. E isso é delicioso. Adoro os senhores dinamarqueses com toda a sua sobranceria e poderio aparentemente inabalável… pelo menos até aparecer o Uthred nas suas vidas. É como a Guerra dos Cinco Reis das Crónicas de Gelo e Fogo, com um estilo mais corrido e igualmente realista – indubitavelmente mais real em teoria.

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Oh yeah 😀 (Fonte: growabeardnow.com)

Bernard Cornwell consegue fazer o seu protagonista chegar aos vinte e poucos anos já com um rol de mulheres bem grandinho na sua lista vida. E fá-lo sem sexualizar demasiado a mulher, oferecendo-lhes caráter e personalidades únicas. E se faltam cenas íntimas no decorrer dos livros, protagonizadas por Uthred, tal é uma opção que se adapta. Os diálogos adultos e os subentendidos suprimem facilmente essa carência.

Se houve algo que não gostei neste livro, foi a forma com que uma determinada fortaleza foi tomada e a lealdade criteriosa de certos animais para efeitos narrativos. Não tenho nada mais a apontar. É um livro pequeno, que se lê com facilidade e não deixa o leitor separar-se dele por muito tempo.

As Crónicas Saxónicas são uma saga incrível pela forma simples com que nos mostra cenas históricas reais e as torna palpáveis, com uma certa dose de imaginação sempre bem-vinda. Não há grande aprofundamento de personagens, para além do protagonista, mas não é essa a intenção do autor e em boa verdade, o que Bernard Cornwell nos oferece já é bom que chegue.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

Crónicas Saxónicas (Saída de Emergência):

#1 O Último Reino

#2 O Cavaleiro da Morte

#3 Os Senhores do Norte

Estive a Ler: Os Dilemas do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #2

Ele fez um pequeno gesto de indiferença com a mão. “Não duvido de que tenha sido. Mas agora falo de outra coisa. Falo de dragões verdadeiros. Dragões que respiram, que comem e crescem e se multiplicam como qualquer outra criatura. Alguma vez sonhaste com um dragão assim? Um dragão chamado Tintaglia?”

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Os Dilemas do Assassino”, segundo volume da série Saga O Regresso do Assassino

Com tradução de Jorge Candeias, Os Dilemas do Assassino corresponde à primeira metade do livro The Golden Fool, o segundo da trilogia The Tawny Men da autora californiana Margaret Ogden, mais conhecida entre os fãs de fantasia como Robin Hobb. Publicado pela Edições Saída de Emergência em 2011, este é o primeiro livro da autora que leio incluído no passatempo Vamos Viajar com Robin Hobb, que estou a organizar aqui no blogue e nas redes sociais.

Licenciada em Comunicação na Universidade de Denver, Colorado, e residente em Washington, Robin Hobb escreveu cinco trilogias pertencentes ao mundo de FitzCavalaria Visionário, uma série conhecida como The Realm of Elderlings, dos quais três trilogias têm Fitz como protagonista. São mesmo essas três trilogias que estão a ser publicadas em português, sendo que o primeiro livro da terceira série sai já esta semana, motivo pelo qual iniciei este desafio.

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Bobo e Fitz (Fonte: vlac.deviantart.com)

Um noivado turbulento

O Príncipe Respeitador é o herdeiro dos Seis Ducados. Filho de Kettricken das Montanhas e de Veracidade Visionário, então morto, tornou-se um rapaz bastante promissor. Para assegurar a paz e a subsistência mercantil do seu reino, a rainha estabeleceu um acordo com os ilhéus, prometendo a mão do seu filho à narcheska das Ilhas Externas, Eliânia. Eles são um povo selvagem, de quem não se guarda a melhor das recordações. As Runas de Deus são um grupo de ilhas hostis, com um povo bélico, aguerrido às suas tradições e com um caráter temperamental, diretamente envolvido na guerra que fustigou os Seis Ducados por anos.

As cerimónias de noivado são, por isso, uma oportunidade única para que se conheçam mutuamente e, também, um período de grande exigência protocolar, uma vez que qualquer atitude menos ponderada pode pôr em cheque não só o noivado como a própria paz entre os povos. O príncipe, porém, sofreu demasiadas mudanças recentes na sua vida, para que se preocupe em demasia com isso. Uma seita de manhosos revoltada com os maus-tratos a que os seus iguais, aqueles que possuem o dom de se conectar com animais, têm sido alvo, começou a perseguir e a chantagear os que comungam do mesmo dom e que se recusam a admiti-lo.

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Bobo/Dom Dourado (Fonte: enife.deviantart.com)

Os pigarços, como se chamam, conjuraram um plano que resultou na captura do príncipe. Graças ao Bobo e a FitzCavalaria, agora conhecidos como Dom Dourado e o seu criado Tomé Texugo, o príncipe regressou a Torre do Cervo em segurança, a tempo da chegada da narcheska e do seu contingente. No entanto, as perdas sofridas deixaram-nos abalados e a ameaça continua eminente. Louvovinho, o líder dos pigarços, encontra-se a recuperar de ferimentos, mas os seus sequazes sabem quem Respeitador é, e sabem que ele também é manhoso, assim como o criado chamado Tomé Texugo. Fitz é alvo de uma espera e uma mensagem subliminar é-lhe deixada, assim como a Loureira, a caçadora da rainha que, ainda que não partilhe o dom, é a única da sua família que não o obteve.

Olhos-de-Noite morreu e a gata a quem Respeitador era filiado também. Fitz não consegue curar as suas feridas, mas a dor aproxima-o de Respeitador, que vê nele o único amigo a quem recorrer. Ainda que o príncipe desconheça que o criado de Dom Dourado é, na verdade, seu tio, insiste em ser treinado por este na arte do Talento, uma magia poderosa nos Seis Ducados. Fitz começa a treinar o rapaz, embora nunca tenha sido realmente versado nessa matéria. Os problemas na vida de ambos, porém, não se resumem à dor da perda e à ameaça dos pigarços.

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Eliânia (Fonte: sffbookreview.wordpress.com)

Uma chuva de problemas

Fitz acaba por não resistir ao calor que Gina representa. A bruxa ambulante que acolheu o seu filho adoptivo torna-se mais do que uma amiga e conselheira, vindo a ser também sua amante. Isso, porém, revela ser fraco consolo para as suas carências afetivas, e rapidamente percebe não estar a ser justo para consigo ou para com a mulher. Também o seu rapaz, Zar, o desilude, com comportamentos indisciplinados como aprendiz do seu ofício. O namoro com Esvânia parece ser a causa de tais problemas, mas o jovem não parece incomodar-se com a ira do tutor nem mesmo com a ameaça que o pai da rapariga pode significar.

O contingente das Ilhas Externas também é um problema a ter em conta. Nos labirintos secretos de Torre do Cervo, Fitz tem acesso ao quarto de Eliânia, onde percebe rapidamente que Peotre Aguapreta, o tio da rapariga, tem muito mais influência política e pessoal na vida dela do que o seu próprio pai, o aparente líder Arcão Espadarrubra. Também a misteriosa aia da jovem, Hênia, parece ser a voz de alguém importante, com ideias estabelecidas e algo diferentes daquelas que Eliânia ou Peotre defendem.

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Se Trump governasse Torre do Cervo, as coisas não correriam bem (Fonte: allthe2048.com)

A união entre Eliânia e Respeitador não parece ser vista com bons olhos pela jovem, e tão pouco pelo príncipe, que comete uma gaffe ao menosprezá-la durante um jogo com a Dama Vance, sobrinha de Dom Sextão de Razos, por quem o príncipe parece sinceramente mais interessado. O erro de Respeitador obriga Kettricken a agir mais rapidamente, mas a rainha, velha amiga de Fitz, não consegue fazer muito quando tudo à sua volta parece mover-se por si mesmo. Nem mesmo Breu, o seu velho conselheiro, parece tão capaz como antes para mover as peças do jogo, fruto da sua idade avançada.

Caiem em FitzCavalaria as rédeas dos acontecimentos. Cansado de lutar contra os ímpetos dos jovens, uma vez que tanto Respeitador como Zar transformaram-se nos principais causadores dos seus problemas, não se esquece da filha Urtiga, que o procura nos sonhos através do Talento. Também é obrigado a lidar com Obtuso, o criado deficiente de Breu que se revela forte no Talento, e com as dúvidas em relação a Cortês Bresinga, o manhoso de quem sempre suspeitou estar envolvido na armadilha dos pigarços a Respeitador, presente em Torre do Cervo para as comemorações do noivado.

Também Bobo se transforma numa personagem de difícil interpretação. Boatos em torno da sua verdadeira natureza percorrem Torre do Cervo, e as revelações que Fitz tem de uma faceta do seu passado levam-no a perder a confiança que sentia para com o melhor amigo. Mas é a chegada de uma comitiva de Vilamonte, protagonizada por um jovem escamoso chamado Selden Vestrit, a pedir ajuda para fazer guerra a Calcede, e a referência a um dragão chamado Tintaglia, que revoluciona não só as cerimónias de noivado como o próprio âmago de Torre do Cervo.

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Capa Saída de Emergência (Fonte: saidadeemergencia.com)
SINOPSE:

Uma obra-prima da fantasia épica.

O seu nome é murmurado com temor e respeito. A sua figura move-se nas sombras da noite e das políticas. Acaba de salvar o herdeiro do reino. Mas será suficiente? Depois de salvar o príncipe das garras dos pigarços e de sofrer a mais devastadora perda possível ao fazê-lo, o lendário assassino regressa ao lugar a que em tempos chamou lar. Aí, esperam-no dias difíceis de adaptação, mas também o esperam oportunidades, velhos e novos amigos e até um filho adolescente. E espera-o também um príncipe, do seu sangue sem que o saiba, dotado com as magias desse sangue mas sem conhecimentos para lidar com elas, e prometido a uma princesa estrangeira. Como irá Fitz lidar com todos os desafios que o aguardam em Torre do Cervo? Que soluções encontrará para os seus dilemas?

OPINIÃO:

Um mar de conflitos e de intrigas, Os Dilemas do Assassino é mais uma prova de que Robin Hobb é muito mais do que apresentou na primeira trilogia. Elegante, fluída e cheia de ritmo, esta leitura revelou-se bem mais célere e estimulante do que eu a imaginava. A promoção de reflexões interiores e a discussão sobre temas comuns a todos nós como a juventude, a honestidade e o bem-estar emocional foram maravilhosamente decompostos pela autora californiana, que em nenhum momento deixou cair o gume da sua “pena”.

Hobb apresenta-nos a um mundo fantástico e torna-o credível e isso é, sinceramente, o que mais me apraz em ler um livro. Ela relata com beleza cada cenário, sem excluir as ervas daninhas que, irrefutavelmente, povoam cada realidade. Se os momentos de introspeção, em outros momentos, me deixaram entediado com as aventuras de Fitz, aquelas que tenho agora oportunidade de ler surgem como um intervalo após cada acontecimento, levando-me a pensar sobre o mesmo, a maturar as questões e a respirar fundo. Cada introspeção revela-se tão ou mais deliciosa que os eventos em si.

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Será? :p (Fonte:makeameme.org)

Muito embora a trama dos pigarços seja de facto irreal, este segundo volume traz mais fantasia que o primeiro livro, e isso não é mau. Embora ainda torça o nariz à adição de mais dragões a esta série, tanto a referência a Tintaglia como a navivivos me deixa a querer saber mais sobre eles. Os novos personagens revelaram-se mais promissores e cheios de potencial que aqueles que povoaram o primeiro volume, e os mistérios foram posicionados muito bem do ponto de vista estratégico. Ainda assim, aqueles que envolvem os personagens centrais da narrativa parecem ainda mais apelativos. Bobo, o que raio andaste tu a fazer?

“Os novos personagens revelaram-se mais promissores e cheios de potencial que aqueles que povoaram o primeiro volume, e os mistérios foram posicionados muito bem do ponto de vista estratégico.”

Pouco vimos de Kettricken nestes dois livros e, no entanto, ela é uma das personagens que mais me agradaram. A sua evolução revelou-se nos pequenos pormenores, dos trejeitos aos comportamentos que Robin Hobb tão bem sabe desenhar. A evolução comportamental e a maturidade são tão visíveis nessa personagem como no próprio Fitz, que ganhou o meu respeito nestes livros. Ganhou experiência e perdeu intempestividade, muito embora continue a aprender com as próprias experiências. Breu é outra das boas surpresas deste livro, com duas facetas tão enigmáticas quanto realistas. O avançar da idade é relatado com credibilidade. Também Respeitador revela-se, livro após livro, um personagem cheio de potencial, e Loureira continua de certo modo um mistério.

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Breu Tombastrela (Fonte: tumblr.com/farseer)

Não seria, confesso, um livro que eu escreveria. Não é um género de fantasia que me empolgue por aí além e é bem mais esmiuçado e menos sugestivo do que aquilo que me apaixona. O medieval também não parece trazer grandes novidades. Mas a escrita envolvente e as questões debatidas pela autora, a par da riqueza de personagens criadas, merece não só a minha pontuação como os meus maiores elogios.

Vamos Viajar com Robin Hobb é um desafio NDZ para que todos aqueles que querem embarcar comigo na aventura de ler, de 8 de maio a 8 de julho, um ou mais livros da autora. Eu vou ler mais, e vocês?

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Estive a Ler: Bolos Janados, Tony Chu: Detective Canibal #6

Quem dá mais? 900,000$ uma. 900,000$ duas.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Bolos Janados”, sexto volume da série Tony Chu: Detective Canibal (Formato BD)

A G Floy Portugal volta a presentear os seus seguidores com o novo volume de Tony Chu: Detective Canibal. O sexto volume da série mais louca da banda-desenhada inclui os números originais 26 a 30, com o P.V.P. dois euros mais caro que o dos antecessores, preço justificado por conter mais páginas. Os americanos John Layman e Rob Guillory são mais uma vez responsáveis pelo argumento e ilustração, com a colaboração de Taylor Wells na cor.

Para quem não conhece a série, Tony Chu: Detective Canibal, best-seller do New York Times, conta as aventuras e desventuras de um detetive com a capacidade invulgar de ver o passado daquilo que come; uma série granjeada com dois Prémios Eisner e dois Prémios Harvey. Esta edição é também marcada por alcançar a metade de um dos projetos mais elogiados da Image Comics na última década. Contém um especial de pin-ups sobre o galo Poyo, com ilustrações de Ben Templesmith, Nick Pitarra, John McCrea, entre outros.

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Prancha G Floy

Toni ao volante

Todos sabem que a família de Tony Chu não é propriamente aquilo que se pode chamar de tradicional. O irmão mais velho, Chow Chu, é um cozinheiro conhecido pelas suas excentricidades. Ressentido por perder a licitação de um quadro valiosíssimo do famoso pintor Quindim Buongiovanni, arrasta a irmã Antonelle para uma perseguição ao homem que venceu o leilão – Barnabas Cremini. É que o seu irmão mais famoso, Tony, está em coma.

Antonelle – mais conhecida como Toni – é a irmã-gémea de Tony e trabalha como agente da NASA. É na cama com o seu colega, o muçulmano Paneer, que ela inicia esta aventura, habilitando-se a um desastre amoroso quando ele a pede em casamento e ela morde-lhe o ombro. É que, se Tony é um cibopata, a sua irmã é cibovidente, ou seja, vê o futuro de tudo aquilo que come.

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Prancha G Floy

As agências unem forças

É numa das suas visitas ao hospital, para ver o irmão, que ela se cruza com o agente da FDA Caesar Valenzano, e tem a sensação que se recorda dele de algures. Logo se lembra de uma visita de Mason Savoy e Valenzano à sede do Farmington-Kapusta International Telescope, onde Jacob Butterfield albergava uma coleção de rãs nada ortodoxa. O mesmo Jacob que lhe apresenta os… bolos janados. Quem também visita Tony é o seu antigo parceiro, John Colby, agora agente da USDA, e o galo ciborgue Poyo.

A trabalhar no mesmo caso, Colby e Valenzano saem do hospital com um Tony delirante e unem forças para recuperar e interrogar o célebre engenheiro genético Angus Hinterwald, feito refém pelo grupo de marginais com quem se envolveu para desenvolver um programa inovador sobre genes bovinos. Como não podia deixar de ser, é o galo Poyo a salvar o dia.

Por fim, a FDA, a USDA e a NASA acabam por unir forças para descobrir informações sobre Judy Heinz-Campbell, a dona de um salão de beleza que consegue fazer milagres com a aparência de quem entra no seu negócio. Na verdade, essa mulher está relacionada com o artista Quindim Buongiovanni e com um “vampiro”. Uma aventura em que Antonelle perde partes do corpo, mas em compensação encontra o amor.

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Capa G Floy
SINOPSE:

A série mais tresloucada dos comics atinge a metade: com o volume 6 de 12, CHU chega a meio do caminho, e começa a recta final que nos levará a descobrir a verdade sobre a FDA, os extra-terrestres, a gripe das aves, a NASA e muito mais!

Tony Chu – o agente federal cibopata com a habilidade de obter impressões psíquicas de tudo o que come – está num hospital, a lutar pela vida, e, por isso, será Toni, a sua irmã gémea, a tomar a dianteira nesta aventura. Toni é cibovidente, e consegue ver o futuro de tudo o que come. E, nestes últimos tempos, tem visto umas cenas mesmo horríveis!

O sexto volume da série bestseller do New York Times, uma bizarra e divertida história sobre polícias, bandidos, cozinheiros, galos assassinos e agentes clarividentes. Apresentando também a incrível história que fascinou a América e impressionou criancinhas em todo o mundo com a sua violência: as aventuras do Agente Secreto Poyo, o galo biónico mais tramado do mundo e arredores!

OPINIÃO:

Todas as vezes que falo sobre Tony Chu: Detective Canibal, pareço repetir-me. É, a par de The Walking Dead e Saga, uma das bandas-desenhadas que me são mais queridas. Explicar porquê é bem mais difícil. A união entre a arte sobejamente reconhecida de Rob Guillory e o argumento irónico, louco e irreverente de John Layman traduz-se numa obra de referência. E sempre que a G Floy tem a gentileza de publicar mais um álbum de Chew, não perco tempo em pegar nele.

As páginas de Tony Chu são um chorrilho de embaraços e situações divertidas, mesclando o improvável com o humor sem perder o fio à meada, por mais desvios que a história central por vezes sofra. É isso que torna a BD deliciosa, o entrecortar de planos sem perder o equilíbrio.

“As páginas de Tony Chu são um chorrilho de embaraços e situações divertidas, mesclando o improvável com o humor sem perder o fio à meada, por mais desvios que a história central por vezes sofra.”

A ideia é, aquilo que se pode chamar no calão português, estrambólica. Original também, se bem que a ideia de um C.S.I com um detetive que descobre o criminoso ao lamber as vísceras da vítima é desconstruída desde o primeiro contacto com os personagens e com o plot. Eles são todos parvos e ridículos e é precisamente isso que transforma a BD em algo louco – saudavelmente louco – e se desdobra num trabalho árduo bem-sucedido.

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Prancha G Floy

Este álbum seguiu à risca aquilo a que John e Rob se propuseram. Vemos menos de Tony e Amelia e mais de Antonelle, com participações de somenos importância de Chow, Valenzano, Colby, Jacob e Paneer. O destaque vai, ainda assim, para o galo Poyo. Esperava mais protagonismo deste personagem, como propagandeado, mas os poucos momentos em que apareceu foram sempre excelentes e marcaram o álbum. A irmã-gémea de Tony Chu também não desiludiu ao protagonizar o volume, parecendo que continuará nessa senda na próxima edição.

Faltou, a meu ver, um antagonista ao mesmo nível. Senti falta de Savoy e das suas intrigas, com o vilão-mor deste álbum a não ter mais do que algum destaque no último terço. Ainda assim, seja lá o que o autor pretende para a série, não faço julgamentos premeditados. Tony Chu: Detective Canibal surpreende em cada número, com desgraças em cima de desgraças, frangos marados e muita adrenalina e ação. Nada é colocado ali por acaso e acabamos por cruzar-nos com personagens cada vez mais doidos. O humor é uma divindade a quem John Layman e Rob Guillory prestam culto com convicção.

Avaliação: 8/10

Tony Chu: Detective Canibal (G Floy Studio Portugal):

#1 Ao Gosto do Freguês

#2 Sabor Internacional

#3 Enfarda Brutos

#4 Sopa de Letras

#5 Fome de Vencer

#6 Bolos Janados

Estive a Ler: A História de um Rato Mau

Estou zangada! Tenho direito de estar zangada! Recuso-me a sentir-me culpada!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A História de Um Rato Mau” (Formato BD)

Um dos mais conhecidos argumentistas e ilustradores britânicos, Bryan Talbot é o criador de The Adventures of Luther Arkwright, Heart of Empire e Grandville. Natural do Wigan, começou a trabalhar no mercado underground de bandas-desenhadas, nos anos 60, mas foi com os seus trabalhos para a Dark Horse e para a DC que viria a destacar-se, colaborando em obras de grande sucesso como Sandman (vê a minha opinião ao trabalho dele aqui e aqui), Fables, Batman ou Hellblazer. Também foi ilustrador das cartas colecionáveis do jogo Magic: The Gathering.

A História de um Rato Mau foi publicado pela Dark Horse Comics em 1994, vindo a ganhar o Prémio Eisner para Melhor Novela Gráfica em 1996, na sua primeira reedição. O livro chegou ao nosso país em julho de 2016, incluído na Colecção Novela Gráfica da Levoir em colaboração com o jornal Público. Uma alegoria sobre sobrevivência que convida a uma reflexão sobre a passividade da sociedade perante situações tão complexas como o abuso sexual de menores.

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Prancha Levoir / Público

Helen Potter

O livro, dividido em três capítulos, seria inicialmente focado no Lake District, mas acabou por ser inspirado na vida da escritora de livros infantis Beatrix Potter. Uma sem-abrigo de dezasseis anos chamada Helen Potter sobrevive nas ruas de Londres, apenas com um rato de estimação e os seus livros. Aliciada pela ideia de suicídio, a jovem Helen revê o seu percurso através de flashbacks, onde conhecemos uma infância prenhe de abusos sexuais por parte do pai e marcada também pela indiferença da mãe. 

Helen foi vítima da própria família, acabando por sentir-se culpada pelos abusos e pela sua infelicidade. Mas Helen também é uma jovem artista cheia de talento. Nas suas movimentações no mundo dos sem-abrigo, ela é vítima da perseguição de um polícia que a tenta assediar, e quando regressa para o grupo que antes a tinha acolhido, encontra o seu rato morto pelo gato de um dos ocupantes.

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Prancha Levoir / Público

Um rato gigante

Decide fazer-se à estrada, rumo ao Lake District, acompanhada pela história de Beatrix Potter e pelas visões fugazes do seu rato, numa dimensão estranhamente gigante. É também acompanhada pelas lembranças do passado, onde pouco a pouco se sabe mais sobre a ruptura que a levou a abandonar o seu lar.

Desde o encontro desagradável com um motorista, até à sua passagem por um bar, onde trabalhou, acompanhamos o percurso íngreme e duro de Helen, socorrendo-se de livros de auto-ajuda para tentar colar os estilhaços da sua vida. É quando ela encontra a casa de Beatrix Potter que procura encontrar um livro perdido – A História de um Rato Mau – e que se revela um espelho da sua própria história. Ali decide criar o final para a sua e dar-lhe um final feliz. Afinal, o futuro está nas suas mãos.

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Capa Levoir / Público
SINOPSE:

A História de um Rato Mau é considerado o seu melhor livro. Helen Potter, uma jovem vítima de abuso sexual, empreende uma viagem de descoberta pela Inglaterra, seguindo os passos da célebre autora de livros infantis, Beatrix Potter, na esperança de reencontrar a paz…neste diálogo entre duas épocas e duas Potter, Helen irá descobrir a verdadeira força interior com que confrontará os seus demónios pessoais, numa história de heroísmo e coragem.

Bryan Talbot é um dos grandes autores britânicos. Iniciou a sua carreira nos comics underground, quando ainda estudava no liceu. Depois de colaborar em várias revistas inglesas de BD, tem trabalhado também para o mercado americano, ilustrando histórias para as mais emblemáticas séries de comics, como The Sandman, Hellblazer ou Fables. É igualmente um argumentista conceituado e criador de duas grandes séries, Luther Arkwright e Grandville.

OPINIÃO:

Ainda que possa causar alguma estranheza ver um tema tão forte como o abuso sexual de menores representado de forma tão direta numa banda-desenhada, Bryan Talbot fê-lo com distinção. Utilizando artifícios tão legítimos como a metáfora, a deambulação de Helen Potter e a companhia do rato gigante caiu como uma luva no retrato social a que o autor britânico se propôs.

Da relação doentia com os pais, à familiaridade com a escritora Beatrix Potter, acompanhamos o rumo de uma jovem desnorteada, definhada e partida em pedaços, até finalmente se encontrar consigo mesma. A forma cadenciada e calculista com que Talbot desvenda a trama da sua protagonista veio acicatar-me a curiosidade e revelar tons negros e cinzas na vida de uma criatura que tudo tinha para ser orlada de luz.

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Prancha Levoir / Público

Desde o primeiro momento somos convidados a compreender esta mente abstrata com cuidado e exatidão, não porque estejamos a caminhar em terreno pantanoso mas porque a personagem é feita de retalhos e complexidades, derivadas do seu passado melindroso. Não só vemos Helen Potter como uma vítima da própria família, como uma vítima da sociedade, a que ela não se conseguiu adaptar muito por conta da sua fragilidade psicológica.

“Não só vemos Helen Potter como uma vítima da própria família, como uma vítima da sociedade, a que ela não se conseguiu adaptar muito por conta da sua fragilidade psicológica.”

Se esta personagem nos surpreende pela verosimilhança e brilhantismo, o argumento não pode ser censurado. É com uma certa leveza que olhamos para este livro, mas à medida que passamos página após página, elas parecem tornar-se mais pesadas, quando nos apelam a pensar e a sentir na pele o drama da personagem. O desenho não impressiona, mas é o colorido que alimenta a esperança do leitor, recompensada de certa forma no final do álbum.

Avaliação: 7/10

Estive a Ler: A Fortaleza da Pérola, Elric #2

– Mas que perigo podemos correr? – perguntou ele.

Oone sacudiu a cabeça.

– Quem sabe? Muito ou pouco. Nenhum? Os ladrões-de-sonhos costumam dizer que é no País do Amor Esquecido que são tomadas as decisões mais importantes. Decisões que podem ter as mais monumentais consequências.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Fortaleza da Pérola”, segundo volume da série Elric

Saltou para as bancas nacionais em março de 2007 – há coisa de dez anos, imaginem! – a segunda aventura escrita em português do célebre melniboneano Elric de Michael Moorcock. Lançado em 1989, A Fortaleza da Pérola apresenta um upgrade em relação ao primeiro volume, atirando o personagem-título para novos problemas e tarefas a desempenhar.

Ombreando com gigantes literários, Moorcock viria a tornar-se um dos mais bem-sucedidos nomes do género, catalogando Elric como uma das maiores referências em todo o mundo na literatura fantástica. Diz-se até que se deve a Moorcock o termo espada e feitiçaria, atribuindo-o ao tipo novo e original desenvolvido por Robert E. Howard à época. A proposta pegou e o próprio Elric não ficou imune a ela.

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Elric de Melniboné (Fonte: Robert Gould em earrch.livejournal.com)

Uma ameaça em Quarzhasaat

A espada Tormentífera (Stormbringer no original) é uma das mais populares no mundo da fantasia. Alcançada por Elric nos domínios do Caos, enquanto perseguia o seu primo Yyrkoon, a tenebrosa espada sugadora de almas viria a acompanhar Elric pelas suas aventuras, conferindo-lhe alguma da força e vitalidade que procurava em drogas e mezinhas antes de dela se apropriar. Avassalado ao Duque do Inferno, Arioch, Elric é um homem bom a servir de instrumento para o mal. E é com a Tormentífera à anca que encontramos o Imperador Albino no início deste volume.

Depois de muito deambular pelos desertos, Elric encontra um jovem chamado Anigh, que o leva até à cálida cidade de Quarzhasaat, onde o Conselho se prepara para um intempestivo curso eleitoral. Débil e exangue, Elric acaba por aceitar a ajuda do jovem e este procura uma forma de o curar do seu estado limiar entre a lucidez e o delírio. É dessa forma que Raafi as-Keeme, um mensageiro, lhe oferece um elixir que o reestabelece de imediato. O preço a pagar por ele, porém, pode ser demasiado caro.

O elixir reestabelece-o, mas também lhe gera dependência. Trata-se de uma droga potente, cujo antídoto muito poucos sabem preparar. Elric é levado até ao palácio do Lorde Gho Fhaazi, um dos candidatos eleitorais, e é este quem lhe revela a verdade sobre o elixir. Fhaazi põe também as mãos em Anigh, tomando-o como refém. Pensando que Elric se trata de um mercenário de Nadsokor, a Cidade dos Pedintes, Fhaazi instiga-o a atravessar os desertos em busca de uma pérola lendária. Só quando a trouxer, lhe proporcionará o antídoto contra o elixir, assim como a liberdade a Anigh. Elric aceita o acordo, desde que ele não faça qualquer mal ao rapaz.

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Elric de Melniboné (Fonte: NicolasRGiacondino em deviantart.com)

A Estrada Encarnada

O imperador melnibonês coloca-se então a caminho dos desertos, sem saber ao certo o que fazer ou onde encontrar a tão desejada pérola. Baseando-se apenas em profecias e em ditos quarzhasaatis, como a frase “a Lua de Sangue arderá em breve sobre a Tenda de Bronze”, Elric atravessa o deserto conhecido como Estrada Encarnada em busca do famigerado Oásis da Flor de Prata, onde supostamente encontrará a tal Tenda de Bronze que lhe abrirá passagem para a Pérola.

Os perigos no caminho até lá, porém, sucedem-se. Primeiro, é abordado por um grupo de Feiticeiros Aventureiros, os célebres campeões de Quarzhasaat, que o tentam demover a procurar a pérola para Fhaazi, uma vez que estão filiados a outros membros do Conselho. O primeiro deles é Manag Iss da Seita Amarela, parente da Conselheira Iss. Depois, Oled Alesham, da Seita da Dedaleira. Por fim, é atacado por um grupo de assassinos da Irmandade da Traça. Elric desdenha de todos eles e prossegue na sua senda, sem esperar que os Feiticeiros, vingativos pela sua obstinação, lhe tenham enviado um monstro felino para o parar na sua empresa.

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Elric de Melniboné (Fonte: Sephiroth-21 em deviantart.com)

A Fortaleza da Pérola

Quem o ajuda a enfrentar e a derrotar o monstro é um jovem chamado Alnac Kreb, um ladrão-de-sonhos com quem Elric trava facilmente amizade, e que o conduz até ao Oásis da Flor de Prata. Ali deparam-se com um clã bauradi a concluir um rito fúnebre. Esperam que a cerimónia termine e percebem que o caixão está vazio, porque o funeral é feito a um inimigo que querem ver morto em breve. Trata-se, nem mais nem menos, de Gho Fhaazi, que enviara a sua leva de homens para se apossarem de uma menina, com as mais vis das intenções.

É Raik Na Seem, o primeiro ancião do clã, quem os coloca ao corrente da situação. Trata-se da sua filha, Varadia, que permanece muda e inexpressiva, como se estivesse sob transe, desde que a recuperaram dos malfeitores. E ela encontra-se na Tenda de Bronze, em estado vegetativo. Percebendo que comunga dos ideais de vingança daquela gente, Elric propõe-se a ajudar. Assim como Alnac, que se julga apto para adentrar no mundo dos sonhos e recuperar a menina para o mundo.

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Oone (Fonte: stormbringer.wikia.com)

A tentativa de Alnac, porém, é frustrada pela sua própria inexperiência. O ladrão-de-sonhos morre ao querer salvar a Criança Sagrada, e desde logo surge a sua preletora, uma mulher chamada Oone, para tentar recuperar a sua honra e cumprir onde ele falhou. Para isso, precisa da ajuda de Elric. Ele então compreende que a jornada que o levará à pérola será vivida no mundo dos sonhos e não no mundo real, uma vez que a pedra preciosa se encontra no interior da criança.

Elric e Oone embarcam então numa aventura pelos Reinos Oníricos, deambulando pelos sonhos de Varadia na tentativa, não só, de encontrar a Fortaleza da Pérola, como de acordar a rapariga para o mundo. Pelo caminho, encontram as mais bizarras formas de vida, desde o divertido Jaspar Colinadous e o seu gato que suga as formas de vida que morde, ao tenebroso Guerreiro da Pérola que tanto parece clamar por uma aliança como encerrar-lhes todos os caminhos. No final, é a Rainha Sough quem os conduz até à Fortaleza da Pérola, onde a própria Varadia está encerrada.

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Elric de Melniboné (Fonte: Daniel Govar em danielgovar.com)
SINOPSE:

Um dos grandes clássicos da fantasia

Para salvar a sua vida, Elric, o Príncipe dos Dragões, vê-se obrigado a encontrar uma pérola mágica e mítica. Terá que superar provas horrendas e os mais determinados adversários. Mas a sua maior batalha será travada dentro da cabeça de uma criança. Num estado comatoso, Elric entrará no Reino dos Sonhos, onde terá as suas mais épicas, exóticas e emocionantes aventuras. 

OPINIÃO:

A Fortaleza da Pérola é a segunda aventura de Elric de Melniboné publicada em português. Dotado de uma escrita poética, que parece característica comum aos autores da época, Michael Moorcock fascina pela ligeireza com que descreve cenários irreais de forma minuciosa e elegante, sem perder a simplicidade narrativa. 

Equilíbrio parece ser a toada dominante na obra de Moorcock, quer a nível de escrita, quer a nível de ritmo. De forma leve e descontraída, o autor britânico passeia-nos pelos cenários mais rocambolescos sem deixar de descrever com detalhe os cenários enunciados, revelando riqueza de vocabulário sem perder fluidez ou aparentar grande erudição.

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Capa Saída de Emergência

De forma despretensiosa, A Fortaleza da Pérola é mais um testemunho do inegável talento de Michael Moorcock. Não esperem um livro emocionante cheio de plot-twists e inovações. Este livro foi escrito no final dos anos 80, como tal é uma narrativa com um herói tradicional e aventuras pouco credíveis, mas que ainda me fascina mais do que o popular Senhor dos Anéis, talvez pela simplicidade ou pelos cenários apresentados.

“Não esperem um livro emocionante cheio de plot-twists e inovações. Este livro foi escrito no final dos anos 80, como tal é uma narrativa com um herói tradicional e aventuras pouco credíveis, mas que ainda me fascina mais do que o popular Senhor dos Anéis, talvez pela simplicidade ou pelos cenários apresentados.”

De facto, o que mais me agradou neste volume foram as passagens por Quarzhasaat e pelos desertos, os eventos na Tenda de Bronze e o final, não só bem amarrado como até surpreendente. A viagem pelo mundo dos sonhos, cheia de irreverências muito bem descritas, acabou por ser o que menos gostei neste livro, apesar de não ter desgostado. Em suma, este é um livro que aconselho a todos os iniciantes no mundo da fantasia, mas que decerto agradará a todos aqueles que não esperem nada de muito original ou complexo.

Avaliação: 7/10

Elric (Saída de Emergência):

#1 Príncipe dos Dragões

#2 A Fortaleza da Pérola

#3 Os Mares do Destino

Estive a Ler: Imperador dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #3

– Regras? Não há regras! – Riu-se. Fletiu um braço e músculos sobrepuseram-se a músculos. O Grande Ronaldo ficaria impressionado se o circo de Raiz algum dia viesse a Albaseat. – Força! É essa a regra.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Imperador dos Espinhos”, terceiro volume da série Trilogia dos Espinhos

Como autor, Mark Lawrence angaria amores e ódios por onde passa. O escritor, que nasceu nos Estados Unidos da América e mudou-se para Inglaterra ainda em criança, é o autor da fantasia Trilogia dos Espinhos, que inclui os livros Príncipe dos Espinhos, Rei dos Espinhos e Imperador dos Espinhos. A publicação original foi um sucesso, entrando na lista de best-seller do Sunday Times na sua primeira semana de vendas. Assim como os livros anteriores da trilogia, o derradeiro volume foi finalista do Goodreads Choice Awards, e o autor já foi vendido para mais de vinte línguas.

Lançado pela Harper Voyager em agosto de 2013, Imperador dos Espinhos chegou ao nosso país este ano, com tradução de Renato Carreira. A trilogia foi publicada em Portugal pela TopSeller, e é sobre o último volume da série que hoje vos venho falar.

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O WW tem uma palavra a dizer (Fonte: memecenter)

Um Império fraturado

O Império Arruinado sofreu um trambolhão desde que o príncipe de Ancrath se tornou o rei de Renar aos quinze anos de idade, ao assassinar o seu tio. Jorg de Ancrath cresceu, e à medida que isso aconteceu muitas revelações foram feitas sobre o seu mundo. Tecnologias de ponta são apresentadas como mistérios insondáveis, um resquício da antiga civilização povoada pelos chamados Construtores. Hologramas, bombas nucleares e relógios são vistos como artefactos ou “coisas do além” por um mundo que regrediu à era medieval.

De uma ponta à outra do mundo, as esperanças de um amanhã melhor estavam direccionadas para o Príncipe da Flecha, Orrin. Um homem bom e um líder inspirador. Há mais de cem anos que o Império não conhece um Imperador, uma vez que nenhum candidato consegue o número de votos necessário para ser eleito. Os sussurros sugeriam que Orrin seria o homem a quebrar a “maldição”. O homem indicado para unir os estilhaços de um mundo.

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Imperador dos Espinhos (Fonte: mark—lawrence.blogspot.com)

Uma nova meta

Todavia, Orrin da Flecha morreu, numa altura em que Jorg de Ancrath o desafiara abertamente e uma batalha dera-se entre os seus exércitos. Alguns dizem que Orrin era demasiado fraco. Fala-se que foi o próprio irmão quem o matou. As esperanças no amanhã melhor voltaram a fenecer, e essa janela de oportunidade trouxe um mal tenebroso à ribalta. O Rei Morto move as suas peças, preparando as suas hordas de mortos-vivos para mostrar quem, de facto, tem nas mãos o volante do mundo.

Jorg mudou. Aos vinte e poucos anos, está casado com Miana, com quem se casou quando ela tinha apenas onze. A rapariga está à espera de um bebé, a quem Jorg chama de William, em memória do seu irmão mais novo, o menino que viu morrer e nada pôde fazer para o salvar, uma vez que estava preso num espinheiro. Depois de saber que a esposa foi alvo de um atentado, perpetrado por um enviado da papisa, Sua Santidade Pio XXV, Jorg molda um plano ambicioso. Pega na esposa grávida e no seu grupo de confiança, e parte em direção a Vyene, para o Congresso que, de quatro em quatro anos, reúne os reis para votarem num Imperador.

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O manuscrito (Fonte: mark—lawrence.blogspot.com)

Da Península Ibérica a Marrocos

Paralelamente a isso, acompanhamos a jornada de Jorg cinco anos antes. Como bem o conhecemos, sente alguma dificuldade em engolir a forma como foi enganado pelo matemago Qalasadi no Castelo Morrow, a propriedade do seu avô materno, o Conde Hansa. Desse modo, parte com um cavaleiro que apelida de Soalheiro até Albaseat, próximo dos Reinos Ibéricos, local onde as violentas explosões – o rebentar de mil sóis – transformaram a península num terrível mar de fantasmas, onde a radiação ainda se faz sentir em larga escala.

Ali, consegue o apoio de Lesha, uma das netas da Intendente, que se oferece para fazer-lhes de guia pelos Reinos Ibéricos. A jovem de rosto queimado, porém, é uma das vítimas do cruel ataque de um grupo terrível de saqueadores chamado Perros Viciosos. Um período de pura tensão e horror, em que Jorg de Ancrath mostra até que ponto se pode considerar… perigoso. Jorg acaba por viajar para o lado de lá do mar, até Marrocos. Durante a travessia, conhece um muçulmano e um misterioso viajante com um também misterioso baú. Dois personagens que se revelam preponderantes para a sua estadia em África e também para o desenrolar da trama. Jorg trava amizades que virão a ser imprescindíveis para o seu futuro.

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Mapa do Império Arruinado (Fonte: itgeekgirls.wordpress.com)

O Congresso

Somos também convidados a acompanhar o ponto de vista de Chella, a necromante que desde o primeiro volume tem sido uma das maiores opositoras do protagonista. Através do seu olhar, compreende-se a fragilidade da sua personalidade e a incerteza na sua posição, torcendo o nariz às diretivas do Rei Morto. Conhecemos também Kai Summerson, um jovem necromante com um papel fulcral na história, que a acompanha até Vyene com um propósito muito específico.

A história de Chella cruza-se com a de Jorg na jornada até ao Congresso. Espectros terríveis tentam travar a progressão do rei de Renar e hordas de mortos são movidas na sua direção. O filho de Jorg nasce com a ajuda de Katherine Ap Scorron, irmã da madrasta de Jorg e viúva de Orrin da Flecha, que revela um inquietante talento para bruxa de sonhos.

Ao lado de Makin, Rike, Kent Vermelho, Marten e Gorgoth, para além das duas mulheres que mais deseja, Jorg de Ancrath chega por fim ao Congresso, onde já estivera anos antes. Comportamentos imprevisíveis moldam a sua atitude, enquanto novos atores e intenções rastejam nas sombras, para o parar. Uma revelação que abalará os alicerces de Jorg chega com as hordas e cem reis não serão suficientes para a aligeirar. Somos apresentados também a uma Rainha Vermelha, e fica a sensação de que nem tudo acaba aqui.

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Capa Imperador dos Espinhos (Fonte: TopSeller)
SINOPSE:

Um rei em busca da vingança

Com apenas vinte anos de idade, o príncipe tornou-se o Rei Jorg Ancrath, rei de sete nações, conhecido em todo o Império. Mas os planos de vingança que tem para o seu pai ainda não estão completos. Jorg tem de conseguir o impossível: tornar-se imperador.

Um império sem imperador há cem anos

Esta é uma batalha desconhecida para o jovem rei, habituado a conquistar tudo pela espada. De quatro em quatro anos, os governantes dos cem reinos fragmentados do Império Arruinado reúnem-se na capital, Vyene, para o Congresso, um período de tréguas durante o qual elegem um novo imperador. Mas há cem anos, desde a morte do último regente, que nenhum candidato consegue assegurar a maioria necessária.

Um adversário temível e desconhecido

Pelo caminho, o Rei Jorg vai enfrentar um adversário diferente de todos os outros, um necromante como o Império nunca viu, uma figura ainda mais odiada e temida do que ele: o Rei dos Mortos.

OPINIÃO:

Finalizada a trilogia, mantenho a minha opinião em relação a ela. Mark Lawrence é um excelente escritor, e um péssimo contador de histórias. Resultado: a Trilogia dos Espinhos é uma leitura mediana.

Não acho que o terceiro volume seja melhor que o segundo. Ambos têm os seus altos e baixos, e o handicap principal continua intimamente relacionado com o desenvolver de duas histórias em simultâneo com o mesmo protagonista: a atualidade e os x anos antes. As histórias são interessantes, mas fraturam o livro como um todo, desconcentram o leitor e fazem-no confundir-se. A História de Chella acabou por ser mais interessante que os pensamentos psicóticos de Katherine no segundo volume, mas não contribuiu em muito para a história.

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Como já referi, a escrita de Lawrence é boa, gostei bastante de algumas cenas, mas a história não oferece grande desafio, o autor não desenvolve plots e chega ao final da trilogia sem uma proposta convincente. Jorg de Ancrath passa de príncipe a imperador – ou perto disso – revelando carisma e mau feitio, como se carisma e mau feitio fossem o suficiente para se conquistarem tronos. Quase de forma despreocupada, o rumo do protagonista pode ser visto como uma alegoria e como uma ilusão. Uma alegoria sobre dignidade, sobre motivações, sobre a força do querer. Uma ilusão porque amuar e achar-se acima de tudo e de todos e uma boa porção de sorte (deus ex-machina até mais não) não fazem uma pessoa superar tudo o que ele superou.

“Jorg de Ancrath passa de príncipe a imperador – ou perto disso – revelando carisma e mau feitio, como se carisma e mau feitio fossem o suficiente para se conquistarem tronos.”

Não ajudou nada misturar espectros com fantasmas dos Construtores, que mais não eram que hologramas. Foi demasiado confuso. Os personagens ficaram-se pelo potencial, com duas mãos cheias de personagens excelentes a não terem mais que meia dúzia de diálogos. Miana, Katherine, Kent, Qalasadi, Marco, entre outros. A cena de sexo foi meio sem nexo, plantada ali só porque o autor concluiu que faltava uma. O final foi atabalhoado e para além de não esclarecer os leitores mais distraídos sobre a tecnologia dos Construtores, deu um destino chocho ao protagonista. A revelação final foi previsível e não teve muito sentido.

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Jorg Ancrath (Fonte: craigpaton em deviantart)

No entanto, se o livro pecou – mais uma vez – no desenvolvimento das ideias, foi pleno de ritmo e emoções. Cenas como a dos Perros Viciosos e a da papisa não serão esquecidas facilmente, e a estadia de Jorg em África também foi um bom bocado de leitura. Gostava que a passagem por Gottering e o terror que lá se viveu fosse mais desenvolvido e algo de mais concreto ali ocorresse, como uma luta, por exemplo. Ainda assim, foi outra das cenas mais marcantes do livro. Dois pontos da minha avaliação final devem-se a estes guilty-pleasures.

Se a inteligência do protagonista muitas vezes traiu-me enquanto leitor, também senti alguma dificuldade do autor em provar ou suportar o que ia criando, pelo que compreendo a opção por, simplesmente, não explicar nada. Opção que seria melhor aceite por mim se o final fosse mais credível e global. Ainda assim, penso que todos os fãs de fantasia devem ler e tirar as suas próprias ilações. Um melhor desenvolvimento de personagens e uma proposta mais esclarecedora levariam a série para outro patamar.

Avaliação: 5/10

Trilogia dos Espinhos (TopSeller):

#1 Príncipe dos Espinhos

#2 Rei dos Espinhos

#3 Imperador dos Espinhos

Estive a Ler: O Rei Macaco

Mas isto é a caverna da cortina de água, na terra abençoada da montanha das flores e fruta. Deve levar-nos ao céu!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Rei Macaco” (Formato BD)

Um dos nomes incontornáveis da BD europeia no último século, o italiano Milo Manara conquistou públicos pela irreverência da sua obra, comummente albergue de teor erótico. Lo scimmiotto é uma das primeiras obras de relevo do autor, uma nova roupagem da famosa fábula chinesa Jornada para o OesteO Rei Macaco, de 1976, marca um período marcadamente político na carreira artística de Manara, com argumento de Silverio Pisu, célebre cantor, ator e escritor italiano, com quem colaboraria em vários momentos. Em Portugal, a publicação saiu o mês passado, pela Arte de Autor.

Manara trabalhou com nomes inolvidáveis da nona arte, como Hugo Pratt em El Gaúcho e Verão Índio ou Alejandro Jodorowsky na polémica série Bórgia. A passagem pela Marvel e DC Comics foi um bom sinal de vitalidade, um exemplo para a nova geração de desenhistas, mas também um testemunho do seu estatuto. Muitos dos seus trabalhos contêm temas como o sadismo, o voyeurismo, o bondage e o paranormal, usando vulgarmente o erotismo como instrumento para abordar as discrepâncias e as contradições da sociedade.

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Capa Arte de Autor

O Jovem Macaco tem tudo para se sentir realizado e feliz, na sua habitação idílica na Cortina de Água, com as suas concubinas. Mas ele parece taciturno. Sente que, mais cedo ou mais tarde, irá envelhecer e morrer. É para o evitar, para alcançar a imortalidade, que ele se lança numa jornada meticulosa e recheada de perigos. A sua presunção, porém, desperta o ódio do Imperador de Jade, quando reclama os seus domínios. Para a ousadia do Jovem Macaco, há um preço a pagar.

Ele sabe que, para alcançar a imortalidade, terá de aprender com um sábio, com um imortal, ou com um buda. Mas não é tarefa fácil encontrar um. É nas suas deambulações pela floresta que encontra finalmente alguém capaz de o ajudar a abandonar os cinco elementos, mas as aulas revelam-se… difíceis. Como aluno, é apelidado de “consciente de vacuidade” e é incumbido de várias tarefas mundanas. Por fim, o Jovem Macaco alcança o seu objetivo final.

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Prancha Arte de Autor

A imortalidade vem apenas criar-lhe mais inimigos. Por acidente – ou talvez não – o Jovem Macaco é atraído para os domínios de Yuma, a morte, e é obrigado a fazer-se valer da sua nova essência para negar tal destino. O Imperador de Jade sente-se cada vez mais obcecado em destruí-lo, e isso só não acontece de imediato porque Indira, uma das suas concubinas, revela grande afeição para com o macaco, e intercede por ele.

O Imperador sabe que, uma vez que o Jovem Macaco alcançou a imortalidade, a única forma de o matar será cortá-lo em vinte mil pedacinhos. E é isso que tenta fazer. Um grande combate aproxima-se, com o Jovem Macaco a defrontar o temível Erlang Shen. Só que… aquele Erlang Shen não é bem o verdadeiro. De facto, só a intervenção de Lao-Tse, o fundador do Taoísmo, e do próprio Buda, poderão roubar ao macaco aquilo que ele tem de mais precioso – a vida.

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Prancha Arte de Autor
SINOPSE:

Baseando-se em Jornada para o Oeste, um dos grandes textos clássicos da literatura chinesa, Silverio Pisu e Milo Manara recriam nesta obra as aventuras do Rei Macaco, transformando-o simultaneamente numa aventura épica e numa referência clara ao contexto sócio-político da China dos anos setenta.

Nascido da fecundação de uma rocha pelas essências puras da terra, o Jovem Macaco, farto da idílica felicidade do seu reino, em breve abandona o seu povo em busca da imortalidade. Autoritário, sedutor e ambicioso, troça de deuses e de reis para atingir os seus objectivos.

Marco incontornável na história da banda desenhada, esta é uma das primeiras obras de Milo Manara.

OPINIÃO:

Muito embora seja apreciador da obra de Manara, principalmente no contraste forte entre a delicadeza e o vigor com que exprime a nudez, as expectativas para O Rei Macaco não eram elevadas. Em parte, por ter lido tratar-se de um dos seus primeiros trabalhos; em parte, porque desconhecia o argumentista. Percebi rapidamente que não estava longe da verdade. O desenho de Manara, um traço sóbrio e enérgico, não fascinou por aí além, revelando uma teia de pretos e brancos que cumpre na expressividade mas que não ombreia com a arte fascinante que conhecemos em obras de grande monta como Clic ou Borgia

A parada sobe, no entanto, no decorrer da leitura. O que mais me agradou neste álbum foi, sem margem para dúvidas, o sentido de humor. Mérito de Pisu, essencialmente. Somos convidados a navegar numa jornada tipicamente oriental, com as suas mitologias caracteristicamente solenes, e tropeçar em piadas com referências contemporâneas fez-me rir sem sobreaviso. A leitura foi um processo ritmado e fluído, com cenas mais lentas aqui e mais rápidas ali.

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Manara, seu velho depravado (comicon.it)

Se o cinema oriental foi uma das minhas predileções juvenis, posso dizer que hoje é um género cultural que me passa ao lado. Os ritmos lentos acabaram por me fazer perder algum fascínio que outrora essa cultura incrível exerceu sobre mim. Sentir o ondular ténue de uma faixa esvoaçante e o sibilar agudo de um movimento abrupto, porém, ainda mexe comigo. E se, ainda assim, este O Rei Macaco não me ofereceu muitos momentos de reflexão, não me posso queixar. É uma alegoria sobre honra e dignidade, uma “paródia” sobre o carpe diem. O ritmo é assertivo e a toada do livro, despretensiosa.

No seu todo, o álbum é um pouco o espelho do seu protagonista: não oferece novidades nem inovações, mas surpreende pela audácia e irreverência. Um bom passatempo de domingo à tarde. Com oscilações de tom e de estrutura, O Rei Macaco é um livro imprescindível para os fãs da cultura chinesa, mas atrevo-me a dizer que agradará a todos aqueles que estão dispostos a passar um bom bocado, sem almejar uma leitura complexa ou muito exigente.

Avaliação: 7/10

Estive a Ler: A Dança das Andorinhas

Não te devias ter preocupado, sabias que estávamos no escritório!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Dança das Andorinhas” (Formato BD)

Seguindo o estilo definido e elogiado de Marjane Satrapi, em Persépolis, a autora libanesa Zeina Abirached surpreendeu o mundo com este A Dança das Andorinhas – Morrer, Partir, Regressar. Galardoada com o Prémio Face/Vozes de França do Pen American Center, a autora foi nomeada com este livro para os prémios de Angoûleme em 2008, que viu tornar-se um sucesso em França e editado em mais de 10 países. A Dança das Andorinhas foi publicada pela Cambourakis em 2007 e chegou ao nosso país o ano passado, incluída na Colecção Novela Gráfica, pelas mãos da parceria Levoir/Público, que pela primeira vez publicaria uma mulher. A tradução é de Carlos Xavier.

Natural de Beirute, onde nasceu em 1981, a autora estudou na Academia Libanesa das Belas Artes, onde viria a desenvolver o seu gosto pelo desenho gráfico e pelo trabalho em preto e branco, que a caracteriza. Em 2002 ganhou o prémio do International Comic Book Festival de Beirute com a sua primeira novela gráfica, Beyrouth- Catharsis. Mudou-se para Paris em 2004 e dois anos depois lançou duas novelas gráficas e uma curta-metragem, Moutons, que foi nomeada no Festival Internacional de Teerão. Foi quando se mudou para Paris, onde a cultura da BD está profundamente enraizada, que deu maior ênfase à sua vocação.

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Prancha Levoir/Público

Uma noite em Beirute

A guerra civil estalou no Líbano. O país conseguira manter a paz durante vários anos entre as facções xiitas, sunitas e cristãs após a independência, mas a guerra viria quando as tropas palestinianas da OLP no sul do Líbano foram exiladas no seguimento do Setembro Negro. Foi neste cenário que Zeina Abirached nasceu, em 1981. A Dança das Andorinhas é um relato auto-biográfico de uma noite da sua infância. A cidade de Beirute estava a ferro e fogo, sob bombardeamentos contínuos. Fraturada. Dividida entre muçulmanos e cristãos. Os bens básicos, o saneamento e a comida tornaram-se tesouros, pela sua escassez.

E é o medo pelos que não estão presentes o que acompanha os protagonistas deste livro. Uma noite de bombardeamentos, como tantas outras. Uma menina a pensar nos pais. Uma tentativa de seguir em frente, com o mundo a desabar à sua volta. A esperança a permear a incredulidade e o medo. Um relato de uma vida em 1984, como tantas outras poderiam testemunhar, na atualidade.

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Prancha Levoir / Público

Zeina é a protagonista do seu livro. Uma menina escondida na sua casa,  num átrio à entrada do apartamento, com um grupo de vizinhos e conhecidos. Aquele lugar transformou-se no seu bunker, o único em que se sentem em segurança, capazes de sobreviver aos movimentos bélicos que chovem à volta da residência. A singeleza e frugalidade de tarefas do quotidiano tornam-se complexas, tragando a liberdade que julgavam conhecer. É na vida, nos pequenos gestos, que esta gente encontra esperança.

A autora tinha 10 anos quando a guerra terminou. Um muro dividia a sua rua em duas, mantendo o seu “lado” completamente exilado do remanescente da cidade. Até ao fim da guerra, guerra foi a única coisa que Zeina conheceu.

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Prancha Levoir / Público
SINOPSE:

A libanesa Zeina Abirached, nascida em Beirute, em 1981, viveu os primeiros dez anos da sua vida numa cidade debaixo de fogo, destruída por uma sangrenta guerra civil que provocou mais de centena e meia de milhar de mortos, mas no seu livro, A Dança das Andorinhas, sobressai uma obra fascinante, de grande ternura e humanismo, que, centrada numa noite de bombardeamentos no auge da guerra, em 1984, retrata com grande sensibilidade e humor a dicotomia entre a realidade exterior hostil de uma cidade destruída pela guerra, e a intimidade protectora do espaço familiar. Mesmo que esse espaço esteja confinado ao átrio de um apartamento fustigado pelas bombas.

“Em Outubro de 2006, no site na Internet do Instituto Nacional do Audiovisual encontrei uma reportagem gravada em Beirute em 1984. Os jornalistas entrevistavam os habitantes de uma rua situada na proximidade da linha de demarcação, que cortava a cidade em dois. Uma mulher, bloqueada pelos bombardeamentos na entrada do seu apartamento, disse uma frase que me perturbou: “Sabem, acho que, mesmo assim, se calhar estamos mais ou menos em segurança, aqui”. Essa mulher era a minha avó”. – Zeina Abirached

OPINIÃO:

Tocante, subtil e ternurento, A Dança das Andorinhas é um hino à sobrevivência e à vida de muitos, que a cultura ocidental muitas vezes só conhece através destes testemunhos – reais e palpáveis, mas longínquos. Zeina Abirached é uma autora libanesa que começa a implementar o seu cunho na BD francófona, através de testemunhos emocionantes de situações complexas e cenários de guerra, contextos que conheceu de perto.

Se os seus relatos são fragmentos de histórias reais, que nos deviam incomodar a todos e que espelham situações que ainda hoje se vivem em muitos países do Médio Oriente, a sua narrativa é embalada por uma certa inocência e visão singular dos acontecimentos. Zeina consegue transmitir o clima de confinamento e exclusão, a segurança débil e uma estabilidade “fingida”, trazida por muros e paredes que muitas vezes nada significam.

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Prancha Levoir / Público

A autora faz também um jogo interessante a nível gráfico, permeando o álbum com uma simbiose de estilos que variam do muçulmano ao chinês, moldando com perfeição o traço a preto e branco às sombras e expressões que nos fazem olhar para estas personagens quase como se de um jogo de fantoches se tratasse. Paralelamente a isso, a situação calamitosa em que a situação se encontra permite o uso de um humor característico, que torna toda a narrativa mais adocicada. Quase uma história para crianças, o que de facto não é.

Não sendo uma novela gráfica que me cativasse, A Dança das Andorinhas proporcionou-me momentos de reflexão e de humanismo, trazendo de forma suave um assunto melindroso e sobre o qual toda a Humanidade devia refletir, num momento em que a guerra está mais presente do que nunca. Um volume fascinante pela simplicidade com que os temas são tratados.

Avaliação: 6/10

Estive a Ler: Dejah Thoris #1

Now I am Larka, and I have fallen so very far.

O texto seguinte contém spoilers do primeiro volume da série Dejah Thoris (formato BD)

Agarrando nos personagens icónicos de Edgar Rice Burroughs, o autor de Nova Jersey e também professor de inglês Frank J. Barbiere e o ilustrador Francesco Manna, conhecido pela sua participação em Vampirella, deram corpo às novas aventuras da princesa de Marte, Dejah Thoris. Publicado pela Dynamite Entertainment, também responsável pela adaptação de White Sand de Brandon Sanderson, o primeiro volume saiu em fevereiro do ano passado.

Dejah Thoris é uma personagem fulcral da série literária Barsoom de Edgar Rice Burroughs, o mesmo autor de Tarzan. Popularizada em imensas plataformas, foi com a versão cinematográfica da Disney, John Carter, em 2012, que a curiosidade em torno da obra de Burroughs voltou a crescer. Ela é a princesa de Helium, uma das cidades mais importantes do planeta Barsoom (Marte), salva das mãos dos usurpadores pelo terráqueo John Carter, por quem se apaixona.

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Capa Dynamite

O trono em perigo

É uma Dejah Thoris bastante expedita aquela que encontramos nesta nova versão. Casada com John Carter, a princesa de Marte descobre com assombro que o seu pai, o jed Mors Kajak, desapareceu misteriosamente. Rapidamente chega à conclusão que o conselheiro do seu pai, Valoris, tem dedo no seu desaparecimento, porque desde logo ele indica Dejah como a principal suspeita pelo ocorrido.

A princesa é levada ao cárcere, mesmo com o apoio fundamental de Carter, que tenta, em vão, refutar tais acusações. Dejah pede ao esposo que a deixe provar a sua inocência e que não se coloque em risco por sua causa. De noite, porém, um assassino mascarado tenta matá-la nas masmorras, e é a jovem aia Thana quem a salva, e quem a ajuda a fugir. É então que Dejah se decide a apurar a verdade e executar a vingança pelas suas próprias mãos.

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Prancha Dynamite

Larka

Apoiado por um amuleto mágico e com a intenção de fazer vigorar uma nova religião, o conselheiro Valoris auto-proclama-se o novo senhor de Helium, cantando ao povo o desaparecimento do seu jed e a morte da princesa. Por sua vez, Dejah sai da cidade e, sob o nome Larka, convence um esquadrão mercenário do seu valor enquanto guerreira. Rapidamente as suas capacidades convencem o comandante máximo do People’s Army a integrá-la, e sub-repticiamente prepara um movimento para derrubar Valoris do poder.

Encontra nos corajosos Burma, Wylock e Tulon os melhores aliados, ou não fossem eles bravos guerreiros das suas espécies. É como capitã que Larka chega às Terras Selvagens, onde encontra um cenário de horror. A selvajaria warhoon. A caminhada de Dejah Thoris leva-a a uma emboscada e ao regresso a Helium, onde John Carter e Thana trabalham para denunciar as intenções terríveis de Valoris.

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Prancha Dynamite
SINOPSE:

Prepare yourself for Dejah Thoris as you’ve never seen her before! A shocking conspiracy unravels in Helium as Dejah’s father has gone missing. In the wake of assuming the throne, Dejah learns secret information from her past that will have resounding effects on the kingdom _ and her life! Join Frank J. Barbiere (The Howling Commandos of SHIELD, The Precinct) and Francesco Manna (Vampirella #100) as Dejah discovers a secret past that will have her leaving Helium for an all-new adventure on her own!

OPINIÃO:

É difícil falar de um universo que nos é familiar sem esquecer o passado. É como comer o nosso prato favorito e sentir que ele não foi tão bem confeccionado quanto esperávamos. Foi isso que eu senti com este Dejah Thoris. Nunca li a obra de Edgar Rice Burroughs, mas nos cinemas ou nas bandas-desenhadas, Barsoom faz parte do conhecimento partilhado por todos os aficcionados de ficção especulativa. Não posso dizer que desgostei, mas esperava melhor.

O plot inicial revelou-se previsível. O rei desapareceu e um conselheiro cozinhou a sua ascensão com base em fundamentalismos religiosos e na sua sede pelo poder. A princesa é confinada ao cárcere e é a partir da sua fuga que a história se desenvolve. Na verdade, é quando Dejah “despe-se” do seu papel que a narrativa me prende. Gostei do grupo ao qual ela se une, mas gostaria de ver a relação com o comandante mais desenvolvida. É sempre com agrado que testemunho os combates com warhoons e tharks e os seus momentos acabaram por ser os que mais me satisfizeram. Ainda assim, toda a trama rasou o previsível.

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Prancha Dynamite

O personagem John Carter acabou por ter um papel mais importante do que presumi, e muito embora não seja o protagonista da história, foi pouco desenvolvido para o papel que assumiu na reta final. Alguns problemas de roteiro prendem-se com a inclusão de assassinos que não provocam qualquer obstáculo, a falta de algum nu a que, na minha opinião, obriga o cânone, e que certamente evitaria o embaraço de desenhar a protagonista sempre com um porta-seios metálico, a qualquer hora do dia. A arte de capa é bastante má, ainda que aprecie o desenho de interior. Os coloridos e dourados enriqueceram bastante a obra, o que parece ser uma mais-valia desta editora.

Aparte os defeitos acima mencionados, o mundo de Barsoon é rico em conspirações e em aventuras, e esta não me desagradou no seu todo. As histórias de vingança e de reposição de justiça, as buscas por alianças e combates são mesmo as que mais me agradam, e Dejah Thoris inclui todos estes elementos. A previsibilidade e a falta de plot-twists acabaram por ser os motivos principais para ficar com um sabor meio amargo de boca.

Avaliação: 5/10