Estive a Ler: Moving

Moving é um conto do autor nacional Bruno Martins Soares, disponível na Amazon. O autor, mais conhecido pela Saga de Alex 9, que escreveu em português para a Edições Saída de Emergência, passou parte da sua vida no Funchal e a outra metade em Lisboa. Escreve ficção desde os 12 anos e em 1994 ganhou uma menção honrosa no Concurso Nacional de Jovens Criadores, tendo vencido a edição de 1996 do mesmo concurso.

O prémio levou-o a Turim, onde representou Portugal na Bienal de Jovens Criadores da Europa e do Mediterrâneo de 1997, e onde o seu conto «Mindsweeper», publicado originalmente em Contos Inéditos – Selecção dos Concursos Jovens Criadores ‘96 pelo Clube Português de Artes e Ideias em 1996, foi traduzido e publicado em italiano na colectânea Quattordici Giovani Narratori Dei Mediterraneo, pela editora Lindau.

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Fonte: http://www.kotostudios.com/php/gallery/bruno-martins-soares/

Bruno participou ainda nas Bienais de Roma em 1999 e na de Sarajevo em 2001. Entretanto, e em colaboração com a Associação GEIC (Grupo Experimental de Intervenção Cultural), criou uma colecção de livros de jovens autores inéditos denominada O Homem do Saco, que deu a conhecer nomes como os de Rui Pires Cabral e Possidónio Cachapa, e onde publicou a sua primeira colectânea de contos, O Massacre, em 1996.

Profissionalmente, é licenciado em Gestão de Empresas pela European University e foi Practice Leader de Change & Internal Communications na Hill & Knowlton Portugal. A sua carreira também o levou à imprensa: colaborou regularmente com jornais e revistas tanto nacionais como estrangeiros, entre os quais o Diário de Notícias, a Ideias & Negócios, o Washington Post e a Jane’s Defence Weekly (de quem foi correspondente em Portugal durante três anos). Atualmente, trabalha como freelancer.

Fonte: Edições Saída de Emergência / Goodreads

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Fonte: https://www.amazon.com/Bruno-Martins-Soares/e/B0754WSPL2

É já dia 1 de outubro que Bruno Martins Soares lançará o seu próximo livro, Fighting the Silent, na Amazon, o primeiro volume da saga The Dark Sea War Chronicles, escrita em inglês. Como tal, e uma vez que o conto do premiado autor, entitulado Moving, se encontrava gratuitamente disponível na plataforma Amazon, não hesitei em descarregá-lo. Em Moving, Bruno Martins Soares mostra o porquê de ser um dos mais respeitados autores nacionais de Ficção Especulativa.

Não foi, no entanto, o meu primeiro contacto com a escrita do Bruno. Aqui há uns anos, quando a Saga de Alex 9 foi lançada, lembro-me de ter lido alguns capítulos disponibilizados pela editora, e apesar de não me ter desagradado, não me prendeu o suficiente para prosseguir. Determinado em ler e maravilhar-me com a nova saga de Bruno Martins Soares, comecei por aventurar-me em Moving, um conto bastante engraçado e peculiar.

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Fonte: http://amazon.com/

Não irei soltar muitos spoilers nem revelar nada que possa estragar o prazer da leitura, mas não dá para escrever muito sobre contos sem desvendar uma ponta ou outra dos mesmos. Posso apenas dizer que o conto é protagonizado por um sujeito chamado Paulo, muito apegado a rotinas e à estabilidade e, por isso, com uma certa aversão a mudanças. No entanto, mais tarde ou mais cedo, elas acontecem nas nossas vidas, e também ele tem de aceitar essa situação.

“Em Moving, Bruno Martins Soares mostra o porquê de ser um dos mais respeitados autores nacionais de Ficção Especulativa.”

O pior é mesmo encaixotar os livros e levá-los para a casa nova. O que acontece quando os livros se “recusam” a mudar-se? Moving é uma história engraçada que fala sobre mudanças e sobre o que elas podem trazer de positivo (ou não) às nossas vidas. A vida de Paulo irá certamente mudar, principalmente quando conhece uma rapariga que se mostra também ela fã de leitura e admiradora confessa de Orgulho e Preconceito.

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Fonte: https://www.linkedin.com/pulse/simple-ways-read-5x-more-books-amit-somani/

Apesar de não ser propriamente fluente em inglês, não tive grandes dificuldades em ler o conto e gostei bastante da linguagem utilizada, tanto do estilo de prosa do Bruno como da forma intimista com que ele tratou os personagens e como tratou o leitor. Desde o primeiro parágrafo que nos faz sentir “em casa”, expondo-nos às obstinações e perceções do personagem como se lhe vestíssemos a pele.

“Moving é uma história engraçada que fala sobre mudanças e sobre o que elas podem trazer de positivo (ou não) às nossas vidas.”

O autor também deixa transparecer alguma diversão na forma como conta a história. Moving é um conto de leitura rápida, que nos apresenta uma narrativa de negação e contrariedade de uma forma leve e com um certo sentido de humor. Uma lufada de ar fresco que aconselho veementemente a quem quiser começar a ler algo deste excelente autor nacional.

Avaliação: 7/10

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Estive a Ler: A Torre Negra, A Torre Negra #7

Bebé lindo, quero que tragas,

Bebé adorado, as tuas bagas

Chussit, chissit, chassit!

Vem encher esta cestinha!

O texto seguinte aborda o livro “A Torre Negra”, sétimo volume da série A Torre Negra

A Torre Negra é o último volume da série homónima, a conclusão épica para a visionária história concebida por Stephen King ao longo de trinta anos de paragens e arranques. O autor dispensa apresentações. Famoso autor de thrillers de terror e suspense, como It, Under The Dome, Carrie ou Shinning, King transporta para as páginas os medos mais básicos do ser humano, contando histórias mais ou menos credíveis com uma mestria ímpar.

A Bertrand Editora chega, em 2017, à publicação do último volume da saga, um livro com 888 páginas que narra a chegada do pistoleiro Roland de Gilead à tão almejada Torre Negra. A edição conta com tradução de Rosa Amorim e com ela é assente um pesado tijolo como conclusão para a história épica de Stephen King, um autor que se torna ele próprio personagem no mundo criado, um personagem-chave, que se insere tão bem nesse mundo como os personagens de outras obras, como é o padre Callahan.

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Fonte: http://www.rollingstone.com/culture/features/stephen-king-the-rolling-stone-interview-20141031

Vim acompanhando, durante os últimos anos, a travessia do deserto de Stephen King que foi esta A Torre Negra. Na nota de autor, ele deixa claro que esteve longe de ser um trabalho bem sucedido no seu todo, mas não existem livros ou séries perfeitas e eu estou perto de sublinhar essa afirmação. Foi uma saga escrita ao sabor do vento, com nomes e criaturas e simbologias criadas do pé para a mão, por auto-recriação do autor. Foi uma série permanentemente em aberto, onde a imaginação de King imperou quando lhe faltava uma linha a seguir, o que se notou permanentemente.

Se houve um esqueleto previamente determinado para a saga A Torre Negra, ele transformou-se em pó ainda no primeiro terço do caminho. A partir do quarto livro, ficou claro que King andava ao sabor do vento, criando novas temáticas e símbolos para desenvolver a narrativa. E a verdade é que funcionou muito, mas muito bem, a partir do momento em que percebemos que os tão falados números 19 e 99, que apareciam permanentemente, cada um num dos mundos, estavam diretamente relacionados à data em que o autor foi atropelado durante uma caminhada a pé.

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Fonte: Bertrand Editora

Claro está, o volume final de A Torre Negra está repleto de duelos interessantes e grandes confrontos, mortes, confissões, perdas e esperanças. Não irei estragar a surpresa aos possíveis leitores, mas o texto seguinte contem alguns spoilers dos volumes anteriores. Não muitos. Estás por tua conta e risco.

“Na nota de autor, ele deixa claro que esteve longe de ser um trabalho bem sucedido no seu todo, mas não existem livros ou séries perfeitas e eu estou perto de sublinhar essa afirmação.”

A partir do momento em que Stephen King, ainda no volume A Canção de Susannah, se torna ele mesmo um personagem da saga, muitos dos disparates inventados por King começam – forçadamente ou não – a fazer sentido e a apontar para o final apoteótico desta grande saga literária. Apoteótico pode não ser a palavra adequada e o final não me parece ter enchido grandemente as medidas a ninguém, nem sequer ao autor, mas foi o final mais coerente e sentenciador que se podia esperar.

Este volume final começa com Jake, Oi e o padre Callahan a entrarem no Dixie Pig de armas em punho. O bar estava empestado de canibais, fossem eles vampiros, taheen ou outras coisas hediondas. O grupo estava separado, devido às diferentes missões que foram atribuídas aos diferentes membros do ka-tet, mas no mundo real, estes três personagens estavam destinados a tentar salvar Susannah, que havia sido levada por ali por Richard Sayre, um terrível vampiro.

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Fonte: http://darktower.wikia.com/wiki/Dark_Tower

Susannah e Mia podiam ser vistas como uma e a mesma pessoa, muito embora não o fossem. Mia era uma criatura faminta e carente que necessitava absurdamente de ser mãe. Susannah fora a hospedeira, engravidando no momento em que haviam aberto o portal para Jake entre os mundos e ela fora obrigada a fornicar com um demónio para o distrair. Assim sendo, a criança teria duas mães (Susannah e Mia) e dois pais (Roland e o Rei Rubro). Sayre levou-a para o trabalho de parto através do Dixie Pig, numa sala confinada onde finalmente nasceu Mordred. O menino parecia um bebé normal, mas rapidamente se transformou numa aranha com cabeça de bebé. E com os olhos de Roland.

Roland Deschain de Gilead e Eddie Dean de Nova Iorque, por sua vez, viajaram para outro quando do nosso mundo, na tentativa de encontrar Stephen King e obrigá-lo a escrever a história da Torre Negra, de modo a salvar o Feixe. Tarefa concluída, são obrigados a tratar de certos pormenores para impedir certos paradoxos e decidem-se a reencontrar os seus companheiros, usando a palavra mágica Chassit.

O restante da história é um arrastar de acontecimentos viciante, dos confrontos armados no Dixie Pig, ao assalto a Algul Siento, à corrida contra o tempo para salvar King, às participações mais do que especiais de Sheemie, Ted Brautigan, Moses Carver, Joe Cullum e Patrick Danville. Só posso revelar que, no fim, Roland de Gilead encontra a Torre Negra e é mesmo uma torre e é mesmo negra, tal como o nosso imaginário coletivo a reproduz, embora possa não ser exatamente aquilo que Roland esperava. A caça de Mordred ao seu pai e o encontro com o Rei Rubro (com as suas sneetches do Harry Potter) são alguns dos momentos mais tensos da obra, sem deixar de lado uma certa dose de diversão.

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Fonte: https://www.inverse.com/article/32091-stephen-king-books-the-dark-tower-cujo

Em vários momentos da reta final, o livro fez-me lembrar o Senhor dos Anéis. O tom de desolação, a atração da Torre, o mal que nela vive, a sensação de que alguém espia os personagens, remete bastante para a perseguição de Gollum aos hobbits e àquela última caminhada de Frodo e Sam em direção a Mordor. Mas a descrição de Stephen King inebria-nos com o cheiro das rosas, com os sons na cabeça de Roland, com a dor e com os sentimentos que florescem no personagem. King é dono de um poder de descrição que nos transporta de pronto para os lugares imaginados.

Mas é quando mata personagens que ele se supera. As cenas de mortes são as melhores dos livros e compensam largamente os momentos de literal palha que permeiam a série. Porque sim, são muitos. Este volume final tem quase 900 páginas e podia perfeitamente ser cortado pela metade e contar a mesma história. King enche chouriços com diálogos imensos e alguns até absurdos, capítulos do ponto de vista de personagens novos e sem importância só para os ver a morrer a seguir, por exemplo.

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Fonte: https://www.theverge.com/2017/8/3/16088532/dark-tower-movie-review-adaptation-stephen-king-idris-elba

Vi-me, durante várias passagens do livro, a pensar por que raio escolheram Idris Elba para protagonista do filme quando o autor sublinha várias vezes que Roland é parecido com Clint Eastwood. E dei por mim a sorrir quando, num dos trechos finais do livro, há uma voz qualquer que diz ao personagem que ele vai obscurecer e mudar de cor. Faça sentido ou não, continuo a não gostar da escolha para o papel, mas como diz o povo, isso são outros quinhentos.

“Mas é quando mata personagens que ele se supera.”

É uma série que recomendo. Não entra no topo das minhas favoritas, mas é uma saga com cabeça, tronco e membros, com muitos momentos divertidos, com uma simbologia única e incrível que remete grandemente para a própria vida do autor e para outras das suas obras, e que nos faz criar uma conexão muito grande com o grupo protagonista. É impossível não passar ao lado do final que King reservou para cada um deles. Obrigado-sai. Longos dias e noites agradáveis.

Avaliação: 8/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e a Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

#7 A Torre Negra

Estive a Ler: One-Punch Man #3

Onde está? Será que estive sempre a atacar a sua sombra!?

O texto seguinte aborda o terceiro volume da série One-Punch Man (Formato BD)

Apesar das suas vitórias impressionantes, Saitama continua a ser um herói desconhecido… até encontrar Genos e ambos decidirem realizar o teste para a Lista dos Heróis. É esta a sinopse da Devir para o terceiro volume do mangá One-Punch Man, que inclui os números 16 ao 22,5 da edição original. One é o pseudónimo do argumentista que iniciou a publicação da série na internet, em 2009. Três anos depois, One-Punch Man tinha mais de 10 milhões de visualizações, o que levou à publicação em volumes em 2014.

One é também autor de Mob Psycho 100 e Makai no Ossan, enquanto Yusuke Murata, o ilustrador, é mais conhecido pelo seu trabalho em Eyeshield 21. Ganhou o 122º Prémio Hop Step com Partner, em 1995; e ficou em 2º lugar com Samui Hanashi, em 1998. Iniciou a colaboração em One-Punch Man em 2012, re-desenhando a série para a Young Jump Web Comics.

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Fonte: https://pt.aliexpress.com/store/product/One-punch-man-Action-Figures-Saitama-Sensei-PVC-24CM-Anime-Collection-Model-Toys-ONE-PUNCH-MAN/225720_32656549517.html

Antes de tecer qualquer comentário sobre One-Punch Man, é necessário ter em conta que a premissa desta série é, acima de tudo, parodiar o mundo dos super-heróis. Se o primeiro volume não me tinha convencido, fiquei ligeiramente mais agradado com o segundo. O protagonista prosseguiu na senda de enfrentar monstros por obrigação, mas a narrativa ganhou muito com a adição de Genos ao enredo e o próprio Saitama obteve um melhor desenvolvimento.

One-Punch Man não é nenhuma maravilha dos mangás. O humor acaba por ser o melhor dos livros até agora e, em várias ocasiões, ele é bem forçado. Ainda assim, apresenta-nos dois personagens fortes, não só superficialmente como em conteúdo, e os diálogos entre ambos lançam debates que podem, à primeira vista, parecer frívolos, mas sem a menor dúvida importantes para quem quiser estudar o que é ser um super-herói.

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Fonte: devir
NÃO VOU CONSEGUIR ESCREVER ISTO SEM SPOILERS, POR ISSO, ESTÁS AVISADO!

Saitama e Genos iniciam este terceiro volume numa prova. Trata-se de um teste de heróis, para determinar o seu nível e entrar para a Lista dos Heróis. Saitama dá-se maravilhosamente bem na prova de força, mas tem uma nota péssima no teste de inteligência, o que o coloca na Classe C dos heróis. Por sua vez, Genos, que continua empenhado em aprender com Saitama para se tornar um super-herói tão bom como ele, tem excelentes resultados, o que o coloca na Classe S, a supra-sumo de todas. Após as provas, há a revelação de que os mestres lá do sítio não parecem muito dispostos a ser ultrapassados pelos novatos, o que gera um conflito que pode terminar em corrupção ou passar mesmo por um confronto físico.

“O protagonista prosseguiu na senda de enfrentar monstros por obrigação, mas a narrativa ganhou muito com a adição de Genos ao enredo e o próprio Saitama obteve um melhor desenvolvimento.”

No segmento seguinte, Genos insiste em ir viver para a casa de Saitama. Quem leu os anteriores volumes sabe como ele é zeloso da sua privacidade e do seu sossego, e recusa-se determinantemente a viver junto com o ciborgue. Mas quando ele lhe coloca um maço de notas à frente dos olhos, a primeira coisa que lhe pergunta é se trouxe a sua escova de dentes. A partir daí, a narrativa foca-se em monstros, mas também no conflito entre vários heróis que medem forças para provar os seus valores.

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Fonte: devir

As cidades parecem ter sido abandonadas pelos civis, mobilizados para outros lugares; em sentido oposto, na cidade onde Saitama vive, os heróis surgem e competem entre si, de tal forma que os mostros aborrecem-se por não ter a quem aterrorizar e os heróis sentem-se entediados com a facilidade com que os conseguem derrotar, vendo-os mais como um entretenimento e medição de estatuto do que qualquer outra coisa. São os atritos entre os heróis que vêm a povoar as páginas restantes deste livro, sempre com uma toada leve e bem-humorada. A referência a SonGoku arrancou-me um sorriso e o encontro com Sonic um dos mais bem narrados por One até agora.

“Mas quando ele lhe coloca um maço de notas à frente dos olhos, a primeira coisa que lhe pergunta é se trouxe a sua escova de dentes.”

Foram os vários heróis apresentados e os seus génios peculiares o que mais me agradou neste volume. De destacar também o último segmento antes do capítulo final, que gravita à volta do Monstro do Boato e o horror que os boatos sobre ele espalharam à sua volta. Por fim, o flashback de Saitama, com que todos os volumes são concluídos, mostra a destreza e o grau de badass que o personagem foi adquirindo durante o seu crescimento, que é sempre digno de nota.

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Fonte: devir

Gostei bastante da secção inicial, passada nas provas, e acho que a interação entre Saitama e Genos acaba por ser o melhor da série. É impossível não gostar da teimosia que tanto um como o outro revelam na defesa das suas ideias, da crença exacerbada de Genos e da descrença generalizada de Saitama. Genos espera ansiosamente por ser ensinado pelo herói careca, e o seu professor não sabe como explicar-lhe que não tem nada para lhe ensinar, que tudo o que sabe deve-o, puro e simplesmente, ao treino. Nada mais do que isso. Mas, ao fim e ao cabo, talvez tanto um como o outro tenham muito, tanto para ensinar como para aprender.

“São os atritos entre os heróis que vêm a povoar as páginas restantes deste livro, sempre com uma toada leve e bem-humorada.”

A arte, pelas mãos de Yusuke Murata, volta a ser digna de nota. O traço a carvão é brilhante em algumas pranchas, o pormenor nunca é descurado e acima de tudo nas cenas de maior carga de velocidade e ação acho o seu trabalho muito bem executado. O contraste entre as cenas de ação e as de humor continua bem definido, adequado a cada situação.

Em jeito de conclusão, resta-me dizer que gostei deste terceiro volume, mas One-Punch Man continua a parecer-me fraquinho para as minhas expectativas. Todo o alarido em torno deste mangá não parece grande razão de ser, quando o compararmos a One Piece, Attack on Titan ou mesmo Dragon Ball. Ainda assim, não deixam de ser um bom entretenimento e continuarei a leitura do mangá, enquanto for publicado por cá.

Avaliação: 6/10

One-Punch Man (Devir):

#1 One-Punch Man Vol. 01

#2 One-Punch Man Vol. 02

#3 One-Punch Man Vol. 03

Estive a Ler: A Súbita Aparição de Hope Arden

Eu sou os meus pés nas suas botas pretas enquanto ando pelo hotel, eu sou justiça, eu sou vingança, vai-te foder mundo se pensas que me podes fazer isto, vai-te foder se pensas que eu não sei como ripostar, se pensas que simplesmente me deixarei rolar e morrer, o meu pai olhava assassinos nos olhos, a minha irmã seria capaz de trespassar com um sabre de luz a porra da cabeça do demónio, e eu

Ei Macarena!

O texto seguinte aborda o livro A Súbita Aparição de Hope Arden

A britânica Catherine Webb estreou-se no mundo da literatura aos 14 anos com Mirror Dreams, e com sete romances de fantasia em carteira, enveredou pelo mundo da ficção científica, onde se viria a destacar sob o pseudónimo Claire North. Em 2014, o primeiro romance sob este pseudónimo tornou-se um best-seller. Trata-se de As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, publicado pela Edições Saída de Emergência o ano passado. Em 2015, Claire North publicou Touch e em 2016, The Sudden Appearence of Hope.

A Súbita Aparição de Hope Arden, título da versão portuguesa, traz Claire North novamente para as estantes nacionais, cerca de dez meses após a publicação de As Primeiras Quinze Vidas de Harry August. Mais uma vez, pelas mãos da Saída de Emergência. Com 448 páginas e tradução de Teresa Martins Carvalho, a versão nacional tem edição de Luís Corte Real e pertence à Colecção Bang!, chancela que acolhe o melhor da Ficção Especulativa publicada em português.

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Fonte: http://file770.com/?p=23130

Sempre se ouviu dizer que “primeiro estranha-se e depois entranha-se” e foi isso mesmo o que me aconteceu durante a leitura de A Súbita Aparição de Hope Arden. Comecei esta leitura com o pé atrás; se leram a minha opinião a As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, desta autora, sabem que gostei mas que podia ter sido uma experiência muito, mas muito melhor. Ele tinha todo o potencial para isso, e uma vez mais atraído pelo potencial e pela premissa, pedi este novo livro da autora. O livro trata de uma rapariga que as pessoas se esquecem quando deixam de a ver, não é louco? Pois bem, comecei a ler o livro e achei o início estranho. Primeiro estranhei…

… E depois entranhei.

Fui atirado para uma narrativa sobre beleza e perfeição e uma rapariga que usa o seu dom (ou será maldição?) para roubar joias a personalidades famosas e afins. Pareceu-me algo um pouco superficial e uma perspetiva bem feminina. E depois? Depois mordi o isco e fui puxado para um thriller de tirar o fôlego, um policial cheio de reviravoltas, centrado na questão da tal rapariga que narra a história ser esquecida pelo mundo. O plot é bom, a forma como a história é conduzida incrível, os conhecimentos sobre história, arquitetura e medicina bem agradáveis, mas esqueçam isso tudo porque o que manda neste livro acima de tudo o resto é a escrita da autora. Aos solavancos. Insana. Brilhante. A Súbita Aparição de Hope Arden é um dos melhores livros que já li na vida.

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Capa Saída de Emergência

Hope Arden é uma rapariga de quem o mundo esqueceu. A mãe atravessou a pé o deserto do Sudão a Istambul, até chegar a Inglaterra na caixa de um camião; acabou a pedir esmola. O pai, um polícia local, cuidara dela por uma noite. Alguns anos depois, reencontraram-se e casaram. Hope foi a filha mais velha. A mais nova, Gracie, sofre de graves problemas de saúde. Talvez por isso, a atenção concentrou-se na benjamim da família. Talvez por isso, Hope tenha ficado para trás. Talvez por isso se tenham esquecido dela. Não. Todas as pessoas se esquecem dela. Começou quando fez 16 anos. As pessoas olham para ela, falam com ela, mas se ela se afastar por uns segundos, esquecem-se não só do seu rosto como daquilo que ela disse ou fez. Hope é esquecível.

A Súbita Aparição de Hope Arden é um dos melhores livros que já li na vida.”

Quando mais ninguém se lembrava dela, quando começou a ser vista com surpresa pelos membros da própria família, Hope saiu de casa. Com essa capacidade, facilmente adentrou no mundo do crime. Precisava roubar para sobreviver. Pouco a pouco, tornou-se uma ladra. Esperta, ágil, intocável. O seu calcanhar de Aquiles? As câmaras de vigilância. As pessoas podem esquecer-se, mas os computadores não. Ainda assim, as câmaras de nada valem às autoridades. Podem capturá-la, sempre acabarão por esquecer-se dela.

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Fonte: https://twitter.com/denisewalker_

Hope não é, no entanto, a única pessoa esquecível no mundo. Em tempos, enamorou-se de um rapaz chamado Parker. Possuía a mesma capacidade. Sempre que se encontravam um com o outro, era a primeira vez. Começaram a escrever notas um sobre o outro, diários; começaram a tirar fotografias. A dada altura, acabaram por não voltar a encontrar-se. Hope está agora no Dubai para roubar o diamante Crisálida, que será transportado por Shamma bint Badar, uma descendente real, numa festa de elite. É ali que conhece a milionária Reina bint Badr al Mustakfi, e tornam-se amigas, ainda que Reina não se recorde dela de cada vez que a vê.

É através de Reina que Hope conhece o Perfection. Um aplicativo de beleza que busca a perfeição e tornou-se a tendência do momento. Todas as pessoas querem ser perfeitas, e essa app acumula ou subtrai pontos consoante o estilo de vida dos usuários. Por exemplo, quanto mais fizeres dieta, quanto mais exercício fizeres, quantos mais tratamentos de beleza fizeres, mais pontos acumularás no Perfection. Esquece o fast food e os pequenos pecados da vida. Todas as pessoas podem ter o Perfection, mas parece evidente que só os mais ricos podem alcançar o sucesso com a aplicação.

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Fonte: http://www.telegraph.co.uk/travel/destinations/middle-east/united-arab-emirates/dubai/

O Clube 106 é uma elite privada, composta pelos 106 membros com maior pontuação, granjeados com moradia privada e acesso às melhores festas. O Perfection é criação dos Pereyra-Conroy, uma família riquíssima. Matheus Pereyra-Conroy, o patriarca, morreu, deixando toda a herança aos dois filhos. Filipa foi a mente por detrás do Perfection, mas foi Rafe quem o tornou um instrumento de obsessão. Infeliz por não conseguir ser bonita, derrotada pelas exigências do Perfection, Reina suicida-se. E Hope ganha uma aversão muito pessoal à aplicação e aos seus criadores.

“As pessoas podem esquecer-se, mas os computadores não.”

O roubo do Crisálida é apenas o início desta história. Ao colocar o diamante no mercado negro, Hope é interpelada por duas enigmáticas figuras na net: Byron14 e mugurski71. Ambos competem pela compra da joia, mas as suas intenções parecem abarcar muito mais do que a mera aquisição de um diamante roubado, e o Perfection está no centro de todo esse despique. Antigos amantes em lados opostos da barricada, Byron e Gauguin jogarão com Hope a seu bel-prazer para alcançar as suas intenções. Hope, no entanto, está determinada em ser mais do que um joguete nas suas mãos. E tem um trunfo: nenhum deles se pode lembrar dela.

Paralelamente a esse jogo sinistro que a colocará entre a vida e a morte por várias vezes, Hope tem ainda de lidar com os seus próprios sentimentos. Ela ama Luca Evard, o Inspetor da Interpol que a persegue há anos, mas nem ele se lembra de cada vez que a encontra, nem lhe parece que a quereria caso se lembrasse. Do Dubai a Istambul, de Hong Kong a S. Paulo, de Veneza à Escócia, a luta pela sobrevivência de Hope torna-se uma luta pela sobrevivência humana.

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Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Lord_Byron

O livro é mesmo esta maravilha toda. Mas, como referi acima, foi a escrita da autora, muito mais do que a história, que me deliciou. Tudo bem, irritei-me um pouco no terço inicial do livro com a quantidade de vezes que a palavra “conquanto” foi repetida, e o final não foi tão apoteótico e esclarecedor como eu imaginara, mas não deixa de ser um dos melhores livros que já li. Catherine Webb, Claire North ou como raio te chamas, minha cara, escreves bem que te fartas.

“O plot é bom, a forma como a história é conduzida incrível, os conhecimentos sobre história, arquitetura e medicina bem agradáveis, mas esqueçam isso tudo porque o que manda neste livro acima de tudo o resto é a escrita da autora.”

Somos brindados do início ao fim com revelações sobre o passado da personagem feitas a espaços, através de flashbacks. Conhecemos pormenores bastante interessantes da sua vida, por vezes a meio de cenas de ação. Os capítulos são pequenos, fluídos e entusiásticos, de uma forma muito personalizada. Já tinha gostado da escrita da Claire em As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, mas aqui a autora ultrapassou-se claramente.

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Fonte: https://www.bloomberg.com/news/articles/2013-11-12/wi-fi-networks-shouldnt-become-spy-networks

Também somos granjeados com várias citações de políticos, historiadores, figuras da Antiguidade, curiosidades sobre povos antigos, imensos nomes técnicos sobre anatomia humana e ainda vários trechos de músicas ao longo da narrativa. Os poemas de Lord Byron são um aspeto central da obra, uma vez que uma das personagens refugia a sua identidade no poeta britânico, mas toda a obra é também ela perpassada por outro clássico. Nos momentos mais inusitados, Claire presenteia-nos com Ei, Macarena!, o que me fez rir por mais do que uma vez. A música de Los Del Rio parece estar sempre na cabeça da protagonista / narradora, o que justifica a sua aparição ao longo da narrativa.

Concluindo, leiam este livro. Não sei se posso qualificá-lo como ficção científica, porque se tirarmos o facto de a protagonista ser “esquecível”, trata-se de um thriller policial / de espionagem narrado do ponto de vista do ladrão. E que grande thriller. Acho que a passagem em que se dá uma certa matança é só dos textos mais insanos, brilhantes e velozes que já li.

Avaliação: 10/10

 

 

Estive a Ler: Os Dragões do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #5

Castro ergueu a cabeça. Virou-se. Ainda hoje me lembro de cada instante daquele momento. Vi-o encher os pulmões de ar e ouvi, através do ressoar que tinha nos ouvidos, o profundo rugido do seu ultraje por alguma coisa ter o desplante de ameaçar o seu filho.

O texto seguinte aborda o livro “Os Dragões do Assassino”, quinto volume da série Saga O Regresso do Assassino

Os Dragões do Assassino compreende a segunda metade do livro Fool’s Fate, terceiro e último volume da trilogia The Tawny Man da autora californiana Robin Hobb, dividida em português em cinco volumes. Publicado originalmente em 2004, a versão portuguesa chegou às livrarias em 2012, pelas mãos das Edições Saída de Emergência, com tradução de Jorge Candeias.

«Os fãs de Hobb não ficarão desapontados com esta nova série.» é a recomendação utilizada pela editora na contracapa, pegando nas palavras do Monroe News-Star, uma publicação popular no Louisiana. De facto, com esta segunda trilogia passada no mundo de FitzCavalaria Visionário, Robin Hobb cimentou o seu papel como primeira-dama do mundo da Fantasia, e as 448 páginas deste volume são evidência da sua inegável qualidade.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/506795764291048011/

Li os 5 volumes da Saga O Regresso do Assassino este ano e ainda me pergunto como o fiz com tanta facilidade e entrega, depois de ter lido a primeira saga de forma tão morosa e amargurada. A verdade é que a Saga do Assassino não é má, nunca o cataloguei como tal, mas a beleza do seu mundo e o alcance de tudo o que ocorreu nesses primeiros livros só são compreendidos e deglutinados nesta segunda sequência. O mundo de The Realm of Elderlings não me maravilhou pela simples razão que pouco de traz de novo ao universo da Fantasia, mas aquilo que Robin Hobb faz nesse mundo tão corriqueiro acabou por encantar-me.

A escrita de Hobb é, sem a menor dúvida, o ingrediente secreto. Sem a forma elegante com que escreve, os estados de alma que consegue transmitir, os dilemas e aceitações do protagonista, esta série dir-me-ia muito pouco. Mas ela transforma personagens triviais em criaturas de carne e osso, cujos desgostos e vibrações conseguimos sentir como se fossem nossos. É a maturidade com que a autora californiana põe a descoberto uma trama simples que a transforma numa série complexa, sentimental, poderosa. Dificilmente encontrarei um autor de fantasia que me faça sentir com tanta profundidade a dureza da vida real e as consequências das escolhas.

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Fonte: http://saidademergencia.com

Neste quinto volume, encontramo-nos na ilha de Aslevjal, onde o príncipe Respeitador está destinado a cortar a cabeça a um dragão e colocá-lo na lareira da narcheska Eliânia das Ilhas Externas, se pretende consumar o casamento que salvará os Seis Ducados de uma nova guerra. No entanto, a tarefa não se adivinha fácil. Não só existe o Hetgurd, o conselho de clãs das Ilhas Externas que não parece muito determinado em permitir que o dragão seja morto, como o próprio dragão de que falam as lendas, Fogojelo, está enterrado debaixo do gelo, e a tarefa de desenterrá-lo pode demorar muito mais tempo do que seria desejável.

“É a maturidade com que a autora californiana põe a descoberto uma trama simples que a transforma numa série complexa, sentimental, poderosa.”

Complicando a situação, o Círculo de Manha do príncipe sente a presença do dragão, o que não só deixa claro que ele está vivo, como também os leva a sentir relutância em matá-lo. As emoções tomam conta de todos e depressa o contingente do príncipe sente-se dividido em relação ao que deve fazer. Também Respeitador partilha das suas dúvidas e descrenças, sendo a mão sempre obstinada de Breu, o conselheiro real, a lembrá-lo dos seus deveres e das consequências que podem advir de uma mudança de planos.

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Fonte: http://www.unboundworlds.com/2016/03/cage-match-2016-round-1-fitzchivalry-farseer-and-nighteyes-vs-prince-caspian-and-reepicheep/

FitzCavalaria Visionário, conhecido pela maioria dos presentes como Tomé Texugo, um mero criado, também sente as suas próprias mágoas e considerações. Mas, acima de tudo o resto, cansaço. Toda a viagem até à ilha foi o responsável por Obtuso, o simplório criado de Breu que, não só se revelou o mais poderoso de entre os presentes na magia do Talento, como revelou-se também intratável durante a travessia dos mares. A sua aversão a barcos e os contínuos enjoos exigiram a intervenção de Urtiga, a filha de Fitz que revelara um especial dom para a arte do Talento através dos sonhos, como de Teio, o Mestre da Manha que possui uma experiência e sensatez difícil de igualar.

No entanto, comer um bolo que Peotre Águapreta, o tio de Eliânia, lhe ofereceu, foi o que realmente o deixou de rastos. O bolo continha casco-de-elfo, uma substância que aplaca o uso de Talento, mas que, naquelas circunstâncias, o deixou completamente inutilizado no uso da magia, mas também com uma especial apetência para falar. Das suas desilusões. Das suas amarguras. Do seu fado inglório.

O seu amigo Bobo, aquele que todos conhecem agora como Dom Dourado, apareceu misteriosamente na ilha, depois dos esforços concertados entre Fitz e Breu para impedirem a sua saída de Torre do Cervo, uma vez que este previra que encontraria em Aslevjal a própria morte. A relação entre Fitz e o Bobo encontra-se, então, num impasse, uma vez que Fitz traíra o seu amigo na tentativa de salvar-lhe a vida. Pouco a pouco, porém, a leitura do seu próprio ponto de vista e o transcorrer dos acontecimentos vem derreter o gelo que se implantara entre ambos.

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Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/30688013-assassin-s-fate

O Homem Negro é um dos mistérios daquela ilha. É visto como uma figura lendária, que aparece esporadicamente e só para aceitar as oferendas que lhe são deixadas. Quando ele não as faz desaparecer, é visto como um sinal de mau agouro. Mas mais terríveis dos que os assomos inesperados dessa figura escura, são as lendas que falam da Mulher Pálida, a profeta que acompanhou Quebal Pancru na liderança das Ilhas Externas durante a Guerra dos Navios Vermelhos, uma figura marginal frequentemente ligada ao ato do Forjamento, a captura emocional de um ser humano que transformara milhares de ilhéus e povos dos Seis Ducados em pouco mais do que criaturas sem valores nem consciência deles, exércitos despojados de qualquer tipo de comiseração durante os anos terríveis da guerra.

Quando Ordem e Enigma desaparecem, cabe a Fitz, ao Bobo e a Obtuso seguirem o seu rasto, mas esse rasto pode conduzi-los às profecias tecidas pelo Bobo e às mais terríveis profundezas de Aslevjal. Como sempre, cabe a Fitz, o Catalisador, operar as mudanças que revolucionarão os destinos do mundo. Mas, paralelamente a isso, há um dragão para ser desenterrado, e um outro, Tintaglia, a fêmea de Vilamonte, tem ainda uma palavra a dizer num despique que, de uma forma ou de outra, terminará em tragédia para todos.

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Fonte: https://vlac.deviantart.com/art/Fool-s-Fate-126177501

Robin Hobb deixou para este volume as maiores emoções da saga, mas, no entanto, acabou por não ser o meu volume preferido. Os Dragões do Assassino oferece-nos uma imensidão de acontecimentos, apresentou-nos vilões, dragões, batalhas, mortes importantes, revelações, reencontros e finais dignos e fidedignos para os personagens que vínhamos a acompanhar, demorei uma única semana para o devorar e, no entanto, coloco este livro um furinho abaixo dos anteriores. E, para ser sincero, não sei explicar bem porquê.

“Talvez aquilo que me fez não gostar tanto deste volume como dos anteriores foram as passagens com a Mulher Pálida.”

Adorei toda a intervenção de Castro neste volume. O homem que criara Fitz veio a ter um papel de grande importância nesta trama, e foi, ao longo das duas sagas, um dos meus personagens preferidos. Do início ao fim, apreciei tudo o que a autora lhe reservou. Deliciei-me ao ler as passagens de Paciência e Renda, e pouco me recordava delas da primeira saga; de qualquer jeito, nunca me pareceram tão maravilhosas. Breu continuou a ser Breu, com todas as tonalidades entre a sensatez de um velho conselheiro e a rebeldia de um velho senil. Respeitador e Eliânia, que belo casal. Que personagens.

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Fonte: https://vlac.deviantart.com/art/The-Narcheska-and-the-Prince-138334852

Sempre preferi que Fitz ficasse com Kettricken do que com Moli, a quem nunca achei a menor graça. Ainda assim, toda a forma como a história foi contada e o final que Hobb delineou, o modo como o contou, foi de mestre. Adorei tudo, desde os acontecimentos com os dragões, com Castro, com o Bobo, o regresso a Cervo, aos finais determinados pela autora. Gostei de Enigma, de Veloz, de Teio, dos filhos de Moli, dos dragões… Perguntem-me então por que não gostei tanto deste volume como dos anteriores?

Talvez aquilo que me fez não gostar tanto deste volume como dos anteriores foram as passagens com a Mulher Pálida. Achei uma personagem bastante cliché, como grande vilã, com propósitos algo óbvios e um tom algo decadente. Sinceramente não imagino outra forma de a qualificar, mas esperava algum volte-face em relação à sua identidade ou uma passagem menos materializada na trama. De qualquer forma, gostei da velocidade com que os acontecimentos em volta dela ocorreram e da forma como foram ultrapassados.

“Robin Hobb tornou-se uma das minhas autoras preferidas e a sua escrita maravilhou-me em toda sua extensão.”

Em jeito de balanço de saga, só posso tecer os mais rasgados elogios. Robin Hobb tornou-se uma das minhas autoras preferidas e a sua escrita maravilhou-me em toda sua extensão. Hobb ofereceu-nos uma história cheia de dilemas e debates morais, dúvidas e escolhas, mas acima de tudo ofereceu-nos um personagem plausível, atolado em problemas, que mostrou estar bem mais maduro e sensato do que o havíamos conhecido na primeira série. Nunca esperei que tivesse de passar por duas perdas tão duras durante esta saga, mas ambas fizeram-no crescer e resolver algumas das suas indecisões. Porque por vezes, quando demoramos muito tempo a escolher, a vida escolhe por nós.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Estive a Ler: A Forca, A Primeira Lei #2

A neve caía. Pontos brancos rodopiando no ar além do penhasco, transformando os pinheiros verdes, as rochas negras e o rio castanho no fundo em fantasmas cinzentos.

O texto seguinte aborda o livro “A Forca”, segundo volume da série A Primeira Lei 

Natural de Lancaster, Joe Abercrombie é um dos mais famosos autores de Fantasia da atualidade, conhecido sobretudo pela saga A Primeira Lei. Após crescer numa rígida escola britânica, Joe tornou-se acérrimo adepto de jogos de computador, ocupando parte do seu tempo a criar mapas fictícios. Estudou Psicologia na Universidade de Manchester, sempre com a ideia de vir a revolucionar o mundo da Literatura Fantástica. Publicou o primeiro livro, The Blade Itself, em 2004, ao que se seguiu Before They Are Hanged, o segundo volume da série inaugural.

Pelas mãos da Edições ASA / 1001 Mundos, Before They Are Hanged chegou a Portugal em 2012 com o título A Forca. Com tradução de Renato Carreira e 656 páginas, A Forca regressa ao mundo ambicioso de Joe Abercrombie com a frase de Heinrich Heine na capa: «Devemos perdoar os nossos inimigos, mas não antes que sejam enforcados.» O autor vive atualmente em Bath, Inglaterra, com a esposa e as filhas.

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Joe Abercrombie (Fonte: https://www.joeabercrombie.com/author/)

Li Joe Abercrombie pela primeira vez o ano passado. “Está Difícil para Todos”, conto presente na antologia Rogues organizada por George R. R. Martin foi a minha porta de entrada, mas tantos eram os elogios de vozes “especialmente especializadas” que me aventurei nesta série A Primeira Lei, tida como a mais surpreendente do autor. Realmente, o estilo de Joe aproxima-se muito ao meu, tanto em escrita como em ideias, mas tanto o final do conto como o do primeiro volume da trilogia, A Lâmina, não me encheram as medidas.

Ainda assim, não há como negar que Joe Abercrombie é um dos autores mais talentosos da Literatura Fantástica mundial. A leitura de A Forca veio reforçar essa ideia aos meus olhos, apesar de não conseguir ombrear com os meus preferidos no género. Dono de uma escrita elegante e competente e criador de histórias ricas e envolventes, o autor britânico conquista pela irreverência dos seus personagens, mas também me parece demasiado escudado nos velhos clichés.

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Fonte: https://www.fnac.pt/A-Forca-Joe-Abercrombie/a596336

A Primeira Lei é passado em Midderland. Logen Novededos ganhou fama de sanguinário no norte gelado, onde lutou durante muitos anos ao lado de Bethod, um veterano de guerra que conquistara o norte a pulso. As rixas acentuaram-se e Bethod ganhou uma feiticeira como conselheira, avançando para o centro, tentando expandir os seus domínios. O centro de Midderland é dominado pela União, com capital em Adua, onde perambulam personagens carismáticos como o major Collem West, o inquisidor Sand dan Glotka e o espadachim Jezal dan Luthar. O rei Guslav V não parece muito influente, sendo o Círculo Fechado o verdadeiro cérebro por detrás de todas as ações da União.

E a União está sob ameaça. A norte, a guerra contra Bethod e os seus carls. A sul, a guerra contra Gurkhul e o impiedoso imperador Uthman-ul-Dosht, discípulo do profeta Khalul. Certo de que os exércitos da União não terão capacidade de os travar a ambos, o Primeiro dos Magos, Bayaz, empreende uma jornada para vencer o inimigo através da magia. No início, o mundo era habitado por demónios e seres mágicos, mas uma cisão drástica fez com que todas as criaturas fossem atiradas para o Outro Lado. Tocá-lo e recorrer à magia é quebrar a Primeira Lei, mas Bayaz sabe que as leis antigas estão a ser violadas.

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Logen Novededos (Fonte: https://thetattooedbookgeek.wordpress.com/2016/04/25/sharp-ends-book-review/)

Para alcançar os seus intentos misteriosos, ele pega no seu aprendiz Malacus Quai e num navegador experiente, chamado Pé Longo, no guerreiro nortenho Logen Novededos, no egocêntrico Jezal e na antiga escrava sulista Ferro Maljinn, e condu-los numa viagem até aos confins do mundo, em busca de uma pedra. Os caminhos que são obrigados a atravessar escondem, porém, todo o tipo de perigos.

Glokta, por sua vez, é enviado pelo arquileitor Sult a Dagoska, o último bastião da União no Sul, localizado numa península. O objetivo, ajudar à defesa da cidade e descobrir o que acontecera ao superior da Inquisição, Davoust, então desaparecido. Glotka fora um antigo veterano de guerra, que havia capitulado em batalha contra os gurkeses e conhecera de perto os seus métodos. Para surpresa do conselho administrativo da cidade, composto pelo velho governador Vrums, o seu filho Korsten dan Vurms, o general Vissbruck, a magistrada da guilda dos especieiros Carlot dan Eider e o sacerdote nativo Kahdia, Glotka chega com plenos poderes para as decisões políticas e militares de Dagoska.

O que ele não esperava era ter de lidar com uma conspiração hedionda, um mercenário volúvel chamado Nicomo Cosca, uma doação imprevisível do banco Valint e Balk, um cerco terrível à cidade… e a visita de um velho mago chamado Yulwei, que o alerta para um ataque de devoradores, seguidores eleitos por Khalul para violarem a Segunda Lei: a proibição de se comer carne humana. Para o ajudar, Glotka apenas conta com a sua mente astuta e com o poderio físico dos seus práticos: Frost, Severard e Vitari.

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Sand dan Glotka (Fonte: Mat Edwards)

Nas terras de Angland, os exércitos da União preparam-se para repelir Bethod. O próprio príncipe herdeiro Ladisla comanda um dos exércitos, ainda que lhe falte tanto experiência como sensatez. O marechal Burr coloca o príncipe sob a supervisão de West, promovendo este a coronel. São surpreendidos com a aliança improvável de um grupo de nortenhos, um grupo formado por Cão, Rudd Três Árvores, Tul Cabeça de Trovão, Dow Negro e Sisudo. Homens lendários no norte, que se haviam juntado outrora a Logen Novededos, que os liderara.

Enquanto os generais Kroy e Poulder medem forças, os regimentos acabam por separar-se e a West cabe-lhe a tarefa ingrata de vigiar o príncipe, ainda que não compreenda nenhuma das suas diretivas. O frio ameaça abalar as suas forças mais do que a guerra, e é obrigado a recrutar forjadores numa colónia penal. O homem de rosto queimado chamado Pike e a rapariga Cathil viriam a transformar as vidas de West, Cão e Ladisla de modo incontornável.

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The First Law art (Fonte: http://firstlaw.wikia.com/wiki/The_First_Law_Trilogy )

É, para mim, uma pena que Joe Abercrombie tenha criado o núcleo de Bayaz. É ele que move toda a narrativa, é certo, mas tanto os personagens parecem irrelevantes como a própria demanda soa a algo posto ali porque é giro e tal. É por alguns autores insistirem na ideia de uma demanda por um objeto mágico capaz de salvar o mundo, que o estigma que a Literatura Fantástica é coisa para miúdos perdura. Bayaz é um personagem com uma história pouco interessante e algo estereotipada, transformado no velho mago tradicional.

Joe Abercrombie parece ter aprendido com os mestres e as descrições de batalha não devem em nada às de Bernard Cornwell, um dos melhores a fazê-lo.”

Logen Novededos é um personagem cheio de potencial, que foi transformado, da metade do primeiro volume até aqui, de um guerreiro sanguinário num gigante troglodita, que até tem experiência de guerra e inteligência, mas que parece um atrasado mental quando se move ou fala. Ferro Maljinn teve um final completamente irreal no primeiro volume, e neste tornou-se extremamente irritante. Jezal e Malacus Quai acabam por ser os personagens mais agradáveis do núcleo, mas ambos foram bem melhores e mais explorados no primeiro volume.

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The First Law art (Fonte: https://geeklyinc.com/geekly-guide-to-authors-joe-abercrombie/)

Mas, é importante sublinhar, este núcleo central não ocupa todo o protagonismo do livro. E é isso que faz de A Forca um livro bom. Os imensos capítulos de Glotka, West e Cão salvam a “honra ao convento”. Se no primeiro volume já havia gostado do major West com a sua natureza impulsiva e tons cinzentos, e do antigo aliado de Logen, sempre furtivo e leal, neste livro a sua envolvência nas batalhas de Angland foi excelente. Joe Abercrombie parece ter aprendido com os mestres e as descrições de batalha não devem em nada às de Bernard Cornwell, um dos melhores a fazê-lo. E as intrigas secundárias dentro destes núcleos foram surpreendentes e muito agradáveis de se ler.

“A leitura de A Forca veio reforçar essa ideia aos meus olhos, apesar de não conseguir ombrear com os meus preferidos no género.”

Se os capítulos de West e Cão agradaram-me imenso, os de Glotka foram deliciosos. O personagem é o melhor da saga, parecendo quase um upgrade do Tyrion Lannister de George R. R. Martin. Preferi a sua estadia em Dagoska, repleta de boas surpresas, mas todas as passagens do inquisidor foram brilhantes. Em parte, graças aos seus pensamentos e diálogos cheios de sarcasmo, ideias mirabolantes e toda a sorte de soluções para os mais variados problemas, em parte pelos cenários e personagens excelentes que gravitaram à sua volta.

Resumindo, gostei bastante de A Forca, ainda que o tema central e os supostos protagonistas não me convençam e lamento a forma como Joe os tenha desenvolvido. Espero em breve ler o terceiro e último volume desta trilogia A Primeira Lei, que será certamente surpreendente. Abercrombie faz-nos emergir na leitura e sentir as dores dos personagens como se fossem nossas.

Avaliação: 7/10

A Primeira Lei (Gailivro/1001 Mundos):

#1 A Lâmina

#2 A Forca

#3 A Coroa

Estive a Ler: Bruxas | Wytches #1

Alguém me prometeu a elas! Fui prometida! Por favor, Tim! Tira-me daqui!

O texto seguinte aborda o primeiro volume da série Bruxas | Wytches  (Formato BD)

Chega este fim-de-semana às FNAC’s uma das novelas gráficas de horror mais elogiadas dos últimos anos. Wytches entra em Portugal pelas mãos da G Floy Studio, uma das maiores promotoras do mercado de BD nos últimos anos, sobretudo as nascidas sob a chancela Image Comics. Bruxas | Wytches tem argumento de Scott Snyder, autor de vulto da DC Comics conhecido por ser o escritor mais regular das séries Batman. Wytches é, para Snyder, um regresso às origens, pois foi no âmbito do horror que ganhou visibilidade, nomeadamente com American Vampire, uma série que escreveu para a Vertigo, impulsionado pelo seu ídolo, Stephen King.

A ilustração está a cargo do britânico Jock, conhecido pelos trabalhos em Arqueiro Verde e The Losers. Colaborou com Snyder pela primeira vez numa secção de Batman, tendo vindo a ser escolhido para a ilustração de Wytches, volume este que contou ainda com cores de Matt Hollingsworth, letras de Clem Robbins e edição de David Brothers. A publicação nacional contém os extras da edição original, incluindo notas de autor, esquissos e estudos de cores.

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Scott Snyder e Jock (Fonte: http://womenwriteaboutcomics.com/2015/04/28/c2e2-2015-an-overview-in-photos-part-ii/)

Li este livro recentemente em inglês e é com bons olhos que o vejo publicado em português de Portugal. As apostas da G Floy no género terror têm sido muito positivas e depois do que ouvira falar deste Wytches, posso dizer que não fiquei defraudado. Na verdade, nunca tinha lido nada de Snyder, até porque perdi a vontade de ler séries de super-heróis há algum tempo, e Bruxas | Wytches mostrou-me que é um autor cheio de talento, que sabe jogar com o público e com as ondulações narrativas. A série foi lançada em 2014 pela Image Comics e este primeiro volume compreende os números 1 a 6 da publicação original.

Bruxas | Wytches apresenta-nos uma família em busca de sossego e redenção. Após um acidente terrível que deixou Lucy numa cadeira de rodas, os Rook mudaram-se para Litchfield, no New Hampshire, onde pretendem recomeçar da melhor forma. Charlie e Lucy são pais de Sailor, uma menina ruiva que não se consegue encaixar na escola nova e revela diversas dificuldades de adaptação. A afundar-se na ansiedade e na depressão, Sailor reencontra os fantasmas do seu passado. Talvez de forma mais literal do que podem supôr.

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Fonte: G Floy Studio

Na floresta que rodeia a nova casa, esconde-se algo sinistro e brutal. Mas não é tudo. Sailor é vítima de bullying na escola por uma garota chamada Annie, e essa sobreposição de acontecimentos fazem com que a rapariga fuja de casa. A mãe não parece preocupar-se, uma vez que o caso é colocado nas mãos da polícia. Charlie, porém, sente que já falhou com a filha e não está disposto a fazê-lo novamente. É então que descobre as suas notas depressivas e rastos que denotam o seu estado mental. Charlie inicia uma jornada para resgatar a filha das trevas. Para isso, porém, precisa encontrá-la.

“As apostas da G Floy no género terror têm sido muito positivas e depois do que ouvira falar deste Wytches, posso dizer que não fiquei defraudado.”

A floresta está pejada de bruxas. Bruxas antigas, bruxas que pretendem reclamar o que é delas. Bruxas que se confundem com as próprias árvores. Bruxas de corpos medonhos. Bruxas que alimentam-se das pessoas que lhes foram prometidas. Listas de pessoas oferecidas em juramento por outras pessoas, em troca de determinados desejos. O nome de Sailor foi-lhes entregue, e estes seres macabros moverão todos os esforços para se alimentarem da jovem. Custe o que custar.

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Fonte: G Floy Studio

Com um mal tão antigo e profundo a abeirar Sailor, só o pai a pode salvar. Todos querem fazê-lo acreditar que Sailor adotou um comportamento típico de adolescente desajustada, mas Charlie pressente que é muito mais do que isso. A narrativa alterna entre passado e presente, criando um paralelismo interessante, abordando a tragédia que os marcou a todos, a relação que se construiu entre pai e filha e as dicotomias dos seus comportamentos, abrindo passagem para a luta pela sobrevivência que marcará todos os personagens, cada um da sua forma.

“A versão das bruxas de Snyder é bem diferente do que podemos imaginar ao pensar nelas. Esqueçam Sabrina (uma das referências na obra) ou até mesmo Salem.”

Não posso dizer que foi um livro que me maravilhou, mas foi todo ele bem tecido. Há um mistério a permear toda a trama que funcionou, assim como a forma como os personagens são explorados, nomeadamente Sailor e Charlie, a relação do seu passado com as bruxas e aquilo que elas significam. Há também uma aura de medo a envolver a existência das bruxas, o momento em que elas podem aparecer e o que fazer quando aparecem. A forma como o mais comum dos mortais pode ser igualmente assustador, graças à sua fragilidade moral e volatilidade provoca inquietação. Snyder joga muito bem com os medos básicos do Homem.

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Fonte: G Floy Studio

Bruxas | Wytches cumpre o que promete. Dinâmico, intimista e até esperançoso, o álbum oferece o melhor que o género contém, integrando até pequenos apontamentos de humor e misticismo de forma superficial que não me desagradou. A versão das bruxas de Snyder é bem diferente do que podemos imaginar ao pensar nelas. Esqueçam Sabrina (uma das referências na obra) ou até mesmo Salem. Estas bruxas fazem-me mais lembrar o Venom do Homem-Aranha ou o Predador da série cinematográfica.

“Snyder joga muito bem com os medos básicos do Homem.”

A ilustração de Jock é um dos pontos fortes do álbum. Agressiva, escura, com uma variância de cores, traços e sombras que se confundem e se adaptam a cada circunstância narrativa. Consegue captar tudo o que precisamos das personagens, envolver-nos nelas como se de uma narrativa cinematográfica se tratasse. A palete de cores, as manchas e as sombras são sumo de qualidade nesta obra de grande aparato. Acabei por não me familiarizar por aí além com nenhum personagem, e estive constantemente à espera que um em concreto morresse, mas a história acabou por fluir de forma subtil e simples, numa sequência de pequenos passos dados na direção do final bem satisfatório, conclusivo q.b.

Avaliação: 8/10

Bruxas | Wytches (G Floy Studio Portugal):

#1 Vol. 1

 

Estive a Ler: Os Mares do Destino, Elric #3

E ouviu qualquer coisa, uma coisa que não eram os sussurros taciturnos do mar: uma chiadeira regular, como a que um homem faz ao andar quando veste couro rígido. A mão direita desceu-lhe à anca esquerda e à espada que daí pendia. Deu uma volta, olhando em todas as direcções em busca da origem do ruído, mas a névoa distorcia-o. Podia vir de qualquer parte.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Os Mares do Destino”, terceiro volume da série Elric

O terceiro volume de Elric chegou às prateleiras nacionais em 2009, pelas mãos da Edições Saída de Emergência. Foram, porém, nos distantes anos de 1976 que o original conheceu a luz do dia. Os Mares do Destino, do famigerado autor britânico Michael Moorcock, foi o segundo volume da saga, ainda que a edição portuguesa tenha decidido respeitar a ordem cronológica da série, transformando-o na terceira publicação em terras nacionais e, na verdade, o último a ser publicado por cá.

Os Mares do Destino é um livro de 208 páginas, com edição de Luís Corte Real e tradução de Luís Rodrigues. O escritor, Michael Moorcock, é um dos símbolos da literatura fantástica, autor de uma centena de livros e vencedor de diversos prémios literários. Para além de escritor, Moorcock é editor de revistas, politicamente anarquista, músico controverso e cronista respeitado. É, também, um dos mais influentes autores de Fantasia vivos.

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Michael Moorcock ( Fonte: http://avclub.com )

Elric é o imperador albino de Melniboné, o herdeiro de um império outrora ufano e glorioso, conhecido pelo caráter soberbo e cruel dos seus habitantes. Revelou-se, porém, um governante mais benévolo que os antecessores, mas também mais pensativo e preocupado. A inveja do primo Yyrkoon levou-o a estabelecer um pacto com o Duque Arioch, uma divindade do Caos, que o conduziu a uma espada sugadora de almas, a terrível Tormentífera. Obstinado em conhecer os Reinos Jovens, livres do domínio de Melniboné, para perceber a razão do declínio da sua nação e impedir a sua queda, Elric deixa a terra natal e lança-se numa aventura sem igual.

Se A Fortaleza da Pérola levou Elric pelo mundo dos sonhos, Os Mares do Destino convida-o a enlear-se numa viagem entre mundos e tempos, de uma forma mais bem conseguida do que eu augurava. A prosa de Moorcock é maravilhosa, por vezes demasiado detalhada, mas sem perder flexibilidade ou fluidez narrativa. Os acontecimentos sucedem-se em catadupa, sem serem explorados ad nauseam. Por muito que Moorcock nos leve por uma fantasia mais tradicional (reparem há quantos anos o livro foi escrito!), somos presenteados por uma narrativa misteriosa em que acabamos por ser sempre surpreendidos. Pelo menos, eu fui.

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Capa Saída de Emergência ( Fonte: http://fnac.pt )

Dividido em quatro partes, Os Mares do Destino apresenta-nos o conto “A Canção da Espada Negra”, que serve de introdução ao livro. Elric procura a cidade de Xanardwys, mas o que encontra é um cenário terrivelmente apocalíptico, uma verdadeira chuva de anjos. São, na verdade, os Senhores do Caos, que parecem ter perdido uma batalha celestial contra os seus arqui-inimigos, os Senhores da Lei, enviados da Singularidade. De entre os anjos cadentes, Elric encontra o seu padroeiro, Arioch, que parece demasiado frágil para lhe dar atenção.

“A prosa de Moorcock é maravilhosa, por vezes demasiado detalhada, mas sem perder flexibilidade ou fluidez narrativa.”

Nessa constatação, Elric encontra um cavaleiro chamado Renark von Bek, um conde que parece ter vindo do nosso mundo. É a primeira evidência da viagem que Elric iria empreender pelos caminhos do Multiverso. Elric e Renark encontram um navio, na qual um grupo de crianças velam o corpo de um feiticeiro moribundo chamado Patrius, e um capitão de dúbias intenções, Quelch, alerta-os para a viagem que os espera: uma viagem entre mundos e entre tempos distantes. Após a introdução ao livro, seguem-se três secções intituladas “Rumo ao Futuro”, “Rumo ao Presente” e “Rumo ao Passado”.

Na primeira, Elric encontra-se perdido, depois de fugir de Pikarayd, o mais oriental dos Reinos Jovens. Sem cavalo e a entrar em desespero, sem um caminho visível que o conduzisse às Ilhas das Cidades Púrpuras, o albino depara-se com um navio de grandes dimensões. Algo no seu íntimo, porém, segreda-lhe que algo ali está errado. Aparte o capitão do navio ser cego e o timoneiro ser o seu irmão-gémeo, alguns dos tripulantes da embarcação parecem ter algo das feições do próprio Elric nos seus rostos. Erekose, Corum e Hawkmoon são os três homens, a que se junta Elric. O capitão chama-os Os Quatro, e destaca-os para se infiltrarem numa cidade terrível e destruir duas criaturas poderosas chamadas Agak e Gagak.

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Elric (Fonte: http://geek.com )

Em “Rumo ao Presente”, Elric é obrigado a tomar uma decisão sobre o caminho a seguir. O capitão oferece-lhe uma escolha, entre ficar numa ilha desolada e procurar o Portal Carmim que o pode conduzir a casa, ou seguir viagem com ele. Uma viagem que não terá retorno. Elric decide então procurar o caminho de casa, mas a ilha terrível que o espera contém várias surpresas, entre a quais um sol azul e um exército de saqueadores vindos de várias áreas e períodos do seu mundo. Com Tormentífera em punho, Elric não encontra dificuldades em enfrentá-los, muito embora seja a ação de Smiorgan Careca, um conde das Cidades Púrpuras, a influenciar o rumo dos acontecimentos.

Na última parte, “Rumo ao Passado”, Elric regressa ao seu mundo, onde é salvo pelo navio do Duque Avan Astran da Velha Hrolmar, um aventureiro de renome. Astran mostra a Elric um mapa de R’lin K’ren A’a, a mítica terra de onde, se diz, o povo de Melniboné teve origem, antes de fundar o seu império na Ilha dos Dragões. Elric aceita acompanhá-lo e provar a existência de tal civilização, na tentativa de obter respostas para os mistérios que o perseguem, mas a morte e a desolação são bem mais constantes e reveladores.

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Elric (Fonte: http://tapiocamecanica.com.br-os-quadrinhos-que-o-tempo-esqueceu-29/ )

Com exceção de Elric, os restantes personagens não foram muito desenvolvidos ou explorados, muito embora a prosa de Moorcock nos consiga deixar uma imagem nítida e peculiar sobre eles. Muitas vezes, passamos pelas histórias e deixamo-las com mais perguntas do que respostas, e ainda assim elas sucedem-se como peças de um puzzle que devemos compreender como um todo. São as perguntas e as dicotomias de Elric a verdadeira essência deste livro, que tanto podem frustrar a experiência de leitura como fazer-nos aceitá-la como aquilo que ele tem para oferecer.

“Elric decide então procurar o caminho de casa, mas a ilha terrível que o espera contém várias surpresas, entre a quais um sol azul e um exército de saqueadores vindos de várias áreas e períodos do seu mundo.”

As demandas e as aventuras de Elric não são impressionantes ou originais, talvez por tantos terem sido os autores que se inspiraram na obra de Moorcock, mas garanto que transportam consigo o melhor da tradição de Espada e Feitiçaria. Os vários enigmas, assim como a sensação de continuidade, em que nenhuma trama consegue ficar definitivamente encerrada na mente do personagem-título, oferecem uma certa mística e sentimento de dúvida que me agradou.

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Elric (Fonte: http://foroparalelo.com/general/elric-melnibone-lectores-fantasia-heroica-36313/ )

De certa forma, pode-se considerar que este livro está dividido em contos, todos eles permeados por uma história maior, que se vai interligando à medida que a narrativa avança. As relações de Elric com a sua génese, com a espada Tormentífera e com o seu patrono Arioch são desenvolvidas de forma gradual e com um cuidado notável. A escrita de Moorcock cativa, mas é sobretudo a forma como ele conta estas histórias oníricas que me faz gostar delas.

“Muitas vezes, passamos pelas histórias e deixamo-las com mais perguntas do que respostas, e ainda assim elas sucedem-se como peças de um puzzle que devemos compreender como um todo.”

Elric de Melniboné é um personagem digno de se ler, não só pela sua estrutura mental, uma inconstância de valores que se materializa num rol de charadas sem resposta, como por aquilo que ela suscita. Faz-nos pensar sobre as nossas origens, sobre aquilo que julgamos certo, sobre até que ponto a nossa integridade está ligada à educação que conhecemos. Os Mares do Destino é uma bela experiência de leitura, para quem embarcar nele sem esperar uma narrativa sólida, com princípio, meio e fim. Ler Michael Moorcock é ler o melhor do género de Espada e Feitiçaria.

Avaliação: 7/10

Elric (Saída de Emergência):

#1 Príncipe dos Dragões

#2 A Fortaleza da Pérola

#3 Os Mares do Destino

Estive a Ler: Anjos

A missão já tinha terminado. Era tempo da recompensa há muito prometida. Muito mais valiosa do que a enorme soma monetária que lhe tinha depositado, muito mais prazerosa do que qualquer outra coisa que lhe poderiam oferecer. Finalmente, vingança!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro Anjos

Lançado no passado dia 15 de julho no Instituto Superior Técnico de Lisboa, no âmbito do Sci-Fi Lx, Anjos foi o livro vencedor do Prémio Divergência 2015. Pelas mãos da Editoral Divergência, esta obra de Ficção Científica é rotulada como o primeiro livro de “solarpunk” made in Portugal. O autor, Carlos Silva, é uma das figuras proativas da Ficção Especulativa no nosso país, quer através da escrita, quer através dos inúmeros projetos em que se tem envolvido, sendo a Imaginauta, da qual foi um dos fundadores, um dos empreendimentos que tem obtido maior expressão.

Com 290 páginas e edição de Anton Stark, Anjos é o primeiro romance publicado de Carlos Silva, que já havia dado nas vistas não só com os vários projetos desenvolvidos, como também pelos inúmeros contos que publicou em antologias e revistas especializadas, tanto no nosso país como no Brasil. Mais recentemente, o autor começou também a escrever para BD e cinema.

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Fonte: http://divergencia.pt/balanco-do-sci-fi-lx-2017/

Que YHVH observe todos os teus passos. Boas leituras. Foi esta a mensagem que o Carlos Silva garatujou no meu exemplar quando o adquiri durante o Sci-Fi Lx. Se a vontade para conhecer o livro do Carlos já era muita, esta “dedicatória” enigmática deixou-me ainda com mais vontade de devorar o livro. Já conhecia a escrita do autor, nomeadamente da antologia Proxy, onde o conto “O Pecado da Carne” foi um dos meus favoritos, e garanto que Anjos não me desiludiu. Carlos Silva é uma das novas vozes da literatura de género em Portugal e a qualidade do seu trabalho merece o meu louvor.

Anjos é um livro com 38 capítulos plenos de ação e de reviravoltas, sob o ponto de vista de uma série de personagens que deixam bem ao critério do leitor quem deve ou não ser considerado o protagonista. Somos transportados para uma Lisboa futurista, onde o nosso país não é bem aquilo que podemos imaginar. Pessoalmente, tenho alguma dificuldade em escrever sobre Portugal, mas é inegável que faz falta ficção sobre a nossa identidade coletiva e o Carlos conseguiu fazê-lo com êxito e originalidade.

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Fonte: http://divergencia.pt

Algures no nosso futuro, um abanão tectónico com proporções maiores e mais terríveis do que o sismo de 1755 abalou os alicerces do nosso país. Monumentos como o Castelo de S. Jorge, por exemplo, disseram adeus à sua singela existência. Em seu lugar, foram construídos outros edifícios, mais sofisticados e de arquitetura vanguardista, mas também – e aqui fica uma das adições mais incríveis por parte do autor – ecológica. A Lisboa prenhe de arranha-céus que podes imaginar está lá, mas esses edifícios têm os terraços cheios de jardins, colorindo a cidade de verde, o que transforma este livro num “solarpunk”.

“Carlos Silva é uma das novas vozes da literatura de género em Portugal e a qualidade do seu trabalho merece o meu louvor.”

Pode-se dizer que estamos perante um mundo mais sofisticado e otimista, graças ao trabalho desmedido de uma mão cheia de pessoas que não olharam a esforços para construir um país melhor. A Reconstrução veio suprir muitas das dificuldades e falhas do mundo antigo, muito embora, com o passar dos anos, ninguém se lembre ou saiba muito bem quem foram aqueles que contribuíram para este avanço social/tecnológico. Nestes dias futuristas, a Internet tem um poder incomensurável, capaz de detetar ou de conhecer o perfil psicológico de qualquer pessoa, baseando-se meramente nos seus dados pessoais de registos eletrónicos ou perfis nas redes sociais.

O YHVH é o maior e o mais poderoso desses computadores, que poderia trazer o caos ao mundo se caísse nas mãos erradas. Foi para evitar isso que os Anjos se apoderaram dele. Uma sociedade restrita, os Anjos são, na prática, uma empresa de estafetas que transporta informações confidenciais manualmente, devido à impossibilidade de obter qualquer tipo de privacidade ou secretismo através da Internet. Pejados de interfaces e de um sem-número de recursos tecnológicos, estes mensageiros têm um papel ativo na sociedade, atuando clandestinamente como justiceiros.

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Fonte: http://hopesandfears.com

Serafim, Miguel e Raquel foram os fundadores deste grupo invulgar. Em tempos, foram os melhores amigos, cheios de ideias inovadoras e de soluções para os problemas do mundo. Juntou-se-lhes Rita, um génio informático. A relação de Serafim e Miguel, porém, foi-se degradando com os conflitos resultantes das suas diferenças ideológicas. Essa cisão acentuou-se com o homicídio de Raquel. Miguel enveredou por um grupo mais interventivo que os Anjos, chamado Socorristas, e Serafim ocupou-se da liderança dos Anjos. Com o tempo, o grupo evoluiu e novos formandos foram adicionados à equipa, como Isabel, Gabriel e Uriel. A história de Anjos tem início quando o jovem Uriel é cruelmente assassinado.

“A Reconstrução veio suprir muitas das dificuldades e falhas do mundo antigo, muito embora, com o passar dos anos, ninguém se lembre ou saiba muito bem quem foram aqueles que contribuíram para este avanço social/tecnológico.”

Ana é a inspetora encarregue do caso. As desconfianças de que a vítima mortal seja um membro da empresa de Serafim são alimentadas pelo inspetor João Noronha, com quem é obrigada a dividir o caso. Noronha foi um dos homens responsáveis pela Reconstrução, de quem quase ninguém se lembra, e apesar de se mostrar cética em relação às suas crenças, Ana segue os seus impulsos. Em boa verdade, porque Noronha é uma das suas referências, o exemplo que a levou a seguir aquela profissão. Para o inspetor, os Anjos estão metidos naquilo até ao pescoço; um dos trabalhos da sua vida tem sido reunir provas sobre os trabalhos clandestinos do grupo.

Gostei imenso do trabalho desenvolvido pelo autor. A história é muito interessante e até inesperada, tanto a nível de estrutura base como a nível de desenvolvimento narrativo. Também a escrita é fluída e competente. Se, em alguns momentos, pareceu que o passado dos personagens era demasiado vincado pelo autor, de forma talvez repetitiva, temo que o corte dessas informações pudesse criar maior confusão ao leitor. O mundo é novo, mas somos inseridos nele de forma gradual e perfeitamente esclarecedora.

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Fonte: http://alchetron.com/Cyborg-2318169-W

Anjos faz-nos refletir sobre a sociedade e sobre o futuro que nos espera, sobre corrupção, sobre justiça e sobre partilha de informação. Acima de tudo, porém, é um thriller pleno de investigações e de perseguições, em que tanto a identidade do herói como a do vilão permanece incógnita até ao final. A revelação do rosto por detrás dos homicídios é, na verdade, a única desilusão do livro. Não só faz todo o sentido, como foi a minha primeira suspeita, mas entra em choque narrativo com uma cena anterior, passada sob o ponto de vista do personagem.

Outra crítica a apontar é a falta de profundidade de alguns personagens. Ana precisava de mais alguns capítulos com destaque. Isabel e Gabriel tiveram os seus picos de protagonismo, mas não consegui distingui-las uma da outra, quer através de perfil físico ou psicológico, quase inexistentes. Na verdade, seria difícil dar igual ênfase a tantos personagens num livro único e de dimensões reduzidas como o é Anjos, mas ainda assim penso que o autor se saiu bem. Pessoalmente, escolheria menos personagens para lhes dar pontos de vista.

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Fonte: http://businessinsider.com/teenage-mutant-ninja-turtles-is-all-about-megan-fox-2014-8

Por outro lado, temos em Serafim o personagem mais bem construído e desenvolvido. Tanto a forma como é apresentado como desenvolvido são fenomenais, tornando-o facilmente o meu personagem preferido de todo o livro. Aquilo que ele foi, aquilo que ele é e aquilo em que se torna, leva-nos a refletir se o que somos consiste no que sentimos ou naquilo que fazemos. Rita, Miguel, Noronha ou Ana são outros personagens que trago com apreço deste livro.

“A história é muito interessante e até inesperada, tanto a nível de estrutura base como a nível de desenvolvimento narrativo.”

Os últimos três capítulos são qualquer coisa de muito bom. A ação é permanente ao longo das páginas, mas no terço final ela supera-se. O ritmo é altíssimo e os acontecimentos sucedem-se de forma fluída, com eventos inesperados e volte-faces de tirar o fôlego. Anjos pode não ser um livro arrebatador, mas não perde para alguns best-sellers mundiais. Deixo os meus parabéns ao Carlos e à Editorial Divergência, mas acima de tudo um aviso à navegação: no duvidoso mercado nacional há livros com qualidade e o Anjos é um claro exemplo disso.

Avaliação: 7/10

Estive a Ler: Os Despojados

O ar da loja era doce e quente, como se todos os perfumes da primavera estivessem ali aglomerados. Shevek ficou ali, entre os expositores de pequenos luxos bonitos, alto, pesado, sonhador, como os animais de grande porte nos seus cercados, os carneiros e os touros estupefactos pelo nostálgico calor da primavera.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro Os Despojados

Chegou aos escaparates nacionais a obra Os Despojados (1974), da autora norte-americana Ursula K. Le Guin. Este livro pertence ao Ciclo Hainish, uma série de Ficção Científica que propõe uma reflexão sobre o nosso modo de vida e sobre a forma como os sistemas políticos e sociais foram instituídos. Pelas mãos da Edições Saída de Emergência, a edição nacional de The Dispossessed tem tradução de Fernanda Semedo e possui uma Carta da Editora escrita por Safaa Dib.

Autora muito premiada e nome inconfundível no género da Ficção Especulativa, Ursula K. Le Guin tem mais de 22 romances publicados, para além de várias coletâneas de contos, livros YA, poesia e ensaios. Foi ao explorar o sentido cívico do Homem e as questões de identidade social nos seus livros de FC que Ursula ganhou maior expressão a partir dos anos 70. A viver em Portland, a autora foi distinguida em 2014 com a medalha do National Book Foundation pelo seu contributo para as Letras Americanas.

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Fonte: http://www.yesmagazine.org

Ursula K. Le Guin é um monstro da Ficção Especulativa e a sua prosa é qualquer coisa que me fascina sempre que leio um livro dela. A maturidade literária da escritora é fenomenal e Os Despojados é um claro exemplo dessa experiência. A par de uma escrita elegante, maleável e bem temperada, Ursula brinda-nos com conhecimentos de física, com a sua própria visão sobre temas de profundo caráter científico e, acima de tudo, temas sociais. Aquilo que somos, a forma como somos escalados pela sociedade e como esta funciona ou não são temas debatidos de forma minuciosa pela autora norte-americana.

Os Despojados é um livro dividido em 13 capítulos, que se alternam entre o passado e o presente. O protagonista é Shevek, um físico natural de Anarres que é convidado a visitar o planeta Urras, o que por si só consiste numa inovação para ambas as civilizações. Anarres é visto pelos urrastis como uma lua, lugar que sabem ser habitado mas que nem por isso guardam grande interesse em visitar.

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Capa Saída de Emergência

Enquanto Urras é uma sociedade capitalista, estandardizada e organizada segundo padrões previamente estabelecidos, Anarres é um mundo muito mais livre, onde nem o dinheiro nem o altruísmo possuem valor, e as pessoas seguem determinados comportamentos porque sentem ser a coisa certa a fazer. Não há prisões nem castigos, porque aquilo que realmente os condena é a opinião do vizinho. Os anarrestis regem-se pela opinião dos outros sobre si, que é algo de muito importante na sua sociedade.

Shevek foi abandonado pela mãe, Rulag, aos dois anos de idade, sendo educado pelo pai. A cultura anarresti aplaude a união entre o homem e a mulher, ainda que não crie qualquer oposição à fragmentação das famílias quando o trabalho, determinado pela organização chamada Divtrab, assim o exige. As mulheres são vistas como iguais, tendo semelhante direito ao trabalho e às posições sociais que lhe são inerentes, algo que já não acontece na cultura de Urras. Como tal, Shevek fez parceria com Takver e com ela teve dois filhos, Sadik e Pilun, ainda que tenha sido obrigado, por mais de uma vez, a separar-se deles. É um personagem bastante constante, agregado à sua cultura e aos credos odonianos. Porém, não pára de os questionar, e de se questionar a si mesmo.

“Ursula brinda-nos com conhecimentos de física, com a sua própria visão sobre temas de profundo caráter científico e, acima de tudo, temas sociais.”

Odo é uma figura severamente respeitada em Anarres, uma mulher que terá estabelecido a ordem e criado uma religião em seu redor. Ao aceitar o convite que lhe foi endereçado, viajando para Urras para desenvolver os seus estudos de física, Shevek sabe que terá de lidar com uma cultura mais sofisticada, para quem Odo significa pouco mais que uma filósofa lunar, que terá envolvido toda a civilização anarresti com as suas ideologias. Shevek terá também que se despojar do právico, o seu idioma natal, e habituar-se ao iótico, uma língua que foi obrigado a aprender no âmbito dos seus estudos.

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Fonte: http://www.goodreads.com/book/show/13651.The_Dispossessed

A inserção de Shevek em Urras ocorre de forma rápida e processual. Se, por vezes, a sua adaptação parece transcorrer de maneira mais natural e de assimilação contínua, por outras lembra um mergulho abrupto, tais as diferenças entre as duas sociedades. Em Anarres, as pessoas são cabeludas. Em Urras, até as mulheres são carecas. Em Anarres, as mulheres podem trabalhar em qualquer ofício. Em Urras, são reservadas a tarefas do lar e a prazeres mundanos, e não parecem sentir qualquer infelicidade por isso.

O Inferno dos anarrestis é a própria Urras, um mundo capitalista onde todos tentam aproveitar-se uns dos outros para fins comerciais ou políticos, e Shevek descobre, em pouco tempo, que aqueles que o convidaram para ali estar apenas o fizeram porque acreditam que os seus conhecimentos lhes podem ser úteis. Do mesmo jeito, Shevek percebe que os círculos que lhe são apresentados reservam-se às classes altas da sociedade urrasti. Onde estão as pessoas pobres? Porque o tentam manter longe delas?

Este livro agradou-me, tanto pela premissa, pela história em si, como pela escrita da autora, que eu já tinha o gosto de conhecer. Mas houve algo neste livro que não funcionou para mim. Mea Culpa da minha falta de dedução lógica, só percebi que o livro ia saltando entre passado e presente quase a meio do livro, e em vários momentos perguntei-me o que personagens do passado de Shevek estavam a fazer em Urras, quando a ação se passava em Anarres. Isso, confesso, criou alguma confusão na minha cabeça.

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Fonte: http://www.dialecticmusic.com/2015/10/15/books-the-dispossessed

Os Despojados, é, no entanto, um livro brilhante em detalhes. A instrução de Shevek é incrível, como incríveis são os conhecimentos de física que a autora revela ou parece revelar, as questões que ela interpõe entre o personagem e esses mesmos conhecimentos, aquilo que nós pensamos de nós mesmos e da sociedade onde vivemos. É um livro para refletir, acima de tudo, sobre a nossa identidade coletiva. Não esperem momentos de grande ação. Algo que, para mim, não funcionou muito bem neste livro, foram os vários momentos de conversas e de desenvolvimento entre personagens no passado do personagem que tornaram estes mundos reais e críveis, mas que acabaram por tornar o livro aborrecido. Gostei do livro, mas sim, é um livro aborrecido de se ler.

“Shevek descobre, em pouco tempo, que aqueles que o convidaram para ali estar apenas o fizeram porque acreditam que os seus conhecimentos lhes podem ser úteis.”

Shevek acaba por ser arrastado para um mundo em que ele não acredita, um mundo que ele não tolera. É um personagem que vive em permanente arrastamento, usando oportunidades que lhe são dadas, sabendo que estas não são mais que imposições. Ele é explorado, de certa forma, por todos aqueles que o rodeiam, seja em Anarres ou em Urras, e a única coisa que ele sabe que deseja, realmente, é estar em paz com a sua família. Por aquilo que ele acredita que é o seu dever, porém, até isso relega para segundo plano. Shevek deixa-se levar permanentemente pelas circunstâncias, empurrado pelas necessidades prementes. É um personagem bem desenvolvido, mas demasiado frugal, demasiado mole, sem grandes atrativos que levem o leitor a gostar dele.

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Fonte: http://www.booksonthewall.com/blog/ursula-le-guin-quote-dispossessed

As culturas de Urras e Anarres são o que de mais rico a autora nos dá neste livro. Os planetas são a antítese um do outro, mas ainda assim existem em ambos os casos coisas boas e más, preconceitos, intrigas, desigualdades sociais, fome e presunção de legitimidade. Podemos achar que viver num destes planetas é melhor do que viver no outro, mas a autora dá-nos a capacidade de questionar se seria mesmo isso o que preferiríamos. Acho que depende muito do modo de ser de cada um, da maneira de pensar, da educação, daquilo em que acreditamos. Se o capitalismo não é um sistema social perfeito, também a anarquia não o é. Podemos acreditar que há mundos melhores para se viver, ou que podemos tornar o mundo em que vivemos num mundo melhor.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 6/10