Estive a Ler: Luta de Poderes, O Legado de Júpiter #1

Ah, sabes como é o meu tio. Ainda não me perdoou por ter saído com aquela mulher que salvei de um incêndio o ano passado.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “LUTA DE PODERES”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE O LEGADO DE JÚPITER (FORMATO BD)

O Legado de Júpiter é a nova publicação da G Floy Studio Portugal. Após o sucesso de Kick-Ass e Kingsman, tanto nos cinemas como nas bandas-desenhadas, Mark Millar tornou-se uma figura de referência e Millarworld uma chancela de qualidade reconhecida pelos leitores. Publicado entre abril de 2013 e janeiro de 2015, o primeiro volume de O Legado de Júpiter é um retorno ao mundo dos super-heróis por parte do autor, que já havia trabalhado em Fantastic Four, Superman, Wolverine: Old Man Logan e Civil War, entre outros.

Desta feita, surge ao lado de Frank Quitely (Batman & Robin, All Star Superman e Flex Mentallo), um artista já veterano dentro do género. O Legado de Júpiter tem sido, ao longo dos últimos anos, reconhecido pela crítica como um dos trabalhos mais importantes dos dois autores, muito embora apenas dois volumes tenham sido lançados nos states. O primeiro volume, em Portugal, intitula-se Luta de Poderes.

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Fonte: https://hiveminer.com/Tags/frank,quitely

Muito embora super-heróis mais tradicionais não sejam a minha praia, fui aliciado pelas críticas positivas que li ao livro, e acabei constatando que o álbum tem mesmo uma aura adulta, violenta e muito pouco dócil. Ainda que não me tenha arrebatado – e tenha achado sinceramente que foi num sentido decrescente em termos de ligação narrativa – gostei bastante da forma como a questão dos poderes foi abordada e o contexto em que todas as temáticas foram trabalhadas.

“A capa e a capacidade de voar é apenas um ingrediente secundário neste trabalho bem conseguido da dupla Millar e Quitely.

Neste primeiro volume, abraçamos um mundo de super-heróis atípico, com uma forte componente de crítica social e política. A história começa em 1932, quando uma expedição liderada por Sheldon Sampson, a sua família e amigos, encontra uma misteriosa ilha no Oceano Atlântico com que Sheldon havia sonhado. Ele é uma figura a quem todos parecem seguir sem reservas, e que nutre o profundo desejo de participar ativamente na resolução de vários problemas reais decorrentes da Grande Depressão nos E.U.A.

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Fonte: G Floy

A ilha oferece a todos os que ali chegam vários poderes e então somos desde logo alavancados para o presente, onde Sheldon é um super-herói envelhecido, casado com a sua esposa Grace, quase uma versão Mulher-Maravilha de O Legado de Júpiter. O casal tem dois filhos, Chloe e Brandon, e é neles que a história se foca. Ao contrário dos pais, usam os seus poderes para serem vistos como celebridades, explorando as respectivas imagens e ganhando milhões à sua custa.

“É realista e sério, sem deixar de ser uma fantasia urbana com ocasionais momentos de combate mais inverosímeis.

Chloe é budista e vegetariana, não se cansando de se autopromover para alimentar a fundação de solidariedade social que criou, enquanto Brandon procura afirmar-se, mas não passa de um sedutor problemático que acaba por ser sucessivamente envergonhado pelo pai. Sheldon tem ainda um outro problema grave em mãos. Enquanto ele procura não interferir nos assuntos governamentais, o seu irmão Walter, também ele um velho super-herói, busca avidamente por resoluções e desafia-o permanentemente com o seu comportamento e atividade social.

O álbum possui uma narrativa abrangente, que consegue mesclar temas e géneros com inventividade, falando de assuntos sérios como o capitalismo, a ecologia, a volatilidade do Homem e o plasticismo da sociedade, ao mesmo tempo que joga com a ideia que temos de um super-herói. A capa e a capacidade de voar é apenas um ingrediente secundário neste trabalho bem conseguido da dupla Millar e Quitely.

Fonte: G Floy

Parece-me por isso que não é uma série que agrade apenas aos fãs mais tradicionais de Superman, Batman ou X-Men, porque aqui o objetivo não é combater monstros ou vilões tenebrosos. Luta de Poderes explora a noção de família, conflitos ideológicos e o que pode resultar, na visão das gerações seguintes, de um evento de extrema notoriedade como é o acesso a super-poderes. É realista e sério, sem deixar de ser uma fantasia urbana com ocasionais momentos de combate mais inverosímeis.

O que me agradou mais no álbum foi, no entanto, a arte de Quitely, que mostra que o artista escocês, habitual companheiro de Grant Morrison, sabia ao que vinha e trabalhou as personagens na perfeição. O Legado de Júpiter parece-me um excelente início para uma série que lamento não estar a ser publicada com grande assiduidade lá fora. É, ainda assim, mais uma excelente publicação da Image e mais uma boa aposta da G Floy em Portugal.

Avaliação: 7/10

O Legado de Júpiter (G Floy Studio Portugal):

#1 Luta de Poderes

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Estive a Ler: A Revelação do Bobo, Saga Assassino e o Bobo #2

Pus-me à deriva pela multidão, como um tufo de algas apanhado numa mudança de maré. Decidi que Breu tinha razão. Havia naquela noite uma subcorrente de excitação, um tempero de curiosidade no ar.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A REVELAÇÃO DO BOBO”, SEGUNDO VOLUME DA SÉRIE SAGA ASSASSINO E O BOBO

2018 trará a Portugal Robin Hobb e não será novidade para vós que, nos últimos tempos, falar do Reino dos Antigos aqui no NDZ traz elogios pela certa. A autora californiana passou de um quase “ódio de estimação” para uma das minhas autoras preferidas em questão de meses, graças à minha Perseverança. Perceberam o trocadilho? Não? [Perseverança é o nome de uma personagem desta nova série.]

Deixemo-nos de humor, que como já viram não tenho Talento [ups] para ele, e falemos deste A Revelação do Bobo. Trata-se do segundo volume da série Fitz and The Fool, publicada em Portugal pela Saída de Emergência como Saga Assassino e o Bobo, a terceira protagonizada pelo personagem FitzCavalaria Visionário. Este livro corresponde à primeira metade do segundo original, Fool’s Quest, traduzido por Jorge Candeias e com um total de 368 páginas.

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Fonte: https://mimi-evelyn.deviantart.com/art/FOOL-S-ASSASSIN-SPOILERS-The-Unexpected-Son-478254675

Não é segredo que o primeiro volume, O Assassino do Bobo, foi a minha melhor leitura de 2017 e aquele final deixou-me em pulgas para ler a continuação. Ainda assim, fui obrigado a moderar as expectativas com o conhecimento de que este segundo volume seria apenas metade do livro original, que por si só, como segundo da série, seria obviamente um livro de transição. As expectativas não foram defraudadas, apesar de haver uns ques por aí.

“Pouquíssimo foi o avanço geográfico das personagens principais deste livro.”

Ler Robin Hobb é sempre uma experiência abençoada para quem gosta de uma escrita intimista, elegante e rica em expressividade e em vocabulário, sem deixar de ser fluída. Não será tão maravilhosa para quem prefira histórias com um ritmo galopante e desenvolvimentos corridos, em detrimento de uma narrativa viva, credível e bem contada, como Hobb faz de um jeito sublime. Neste aspeto, não me canso de elogiar o excelente trabalho de Jorge Candeias na tradução dos livros.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/a-revelacao-do-bobo/

Este A Revelação do Bobo não foi tão bom como o primeiro, mas como poderia ser, se corresponde apenas à primeira metade do segundo livro? Os ques de que falei em cima estão mesmo relacionados com isto. A Abelhinha quase não deu cor de si neste volume, e a nível de desenvolvimento narrativo, podemos dizer que estamos praticamente na mesma posição em que estávamos no final do livro anterior. Pouquíssimo foi o avanço geográfico das personagens principais deste livro.

Mas podemos dizer que não aconteceu nada em A Revelação do Bobo? Oh sim, se aconteceu. Aconteceu muito e bom. Se a narrativa do primeiro volume foi focada em Floresta Mirrada, aqui podemos dizer que é passada quase toda no Castelo de Torre do Cervo, onde temos a possibilidade de explorar mais amiúde velhos conhecidos como Respeitador, Eliânia, Kettricken, Obtuso, Enigma e principalmente Breu, o velho mentor de Fitz que se revela uma das maiores surpresas do livro. É também aqui que várias revelações se sucedem.

O mistério do Filho Inesperado é finalmente posto a descoberto, assim como as intenções dos malévolos Servos. Outras revelações, bem mais triviais mas não menos impressionantes, são-nos oferecidas, pondo mais uma vez em evidência o brilhantismo tático da autora californiana.

“O livro foi uma catadupa de revelações”

O título do livro bem que poderia ser As Revelações e não só do Bobo. Testemunhamos momentos icónicos que aguardávamos há n livros atrás, protagonizados por Fitz, quer pública ou mais intimamente, relacionados com os Visionário e também com a filha Urtiga, momentos de desgosto, de glória auto-contida, de pânico, de amizade genuína, de descrédito, de inveja e de perdão.

Assistimos ao envelhecer de uma personagem que conhecemos desde criança, e que parece debater-se sempre, em todos os momentos da sua vida, com os mais diversos dilemas morais. Neste livro, ele volta a ser obrigado a esgrimi-los e a aceitar o gosto amargo das consequências.

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Fonte: https://www.pinterest.fr/pin/654359020828618233/

Em A Revelação do Bobo também conhecemos novas personagens. São elas Cinza, o novo e bem-sucedido aprendiz de Breu nas artes da espionagem, Diligente, a mãe de Perseverança, Valente e Astuto, dois muito diferentes membros de um afamado corpo militar conhecido como os Remexidos, e Matizada, um corvo estigmatizado por possuir algumas penas brancas, que estabelece uma relação bem peculiar com Fitz e o Bobo.

“Sabem o que vos digo? Que venham mais livros como este.”

Conhecemos também um pouco melhor os Servos. Vindeliar é o rapaz-nevoeiro, um homem com rosto de rapaz que consegue usar magia para “enevoar” mentes, fazendo-as entrar em negação e trabalhar para esquecer certos eventos. Dwalia é uma mulher rechonchuda, cujos modos afáveis inspiram confiança e uma vontade inequívoca de lhe agradar. E há ainda militares calcedinos a colaborar com estes profetas para levar o Filho Inesperado a Clerres, com interesses bem maliciosos em mente.

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Fonte: https://thereseofthenorth.deviantart.com/art/Bee-489050739

A ação principal pode não ter evoluído praticamente nada, e sim, terminei o livro um pouco irritado por isso, mas gostei imenso da forma como Hobb esmiuçou emoções e eventos, ao mesmo tempo que pôs a nu subtilezas, fragilidades e podres que não desconfiávamos (pelo menos eu), de algumas personagens que nos são há muito conhecidas. O livro foi uma catadupa de revelações, mas mesmo assim houve momentos para cenas de ação, corridas a cavalo, traições e engodos.

A magia da Manha voltou a ser um tema explorado e que, tudo me leva a crer, deverá sofrer mais incidências nos livros consequentes, no que diz respeito a Fitz, a Abelha e a Teio, pelo que me parece. Não é uma revelação sobre o enredo, mas uma mera suposição da minha parte.

A Revelação do Bobo foi mais um livro lindíssimo da autora, magistralmente bem escrito, que deixou claro o quanto ela consegue ser cruel, tanto para as personagens como para os leitores, ao enredar a narrativa numa série de eventos paralelos, prorrogando um momento dramático para uma das protagonistas. Sabem o que vos digo? Que venham mais livros como este.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

O Reino dos Antigos:

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Saga Assassino e o Bobo (Saída de Emergência):

#1 O Assassino do Bobo

#2 A Revelação do Bobo

Estive a Ler: O Sangue, Monstress #2

Oh! É que… ouvi pessoas a falarem por baixo da janela esta manhã. Disseram… que um monstro tinha chacinado ovelhas nas docas.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O SANGUE”, SEGUNDO VOLUME DA SÉRIE MONSTRESS (FORMATO BD)

Publicado pela Edições Saída de Emergência, Monstress faz parte do segmento da editora dedicado às bandas desenhadas. O segundo álbum conta com a tradução de Renato Carreira e edição de Safaa Dib e reúne os números 7 a 12 da publicação original. Monstress é publicado nos E.U.A. pela Image Comics e venceu os prémios Hugo e British Fantasy Award em 2017 na categoria de Melhor Banda Desenhada.

A autora americana Marjorie Liu é conhecida pela participação em BD’s da Marvel Comics como X-23 ou Viúva Negra, mas foi com Monstress que acabou indicada ao Eisner, em 2016. A arte é responsabilidade da premiada artista japonesa Sana Takeda, também ela muito ligada à Marvel, em títulos como X-23 ou Miss Marvel, e à Sega, onde trabalhou como designer.

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Num mundo de inspiração oriental, uma rapariga arcânica vê-se no cerne de uma disputa de anos entre humanos e arcânicos. Muito embora pareça inofensiva, Maika Meiolobo tem dentro de si um poder imensurável, o resquício de um mal muito antigo que tem permanecido adormecido. Brilhante na arte e com um argumento maravilhoso, Monstress atira-nos para um mundo que levamos tempo a compreender, no qual a liderança matriarcal e a linguagem crua e direta nos absorvem de forma natural desde o primeiro momento.

O que salta à vista em Monstress é, desde logo, o grafismo denso de beleza art deco. O conjunto de cores, aliado ao traço vigoroso de Takeda e ao aspecto monumental do desenho é um diferencial em relação a muita da BD que é publicada por aí. As personagens adquirem traços que lembram o mangá, conseguindo imprimir nas pranchas emoções e subtilezas como poucos o fazem. Crianças de aspeto amigável lidam com interesses humanos e assombrações, sempre com uma aura pesada sobre os seus ombros. O que por si só é incrível.

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Essa aura é passada para o leitor através da arte de Sana Takeda, memorável, forte e poderosa, mas também pelo argumento de Marjorie Liu. A escrita é tensa, frívola, descomprometida, mas rica, forte em vocabulário e em significados. Madura a todos os níveis. Não se enganem: Monstress é uma história para adultos, que embora apresente gatinhos e crianças fofinhas, traz também palavrões, olhos arrancados e dedos cortados, entre muitas outras coisas.

“Pela primeira vez, conseguimos olhar para o deus dentro de Maika como um ser com vontades e temores”

O Sangue continua a narrar a antiga batalha entre arcânicos e humanos. Os arcânicos são o cruzamento dos anciãos (animais falantes) com humanos, de cujos ossos é extraído o lilium, uma substância que é a base de poder das Cumaea, as bruxas humanas. Maika é uma arcânica que se tornou também hospedeira de um deus antigo, um deus de muitos olhos, que a usa como refúgio e também como instrumento para se alimentar.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/monstress-o-sangue/

Ao mesmo tempo que tenta lidar com os poderes que vivem dentro dela, os quais não consegue controlar, Maika tenta descobrir mais sobre a sua mãe e o que a liga à tão afamada Imperatriz-Xamã que liderou os arcânicos. Tem ainda de fugir àqueles que a perseguem, sejam eles os que desconfiam do enorme poder que alberga, sejam os que sabem de quem é filha. As respostas que ela vai obtendo, porém, não são exatamente o que esperava.

Criada no seio da guerra, Maika desenvolveu uma personalidade dura, o que talvez a tenha preparado para as abordagens de que vai sendo alvo, ao mesmo tempo que a envolve num sentimento de solidão e de isolamento a que parece querer habituar-se. O gato Mestre Ren e a menina-raposa Kippa seguem-na para todo o lado, movidos pela amizade e lealdade que lhe sentem mas, muito com medo do mal que lhes trará, Maika tenta permanentemente deixá-los para trás.

Fonte: Saída de Emergência

Neste volume, muito mais centrado na busca de Maika pelas suas raízes e pela forma como reage às suas pequenas descobertas, a meio-lobo reencontra figuras do seu passado na cidade costeira de Thyria, que revisitamos nos seus flashbacks, e atravessa um mar onde arcânicos e humanos convivem, unidos em objetivos e em lealdades, para alcançar uma ilha terrível assombrada por fantasmas, onde se encontra encarcerada uma figura icónica que lhe pode dar muitas respostas sobre as suas origens.

“Interesses sub-reptícios começam a dar a cara, mas muito ainda está por mostrar.

Ao mesmo tempo que encontramos raposas, tigres e tubarões antropomórficos, macacos malévolos e cadáveres ambulantes, vamos também conhecendo mais sobre os gatos, os verdadeiros narradores da história, que possuem um papel único na narrativa, funcionando tanto como alívio cómico mas também como enciclopédia para percebermos melhor os meandros desta sociedade.

Fonte: Saída de Emergência

Muito embora se tenha focado menos nas bruxas e incidido bastante na viagem de Maika pelo oceano, achei que O Sangue não fica atrás de Despertar. Subversivo, melancólico, seco, mostrando que o nosso mundo é uma piada de mau gosto comparado com a imensa variedade de tons que este – pós-apocalíptico – consegue apresentar. Interesses sub-reptícios começam a dar a cara, mas muito ainda está por mostrar.

Pela primeira vez, conseguimos olhar para o deus dentro de Maika como um ser com vontades e temores, muito mais do que um mero monstro devorador, ainda que não seja, propriamente, digno de confiança. Vemos também que o seu passado está interligado ao de Maika, e o que pode advir daí só traz mais vontade de devorar o próximo volume. Este segundo álbum confirma, sem margem para erros, o novo fulgor literário que Monstress traz à Coleção BANG!.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Monstress (Saída de Emergência):

#1 Despertar

#2 O Sangue

Estive a Ler: A Encantadora de Serpentes, Harrow County #3

Olha lá, Clinton… as amoras não se apanham sozinhas.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A ENCANTADORA DE SERPENTES”, TERCEIRO VOLUME DA SÉRIE HARROW COUNTY (FORMATO BD)

A Encantadora de Serpentes é o mais recente volume de Harrow County. E é também o menos bom dos três volumes já publicados em português. Talvez por contar três histórias diferentes, a sensação de encorajamento e desfrute embalado da narrativa pareceu-me ter-se perdido algures, mas de facto foi o álbum que achei menos apelativo. O álbum compreende os números 9 a 12 da edição original publicada nos EUA pela Dark Horse Comics, que planeia um total de seis volumes. 

Nenhuma das histórias me apaixonou (embora tenha achado interessante a intriga das serpentes), mas continuo a achar a narrativa de Cullen Bunn o melhor da série. Como romancista, Bunn já foi nomeado para o Bram Stoker Award (que distingue a melhor ficção de terror), e como escritor de comics para dois Eisners, um dos quais por Harrow County.

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Fonte: http://www.comicsbeat.com/cullen-bunn-exits-aquaman-announces-more-news-on-ama/

Publicado em Portugal pela G Floy Studio, Harrow County é uma bem-sucedida série de horror sobrenatural passada na povoação com o mesmo nome. Desde o primeiro número que é escrita por Cullen Bunn (Uncanny X-Men, Deadpool, The Damned), enquanto a arte é entregue a Tyler Crook (Petrograd, Hellboy), vencedor de um Russ Manning Award, prémio atribuído durante os Eisners, que premeia o trabalho de um estreante no mundo da BD. Este terceiro volume conta ainda com histórias ilustradas por Carla Speed McNeil e Hannah Christenson.

“Posso afirmar sem reservas que a arte das ilustradoras convidadas foi o que menos gostei neste volume.”

Nas três histórias a que somos apresentados, Cullen Bunn apresenta uma panóplia de elementos sobrenaturais com que facilmente nos familiarizamos. Na primeira história vemos que o Rapaz sem Pele continua sem compreender os mistérios do passado. Na peugada da verdade, é difícil não simpatizar com aquela figura, ao mesmo tempo bizarra e empática, da criança que foi esfolada, mas cuja alma continua tão arraigada ao corpo como à pele.

Emmy continua, porém, a ser a protagonista da série. Num das histórias apresentadas, investiga uma casa assombrada, enquanto que na outra, tem de lidar com as serpentes malévolas que semeiam loucura e maldade na mente da população. O espetro da “irmã gémea”, porém, continua a marcar os seus passos.

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Fonte: G Floy

Foi interessante ver como os habitantes de Harrow County continuam a trabalhar em prol de Emmy e em como eles a vêm, depois de tudo o que aconteceu. Não obstante a falta de vigor narrativo que registei durante a leitura, achei que as pontas acabaram por se interligar, e não posso deixar de considerar a história coesa e bem delineada, muito embora me agradasse ver uma base mais sólida e credível no meio de todos aqueles elementos mirabolantes.

“Os leitores vão ser expostos a um bizarro desfile de esqueletos fantasmagóricos em chamas, árvores grávidas e crianças sem pele, uma verdadeira bandeja de iguarias do folclore macabro à moda do Sul.”

Paste Magazine

Fonte: G Floy

Posso afirmar sem reservas que a arte das ilustradoras convidadas foi o que menos gostei neste volume. Achei o argumento inferior ao dos volumes interiores, mas ainda assim considero-o bom. Senti-me permanentemente à espera que esta história me apaixonasse, o que não aconteceu, embora tenha gostado bem mais quando ela se focou na amiga de Emmy, Bernice, que coincidiu também com um dos melhores trechos na arte de Tyler Crook.

Infelizmente, o trabalho de Hannah Christenson na casa assombrada deixou muito a desejar, parecendo não jogar bem com a narrativa de Bunn. Em suma, foi um livro que me deixou com um sabor meio agridoce na boca, mas que terminou com o sentimento quase agradável de “quero mais”.

Avaliação: 6/10

Harrow County (G Floy Studio Portugal):

#1 Assombrações Sem Fim

#2 Duas Vezes Contado

#3 A Encantadora de Serpentes

Estive a Ler: A Lança do Deserto, Ciclo dos Demónios #2

O príncipe nuclita silvou ao ouvir o escolhido rejeitar a questão. A lógica ditava que os matasse aos dois, mas não era urgente. O número de guardas em volta do seu abrigo sugeria que não partiriam tão cedo. Podia observá-los por mais alguns ciclos.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A LANÇA DO DESERTO”, SEGUNDO VOLUME DA SÉRIE CICLO DOS DEMÓNIOS

Publicado originalmente em março de 2010 pela Harper Collins, A Lança do Deserto é o segundo livro do autor americano Peter V. Brett, cimentando o início auspicioso que este revelara em O Homem Pintado, volume inaugural da série Ciclo dos Demónios. A história segue o trajeto épico de Arlen Fardos, Leesha Papel e Rojer Meia-Mão, três heróis improváveis num mundo definhado pelos medos que a noite desperta.

Autor de várias histórias curtas e publicações passadas no mesmo mundo, Peter V. Brett vive em Manhattan com a esposa Lauren e as duas filhas, Cassandra e Sirena. A edição portuguesa da Coleção 1001 Mundos da Gailivro foi lançada em julho de 2010, poucos meses após o lançamento oficial, num total de 744 páginas e tradução de Renato Carreira.

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Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/6736971-the-desert-spear

Se O Homem Pintado já me havia conquistado (muito embora tivesse torcido o nariz à reta final), A Lança do Deserto veio consolidar a minha opinião em relação ao autor. Peter V. Brett é dono de uma escrita fluída e madura, ao mesmo tempo que consegue construir histórias verosímeis e consistentes, não descurando pormenores e sabendo jogar com as emoções dos leitores, assim como o faz com as suas personagens.

“Leesha conseguiu fazer do Outeiro um dos primeiros povoados com “garras” para fazer frente aos demónios.”

Embora ambos sejam livros com qualidade, senti que o primeiro veio a decrescer com o desenvolvimento das personagens, enquanto neste segundo volume senti precisamente o oposto. Após um início muito bem escrito e interessante, mas completamente deslocado da ação principal e até em alguns momentos aborrecido, a partir do momento em que nos focamos no fio narrativo do anterior volume, o livro veio a crescer em inventividade e desenvolvimento.

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Fonte: https://www.wook.pt/livro/a-lanca-do-deserto-peter-v-brett/8646628

A secção inicial é focada em Ahmann Jardir, o Shar’Dama Ka de Krasia, a cidade conhecida como a Lança do Deserto. Para os mais esquecidos, Jardir é aquele senhor krasiano que traiu Arlen durante a sua estadia no forte, ficando com a lança mística cravejada de guardas (as protecções contra os demónios) que este encontrara numas ruínas antigas em pleno deserto. Guardas que Arlen copiou antes de Jardir o expulsar e condenar à morte na noite desértica de Krasia. Foram mesmo esses conhecimentos que fizeram Arlen tornar-se o Homem Pintado, cujos feitos bélicos contra os demónios fizeram muitos chamá-lo de Libertador, à sua passagem.

Por quase dois quartos do livro conhecemos ao pormenor Jardir, desde a sua infância, à amizade com o mercador Abban e como este se tornou khaffit, um homem menor de acordo com os padrões krasianos, mas também revisitamos a estadia do Par’Chin (Arlen) em Krasia e como Jardir começou a ver-se como o novo Libertador, seguindo os passos de Kaji. Achei bem interessantes todas as passagens que envolveram Jardir, mas confesso que os flashbacks que mostraram a sua infância e desenvolvimento pessoal tornaram o livro algo maçudo, especialmente porque foi apresentado numa fase inicial do mesmo.

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Fonte: https://www.pinterest.co.uk/pin/354025220686352316/

As intrigas palacianas, a sua ascensão e o desafio ao Andrah foram excelentes, acima de tudo pelo emergir de uma das personagens mais incríveis da série até agora: a Dama’ting Inevera, uma das esposas de Jardir. Mais do que uma esposa, é ela quem controla o harém e decide com quem Jardir deve casar. Para além disso, tem capacidades místicas, pois vê o futuro no lançamento de dados e porta um crânio de demónio da chama. Inevera é também responsável por decisões políticas, graças à sua influência em muitos círculos.

“Pessoalmente, prefiro Jardir a Arlen, enquanto personagem.”

Assim que regressamos ao Outeiro do Lenhador, agora chamado de Outeiro do Libertador após a grande batalha em que culminou o primeiro volume, vemos Leesha e Rojer a assumir papéis de liderança, ensinando aos populares as suas técnicas e guarnecendo como podem a povoação. Enquanto Arlen vai e vem, recusando-se a permanecer num sítio só quando há tantas povoações para instruir e convencer a lutar, Leesha conseguiu fazer do Outeiro um dos primeiros povoados com “garras” para fazer frente aos demónios.

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Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/6736971-the-desert-spear

O mesmo não pode dizer Rojer. Para além de renegado pela mulher que ama, os seus ensinamentos na arte de enfeitiçar demónios com música não parecem obter êxito. O dom parece estar restrito à sua pessoa, e os fantasmas do passado teimam em bater-lhe à porta. Com Wonda e Gared Lenhador como guarda-costas, Leesha vê o ataque dos krasianos a Forte Rizon como um forte motivo para tentar unir Angiers e Miln na defesa das Cidades Livres, uma vez que o Outeiro não tem capacidade para receber muitos mais refugiados.

É então que uma comitiva parte do povoado, comandada por Arlen, para tentar unir os duques arqui-inimigos, Rhineback e Euchor, contra o inimigo comum. Durante a jornada, Arlen revisita lugares e reencontra pessoas do seu passado, para deixá-lo cada vez com mais dúvidas sobre o seu papel no mundo, mas cada vez mais certo que o seu lugar é na frente de combate contra os demónios.

Aqui reside uma das principais diferenças entre Arlen e Jardir. Enquanto o segundo acredita ser o Libertador reencarnado, que virá trazer a união ao mundo e escorraçar os demónios, Arlen crê que o seu papel é apenas o de levar ao mundo o conhecimento das guardas de combate, mostrar às pessoas que podem viver sem medo, e que não basta esconderem-se atrás de guardas quando a noite chega, é imperial enfrentar os demónios e lutar contra eles.

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Fonte: https://lina0809.deviantart.com/favourites/62366653/Demon-Cycle

Sem dúvida, gostei mais do Arlen deste segundo livro do que aquele que conheci no primeiro. Ainda assim, a personagem de Jardir não lhe fica atrás. Extremamente bem construído, enraizado em ideais profusos da cultura krasiana, Jardir acabou por mostrar uma variância de traços que faz o leitor, por momentos, torcer pelo seu sucesso. Pessoalmente, prefiro Jardir a Arlen, enquanto personagem.

Mas a adição de outros pontos de vista ao livro foi também benéfico ao mesmo. Falo de Jardir e Abban, mas também do pai de Arlen, Jeph Fardos, que foi muito positivo voltar a encontrar, mas sobretudo de Renna Curtidor. O ambiente sufocante de uma pessoa que é vítima do próprio pai foi descrito de forma exímia por Peter V. Brett, e ver focados assuntos dramáticos e bem reais em livros de fantasia é sempre meio caminho andado para me conquistar.

E, como bónus, temos novos demónios. Os demónios da mente e os seus miméticos ainda irão dar muito que falar. A Lança do Deserto é mais um livro a recomendar, porque o Ciclo dos Demónios consegue apresentar um mundo fantástico não muito original, cheio de paralelismos ao nosso e de inversões interessantes, apresentando idiossincrasias, hipocrisias e preconceitos que fazem desta uma história credível, que consegue fugir ao padrão e ganhar uma identidade própria bem agradável.

Avaliação: 7/10

Ciclo dos Demónios (Gailivro / 1001 Mundos):

#1 O Homem Pintado

#2 A Lança do Deserto

Estive a Ler: O Homem Pintado, Ciclo dos Demónios #1

Leesha não queria morrer. Sabia-o agora. Demasiado tarde. Mas, mesmo que desejasse voltar para trás, a sua casa ficava agora mais distante do que a cabana de Bruna e não havia nada entre uma e outra.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O HOMEM PINTADO”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE CICLO DOS DEMÓNIOS

O Homem Pintado foi o romance de estreia de Peter V. Brett, autor norte-americano formado em Literatura Inglesa e História da Arte. Fã confesso de bandas-desenhadas e Dungeons & Dragons, Peter saltou para o estrelato com o seu primeiro livro, cujo sucesso o “obrigou” a prorrogar a série. A trilogia inicialmente pensada transformou-se numa saga de culto, ainda em publicação.

Ao lado de Joe Abercrombie e Patrick Rothfuss, Peter V. Brett é outro dos autores de literatura fantástica que mereciam uma casa melhor do que a Coleção 1001 Mundos do Grupo Leya, tão questionável a nível de títulos que até mudou o nome desta série durante a publicação. O primeiro volume, com 608 páginas e tradução de Renato Carreira, nem sequer tem o nome da série impresso no livro.

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Fonte: http://onlythebestscifi.blogspot.com/2010/04/review-painted-man-by-peter-v-brett.html

O livro é grande, em boa verdade, mas as letras também e Brett consegue manter o leitor agarrado às páginas, na expectativa do que se sucede em seguida. Confesso que não consegui ler menos de 100 páginas por dia. Brett convida o leitor a manter-se acordado na noite escura, a devorar as páginas do seu livro e a conhecer os demónios terríveis que amedrontam os seus lugares imaginados. A premissa tem uma vibe muito M. Night Shyamalan, muito embora a descrição das personagens na sinopse não me tenha entusiasmado por aí além. Felizmente, o livro revelou-se melhor do que eu esperava.

“…só posso granjear elogios à forma como o autor explorou as hipocrisias da sociedade.”

A escrita do autor norte-americano é simples, mas revela conhecimentos e maturidade literária, algo que falta em muitos autores do género. Pessoalmente, achei a escrita fluída e bastante competente. E a história revelou-se também prometedora e bem construída; pena que Brett tenha perdido completamente a mão no terço final do livro, caindo em clichés e desenrolares algo forçados.

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Fonte: http://pilulasliterarias.blogspot.com/2014/09/analise-o-homem-pintado-de-peter-v.html

A história é contada em capítulos com ponto de vista – o conhecido POV – protagonizados por Arlen, Rojer e Leesha. Quando a história começa, eles são crianças, cada um a viver numa povoação distinta. É aqui que conhecemos os dramas e dilemas de Arlen, personagem central da narrativa.

Todas as noites, os nuclitas atacam. São demónios de fogo, de ar, de madeira, de rocha, de água ou de areia, que assumem diferentes formas e respeitam uma ordem natural de entreajuda, rivalidade ou estratificação entre eles. Quando a noite cai, erguem-se do Núcleo e materializam-se, correndo atrás de vidas humanas para delas se alimentarem. É a típica história do papão que só aparece à noite, mas aqui todos sabem que eles vêem e cada um faz o que pode para se proteger.

A essa proteção chamaram guardas. Tratam-se de símbolos mágicos herdados de tempos imemoriais que, gravados, repelem os demónios e os impedem de entrar em determinados territórios. As guardas podem ser encontradas nos limites amuralhados das Cidades Livres, em postes, na madeira das residências ermas ou mesmo em círculos portáteis, usados em viagens.

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Fonte: https://thedemoncycle.deviantart.com/gallery/37869437/Random-from-Featured

Quem se utiliza muito desses círculos são os Mensageiros. De Fort Miln a Angiers, passando pelo Rio Divisor e pelas muitas terras do mundo fracturado de Thesa, esta figura viaja de terra em terra distribuindo correio e notícias, geralmente acompanhada de um Jogral. Tanto um como o outro são filiados a uma Associação, devendo responder a certas normas e deveres. Estes Mensageiros, uma vez que passam a grande maioria das noites ao relento, são também Guardadores, exímios na arte de esculpir ou traçar guardas.

Por sua vez, os Jograis mitigam os medos e dramas pessoais dos populares com os seus malabarismos, canções e pantominas. Uma das histórias que cantavam remonta a um passado longínquo, quando um sujeito chamado de Libertador escorraçou os demónios da face de Thesa com guardas de ataque. Os demónios viriam, porém, a regressar muito tempo depois, quando os homens já se haviam esquecido dos símbolos de ataque, restando-lhes apenas as guardas defensivas.

“…foram os capítulos protagonizados por Rojer e Leesha a alma do livro.”

A primeira parte do livro é seguramente aquela em que mais gostei de Arlen, embora nunca tenha sido um personagem que me suscitasse grandes simpatias. O seu papel na comunidade do Ribeiro de Tibbet, os conflitos com o pai, as certezas do que não queria para a sua vida e a devastadora perda que sofreu foram um aperitivo interessante para esta história. Também gostei do seu tempo em Miln, com o Mensageiro Ragen e a sua esposa Elissa, que o acolheram, e da sua aprendizagem com Cob.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=DSxSIoq0mjU

Mas foram os capítulos protagonizados por Rojer e Leesha a alma do livro. O trajeto de Rojer surpreendeu-me desde o primeiro momento, quando Brett o colocou, quase um bebé, nas mãos do Jogral baboso que olhava para o generoso decote da sua mãe. As suas desventuras com Arrick Doce-Canção foram muito boas, revelando um dom inusitado para a música, sempre acompanhado pela tragédia que permeia a vida de artista.

Com Leesha, Brett revelou mão firme e uma consistência narrativa de salutar. Fez-me lembrar as intrigas de Ken Follett em Kingsbridge, tal a forma como conseguiu cativar-me e fazer-me torcer pela protagonista, da mesma forma com que me fez odiar Elona e os restantes vilões. No Outeiro do Lenhador, todos pareciam pessoas verídicas, de carne e osso, e só posso granjear elogios à forma como o autor explorou as hipocrisias da sociedade.

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Fonte: http://amalgamate.katalyst.com.au/students/caitlin-liebich/projects/creature-design-the-painted-man

Senti, no entanto, que os vários saltos temporais prejudicaram a narrativa, sobretudo porque vários núcleos mereciam ter sido melhor explorados neste primeiro volume. Perdi a pouca simpatia que tinha por Arlen e perguntei-me se o maior cobarde em toda a história não era ele, o moralista que passou a trama a fugir de terra em terra, abandonando todos os que o amavam.

“O Homem Pintado é um livro muito satisfatório

Krasia pareceu-me ser uma cidade interessante de ver explorada, mas preferia que fosse apresentada apenas no segundo volume. O autor perdeu imenso tempo a apresentar a cultura krasiana, que por sinal é extremamente semelhante à islâmica, para deixar o protagonista por lá pouco tempo. Quando a cidade tiver maior foco narrativo, sinto que o impacto não será tão grande.

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Fonte: http://amalgamate.katalyst.com.au/students/caitlin-liebich/projects/creature-design-the-painted-man

E, a partir do momento em que os três protagonistas se cruzam, Peter V. Brett pareceu ter ligado o piloto automático. O livro perdeu a magia e a consistência e seguiu um rumo previsível. De uma escolha romântica cliché e pouco credível, a uma batalha sem a emoção e o volume de páginas que merecia, passando por uma violação esquecida em três tempos, o terço final desiludiu-me bastante.

Ainda assim, O Homem Pintado é um livro muito satisfatório, uma espécie de prólogo gigante de uma série com muito potencial. Bem escrito e envolvente, o livro inaugural do Ciclo dos Demónios deixa claro o porquê de Peter V. Brett ser um dos novos autores de fantástico mais procurados dos últimos anos.

Avaliação: 7/10

Ciclo dos Demónios (Gailivro / 1001 Mundos):

#1 O Homem Pintado

#2 A Lança do Deserto

Estive a Ler: A Espada de Shannara, A Espada de Shannara #1

Setecentos anos antes, a grande Muralha Exterior fora construída no limite do planalto, estendendo-se ao máximo que a natureza permitia. Nas planícies férteis, abaixo da fortaleza, ficavam as fazendas e as terras de plantio que alimentavam a cidade, a terra escura nutrida e sustentada pelas águas vitais do grande Mermidon, que corria para sul e para leste.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A ESPADA DE SHANNARA”, PRIMEIRO VOLUME DA TRILOGIA A ESPADA DE SHANNARA

Terry Brooks não é um nome novo no mundo da fantasia. E Shannara é um título bem conhecido para aqueles que se encontram familiarizados com o género. Não só Terry foi um dos escritores mais conhecidos de fantasia épica nos anos 80 e 90 do século passado, como a sua obra se mantém “na moda”, como se pode ver pela série The Shannara Chronicles, estreada em 2016. A primeira temporada foi produzida pela MTV e a segunda e última temporada, pela Spike.

O autor norte-americano, nascido Terence Dean Brooks, ficou conhecido pela trilogia A Espada de Shannara, a que se seguiram duas dezenas de livros passados no mesmo universo. Publicado pela Saída de Emergência em 2015, com tradução de Ana Cristina Rodrigues e adaptação de Idalina Morgado, A Espada de Shannara é um livro de 560 páginas que narra a história de Shea Ohmsford, um meio-elfo, e a sua busca pela ambicionada espada que dá título ao livro.

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Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Terry_Brooks_-_Lucca_Comics_%26_Games_2016.jpg

O primeiro volume, A Espada de Shannara, foi publicado em 1977, e se J. R. R. Tolkien não se ergueu da sepultura nessa ocasião, podes ficar descansado, que não o virá a fazer. As semelhanças entre este livro e a trilogia O Senhor dos Anéis são gritantes, de tal modo que fico surpreendido como é que Terry não foi acusado de plágio. Infelizmente para ele, isso não chegou para fazer a sua obra boa. A Espada de Shannara é um livro fraquinho.

“O ritmo foi satisfatório e, felizmente, a história que Terry tinha para copiar de O Senhor dos Anéis chegou ao fim.

Shea foi criado por Curzad Ohmsford. Desde cedo percebeu que não era o verdadeiro filho do estalajadeiro, uma vez que tinha traços elfos, mas isso não o impediu de o ver como pai e ao filho de sangue deste, Flick, como irmão. Tudo corria normalmente na vida deles, até que um sujeito alto e de ar sombrio os visita e conta a Shea que ele é descendente de Jerle Shannara, um grande rei élfico. Como se não bastasse, conta-lhe ainda a História das Quatro Terras e o papel que lhe é destinado.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/a-espada-de-shannara/

Esse sujeito é Allanon, um Druida. Ele diz a Shea e a Flick que o mundo foi em tempos dominado pela ciência. Sim, a série Shannara é passada no nosso mundo, e os elfos, anões, gnomos e afins ficaram assim devido a mutações provocadas pelas radiações, após as Grandes Guerras que conduziram a Humanidade à quase extinção. Acontece que depois das Grandes Guerras a ciência foi esquecida e os homens apostaram na exploração do mundo místico e espiritual.

A ambição pelos conhecimentos e pelo poder, no entanto, levaram a que um druida chamado Brona se virasse contra os restantes. Lutou contra Bremen, o líder dos druidas, e conduziu a Humanidade às conhecidas Guerras das Raças. Mais tarde, Brona viria a ser conhecido como Lorde Feiticeiro, uma criatura maligna que vigia as Quatro Terras através dos seus soldados espectrais, os Portadores da Caveira.

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Fonte: https://ediduch.myportfolio.com/the-shannara-chronicles-allanon

Se conheces O Senhor dos Anéis, a história não te trará grandes novidades. Aqui o objetivo do jovem herói é procurar a Espada de Shannara, uma vez que é a única arma que pode aniquilar o Lorde Feiticeiro. A questão é que só um descendente de Jerle Shannara pode segurar a espada, e o Feiticeiro tem vindo a matar todos os descendentes para impossibilitar a empresa. A esperança de Allanon é que o Lorde Feiticeiro desconheça a identidade de Shea.

Ao lado do seu irmão Flick e de Allanon, do jovem príncipe Menion de Leah, do respeitado Balinor Buckannah, do anão Hendel e dos elfos Durin e Dayel, Shea inicia uma jornada árdua que os leva a todos a fins mais ou menos expectáveis, na luta contra as armas nefastas do Lorde Feiticeiro e contra os exércitos de gnomos. Shea acaba por cruzar-se com uma dupla de ladrões improvável, o imprevisível Panamon Creel e o troll de pedra Keltset Mallicos, interessados nas Pedras Élficas que Allanon lhe oferecera.

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Fonte: https://ardinaryas.deviantart.com/art/Menion-Leah-279325651

Como já referi, o livro vive muito da linha narrativa de Tolkien, alguns acontecimentos praticamente copiados a papel químico. Vários momentos protagonizados pelo anão e a introdução de Panamon e Keltset acabaram por ser os pontos mais positivos e originais, deixando claro que, quando Brooks fugia ao estéreotipo, conseguia fazer alguma coisa de interessante.

Se há livros pelos quais vale comprar pela capa, A Espada de Shannara é, seguramente, um deles.

De qualquer forma, é difícil escrever algo com qualidade quando se vive à sombra de uma figura maior, e Terry Brooks não se esforçou minimamente para esconder o seu fascínio por O Senhor dos Anéis. Com alguma diferença em termos de qualidade, na verdade. Os personagens de Brooks são superficiais e pouco cativantes, e apesar de acreditar que a premissa não fosse tão batida no tempo em que o livro foi escrito, tanto as histórias como os diálogos soaram imenso a deja vu.

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Fonte: https://seriemaniacos.tv/shannara-chronicles-cancelado/

É certo e sabido que eu não sou grande admirador de espadas mágicas, senhores negros e jornadas de aventura, mas mesmo assim consigo tirar algo de bom deste livro. E esse algo de bom está muito relacionado com os pequenos momentos em que Brooks se descolou de Tolkien, assim como a escrita do autor não foi o desastre que em alguns momentos sugeriu tornar-se. Infelizmente, a grande maioria dos diálogos foram extremamente infantis, mas mesmo com algumas descrições pobres como “o homem alto” de cada vez que indicava Allanon, Terry Brooks mostrou ter um vocabulário amplo e uma escrita assim-assim.

Ter um vocabulário amplo e uma escrita assim-assim, no entanto, não significa que me tenha agradado por aí além. Por vezes o vocabulário não é tudo para que a escrita seja boa, e notei muita falta de maturidade literária na escrita do autor. O ritmo foi satisfatório e, felizmente, a história que Terry tinha para copiar de O Senhor dos Anéis chegou ao fim. O que é que isto significa?

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Fonte: https://beyondthepalegate.wordpress.com/category/books/

Significa que o segundo volume tem tudo para ser melhor. Não só Brooks teve margem para melhorar a nível de escrita, como as histórias em redor do neto de Shea, Wil Ohmsford, têm tudo para ser mais interessantes em As Pedras Élficas de Shannara. Vi alguns episódios da série e a história de Wil não me convenceu, mas penso vir a ler o livro, para tirar as teimas.

Agora, se me perguntarem o que gostei mais neste volume, respondo sem hesitar. A edição da Saída de Emergência é lindíssima, não só a capa como os desenhos dos mapas no interior. Se há livros pelos quais vale comprar pela capa, A Espada de Shannara é, seguramente, um deles.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 3/10

A Espada de Shannara (Edições Saída de Emergência):

#1 A Espada de Shannara

Estive a Ler: Head Games, Locke & Key #2

There’s a second you standing next to me, looking into your own head, isn’t there? I hate that.

O texto seguinte aborda o livro “Head Games”, segundo volume da série Locke & Key (Formato BD)

O escritor best-seller do New York Times Joe Hill e o artista Gabriel Rodriguez, criadores do aclamado Locke & Key: Welcome to Lovecraft, regressam com o segundo capítulo da série, Head Games. Reúne os seis números de Locke & Key: Head Games, para além de materiais extras. Se ainda não sabes o que achei de Welcome to Lovecraft, lê a minha opinião ao primeiro volume e volta aqui depois.

Se o primeiro volume já tinha sido bom, este segundo foi delicioso. O material desenvolvido por Hill amplia a trama principal e alia o imprevisível ao bizarro nas doses certas. Os três irmãos Locke afirmam-se como protagonistas de uma série que beira o psicótico sem deixar de transmitir uma aura bem Calvin & Hobbes. Head Games foi publicado em 2009 pela IDW Publishing.

Abre a tua mente. Os jogos mentais estão prestes a começar!

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Fonte: https://www.hollywoodreporter.com/live-feed/locke-key-what-makes-upcoming-comic-book-adaptation-challenging-television-996213

Neste segundo volume, encontramos os Locke a digerir o segundo ataque de Sam Lesser. Kinsey começa a encaixar-se na sociedade escolar, Bode continua a manifestar a curiosidade própria da idade e Tyler faz amizade com um novo aluno, Zack Wells. Zack tem uma semelhança mais impressionante com Lucas Caravaggio, ex-amigo de Rendell Locke, o falecido pai dos três irmãos.

O velho Joe Ridgeway, um dos professores da Academia Lovecraft, não ignora tal semelhança, até porque deu aulas a Lucas, Rendell e ao seu grupo de amigos quando estes frequentavam a escola. Na verdade, Zack e Lucas são a mesma pessoa e Head Games mostra a verdadeira índole de Zack / Lucas / Dodge, que usa uma das chaves mágicas da Keyhouse para roubar uma arma e matar o professor.

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Fonte: http://theslingsandarrows.com/locke-key-head-games/

Zack afirma que Ellie Whedon-Kinsey, velha amiga de Rendell, é sua tia. Ellie fica estupefacta ao vê-lo, reconhecendo-o como Lucas. Ellie vivia sozinha com o seu filho Rufus, que possui uma deficiência mental, mas apavorada com os poderes de Zack, aceita viver com ele e ajuda-o a fazer com que o homicídio de Ridgeway pareça um suicídio.

“No que foi apresentado e no que foi subentendido, a narrativa funcionou na perfeição.”

No entanto, Bode mostra a Head Key aos irmãos, que ficam horrorizados ao perceber que a chave abre a cabeça daquele que a segura, permitindo que qualquer um veja os pensamentos da pessoa e as suas memórias. O mais bizarro é que aquele cuja cabeça está aberta também é capaz de a examinar.

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Fonte: https://www.themarysue.com/idw-locke-key-movie/

Os irmãos Locke mostram-se curiosos com a dita chave. Tyler usa-a para inserir matérias escolares na sua cabeça, enquanto Kinsey começa a remover memórias perturbadoras. Ela pede a Tyler que lhe retire o medo e a capacidade de chorar. Mais tarde, o irmão convida “Zack” e a jovem Jordan, por quem está apaixonado, para mostrar-lhes a chave, apesar de ter prometido tanto a Bode como a Kinsey que a chave permaneceria em segredo.

Uma vez que o tio Duncan reconhece “Zack”, o rapaz que não envelhece usa a chave para entrar na sua casa e remover as memórias que ele tem de si, fazendo assim com que mantenha a identidade em segredo sem ter de o matar, como fizera com o professor Ridgeway. Ao longo do livro, os vários flashbacks ajudam a perceber o papel que Zack desempenhou no passado destes personagens e os dramas intensos que eles viveram na juventude.

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Fonte: https://www.hollywoodreporter.com/live-feed/locke-key-what-makes-upcoming-comic-book-adaptation-challenging-television-996213

A história evolui lentamente, mas evolui, abrindo as portas a uma trama mais larga que pode, a pouco e pouco, trazer maiores revelações sobre os Locke, a Keyhouse e as próprias chaves. Gostei bastante dos novos personagens, das dinâmicas entre eles e do que as capacidades místicas das chaves podem interferir na forma de viver dos mesmos. No que foi apresentado e no que foi subentendido, a narrativa funcionou na perfeição.

Achei a ideia da chave que permite às pessoas abrirem a cabeça e colocarem e removerem coisas tão ridícula e fantasiosa, que se torna genial a forma como o autor a faz parecer verosímil. O título Head Games é um trocadilho interessante, ao constatarmos que não só a chave permite “jogar” com a cabeça, como o personagem Zack / Lucas / Dodge passa o álbum a fazer jogos mentais para enganar os outros.

Avaliação: 8/10

Locke & Key (IDW Publishing):

#1 Welcome to Lovecraft

#2 Head Games

Estive a Ler: Welcome To Lovecraft, Locke & Key #1

Lots. Doors to other worlds. Doors to other possibilities. Want to be a grown-up? There’s one that will turn you into an old person when you walk through it.

O texto seguinte aborda o livro “Welcome To Lovecraft”, primeiro volume da série Locke & Key (Formato BD)

Escrita por nada mais, nada menos do que Joe Hill, filho do mestre de terror Stephen King, Locke & Key é ilustrada por Gabriel Rodriguez e publicada nos states pela IDW Publishing.

Venceu o British Fantasy Award por duas vezes, em 2009 e 2012 na categoria Melhor Comic ou Novela Gráfica e em 2011, o Eisner para Melhor Escritor, entregue a Hill num ano em que a série esteve nomeada em quatro categorias para o prémio maior das BDs.

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Fonte: http://www.comixtrip.fr/bibliotheque/locke-key-bienvenue-lovecraft/

Mas vamos lá: do que é que trata Locke & Key? Em primeiro lugar é uma BD de horror (eu não prometi ler mais terror este ano?). Depois, tem uma família disfuncional, um serial killer psicopata e ainda uma casa assombrada. Parece-vos bem? Ah, e tem chaves, muitas chaves com poderes mágicos. E ainda uma homenagem ao pai do horror moderno. Não é que a ação passa-se numa localidade chamada Lovecraft?

Locke & Key é uma daquelas comics de que já ouvi falar tanto bem que parecia mal não a ler. Mas faltava qualquer coisa para lhe saltar em cima. Talvez por não estar ainda traduzida em português, talvez por a premissa me parecer algo rebuscada, talvez por preguiça mesmo. Mas, vamos lá, acabei por ler o primeiro volume, Welcome To Lovecraft, e gostei.

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Fonte: http://ew.com/books/2017/05/03/joe-hill-strange-weather-excerpt/

Welcome to Lovecraft dá o “pontapé de saída” no dia em que o professor Rendell Locke, disposto a disciplinar os filhos e a envolvê-los em atividades campestres, é retido na sua própria casa por um grupo de alunos problemáticos que têm em mente pregar um susto ao professor e à sua família. O caos é despoletado quando um desses alunos, o sociopata Sam Lesser, mata Rendell e a família deste envolve-se na contenda. Há mortos e feridos e Sam é preso.

“A pouco e pouco, também Sam veio a roubar a cena, tornando-se um dos personagens mais bem construídos do álbum.”

No rescaldo da tragédia, a família do professor é obrigada a mudar-se para a terra natal de Rendell: Lovecraft, em Massachusetts, Nova Inglaterra. Vigiada até ali pelos irmãos Duncan, a mansão de família dos Locke é denominada Keyhouse… por alguma razão. Trata-se de uma mansão vitoriana repleta de segredos, para onde a esposa e filhos do falecido vão viver.

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Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/3217221-locke-key-vol-1

A mãe, Nina, torna-se dependente de álcool e são vários os episódios de perturbação emocional de que é protagonista. Mas enquanto o filho mais velho, Tyler, se envolve em atividades que apelam à sua brutidade e a jovem Kinsey tenta ser aceite pela sociedade, o pequeno Bode, negligenciado por todos, acaba por revelar-se o mais estável, explorando a imensa mansão e descobrindo os seus segredos, alguns deles bem assustadores.

É aqui que Locke & Key ganha forma e magia, não só na questão tradicional da “casa assombrada”, mas nos upgrades que Hill tão bem incutiu na sua obra. Vários personagens parecem “cinzentos”, não se compreendendo na perfeição o seu papel a desempenhar. A pouco e pouco, os dons que as chaves despoletam abrem caminho para uma trama maior, nomeadamente a capacidade de as pessoas se desvincularem do seu corpo físico e poderem vaguear na mansão como fantasmas.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/248612841906299195/

Também a questão de os personagens se esquecerem daqueles “dons” à medida que envelhecem deverá ser mais explorada nos próximos volumes. O passado dos Locke permanece envolto em mistério, mas esse esquecimento parece estar diretamente relacionado à completa descrença dos adultos em relação às afirmações do pequeno Bode. A cena de pesca final pareceu-me uma boa sugestão do que pode estar para vir.

“Senti falta de uma ilustração mais plana e aberta, com tons mais escuros e expressões menos caricaturais.

A pouco e pouco, também Sam veio a roubar a cena, tornando-se um dos personagens mais bem construídos do álbum. O trajeto dele pode até ser previsível e tudo o mais, mas acrescentou à narrativa um sentimento de adrenalina e de horror palpável, a somar ao que o ambiente soturno e fantasmagórico da mansão já vinham oferecendo.

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Fonte: https://comicsauthority.com/2013/07/24/locke-key-welcome-to-lovecraft/

Mas nem tudo é ótimo neste Locke & Key. Se o argumento me cativou e conquistou, a arte ficou a perder em comparação. Com uma boa disposição de pranchas, vinhetas e balões, assim como uma atenção vívida aos pormenores, nomeadamente nos ornamentos da mansão, quadros e chaves, acabei por sentir que o desenho não casou bem com o argumento. Senti falta de uma ilustração mais plana e aberta, com tons mais escuros e expressões menos caricaturais.

Ainda assim, Locke & Key é mais uma série para continuar a seguir. A panóplia de ingredientes que mesclam o terror psicológico ao fantástico criam um clima de bizarrice que brinca com os próprios clichés do género e apresenta uma aura infantil virada ao avesso, disruptiva, plena de violência e de carga dramática.

Avaliação: 7/10

Locke & Key (IDW Publishing):

#1 Welcome To Lovecraft

#2 Head Games

Estive a Ler: O Sangue dos Elfos, The Witcher #3

Outro choque, mergulho na lama, violenta batida contra o solo assustadoramente parado após aquele selvagem galope. O penetrante e rouco relincho do cavalo que tenta erguer o quadril. O trote de ferraduras, a fulminante passagem de garupas e cascos. Capas e xairéis negros como a noite. Gritos.

O texto seguinte aborda o livro “O Sangue dos Elfos”, terceiro volume da série The Witcher 

Convidado da Saída de Emergência na última edição da ComicCon Portugal, Andrzej Sapkowski autografou centenas de exemplares dos seus livros já publicados em português, sempre com um copo de vinho a acompanhá-lo. Publicado pela primeira vez em 1994, O Sangue dos Elfos é o terceiro volume da série The Witcher, que serviu de base para o jogo de computador com o mesmo nome.

Em Portugal, o livro é uma das apostas fortes da Coleção BANG! para este início de ano, estando disponível nas livrarias a partir de hoje. Com um total de 288 páginas, tradução de Tomasz Barcinski e adaptação de Rui Azeredo, O Sangue dos Elfos retoma a história de Geralt de Rivia, o famoso bruxo caçador de monstros. Se os dois primeiros volumes foram narrados em forma de contos, este livro inicia The Witcher, no que diz respeito à ação propriamente dita.

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Fonte: https://heavymetalhanzo.deviantart.com/art/The-Witcher-III-Hunting-The-Royal-Griffin-546925749

Fiquei de queixo caído com as primeiras páginas deste livro. As descrições de batalha com que O Sangue dos Elfos tem início são tão deliciosamente “What the Fuck!” que as minhas expectativas quadriplicaram. Não posso dizer que tenham sido, de todo, goradas, mas a promessa perdeu-se um pouco ao longo do livro. Ainda assim, este é, claramente, um livro melhor que o antecessor.

“Senti alguma falta de senso ou de elos de ligação entre os capítulos.”

A escrita de Sapkowski, que me parecera menos elaborada e até menos competente em A Espada do Destino, voltou a superar-se. Em boa verdade, posso dizer que a escrita é o melhor do livro: madura, fluída e bem-humorada. E as ideias narrativas do autor polaco são bem interessantes. Infelizmente, acho que ele tem alguma dificuldade em executá-las, ou talvez seja o seu jeito de o fazer que não me “apaixona”.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/litfantastica-bang/fantasia-o-202346/o-sangue-dos-elfos/

O mundo onde The Witcher se passa ainda me é estranho. Parece ser um mundo original inspirado no folclore eslavo e nos contos de fadas, mas no entanto sucedem-se expressões latinas que deixam claro que a etimologia deste mundo tem base no nosso latim e também no dinamarquês, como o idioma westerosi das Crónicas de Gelo e Fogo foi construído a partir do idioma anglo-saxónico.

Senti alguma falta de senso ou de elos de ligação entre os capítulos. São sete ao todo, iniciados com pequenos trechos de livros fictícios que nos dão algumas pistas do que podemos encontrar em cada capítulo. Algumas ideias e mesmo o nexo causal entre os acontecimentos perdem-se, acabando por fazer o leitor sentir-se desfasado do que vai acontecendo entretanto.

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Fonte: https://www.brokenjoysticks.net/2017/03/16/love-witcher-read-blood-elves/

Se, por um lado a opção do autor em fazer saltos temporais entre capítulos tornou a leitura ágil, sem pormenores de somenos importância explorados ad nauseam, fiquei um pouco desiludido por não testemunhar qualquer encontro entre Geralt e Yennefer, não ver como o bruxo e Jaskier se reencontraram, e mesmo a ligação inicial entre a feiticeira com a pequena Ciri só nos foi apresentada posteriormente, através de lembranças.

“De certa forma, se os dois primeiros volumes foram uma prequela para a série, este terceiro pode ser considerado um prólogo.

Também achei que o autor focou-se imenso em Triss Merigold para depois abandoná-la a “meio da estrada” e não voltar a aparecer. Tratando-se de uma saga grande, feita de livros pequenos, acabo por compreender a opção, muito embora não me possa deixar de desagradar o tempo de antena dado aos anões, que falaram, falaram, falaram, e depois de uma cena de ação (por sua vez excelente), desapareceram do mapa para não mais voltarem a dar cor de si. E, neste caso, ainda bem.

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Fonte: http://booksfrommars.blogspot.pt/2015/07/guest-book-review-blood-of-elves_2.html

A narrativa voltou a girar em torno da Criança Surpresa, Cirilla de Cintra, que se vê nas mãos de Geralt de Rivia quando a cidade cai às mãos dos exércitos nilfgaardianos e todos julgam que a princesinha morreu durante a batalha. Geralt reclama então para si a responsabilidade de a levar para Kaer Morhen, onde um grupo de bruxos se encarrega da sua educação como guerreira e bruxa.

Questões como a menstruação e os dons mediúnicos da menina, porém, deixam claro que ela precisa do cuidado de mãos mais sensíveis. O que se torna imperial quando o velho amigo de Geralt, o trovador Jaskier, canta em público como ela sobreviveu à batalha, gerando rumores que a podem colocar em risco, tanto quanto a Geralt. A partir daí, vários reinos e facções políticas erguem uma caçada à origem de tais rumores, levando Geralt a elaborar um plano e a “dividir as tropas”.

Felizmente, tudo o que desgostei no livro foi compensado com belas sequências de ação e de aventura, sempre com Geralt, Ciri, Yennefer, Triss e Jaskier como protagonistas. Os acontecimentos na Redânia, com a participação de Phillipa Eilhart e a caça ao misterioso Rience foram excelentes, assim como o último capítulo que desenvolveu magistralmente a relação de Yennefer com a leoazinha de Cintra.

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Fonte: https://steamey.deviantart.com/gallery/46768332/The-Witcher

De facto, a caracterização e profundidade das personagens são os trunfos deste livro, e este talvez merecesse mais umas quantas páginas para que elas conhecessem um desenvolvimento mais sustentado. De certa forma, se os dois primeiros volumes foram uma prequela para a série, este terceiro pode ser considerado um prólogo.

Como fã de fantasia, The Witcher está longe de me encantar, mas não só O Sangue dos Elfos foi uma boa leitura, como é impossível negar a sua qualidade. A escrita é muito boa e a narrativa só precisava de mais alguma linearidade e consistência para poder afirmar o mesmo. Para um livro escrito em 94, meus amigos, isto é bom. Leiam.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 7/10

The Witcher (Edições Saída de Emergência):

#1 O Terceiro Desejo

#2 A Espada do Destino

#3 O Sangue dos Elfos