Estou no Wattpad #22

Bem sei que esta semana não era suposto sair nenhum capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, mas para fazer avançar a história para o seu arco final decidi que até ao início de junho irá sair um capítulo por semana. No último, vimos Empecilho a transmitir a Bortoli e Vance as notícias de Ccantia, enquanto percebia que o cerco montado à cidade de Chrygia incluía o domínio sobre os nativos e a tortura a um antigo companheiro.

CAPÍTULO VINTE E DOIS: HUMILHAÇÃO

“Havia alto no comportamento de Hije que me fez gostar dele. Os diabos eram, por natureza, hostis, mas nos dias em que se viviam, a velocidade compensava o trabalho que significava domá-los. Os cavalos eram escassos e pouco desenvoltos nos desertos; os camelos lentos e caprichosos. Domar diabos para se servir deles como transporte era algo que faria os nossos avós benzerem-se, tal a heresia que tal pensamento acarretava. Mas os tempos mudavam com as necessidades e possuir um diabo tornara-se premente para quem desejava cobrir longas distâncias em pouco tempo. Posso dizer sem hesitação que me tornei amigo de Hije desde o primeiro instante. Não sei dizer se ele se sentia constrangido, privado da sua natureza e liberdade, se vira em mim um veículo para recuperá-las, mas os seus olhos deixaram claro, desde o início, que estava em sintonia comigo. Quase não precisei orientá-lo quando tentamos fugir da fazenda de Roq’ia, procurando possíveis caminhos alternativos, nem esporeá-lo quando cheguei à conclusão que investir contra os inimigos era a única alternativa. Sentia-o resfolegar, senti o pulsar do seu coração a fremir contra mim, em uníssono com o meu. Pensámos como um só, sentimos as mesmas limitações, receios e expectativas. Sem modéstia, posso afirmar que boa parte da minha fama lendária deve-se a ele.”

Língua de Ferro estudou sem entusiasmo o acampamento militar onde Mario Bortoli se havia sediado. As estrelas coroavam a noite límpida, sem uma voluta de brisa que se sentisse. Não perdeu tempo a explicar a Empecilho como chegara ali ou o que havia acontecido consigo. Nunca gostara de perder tempo com detalhes e aquela noite seria decisiva para todos. Para além do mais, Empecilho revelara-se um mero fantoche nas mãos de Vance, o que lhe gerava um certo descontentamento, mas não surpresa.

Depois de lhe deixar uma série de recomendações, inclusive a localização de Hije e o tipo de mistura de carne com ração que devia preparar-lhe, avançou em passos largos por entre dois renques de pavilhões rústicos, forrados a pele de camelo curtida. As suas passadas eram calmas, mas o modo como caminhava, altivo e a transpirar de segurança, não sugeria qualquer tipo de discrição.

Um par de rhovianos avistou-o quando cochichavam junto a uma tenda. Um tinha uma capa em pele de cabril atirada sobre um ombro e uma bragadura de linho, enquanto o segundo, mais velho e de expressão retorcida, vestia um manto grená com pregas de lã nos antebraços e perneiras de couro. Língua de Ferro lançou-lhes um olhar sem íris ou pupilas quando nele se concentraram. O mais velho segredou algo ao ouvido do mais novo e este afastou-se, certamente com a intenção de levar a mensagem daquela aparição aos ouvidos de um intendente ou alguém de maior patente, caso não fosse ao próprio Bortoli.

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Guerreiro celta (Fonte: Alpha Coders em pinterest.com)

Língua de Ferro soltou um aviso:

― Hei, tu!

Ao contrário do que o rhoviano mais velho sugeria por gestos, o homem estacou, encarando o invasor com algum desafio, não obstante a expressão reticente. Língua de Ferro aproximou-se dos dois homens em passos largos e viu os olhares deslizarem do seu olhar vazio para a espada embainhada à sua anca.

― Seja a quem for que desejas informar da minha presença, dizei-lhe que se trata de Língua de Ferro, o Assassino de Deuses.

Falou no idioma rhoviano, porque muito embora a língua franca rezoli fosse conhecida pela grande maioria dos povos na margem oriental de Semboula, o conhecimento do seu dialeto específico transmitia um saber secreto sobre eles próprios e conhecer os seus segredos era sempre um fator de medo entre os homens. Língua de Ferro sabia disso ao entrar na sua intimidade.

Os homens entreolharam-se com algum ceticismo e apreensão, quando o mais velho puxou dos seus galões e atirou a cabeça para trás, demonstrando autoridade com o pomo da garganta em franca exposição.

― Talvez deva acompanhar-nos a ambos até lá, pretenso diocida zarolho, e afirmá-lo com os seus próprios lábios ― disse com desdém na voz, no rezoli comum.

Língua de Ferro sorriu, depois o sorriso transformou-se numa risada e por fim numa sonora gargalhada, abrindo a mão com força no peito, de tanto rir. Aquela reação não só retesou os dois rhovianos, como os preocupou, obrigando-os a levar aos mãos aos punhais que traziam presos à cintura. O salteador pareceu mais rápido que a sua própria sombra e não precisou desembainhar Apalasi. Pontapeou o punhal do rhoviano mais novo quando este o desnudou, fazendo-o voar para fora do seu alcance, e depois firmou a sua mão, nodosa, no pulso do oponente mais velho, rodando-a até soltar um sonoro grunhido e perder a força. Deixar cair o punhal na areia aos seus pés não foi o suficiente para Língua de Ferro. Continuou a pressionar-lhe o pulso.

O homem tinha a outra mão apertada no antebraço do salteador, mas isso não foi impeditivo para que ele lhe quebrasse o punho. Ao som de ossos a quebrarem-se seguiu-se um carpir pouco viril, quando Língua de Ferro o soltou e o velho caiu em soluços sobre as suas mãos. O outro rhoviano pareceu indeciso entre atacá-lo ou fugir dali para contar o ocorrido, mas tinha a mão em brasa, fruto do pontapé que lhe atingira os dedos, e enfrentá-lo não pareceu a melhor solução.

Língua de Ferro avançou para ele, com os músculos nervurados a pulsar, brilhantes sob o luar. Sem saber como se defender, o rhoviano colocou um braço à frente e outro atrás, numa posição de defesa básica, com as pernas em semelhante disposição de equilíbrio. A forma como estremeceu, porém, denunciou a precariedade dessa defesa, bem como a sua hesitação. O gigante que enfrentava simulou um murro e ele levou ambas as mãos à frente do rosto. Língua de Ferro abriu a mão no seu peito para o empurrar para trás e puxou-lhe uma perna com a sua, pela dobradiça, puxando-a como um ganho. O rhoviano estatelou-se no chão, o que lhe permitiu fazer a jogada mais desleal de um embate. Segurou num punhado de areia e arremessou-a contra o rosto do adversário, esquecendo-se, por ventura, que este era cego.

Mas Língua de Ferro não era cego, ainda que a flâmula de areia que lhe atingiu os olhos não lhe fizesse mais do que alguma comichão. Pisou um pulso ao inimigo, fazendo-o gritar e impedindo-o de se reerguer. Posto isso, desafivelou o seu cinto. Nenhum dos rhovianos caídos no chão compreendia o que ele ia fazer, mas ele sabia. Humilhá-los. Fazer engolir o orgulho a um rhoviano era mais letal que a morte, ainda que tal pudesse inspirar futuras sublevações. Ele não as temia. Deixou cair as calças aos seus pés, provocando uma nuvem de pó de areia, como a ondulação provocada por uma moeda atirada a um lago. Pegou no seu pénis curvo e urinou sobre o homem prostrado no chão. A urina quente ensopou o rhoviano, que levou a mão livre ao rosto para aplacar tal humilhação. Em vão. Urina cobriu-o como uma película, do torso coriáceo ao cabelo poeirento, passando-lhe pelos lábios franzidos e enojados e pelos olhos semicerrados. Língua de Ferro sacudiu o pénis e quando as últimas gotas de urina desapareceram, voltou a erguer as calças.

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Guerreiro (Fonte: es.pinterest.com)

Fitou o rhoviano mais velho, que se arrastava para mais longe enquanto o estudava numa mistura de náusea e horror, com uma mão sobre a outra.

― Agora sim, podem ir comunicar o ocorrido aos vossos superiores. Dizei-lhes que o inimigo de Bortoli chegou, e está à sua espera. Podem dizer-lhes também, se a vossa coragem chegar a tanto, que não temo derramar sangue inocente, se isso significar chegar até ele, para o fazer pagar pela morte de Lucilla.

Com essas palavras, Língua de Ferro afivelou o cinto e deixou-os consigo mesmos e com as suas reflexões. Sabia que os atrasara. Iriam medir as suas palavras e procurar forma de comunicar uma versão menos humilhante dos acontecimentos, quando estivessem recompostos. Enquanto isso, avançou entre as tendas, inspirando o ar pesado e asfixiante, sentindo-se pegadiço de suor e alvo fácil para os moscardos imundos que zuniam à sua volta.

Passou por um espeto escamado de fuligem e gordura, sob o qual jaziam os restos carbonizados de uma fogueira, junto à qual repousava uma malga de ferro vazia e um almofariz de cerâmica com restos do que parecia pimenta moída. Franziu o nariz com o odor e afastou-se o mais rápido possível dali, mudando o seu curso para ocidente, onde o corredor proporcionado pelas tendas o conduzia para o largo perímetro onde eram escavadas valas comuns para encher de cadáveres. Língua de Ferro suspeitava que os corpos dos indígenas não seriam os únicos a alimentar aquelas bocas de areia.

Parou e sorriu, momentos antes de vislumbrar uma figura familiar, que se esgueirava da aba de uma tenda. Usava um porta-seios e um saiote de samito, e o rosto pálido pareceu-lhe mais surpreso e desconfortável do que alguma vez o contemplara, quando finalmente o encontrou com o olhar.

― Olá Ravella! Como estás?

A mulher passou com o polegar por cima da orelha para afastar o cabelo e olhou para um lado e para o outro, confirmando que ninguém os perscrutava. Archotes estavam acesos em volta das tendas, mas a maioria dos homens já dormiam ou reuniam-se nas tendas mais sumptuosas, de onde se ouviam os batuques nativos, a sudeste, muito possivelmente locais onde os homens de maior patente obrigavam os sobreviventes do acampamento original a dançar, fazer música com os seus tambores de osso e pele plissada, cozinhar e ceder aos seus prazeres lascivamente mundanos. Língua de Ferro agradecia tais distrações. Podiam favorecê-lo nos seus planos.

― O que faz aqui? ― perguntou.

Língua de Ferro aproximou-se e sentiu no ar a doce fragrância a alfazema e a incensos que brotava do interior da tenda. Sondou na sua direção e o perfume agradou-lhe. O próprio corpo de Ravella, definido em músculos e curvas estonteantes, jorrava de odores almiscarados, e brilhava com a película de óleos e essências com que se banhara.

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Jovem (Fonte: wall.alphacoders.com)

― Esperava que Vance te tivesse contado. Vocês agora não são íntimos? ― perguntou, num misto de diversão e ciúme. ― Não era à sua procura que ias agora mesmo, para o trazer para a tua cama?

A uraniana meneou a cabeça, como se isso não importasse.

― O que é que Jupett tem a ver com isto? ― Abriu a aba da sua tenda, e convidou-o a entrar com a cabeça. ― Venha, não vai querer que o vejam.

― É, talvez, um pouco tarde para isso ― disse, ao baixar a cabeça para entrar no pavilhão.

Foi recebido por um mundo de sombras opacas. Um braseiro estava aceso ao centro da tenda, borbulhando de óleos. As suas flamas pareciam dedos de danados em busca de uma fuga ao tormento do Inferno. Quando o seu olhar se adaptou à luminosidade, reconheceu a amplitude e os detalhes daquele lugar. Colgaduras em pele de tigre e rolos de seda enriqueciam a divisão, enquanto uma tela de acácia servia de suporte a uma bonita aguarela que mostrava o porto de Constania nos seus dias áureos, antes da Seca. Um compartimento fechado a biombos não ocultava os tapetes vistosos nem os colchões felpudos e almofadas que compunham o leito noturno de Ravella. À passagem para o seu íntimo, montava guarda um par de panteras em calcário. Língua de Ferro aprovou a riqueza do seu pavilhão.

― Quem és tu, afinal, para mereceres tamanho luxo? ― perguntou com sinceridade.

― Sou a esposa do comandante, o seu amuleto de fortuna. É tudo o que precisais saber ― disse ela enquanto fechava a aba da tenda com um atilho de cânhamo. Virou-se para ele com austeridade. ― Quando ele me disse que era agora também um instrumento, não imaginei que ficasse também… assim.

Ela estava a referir-se ao vazio no seu olhar, e falava-o com algum constrangimento e pena, o que revelava a sua inocência naquele assunto. Podia estar a referir-se a qualquer outra coisa.

― Conhecias Vance antes do nosso primeiro encontro? Antes de Rivia?

Língua de Ferro não se coibiu a esclarecer uma das suas maiores dúvidas. Tanto Ravella como Vance eram originários da vasta província setentrional do Urão, onde as pessoas nasciam pálidas, fruto da volatilidade do sol sob as montanhas, mas seria apenas isso a unir aqueles dois? No seu íntimo, sentiu o desconforto de Ravella em abordar aquele tema. Moveu-se, graciosa como uma pantera, de um lado para o outro, abrindo uma garrafa de um vinho aguado que verteu por duas canecas, regressando com ambas. O salteador segurou a que ela lhe ofereceu e interpretou a sua inquietude como uma ameaça à confiança estabelecida entre ela e Jupett Vance.

Pareceu refletir na questão enquanto beberricou da sua caneca, debicando como um passarinho. Língua de Ferro esperou pela resposta, envolvendo o receptáculo de barro com as duas mãos.

― Só conheci Jupett em Rhove, mas foi como se nos conhecêssemos desde sempre. Para além de partilharmos a mesma origem, ele impediu que alguns bárbaros me estuprassem. Por alguma razão, ele viu algo em mim. Nas mãos de Mario Bortoli, nenhuma mulher vale mais que um objeto, que se usa e dispensa a seu bel-prazer. Jupett tratou-me como uma princesa.

Língua de Ferro assentiu com a cabeça, mas sentia que ela lhe escondia algo.

― Talvez porque ambos partilharam segredos, parece-me. Há algo que escondeste de mim, durante todo o tempo que estivemos juntos.

Ravella cuspiu para os seus pés.

― O tempo em que estive consigo? Depois que me levou de Rivia como uma escrava? Uma escrava que eu era, porque todos me viam assim? Levou-me em troca dos meus conhecimentos sobre Regan…

Língua de Ferro sentiu o azedume na sua voz, mas não se sentiu ofendido.

― É tarde demais para recriminações. A nossa relação não foi apenas um negócio, e ambos sabemos disso. Como também sabemos o que significamos um para o outro. Ambos amámos aquele homem, cada um à sua maneira.

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Guerreiro (Fonte: wallpapercave.com)

Aquilo quase fê-la engasgar-se. Engoliu o vinho e tossicou, antes de limpar os lábios com o antebraço e avançar um passo com o indicador em riste.

― Não, Língua de Ferro. Se admirou um homem, esse homem era Dzanela. Um salteador, um criminoso. Eu amei Regan, o homem.

― Um moribundo ― corrigiu.

― Um homem vivo ― sublinhou Ravella. ― Antes de Jupett Vance, foi o único homem que me tratou como uma mulher.

Língua de Ferro sorriu diante do insulto.

― Que seja. Antes de morrer, Regan contou-te um segredo. Foi esse segredo que contaste a Vance e foi isso que te fez cair nas suas boas graças. Quero saber que segredo foi esse.

Ela pareceu hesitar.

― Sander Camilli usou Allen para chantagear Regan, até lançar-lhe uma perseguição que acabou às portas de Selaba. Só isso. Jupett não me tratou melhor por saber disso, calculo.

Língua de Ferro assentiu.

― Mentes. És uma mentirosa, Ravella.

O olhar dela revelou incompreensão. E se ela não estiver a mentir?, pensou.

― Tudo o que sei é que amava aquele homem, e amo-o como nunca amarei outro.

― Nem mesmo Vance?

― Nem mesmo Vance. Mas estarei com ele até ao fim, para levar justiça ao seu carrasco.

Língua de Ferro suspirou profundamente.

― Pretendes matar Sander Camilli, então.

― Não foi Sander Camilli quem matou Regan, Leidviges Valentina ― disse uma voz da aba da tenda.

Jupett Vance.

Antes sequer de pensar na discrição do homem em abrir a aba que Ravella tão afincadamente se esforçara por amarrar, Língua de Ferro viu-o a erguê-la, para revelar as luzes de tochas em punho que passavam atrás de si. Vozes que não passavam de sussurros aos seus ouvidos apurados revelavam-se agora demasiado próximas para que as ignorasse. Um linguajar de homens hostis. Clarões dourados recortaram sombras na calva de Vance Cego quando ele baixou a aba e disse, com aparente serenidade:

― Há uma saída secreta do outro lado da tenda. Bortoli já sabe que estás aqui. Não te esqueças daquilo que és, um instrumento da essência. Ainda não o compreendeste na totalidade, mas não te admoesto por isso. Fui treinado desde criança para o que fiz e virei a fazer, e em alguns momentos até eu reservo para mim certas dúvidas. Mas terás de ultrapassar a tua ignorância em relação a certos assuntos. A compreensão está vedada a alguns instrumentos. Basta que deixes a aceitação serenar-te o espírito. Somos ajuramentados, tu e eu. Sabes o que tens a fazer, e isso deve chegar-te.

O tom impositivo com que falou não deixou margem para discussões. Língua de Ferro fitou o seu rosto sereno e olhar branco, tão enigmático como sempre o fora. Depois, volveu para Ravella, tão bela quanto confusa e envergonhada, e sentiu algum despeito por aquilo que lhe era vedado. Sentiu-se afastado de algo que lhe devia pertencer. Ravella avançou à sua frente para lhe indicar a saída secreta do pavilhão e ele seguiu-a, estudando os contornos ágeis do seu corpo e desejando-o para si. Não lhe dirigiu qualquer palavra ou olhar quando ela abriu uma orla de tecido descosido nos fundos da tenda e tocou-lhe na omoplata para o ajudar a sair. O toque teve o sabor de uma bênção.

Saiu para o exterior e não a voltou a ver. Homens armados de lanças e alabardas corriam para um lado e para o outro, vasculhando o acampamento à sua procura. Vance tinha razão. Não era hora para revolver o passado em busca de respostas. Havia trabalho a fazer. Havia um cerco a quebrar. No entanto, aquela frase pairava-lhe na mente. Não foi Sander Camilli quem matou Regan.
Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois

Estou no Wattpad #21

Com algumas horas de atraso em relação ao que vos habituei, chega agora o capítulo 21 de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, a minha história de leitura online. No último capítulo assistimos a um confronto entre os deuses renascidos e a essência, através dos corpos de Língua de Ferro e Anéis da Morte. Depois de ter abandonado os Poços ao cuidado de Seji e Tayscar, o anti-herói avançou para a cidade de Chrygia com as duas filhas de Lucilla e Eduarda. O que o esperará nessa cidade sob cerco? Espero que gostem.

CAPÍTULO VINTE E UM: CERCO MONTADO

“O nome dele era Gero. Encontrara-me quase morto sobre o cadáver de um boi e levara-me para o solar dos seus patrões, ali perto. Estava em Sinara, uma província despida de riquezas ou preconceitos, mas bem almofadada a frutos do campo. Até ali, a terra tinha sido fértil, mas todos sabiam que não seria assim por muito mais tempo. O futuro era um desafio para todos nós. Nós, os que sobrevivíamos da água. Gero revelou-se um tipo cortês, pouco dado a conversas, o que não o abstinha de se revelar gentil, quando podia. Manteve-me escondido naquela estrebaria, alimentado a batatas meio apodrecidas e a nacos de carne cheios de sal, já orlados de bolor. Via na expressão dele o quanto lhe custava, alimentar-me assim. Algo dentro de mim nutria alguma simpatia pelo homem, mas isso não me coibiu a fazer o que fiz. Hije era um dos seis diabos sob aquele teto de madeira. Pertenciam a El Roq’ia, o fazendeiro. Certa noite, acordei com o cheiro a óleo a arder. Aproximei-me da janela e vi que eram eles, quem se aproximava. Gero, e Roq’ia, o seu patrão. Consigo, trinta capangas, bem armados com bacamartes e tochas em punho. Gero parecia envergonhado quando escancarou a porta e o luar lhe orlou o rosto com sinais de tristeza. Chamou por mim com cautela, mas eu sabia que era uma armadilha. Tudo na minha vida, até ali, tinha sido uma armadilha. Sabia que usá-lo como refém não me salvaria a vida, pois não passava de um capataz. Só um capataz. Assim que o asfixiei com as minhas próprias mãos, libertei Hije e saltei para o seu dorso. Fugi dali por entre disparos e nuvens de fumo, com mais de uma vintena de homens no meu encalço. De nada lhes adiantou. Quando me fecharam os canais de fuga e me vi cercado, fui obrigado a desembainhar Apalasi e a matar. Roq’ia foi o último a morrer. Cortei-lhe a língua e as pontas dos dedos, e deixei-o amarrado, enquanto me via a matar a mulher e as filhas. Quis que ele me visse a violá-las, mas não consegui fazê-lo. Algo dentro de mim renegava o ato de estupro, ainda que isso não fosse perdão para os meus atos.”

― Onde é que está esse músculo? Entre as pernas? Vamos lá a trabalhar ― gritava Opyas “Boca de Sapo” Raymon aos rhovianos que escavavam terra de forma a gerar uma vala comum. Corpos eram atirados para o interior. Eram corpos de nómadas, os donos do acampamento que a horda de Mario Bortoli engolira com a sua crueldade. Trinta metros a ocidente, erguiam-se as torres e minaretes imponentes de Chrygia, a capital do Império, rodeados por uma muralha de pedra com mais de duzentos metros de altura. Uma outra circunferência sitiava a cidade. O exército de Bortoli.

Era princípio de tarde e estava um calor infernal. Cheirava a pele de animal recentemente esfolada, ou seja, cheirava verdadeiramente mal. Empecilho apareceu sem sobreaviso, com um manto em pele de cabril atirado sobre um ombro e umas calças de couro que lhe davam um pouco abaixo dos joelhos. Sandálias do mesmo material protegiam-lhe os pés. Era escoltado por um par de rhovianos de rostos chupados e expressões terríveis, que o encaminhavam para uma das tendas quando quase tropeçaram em Raymon.

― Empecilho, miúdo, o que raio estás aqui a fazer?

― Como estás, Boca de Sapo?

O homem estreitou os lábios grossos numa expressão surpresa.

― Digamos que me puseram a orientar a mão-de-obra. De vez em quando encontramos um camelo ou uma cabra mumificada, mas podia estar pior, a trabalhar couros em Veza. Bortoli é generoso. ― Piscou-lhe o olho. Havia algo naquela voz que lhe soava a irónico. O homem estava em tronco nu, com a camada de pelos negros colados à pele coriácea pelo suor. Calças de samito cobriam-no até aos pés peludos e descalços. ― E tu, miúdo? Pensava que Bortoli te tinha deixado em Ccantia…

― E deixou. Vance Cego deixou-me como espião. Venho trazer as notícias que tenho para eles.

Raymon esfregou o próprio ombro com a mão direita e resmoneou algo entredentes, como se algo ali não lhe agradasse. Deitou um olhar de través a Empecilho e deixou-os passar com um “boa sorte” sussurrado.

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Fantasy Sand City (Fonte: pinterest)

Chegaram ao pavilhão de cetim mais exuberante do acampamento, com faixas de pano de ouro a esvoaçar sobre alabardas esculpidas em osso, e um par de indígenas rezolis a margear a aba de pano que dava acesso à tenda. Os rhovianos trocaram três palavras com os rezoli num idioma ininteligível para Empecilho e pouco depois um dos guardas retirou-se para o interior, regressando pouco depois com um assentimento de cabeça. Os rhovianos passaram por eles, arrastando Empecilho pelos braços.

O interior do pavilhão regurgitava de odores. Mel, óleo a arder, enxofre, alfazema. Uma mistura de perfumes que tentava disfarçar, com algum êxito, na verdade, os odores nauseabundos do exterior. Havia um silêncio desmoralizador naquela tenda. Uma quietude envolvente, sugestivamente precária. Era uma montanha em risco de desabar. Não registara vento no exterior, por isso era fácil perceber porque é que os foles de cetim não se moviam, mas não ouvia palavras ali dentro. As bocas estavam fechadas, os olhares postos num tripé de ferro, com juntas castanhas de ferrugem. Uma mulher de joelhos tinha os punhos agrilhoados ao tripé, acima da sua cabeça. Mantinha a cabeça pendurada para o peito, com os cabelos castanhos a cobrirem-lhe a maior parte do rosto cor de cacau. Estava nua.

À sua frente, Mario Bortoli mantinha-se afundado numa meia dúzia de almofadas, beberricando de um cálice que não podia ser maior que um dedal. Uma garrafa de vidro esmaltado repousava ao seu colo. Jupett Vance mantinha-se de pé à sua direita, com Ravella logo atrás. Mantinha uma expressão pensativa e, até certo ponto, pesarosa. As sobrancelhas tocavam-se, formando um ângulo expectante. O silêncio foi apagado com o pigarrear de um homem de meia-idade, tão escuro e tão nu como a mulher de joelhos. O torso magríssimo destacava-lhe o par de costelas e as pernas exangues estavam cobertas de varizes. Um rhoviano mantinha uma faca afiada abaixo do seu queixo, onde uma barbela flácida parecia uma bandeira a pender de uma haste.

Podia ser uma tarde normalmente agitada, mas o silêncio fazia das horas sombrias. Ninguém pareceu dar pela presença de Empecilho, muito embora a sua presença tivesse sido autorizada. Por incrível que fosse, foi o indígena sob coação quem lançou ao rapaz o primeiro olhar, um olhar aflitivo e sugestivo, com uma chuva de súplicas. Nenhuma lhe podia valer. Se houvesse um homem que o pudesse salvar da morte certa, Empecilho não seria esse homem.

O silêncio foi quebrado pela voz do indivíduo, como o tinir de uma peça de xadrez a cair de um tabuleiro:

― Se fizerem mal a Xamandra, as lágrimas de Ke cairão sobre vós! Ela é a filha de Kaxã, o ancião dos mioru. E é filha de Kima, a que descende do deus. Ele virá, degrau sobre degrau, dos avós aos netos, e neles calcará a espora que os fará falar por si. Lanças de prata esventrarão as vossas mulheres quando dos seus ventres penderem os vossos rebentos.

― O que dizes, pagão? ― perguntou Bortoli com uma gargalhada.

O homem atreveu-se a sorrir, embora soubesse que ia morrer. A bravata não escondia o terror no seu olhar.

― Quando esperarem receber nos braços os vossos filhos, das pernas das vossas mulheres jorrará estrume de cavalo. Quando vos julgares fausto no vosso trono de verga, a tosse de sangue ocupar-se-á de vós. Quando fordes…

― Levem-no! ― gritou Bortoli. ― Cortem-lhe os testículos e queimem-no para lhe fechar a ferida. Quero-o vivo, para que saiba o que é sofrer.

O humor desaparecera na voz de barítono de Mario Bortoli. Empecilho sabia que Bortoli estava a oferecer ao indígena a sua própria dor, uma vez que vivera frustrado pela lesão sexual provocada por Língua de Ferro. Nunca seria pai, mas o indígena não sabia disso e as suas pragas tinham surtido um efeito talvez mais terrível do que pretendera. Um rhoviano levou o homem, que esbracejava e grunhia enquanto passou por Empecilho e lhe lançou um olhar que tanto pareceu de súplica, quanto de ironia. Os homens vêm aquilo que querem ver, pensava Empecilho, relembrando-se das palavras do seu pai. Estranhamente, da última vez que cruzou o olhar com o homem, aquilo que viu nele foi uma espécie de diversão.

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Príncipe da Pérsia (Fonte: izabela-wilson.deviantart.com)

― Um absurdo. Isto é obsceno ― disse Mario Bortoli ao erguer-se. Vestia um manto verde com pregas castanhas coladas às mangas. Parecia ofendido. Pegou no queixo da mulher sob o tripé e puxou-lhe a cabeça para cima.

Os cabelos espalharam-se pelo rosto e Empecilho viu a sua expressão angular franzir-se de horror. Os seus olhos eram grandes e expressivos, com uma cor incomum. Dourados. A pele negra como teca parecia brilhar à luz de um braseiro aceso junto ao tripé, completando uma beleza exótica que o rapaz nunca testemunhara. Viu Bortoli a beliscar-lhe um mamilo pontudo e a sorrir lascivamente para ela.

― És tu, quem aquele homem chamou de Xamandra? És mesmo descendente de um deus qualquer, como ele disse? ― Soltou uma gargalhada, com os lábios a abrirem-se numa expressão que mal disfarçava o azedume ali implícito. ― Devias ter ouvido falar de mim. Das orgias de sangue que provoquei. Dos gritos de prazer que soltei enquanto via homens meus a estuprar mulheres mais feias do que tu. Devias ter ouvido falar de Mario Bortoli. Roubaram-me muito, nesta vida, mas não me roubarão os prazeres sádicos de um sátrapa. Comecei como salteador, mas ascendi a mecenas numa das cidades mais importantes de um império. Depois, veio a revolução e tomei-lhe a face. Amanhã, serei Imperador.

Pesou-lhe o seio e soltou uma risadinha. A mulher não demonstrou reação, e isso não o satisfez. Deu-lhe um estalo com as costas da mão, da esquerda para a direita, e o estalido que se fez ouvir não foi simpático. O rosto da mulher virou-se para a direita, mas nenhuma marca pareceu revelar-se no momento. Abriu-lhe o lábio, porém, e um fino filete de sangue escorreu-lhe pelo queixo. Pela primeira vez, a mulher lançou-lhe um olhar com significado legível. Uma expressão ameaçadora. Aquilo perturbou Bortoli, porque voltou-se repentinamente para Empecilho e perguntou:

― Então, rapaz? O que tens para mim?

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Mistborn fan art (Fonte: Lexi Gold)

― Com que então, Eduarda rumou aos Poços… ― Bortoli cofiava o queixo, caminhando de um lado para o outro. ― Aquele mísero bastardo!

Com um passo assertivo, Jupett Vance aproximou-se e Ravella seguiu-o como uma sombra. O homem dirigiu o olhar cego para Empecilho, mas foi para Bortoli que falou:

― Como lhe adverti, Língua de Ferro e Eduarda estarão ocupados com os Poços por um bom tempo. Não serão estorvo na vossa empresa.

Bortoli permaneceu um momento em silêncio, a acariciar os pelos hirsutos que lhe despontavam do queixo.

― Preferia que estivessem mortos! Já deviam estar mortos por esta altura. Neste momento, tenho muito mais com que me preocupar. Aposto um polegar em como os cães grandes da cidade não conseguem pregar olho a pensar em como quebrar este cerco. Devem ter enviado todos os homens sãos para a muralha. Devem ter contratado rapazes para separar munições e velhos para racionar pólvora. Mulheres foram pagas para fazer sopa aos patrulheiros, e outras para lhes aquecerem a cama. Algumas para ambos os ofícios. Uma aposta em como foder-me tornou-se o principal meio de subsistência para o povo de Chrygia. Uma aposta em como Camilli se revira na cama, alagado em suor, pensando em quebrar-nos. Ele não faz ideia de que o demónio em pessoa irá reclamar o Império para si.

O demónio em pessoa. Empecilho sentiu-se ligeiramente divertido ao perceber a forma destrutiva como Bortoli falava de si próprio. Também recordou-se que Língua de Ferro falava do seu polegar como um amuleto da sorte. Parecia algo que ambos aprenderam em conjunto, a avaliar o modo como Bortoli apostava o seu. Bortoli virou-se para Vance e colocou-lhe uma mão no ombro.

― Confio em ti, Vance! Venceremos este cerco.

Jupett Vance sorriu, abrindo as rugas de expressão em volta dos olhos e dos lábios.

― Venceremos, senhor. A essência assim o prediz. Os tempos errados estão a terminar: um trovão de ferro, uma vertigem de seda e um oscilar de ancas prenunciam a nova era. Um mar internar-se-á na cidade de prata, para transformar a sala do trono numa sepultura de água.

Empecilho estremeceu com as palavras. Mais do que as palavras, fora a forma como Vance as proferiu, estante que nem um fuso e num tom profético, o que lançou um tom críptico à frase. Bortoli pareceu igualmente inquieto, e não parecia ter alguma vez ouvido aquelas palavras.

― O meu exército ― disse, levando as mãos ao peito com fervor ― , será esse mar de que falais. E dessa sepultura aquática farei eu um novo Império.

Vance rodou a cabeça na sua direção, satisfeito.

― Descanse, senhor! As profecias falam por si. Há quem diga que o céu é um reflexo da terra. As nuvens podem não ser tão saborosas como um bolo de arroz, mas os seus habitantes não se parecem queixar. Há em cada tom um aspeto da nossa vida, e em cada grau de luz um pormenor da nossa complexidade. Somos seres pensantes, e isso pode tornar-nos pedantes diante da natureza. Se ter o dom de perguntar é uma dádiva, julgar-nos omniscientes conduz-nos a uma ignorância consentida. Não há grande esperteza, em viver empertigado como um sábio. Talvez por isso, hajam tantos. – Franziu o sobrolho. – E tão poucos.

― Ás vezes confundes-me.

Vance respondeu com um sorriso à apreensão do seu soberano.

― A nossa mensagem está quase pronta a ser entregue.

Com uma gargalhada estrondosa, Bortoli bateu-lhe na omoplata. Empecilho enrugou a testa, confuso.

― Vivo? ― perguntou Bortoli.

― Descanse. Sei como realizar um exercício de tortura pelos meios mais terríveis e manter um homem vivo. Allen sobreviverá, prego após prego. O que ele sabe é um perigo para nós. Se nada souber, poderá ser uma oportunidade.

Nem Bortoli nem Empecilho pareceram descansados quanto a isso. Allen… O rapaz ganhava coragem para perguntar por Allen quando a mulher sob o tripé grunhiu e cuspiu uma algaraviada qualquer, que ninguém pareceu compreender no momento. Vance aproximou-se da mulher e acocorou-se à sua frente. A mulher encolheu-se sob o seu olhar branco e, por um instante, também os seus olhos pareceram leitosos e marginados por sombras brancas. Quando se reestabeleceu, ficou em pele de galinha, encolhida em si mesma.

― Este homem ― disse na língua franca ― é um arauto das chamas brancas. Ele carrega consigo o terror dos homens. Evitem-no. Fujam dele.

Mario Bortoli engoliu o seu próprio terror e aproximou-se deles com passos decididos. Afastou Vance da mulher e sorriu para ela.

― Xamandra, Xamandra! Se este homem é aquilo que dizes, então quem devia querer fugir eras tu. Porque ele está comigo e juntos somos poder.

― O poder atrai inimigos ― atreveu-se Empecilho. Todos os olhos voltaram-se de súbito para ele. Ravella censurava o seu atrevimento com o olhar. Vance sorriu. Bortoli pareceu desagradado. Xamandra terrificada.

― O homem que levastes, senhor ― disse a mulher ― é o meu esposo. Um homem de pecados. Estou prometida a ele desde os oito anos de idade. Nunca me tocou. Ke perdoá-lo-á. A vós, homem gordo e sádico, o meu deus sangrar-vos-á até os gritos vos queimarem a garganta.

Bortoli cuspiu-lhe em cima com repugnância.

― Pára com isso, cabra. Os deuses estão mortos. Todos eles.

Xamandra voltou o olhar para Vance com um sorriso.

― Oh, é mesmo? Os deuses morrem e voltam a nascer das suas cinzas. Afinal de contas, não é por isso que aqui estás, arauto?

― A essência o prediz ― repetiu Vance.

Com um laivo de fúria, Mario Bortoli desembainhou uma faca do seu cinto e enterrou-a no crânio da mulher, pela têmpora esquerda. Ela fechou os olhos antes de sentir a lâmina, fria, a enterrar-se-lhe no couro cabeludo. A faca ficou ali, com o sangue a cair em pasta, avermelhando-lhe os cabelos.

Ravella pôs uma mão à boca, indisposta. Empecilho fechou os olhos.

Vance assentiu.

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Conan, o Bárbaro (Fonte: pinterest)

Empecilho foi dispensado pouco depois. Vance juntou-se-lhe quando estavam a fazer cama junto a uma fogueira, e acocorou-se ao seu lado, a limpar as unhas com uma faca afiada. Os reflexos das labaredas orlavam-lhe o rosto de tons quentes, laranjas e vermelhos. Os seus dedos de fogo pareciam querer alcançá-lo, em vão. Suor e calor agarravam-se ao ar, evolados em nuvens de fumo.

― Fizeste um bom trabalho, rapaz… A essência agradece.

O rapaz estudou-lhe o rosto. Não lhe agradava fazer o que o homem lhe mandava, em especial se isso significava trair Língua de Ferro. Ainda assim, nada devia a Merren “Anéis da Morte” Eduarda nem a Dagias Marovarola. Eram homens cruéis, todos eles. O próprio Língua de Ferro era um homem cruel, muito embora já lhe tivesse salvo a vida mais do que uma vez. Uma moeda de ouro surgiu como por magia na mão de Jupett Vance. Voltou-a para baixo e ficou colada na palma. Passado um pouco, caiu sem qualquer som na areia quente. Empecilho cobriu-a de imediato, olhando por cima dos ombros para perceber se alguns dos homens que andavam para cá e para lá o teriam testemunhado. Fechou a mão sem pontas de dedos na moeda, e sentiu o calor da areia e o frio do ouro. Guardou a moeda numa bolsa.

― Espero que o meu testemunho não prejudique Língua de Ferro.

Vance ampliou os lábios sem humor, com o olhar branco concentrado nas labaredas.

― Língua de Ferro não terá problemas, rapaz. Ele é um instrumento. Apenas e só um instrumento. Apenas aqueles que não pretendem servir a essência terão algo a temer.

― A essência. Tanto que fala na essência. Quem raios é ela?

― É tão difícil compreender a essência como é difícil cheirar a lua. É como compreender um trava-línguas enlouquecido. Um sussurro de gargantas mortas, aflitivo como um estertor de moribundo. Gostava de te dizer que ela tem cor, sexo ou cara. Não tem. Tem os seus toques de humor, uma construção mental, os seus laivos de violência e quando achas que a podes subestimar, que baixou as barreiras defensivas, habilitas-te a perder a cabeça – literalmente – enquanto dormes. Ela possui toda a magia de que podes imaginar, mas não penses que se trata de um feiticeiro com os seus grimórios e arsenal de magias. Ela controla o mundo e pode viciar-te em quebra-cabeças do mesmo modo que te pode viciar em drogas. Ela controla o curso do vento da mesma forma que controla seitas e políticos. Ela manobra as feitiçarias dos homens em seu proveito. Ah, e tem a sua própria justiça, mais efetiva que a dos homens, o seu mistério e a sua superstição. Podes procurá-la durante toda a vida e morrer sem a encontrar. Tentar conhecê-la é como tentar descobrir o assassino num romance policial, com a diferença de que podes chegar ao fim sem a ter descoberto. Destila preocupação como suor, mas se és tu o motivo, não preciso de dizer quem deve ficar preocupado.

Empecilho engoliu em seco e fez que sim com a cabeça.

Encontrou Allen ao cair da noite, já a maior parte dos homens tinham-se aglomerado em volta das fogueiras para a refeição noturna. Estava amarrado a uma grande cruz de madeira, uma trave maciça sobre um poste de quase quatro metros. Sem qualquer roupa, o homem que fora o rosto de Landon X tinha as mãos e os pés unidos à madeira por pregos, e chagas de sangue percorriam o seu próprio corpo. Um feixe de sangue já seco percorria-lhe o rosto, e tinha feridas a gangrenar. O sol diurno queimara-lhe a pele em muitas áreas. Pequenos penachos de fumo pareciam manar do seu corpo. Compadeceu-se dele.

― Allen.

O homem oscilava entre o delírio e a inconsciência, mas por um segundo pareceu mover a cabeça na sua direção, quando Empecilho caiu de joelhos aos pés da cruz.

― Allen, o que é que te fizeram?

Estavam longe dos pavilhões mais imponentes, numa espécie de descampado entre os maiores aglomerados do acampamento.

― Fizeram-lhe o que te farão a ti ou a mim, se representarmos uma pequena ameaça para os seus desígnios. ― A voz que ouviu, atrás de si, era-lhe familiar. ― Esta noite, Empecilho, quebrarei o cerco a Chrygia e serei recordado como um herói.

Empecilho voltou-se subitamente, ainda confuso. Cambaleou antes de se apoiar na areia e reerguer-se. Reconhecera-lhe primeiro a voz, depois o torso musculado e por fim o cabelo, apanhado num rabo-de-cavalo atrás da nuca. Fiapos de barba azul-turquesa derramavam-se-lhe do queixo vigoroso. Tinha os olhos vazios.

Era Língua de Ferro.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um

Estou no Wattpad #20

Estamos a entrar na reta final de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer. O nosso protagonista chegou aos Poços e encontrou as filhas de Lucilla presas nas cisternas. Mas um mal muito antigo revelou-se. Língua de Ferro foi finalmente reclamado pela essência, revelando-se preparado para um embate que poderá ser-lhe trágico. A chegada de Merren “Anéis da Morte” Eduarda fará pender os pratos da balança?

CAPÍTULO VINTE: APALASI

“Segurava Apalasi com todas as minhas forças. Via as linhas venosas a percorrer os meus braços como serpentes, terminando na base do pulso, numa lamela de rugas que mais pareciam cicatrizes. Apalasi. Significava Língua de Ferro no antigo idioma rezoli. Com o passar dos anos, outros significados foram-lhe atribuídos. Língua Morta de Reis, Martelo dos Deuses ou Mijo dos Deuses foram significados soprados por vozes leigas. Diziam que havia sido forjada a partir da urina congelada de um deus. Ainda me rio desses boatos. Sei o que ela é. Uma bela espada, forjada a partir de duas lâminas menores, dobrada cem vezes sobre si mesma, por um célebre ferreiro uraniano chamado Qizello. Oferecida ao meu pai antes de eu ter nascido. Lembrar-me das minhas raízes enrola-me os cordões intestinais num nó cego. O passado não era coisa que eu gostava de me recordar. Agora, não era mais necessário. Tudo o que fazia por norma tinha um propósito. Naquele dia, os meus propósitos estavam embotados. Rugi como um diabo e movi os braços da esquerda para a direita. O boi caiu ao meu golpe. O seu cheiro impregnou-se em mim com tanta potência, que não pensei em vomitar. Fi-lo, e caí sobre o cadáver do bovino. Antes, estava no que parecia uma fazenda. Depois, quando acordei, parecia estar num palheiro, ou num estábulo, não consegui decifrar. Cheirava a feno velho, mas não a cavalos. Era outra coisa. Animalesca. Cruel. Uma língua vermelha lambeu-me o rosto. Alguém me havia levado até ali, disso não restavam dúvidas. Quando ergui os olhos, percebi que a língua que me havia despertado pertencia a um diabo. Sim. Foi naquela manhã que conheci Hije.”

Os seus olhos brancos não estavam cegos. Conseguia ver na perfeição tudo à sua volta, como se o sol tivesse vencido a noite e irrompido por todos os poros daquela cisterna. Via tanto os detalhes interiores, como exteriores. Cada fragmento de pó a levitar no ar, cada pedaço de textura do ferro que forrava as cisternas. A água morta no seu interior. A sua cor. A sua temperatura. Fria.

― Val! És tu?

Foi com uma tristeza imensa que soube que o iria matar naquela noite. Um rival terrível que se transformara num amigo. O Fluído assim o exigia. Estava escrito nas estrelas. Língua de Ferro sabia daquilo e não conseguia lutar contra isso. Não conseguia e não queria. Era como se o tivesse aceite. Seria essa aceitação e compreensão aquilo que Vance sentia? Sou um instrumento, pensou Língua de Ferro, ao perceber que estava a ser utilizado por uma força maior. Viu Eduarda na perfeição quando ele chegou à plataforma onde o esperava. Vestido de gibão negro, com uma espada embainhada à cintura. Tinha aqueles olhos negros como a morte cheios de dúvida e temor. Partira com uma caravana de Ccantia, desejoso de recuperar as suas filhas. Língua de Ferro rumara até ali para fazer o mesmo. Agora sabia que não. Sabia que o seu propósito mudara, porque estava a ser coagido a isso. Vance Cego empurrara-o para ali porque sabia que ele iria impedir Eduarda de cumprir o seu propósito. Teria também Sander Camilli sido influenciado pela entidade que os coagia, a aprisionar ali as crianças?

Inicialmente, partira do princípio que Camilli colocara a vida das meninas em risco como uma rédea para os movimentos de Lucilla e Eduarda, tal como fizera com Allen para constranger Dzanela. Talvez fosse a mesma técnica. Talvez fosse um dois em um. Na verdade, isso pouco importava. Pegara em Apalasi antes que Eduarda o encontrasse com o olhar. Não era fácil detetar alguém naquela escuridão, mas Língua de Ferro não era tão pequeno que não se conseguisse ver.

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Soldado (pinterest)

― Valentina, graças aos deuses! Não pensei que cá chegasses primeiro. Não imaginas como fiquei aliviado quando vi Hije nas redondezas.

Graças aos deuses, pensou Língua de Ferro. Pertinente.

― As tuas filhas estão aqui ― disse sem humor. Viu os ombros de Eduarda crescerem e diminuírem de tensão e alívio. O seu coração pareceu esvaziar toda a pressão existente.

― Foste tu que provocaste toda aquela confusão lá em baixo? Bom trabalho, Val. Onde estão as minhas meninas? Precisamos libertá-las.

Eduarda virou-lhe costas à procura das filhas e Língua de Ferro fitou a menina possuída por um deus chamado Profundo. O pai precisaria de mais algum tempo até encontrá-la com o olhar. Quando a encontrou, ela tinha a cabeça caída para baixo e parecia debilitada.

― Pelos malditos infernos… Aquele cão. Ajuda-me a tirá-la dali, Valentina!

― Não vou fazer isso, Anéis da Morte ― disse, sem contemplações.

― O quê?!

Eduarda ampliou os olhos de terror. Mesmo com a aproximação, não conseguia ver que os olhos de Língua de Ferro estavam brancos. Ainda assim, o azedume na sua voz não o deixava enganar-se. Aquele homem não o iria ajudar.

― Aquelas crianças não são o que pensas, Eduarda ― disse com tato. ― Não são mais as tuas filhas.

O olhar de Eduarda aprofundou-se. Terríveis sulcos pareceram abrir-se-lhe à volta dos olhos. A sua mão deslizou imediatamente para a empunhadura da espada na anca esquerda.

― O que se passa, Val?! Estás feito com Camilli, é isso?! O que te ofereceu ele?! Eu ofereci-te o Império, o que pode ser mais valioso do que isso?

O que pode ser mais valioso do que isso?, perguntou Língua de Ferro a si próprio.

― Nasci no seio de uma família nómada. Um dia, atacamos uma caravana imperial para a roubar, porque o meu pai fizera alguns trabalhos para o Império, como batedor e, por isso, conhecia as estradas que percorriam. Nesses tempos, foi-lhe entregue Apalasi. Foi-lhe entregue ou roubou-a, nunca quis saber. Nunca tínhamos sido tão pouco subtis, mas a necessidade obrigou-nos a isso. Passamos por períodos difíceis, nos desertos; a fome é uma coisa tramada. Matamo-los a todos. Eu tinha dez anos quando a minha mãe tentou matar-me, para comer a minha carne. O pai tentou impedi-la, e ao fazê-lo, morreu com um punhal na curva do pescoço. Aproveitei a distração para a matar. Eu tinha duas opções: apertar uma faixa de couro que tinha à mão sobre a sua garganta não seria exequível. Não tinha força de braços para a asfixiar antes que ela ganhasse controlo sobre a situação. Rastejei até Apalasi e tentei fugir da minha mãe. Esperei que ela me alcançasse, voraz e cheia de pragas nos lábios, para a fazer tropeçar. Caiu sobre mim e morreu varada na espada. Foi a primeira vez que matei. Ainda hoje tenho pesadelos com a baba dela, a gotejar sangue sobre a minha testa, os lábios a tremelicar e a sussurrar que eu era o reles de um bastardo. Sobrevivi sozinho, por uns bons tempos, depois disso. Enfim, como vês, nem eu nem a minha espada temos grande paciência para dramas familiares. E o Império? Não preciso de ti para o subjugar. Conquista os Poços; Conquista o Império, nunca ouviste o chavão?

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O Poço da Ascensão: Mistborn (Jon Foster)

Eduarda ainda estava em choque quando disse:

― A tua mãe tinha razão.

― Ah, sim?

― Sim, não passas do reles de um bastardo!

Nesse momento, a cabeça da rapariga na cisterna ergueu-se com um sorriso. Abriu a boca, e de entre os seus lábios jorraram fumos negros como piche. Línguas fumarentas percorreram o poço na direção dos dois, e quando os alcançaram pareciam tentáculos de uma massa viscosa e irreal. Os braços de terror abriram-se como uma teia de aranha em direção às costas de Eduarda, que se sentiu impelido para a frente, mas quando parecia cair foi suspenso por aquela mesma massa fétida. Eduarda fechou os olhos e soltou um grito, as suas mãos abriram-se sem força e sentiu a massa a subir-lhe a coluna vertebral até à nuca, e da nuca ao topo da cabeça, até lhe chegar à testa. Língua de Ferro fitou aquilo com surpresa. O que se assemelhava a uma mão negra passeava-se na testa de Merren Eduarda, até que encontrou os seus orifícios oculares e toda a massa negra se aspirou pelos seus olhos.

A cabeça da menina voltou a cair, aparentemente sem vida, e os olhos de Anéis da Morte abriram-se, negros como a massa que o envolvera. Os dedos da mão direita de Eduarda fletiram-se, e fecharam-se de imediato no punho da sua arma. Língua de Ferro soube, naquele momento, que não seria a luta entre Língua de Ferro e Anéis da Morte. Seria a luta entre a essência e os deuses mortos. Uma ironia.

Nunca esperou que Eduarda fosse tão rápido a desembainhar a espada. Defendeu-se do seu ataque com um movimento fluído e elegante. Aço cruzou-se com aço e o som não foi agradável. Merren “Anéis da Morte” sorria. Mas o sorriso não era seu. Era o sorriso de Profundo. Um deus morto. A voz terrível que saiu dos seus lábios refutou-o.

― Sou Profundo, sou Antigo, sou Bravo, sou Negro, sou Anátema, sou Luz, sou Benesse e sou Punho. Os oito deuses num só. Habitamos em duas crianças até à tua chegada. Agora, estamos unos num corpo preparado para nós. Um corpo ligado por sangue às duas hospedeiras. Um corpo preparado para te derrotar.

Tenta, pensou Língua de Ferro.

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Mage: The Ascension (Mark Jackson)

Sentia uma loucura genuína dentro de si. Uma vontade de matar que não lhe era estranha. Um contentamento sádico. Indignava-o que isso não o surpreendesse. Às vezes, não se conhecia a si mesmo, e não era o controlo da essência que o deixava nesse estado. Perguntou-se qual a última vez em que refletira sobre a sua conduta. No dia em que matara a mãe? No dia em que os deuses morreram? Quando o mundo se virou do avesso ou da última vez que viu o seu reflexo no fundo de uma garrafa? A aguardente sempre lhe propiciara grandes momentos de circunspeção. Sentiu o peso à espada e a fome de sangue alastrou-se dentro de si. Iria matar um homem bom, sabia-o, mas isso nunca fora impeditivo para fazer o que era certo. O mundo tinha daquelas coisas. Prosas de bardo chamar-lhe-iam injustiça. Vance chamá-lo-ia Fluído. Língua de Ferro limitava-se a fazê-lo. Cortaria peça a peça, se fosse necessário. Inflingir-lhe-ia a dor de dentes quebrados, de dedos torcidos, o vazio de membros lacerados, o horror de um esfolamento, caso o obrigasse a isso. Sangrá-lo-ia por um bem maior. Mas a tortura não derrubaria aquele mal milenar que o corroía por dentro. A morte talvez. O homem bom era só uma casca. Língua de Ferro sabia que ele não se importaria, uma vez que aquilo que estava em causa era soberano. A sobrevivência. Um império. Não. O Império.

O movimento seguinte pertenceu-lhe. Foi por puro instinto que Língua de Ferro se moveu para evitar que um golpe lhe lacerasse o ombro. Seguiram-se uma série de movimentos de ataque e defesa. Língua de Ferro investia com mais voracidade, mas a sua sequência de ataques era assertivamente defendida pela lâmina de Eduarda. Língua de Ferro sorriu um sorriso lupino ao vê-lo recuar para a cisterna e percebeu que não se cansava. Os seus movimentos pareciam mais líquidos e fluidos e o corpo não se ressentia. Parou quando a lâmina encontrou a cisterna e Anéis da Morte rodou sobre si mesmo para lhe acotovelar o peito.

O golpe foi mais forte do que podia prever e fê-lo voar para trás. Língua de Ferro sentiu as omoplatas a chocarem contra o solo e ergueu-se num salto. As têmporas latejaram-lhe. Sentiu dor. Aquilo não era suposto ser assim. Recordou-se que não estava a lutar com Merren “Anéis da Morte” Eduarda, mas com oito deuses. Naquele momento, uma terrível certeza inundou-o. Língua de Ferro iria vingar a sua derrota no galeão. Gostaria de pensar que seria isso a impeli-lo, e não a vontade da essência em derrotar os deuses, mas não mentiu a si mesmo. De nada lhe valia.

Ergueu Apalasi à frente do rosto e viu o seu próprio reflexo. Os contornos pareciam mais definidos. O olhar, branco como marfim. Rugas terríveis ornavam-lhe os lábios, desenhando um sorriso cínico. Quando ergueu o olhar da lâmina, já uma tempestade avançava na sua direção. Eduarda parecia voar, da forma como os seus pés se moviam em corrida sobre a plataforma metálica. Língua de Ferro gargarejou. A espada de Eduarda colidiu com a sua uma vez, duas, três, quatro vezes. Agora era Eduarda quem investia com mais fulgor, empurrando-o para trás. Língua de Ferro não se incomodava com isso.

Aquilo iria cansá-lo, esperava ele.

Faúlhas foram geradas da colisão metálica entre as duas armas, e Eduarda parecia mais alto do que ele, mas era porque lutava em bicos dos pés, e isso parecia surtir efeito. Língua de Ferro era obrigado a recuar na passadeira entre as cisternas, defendendo com fluidez os golpes do inimigo. Irritou-se quando um golpe passou a um milímetro da sua testa, mas aproveitou a oportunidade para golpear de cabeça o peito de Anéis da Morte. O inimigo recuou um passo. Esse recuo durou apenas um segundo. Voltou a investir e as espadas cruzaram-se novamente. Chocaram duramente quatro vezes, com uma força terrível a coagi-las. Aquelas eram espadas lendárias, mas foram feitas por homens e para homens. Dificilmente sobreviveriam incólumes a uma luta entre deuses.

Mas eu não sou um deus, disse Língua de Ferro a si mesmo, e um laivo de humanidade assomou por um momento à frente dos seus olhos. Isso enfraqueceu-o. Um golpe de Eduarda passou-lhe próximo do pescoço, mas na aproximação algo o reteve. Uma barreira invisível, fraca mas forte o suficiente para o barrar, ergueu-se à volta de Língua de Ferro. Este sorriu. Finalmente, aquilo que eu mais esperava.

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Inquisidor de Aço Mistborn (Emanuele Desiati)

Uma barreira como a que defendia Vance tão inexoravelmente pareceu fluir como um halo do corpo de Língua de Ferro. Isso fez Eduarda soltar um rugido.

― Julgas estar a combater Anéis da Morte, Leidviges Valentina? Esse teu condutor não te preveniu para as forças com que irias lidar?! Esses teus truques não são para os paladinos da nossa igualha.

Língua de Ferro sorriu e recuou dois passos largos. Anéis da Morte investiu para si, e era isso o que ele esperava. O seu último passo foi um decalque na plataforma metálica, que a fez estremecer em toda a sua complexidade.

― Jupett Vance matou-os. Os truques dele também não eram para os paladinos da vossa igualha?

Uma nova pisadela de Língua de Ferro fez a plataforma vacilar com maior violência, e dois dos nove cabos que a sustentavam quebraram-se. Os cabos estavam velhos e ferrugentos, por isso não seria difícil fazer aquilo cair, mas não era propriamente fazê-los cair a ideia de Língua de Ferro. Recuou mais um passo.

― O que trovões estás tu a fazer? ― gemeu Anéis da Morte numa dúzia de vozes.

Sem sobreaviso, Língua de Ferro saltou para um cabo e agarrou-o com a mão esquerda, enquanto a direita segurava Apalasi. Cortou o cabo com facilidade e a ponte metálica sacudiu-se, pendendo assimetricamente para o lado esquerdo. Anéis da Morte deslizou para a esquerda, segurando-se ao corrimão metálico para se apoiar. Língua de Ferro sabia que nada de mal lhes aconteceria se quebrasse a plataforma e caíssem nos destroços, lá em baixo. Não era isso em que pensava. A sua ideia era desconcentrar o inimigo. Conseguiu-o. Apoiando-se precariamente no corrimão metálico, Língua de Ferro deu um duplo mortal no ar que se dirigiu a Anéis da Morte, aterrando a três passos de distância. Foi quase com surpresa que o inimigo reparou na sua aproximação e defendeu-se, erguendo a espada à frente dos olhos. Apalasi moveu-se da direita para a esquerda. Um movimento contínuo de parada e resposta seguiu-se, aparentemente casual, mas Anéis da Morte precisava de maior precaução, para não cair. Estava claramente em posição desfavorável, com Língua de Ferro a atacá-lo de cima para baixo.

Foram trinta e sete ataques consecutivos. Língua de Ferro parecia esfomeado por sangue, sem sinais de cansaço ou de quebra. Rodava Apalasi nas suas mãos, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda. Um outro cabo rebentou-se, desgastado pelo tempo e pela força que a quebra dos restantes o obrigava a exercer. A plataforma quase girou por si só. Anéis da Morte desequilibrou-se por um momento e quando se segurou ao corrimão, Língua de Ferro não perdoou a oportunidade que esperava e fez Apalasi romper-lhe o ventre. A espada varou-o e isso não bastou para o atacante. Enquanto o negro dos olhos desaparecia e uma centena de guinchos guturais manavam da sua boca, Eduarda mantinha o corpo em pé, sustido pela pesada espada que lhe saía pelas costelas como um acrescento anatómico. Língua de Ferro puxou a espada para cima com um grito, e ela cortou-lhe o âmago até abaixo do peito. Uma quantidade estarrecedora de entranhas vomitou do seu corpo, e Língua de Ferro removeu Apalasi do cadáver.

Os deuses não morreriam se tudo aquilo caísse lá em baixo, mas não precisamos saber que sobrevivemos para querer evitar certos embates. Até mesmo os deuses têm vertigens, ainda para mais se estiverem presos no corpo de um homem. Até mesmo os deuses temem viver sem um braço ou com o maxilar quebrado. É a humanidade dos deuses a sua maior fraqueza.

Língua de Ferro não sabia como Vance os teria vencido numa época em que apenas estavam presos à natureza, mas não devia ter sido bonito. Nem mesmo tinha a certeza de querer saber. Era problema para depois.

Encontrou Tayscar e Seji aos portões do complexo quando saiu dos Poços, com Apalasi presa às costas e o cadáver de Merren “Anéis da Morte” Eduarda sobre os braços. Tinha o tronco nu violentamente aberto entre o peito e o ventre. O cabelo comprido caía para trás, quase a rasar o solo. Não se viam patrulheiros. Língua de Ferro voltou o olhar para as cisternas e sorriu. Havia muito a explicar, mas não tinha disposição para isso. Tayscar caiu de joelhos ao colocar as mãos no rosto frio de Eduarda. Seji soltou um rosnido ao reparar nos olhos sem íris de Língua de Ferro. Depois desembainhou uma adaga longa e pontiaguda.

― O sacana cego fez-lhe alguma coisa ― rugiu. ― E você matou o nosso senhor.

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Vasher de Warbreaker (Castaguer93 em deviantart)

Língua de Ferro sabia que o criado se condenaria à morte se não visse as duas meninas logo depois. As duas crianças saíram do complexo a correr na sua direção e ladearam Língua de Ferro com ar aflitivo. Tinham ares pueris e estavam quase nuas. Cobriam-se mal com pedaços do gibão que o pai envergava. Alguns pedaços ainda estavam sujos de sangue negro. Parecia goma.

― Não, por favor! Não faça isso ― pediu uma menina, afogueada.

― Um monstro apoderou-se do papá e este homem salvou-nos ― disse a outra.

Não havia mentira naquilo. Ainda assim, Língua de Ferro não se sentia melhor. Elas não estavam conscientes quando aconteceu. Obrigara as meninas a proferir aquelas palavras, ameaçando a vida da mãe dela, se não o fizessem. Pobrezinhas, pensou. Também a mãe delas estava morta, mas elas não o sabiam e estavam demasiado assustadas para o enfrentar. Língua de Ferro lançou um olhar embaraçado a Seji. Um olhar branco. Ninguém veria o seu embaraço. Mas ele via. Como viu a gota de suor que desceu pela testa do criado. Registou a sua apreensão.

― Vou levar o corpo de Eduarda para Chrygia ― disse. ― E as meninas também. Sindi e Tenna, não é como se chamam? Temos uma longa viagem à nossa espera. Seji, prepara-nos dois camelos e instalações cómodas para as meninas. Depois, quero que rumes a Ccantia e contes o ocorrido a Marovarola. Os Poços são meus. Não peço que compreendam: os deuses manifestaram-se. Estavam aqui, os deuses mortos. Tive de o matar, mas não foi uma escolha fácil. Só peço que não me criem mais inimigos. Como conquistei estes Poços, posso voltar aqui e conquistá-los com maior facilidade. Nenhum de vós é tão terrível como um deus. Raios, nem eu sei como o fiz. ― Mentiras. Mentiras piedosas. ― Quero que Marovarola envie para aqui uma patrulha. Digamos que, um pagamento, por eu lhe ter salvo a vida, se assim preferirem. Tayscar?

O rapaz permanecia de joelhos, com os punhos fechados, cabisbaixo. Ergueu a cabeça e os seus olhos estavam cheios de ódio.

― Matei o teu pai e salvaste-me a vida. Agora matei o homem a quem juraste vassalagem. Não te peço amizade. Se pudesses, matar-me-ias. Eu sei disso. Ambos sabemos disso. Não obstante, és sangue de Cacetel e mostraste ser mais homem que o teu pai. Mostraste valor. O teu avô foi imperador. Tenho planos para ti, e o primeiro deles é fazer de ti chefe desta patrulha. Fica aqui enquanto Seji for buscar os homens. Depois, podes regressar a Ccantia para te acostumares à ideia e arranjares as tuas coisas. Os Poços serão o teu novo lar. Defende-os para mim, e dar-te-ei justiça pelas tuas perdas.

O rapaz ergueu-se, e naquele momento Língua de Ferro sentiu-lhe o ímpeto. Em silêncio, dizia-lhe que nenhuma justiça lhe traria os homens que amara. Depois, soube que seria irrelevante verbalizá-lo. Alguma cobardia ainda media os seus passos. Língua de Ferro iria, a seu tempo, removê-la. Viu-o passar por si em passos largos, com os longos cabelos louros a bailarem nas suas costas. Tayscar Domasi não virou costas aos Poços. Iria aceder ao seu pedido. Talvez por medo. Talvez por honra. Talvez por esperança. Esperança de que as suas palavras fossem verdadeiras. Talvez fossem.

Língua de Ferro atravessou o deserto montado em Hije, numa travessia calma e serena. Atrás de si, dois camelos de pele estalada avançavam lentamente. Uma padiola com dossel de seda sustinha-se entre eles, onde as duas meninas semi-nuas se abraçavam, com o terror a aplacar-se lentamente no seu interior. As filhas de Lucilla. Sangue do sangue da mulher que eu mais amei na vida. Para onde as conduzo eu?

Chrygia, disse uma voz dentro de si. Língua de Ferro teve medo dessa voz. Desembainhou Apalasi das costas e olhou para a sua lâmina. O sol beijava-lhe o aço num reflexo brilhante. A visão apurada de Língua de Ferro viu no seu interior uma vontade de sangue. A sede do aço. Mais rapidamente do que desembainhou a arma, voltou a embainhá-la, e olhou para o horizonte luminoso. Uma explosão de luz solar engoliu-os a todos. Chrygia. Chrygia.

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Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte

Estou no Wattpad #19

Chegámos à Páscoa e um novo capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer chegou com ela. Depois de enfrentar Jupett Vance num comboio a vapor e perceber que tinha sido vítima de uma armadilha, Língua de Ferro avançou para os Poços do Império com a sede de sangue e vingança a corroer-lhe as entranhas. O que o espera neste novo capítulo? Vejamos.

CAPÍTULO DEZANOVE: OS POÇOS DO IMPÉRIO

“Os ventos enleavam-me o cabelo quando percebi que os rumores eram verdadeiros. Tornei-me líder do remanescente da caravana de Xispas e tentei levá-los até Rhove, mas quando cheguei à vila mercantil de Dravos e quis trocar carne de sebalo em salmoura por uma viagem de barco, o velho alferes que encontrei nas profundezas de uma taberna soltou uma gargalhada que pôs em evidência os seus dentes negros como a noite. A maior parte dos fregueses do estabelecimento, alguns dos quais me haviam indicado o sujeito, explodiram em gargarejos jocosos, mas eu vi nos seus olhares que a inaudita diversão que criavam estava coberta por um terror inquietante. Os mares secaram. O caminho até Rhove revelou-se um gólgota de horrores e provações. Vi homens morrer à sede e à fome, vi peixes mortos nas areias do deserto, vi um céu dourado a zombar da minha arrogância. Cheguei a Rhove numa noite sem estrelas, quando todos os meus homens tinham morrido e eu parecia um pedinte. Caí de joelhos na primeira estalagem e ofereci a minha espada a troco de água. Ofereceram-me vinho, e eu não o reneguei. Dormi por dois dias, e depois disso corri atrás dos meus salvadores. Arranquei-lhes o escalpe para recuperar Apalasi. Naqueles dias terríveis, não tinha a pretensão de me tornar um homem melhor.”

Às cinquenta da tarde, Língua de Ferro olhou para o céu crepuscular e viu uma nuvem de mosquitos a digladiar-se num idioma burlesco. Sabia que ia morrer e isso dava-lhe vontade de rir. Era muito comum que as expectativas o defraudassem.

Os Poços do Império não eram as torres esguias e assustadoras que os brasões imperiais sugeriam. Eram duas cisternas imensas, de um branco amarelecido pelo tempo e pela ferrugem, rodeadas por uma pequena muralha de quinze metros com um portão de sete. Claro está, o deserto servia de tapete àquele castelo sem glória. Língua de Ferro estava satisfeito com o cenário amador que vislumbrava. Os portões estavam abertos para baixo, servindo como ponte levadiça sobre um fosso profundo.

Os guardas imperiais corriam para fora do complexo, assustados com a explosão que ocorrera junto a uma comporta. Língua de Ferro nunca sequer presumira que uma só bombinha artesanal, feita com papel de aço, um ovo e um funil, fosse o suficiente para provocar tanto alarido junto de uma patrulha. Aquela era, porém, uma patrulha velha e passiva, sem qualquer sobreaviso de que pudessem ser alvos de um ataque. Ou talvez fosse estar à espera de um ataque o que os levou ao pânico.

Língua de Ferro escondia-se atrás de uma duna de areia quando soube que era tempo de fazer a sua apresentação. Não seria dramática, pelo menos para si. Montou Hije e cavalgou na direção do portão, com Apalasi erguida na mão direita. Dizia a si mesmo que aquele cheiro dos desertos era só areia. Mas o odor a morte era inolvidável. Ele sabia do que se tratava. Privara com ele como um amigo íntimo, em mais ocasiões do que um homem normal devia ser capaz de suportar. A aproximação não teria direito a ganchos de abordagem ou a falinhas mansas. Iria aproveitar a distração para fazer o que lhe competia.

A noite caiu sobre os Poços e foi a coberto dela que Língua de Ferro se fez entrar no complexo. Archotes foram acesos e flechas voaram na sua direção. A primeira caiu a três metros da sua ilharga. A segunda ainda mais longe, a sete. A terceira, porém, rasou-lhe junto à orelha esquerda. Só a sétima flecha se dirigiu à sua fronte, mas os reflexos foram rápidos e o zumbido alertou-lhe o subconsciente. Respondendo aos seus impulsos, o braço que usava Apalasi como extensão rodou na direção da flecha e intercetou-a. Mero acaso. O que os homens chamam de sorte. Um segundo a mais ou a menos, e estaria morto. Nenhuma outra flecha caiu na sua direção.

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Diablo’s Horned Tower (Marc Simonetti)

Os homens que fugiam dos Poços pela ponte levadiça evitaram a investida ferina de Hije, correndo ou cavalgando para o sentido oposto, e Língua de Ferro não se sentiu propenso a segui-los. O seu objetivo não passava por trazer infortúnio àqueles que o evitavam. Apenas àqueles que se colocavam no seu caminho. E foi isso que aconteceu quando dois guardas o enfrentaram de espadas em punho. Pareciam jovens e imberbes, com mãos crestadas pelo fogo e pernas bambas como canas.

Língua de Ferro viu nos seus olhares, sob os elmos imperiais, um terror profundo. Mas não se compadeceu deles nem questionou a sua origem. Limitou-se a desarmar o primeiro com um golpe, e depois de soltar um rugido, decapitou-o sem clemência. O segundo patrulheiro recuou na ponte levadiça, cheio de assombro. Caiu de borco, recuando de gatas para evitar o sorriso mordaz cheio de dentes que Hije exibia. As chamas dos archotes refulgiam terrivelmente no pelo vermelho do diabo. Língua de Ferro sabia bem que aquele focinho tinha uma certa expressão de dragão. Não se compadeceu dos adversários, por mais inóquos que parecessem. Os seus cabelos turquesa voavam à volta de uma expressão inabalável. Língua de Ferro era um salteador sem quartel.

Não precisou sujar Apalasi de sangue. Hije abocanhou o rapaz por uma perna, ergueu-o de cabeça para baixo, fê-lo rodopiar, aos gritos, e mastigou-o até à anca, quando o engoliu. Língua de Ferro acariciou-lhe a garupa com um sorriso nos lábios e entrou no complexo. Ninguém lhe fez oposição.

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Cavaleiro e uma cidade (Marc Simonetti)

Inocência era um defeito que Língua de Ferro julgava não possuir. Mas enganou-se. A sua bomba artesanal fora apenas o despertar de um temor que os patrulheiros ali destacados sentiam há muito. O explodir de um medo latente. Percebeu-o quando os homens que defendiam a zona inferior do complexo se limitaram a fugir dele. Se eles se unissem e o enfrentassem, seria difícil que Língua de Ferro lhes fizesse mossa. Mas aqueles homens pareciam terrificados, e pela forma como o ignoravam, pareceu-lhe que não era consigo. A explosão que ele provocara vinha oferecer contornos de realidade aos temores que haviam semeado em si mesmos.

Encontrou um sujeito de vestes esfarrapadas a mancar com uma perna ensanguentada. Tinha um queijo debaixo de um braço e um colar cheio de contas de madeira a baloiçar-lhe ao pescoço. O que faz aqui um sacerdote? Orientou Hije na sua direção. O homem, porém, ouviu o relinchar do diabo e virou-se para si com olhos muito abertos. Tinha as sobrancelhas unidas, e cabelos longos e brancos a emoldurar uma pele morena de traços angulares.

O sacerdote fez cair o queixo com ar assombrado. Depois deixou cair o queijo, que rolou no solo até parar. Uma bolsa também caiu. Do seu interior jorraram contas de azeviche, cristais e moedas de ouro. Língua de Ferro acalmou o diabo e preparou-se para descer e interrogar o homem, mas antes que o pudesse fazer, o sacerdote removeu uma faca com gume de sílex e enterrou-a no próprio peito.

― Espere! O que você está a fazer?

O homem caiu de joelhos e gaguejou antes de morrer:

― Eles prometeram que voltavam… Eles prometeram… Irão vingar-se de todos nós. Irão vingar-se…

Sangue jorrou aos borbotões do seu peito quando Língua de Ferro se acocorou ao lado do corpo. Os olhos do homem estavam muito abertos quando a sua mão se fechou no antebraço do salteador e estremeceu num estertor final. A mão perdeu a vida, assim como o remanescente do seu corpo. Quando deixou o cadáver do sacerdote cair para o lado, viu que o sujeito lhe deixara uma moeda de ouro sobre o braço. Língua de Ferro fechou a mão na moeda e lançou o olhar à sua volta. Olhou para o edifício a oeste, junto à muralha, de onde o sacerdote teria vindo. Parecia-se muito pouco com um templo, talvez mais com uma caixa-forte. Um cofre em forma de edifício.

Uma espécie de átrio separava o quartel que servia de sede à patrulha e a muralha; o terminal ferroviário ficava para leste. No adarve, homens lançavam-se sobre os merlões, em arremessos suicidas. Alguns lutavam por saltar. Outros estocavam espadas embotadas uns contra os outros. Aquela gente parecia louca. Língua de Ferro não sabia porquê, mas um arrepio sombrio na coluna segredou-lhe que aquilo não tinha origens mundanas. Hije começou a uivar, de uma forma aflitiva na noite escura. Terrivelmente aflitiva. Fogos deflagravam aqui e ali, provocados por archotes caídos. O estampido dos fogos incomodavam-no, tanto ou mais que à sua montada. Vermelhos e laranjas estremeciam por todo o lado numa luta acirrada contra o escuro noturno.

Língua de Ferro ergueu o olhar para uma das cisternas, para o seu contorno cilíndrico e desbotado, aberto aqui e ali por pústulas de ferrugem. A porta estava escancarada. Acariciou o focinho de Hije e este acalmou-se. Depois, assobiou e esticou o braço para fora do complexo, dando-lhe a entender que podia esperar por ele no exterior. O animal resfolegou, aparentemente contrafeito, mas a forma decidida e veloz com que acatou o sinal revelava a premência da sua própria necessidade em sair dali. Língua de Ferro caminhou a passos largos para o acesso aberto. Luce tinha duas filhas ali dentro. Essa ideia sobrepunha-se às restantes.

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Crónicas do Gelo e Fogo (Marc Simonetti)

O interior da cisterna revelava uma outra, mais pequena, envolvida por uma escada em espiral acompanhada por um corrimão de ferro. Um gorgolejar contínuo e um tamborilar ritmado de gotas de água fizeram-lhe notar que acabara de entrar no tesouro do Império. A maior riqueza de Semboula. O lugar estava tremendamente escuro. Lentamente, subiu degrau a degrau, cada passo acompanhado pelas gotas que caíam algures. Tic, tic, tic. Estranhamente, Língua de Ferro não sentiu medo ou coragem. Não se sentiu temeroso. Não viu desafio naquela subida. Pareceu-lhe algo trivial, resultado lógico da sua demanda. Casual. Percorreu todos aqueles degraus com a grande calma do mundo, embora não voltasse a embainhar Apalasi por um momento. A mão esquerda permanecia fechada sobre a moeda de ouro. Parecia-lhe mais pesada que a espada. Um cheiro a ar prensado e a ferrugem obscureceu-lhe a mente. Os pulmões pareciam comprimir-se. Pé ante pé, sentia o seu interior a debater-se num dilema. Pé ante pé. A moeda e a espada. A ganância e a honra.

Chegou ao topo da cisterna quando vislumbrou uma plataforma que, aparentemente, dava acesso ao outro poço, por uma incrivelmente larga ligação metálica. Era ali que, de uma roda em ferro que servia de tampão lateral para a cisterna interior, gotejavam pingos para a estrada metálica que dava início ao vínculo com o edifício a leste.

Ergueu a cabeça para vislumbrar o topo da cisterna interior. Dali conseguia ouvir o gorgolejar da água no seu âmago. Mas ouvia mais. Uma espécie de gemido, que lhe passara alheio até ali. Viu uma qualquer espécie de engrenagem. Um sistema prolixo em roldanas e fios. Estavam ligados a um aparelho horizontal, em cabo metálico, com um eixo central de madeira, circular, que fazia lembrar uma roda de tortura. No centro da roda estava uma menina. Teria cerca de quatro anos e estava nua. De um lado e do outro da cisterna, baldes de água para recolha. O nível da água ficava uns trinta metros abaixo. Língua de Ferro abriu a boca de surpresa, muito embora fosse um cenário assim o que esperava. Suspeitou que outra menina estivesse na outra cisterna, mas não conseguia perceber quem as colocara ali, ou há quanto tempo. Ela estava viva. Língua de Ferro sentiu as lágrimas a queimarem-lhe o rosto.

Um homem sem deus também chora, disseram-lhe um dia. Não gostou do que ouviu. Agora, sentia aquela moeda na mão calejada com a mesma sensação de desconforto. Ele sabia que o caminho que escolhera não tinha retorno. Havia conhecido o suficiente da vida nas reparações de paredes quebradas, nas vísceras de homens terríveis e entre as coxas de mulheres de bem. Homens bons e mulheres traiçoeiras também lhe tinham ensinado coisas. Mentia a si mesmo. Queria crer que não havia livre-arbítrio naquilo. Havia um gosto salgado naquela escolha. Nenhum homem tem um queijo grande, redondo e curado à mesa se viver de enxada na mão. Mas não era uma enxada o que segurava. Era uma espada lendária. Uma lenda que ele próprio forjara, com a sua truculência de décadas.

Sentia-se dividido. Por um lado, a presença de um sacerdote nos Poços e o medo latente nos patrulheiros. Por outro, uma caixa-forte e moedas de ouro. Metade de si gritava-lhe para saquear os Poços com o suficiente para viver uma vida tranquila longe de Vance, Eduarda e tudo aquilo que o dito Fluído parecia reclamar para si. Frustrar os bonecreiros da sua existência. Rir-se de todos eles. A outra metade dizia-lhe que enfraquecera com a idade, que estava atado de pés e mãos à sua fraqueza. À humanidade instilada pela perda de amigos e amantes. E era essa metade que media o peso à espada. Era essa metade que definhava, segundo após segundo, com a certeza que não viveria com um sorriso no rosto enquanto não vingasse a morte deles. Dzanela. Dooda. Lucilla. Era com as memórias deles que lutava. Eram os espíritos deles que ouvia sussurrar, quando os pingos tamborilavam no corrimão metálico.

― O que é que está aqui a fazer? ― perguntou alguém, do acesso metálico entre os Poços.

Língua de Ferro virou-se para encontrar um homem fardado com o paramento imperial, uma camisa com o brasão do Império sobre uma cota de malha flexível. Quando o sujeito se aproximou, erguendo uma tocha à frente dos olhos, viu que uma coifa em malha de aço envolvia-lhe a cabeça, onde se destacava um par de olhos muito juntos e um nariz empinado. O sujeito levou a mão livre à bainha da espada, mas mesmo naquele cenário sombrio, Língua de Ferro sentiu desgosto pelo patrulheiro. Se o enfrentasse, morreria nesse momento. Era dois palmos mais baixo que ele, e parecia revelar metade da massa corporal, ainda que se mostrasse bem estofado.

― Mantêm duas crianças em condições terríveis, patrulheiro. Vim fazer justiça, em linguagem que homens como você possa entender.

Língua de Ferro parecia calmo e até nostálgico, mas o seu interlocutor não estava surpreendido.

― Estas crianças estão amaldiçoadas, senhor…

― Talvez tenha sido isso que vos foi incutido, pois não duvido da ardileza de homens como Sander Camilli nas suas jogadas traiçoeiras pelo poder. Mas estas crianças não estão amaldiçoadas porra nenhuma.

O homem à sua frente estremeceu. Sentiu-se tentado a desembainhar a espada, mas não o fez, talvez porque já prevesse que tal embate não lhe seria justo. Pigarreou e deu um passo em frente.

― Não sei quem é, senhor, mas não deve saber do que fala… Se uma criança caísse no Poço, afogar-se-ia. E a água, de onde é removida a subsistência dos povos, contaminada por um cadáver. Que espécie de governante seria louco para colocar isso em causa?

Língua de Ferro registou a verdade daquilo. Ergueu uma sobrancelha.

― Se assim é, por que colocaram aqui as crianças?

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Guerreiro fantástico (Fierce em pinterest)

O patrulheiro ia para lhe responder, mas sentiu-se subitamente paralisado. Língua de Ferro viu o terror no seu olhar quando o sujeito passou por si a correr. Antes de desaparecer, lançou um olhar para lá do seu ombro. Língua de Ferro deixou-o ir, virou-se e fitou a menina aprisionada sobre a cisterna. A rapariga tinha os olhos abertos e avaliava-o docemente, com uma expressão humilde. A voz que jorrou dos seus lábios revelou-se igualmente suave, mas perceptível.

― Também te ofereceram um Império? ― perguntou, de uma forma tão serena e tocante que perfumava a clemência. ― Fui em tempos chamado de Profundo e morri. Morri neste lugar terrível, que se tornou profético. O assassino assinalou este lugar aos seus seguidores, para que aqui fundassem os seus Poços. Mas a entidade que o enviou contra nós sabia que nós regressaríamos através de hospedeiros, sem uma força motriz ou grande poder de facto, mas com a sempre temível capacidade de influenciar. E assim muniu-se de estratagemas para nos blindar.

Língua de Ferro engoliu em seco. Estava a falar com um deus morto.

― Vim a pedido de um pai. Libertar as suas filhas ― disse sem rodeios.

― Um pai inócuo para o que o rodeia. Manietado por forças que lhe são desconhecidas.

― Por vós, suponho… ― adiantou, com um pouco de arrogância.

― Também ― respondeu a criança com um sorriso. ― Mas não só. Os homens são cegos para aquilo que verdadeiramente os rodeia. Até quando julgas que estes Poços chegarão para adiar o fim da Humanidade? O que irá acontecer quando toda esta água desaparecer? Para onde julgas tu que ela foi? Julgas que morreu connosco, ou que desapareceu por nosso desígnio? Uma guerra de homens está a ser travada, mas paralelamente a isso, outras forças – maiores – lutam com aquilo que têm. A entidade que te enviou até aqui sabe o que virias encontrar. Usou-se de um pregão tosco para nos silenciar de vez.

Língua de Ferro pensou um segundo. Conquista os Poços; Conquista o Império.

― Como disse, vim aqui para salvar duas garotas.

― Estes homens julgaram-nos amaldiçoadas, e tiveram a certeza disso depois de os tentarmos demover a libertar-nos. Parece-me demasiado generoso que um marionetista tão sábio como o nosso assassino tenha avalizado tal demanda.

Aquilo não fazia sentido, de facto.

― Jupett Vance colocou-me aqui para conquistar o Império. Não falou em pormenores.

Nesse preciso momento de dúvida, Língua de Ferro ouviu uma voz algo distante, abaixo dos seus pés. Alguém que estava a subir a escadaria em espiral, naquele mesmo instante.

― Val, és tu? ― A voz de Merren “Anéis da Morte” Eduarda.

Ao ouvi-la, Língua de Ferro estremeceu. Doeram-lhe todos os seus ossos. Deixou cair a moeda de ouro no solo e ela ficou a rodopiar, a rodopiar, a rodopiar, como um peão. Depois deixou cair a espada, e a moeda tombou com a coroa para cima. Levou ambas as mãos à cabeça, com as pontas dos dedos nas têmporas, viu tudo branco à sua volta e gritou. Gritou com tanta força, que a sua garganta pareceu-lhe padecer de uma ferida em sangue.

Língua de Ferro não caminhou para uma armadilha, percebeu depois. Eu sou a armadilha. Um instrumento da essência.

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Estou no Wattpad #18

Lucilla morreu. Língua de Ferro e Merren “Anéis da Morte” Eduarda uniram-se em busca de vingança e agora o salteador mais famoso de Semboula está determinado em encontrar justiça pelas próprias mãos, perseguindo o comboio de onde Mario Bortoli partiu de Ccantia. Espero que gostem de mais um capítulo cheio de emoções protagonizado por Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer.

CAPÍTULO DEZOITO: COMBOIO PARA A MORTE

“Perdi os sentidos na margem do Rio Ava na manhã de um dia nebuloso, ao terceiro mês do ano de Ralhya. Quando acordei, não ouvi pássaros a cantar, não senti a maresia a escorrer pela minha testa ou o odor do sal marítimo. Estava envolto num lençol de areia, com formigueiros por todo o corpo. Tossi e afastei os grãos arenosos da testa e do nariz. Cambaleei até Apalasi, e forcei-me a vaguear por ali. Eu tinha a certeza que estava à beira de um golfo, não podia compreender de que forma fora empurrado para um deserto. A minha mente estava trôpega, quase tanto quanto os meus movimentos. Encontrei uma caravana umas dez horas depois. Estava a desfalecer de sede. A caravana pertencia a um mercador chamado Xispas, sujeito sardónico de tez morena e traços angulares, com uma cicatriz em forma de V na testa e um fio cheio de diamantes ao pescoço. Cuspiu-me para cima, ficou-me com a espada e forçou-me a contar de onde eu vinha, antes de me oferecer um odre de água. Disse-me para o guardar como um tesouro, pois seria a única água que eu veria enquanto caminhasse ao seu lado. Em troca, trabalhei para ele como burro de carga. Não tive direito a camelo e transportei mais rolos de peles e quinquilharias às costas do que qualquer outro. Acampamos ao cair da noite. A tenda de Xispas era a mais sumptuosa do acampamento, com uma tela pálida e macia. Pôs-me de guarda e proibiu-me de dormir. Nessa noite matei-o. Na manhã seguinte, ouvi os primeiros boatos de que os mares tinham desaparecido.”

Rolos de areia evolavam-se do horizonte, seguindo as regras impostas pelo vento. Língua de Ferro fitava pacientemente a linha-férrea, esperando alcançar o comboio de Mario Bortoli antes do anoitecer. Passou com a língua, dormente como cortiça, pelos lábios secos. Estava perto de Chrygia, podia sentir o cheiro das suas sarjetas imundas, mas ainda se encontrava nos desertos. O mundo é um deserto, pensou para si mesmo.

Acariciou o pelo de Hije com ternura e fê-lo avançar a jusante da linha ferrugenta e tortuosa. Com os punhos cerrados nas rédeas ásperas e um lenço carmesim sobre os lábios, para se defender da areia levadiça, cavalgou o diabo com uma fúria de titã. Estava preparado para entrar em guerra, mesmo sabendo que aquele era um novo tipo de guerra, uma guerra na qual a honra não tinha lugar.

Fechou as pálpebras ao sentir a areia a picar-lhe os olhos. Sentia o coração acelerado no peito, a bater ao ritmo de uma locomotiva, quando ouviu. Trruum Trruum. Serpenteou pelas cortinas de areia até avistar ao longe o comboio rudimentar, com as erupções de fumo a envolverem-se na areia. Com um grunhido animalesco, aumentou o ritmo de galope e avançou para o transporte, com a fome de vingança a vencer o auto-controlo.

Alcançou o veículo pouco depois.

Era uma composição de quatro carruagens em ferro, atreladas umas às outras, com uma locomotiva a vapor no formato de um bico de falcão. Vários frisos desenhavam-se na sua dianteira, distendendo-se pelas laterais. Língua de Ferro alcançou a lateral do veículo, mas não conseguiu distinguir nada no seu interior. Aproximou-se perigosamente da via-férrea, vendo a engrenagem das carruagens a provocar faúlhas no encontro com a linha.

Sem título
Locomotiva a vapor (railroad)

― Vamos! Vamos! ― gritou para Hije, fazendo o diabo avançar até aos ferros que ligavam a locomotiva às carruagens.

Por um momento, o comboio ganhou vantagem ao diabo, mas depressa voltou a alcançá-lo. Língua de Ferro aproveitou o balanço dado ao animal para saltar para a ligação de acesso entre a caldeira e a carruagem. As suas mãos pareceram ventosas sobre o ferro, ao fixar-se na lateral na carruagem e pontapear as ripas de madeira de uma janela, apenas para usar os pés como ganchos. Com os pés presos naquelas ripas, posicionou-se com dificuldade de modo a alcançar uma outra aba de madeira com as mãos. Balançou-a com força, para testar a resistência da mesma. Ao auferir o que pretendia, Língua de Ferro assobiou e viu Hije, que ficara para trás, a aproximar-se. Poderia ainda ser-lhe útil. Assentiu com a cabeça e o diabo voltou a distanciar-se, até que Língua de Ferro deu um puxão à grade de madeira e ela veio atrás de si, levando-o a cair para trás com o impulso. Os seus cabelos ficaram terrivelmente próximos da linha-férrea, mas Língua de Ferro parecia já estar preparado para isso. Deixou cair o pedaço de madeira pelo caminho. Com um grito, impeliu-se para cima e atirou-se para o interior da carruagem pela janela sem grade, desenganchando os pés de onde os mantinha seguros.

Com o troar da locomotiva a fazer-lhe lembrar uma tempestade de diabos, Língua de Ferro soprou para afastar os cabelos dos olhos e desembainhou Apalasi, pronto para enfrentar os súbditos de Mario Bortoli. Para sua surpresa, a carruagem estava vazia. Ou quase.

Ao fundo da carruagem, uma figura assomou de trás de uma cortina de cetim bege. Tinha um peitoral de ouro no peito nu, uns calções de caxemira debruados a ouro e umas sandálias. Tinha também um sorriso no rosto. Era Jupett Vance.

― Vance ― grunhiu Língua de Ferro, num quase sussurro.

― Valentina ― soprou por entre o par de lábios quase fechados. ― Estava à tua espera.

― Vim para matar Bortoli.

Erguer a espada pareceu sublinhar a evidência. Vance piscou-lhe o olho com uma pontada de sarcasmo.

― Eu sei. Foi por isso que viemos de comboio. Foi por isso que eles saíram no terceiro apeadeiro. Deixamos rasto para que nos perseguisses. Bortoli indicou-me que te matasse quando chegasses ao comboio.

Língua de Ferro suspirou pesadamente, com frustração. Baixou a espada.

― Ele assassinou Lucilla.

Vance sorriu.

― Disse ao rapaz que iríamos rumar aos Poços na esperança de que caísses na mentira…

― Subestimas a minha inteligência ― disse Língua de Ferra. ― Não há via-férrea para os Poços, apenas pequenas interseções que chegam lá perto. E uma via estrita a vagões de mercadorias que fazem transportar as bilhas de água. Porquê?

Os olhos alvos de Vance pareceram luzir por um momento.

― Esperei que fosse o suficiente. Os Poços levar-te-ão ao coração de Chrygia. Levar-te-ão ao poder. A essência irá utilizar-te para devolver ao mundo a sua chama. Para reconhecê-la. Reverenciá-la.

― A tua amiga essência parece-me mais uma entidade a tentar reclamar o lugar dos deuses que matou.

Vance pareceu hesitar.

― Se colocas a situação nesses moldes, sim. Estamos a viver um período conturbado, não o podes negar. Um período de transição. A entidade que represento não é um deus, mas algo que já aqui estava antes do advento deles. Algo que sempre aqui esteve. Algo que não podes compreender ainda. Algo superior. Uma força que pode trabalhar em favor dos homens se eles estiverem dispostos a cooperar. Ensinar-te-ei a Língua Franca se te vergares à sua evidente superioridade. Há um preço a pagar por aquilo que tenho a oferecer-te.

Língua de Ferro lançou um rugido felino e cerrou os dentes. Descreveu um arco com a espada.

― Quero mais que a tua essência se deite com os porcos. Onde está Bortoli? Vou arrancar-lhe a cabeça e dá-la de comer a Hije.

Vance abriu o rosto numa expressão bem-humorada.

― Fui eu quem matou Lucilla. ― Uma nuvem de ódio perpassou pelo olhar de Língua de Ferro. Saliva espumosa brotou do canto do seu lábio. ― Bortoli deu a ordem e tentei convencê-lo a mantê-la viva, mas Allen insistiu com ele. Parecia temer que ela revelasse algo sobre os seus segredos. É um tipo inquietante, aquele patrício. De qualquer forma, fui eu a mão que empurrou a adaga pelos miolos.

― Matá-los-ei a todos, então ― grunhiu Língua de Ferro com um esgar azedo.

Vance assentiu e desapareceu misteriosamente por um compartimento. Língua de Ferro seguiu-o e viu-o segurar numa espada antes de desaparecer por uma janela. O comboio avançava ao seu ritmo regular quando chegou ao orifício aberto e percebeu que Vance escalava o comboio para o tejadilho. Com uma vontade louca de fazer justiça à sua consciência, Língua de Ferro fez o mesmo.

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Silchas Ruin de Malazan (deathris em deviantart)

Encontraram-se acima do comboio. Língua de Ferro cambaleou e tentou manter-se em pé com as oscilações da carruagem, enquanto Vance o parecia esperar com estabilidade, de espada em riste. Apalasi pareceu demolidora quando Língua de Ferro atacou num movimento de cima para baixo, em arco. Vance, porém, deslizou para trás como por magia, evitando o movimento. Essa perícia singular apenas despertou mais ódio em Língua de Ferro, inflamado como piche a arder.

Avançou em passos largos para Vance, tentando esconder de si próprio que era impossível vencê-lo. A espada do homem calvo parou um novo ataque com facilidade, e quando Língua de Ferro rodopiou sobre si próprio na tentativa de decapitar o inimigo, uma espécie de barreira invisível ativou-se entre os dois sujeitos. Vance soltou uma gargalhada estridente, que se elevou acima dos sons tonitruantes do comboio.

― O que pensas fazer comigo, Leidviges Valentina? ― perguntou Vance. ― Podes tentar atacar-me até as forças te faltarem, ou renderes-te às evidências. Vamos lá, qual é a tua escolha? O Fluído está definido. O que o contraria embaraça-te. Deixa-te arrebatar pela verdade do verbo, Valentina. Deixa-te soçobrar nesse orgulho e vê. Vê o que está à tua frente pela primeira vez nessa tua vida nublada.

Língua de Ferro enrugou a testa.

O que é que eu posso fazer? Este homem matou Luce…

― És um cretino ― grunhiu Língua de Ferro, arquejante.

― Tu também.

― Posso não te conseguir matar, mas não me vou vergar à tua vontade. Não serei um instrumento teu.

― Claro que não ― respondeu Vance com um tom irónico. ― Assim como eu, serás um instrumento da essência. Ora, Valentina, Lucilla era só uma mulher. Uma mulher que te usou quando quis e como quis, em seu proveito. Uma mulher como poucas, talvez, mas teve dois rebentos de um outro homem. A tua sede de vingança é assim tão grande que esqueças tudo isso?

― Eu não esqueço ― disse Língua de Ferro, lacónico.

― Não?

― Simplesmente, não importa mais. Eu amava-a, e ela está morta.

― Assim como tu estarás, se te meteres numa guerra que não te pertence.

― Como assim?

― Os Poços ― gritou Vance, para se fazer ouvir. ― Os Poços são as portas para o Império. Conquista-os e terás o Império.

― Eu não…

― Podes não querer o Império, mas se não o reclamares para ti, iniciar-se-á uma guerra entre Mario Bortoli e Sander Camilli. Tens a certeza que queres os destinos de Semboula na mão de um deles?

― Ainda há Eduarda.

Vance meneou negativamente a cabeça.

― Eduarda morrerá nos Poços. ― A sua voz pareceu subitamente ribombante, como se viesse dos céus. Como um trovão. ― E as filhas de Lucilla também, se nada fizeres quanto a isso. O teu lugar não é aqui, Valentina. A tua vingança virá, se jogares bem o jogo da glória. És mais que um peão, meu velho. És a essência reencarnada. Um deus em forma de homem. Um campeão de antanho ressurgido das brumas. O vento sopra, limita-te a seguir o percurso em que ele te seja favorável. A vingança virá no caminho, asseguro-te.

― Não acredito nas suas palavras, cavalheiro ― grunhiu Língua de Ferro.

Vance Cego sorriu. Deixou cair a sua espada e aproximou-se do salteador. Cortinas de areia enleavam-se à sua volta.

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Eshonai de Stormlight Archive (stormlight archive wikia)

― Quando a essência quiser, acreditarás. Um dia, Valentina, irás matar-me. É o que eu te juro. ― Com essas palavras, atirou Língua de Ferro para fora do comboio. Sentiu a surpresa e a adrenalina a misturarem-se quando deixou de ver e deixou de respirar.

Língua de Ferro acordou no deserto, com a língua de Hije a percorrer-lhe a face esquerda. Abriu os olhos, meio incerto se tivera sonhado ou vivido aquilo, mas ao ver Apalasi cravada na areia ao seu lado, percebeu que fora real. Estava cheio de sede. As palavras de Vance não lhe saíam da cabeça. Quando a essência quiser, acreditarás. Um dia, Valentina, irás matar-me. É o que eu te juro. Quanta verdade existiria nessas palavras? Quanto podia confiar em Vance?

Sempre fora um cético, um pragmático, um homem raso. Nunca sequer fora de perder muito tempo em pensar na humanidade dos deuses, na sua existência enquanto seres pensantes e viventes, e sempre os encarara como algo abstrato, intemporal e distante. Agora sentia estar a lidar com algo mais permanente e agitado que deuses. Algo adormecido que agora parecia acordar, e pretendia usá-lo como marioneta para reclamar um lugar supremo no panteão. Vance era outro instrumento, se o que ele dizia era verdade. Mas, por alguma razão, jogar o jogo deles era a única alternativa que lhe restava. Jupett Vance já lhe provara por várias vezes que mexia com algo poderoso, e não lhe parecia francamente que fossem meras magias negras, como as danças da morte de Nefitos ou os pauzinhos negros das tribos ruli. Vance era um profeta, alguém que fora escolhido por um ser superior para determinados fins. Língua de Ferro era o homem certo no sítio certo. Outro instrumento.

― Vou fazer o que queres, Vance ― disse para si mesmo, sentado num montículo de areia, a observar a sua espada e a afagar o focinho de Hije. ― Depois, voltarei para te matar.

Inspirou fundo o ar pejado de areia. Doeu, mas também lhe deu um prazer renovado. Os objetivos ficavam mais claros na sua mente. Tinha um guião a desempenhar e não ia deixar ninguém desiludido. Dezoito horas depois, Língua de Ferro chegou aos Poços.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito

Estou no Wattpad #17

Olá a todos. Chegamos ao capítulo 17 do meu livro de leitura online “Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer”, disponível no Wattpad e aqui no blogue. No capítulo pretérito, assistimos a uma verdadeira batalha campal na cidade de Ccantia, com Língua de Ferro, Marovarola e Eduarda unidos contra os indígenas rezolis e os rhovianos, às ordens de Mario Bortoli. Após uma luta intensa pela sobrevivência, foram Tayscar e Seji quem salvaram os lendários campeões. No final, a descoberta do triste destino de Lucilla deixou os personagens principais de rastos.

CAPÍTULO DEZASSETE: MENTIRAS PIEDOSAS

“Tinha a boca esponjosa da última vez que o vi. Cheirava a urina com mais de quinze dias e a azedo de vómito. Um pano embebido em sangue mergulhou num pequeno barril de água, para regressar menos vermelho à superfície. O líquido dentro do recipiente, por sua vez, parecia viscoso e carmesim. Era Eduarda quem me limpava as feridas, com aqueles olhos negros como o Mar Zegreu, negros como a morte. Claro está que eu encontrava-me amarrado, coagido a ficar ali por quatro horas, onde homens melhores tinham morrido em condições semelhantes – o porão do galeão imperial que Merren Eduarda roubara à frota corsária de Cacetel. Fez-me fitar as contas coloridas dos anéis que orlavam os seus dedos, perguntou-me quantos dedos eu via e respondi seis, para o testar. Repetiu a pergunta, depois de colocar as mãos atrás das costas e as fazer regressar e então eu sorri, disse-lhe que não via dedos mas as patas de um burro e ele soltou uma gargalhada. Esperei pelo pontapé que me partiria o queixo, mas ele não veio. Eduarda ergueu-se e saiu, mas antes disso prometeu-me que voltaríamos a encontrar-nos, quando eu estivesse à sua altura, e que nos defrontaríamos até à morte. Essas palavras morderam-me o orgulho. Eu era um dos Doze Vermelhos. O traidor. O melhor guerreiro de toda a Rezoli. E saí dali no interior de um bote, vivo mas humilhado, em direção a nenhures”

Empecilho sabia que aquilo estava errado. Ccantia era agora uma cidade fantasma, pejada de cadáveres. O exército variegado de Mario Bortoli avançava para Chrygia, deixando a cidade sem os seus maiores tesouros, a braços com fogos deflagrados de difícil controlo e uma terrível sensação de vazio, provocada pela carnificina levada a cabo. Não restavam mais de duzentas pessoas vivas na cidade, quando antes, a população rondava os três mil. A maioria dos sobreviventes eram velhos, coxos, bêbados ou crianças de colo. Prostitutas tinham sido violentadas até à morte, e o mesmo sucedera-se com todo o tipo de mulheres jovens. O massacre de Ccantia figuraria nas gestas por muito tempo, desse por onde desse.

― Sete pintas! Ganhei outra vez ― disse Marovarola com ar vitorioso, ao olhar para o dado de madeira com sete pintas viradas para cima, sobre a tábua de uma mesa. Ainda estavam na estalagem que servira de sede logística a Mario Bortoli, e Marovarola esticou uma perna para cima da tábua, revelando uma bota de cano alto, cheia de atilhos e ilhoses. À sua frente, Seji ergueu-se, indignado e de mãos à cintura.

― Impossível. É a quinta vez consecutiva. Só pode ser batota.

― Marovarola tem um leque quase infindável de truques, Seji. Claro que é batota ― soou a voz de Anéis da Morte, que descia a escadaria. ― Não te deixes enganar.

Eduarda não revelava sombra de humor na sua expressão encovada e angular, embora as suas palavras tivessem o seu quê de brandura. Empecilho viu que ele estendera o seu olhar para a porta entreaberta, onde os primeiros raios de sol beijavam a pedra avermelhada de sangue seco da calçada com uma calma vespertina.

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Demon Warrior (playbuzz)

Merren “Anéis da Morte” Eduarda virou-se para Marovarola.

― Lembras-te do que te disse ontem à noite? ― Marovarola perdeu o sorriso e fitou a tábua da mesa com um olhar aborrecido.

― Lembro-me, mas tive esperança que você se tivesse esquecido. Envenenar senadores, foder putas virgens, despejar garrafas de rum numa dispensa vazia, ludibriar charlatões, Marovarola consegue. Mas… governar uma cidade? Não, isso é mau demais.

O antigo líder da Trupe da Morte pareceu tenso. A ferida no peito fora costurada, mas mantinha a sua veste negra, rasgada na zona do golpe.

― Ccantia precisa da tua astúcia Marovarola. Precisa reerguer-se com aquilo que tem. Há muito trabalho a fazer, corpos a enterrar, fogos a apagar, recursos monetários a fazer aparecer, obras de reconstrução a proceder, esperança a nascer… E eu vou abandonar a cidade quando ela mais precisa de um líder. Perdi esta batalha, Marovarola. Mas ainda tenho batalhas a travar, que não me podem reter aqui. As minhas filhas, Chrygia… Por Luce, sei o que tenho a fazer.

Marovarola soltou uma qualquer maldição entredentes e mascou um amendoim, que removera de um bolso do casaco.

― Precisa de mim, senhor? ― perguntou Empecilho, ao sentir-se constrangido por ali estar. Eduarda não pareceu dar-lhe atenção.

― Marovarola, não é a fazer apostas por amendoins e a beber até cair para o lado que vais honrar a memória dos teus irmãos mortos.

Por um segundo, Marovarola lançou-lhe um olhar a fulgir de ódio.

― Não foi Bortoli quem matou Bar e Vivelma, Dooda e Dzanela, Brovios e Agravelli.

Eduarda sacudiu a cabeça.

― Nem ele foi responsável por todas essas mortes, Marovarola. Leidviges Valentina tem muitos pecados a expiar, mas ser-nos-á útil.

Marovarola voltou a ruminar qualquer coisa entredentes e fez um gesto, como que a deixar a conversa para lá.

― Val tem a sua quota-parte de culpa, talvez não mais que Luce e eu trabalhei para ela, não foi? Ontem à noite, ele salvou-me a vida. Não sigo princípios de cordialidade muito dignos, mas não sou homem que ignore coisas destas. Salve lá as suas filhas, arranque o escalpe a Bortoli e Camilli, ponha a coroa de acanto em Val, e regresse vivo. Tomarei conta aqui da tasca até esse dia.

Pela primeira vez desde a morte de Lucilla, Merren “Anéis da Morte” Eduarda sorriu. Afagou o ombro a Marovarola e deixou-o a jogar com Seji. Pegou em Empecilho pelo braço e conduziu-o para o exterior. Ainda conseguiram ouvir a voz áspera de Seji a praguejar:

― Outra vez?! Batota, repito. Isto é batota!

Grandes caixotes de madeira empilhados amontoavam-se rua fora, com os últimos pertences de famílias desabitadas. Cadáveres em pilha eram colocados em piras fumegantes, para serem incinerados. Não era uma tradição local, mas as valas comuns estavam cheias. Pairava um cheiro bafiento a morte no ar. Empecilho encolheu-se. Tinham enterrado Lucilla antes da autora, num descampado a dez metros dali. Eduarda e Língua de Ferro tinham sido os únicos para além dele presentes no ritual.

― Vou precisar de ti, rapaz ― disse-lhe Eduarda, enquanto o conduzia entre esqueletos carbonizados do que tinham sido bancas de mercado, nas ruas marginadas pelas fachadas tisnadas de edifícios altos. ― Vance não atacará Chrygia de surpresa. Irá montar cerco. Convence-o a esperar, a vencer pela paciência.

Empecilho levou a mão atrás da nuca para coçar o couro cabeludo.

― Para Bortoli, os seus exércitos não passam de um mero transporte. São carne para canhão, senhor. Não me parece que Vance me dê ouvidos, mesmo que tente.

Eduarda pareceu refletir, mas não refreou o passo.

― Vance Cego não é Mario Bortoli. É um profeta. Há diferença nisso, rapaz. Se não conseguires convencê-lo… bem, Valentina disse-me que eras hábil. Terás de entrar em Chrygia, infiltrares-te na corte como artista itinerante e mexeres os cordelinhos certos para que Sander Camilli não se mova um centímetro. Ele que espere até chegarmos. Ele que espere… ― A pausa que se seguiu àquelas palavras foi dura para Empecilho, à medida que pesava a importância do fardo que lhe era colocado sobre os ombros. ― Posso confiar em ti?

― Posso confiar em ti? ― dissera-lhe Jupett Vance, antes de partir para Chrygia. ― Já ouviste falar em mentiras piedosas, rapaz? O cérebro humano é forte em arranjar desculpas que justifiquem as suas ações falhas. Ainda assim, há verdade em admitir que uma mentira bem contada pode salvar a pele ao cordeirinho curioso, que espreita para o pardo, pondo-se à vista do leão. Mente-lhes, rapaz, com todos os dentes que tens na boca. Diz-lhes que Bortoli vai para os Poços. Quero-os lá. Quem conseguir os Poços, consegue o Império, lembra-te disso. Na batalha, Língua de Ferro encontrará morte e desolação. Eduarda pode proporcionar-lhe o que a essência almeja. Um Império. Um Sacro-Império Chrygiano, nos dedos de um renegado. Confio em ti. A essência confia em ti. Peço-te que mintas.

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Tatooed Warrior (dasAoD em deviantart)

Jupett Vance não lhe pediu que mentisse a propósito da morte de Lucilla, mas ainda assim ele fê-lo, garantindo a centelha de ódio que conduziria Língua de Ferro e Anéis da Morte a Mario Bortoli. Não sabia porquê, mas era como se a sua mente soubesse que tinha de o fazer. Chegaram à estação ferroviária dez minutos depois.

Uma lanterna partida repousava ao lado de um cadáver, aos pés de uma escadaria que conduzia ao terminal. Era um guarda alfandegário. Não havia ali qualquer carruagem de locomotiva, nem qualquer expressão de vida, para além da nuvem de moscas que zumbia sobre o cadáver. Uma estalagem ladeava o terminal a leste, e uma estrebaria a oeste. Foi ali que encontraram Língua de Ferro, a acariciar o pelo sedoso de um diabo. A criatura encolhia-se ao seu toque, com a zona das costelas a latejar, de uma cor vermelha como sangue. Era um equídeo, mas a sua expressão ferina lembrava uma hiena. Baba escorria-lhe pela fissura labial.

― Dooda disse-me que o Império o devia ter capturado ― disse Língua de Ferro ao dar pela sua presença, sem os fitar. ― Não foi uma completa mentira.

― Não existem completas mentiras, assim como não existem completas verdades ― assumiu Eduarda, encolhendo os ombros. ― Só pontos de vista e deturpações, deliberadas ou não. Eu quis matar o animal, mas Dooda proibiu-me. Garantiu que cuidassem bem de Hije. Sabia que um dia voltarias para ele, e que recuperarias o teu poder.

Língua de Ferro fez oscilar os seus longos cabelos turquesa ao fitar Eduarda com ceticismo.

― Fui um joguete nas vossas mãos, Anéis da Morte.

― Precisavas aprender a ser humilde ― respondeu-lhe com convicção. ― No fundo, foi sempre isso. Sabíamos todos do teu potencial, só precisavas engolir esse orgulho para deixares que alguém te ensinasse algo. Aprendeste da pior forma. Foste obrigado a isso. Não fomos felizes ou eficazes em todas as nossas ações, atos deliberados que tinham como objetivo manter-nos no poder…

Língua de Ferro soltou uma risadinha.

― Compreendo. Mas não era só uma lição de humildade que me queriam oferecer. Queriam usar-me como peão numa guerra interna pela máscara chamada Landon X. E a minha morte seria necessária, de acordo com os vossos planos, mais cedo ou mais tarde.

Como se reagisse à palavra morte, os olhos de Hije, o diabo de estimação de Língua de Ferro, abriram-se muito.

― Os planos mudam, não é? ― concluiu Eduarda com uma expressão triste. ― Hoje ofereço-te um Império.

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Locomotiva steampunk (douglas-self)

― Não é justo ― disse uma voz à esquerda. Sentado numa meda de feno engolida pelas sombras, Tayscar estava ali sem que Empecilho tivesse dado conta. O membro da guarda da cidade teria levado Língua de Ferro até ali, seguindo as diretivas de Eduarda.

Ao erguer-se do assento, tornou-se totalmente visível, com uma expressão desafiadora e um indicador levantado. Dirigia-se ao seu soberano.

― O que é que não é justo, Tayscar?

― Este homem matou o mau pai, e você diz que quer oferecer-lhe o Império? O Império é meu por direito, sou neto de Cacetel.

Eduardo fitou-o com olhos frios, quase capazes de fazer gelar um deserto.

― Este homem matou o teu pai porque ele era um fraco. Agravelli nunca reclamou o seu lugar dinástico. Vais tu fazê-lo, quando pouco mais não és que um cadete doméstico?

Tayscar engoliu o orgulho com as feições a enrubescer. O indicador estremeceu no ar.

― Eu só disse… que não era justo!

E ao repeti-lo, passou por Eduarda e Empecilho em passos largos, saindo da estrebaria como um louco, com os longos cabelos a adejar ao vento. Língua de Ferro saltou para cima de Hije, já ajaezado com sela e chagrém. Com um olhar altivo, disse:

― Empecilho, quero que saibas que não te recrimino. És um bom miúdo. Aquele guarda, na estação, fui quem o matou. Antes, disse-me que Bortoli entrou, realmente, naquela locomotiva, mas que não se dirigia aos Poços. Bortoli foi para Chrygia.

Eduarda suspirou profundamente e cofiou o queixo.

― Nenhuma rota ferroviária leva diretamente aos Poços! ― Voltou-se para Empecilho com um olhar perscrutador.

O rapaz encolheu-se, comprometido. As sombras que lhe beijavam o corpo eram frias e incómodas.

― Foi Vance quem…

― Eu sei quem foi ― interrompeu Língua de Ferro. ― Seja como for, eu vou encontrar Bortoli e fazê-lo pagar. ― Virou o rosto para Merren “Anéis da Morte” Eduarda. ― Cesare LaCelles… foi mesmo ele quem deu albergue a Marovarola e, supostamente, esteve envolvido na rebelião rhoviana?

Eduarda pareceu momentaneamente confuso, mas assentiu com a cabeça.

― Sim… LaCelles foi um agente nosso. Camilli descobriu-o e matou-o, assim como toda a sua família. Alegou que eles se batiam contra a lei do Imperador nas suas funções administrativas.

Língua de Ferro sorriu. Era tudo o que precisava saber. Segurou o cabresto de Hije e deu-lhe um puxão, fazendo o animal relinchar como o rugido de um trovão.

― Empecilho, segue as indicações de Anéis da Morte. Confio em ti. Quanto a ti, Eduarda, prepara uma caravana para os Poços. Em breve, juntar-me-ei a ti e lutarei para salvar as tuas filhas. Hije, vamos!

O diabo guinchou ao sentir as esporas enterrarem-se na carne, mas avançou pela estrebaria fora, obrigando Empecilho e Eduarda a desviarem-se contra as tábuas divisórias da baia.

Confio em ti, dizia-lhe agora Língua de Ferro, e Empecilho sabia que ele, a quem acabara de trair a confiança, era o único que nunca iria trair verdadeiramente. Ali, com dedos sem pontas abraçados à porta de madeira, Empecilho via-o a afastar-se entre nuvens de poeira. Podia imaginá-lo a atravessar o deserto montado em Hije, o seu diabo de estimação, com uma mão nas rédeas e a outra a erguer Apalasi acima da sua cabeça. O velho salteador estava de volta. Talvez ferido. Talvez humilhado. Talvez vergado. Vazio. Morto por dentro. Mas era Língua de Ferro. A lenda. O homem que Mario Bortoli e Sander Camilli, dois tiranos em guerra, deviam temer.

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Estou no Wattpad #16

Estou no Wattpad a publicar o 16.º capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, o meu livro de leitura online. No último capítulo, assistimos às maquinações de Bortoli pelo olhar de Empecilho, no momento em que os exércitos rezoli espalhavam o terror em Ccantia. Apesar das advertências e conselhos de Jupett Vance, Bortoli ordena a morte de uma das personagens principais desta trama. A partir de agora, nada será como antes.

CAPÍTULO DEZASSEIS: MASSACRE EM CCANTIA

“Encontrei Eduarda num dia terrível, cheio de relâmpagos, profecias e coisas piores. Dois tipos apostavam os seus parcos recursos sobre a tempestade do dia seguinte. Não eram muito espertos, talvez por isso foram os únicos homens a sul de Tavela a aceitar seguir-me por aquele deserto sem fim à vista. O oásis revelou-se ao cair da noite. Uma baía imensa, cheia de embarcações prenhes de remendos e com péssimas condições de calafetagem, atracadas à margem. Ainda assim, soube que não tinha escolha. Era um animal a agir por puro instinto, com apenas Apalasi em quem confiar. Via muitas cabeças ao longo da margem, de homens vivos e mortos, e sons que sugeriam amena cavaqueira, troça ou algum ritual esquisito. Enviei os meus dois seguidores como isca. Quando comecei a ouvir os gritos, esgueirei-me até à água, onde resisti à tentação de a beber. Fui até ao primeiro bote e desprendi-o da escora onde o prenderam. Um galeão pirata esperava por mim. Lancei um desafio aos céus e pedi aos deuses que me confundissem com um deles. Beijei o meu polegar da sorte. Quando me içaram uma corda, vi a morte no seu olhar. O homem que baixou o monóculo era o líder da Trupe da Morte, como contou logo que fui levado à sua presença. Avaliou-me. Desafiou-me para um duelo. Os relâmpagos tremeram diante do choque das nossas espadas. Lutei e perdi. Era ridículo pressupor isso. Ninguém me derrotava. Ninguém. Mas ele fê-lo, como faria uma e outra vez, caso nos voltássemos a defrontar. Derrotou-me, e para me castigar ainda mais, deixou-me viver.”

A mansão de “Averze” já não era um lugar seguro. Os homens às suas ordens entraram pelo escritório dentro, com olhares assustados e dedos a tremer nos cabos das armas. Um estouro fez-se ouvir quando um qualquer objeto atingiu a janela oriental e uma chuva de fragmentos de madeira se espalhou pelo pavimento. Merren “Anéis da Morte” Eduarda ergueu-se do seu assento quando um dos seus homens perguntou:

― O que fazemos?!

― Vamos embora daqui ― respondeu ele, sem humor.

O belíssimo jardim da mansão estava a arder. As plantas, outrora verdes e viçosas, encarquilhavam-se em tons alaranjados. Marovarola encolheu-se quando uma planta de caule comprido se desfez na sua direção. Língua de Ferro avançava atrás dele, com Eduarda e um grupo de guardas nos seus calcanhares.

― Uma toufelina! ― guinchou Marovarola, virando-se para Língua de Ferro. ― Já te contei o que esta planta…

― Sim ― disse Língua de Ferro, puxando-o por um braço. ― Cura diarreias.

Saíram do jardim de armas em punho. Língua de Ferro desembainhara Apalasi e segurava-a agora com as duas mãos. Marovarola exibia um revólver de freixo em cada mão e Eduarda um bacamarte mais longo, esculpido em cerejeira. Ambos mantinham as lâminas afiveladas à cintura. Foram surpreendidos ao atravessar a rua. Uma companhia de indígenas rezoli, de tochas em punho e expressões ameaçadoras, mudou a sua rota conquistadora ao avistarem o grupo, e avançaram para eles. As poucas roupas que traziam eram feitas de lã pura, e as armas pareciam rudimentares. Os guardas de Eduarda dispararam tiros certeiros na direção deles, e fumo evolou-se também das armas de Marovarola e Eduarda.

Isto é uma loucura, pensou Língua de Ferro.

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Batalha (lovelessdevotions em deviantart)

Vários indígenas tombaram para o lado, com feridas de bala nos corpos desnudos e jatos de sangue a espirrarem à sua volta. Mas eles eram demasiado numerosos. Continuavam a avançar e, muito embora o grupo de Língua de Ferro se enfiasse às arrecuas pela via ocidental, os homens de Bortoli pareciam estar espalhados por todo o lado. As armas de fogo precisavam ser recarregadas e não havia tempo para isso. Marovarola tinha os olhos cheios de horror quando colocou os revólveres no cinto, atrás das costas, e desembainhou o seu florete. Eduarda cerrou os dentes e atirou o bacamarte para o lado, desafivelando uma lâmina larga de trinta centímetros, que pôs a nu com um silvo.

Língua de Ferro sorriu com a ironia. Ele, a lutar ao lado de Anéis da Morte e Marovarola, era uma situação tremendamente improvável. E, no entanto, ali estava ele, de espada em punho, ao lado dos dois espadachins mais notáveis com quem já tinha tido a oportunidade de privar. Certamente resolveriam aquele problema sem grande dificuldade – trinta rezolis não eram oposição. Todavia, apareciam mais homens, rezolis mas também rhovianos, de todos os lados da rua. A sua testa franziu-se de apreensão.

A noite estava quente. Ou gelada. Não sabia dizer. Suores frios percorriam todo o seu corpo, a cada movimento. A sua carne enchia-se de calor com o sangue dos inimigos, a cada golpe certeiro. Os seus movimentos eram fluídos, animalescos, irracionais. Os únicos sons que ouvia eram o raspar do aço em madeira, os gritos dos moribundos e a terra a ranger sob os seus pés. O braço direito movia-se com leviandade da direita para a esquerda e da esquerda para a direita. Exibia uma expressão ferina no rosto franzido. Rugidos terríveis jorravam dos seus lábios. Recuou diante de um rezoli de lança, para evitar a sua ponta aguçada a fogo. Com um estridular bárbaro, avançou para o adversário e abriu-lhe o ventre de um golpe. Os olhos do rezoli abriram-se muito quando sentiu as tripas a escorrerem-lhe pela pélvis. O sorriso de triunfo de Língua de Ferro, porém, morreu num segundo.

Três rezolis atiraram-se aos seus ombros. Um golpeou-o com uma adaga num braço, mas ele conseguiu esquivar-se e dobrar-se para a frente, obrigando os adversários a caírem com ele. Levou as mãos à terra e balançou-se para cima de novo, quebrando um queixo com um cotovelo. Desbaratou o segundo adversário com uma cabeçada potente e tinha já uma faca cravada no joelho quando largou Apalasi, cravando-a em pé na terra à sua frente, e partiu o pescoço do inimigo com as duas mãos.

Dentes cravaram-se no pescoço de um rhoviano. Com os olhos injetados de sangue e os cabelos azul-turquesa a levitarem como cortinas de seda, Língua de Ferro parecia um vampiro. Mordeu a jugular e cuspiu um pedaço de carne para o lado, enquanto um jato de sangue esguichava para o ombro do rhoviano enfraquecido. Língua de Ferro pontapeou os dois homens que se aproximaram das suas costas, quebrando lanças e patelas, voltou a segurar em Apalasi, rodou-a nas suas mãos com aparente leveza e mais sangue e gritos jorraram na noite.

Marovarola esquivava-se com uma perícia inusitada. Era veloz e leve, e a ponta do seu florete estava banhada de sangue. Perderam de vista os guardas chrygianos de Eduarda, restando somente um ccantiano que foi varado por uma comprida lança rezoli. Marovarola engoliu em seco e avançou, com a expressão atrapalhada de quem não queria hostilizar ninguém.

― Isto é tudo um terrível mal-entendido, senhores. Não somos todos amigos? Não me reconhecem? Sou Marovarola. Ma-ro-va-ro-la, imperador entre os pedintes. Ahh, raios, o amigo de índios. Cara pálida amigo? Não?

Os indígenas responderam-lhe com rosnidos pouco amigáveis. Quando um o segurou por um braço, Marovarola empurrou-o para cima dos outros e correu, tropeçando e utilizando os braços para se voltar a endireitar, passando entre as pernas de um rezoli aparvalhado até chegar perto de Merren “Anéis da Morte” Eduarda, que a peleja conduzira para leste.

Ao encontrar Eduarda, Marovarola ficou de queixo caído. Anéis da Morte estava de espada erguida, ereto sobre um monte de cadáveres. Um golpe aberto no seu peito abrira-lhe a veste e a ferida parecia vermelha e esponjosa. Eduarda moveu a espada num movimento ascendente, da esquerda para a direita, e com uma rapidez incrível decepou uma cabeça. Um único golpe. Marovarola olhou-o com orgulho, mas também com a certeza que, por muito bons que fossem, não tinham hipótese de sair dali vivos. Os inimigos jorravam, uns depois dos outros, mais e mais, de todos os lados, tentando queimá-los com as suas tochas em punho. Mario Bortoli via ali feita a sua justiça.

Uma ingratidão.

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Batalha (BrowsingFanArt em deviantart)

O relinchar de um cavalo atraiu atenções e dispersou vários rezoli e rhovianos. Era um garanhão syliano de grande envergadura, negro como um céu sem estrelas, à frente de uma carroça de mercador. Na condução do veículo estava um rapaz de longos cabelos louros, enquanto um sujeito velho e sujo disparava contra os homens de Bortoli com um longo bacamarte de dois canos. Língua de Ferro tinha a vista turva e sentia-se trôpego, mas foi o primeiro a reconhecer os seus salvadores.

Tayscar e Seji. Quando é que a piada termina? Não lhe bastava estar a lutar contra rezolis, ao lado de Marovarola e Eduarda, como também os homens que tinha deixado amarrados no esconderijo da Companhia dos Ossos o vinham salvar. Ainda que não lhe parecesse lógico, sabia não haver qualquer lógica quando tudo dava para o torto. Furou os surpreendidos rezolis com uma correria insana e atirou-se de ombros contra o espaldar da carruagem, caindo no seu interior. Ainda ouviu os gritos e rosnidos dos inimigos, assim como as vozes de Marovarola e Eduarda, ao subirem para a carruagem, instigando os seus salvadores a saírem dali rapidamente. Depois, perdeu a consciência.

Quando voltou a abrir os olhos, o cheiro a putrefação não lhe devolveu a confiança. Tinha golpes nas pernas e nos braços, dentadas nos ombros, o maxilar dorido. Ainda estava na carruagem. Eduarda puxou-o por um braço e colocou-o em volta do seu pescoço. Foi impelido a erguer-se. A noite era escura, mas estava iluminada por tochas. O odor a fumo e a óleo a arder não imperava sobre o doce perfume a carne morta. Estavam ainda em Ccantia, não havia dúvidas, mas noutro lugar. Ainda assim, haviam vários rezolis e rhovianos por ali, e o garanhão que conduzira a carruagem tinha sido decepado pela garupa.

Língua de Ferro segurou em Apalasi pelo punho e deslizou para fora da carruagem, amparado por Eduarda. Seji e Tayscar abriam caminho com espadas longas e adelgaçadas, seguidos por Marovarola, Eduarda e Língua de Ferro, na direção de uma estalagem. Um rezoli preparava-se para queimar Leidviges Valentina com o seu archote, quando Eduarda o silenciou com aço entre as costelas. Removeu a espada de imediato. Língua de Ferro apoiou-se no ombro de Eduarda e assentiu-lhe com a cabeça, dando a entender que conseguiria avançar sozinho.

Nessa tomada de consciência, viu Marovarola a medir forças com um rhoviano, espadeirando à esquerda e à direita. Um outro rhoviano assomou por trás, de adaga em punho, pronto para matar Marovarola pelas costas. Língua de Ferro avançou com uma fúria esmagadora, e sem dar hipótese ao inimigo, cortou-lhe um terço da cabeça com um único golpe de Apalasi. O pedaço da cabeça voou e o sangue foi varrido pelo vento. Marovarola venceu o seu inimigo e voltou-se para Língua de Ferro com altivez. Ao ver o homem morto aos seus pés, percebeu o que tinha acontecido.

― Salvaste-me a vida, Val?

Língua de Ferro afagou-lhe o ombro com um sorriso e coxeou para o interior da estalagem.

― Agradece-me depois, sim?

As surpresas, porém, não terminavam por ali. Ao entrar na estalagem, viu Tayscar e Seji a cochicharem com um rapaz. Uma figura familiar.

― Empecilho?

O jovem afastou os outros com um gesto e aproximou-se de Língua de Ferro com uma expressão séria. Colocou-lhe as mãos à frente dos olhos, para mostrar que lhe faltavam as pontas dos dedos.

― Parece-me que sim. Bortoli deixou-me aqui, uma vez que não deveria precisar de mim… para onde foi. Fui eu quem encontrou Tayscar e Seji e libertei-os.

Algo ali estava mal explicado. Virou-se para os dois salvadores; pareciam comprometidos, hesitantes.

― Por que razão vocês nos salvaram? Depois de eu ter morto Agravelli, de os ter deixado amarrados…

― Creio que isso não passa de um mal-entendido ― disse uma voz atrás de si. Eduarda. ― Eles salvaram-te porque estavas comigo. Estavas contra o nosso inimigo comum. Eles foram salvar-me, Valentina. Tayscar é meu discípulo, um dos membros mais promissores da guarda ccantiana. E Seji… bem, Seji pertence à velha guarda. Defende Ccantia acima de tudo.

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Guerreiro (Sina Pakzad Kasra em pinterest)

Marovarola estava de olho à janela, depois de ter fechado a porta. Língua de Ferro afastou Tayscar e Eduarda ao ver um cadáver caído sobre uma mesa. Aproximou-se, passo a passo, como se o corpo o chamasse para si. Eduarda pareceu sentir algo parecido e seguiu-o. O corpo nu e cinzento de Lucilla estava ali, a apodrecer. Anéis da Morte soltou um grito e caiu de joelhos. Língua de Ferro cerrou os dentes e sentiu as lágrimas a escorrerem pelas maçãs do rosto. Luce… este é o fim? Tudo o que fiz, tudo o que vivi, todos os lugares por onde andei, para acabar aqui? A minha Luce… Meteste-te com as pessoas erradas, meu amor… Desculpa-me. Desculpa-me. Desculpa-me. Mil vezes desculpa-me. Desculpa-me por não ter chegado a tempo. Por ter duvidado de ti, todo este tempo.

Merren Eduarda não era mais um venerável homem de negro, inexpugnável na sua aura bélica. Era um esposo viúvo, caído de joelhos, a soluçar, com os olhos suplicantes a rogar pragas e as mãos presas nos dedos moles do cadáver. E Língua de Ferro partilhava da sua dor. Os dois homens amavam aquela mulher, e não importava agora qual deles ela amara mais.

― Quem a matou? ― perguntou Língua de Ferro, ao virar-se para Empecilho com um olhar de aparência serena. Limpara as lágrimas do rosto antes de se voltar. Empecilho estremeceu diante daquele olhar.

― Bortoli ― respondeu depois de refletir. ― Foi Mario Bortoli quem a matou. Sim, foi ele.

Língua de Ferro deu alguns passos na sua direção, depois de lançar um último olhar ao cadáver. Aquele rosto macio, tão pálido, tão morto. A curva daqueles lábios, tão triste.

― Para onde é que ele foi? Para Chrygia?

Empecilho engoliu em seco. Sabia o que se esperava dele.

― Os exércitos começaram a marchar para lá. Vance Cego comanda-os. Mas Bortoli não… Bortoli disse que ia apanhar um comboio. Levou Ravella com ele. E uma diligência de rezolis. Pretende tomar os Poços, por alguma estranha razão.

Quem tomar os Poços, toma o Império, pensou Língua de Ferro, e virou-se ao sentir duas mãos nas suas costas. Eduarda, frio como um morto, com os olhos vermelhos de tanto chorar, disse-lhe:

― As minhas filhas, Leidviges. As minhas filhas…

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis

Estou no Wattpad #15

Cá estou eu a divulgar mais um capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, o meu livro de leitura online. Desde já quero agradecer a quem me enviou mensagens a elogiar o último capítulo e espero que este não vos deixe desiludidos. Depois de descobrir a verdadeira identidade de Averze e a conspiração que o levou até Ccantia, Língua de Ferro soube também que Lucilla e Eduarda tiveram duas filhas e que elas estão nas mãos do inimigo comum, o antigo senador Sander Camilli. Agora, Língua de Ferro terá de lidar com um perigo mais premente: Mario Bortoli capturou Luce e os seus exércitos começaram a saquear a cidade.

CAPÍTULO QUINZE: O SANGUE NAS NOSSAS MÃOS

“A verdade do que fui e do que fiz não desapareceu com o tempo. Ingressei num galeão pirata, chamado Alma Sangrenta, antes da Seca. Que terrível ironia. Gritei aos treze mares que ninguém conseguiria derrubar Língua de Ferro, mas o que tinha na minha mente era bem mais truculento e ingrato. A certeza de que havia perdido Luce para sempre. O sangue nas minhas mãos. Menos de um ano depois, o Alma Sangrenta encontrou uma frota naval bem vigorosa. Dizem que as chamas do fogo refulgiam no meu rosto e na minha lâmina, como se eu fosse um deus da guerra. Mas só me lembro do cheiro hediondo a suor e a piche, do solo pegadiço de sangue e entranhas, dos vómitos e da carnificina à minha volta. Acabei por saltar ao mar, como os outros. Fui dos poucos sobreviventes. Acordei com a boca cheia de areia. Um prenúncio do que estaria para vir.”

― Matem-na! ― gritou Allen, com um guincho. ― Matem-na! Matem-na! Ela é a culpada de tudo. O verdadeiro rosto do Império.

Empecilho desceu os degraus cautelosamente, enquanto o cenário na sala comum da estalagem – transformado em quartel-general de Mario Bortoli – se tornava mais claro. Bortoli estava de mãos nas ancas junto à janela, onde o borrão vermelho-alaranjado das chamas exteriores se coadunava com o estourar das bancas de mercado e com os gritos dos oprimidos.

Ele deu as ordens. Aquilo é obra dele.

Ccantia estava sob ferro e fogo, com indígenas e rhovianos a espalhar o terror. Bortoli entrara em Ccantia com vontade de ser parcimonioso e diplomático, mas desde que Averze se recusara a conceder-lhe uma audiência, a paciência do Mecenas implodira. Também Marovarola lhe prometera mundos e fundos, uma aliança promissora, e desaparecera sem uma nota de despedida. Por fim, Agravelli Domasi e Donatello Brovios apareceram mortos.

Por essa altura, Vance Cego capturou Lucilla e conduziu-a à estalagem, onde os rhovianos às ordens de Bortoli a acobertaram com uma pele de cabril e a ataram nos pulsos e tornozelos. Eram sete, os rhovianos ali presentes. Também havia um par de indígenas rezolis e cinco antigos prisioneiros da Prisão. Um deles era Opyas “Boca de Sapo” Raymon, que agora parecia trabalhar como taberneiro particular de Bortoli, substituindo aquele que tinha sido morto por Marovarola.

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Prisoner of War (morbidprince em deviantart)

Lucilla parecia pálida e inexpressiva, resistindo a todas as perguntas e ameaças com meras evasivas e provocações. Colocaram-na sentada sobre uma mesa, com uma adaga afiada a um palmo da sua garganta. Allen caminhava de um lado para o outro, com um rosto afogueado, maxilar tenso e olhar assustado, e parecia lembrar Bortoli a cada segundo de quem Lucilla era, sempre com um indicador acusatório acima da cabeça para enfatizar os seus argumentos. A mente de Bortoli, contudo, parecia longe dali.

Empecilho tentou imaginar o que ruminava por detrás daquele cenho franzido. Devastar a cidade-sombra e avançar para Chrygia, levando Lucilla como troféu ou refém parecia ser a medida mais lógica, tendo em conta os últimos acontecimentos. A ideia de ganhar Chrygia com venenos e usar Língua de Ferro como bode expiatório caíra por terra. Tinham chamado demasiado a atenção, Língua de Ferro desaparecera misteriosamente e agora tinham ali Lucilla ao seu dispor.

Porém, o Mecenas era muitas vezes imprevisível.

Allen argumentava com alguma aflição para que se livrassem dela, que Lucilla era muito mais perigosa do que a sua aparência sugeria. Parecia agora, no entanto, encetar um monólogo. A sessão de parada e resposta que os rhovianos incutiram à mulher tinha findado, e até Vance Cego parecia limitar-se a esperar, encostado a uma parede com os braços cruzados e uma espada larga embainhada à anca direita. Ravella estava ao seu lado, igualmente expectante.

― Não foi para isto que viemos até aqui? Para acabar com ela? ― continuava Allen, recebendo indiferença como resposta.

Ravella soltou um suspiro enfadado. De resto, a uraniana tinha modificado ligeiramente o seu comportamento desde que Vance a reclamara para si. Quando era amante do rhoviano, parecia evidente o seu esforço por agradar, mostrar-se cortês e tudo isso redundava num comportamento visualmente teatral. Com Vance, Ravella era ela mesma. Não sabia o que ele lhe teria dito, mas os dois pareciam falar uma mesma linguagem, talvez por comungarem da mesma origem – os seus traços pálidos revelavam os traços naturais da vasta província do Urão, a norte. Nunca os vira agarrados ou a partilhar gestos ostensivos de carinho ou desejo, mas partilhavam o mesmo quarto e lá passaram várias horas.

― O que estão à espera para matar essa cabra? ― insistiu Allen, cada vez mais nervoso. Empecilho acreditava que, a qualquer momento, podia dar-lhe uma síncope. Bortoli voltou-se então, sem qualquer sombra de humor na expressão facial, e fitou cada um dos presentes com um grande suspiro.

― A situação fugiu-me do controlo. Eu não queria nada disto.

Lucilla sorriu levemente.

― Pariste um monstro, Mario Bortoli. E agora não sabes como domá-lo.

Um murro atingiu-a severamente no rosto, atirando-lhe a cabeça para o lado e colando-lhe cabelos à boca, condimentados de sangue. O rhoviano que a atingiu cerrou os dentes com um misto de náuseas e orgulho. Bortoli mandou-o afastar-se com um gesto e aproximou-se da mulher em passos lentos. Afastou-lhe o cabelo dos olhos e viu as marcas escuras que o seu homem lhe deixara no rosto. Lucilla cuspiu-lhe para cima, mas não com força suficiente para o atingir.

― Sabes bem o que são monstros difíceis de domar, não sabes, pequenina? ― perguntou-lhe com um olhar perscrutador. ― Porquê? Porque é que deixaste as coisas chegarem a este ponto? Tinhas poder, tinhas tudo o que tanto almejaste. Responde-me só a isto… O que fazes tu neste fim-de-mundo?

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The Hollow Schrine (forums.nrvnqsr)

Empecilho julgava que Lucilla lhe responderia com desafio. Mas o que viu no seu olhar foi uma humildade assustadora.

― Não saberás pela minha boca, eunuco…

A provocação atingiu Bortoli exactamente onde mais o inflamara. O Mecenas trincou um lábio e voltou a suspirar profundamente para não a esmurrar.

― Há quanto tempo julgas tu que eu procuro chegar a ti, ter-te nesta posição, sob a minha mercê? O que julgas tu que eu te vou fazer? Posso cortar-te em pedaços e enviar-te por correio a Eduarda. Hein? O que me dizes?

― Faz o que quiseres. Eduarda será o menor dos teus problemas se me matares.

Mario Bortoli sorriu, finalmente.

― Ah, estás a falar de Valentina? O teu eterno amante? Duvido que ele ainda sinta alguma coisa por ti, para além de desprezo. Estás sozinha, Lucilla. Estás sozinha desde o momento em que assestaste uma coroa sobre a tua cabeça.

Dessa vez, foi Lucilla a soltar uma gargalhada. O olhar que lançou a Bortoli parecia uma qualquer tentativa de barganha, um desafio antigo, mas era uma tentativa embotada. A humildade da sua posição – e algo mais – ficavam-lhe por baixo. Camadas sob camadas. Bortoli quis ver mais de perto essa humildade e apartou as abas da pele de cabril que a cobria, pondo-lhe à vista os seios. Abriu a mão para receber a adaga do rhoviano que a coagia e brincou com a adaga, levemente, à volta de um mamilo da mulher. Aquilo roubou-lhe o sorriso do rosto. Em pouco tempo, uma senda vermelha envolvia os lugares onde Bortoli passeava com a adaga. Ainda assim, havia cobiça no seu olhar.

― Não estava a falar de Val ― disse ela por fim, com um ar sério. ― Estou a falar de Sander Camilli. É ele quem sustenta o Império.

― Mata-a ― grunhiu Allen. ― Fá-la calar-se.

Lucilla virou o rosto subitamente para Allen.

― Porque é que não lhe contas tu a verdade… Allen? ― Allen pareceu encolher-se e recuou um passo. Bortoli voltou o olhar para Allen e depois novamente para Lucilla.

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Cloud de Final Fantasy (nintendolife)

― Qual verdade, Lucilla? ― perguntou Bortoli. ― Eu sei quem é Sander Camilli. Sei que ele tem poder no Império, mas não foi ele quem o conquistou, pois não? Foste tu e Eduarda, com a ajuda preciosa de Dzanela. Não me parece, no entanto, que Camilli fique muito embaraçado se eu me livrar de ti e te enviar por correspondência. Será um aviso.

― Um aviso? ― perguntou Luce.

― Um aviso daquilo que acontece a quem se coloca no meu caminho. Que nenhum de vós gozará de vantagem quando se prostrar diante de mim. Um aviso… para que percebam finalmente com quem se estão a meter.

Lucilla sorriu.

― Ainda assim, algo te demove a matar-me. Só te vejo a palrar. Se me quisesses morta, já o tinhas feito.

Bortoli pareceu hesitar na resposta, e Jupett Vance deu um passo em frente, descruzando os braços.

― Há vantagem em mantê-la viva ― respondeu Vance. ― Enviá-la morta, como um aviso, será também um alerta. Redobrarão as suas defesas. Isso não nos será conveniente… Relembro que somos uma grande força militar, mas vamos enfrentar a sede do Império. Não há guarnição ou posto avançado tão reforçado como a própria Chrygia. Podemos usar Lucilla ainda como um trunfo, se a mantivermos como prisioneira.

Lucilla assentiu, como se parte do seu medo tivesse passado como uma nuvem pelo seu olhar. Mario Bortoli, no entanto, revolvia-se por dentro. Engoliu em seco e suspirou.

― Isso é uma loucura ― rebateu Allen. ― Vocês nunca viram esta mulher a lutar. Ela fugiria à primeira oportunidade, e se calhar a aliar-se a Língua de Ferro… Não os subestimem. Será difícil que Camilli não proteja as defesas de Chrygia, depois deste massacre. Estamos a dois passos de Chrygia e as notícias sabem-se depressa.

Empecilho viu os rostos de Allen e de Vance a cruzarem-se. Se Vance Cego tivesse expressão no olhar, censuraria o suposto Landon X pela petulância. Os dois aconselhavam Bortoli à sua maneira, e cada um com as suas motivações. Para Empecilho, tais motivações escapavam como manteiga derretida pelos dedos. Ainda assim, Mario Bortoli tomou uma decisão.

Esticou o braço com a mão aberta, mantendo a adaga pousada sobre o punho. As probabilidades não abonavam para Lucilla. O rosto por detrás de Landon X. A mulher que Língua de Ferro mais amou em toda a vida. Vance Cego caminhou em passos lentos para Bortoli. Se ele desrespeitasse as suas decisões, perderia não só o seu posto como comandante, como também a confiança de Bortoli. Empecilho era um bom observador, e apesar de saber pouco sobre o homem, sabia que Vance Cego faria de tudo para manter a sua posição. O seu interesse principal parecia residir na batalha entre as forças de Bortoli e o Império, e tudo o resto seria acessório.

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Guerreiro similar a Vance Cego (Boris em animeonly)

Ao colocar-se ao lado de Mario Bortoli, Vance pareceu perscrutá-lo.

― Os desígnios do tempo são incertos, Bortoli ― disse o homem cego. ― Mas se encontrar vitória nesta cruzada, saberá que os seus homens vieram movidos por promessas de ouro e de água, e não por liberdade. E as falsas vitórias costumam ter um preço amargo.

Bortoli fungou.

― Isso é um ultraje, comandante?

Vance Cego fechou os olhos e voltou a abri-los. A palma da mão de Bortoli ainda estava aberta. O olhar de Lucilla girava, suplicante, entre um e outro.

― Saberá a seu tempo. ― Ao dizê-lo, Vance Cego pegou no punho da adaga e, com um movimento veloz, cravou-a na testa de Lucilla.

Os olhos da mulher ampliaram-se subitamente, no momento em que o coração subiu-lhe à boca e o último suspiro morreu-lhe com a vida. Uma linha vermelha desceu pela testa, contornou o nariz e galgou os relevos suaves dos seus lábios. Vance Cego empurrou a adaga até que o sangue começou a sair aos borbotões. Allen soltou uma risadinha de alívio. Mais ninguém ali parecia contente, nem mesmo Bortoli. Empecilho estremeceu. Ele matou-a… Matou-a mesmo. O grande amor de Língua de Ferro tinha sido silenciado.

Para sempre.

Vance Cego virou as costas ao cadáver, que tinha caído para o lado, como um fantoche deixado ao abandono pelo titereiro. Mario Bortoli não se moveu.

― Não precisávamos dela, Vance ― disse Bortoli, como se a consciência lhe estivesse de algum modo a pesar, ou como se devesse qualquer explicação ao seu comandante. ― O sofrimento que eles me causaram… Tinha de pôr um termo a isto. E ainda temos Allen. Usá-lo-emos como refém.

Allen pareceu subitamente ter mudado de ideias, começando a gaguejar, quando os rhovianos se acercaram dele com expressões ameaçadoras. Vance Cego já caminhava para a escadaria, determinado, mas estacou.

― As premissas mantêm-se, mas os peões mudam ― disse Vance. A mensagem era endereçada a Allen. ― Sei o que ainda significas para o Império. Sei o que julgas e o que procuras.

― Eu só quero acabar com esta cáfila… comandante ― grunhiu Allen, tenso.

― Não ― replicou Vance Cego. ― Ainda tens algo a ganhar, e estás a jogar com as peças que tens. Peças quentes, que te escaldam a palma das mãos e não sabes o que fazer com elas a não ser movê-las por impulso. Não tens estofo para jogar este jogo, ainda que tenhas conseguido enfraquecer uma das fações, e por isso limitas-te a criar ruído em volta de peças obsoletas, mas esse ruído chama as atenções para ti. Foste atirado para o tabuleiro pelo professor que te ensinou a jogar, levado a acreditar que eras mais importante. Lamento informar-te, mas enganaram-te desde o início. Só agora entraste no jogo. Tinhas passado despercebido até hoje.

― O que raio está para aí a dizer? ― perguntou Allen, já abespinhado.

― O sangue de Lucilla está nas nossas mãos, e ainda que isso pouco signifique para mim, será o teu fim.

Com essas palavras, Vance lançou-se escadaria acima. Ravella seguiu-o, não sem antes atirar uma expressão de desdém para Allen. Os rhovianos amarravam agora os pulsos ao irmão de Dzanela.

― Hey! Bortoli, o que raio me estão a fazer?

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Homicídio em How Comes (myanimelist)

Bortoli tinha estado a fitar o rosto morto de Lucilla durante aquele tempo. O corpo parecia mole e lânguido, a testa enegrecia em volta da adaga, mas a pele ainda parecia quente. Cobriu o peito exposto do cadáver com as abas da pele de cabril e voltou-se para os seus homens, ligeiramente desorientado.

― Ela morreu, Allen ― disse Bortoli. ― E preciso de um novo refém… Vance tinha razão! Ele parece ter sempre razão.

Enquanto os seus pulsos eram apertados por cordas de cânhamo, Allen ia ficando mais nervoso.

― Se concordava com ele, porque é que a mandou matar?

― Lucilla não vai ser enviada para Chrygia. Parte do que lhe disse foi uma patranha. A morte dela será um aviso, sim, mas para alguém que ainda está entre nós. E ele virá, Allen. Ele virá até mim! Nem que seja a última coisa que faça.

Allen engoliu em seco, a estremecer. Empecilho compreendeu aquilo a que Mario Bortoli estava a referir-se. Lucilla será um aviso, e um isco. Bortoli quer que Língua de Ferro vá até ele, onde quer que ele esteja.

― Mãos à obra ― vozeou Bortoli ao abrir a porta da rua. ― Temos uma longa viagem a fazer. Até Chrygia.

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Estou no Wattpad #14

Saudades do mais intrépido guerreiro de Semboula? Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer está de volta para mais um capítulo. No último volume, Língua de Ferro enfrentou Vance Cego, que o deixou K.O. e lhe ofereceu uma profecia e uma missão. Inexplicavelmente, as certezas do nosso herói mudaram e os seus sentidos também se tornaram mais apurados. Será mesmo verdade que a essência – seja ela o que for – o reclamou para si? Determinado a descobrir a verdade, Língua de Ferro assassinou Agravelli Domasi e pediu a Marovarola que o levasse a Averze, o senhor que controla a cidade de Ccantia. O que esperar deste novo capítulo?

CAPÍTULO CATORZE: O OLHAR DA MORTE

“Deambulei por horas, dias, semanas. Encontrei um grupo de salteadores num vale arborizado. Escondi-me nas sombras e ataquei sem sobreavisos. Eu estava sedento de vingança; Apalasi estava sedenta de sangue. Nunca soube se aqueles homens mereciam a morte. Pelo menos, uma morte tão cruel quanto aquela que lhes ofereci. Degolei, desmembrei, cuspi para cadáveres enquanto praguejava aos deuses. Todos eles pagaram por um crime do qual não tinham culpa. Lucilla. Perdi Lucilla no último momento. O meu plano, o elaborado plano que tanto me inflamara de presunção, tinha falhado. Mas eu só pensava nela. Luce.”

Havia uma caravana de camelos a atravessar a rua escura, empurrando a populaça para as bermas da estrada. Esperaram que ela passasse.

― Este fedor a camelos ― grunhiu Marovarola, levando a mão ao nariz ― dá-me sempre a volta ao estômago.

― O que me dá a volta ao estômago é a tua hipocrisia, Dagias ― murmurou Língua de Ferro, ao seu lado.

― Ora, Val… Todos queremos o mesmo, não adianta fingir que somos os melhores amigos, mas nunca fui hipócrita contigo; sempre soubeste que eras um instrumento nas minhas mãos.

A tentação de fazê-lo engolir aquelas palavras nauseantes com o seu aço era grande. Deixaram Tayscar amarrado no esconderijo da Companhia dos Ossos, assim como Seji, depois de encerrarem a taberna. Mais tarde, decidiriam o que fazer com eles. Os encontrões sucediam-se entre os transeuntes, a maioria gatunos e comerciantes, a fauna mais abundante nas ruas de Ccantia.

― Não subestimes a minha paciência ― disse Língua de Ferro ― , caminhamos há quase meia hora.

Marovarola virou-se com ar jovial e abriu os braços. Tinha o florete embainhado na anca esquerda e o seu olhar eram duas moedas de prata.

― Tu pediste para te levar ao rei do crime, aquele que controla os bordéis e faz tremer os agiotas. Não achas que a discrição é um seguro de vida?

Língua de Ferro franziu a testa e continuou a andar.

― Estamos a andar às voltas?

― Não exatamente, digamos que estamos apenas a seguir um curso mais longo.

― Estás a adiar o inevitável.

― Não, não, não, não! A evitar ser perseguido, o que seria de certa forma embaraçoso. Marovarola é um espião, ser alvo de perseguição seria o equivalente a ser apanhado a mijar num salão de baile, com as calças caídas pelos tornozelos.

novo-6dez

 

Língua de Ferro sorriu. Estava na posse de faculdades que Marovarola não podia prever. Não estavam a ser perseguidos. Continuaram por uma via transversal, menos movimentada.

― Dagias Marovarola?

― Eu?

― És patético.

Marovarola encolheu os ombros.

― Eu sei que sim ― respondeu.

Pararam ao fim da rua. Ali ficava uma mansão de dois andares, com sebes de arbustos bem aparados a fazer de muro à volta de um jardim. Através do portão gradeado, com as figuras de leões encastrados em baldaquinos laterais, podiam ver um jardim colorido e bem podado, com canteiros altos e uma estrada de paralelepípedos em calcário.

― É a mansão de Averze? ― perguntou Língua de Ferro.

Marovarola meneou negativamente a cabeça.

― Oficialmente, sim. Na prática, um refúgio para padres, aqueles cujo pecúlio patrocina a sua estadia, ainda que, desde a Seca, a sua abundância não derive das esmolas. Hoje podemos encontrar Averze; é o dia da recolha de fundos.

Sabes muito sobre este homem, pensou Língua de Ferro. Seguiu-o em torno da habitação. Ao chegar à esquina, Marovarola parou e levou um dedo à boca, dando a entender que alguém se aproximava. Encostaram-se aos arbustos e fletiram as pernas. Esperaram que dois homens vestidos com camisas de boa pele e com espadas grandes à cintura passassem sem os notar. Caminhavam pachorrentamente e não pareciam jovens, embora fossem bem constituídos e gracejassem sobre mulheres. Quando os homens desapareceram, Língua de Ferro perguntou:

― Quem são eles?

― Ninguém com quem nos devamos preocupar. Guardas chrygianos. Averze é um bom empregador.

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Jack Sparrow (browsing digital art em deviantart) de Piratas das Caraíbas, inspiração para o personagem Marovarola

Aquilo ficou a remoer na cabeça de Língua de Ferro. Quando deu por isso, Marovarola já tinha saltado sobre uma sebe, desaparecendo para lá dela. Língua de Ferro olhou para ambos os lados e fez o mesmo.

O interior do jardim contrastava com tudo aquilo que era Ccantia. Cuidado, organização e uma extrema falta de lixo. Cada pedra parecia ter sido assente com a máxima exatidão, cada planta estimada com afecto. Não era muito comum existirem plantas tão exuberantes em Semboula. Mantê-las exigia água, e para ter água suficiente para cuidar de plantas era necessário ser rico. Muito rico. Um capricho num ecossistema moribundo.

Seguia os passos de Marovarola com precaução. O farfalhar de uma planta fez Língua de Ferro rodar sobre si mesmo. Não viu nada. Os seus sentidos, porém, estavam mais apurados do que nunca. Sabia que havia ali alguma coisa. Marovarola pareceu não reparar na sua hesitação e começou a falar:

― Certa vez, conheci um meliante que tentou roubar plantas aqui. Uma toufelina, aquela ali de caule comprido ― disse, apontando para uma planta alta com um botão azul e pétalas arroxeadas. ― Dizem que cura diarreias.

Língua de Ferro limitou-se a suspirar, macambúzio.

― Aposto em como ficou curado da diarreia com um quadrelo entre os olhos ― retrucou, ao ver um sujeito armado de besta sentado num canteiro. Palitava os dentes com apatia e não pareceu registar a presença de ambos.

Marovarola abriu muito os braços.

― Bem, digamos que Averze consegue o que quer desta cidade com um simples coçar de nariz. O tipo ajoelhou-se, um aborrecimento de convulsões e de justificações, sabes como é. Borrou-se todo e foi para casa.

― Só isso? Simplesmente foi embora?

― Claro que sim, depois de limpar a sujeira com as próprias mãos. O chefe perguntou-lhe se queria que lhe limpassem as mãos, ele disse que sim e cortaram-nas. Averze é um tipo decente, sabes? Pouco pára por aqui, mas não gosta que mexam nas coisas dele.

Língua de Ferro fez que sim com a cabeça. Quando chegaram à porta de casa, encontraram mais dois homens. Um era gordo, com uma camisa aberta para deixar o peito a descoberto e as mangas arregaçadas até aos cotovelos. Ensopado de suor, tinha um cinto no último furo a segurar-lhe as calças de bom couro. Manejava uma besta com uma mão e um odre de aguardente com a outra. Parecia ser ccantiano, sujo e bem-disposto. O outro era diferente. Tinha o manto imperial, com as insígnias de Landon X – os Poços do Império. Era ainda jovem, com ombros esguios e tensos, e um revólver estava preso à cintura.

― O que se passa aqui? ― perguntou o jovem.

Marovarola enxutou-os como moscas e gargarejou. Ninguém lhe criou oposição. Atrás deles ficava uma ampla porta de cerejeira com um A escrito por cima de um batente de chumbo. Bateu à porta e pouco depois apareceu uma mulher gorda com um avental.

― Ah, senhor Marovarola. O meu amo estava à sua espera.

Língua de Ferro não prestou grande atenção à mulher. Ouviu um miar de gato atrás de si, oriundo do jardim, e quando se virou por instinto, viu um gato, mais branco que leite, a miar na sua direção. Também os olhos do gato eram brancos, sem a menor expressividade. O gato voltou a miar e correu para longe.

Os corredores eram longos e bem mobilados, com candelabros antigos e boas tapeçarias do período pré-Cacetel. A mulher abriu uma pesada porta de carvalho envernizada, com mais de dois metros, e fez-lhes sinal para que entrassem, dando a entender que esperava que o fizessem rápido. A porta era pesada.

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Imperatriz Laseen e seus filiados (em Malazan Wiki) de Malazan

O interior revelou-se amplo. Um escritório moderno, rico em tapeçarias e com expositores repletos de estatuetas, estelas e mapas, pedaços arqueológicos incríveis como pedras toscas na forma de deuses esquecidos. Uma imponente secretária dominava o salão, à distância, coberta por rolos de pergaminho e mata-borrões. Aquele que devia ser Averze estava voltado para um quadro na parede, sentado de costas para a secretária. Cinquenta centímetros de comprimento por um metro de altura, o quadro mostrava o lendário Ramur de Terra Árida, montado num camelo, com um turbante a pender da cabeça, a testa franzida e uma cimitarra em cada mão, num movimento atacante.

― É engraçado, como heróis vão e vêm, e morrem sempre com os bolsos vazios ― disse o homem, com os braços cruzados atrás da nuca.

Língua de Ferro reconheceu aquela voz. Quando ele se ergueu e virou, não teve dúvidas de quem ele era. Vi a morte nos seus olhos. Merren “Anéis da Morte” Eduarda.

― Trouxeste-o até mim? ― perguntou o homem.

Marovarola pigarreou com uma mão à frente da boca e deu um passo à frente, antecipando uma justificação.

― Ele pediu que o trouxesse até Averze, meu senhor! ― Deslocou o olhar de Eduarda para Língua de Ferro. ― E matou Agravelli…

Merren “Anéis da Morte” Eduarda não parecia revelar a menor pontada de humor. Era um homem alto de ombros largos e peito maciço, com um olhar de esfinge e nariz de falcão. Longos cabelos negros caíam-lhe sobre os ombros e o queixo era agudo como a ponta de uma flecha, ligeiramente recurvado para cima. Vestia um longo e requintado casaco brocado de couro negro com gola alta, todo unido a colchetes, que lhe chegava acima dos tornozelos em pregas escuras como a noite. Botas negras, cheias de fivelas e ilhoses, desapareciam por entre as pregas.

― Eu estava à vossa espera ― disse Eduarda, com aparente calma e algum pesar. ― Brovios está morto. O que fizeste a Lucilla?

Língua de Ferro não estava a compreender. Anéis da Morte era o rei do crime de Ccantia? Não faz sentido, mas…

― Merren Eduarda… o Anéis da Morte ― murmurou com um assobio, dando dois passos em frente sem mostrar propensão a desembainhar a espada. ― O melhor guerreiro com quem já combati. O fundador da Trupe da Morte. Uma das caras de Landon X. O rosto por detrás do Império. E é também Averze, o senhor corrupto da cidade-sombra.

Eduarda franziu a testa e voltou a sentar-se na secretária. As suas mãos eram compridas e viris, cujos dedos repletos de anéis negros justificavam o apelido.

― As circunstâncias em que nos cruzamos foram aspiradas pelas areias do tempo, Leidviges Valentina. A Trupe da Morte foi enterrada sob cortinas de areia, e da areia nasceu uma nova vontade.

Língua de Ferro sorriu.

― Landon X.

Sem sorrir, Eduarda assentiu com a cabeça.

― Ainda não me respondeste… onde está Lucilla?

― Não faço pálida ideia. Descobri o seu refúgio e revivi… certas emoções do passado. Um tipo cego matou Brovios e ela fugiu nua como chegou à cidade, janela fora. Não fiquei comovido.

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Jaime Lannister, o regicida (akvarion em pinterest) de Crónicas de Gelo e Fogo

Àquela altura, Língua de Ferro já havia detetado uma preocupação em Anéis da Morte. Ele está feito com Luce. E Marovarola é pouco mais que um prestador de serviços. Marovarola e Eduarda trocaram um olhar cúmplice e preocupado.

― Vance Cego ― sussurrou Marovarola. ― Bortoli está por detrás disto.

Eduarda cofiou o queixo, pensativo.

― Ou talvez não. ― Ergueu o olhar do tampo da secretária – onde a estatueta de um escriba gordo impedia um pergaminho aberto de se enrolar – para o rosto hermético de Língua de Ferro. ― Chegamos ao fim da linha, Valentina. Está na hora de colocar as cartas em cima da mesa. És mais inteligente do que contávamos, mais do que Lucilla esperava. Dzanela juntou-se à Trupe da Morte, como é do conhecimento comum. A irmandade dispersou-se e perdeu poder. Muitos de nós acabaram mortos e forjamos uma nova sociedade.

Língua de Ferro suspirou fundo, com os braços cruzados à frente do peito.

― Sim, já o sei. Landon X.

Eduarda assentiu com a cabeça.

― Uma pequena ambição – liderar o submundo rezoli. Encontramos Lucilla num bairro de lata, a asfixiar o pescoço de um proxeneta e a ficar-lhe com as pratas. Achei-lhe piada. Dzanela, como sabes, já a conhecia. Senti relutância em ter uma mulher connosco, mas Lucilla revelou-se, pouco a pouco, o cérebro do nosso grupo.

― A catraia sempre foi matreira ― soluçou Marovarola com uma gargalhadinha, que se silenciou ao perceber o olhar pejorativo de Eduarda.

― Um pastor cego apareceu no nosso caminho. Disse que iríamos conquistar o mundo. Que os mares iriam secar e que a água viria a valer mais do que o ouro. Claro que o ignoramos. Mas depois vieram as evidências. A água começou realmente a secar. Dzanela era o mais irreverente, o único que ficara inquieto com as palavras do homem. Uma ideia começou a germinar na cabeça de Luce. Tínhamos inúmeros devedores. Já controlávamos o submundo. Sabíamos que, para ser mais influentes, precisávamos de certas peças capitais do nosso lado. Corremos três cidades até encontrar Dooda Vvertagla. ― Os olhos de Língua de Ferro piscaram.

― Dooda?!

Na vida, só existem duas opções, dissera-lhe Dooda. Vencer ou morrer. Rir ou chorar. Opto sempre pela primeira.

― O feiticeiro, como sempre lhe chamaram ― confirmou Eduarda. ― O mestre das trapaças. Foi ele quem nos trouxe até Ccantia. Foi ele quem congeminou o que viria a tornar-se o novo Império.

Dooda Vvertagla, a mente por detrás de Landon X? Língua de Ferro tinha os ouvidos prenhes de mentiras, mas algo – talvez o dom inusitado que vinha a despertar em si – dizia-lhe que aquilo era verdade. Fora vítima de uma cabala. Dooda encontrara-o e perdoara-lhe a traição, vindo a perceber exatamente quais eram os terrenos que pisava. Preparou tudo antes de Dzanela entrar em contacto consigo, levá-lo a ser aprisionado por homens do Império e depois agir para o libertar. Não fora o próprio Dooda a levá-lo a Constania, porque seria ele a resgatá-lo. A Dzanela cabia o papel do traidor.

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Karsa Orlong (slaine69 em pinterest) de Malazan

― Em Ccantia, Agravelli e Brovios juntaram-se a nós ― prosseguiu Eduarda. ― Landon X era uma versão mais sofisticada dos antigos Doze Vermelhos. Agravelli tinha o sangue de Cacetel, ser-nos-ia útil. Apesar disso, tornara-se seco e pouco interessado na sua herança. Brovios, no entanto, assegurou-nos que ele faria tudo o que ele lhe dissesse. ― Isso explica porque Seji entregou uma possível informação valiosa a Brovios, e não a Agravelli, pensou Língua de Ferro. ― Ao controlar a cidade-sombra e todo o submundo daqui até Rezos, de certa forma já controlávamos o mundo. As evidências de que os mares estavam a secar começaram a mostrar-se maiores e maiores. Algo moveu-nos a apostar todas as cartas na profecia do pastor, o que naquela altura parecia loucura, mas começava a fazer sentido. Demoramos seis anos a recolher água aos devedores, a contratar homens para coletar água nos rios e mares, a construir em segredo aquele que viria a tornar-se o símbolo do Império. Duas megalíticas edificações nos desertos, para a armazenar. O novo Império ganhava forma. Ocorreu alguma agitação entre os homens que se julgavam poderosos, mas nós já éramos os mais poderosos em todo o Império.

Língua de Ferro sorriu. Marovarola pareceu momentaneamente perturbado. Parecia não estar totalmente informado sobre aquilo.

― Esse pastor cego deve ser o comandante de Mario Bortoli ― guinchou. ― Vance Cego. Chama-se a si mesmo Assassino de Deuses e disse que me podia oferecer o Império. Garantiu que Landon X conquistou-o graças às suas informações. ― Língua de Ferro viu genuinidade na forma como Marovarola estremeceu e virou o olhar para si. ― E foi esse bastardo quem matou Brovios.

Anéis da Morte encolheu os ombros.

― Leidviges, foste usado como um peão até agora. Somos obrigados, agora, a contar-te a verdade. Dizem que Cacetel suicidou-se, enlouquecido com a morte dos deuses. A verdade é mais terrível. O senado conspirou contra ele e mataram-no com veneno de cicuta. Foi a janela de oportunidade que nos faltava. Aproveitamos a instabilidade política e o nosso poder acumulado para chegar ao trono. Dooda não quis nenhuma posição de poder, embora continuasse a colaborar connosco. Apostou na formação dos novos Doze Vermelhos. Eu, Luce e Dzanela ficamos com o poder em Chrygia, como um Triunvirato, usando Allen como máscara. O senado apoiou-nos numa primeira instância, mas isso mudou. Ao colocarem as mãos no nosso tesouro mais precioso – a água – ganharam também poder. Era algo que não podíamos negar a uma entidade tão importante do governo. Para além disso, o senado tinha a confiança dos patrícios. Enfraquecemos. A nossa única alternativa foi colocar um membro do senado no nosso governo. Sander Camilli foi o escolhido. Não tenho arrependimento maior. Eu saí provisoriamente do Triunvirato, e foi nesse período que me estabeleci aqui, onde exerci o meu papel de rei do crime, a coberto de um nome falso – Averze. Pouco a pouco, Camilli tem vindo a minar a nossa hegemonia. Colocou a sua favorita como comandante-em-chefe dos exércitos, apontou uma arma à cabeça de Allen e armou uma emboscada a Dzanela, durante uma campanha.

Língua de Ferro assentiu com a cabeça.

― Todos nós sabemos o que aconteceu a Dzanela.

― Acabou morto nos desertos, sim. ― Eduarda engoliu em seco. ― A ameaça sobre Allen deixou de fazer efeito. Eu ocupei de volta o lugar em vaga no Triunvirato e Camilli encontrou outro alvo para a sua ameaça.

― Outro alvo? ― perguntou Língua de Ferro, curioso.

― Raptou as minhas filhas e levou-as para os Poços. Ele controla os Poços e tem as minhas meninas como alvo. Se Sander Camilli morrer, existem ordens para que as minhas filhas sejam afogadas nos Poços do Império. Uma em cada Poço. ― Os olhos de Eduarda mostravam morte. Sempre mostraram. Mas desta vez, é a morte das suas próprias filhas. O terror de um pai. Anéis da Morte está desesperado. Desesperado pela minha ajuda.

― Onde é que eu entro nisto? ― perguntou, sem entusiasmo. ― E Marovarola, porque é que ele provocou esta revolução contra o Império?

Eduarda relaxou momentaneamente e voltou o olhar para Marovarola.

― Estou-me a borrifar para coroas e politiquices, Val ― respondeu Marovarola, com um encolher de ombros. ― Sou um mercenário. Sempre fui. Quero os meus cofres cheios de água e algumas pratas nos bolsos. A conversa de que Luce conquistou o trono e que todos ficamos muito incomodados com a ousadia é balela, como já deves ter percebido. Pelo menos para nós. Bortoli é a excepção.

Anéis da Morte continuou:

― A função de Marovarola era provocar uma rebelião, unir Mario Bortoli a essa revolta e guiar-te para te transformares no general das suas forças. Por isso te prendemos, para te trazer para esta guerra ― assumiu Eduarda. ― Lucilla acreditava, ao início, que só tu poderias liderar um exército assim. Bortoli tem agora um novo comandante, esse Vance Cego, que me desassossega e não faço ideia de quem seja, mas que não é uma prioridade. Eu não posso pôr em risco as minhas filhas. Quero que Bortoli enfrente Chrygia, quero que Bortoli esmague Camilli, quero que os dois se fodam e o Império também. Quero que tu vás até aos Poços e salves as minhas filhas… antes que seja tarde demais. Em troca, o Império é teu… A coroa de acanto será tua, se assim o almejares.

Língua de Ferro estudou a questão e sorriu.

― Já lutei consigo, Anéis da Morte. É um guerreiro formidável. Porque não salva você as suas filhas?

― Um pai não controla as suas emoções, Leidviges. E se tudo correr mal… ― Baixou o olhar. ― Luce nunca me iria perdoar.

Língua de Ferro ergueu uma sobrancelha. Marovarola aproximou-se e disse-lhe ao ouvido, enquanto lhe dava palmadinhas no peito.

― A tua Luce, Val, é a mãe das filhas dele. ― Aquilo pareceu regozijá-lo. ― Mas ainda podes vir a ser Imperador, não é divertido?

Para Língua de Ferro, foi um choque. Anéis da Morte e Luce, juntos? Com duas filhas? Uma série de perguntas martelavam na sua mente. Ravella amava Regan, talvez por isso ela não me contou que foi ele a fundar Landon X?; e Allen, estaria feito com eles? Dooda suicidou-se para me salvar, ou para manter Allen nas minhas mãos? Qual o verdadeiro propósito de Jupett Vance? Lucilla algum dia me amou? Amará Eduarda? A torrente de questões foi interrompida quando bateram à porta. Marovarola afastou-se alguns segundos para cochichar com um guarda e voltou apressado.

― Más notícias… Os exércitos de Bortoli levantaram acampamento e dirigem-se para cá. Os índios e os rhovianos que já estão na cidade começaram a causar problemas graves. E… Bortoli capturou Lucilla. O nosso amigo Mecenas parece ter mudado de planos.

Eduarda ergueu a cabeça, sobressaltado.

― O quê?

Marovarola cofiou o queixo, nervoso.

― Bem… Não lhe gostaria de trazer estas notícias, senhor, mas receio bem que Camilli tenha proposto uma aliança mais proveitosa ao nosso velho amigo Bortoli.

Não faz sentido, pensou Língua de Ferro. Eduarda não parecia comungar da mesma perspetiva. Ergueu-se de um salto e bateu com os punhos na secretária.

― Merda.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze

Estou no Wattpad #13

Hello, gente gira. Obrigado por entrarem mais uma vez neste meu cantinho para acompanharem as aventuras de Língua de Ferro, publicadas aqui e no Wattpad. No último capítulo, o terrível mercenário não conseguiu resistir ao desejo de décadas por Lucilla e os dois fizeram amor, ainda que tenham recebido uma visita inesperada. Vance Cego matou Brovios e enfrentou Língua de Ferro, proferindo palavras poderosas sem sentido aparente, para revelar-lhe que algo de muito importante é esperado dele. O que será que o alegado Assassino de Deuses espera do nosso herói? Aqui fica o capítulo 13, espero que gostem.

CAPÍTULO TREZE: AJUSTE DE CONTAS

“Na noite em que tudo aconteceu, ouvi Bortoli e Marovarola a conspirar contra mim. Desde aquele momento, soube que nunca poderia confiar naqueles dois. Nunca. A minha armadilha teria sido o fim de todos eles, se os homens de Cooper Ravoli não tivessem chegado tão cedo, contra todas as expectativas. Depois daquela noite, tudo mudou. Fui um foragido por um par de dias. Queria fugir com Lucilla e fazer uma vida ao seu lado. Ouvia o fragor dos comboios a vapor e sonhava com liberdade. Quando Luce foi capturada, jurei a mim mesmo que vingar-me-ia deles. Um por um. De todos eles. De todos eles.”

De um ímpeto, Língua de Ferro ergueu-se, pegou em Apalasi com as duas mãos e levou-a acima da cabeça. Os seus músculos vigorosos eram balões sombreados pelos reflexos azuis das colgaduras. A sua expressão facial, emoldurada por uma cascata de melenas azul-turquesa, era terrível. Com perícia e agilidade, Língua de Ferro fez descer rapidamente a espada na direção de Vance, que limitou-se a sorrir. A espada parou a um centímetro da sua testa. Por mais força que Língua de Ferro fizesse, os braços contraíam-se e negavam-lhe a oportunidade de golpear o inimigo. Uma ruga de terror formou-se-lhe entre os olhos. Havia uma qualquer barreira física a travar o ataque, embora nada que lhe fosse visível ou compreensível. A pressão que lhe bloqueava o ataque era tão forte que obrigou-se a largar a espada e deixá-la a tamborilar junto aos seus pés. A respiração do salteador era sôfrega, tentando recuperar o auto-controlo.

― Que espécie de poderes são estes?

Vance sorriu.

― Demasiado simples para que mentes tão complexas como a tua compreendam com recurso ao verbo. Forças opulentas em contraste têm trabalhado em silêncio, ignorando o rumor dos homens. Não é essencial para essas forças que compreendas, para que não as empregues com ostentação. És um mero veículo de essência, um peão no jogo da vida.

O homem sabia que reduzir Língua de Ferro a um simples peão não o iria coagir a ajudá-lo. O salteador cerrou os dentes e investiu contra Vance com tudo o que tinha. Os ombros maciços de Língua de Ferro contraíram-se e avançou. Jupett Vance não se esquivou ao ataque. Parou um murro com uma mão e sentiu o corpo de Língua de Ferro a pressioná-lo contra uma parede. Limitava-se a sorrir. O impacto fez a parede sacudir-se e brechas abriram-se à sua volta. Uma sombra de poeira envolveu os dois guerreiros, quando Vance pegou em Língua de Ferro pelo cabelo e puxou-lhe a cabeça para trás. O mercenário rugiu de dor e perdeu o chão quando as pernas de Vance se enlearam nas suas como uma serpente. Sem saber como, estava a cair sentado no chão, enquanto o homem cego parecia não perder a expressão divertida nem sofrer nenhuma sequela. Vance sacudiu a poeira dos ombros e cuspiu-lhe para cima.

Língua de Ferro fechou os olhos e limpou a cara com o antebraço.

― Não serei o teu peão, aborto…

― Não serás o meu peão. Ambos somos peões da essência. Ser reclamados por ela é uma honra, mas é cedo para perceberes isso. Estou disposto a perdoar a tua impetuosidade, se compreenderes que é imperial a nossa intervenção para corrigir o percurso do Fluído. Pensa em ti como um herói, se preferires, que encontra um animal caído numa armadilha. A tua moral obriga-te a salvar o animal, retirar-lhe os galhos afundados na carne e tratar dele, até que esteja recuperado e consiga cumprir o curso natural da sua vida. É disso que se trata.

― Não é uma questão de moral ― cuspiu Língua de Ferro.

― Talvez seja ― rugiu Vance, perdendo o sorriso no rosto. ― Talvez seja um acerto de contas. A essência sabe o que fizeste. Até que ponto estás disposto a expiar os teus erros, Leidviges Valentina? O que ganhaste com tudo o que fizeste até hoje? Talvez seja a oportunidade de fazer o que é certo, por uma vez que seja.

Língua de Ferro sacudiu a cabeça.

― Ninguém vale a minha misericórdia, Vance…

― Não é a tua misericórdia que a essência solicita, Valentina. Ela solicita a tua bravura, o pior que há em ti… para fazer as correções que são necessárias. Sabes o que te é solicitado. Sabes o que te é exigido.

Sem mais palavras, Vance virou-se e caminhou para a abertura onde antes estivera a porta, com uma segurança terrível. Língua de Ferro tossiu. Engolia poeira e outra coisa, com sabor a sal. O sabor das suas próprias lágrimas. Mais uma vez, ele sabia o que aquele idiota cego estava a falar. Era algo contraditório e inumano. Queria rebater, insurgir-se, mas a sua mente gritava que o homem tinha razão e sabia o que era necessário fazer.

Matá-los a todos…

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Combate entre guerreiros (Berserk)

Tinha Apalasi às costas, sob aquela grossa pele de cabril. Frio. Língua de Ferro sentia um frio estranho a meio da manhã. A agitação aglomerava-se em Riis, com curtidores, pastores, carpinteiros e artesãos a misturar-se com magarefes, cantores e prostitutas. Um camelo sujo exibia a sua língua comprida e nauseante, um par de cães negros corria entre a multidão, enquanto um outro, cinzento e macérrimo, permanecia deitado, com a grelha costal distinta sob a pele débil coberta de moscas. A populaça tinha uma maneira desleixada de caminhar. Havia um cheiro a madeiras e a enchidos e uma sensação de mentiras no ar. E havia uma multidão variegada de ccantianos, chrygianos, uranianos, pecsos e até… rhovianos. E indígenas rezoli. Sim, há homens de Bortoli impregnados de um odor almiscarado, instalados como pedaços da cultura presente. Uma mentira desconfortável.

Língua de Ferro passava os olhos por entre a multidão, com os ouvidos cheios de sons. Parecia estranho, mas conseguia distinguir todas as conversas, os regateios de comerciantes, as barganhas e perjúrios, os sermões de mães aos seus filhos, as conspirações entre sacerdotes caídos em desgraça transformados em pantomineiros e os senhores de gado em negociatas ilegais. Os rhovianos e os indígenas trocavam olhares e simulavam querelas, tateavam as suas armas e pagavam por informações. Todos os segredos e ligações sub-reptícias internaram-se na mente de Língua de Ferro de uma forma clara e fluida.

A porta da taberna estava aberta e o interior estava lotado. Seji servia à mesa com uma expressão ébria e abriu muito os olhos ao reconhecê-lo.

― Aqui? Julguei que iria embora antes do raiar da manhã… ― grunhiu ao aproximar-se, cabisbaixo. Língua de Ferro esboçou um sorriso inquietante e avançou para o coração da taberna. ― Hei, onde é que pensa que vai?

Um reposteiro de veludo que representava uma cena de batalha escondia o velho corredor que antes haviam encontrado sem qualquer segredo. Seji seguiu-o até ao acesso. Assim que ambos passaram para lá do reposteiro, Língua de Ferro levou o braço abaixo do queixo do indivíduo e comprimiu-o contra a parede do velho corredor.

― Brovios garantiu-me que você não iria meter-se no meu caminho. Espero não me ter enganado a esse respeito, Seji. Detestaria ter de sujar o meu manto com as suas entranhas.

Seji engoliu em seco, com os olhos ampliados de terror. Quando a arrogância do seu olhar se dissolveu na humildade de um suplicante, Língua de Ferro soltou-o e deixou-o cair sentado no solo, avançando no corredor com a certeza de que o sujeito não lhe faria oposição. Abriu a porta da divisão mais recôndita sem bater e deparou-se com a sala escura e fumarenta onde a Companhia dos Ossos se divertia nas jogatanas habituais. Agravelli e o seu filho Tayscar viraram desde logo os olhos para si. Doga, Temella, Samo, Venezo, Birge e os gémeos Patto e Ganorra estavam presentes. Marovarola estava entre eles, com uma expressão jovial. Todos o fitaram, surpreendidos. Agravelli Domasi ergueu-se, tentando manter uma expressão neutra e falsa cordialidade.

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Taberna (crowds.ambient-mixer.com)

― Leidviges! Onde está Seji?

A amplitude do seu braço aberto dava-lhe uma aura de anfitrião, mas os olhos encovados e cabelo hirsuto revelavam a expressão sombria de um homem derrotado, com poucas possibilidades de ganhar vantagem. Língua de Ferro sabia que, em outra situação, Agravelli nem se ergueria do seu assento. Têm algo a esconder.

― Brovios está morto e Lucilla anda a monte ― revelou Língua de Ferro.

Os homens à mesa entreolharam-se e cochicharam. Agravelli pareceu transpirar. Ajeitou as mangas da sua impecável camisa de algodão e deu meia volta para a mesa, para depois voltar-se para Língua de Ferro.

― Junta-te a nós, Leidviges, e conta-nos o que sabes.

Marovarola ergueu as sobrancelhas. Em silêncio, parecia desconfiar da atitude de Língua de Ferro, que fez estalar os ossos ao cruzar os braços, e correu todos os presentes com o olhar.

― Não pareces muito consternado com a morte de Donnatello…

Agravelli pareceu impelido a responder, mas moderou-se. Encolheu os ombros.

― Uma fatalidade ― disse Patto. ― Foi a maldita Lucilla quem o matou?

Língua de Ferro percebeu que nenhum deles estava preparado para aquilo. Não sabiam o que responder ou como reagir, mas não havia um que parecesse verdadeiramente surpreendido com a notícia. Eles já sabiam que Brovios estava feito com Luce… Língua de Ferro recordou-se que a primeira parte do seu plano com Marovarola consistia em colocar Brovios e Agravelli na linha de ataque. O conceito infantaria. Agravelli voltou a insistir na falsa cordialidade.

― Por favor, Leidviges, senta-te connosco.

Língua de Ferro aproximou-se em passos largos, passou pelas costas de Tayscar e puxou-lhe o longo cabelo dourado para trás. O rapaz soltou um grito e Agravelli empalideceu. Marovarola ergueu-se e perguntou, desanimado:

― O que estás a fazer, Val? ― Fez uma pausa, tentando controlar a sua impulsividade. ― Ah, a delicadeza rezoli… Quase me esqueci da falta de gentileza da minha parte. Vim ajustar com Agravelli um plano estratégico para entrares em Chrygia, amigo.

Uma adaga escorregou da manga de Língua de Ferro e aproximou-se perigosamente da garganta exposta do filho de Agravelli Domasi. O pomo da sua garganta estremeceu.

― Este rapaz é neto de Cacetel. Quanto vale a vida dele?

Agravelli franziu a testa e gaguejou.

― Por favor, Leidviges. Diz-me o que queres de mim… Não desejo fazer-te perder tempo.

Língua de Ferro sorriu. Quero o teu sangue…

― Onde está Bortoli? Sei que está feito convosco.

― Ele está na cidade ― respondeu Marovarola de pronto. ― Numa estalagem. Não precisavas fazer isto para sabê-lo. Temos os nossos inimigos dentro deste bairro, Val. Uma hipótese em mil de matá-los a todos. Entrei em contacto com o Mecenas para moldar a sua impressão a meu respeito e falei-lhe do nosso plano, mas obviamente tive o cuidado de manter as partes íntimas da nossa ideia bem cobertas.

Língua de Ferro soltou os cabelos loiros de Tayscar e afastou a adaga do seu pescoço. Quando parecia repensar a sua estratégia, virou-se para Agravelli e cofiou o queixo.

― Queres reconquistar o Império que é teu por direito, Agravelli Domasi?

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Faramir e Boromir (Zerochan em pinterest)

O homem pareceu vacilante quanto ao que deveria responder. Não havia nele arrogância ou orgulho, mas um olhar insípido e parcialmente derrotado. Língua de Ferro sabia que aquele homem tinha-se rebelado contra o pai, o Imperador Cacetel, mas ver Lucilla, a mulher que traíra os Doze Vermelhos a reclamar o poder que deveria ser seu era um insulto.

― Lucilla é uma usurpadora. Sei aquilo que vocês os dois tiveram, e que Dooda os perdoou a ambos. Pelas nádegas de Kalila, ela decepcionou-te, e penso que isso te tenha colocado bom senso para perceber quem deve, em boa verdade, receber a coroa de acanto. Num sentido lato, há que separar o essencial do acessório, a justiça das verdades idiossincráticas, o certo do…

Agravelli Domasi não acabou a frase. Língua de Ferro espetou-lhe a adaga por baixo do queixo, saindo-lhe por um olho. Jorraram bocados de cérebro e entranhas, uma rajada de sangue de cada orifício. A expressão facial de Agravelli ruborizou-se. A adaga ficou cravada no homem e ele caiu aos seus pés, com as botas de cano alto envolvidas em poeira. Tayscar soltou um grito. Os homens ergueram-se. Língua de Ferro sabia que tinha acabado de tombar a primeira peça do dominó.

Ao fitar Marovarola, Língua de Ferro viu o terror no seu olhar. A Companhia dos Ossos acabava ali. Com um rugido, Língua de Ferro desembainhou Apalasi e Marovarola removeu um florete da sua bainha rhoviana.

Os outros homens fizeram o mesmo e alguns contornaram a mesa. Língua de Ferro travou o ataque concertado dos gémeos Patto e Ganorra. A sua espada era maior e mais possante que as dos seus adversários. Apalasi atravessou as costelas de Ganorra, que cuspiu sangue com um gorgolejo. Com o calcanhar, Língua de Ferro golpeou Patto na cabeça, fazendo o relojoeiro cair para trás. Se sobrevivesse, ficaria com um intumescimento na nuca. Língua de Ferro removeu Apalasi do corpo de Ganorra e decapitou Patto com um golpe. Sangue espirrou-lhe para a vista.

Quando recuperou o olhar, viu que Marovarola tinha morto os restantes, com uma agilidade e voracidade impressionantes. Apenas Tayscar estava vivo, à mercê do florete de Marovarola.

― O que é que pretendes com isto? ― perguntou Língua de Ferro, sem mostrar-se impressionado. ― Nunca dá bom resultado fazer jogo duplo ou triplo com homens perigosos e pensar que um deles não dá com a língua nos dentes.

Marovarola parecia assustado, mas também ameaçador.

― A modéstia nunca foi um dos meus atributos. Não significa nada para mim. O meu trabalho é assegurar-me que todos fazem o que é suposto. Quero o mesmo que tu, Val, e aposto em como isso não te surpreende. Mas devemos colocar a estratégia conjunta em prática num curto espaço de tempo. Quem foi que nos traiu? Brovios? Ele está feito com Lucilla, e não acredito… ― Fez uma pausa. ― Raios, é mesmo isso, não é? Encontraste-a e não resististe à tentação. Fizeste um novo pacto com a cabra, para nos trair… Sempre foi essa a tua intenção, no fundo, ou estou enganado? Que os deuses me fodam…

Língua de Ferro sorriu, com a respiração pesada.

― Estás a virar os argumentos a teu favor, Dagias. O traidor aqui és tu.

― Certamente não estás a falar de Agravelli. Viste por quem eu lutei, e agora…

O rosto de Tayscar revelava o mais profundo horror. O pai e os seus companheiros estavam mortos, e tudo indicava que não ficaria vivo por muito tempo. Língua de Ferro sentiu um arrepio ao vislumbrar a segurança perdida no rosto do rapaz. Os charutos ainda fumegavam sobre a mesa redonda, com alguns cadáveres caídos sobre ela. Espessas línguas de sangue envolviam as peças de jogo.

― É pouco convencional ameaçar a vida de um herdeiro ao trono, Marovarola.

Marovarola arregalou os olhos e sorriu. Puxou um braço a Tayscar, que rangeu os dentes.

― Ora, creio que acabaste de matar um, Val. Sei que estás habituado a ser uma pessoa muito importante, mas não estás no centro do mundo. E, que a ironia do destino não me ouça, sempre apreciei secretamente esse teu génio. Mas a coisa mudou. Permite-me dar-te algumas sugestões: guarda esse temperamento para ti, mantém-te nas sombras e deixa-me tratar do resto. O massacre que vitimou a Companhia dos Ossos foi obra de um assassino misterioso, só os patetas dos deuses viram o que aqui aconteceu e há muito tempo que deixei de sentir a sua admoestação quando belisco o traseiro de uma viúva jovem. Os deuses estão mortos e a Companhia dos Ossos também. Tinham muitos inimigos e, ainda que nenhum deles tenha cabelo turquesa, duvido que alguém mova um dedo para fazer justiça nesta terra sem leis. Deixa-me tratar de Bortoli. Mantém essa tua aliança com Luce, mais cedo ou mais tarde será capital para fazer desenvolver com maior ligeireza os nossos planos. Ainda podemos corrigir este pequeno percalço e limpar a merda das nossas botas.

Língua de Ferro fungou, sem sombra de diversão no rosto.

― Estou meio tentado a mandar-te foder, matar-vos aos dois e a ir-me embora. Mas creio que ainda preciso de ti vivo. Sabes que alguns de nós foram feitos para matar, outros para beliscar o traseiro de viúvas jovens e outros para resistir aos impulsos do pecado. A religião não significa nada para ti, creio, mas ainda há quem seja bem sucedido a evitar as consequências da blasfémia. Os deuses morreram, Marovarola, mas ainda há um futuro para acontecer. Leva-me a Averze, o homem que manda em Ccantia. Ele limpará a merda das nossas botas.

― Isso é um absurdo. O que é que queres, Val?

Língua de Ferro não hesitou em responder. Limpava Apalasi às roupas dos mortos quando disse:

― Quero um ajuste de contas.

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