Estou no Wattpad #33

É verdade, chegamos finalmente ao último capítulo. Após um ano e quase dois meses de publicações, é altura de obter um pouco de glória. A publicação do último capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer. Após o terrível evento do penúltimo capítulo, resta-vos saber se alguém escapou vivo e o que aconteceu ao nosso anti-herói. Língua de Ferro conhece aqui um ponto final na sua história, num capítulo passado 12 anos depois. Espero que gostem.

CAPÍTULO TRINTA E TRÊS: UM POUCO DE GLÓRIA

“A viúva do sacerdote era uma mulher de ancas bem torneadas e olhar frívolo; na casa dos trinta anos, não mais do que isso. Segui-a e aos seus esbirros pelos bairros mais decrépitos de Constania, e quando a vi a entrar numa estalagem, os gigantes de pele escura manchada de cicatrizes montaram guarda à sua porta. Havia uma certa estranheza em tudo aquilo; soldados imperiais no perímetro; uma carroça com as cores do Império a avançar aos solavancos pelas pedras íngremes da calçada desgastada. Os homens que seguiam a viúva não eram guarda-costas tradicionais, isso foi evidente para mim desde o primeiro momento, pois tratavam-na com desafio e intimidade. Mas enquanto ali ficavam, a torrar ao sol, cochichavam sobre quem iria ela foder em seguida, como velhas mexeriqueiras. Avancei com os dedos enlaçados nos copos de Apalasi, que trazia embainhada à anca esquerda. Avancei como um freguês casual do alojamento, e nenhum dos dois homens me criou oposição. A sala comum do estabelecimento, porém, estava cheia de homens do Império, e não foram poucos os que me lançaram olhares de desdém. Ainda assim, estavam mais entretidos com o vinho e com as rameiras com quem partilhavam gracejos e gargalhadas. Vi a viúva a namoriscar com um sujeito de bigode repenicado, que lhe indicou o caminho por uma porta adjacente. Não perdi tempo. Dirigi-me ao balcão e dei duas pratas por um rum aguado que me soube a mijo. Quando o homem de bigode desapareceu da minha vista, perguntei onde era a latrina e meti-me pelo caminho secreto por onde a viúva desaparecera. Segui por um corredor escuro, cheio de portas, cheio de sombras e cheio de gemidos. Escondi-me quando vi dois guardas imperiais a passar. Falavam sobre a puta do Império, cheios de troça e de sarcasmo. Havia uma porta semi-aberta, e dele vogavam grunhidos promíscuos. Virei as costas para me ir embora. Se era verdade que o próprio Landon X estava ali, a fornicar com a viúva do sacerdote, aquilo não era trabalho para mim. O preço era bom, mesmo bom, mas não queria ganhar o Imperador como inimigo. Pensei que se tratasse de uma qualquer vingança pessoal. Talvez a mulher nem fosse viúva sequer. Apenas um meio para chegar até ele. Era só uma rameira. Quando cheguei ao fundo do corredor, porém, pensei nas vantagens de matar o próprio Imperador. Foi guiado pela minha natureza traiçoeira que regressei pelo mesmo caminho e dei um pontapé propositado na porta. Nunca vira o rosto de Landon X, mas naquele homem pálido e ossudo não vi nada do que imaginara. A viúva soltou um gemido quando rolou do sexo do homem para fora da cama, mas os seus soluços perderam-se quando Apalasi a trespassou por entre as mamas. Não me lembro de ouvir o homem gritar ou sequer se tremeu diante da minha fúria. Uma vanguarda de soldados imperiais entrou no quarto e agarrou-me. Se quisesse, tê-los-ia morto a todos. Se fosse esse o meu plano.”

― Lutaste lado a lado com Língua de Ferro, o maior salteador da História ― disse a rapariga enquanto acariciava o ombro a Catata LaCelles, o tesoureiro ministerial de Ccantia, outrora conhecido como Empecilho. ― És um exemplo para este povo.

LaCelles soltou uma gargalhada.

― Língua de Ferro? Quem é que se lembra dele? Um sacana qualquer, como houve tantos nesta terra maldita.

Tenna molhou-lhe a orelha com a língua e mordiscou-lhe o lóbulo. Estavam enroscados numa cama confortável e cheia de peles quentes, num quarto arejado cheio de almofadas e de candeeiros abaulados.

― Eu lembro-me dele ― disse a rapariga. ― E tu também. Se ele não me tivesse tirado e à minha irmã daqueles Poços, os Camilli ter-nos-iam morto a todos.

LaCelles acariciou os cabelos tépidos da rapariga, cor de mel. Beijou-a nos lábios. Se não fosse ele, nunca te teria conhecido, quis ele dizer. Tenna tornara-se uma jovem mulher, belíssima como a mãe o fora. Ninguém ficara indiferente à beleza de Lucilla, e temia que a graciosidade da filha despertasse semelhante torvelinho nos homens. Queria Tenna só para si.

― Está morto há doze anos. Punido pela ira dos deuses. Não devemos falar de homens desses, é de mau agouro. ― Sentiu Tenna a afastar-se com uma expressão desiludida no rosto, as mãos entrelaçadas no pescoço como uma criança. ― Mas ambos sabemos o que ele foi e o que ele significou para nós, e aquilo que ele evitou. Podia ser um maldito sacana traidor, mas fez sempre o que era certo e… todos os dias inspira-me a ser um homem melhor.

― Tu és um homem bom ― disse ela com um leve fletir de pálpebras. ― Ainda que não me agradem alguns dos teus negócios.

Tenna girou sobre o leito, deixando a descoberto os seios pontudos e a sombra castanha entre as coxas. Sentou-se na cama e puxou para cima as meias de cetim, com os cachos de cabelo a desenrolarem-se-lhe à volta dos ombros. LaCelles passou uma mão pelo cabelo desgrenhado com a mão direita. Podia não ter as pontas dos dedos, um lembrete terrível da sua infância, mas adaptara-se a todas as atividades que o poderiam embaraçar. Geralmente usava luvas de pelica para esconder as deformidades, mas toda a gente sabia que as tinha. Talvez o respeitassem também por isso.

― Sou tesoureiro, e ainda que não tenha o apoio do Imperador, estou bem cotado para tornar-me pretor de Ccantia. Só preciso movimentar-me nos círculos certos.

Tenna soltou uma gargalhada.

― Pretor? Tayscar nunca o permitirá. Esta gente ainda respeita os Domasi. Os que não se lembram de Cacetel, lembram-se de Agravelli. Ccantia foi forjada à sombra desses homens, se bem te recordas. Tayscar tem bons aliados.

LaCelles sorriu quando levou uma mão ao flanco da rapariga e puxou-a para lhe roubar um beijo com um estalido. Quando se apartaram, os seus olhos vibravam de paixão.

― Ccantia não é mais a cidade-sombra. Com a destruição de Chrygia, tornou-se a capital do Império, se bem que Constania seja a sede do Imperador. Tayscar tem muitos aliados, mas é fraco orador e todos reconhecem que tem muito mais talento como militar do que como político. Para além do mais, eu tenho algo que pode dissuadi-lo das suas intenções.

Tenna arqueou as sobrancelhas, desconfiada.

― O que poderá dissuadir Tayscar do poder?

― Uma profecia. Tayscar provou o sabor delas, não é verdade?

A rapariga lançou-lhe um sorriso desconfiado, ainda não totalmente certa das ideias que ganhavam vida na mente do seu amado. LaCelles fê-la cair contra a cama. Ao som de uma gargalhada dócil, sobrepôs o seu corpo ao dela e sentiu o sexo a endurecer quando a mão de Tenna o encontrou.

Sem título
Fonte: https://sroriz.blogspot.pt/2012/09/lucius-antonius-rufus-appius.html

***

― Escumalha! Saiam da frente! ― Seji praguejava contra o turbilhão de pessoas que lhe obstruíam a progressão, enquanto conduzia a sua velha mula pelas ruas imundas e apinhadas da cidade. LaCelles cumprimentou-o silenciosamente com um aceno de cabeça, quando o encontrou perto da antiga sede secreta da Companhia dos Ossos. Os anos haviam tornado os seus cabelos grisalhos brancos como neve, e as rugas no seu rosto mais pronunciadas. O temperamento, porém, mantivera-se.

― Esperava poder encontrar-vos esta noite ― disse o mais jovem, metido dentro de um gibão acolchoado impecavelmente branco e cheio de botões. ― A que se deve esta mudança de planos?

― A noite é mãe de todos os ladrões ― resmoneou Seji. ― Mas em Ccantia, há décadas e décadas que os negócios sujos são travados tanto de noite, como de dia. Há uma certa perversão secreta em fazer as coisas à luz do sol.

LaCelles fungou.

― Negócios sujos, dizeis?

― Ora, LaCelles ― disse Seji, erguendo a cabeça para a figura de capuz vermelho que enrolava as rédeas de Hije a uma escora de madeira. ― Pergunta-lhe a ele.

O diabo de Língua de Ferro, que haviam trazido de Chrygia doze anos atrás, logo após o evento no Capitólio, parecia agitado, agitando a crina e revelando a dentição clara e brilhante. Sob o capuz vermelho, o olhar vazio de Jupett Vance indicou-lhes que entrassem na taberna à sua frente.

A sala de jogos onde a Companhia dos Ossos se reunia estava terrivelmente escura àquela hora da tarde. LaCelles cruzou os braços diante do peculiar grupo que tinha à sua frente, todos sentados à volta da mesa. A expressão de Tayscar jorrava a amargor. Os olhos de Boca de Sapo luziram diante da torre de moedas de ouro que lhe dizia respeito e os de Marovarola ergueram-se da sua pilha para o rosto de Vance Cego, cheio de ódio e de desconfiança. Sindi, a irmã de Tenna, tinha um braço sobre o ombro do mercenário. Há muito que a rapariga se tornara aprendiz de vigarice de Dagias Marovarola, mas aquela intimidade surpreendeu-o. Não era tão bonita como a irmã, mas sob as sobrancelhas largas e negras como penas de corvo, os seus olhos prometiam morte. Tem os olhos do pai, Merren “Anéis da Morte” Eduarda, pensou.

Seji sentou-se entre Marovarola e Tayscar e LaCelles de costas para a porta. Vance foi o único que permaneceu em pé, atirando o capuz para traz e abarcando com as mãos as várias pilhas de moedas que se aglomeravam sobre a mesa. Ravella apareceu das sombras quando o silêncio se instalou na sala, uma mulher madura, bela e sensual, forrada a pele de leão. Tinha um negócio de couro, mas enriquecera como dona de um bordel. Dizia-se que Vance era o único que entrava na sua alcova. Debruçou-se sobre o ombro dele, com a fluidez de quem tomara aquele lugar como seu.

― Como sabem ― começou o profeta ― há doze anos atrás eu simulei a minha morte. Raymon era espião da Intendente de Chrygia, fora plantado na Prisão por ela para seguir os meus passos. Uma noite, porém, quando marchávamos para cá, no batalhão de Bortoli, eu contei-lhe as minhas profecias e mostrei-lhe o meu poder. Raymon acedeu a juntar-se-me. A minha querida Ravella fez o mesmo. ― Lançou o olhar para LaCelles. ― O então rapaz chamado Empecilho gostava mesmo daquele sacana de quem todos falam em murmúrios, mas também ele viu a luz ao fundo do túnel. Desejou a minha morte, foi-lhe leal até ao fim, mas eu conhecia o papel que ele haveria de desempenhar. E, desde o primeiro momento, olhei para ele como o filho que nunca terei.

― Isso aconteceu há doze anos atrás, maldito ― grunhiu Seji. ― Por que carga de água te lembraste de nos reunir aqui hoje?

― Eu sabia que estava derrotado, previ a minha derrota, e foi por isso que simulei a minha morte. Para escapar com vida e trazê-los comigo. Foi o que o Fluído e a essência gritaram para eu fazer. Levá-los comigo para longe do lugar onde os malditos deuses trariam a morte.

Sindi cuspiu para o chão, nauseada.

― Tento na língua a falar deles, zarolho!

Vance riu-se com a insolência da rapariga, mas LaCelles temeu por ela.

― Sei que eles foram uma companhia assídua durante parte da tua infância, Sindi! Mas também sabes que o poder deles é fraco. Por minha causa. Nunca seremos os melhores amigos, o que é uma pena.

― Deixa-a em paz, mafarrico ― grunhiu Marovarola, com os dentes cerrados. Os seus caracóis caíam-lhe para a frente dos ombros, mais grisalhos do que negros.

― Ninguém venceu esta luta, essa é a verdade. Os deuses regressaram ao seu lugar e garantiram a continuação da espécie humana, graças à existência de um único oceano. Mas onde está a flora exuberante, os magníficos rios e os mares sem fim? Semboula continua um deserto, com excepção dessa pequena expressão de poder divino que é o Oceano Novo. A minha vontade também não prevaleceu. Fui derrotado na minha intenção de forjar um Imperador leal à essência, e as gerações vindouras saberão da minha derrota. Com a continuação da espécie humana, todas as minhas ideologias caíram por terra. Ainda assim, há algo que pode ser feito. Algo que quero fazer enquanto a essência me quiser vivo.

― E o que é isso? ― perguntou Seji.

Vance sorriu e virou-se para LaCelles.

― Eu previ que LaCelles seria o novo Imperador. O nosso Empecilho, sim. Fazê-lo Imperador será a minha nova missão no mundo, e acreditem que não irei coagi-lo com os meus dogmas.

Sem título
Fonte: http://malazan.wikia.com/wiki/Nimander_Golit

Os olhares voltaram-se todos para LaCelles. Ele franziu a testa. Imperador, eu? Tinha ideia de falar com Vance sobre convencer Tayscar de que uma maldição caíria sobre ele caso lhe tentasse embaraçar as suas pretensões ao lugar de pretor, mas… Imperador? Teria Vance lido os meus pensamentos e formulado uma pretensão de maiores dimensões? Tayscar ergueu-se cheio de arrogância e agravo.

― Este… este rapaz? Imperador? Se há alguém nesta sala que merece tal posição, sou eu. Eu sou um Domasi. O meu avô foi Cacetel e…

― Não vais continuar com essa merda, pois não? ― perguntou Vance. ― Toda a gente está farta dessa ladainha. O tio-avô de Catata era Vecia LaCelles, um pretor afamado pelas suas boas relações com Cacetel. Acho que podias colocar esse orgulho de parte e esquecer os graus que os teus antepassados alcançaram. Podíeis trabalhar em equipa.

Tayscar soltou uma imprecação entre dentes e lançou um olhar de ódio a LaCelles. Isso vai ser difícil, parece-me. Vance afastou-se quando ouviu uma agitação na taberna.

― Não sabemos como a rapariga passou por nós ― disse um capanga de Vance. ― Apanhamo-la a escutar à porta.

O profeta puxou uma rapariga pelo braço e quando a ouviu gemer, o coração de LaCelles parou. Tenna. Ergueu-se de um salto e fuzilou Vance com o olhar.

― Larga-a ― disse. Soou como uma ordem. Mas Jupett Vance parecia divertido, quando a trouxe pelo braço até à mesa. A porta voltou a fechar-se e os sons aplacaram-se de chofre; a agitação da taberna pareceu ganhar a distância que uma porta fechada garantia.

― Não gosto de meninas curiosas ― confessou Vance. ― Mas sabia que virias. Eras o elemento que faltava a esta nossa reunião. Senta-te junto ao teu querido LaCelles. Talvez possas vir a ser a sua consorte, se os meus planos correrem de feição.

― Que planos são esses? ― perguntou Boca de Sapo, aparentemente entediado. ― Estas pilhas de moedas… quereis pagar-nos para matar o Imperador?

As sobrancelhas de Marovarola ergueram-se.

― Aquele idiota tem mil vidas ― disse. ― Sabemos aquilo por que ele já sobreviveu.

Algo aborrecido, Vance suspirou enquanto Tenna se sentava ao lado de LaCelles e se acomodava nos seus braços com uma mistura curiosa de medo e amor.

― Allen sobreviveu a muito, graças a Valentina ― acrescentou o fanático. ― Há quem diga que foi o icónico Língua de Ferro quem o colocou e à família sobre as tábuas de madeira que o fizeram chegar vivo a terra firme, após a queda da capital. Foram poucos os que sobreviveram, e mesmo o pai dele, Sander Camilli, viria a morrer de uma doença venérea, dois anos depois. Allen sediou-se em Constania e autoproclamou-se Imperador. O ungido pelos deuses. O único sobrevivente do flagelo que se abateu sobre a civilização. Mas agora, chegou a hora de eu cumprir a minha promessa.

― E que promessa é essa? ― perguntou Seji.

― «O sangue de Lucilla está nas nossas mãos, e ainda que isso pouco signifique para mim, será o teu fim.» Não foi uma profecia, nem uma previsão. Foi o que desejei dizer-lhe quando ele convenceu Bortoli a matar Lucilla. Eu fui a mão que manejou a adaga, mas tentei demovê-lo. Eu sabia que ela iria morrer. Eu não tinha qualquer desejo de a manter viva. Eu não tinha qualquer sentimento por ela e sabia que era uma opositora aos meus planos. E ainda assim, estava destinado a fazer algo por ela. Agora sei. Não a pude salvar, mas posso ajudar quem pretende vingá-la. Não por generosidade. Nem por amor. Lucilla foi talvez a minha maior inimiga. Mas foi a queda dela que nos uniu. De uma maneira ou de outra, qualquer um de nós está ligado a ela e ao que ela representou para este mundo. Pago-vos, em peças de ouro, para que ponham para trás das costas as vossas diferenças e se unam para erradicar aquele pateta do trono.

Tayscar soltou uma gargalhada sonora.

― Talvez Boca de Sapo aceite de bom grado, mesmo que lhe oferecesses a picha em vez do ouro ― disse ― , e acredito que agrade a LaCelles sentar o cuzinho no trono imperial. Seji é corruptível e Marovarola tinha uma ligação emocional à pega. Já as miúdas, não é necessário dizer que eram filhas dela. Mas por que merda achas tu que eu vos ajudaria nesta ideia ridícula? Um golpe de estado? Allen Camilli tornou-se um imperador louco e terrível. Tem exércitos e homens poderosos a apoiá-lo.

Vance acenou com a cabeça.

― Sim… Mas se LaCelles se sentar no trono, tu podes ser um desses homens poderosos.

LaCelles viu Tayscar a franzir o sobrolho.

― Mas eu tenho mais direito ao trono do que aquele…

― Tayscar. ― Vance calou-o com o seu nome. ― Talvez possamos dar uma volta e conversar um pouco, mais tarde. Há um ponto de vista que deverá interessar-te sobejamente.

Os dois homens trocaram um olhar de compreensão mútua e Tayscar fez relaxar os ombros, voltando a sentar-se. Havia algo nas palavras de Vance que deixava claro que, de uma forma ou de outra, Tayscar iria alinhar no seu plano, fosse através da ameaça, fosse através da sugestão de uma cabala posterior. Depois de LaCelles ser coroado, Tayscar ficaria muito mais próximo do seu sonho. Acreditava LaCelles, que era destroná-lo após conquistar a sua confiança, o que pairava na mente volúvel de Tayscar Domasi. Sabia, porém, que isso era um mero meio que Vance usava para o fazer saborear melhor a conspiração. Coçou a sobrancelha com o toco de um dedo, tentando descortinar as ilações do que significava a ideia de Jupett Vance. Eu, o pobre Empecilho, transformado num Imperador.

― Muito bem ― disse Marovarola ― digamos que alinhamos neste plano. Como é que planeias destruir um sádico tão bem protegido como Allen Camilli?

― Ora, com os Doze Vermelhos ― disse Vance, com um sorriso. ― Acho que estamos em condições de criar uma fraternidade tão famosa como a antiga trupe.

Sem título
Fonte: https://www.pinterest.com/RadicalMartian/writing-inspiration-prompts/

O palácio imperial de Constania era uma humildade de pórfiro, mármore e obsidiana, em comparação com o Capitólio da extinta Chrygia. Um edifício belo e abobadado, tão cheio de curvas como de sombras. A guarda imperial ostentava um novo símbolo; os Poços do Império na cota de armas foram substituídos por uma coroa de acanto, ladeada por duas mãos amplas e vermelhas, que pareciam segurar no aro de ferro com tanta força que, se fossem reais, quase poderiam parti-la. Caminhavam calmamente por uma das longas galerias, quando Marovarola, disfarçado com uma longa cabeleira branca e um longo casaco verde cheio de botões, pressionou Sindi contra uma parede. Um aristocrata a alimentar os seus furores lascivos com uma amante, aos olhos da guarda. Quando passaram por eles e dobraram uma curva, Marovarola apartou-se da jovem e fez-lhe sinal para que o seguisse.

― Raios, Dagias, tinhas de te aproveitar? Logo agora? És mesmo um reles de um porco ― disse, enquanto passava com as costas da mão pelos lábios, enojada.

Marovarola encolheu os ombros.

― Eu sei que gostas, minha querida. Eu sei que gostas.

Esmagaram uma latrina ao pontapé e à bordoada, fazendo uma projeção de dejetos desabar entre eles. Com expressões de grande náusea, puxaram os braços fortes de Seji e Boca de Sapo, que entraram no lugar através dos esgotos. Pragas e comentários trocistas foram trocados entre os homens. Guardas foram encontrados, postos a dormir e as suas indumentárias serviram com dificuldade aos quatro. Entraram na ala mais íntima do Imperador, onde um imenso salão de refeições acabado de encerar acabava de receber Allen Camilli.

― Estava à espera da Marquesa Abbot! ― grunhiu Allen, com a sua voz irritante, quando se voltou para o camareiro-mor, um homem velho e redondo e vermelho que não arranjou explicações para o facto de ser Ravella a mulher sentada no sofá diante da lareira há muito apagada. A Seca transformara aqueles adereços meramente decorativos.

― Tayscar Domasi ― grunhiu o sujeito. ― O pretor de Ccantia. Enviou-me uma mensagem a dizer que esperássemos a Marquesa. Não pode esperar que todos os seus homens a reconheçam.

― Como estás, Allen? ― perguntou ela, toda provocante e cheia de joias, peles e plumas.

O Imperador ficou pálido.

― O que estás aqui a fazer?

― Ela está connosco.

Os olhos de Allen moveram-se entre as sombras. Cahill Venesca fitava-o com um sorriso mórbido, vestido com um gibão cor de cenoura e rendas a jorrar dos punhos e dos colarinhos.

― O que estás a fazer aí, Venesca? Contratei-te para me contares as moedas do tesouro, não para ataviares lareiras.

Mas quando o guarda-joias passou com os dedos pelos olhos e eles ficaram brancos, e quando removeu a barba ruiva e a peruca encaracolada, transformou-se no profeta cego que lhe havia prometido a morte. Jupett Vance moveu o relógio pintado a ouro sobre a lareira e ouviu-se o som de pedra a raspar quando a parede se moveu para a esquerda. Aquele homem estava ali há tempo suficiente para ganhar a confiança de Allen, e para conhecer as passagens secretas do palácio. O Imperador estava boquiaberto.

― Guardas, guardas!

Mas os guardas ali presentes eram Seji, Boca de Sapo, Sindi e Marovarola, que neutralizaram o camareiro-mor de Allen. Adormeceu rapidamente. Da passagem aberta, assomaram cinco figuras. Uma era Tenna. A outra, LaCelles. O outro Tayscar. E os últimos dois…

Sem título
Fonte: https://malazan-art-guild.deviantart.com/art/Rake-by-slaine69-106582129

― Doze Vermelhos? ― perguntou Marovarola, com uma gargalhada. ― Os Doze não voltam mais. Sou o único sobrevivente dos Doze. Para além disso, apenas conto nove pessoas nesta sala.

Vance sorriu, com o ar de quem tem uma carta na manga.

― Será mesmo?

Soltou um estalido com os dedos e um reposteiro negro, a quem ninguém havia dado qualquer atenção naquela teia de sombras, foi afastado com vigor. Do negrume surgiu uma bela mulher de pele morena e ventre proeminente, com uma capa negra sobre os ombros. Atrás dela estava um velho guerreiro, com o cabelo azul-turquesa embranquecido pelos anos, rugas e cicatrizes a marcarem-lhe o rosto. Língua de Ferro. Tinha Apalasi presa à anca esquerda. As respirações contiveram-se. Esgares de surpresa fizeram-se ouvir. LaCelles não conseguiu deixar de sorrir.

― Allen Camilli não foi o único sobrevivente à queda do Capitólio, embora ele pense que sim ― contou Vance. ― Ele e o pai sobreviveram agarrados a pranchas de madeira, mas Allen deixou a irmã para trás, depois de ver tanto a Intendente como a avó a serem devoradas pelas águas. Foi Língua de Ferro quem salvou Ceil da morte. Durante todos estes anos, têm vivido num lugarejo abandonado, a planear a vingança. Quando descobriram que eu estava vivo, entraram em contacto comigo e convenceram-me a juntar-se-lhes. Como vêm, Ceil está grávida. De um pequeno Valentina.

Língua de Ferro sorriu para o grupo ainda estupefacto quando se encostou a Ceil e lhe acariciou o ventre.

― Quando tudo isto acabar ― disse Língua de Ferro, numa voz mais áspera do que LaCelles se lembrava. Fazia-lhe lembrar pedra a raspar em couro. ― Voltarei para o deserto rezoli com Ceil e o meu filho. Allen Camilli será morto por um fantasma. Só um fantasma. A História de Semboula dirá que Leidviges Valentina morreu em Chrygia.

De facto, aqueles homens pareciam estar a ver um fantasma. No fundo, todos eles temiam que ele também tivesse boas razões para os matar. De um jeito ou de outro, todos o tinham traído. Ou talvez não o faça, pensou. Também ele foi um traidor. Dooda, Dzanela, Lucilla. Eduarda. Sander. Passaram a vida a passar a perna uns aos outros e acabaram todos mortos. Bem, quase todos. Falta matar Allen. Depois dele, talvez tenha chegado a hora de parar com as vinganças.

Mas quando Língua de Ferro enterrou Apalasi no ventre mole do Imperador, e este caiu de joelhos com borbotões de sangue a jorrarem-lhe dos lábios, os olhos de Allen viraram-se para a irmã, a pedir ajuda. Ou a pedir perdão. Ninguém o podia saber. Tayscar assobiou para o ar e perguntou:

― E agora, o que fazemos?

Língua de Ferro colocou a bota no peito de Allen para lhe remover a espada. Sangue espirrou à sua volta e alastrou-se pela folha de lâmina. Língua de Ferro soprou para afastar o cabelo dos olhos e voltou-se para Tayscar com o fôlego pesado e um sorriso no rosto.

― Pensei que darias um bom formando, Tayscar. Mas de um rapaz pedante tornaste-te um homem empertigado, respaldado nos feitos dos teus antepassados. És do tipo de sacanas traiçoeiros que são mais fáceis de matar. Agora? Agora morres.

LaCelles olhou estupefacto para os dois homens, mas foi Ceil quem apareceu atrás de Tayscar e lhe tapou a boca com um pano. Com a outra mão, puxou-lhe um braço. Sentiu-o a debater-se contra a falta de ar. Sentiu-o a sofrer antes de morrer. Língua de Ferro beijou o polegar da sorte e escarrou para o solo.

― Era o único de entre nós que podia criar oposição aos nossos planos ― explicou Vance, perante os olhares incrédulos. Voltou-se para LaCelles. ― Marovarola será o nosso adido em Ccantia, pago mensalmente a peso de ouro. Nomeará um pretor da nossa confiança. Raymon será o teu guarda-costas, e também camareiro-mor. Seji, o chefe da guarda. E eu ― disse, colocando-lhe uma mão sobre o ombro, conduzindo-o até ao quadro que representava a coroa de acanto original, perdida algures nas profundezas do Oceano Novo. ― Se assim o desejares, serei o teu conselheiro.

LaCelles lançou o olhar para Tenna, e viu as lágrimas a descerem-lhe pelas faces. Depois, deslizou o olhar para Língua de Ferro. Leidviges Valentina olhou-o com orgulho, e deu-lhe a bênção com a cabeça. Ainda assim, LaCelles não se sentia seguro. Jupett Vance não era um homem de valores, um homem que respeitasse a palavra dada. E temia verdadeiramente que ele o quisesse usar para ressuscitar as crenças insanas que poderiam levar a um suicídio em massa.

― Não lhe restam muitos anos, Empecilho ― disse Língua de Ferro, surpreendendo-os a todos. ― Eu e Vance lutámos até à morte vezes suficientes para saber que, sejam deuses, essência ou Fluído, não haveremos de morrer às mãos um do outro. Nos últimos anos, tornámo-nos amigos. Vi as deformações ósseas a acentuarem-se no seu corpo, manchas a espalhar-se. As privações que sofreu em criança começam a dar agora os seus frutos. Ouvi-o a sussurrar que a essência o abandonara, mas será a falta de saúde a levá-lo. Dai-lhe um pouco de glória.

O rosto de Vance era uma sombra de sofrimento. Tinha os olhos fechados, as pálpebras carregadas, a testa franzida. Quem diria, que estes dois homens se tornariam amigos? Quem diria que Empecilho se tornaria um Imperador? LaCelles cobriu a mão de Jupett Vance com as suas e acenou com um sorriso. Traidores, todos eles.

Ouviram o som de uma flatulência e viram Marovarola a menear a cabeça com censura.

― Não tens emenda, Seji ― disse ao homem a seu lado, que ficou vermelho como um tomate, enquanto Marovarola se deslocava para a ampla mesa de refeições, cheia de pratos, cristais e terrinas de cerâmica refinada. ― Ora bem, isto merece uma comemoração. O que é que há para comer?

Catata LaCelles beijou Tenna nos lábios e soltou uma gargalhada, que se reproduziu à sua volta.

FIM

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis | Capítulo Vinte e Sete | Capítulo Vinte e Oito | Capítulo Vinte e Nove | Capítulo Trinta | Capítulo Trinta e Um | Capítulo Trinta e Dois | Capítulo Trinta e Três

Anúncios

Estou no Wattpad #32

Olá a todos. Como anunciei na minha página de facebook, este fim de semana irei publicar os dois últimos capítulos do meu livro de leitura online Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer. Após um capítulo intenso que resultou no envenenamento de um dos personagens mais carismáticos da trama, resta-vos esperar para ver qual o destino do mundo após a sua passagem. Língua de Ferro terá sobrevivido ao tiro de Tayscar? O que aconteceu a Marovarola? Terá Vance mesmo morrido? Conheçam as respostas no penúltimo capítulo, intitulado Sepultura.

CAPÍTULO TRINTA E DOIS: SEPULTURA

“Dzanela ofereceu-me uma fortuna. Um negócio daqueles, disse-me. Água. Naqueles dias, como em todos os outros que conheci depois desse, a água era mais valiosa do que o ouro. Primeiro falou-me em assaltar a viúva de um sacerdote. Era o mais honrado dos Doze Vermelhos, e manchou-me a alma perceber que se havia cimentado no novo mundo como ladrão. Aquilo que todos fomos, de uma forma ou de outra, antes da Seca. Descobri que ele pertencia à Trupe da Morte, liderada por Merren “Anéis da Morte” Eduarda, o homem que eu podia ter morto, o homem que me podia ter morto, outro dos que sobreviveram quando os galeões foram engolidos pelas areias de Semboula. Assaltar uma viúva não me pareceu guardar qualquer desafio. Era algo trivial. Algo que um rapaz poderia fazer. Por que Dzanela ou o seu superior precisariam de mim para essa empreitada? Segurança apertada, assegurou-me. A mulher passeava-se nas praças centrais de Constania, dos bazares às casas de chá, sempre perseguida por três brutamontes das terras de Sélia. Gargarejei ao lembrar-me de Sélia, a terra onde as lendas diziam que eu fora aprendiz de Chacar, numa forja. Nunca estivera em tal lugar. Aceitei o repto. Antes de deixar Dzanela, ele apertou as mãos em volta do meu braço como um torno e acrescentou que a mulher teria de morrer. E eu sabia que ela estava morta, independentemente do que fizesse. O empregador de Dzanela parecia ter muitos interesses secretos. Interesses que me arruinariam a vida.”

As guerras de Chrygia são ganhas à mesa, pensou Língua de Ferro. Um conhaque pode ser mais letal que um fio de espada. Os pensamentos confundiam-se na sua cabeça. Nada parecia fazer muito sentido. Lucilla a beijar-lhe os lábios. Dzanela a apertar os dedos em volta do seu braço. Dooda a suicidar-se. Jupett Vance a morrer com as mãos apertadas em volta da garganta. E os olhos brancos de um cão negro a chamarem-no para a morte.

― Luce, és tu? ― perguntou, quando a visão apareceu turva nos limites da sua consciência.

― Não, garanhão. Essa cabra está morta e bem morta, e nunca fez nada de bom nesta vida.

Ceil. Talvez a rapariga tivesse razão. Os contornos do seu rosto começaram a distinguir-se, angulares, morenos, com o cabelo escorrido sobre os ombros ossudos. Vestia um corpete de cetim e estava sentada aos pés da cama. Sim, percebeu. Estou numa cama.

― O que aconteceu? Há quanto tempo estou…

― Meio morto? ― disse a rapariga. ― Há dois dias. Tens a porra de uma fortuna por teres sido baleado junto ao Cirurgião, que é só assim de passagem o sujeito mais bem informado em medicina em todo o mundo civilizado. Retirou-te a bala, mas não foi fácil. Tiveste uma sorte danada em não te ter atingido nenhum órgão vital.

Língua de Ferro pensou no tiro e pensou em Tayscar. O rapaz estivera disposto a matá-lo para ganhar o favor de Vance, para insensatamente tentar ganhar a coroa que fora do seu avô. Não o posso censurar.

― Vance morreu mesmo?

A rapariga encolheu os ombros.

― Parece que aquele Opyas Raymon era um espião da Intendente. Guardava um frasco de veneno numa bota. O rapaz que estava com ele parece ter conseguido convencer a mulher do careca a matá-lo, e pronto. Ele bebeu o licor e caiu de borco. Eles caíram sobre ele e levaram-no.

A revelação caiu sobre Língua de Ferro. Raymon era um espião da Intendente? Desde quando? Mas… Soltou uma gargalhada.

― Caíram sobre ele? Levaram-no para onde?

Os cantos dos lábios da rapariga declinaram, enquanto ele se concertava no travesseiro branco como leite. Sentiu a ferida a arrepanhar-se, e doeu-lhe.

― A mulher, o rapaz e o próprio Raymon. Pegaram no cadáver e não deixaram ninguém aproximar-se. Disseram que havia um ritual que precisava de ser feito, e que não tinham vontade em regressar a esta terra. Independentemente de terem feito o que era certo, admiravam o homem, e amavam-no à sua maneira. O corpo foi coberto por peles e levaram-no numa padiola, suspenso entre dois camelos. Os cães que vigiavam as entradas do Capitólio foram embora atrás deles.

Língua de Ferro respirou fundo.

― Eu estive com eles ― disse. ― Estive com Ravella, Empecilho e Boca de Sapo o tempo suficiente para não perceber o que raio viram naquele idiota fanático. Admiração, talvez. Também eu o admirei e às extraordinárias capacidades que revelou. Mas… ― Uma dor silenciou-o. ― A ponto de seguirem os seus ideais? A ponto de amá-lo?

― O amor raramente é uma escolha ― disse Ceil, lançando-lhe um olhar doce e subtil que não pareceu propositado.

Sem título
Fonte: https://www.pinterest.com/pin/100908847872384066/

Pouco dado a sentimentalismos, Língua de Ferro riu-se.

― Estás a pensar em Varro ou no rapaz Pantaleoni?

― Estou a pensar… ― A rapariga debruçou-se sobre Língua de Ferro, lentamente, e trincou o lábio. A mordida pareceu-lhe sensual, mas foi com alguma inocência que ela se aproximou e lhe beijou os lábios. Os dela sabiam a limão. ― Estou a pensar que talvez deva chamar o meu pai. Mandou-me chamá-lo quando acordasse.

Língua de Ferro avaliou a rapariga, do alto da testa até ao decote. Então, puxou-a por um braço e ela caiu em cima de si com um gemido.

― Talvez devas ficar mais um pouco.

Um sorriso obsceno substituiu a surpresa na expressão da rapariga.

― Talvez possa visitá-lo mais tarde. Parece-me que a convalescença não lhe abalou o espírito, mas duvido que o seu corpo diga o mesmo. O meu pai quer mesmo falar consigo, por causa de um tal de Marovarola.

***

― Deixei-o preso num cómodo, com mãos e tornozelos atados em corda de cânhamo, e uma esfera decorativa enfiada na boca ― disse Língua de Ferro, na sala do trono. ― Ele confessou ser o autor material da morte do seu filho Regan, Camilli.

Sander Camilli permanecia virado para o trono vazio, com as mãos atrás das costas e uma expressão ascética no rosto. Segurava um envelope na mão esquerda e tinha os olhos cravados na coroa sobre o trono. Um pedaço de ferro circular, com o pormenor esculpido de folhas de acanto ao longo da superfície. Àquela distância, não lhe pareceu impressionante. Pensou na quantidade de pessoas que haviam assassinado e sido assassinadas por causa daquele pedaço de ferro.

― E, no entanto, ele fugiu ― disse Camilli, virando-se para Língua de Ferro. As paredes eram ricas em tapeçarias e brocados, mas graças à sua enorme largura, a sala fazia ecos por todo o lado. ― O rapaz que o alvejou e o velho com o mosquete tiveram, seguramente, participação nisso. Alegra-me ver que está a recuperar.

Língua de Ferro arrastava-se, apoiado a uma bengala de prata, e a túnica branca que envergava escondia o grande emplastro de linho que o Cirurgião lhe aplicara à volta do abdómen.

― Ceil disse-me que o podia encontrar aqui. Parece-me um lugar mais digno para tratar destes assuntos.

Camilli ergueu uma sobrancelha.

― Assuntos? Gostava de lhe agradecer o que fez por nós, Valentina. Teria dado a sua vida para nos salvar, e certamente poucos de nós estaríamos vivos se não tivesse interferido. Aquele idiota cego era um louco. Um fanático suicida. Estava disposto a matar-nos a todos por causa de uma ilusão.

― Uma ilusão que me parece bastante real ― arriscou Língua de Ferro. ― Visto que a água nos Poços não durará para sempre. Qual era mesmo o vosso plano quanto a isso?

Língua de Ferro deslizou o olhar para a coroa de acanto. Certamente, merecê-la-ia aquele que tivesse uma solução viável para esse problema. Camilli baixou os ombros, aparentemente desinteressado.

― Nunca houve uma verdadeira solução para esse problema. Mas havia um programa em marcha. Lucilla queria iniciar uma coleta de leite de caprino por todo o Império. Extração de todo o tipo de líquidos. Mel, azeite, sumo de frutas. Até suor. Infelizmente, a Seca privara-nos de grande parte da nossa flora, e os recursos certamente extinguir-se-iam, de uma forma ou de outra. Sem água, não havia viabilidade para a reprodução de animais, frutos ou plantas. Nunca dei grande crédito a essa solução. Sinceramente, nenhum de nós acreditava realmente que existiria uma hipótese de sobrevivência, mas estávamos respaldados na ideia de que, quando os recursos diminuíssem drasticamente, cortá-los-íamos aos mais pobres, e haveria água pelo menos até aos dias em que os nossos netos fossem velhos. Lucilla e Eduarda não se sentiam confortáveis com essa ideia. Nada confortáveis.

Língua de Ferro tentou compreender o ponto de vista da mulher que amava. Sentia que já não a conhecia. Era difícil juntar as peças do quebra-cabeças ao mesmo tempo que se colocava na pele dela. Quem foste tu, afinal?

― As filhas deles, Sindi e Tenna, podiam reverter esse problema ― disse Língua de Ferro.

Sander Camilli ergueu subitamente o olhar para Língua de Ferro.

― A que preço, Valentina? A que preço?

Língua de Ferro fechou os olhos. Ele tinha noção do que fazia. Talvez Eduarda e Lucilla também a tivessem. Voltou a abrir os olhos para confrontar Sander Camilli.

― Você sabia o que elas significavam. E eles também sabiam o que o seu filho Anos significava. Foi pelos vossos filhos que se tentaram matar, e não por ganância ou sede de poder.

Sem título.JPG
Fonte: http://reviewfix.com/2012/01/conan-the-barbarian-queen-of-the-black-coast-1-review-poor-art-but-enough-action/

Camilli abriu os braços, com uma expressão desesperada no rosto. As lunetas caíram-lhe para a ponta do nariz.

― Era um risco. Sabiam que algo de muito poderoso e horrível estava dentro das suas filhas. Profundo. Antigo. Bravo. Negro. Anátema. Luz. Benesse. Punho. Os oito deuses pairavam sobre as duas meninas e, embora elas parecessem, a grande maioria do tempo, aquilo que eram, duas meninas inofensivas, havia rasgos de horror nas suas palavras. Frases votivas. Enigmas lançados nos instantes que menos podíamos esperar, como durante uma refeição ou quando a mãe as punha na cama. Era assustador. Falavam geralmente em eco e os seus olhos ficavam negros. Quando Anos nasceu, elas gemeram para que os pais o matassem. E eles quiseram fazê-lo, porque o meu filho representava exatamente o oposto das meninas. Eles lembravam-se de Vance, e não tinham a certeza de que ele fosse um arauto da fortuna ou um profeta da desgraça. Eu protegi o meu filho, subjuguei-me a Vance, e não me arrependo disso, Valentina. Nunca fui um homem forte, mas aqueles dois haviam-me roubado um filho, Regan, e eu não ia tolerar que me roubassem outro. Foi por isso que enviei Allen a Veza, oficialmente com objetivos políticos, mas com outras ideias em mente.

― Que ideias?

― Afastá-lo de Chrygia o tempo suficiente para me livrar deles. Allen era o Imperador por direito. O meu filho mais velho vivo. Irmão de Regan, um dos fundadores do novo Império. A cara de Landon X. Tinha de o manter em segurança, longe de Lucilla e Eduarda, Valentina. Vance prometeu-me que o protegeria. Vance, esse maldito bastardo, disse-me que protegeria os meus filhos se eu me submetesse aos seus dogmas religiosos. Cabrão. Torturou o meu filho quase até à morte.

― É verdade ― disse uma voz ao fundo da sala do trono. ― Mas estou vivo. ― Allen arrastava uma perna atrás da outra, parecia mais débil e pálido do que Língua de Ferro, e no entanto o seu gibão azul acolchoado reafirmava a sua sobranceria, e o olhar era tão pedante como Língua de Ferro sempre o conhecera. ― Foi nessa viagem a Veza que Valentina me sequestrou, mas posso dizer que estive mais seguro nas mãos dele, do que depois.

O assentimento de Allen, quando parou a sua marcha entre os dois, revelava respeito.

― Nunca foi a minha prioridade manter a tua segurança. Nem com as tuas intermináveis patranhas, Allen.

O filho de Camilli encolheu os ombros, desinteressado.

― Não me preocupo com as suas prioridades, Valentina. Chegámos os dois vivos até aqui, e isso deve querer dizer alguma coisa. Vance está morto. Somos uns heróis.

Língua de Ferro teve vontade de rir. Allen falava como se tivesse qualquer participação nisso. Como se não lhe tivesse salvado a vida. Era um idiota presunçoso, e tinha dificuldade em imaginar o Império nas suas mãos. Deu voz aos seus pensamentos.

― Fossem ou não duvidosos de carácter, Lucilla e Eduarda souberam comandar os destinos deste Império e adiar o fim da civilização. Devemos-lhes isso. Nas vossas mãos, estaríamos todos mortos.

As suas palavras soavam a ofensa, e ele sabia-o. Nada de bom podia advir dali, mas Sander Camilli não pareceu refutá-lo. Baixou o olhar. Allen cerrou os dentes e fuzilou-o com agravo.

― Como se atreve? Lucilla e Eduarda eram uns malditos hipócritas, e congratulo-me a cada segundo de ter convencido Bortoli a matar a pega.

Os olhos de Língua de Ferro fixaram-se em Allen como os olhos de uma pantera, incisivos e malévolos. Congratulo-me a cada segundo de ter convencido Bortoli a matar a pega, disse ele. Então Vance sempre disse a verdade. Em outros tempos, deixar-se-ia dominar pelo seu lado animal e mataria Allen ali mesmo, esmagando-lhe a traqueia com ambas as mãos.

― Hipócritas ou não ― disse ― poderiam ter salvo o mundo, se vocês não mexessem os vossos cordelinhos e tivessem enviado as filhas deles para os Poços, como reféns. Os deuses passaram delas para o pai, e eu matei-o. Mas os deuses não morreram, apenas foram novamente reduzidos, e de forma menos expressa do que Vance o fizera. Afinal, fui um instrumento do sacana fanático, e dificilmente chegaria perto dos seus poderes ou conhecimentos. Agora, as miúdas estão nas mãos de Marovarola, o assassino de Regan. Nem mesmo os deuses saberão o que ele pode fazer com elas.

Sem título
Fonte: http://malazan.wikia.com/wiki/Caladan_Brood

Allen soltou um risinho.

― Marovarola é um cretino. Um soldado da fortuna. Dá-lhe uma prata ou um odre de água, e terás um amigo ― disse. ― Mais depressa venderia as raparigas como escravas de cama do que as utilizaria para trazer de volta o mundo antigo.

Na mosca, pensou Língua de Ferro. Afinal, Allen não era tão idiota como lhe parecera. Tanto o pai como o filho sabiam que tinham apostado no cavalo errado. Eram pessoas de mente fraca e haviam jurado lealdade a Vance e à tão proclamada essência em troca de proteção pessoal e imunidade. Como podem julgar o pobre Ciaran por traição, quando eles fizeram o mesmo com todo o seu povo?

― Vocês não estão dispostos a trocar o vosso orgulho tolo pela continuidade da vida no mundo? Compraram um inimigo poderoso, mas talvez ainda estejam a tempo de redimir-se. Resgatemos as miúdas. Ouçamos os seus conselhos. Traremos os deuses de novo e o mundo em que nascemos também. Ainda estamos a tempo de corrigir a vossa burrice.

Sander Camilli meneou a cabeça negativamente, enquanto Allen reagia de gengivas expostas à proposta de Língua de Ferro. Ou talvez à acusação.

― Será? ― perguntou Camilli, erguendo o braço com o envelope para Língua de Ferro. ― A mulher, Ravella como lhe chamam, disse-me que amou Regan, antes de abandonar o Capitólio. E deixou-me este bilhete. Uma profecia de Jupett Vance que talvez nos ajudasse a compreender. Quando lhe perguntei o que é que estas linhas me podiam ajudar a compreender, ela bamboleou-se e inclinou-se. Depois, disse-me para te mandar cumprimentos, quando acordasses. Tenho a esperança de que me possas explicar isto.

Língua de Ferro pegou no pedaço de couro dentro do envelope, e leu as palavras que nele estavam impressas.

“Os tempos errados estão a terminar: um trovão de ferro, uma vertigem de seda e um oscilar de ancas prenunciam a nova era. Um mar internar-se-á na cidade de prata, para transformar a sala do trono numa sepultura de água.”

Uma série de imagens sucederam-se na sua mente, ao recordar-se da forma como entrara em Chrygia, de bandeira desfraldada e com Allen como salvo-conduto. Língua de Ferro era o seu nome, ele não precisava de brandir Apalasi para ele mesmo ser um trovão de ferro. Lembrou-se também do magnífico jantar em sua honra, e da quantidade de senhoras da corte a desfilarem com sedas exuberantes, cujas ondulações ainda lhe deixavam a vista turva, em retrospetiva. Por fim, viu Ceil a dançar consigo, agitando as ancas e conduzindo-o em movimentos ágeis e rápidos. A gargalhada dela fazia o mundo parecer menos terrível. Acontecimentos que prenunciavam a nova era. Deu por si a sorrir, quando se encaminhou para uma ampla janela de sacada, com acesso à varanda.

― Sabe o que isto significa? ― perguntou Camilli.

Língua de Ferro continuou a andar, e os dois homens seguiram-no pausada mas ansiosamente.

― Sei. Sei que aquele maldito idiota sádico previu a sua própria derrota. Sabia que ia perder, e mesmo assim prosseguiu. Movido por aquilo em que acreditava.

Língua de Ferro lançou o olhar para lá da cidade nova, para os bairros pobres de Chrygia, onde crianças jogavam à apanhada e corriam umas atrás das outras, ossudas, imundas, descalças. Lembrou-se de ser uma criança. Lembrou-se de sentir fome. Do peso das costelas de encontro à pele. Lembrou-se de ver a mãe a tentar matá-lo para o comer. As lendas diziam que ele era órfão. Era bom que ninguém soubesse a verdadeira história. As paredes de pedra daquela velha cidade pareciam-lhe familiares, não obstante os fogos lilases que ardiam a catavento e os minaretes pomposos dos palácios à volta do Capitólio. O vento costumava trazer o sabor a areia, mas naquele dia sabia a outra coisa. Começou a ouvir os gritos, no horizonte. Começou a ver as crianças, tão discerníveis como pequenos insetos àquela distância, a correr com aflição para as seguranças ilusórias das suas casas.

Sem título
Fonte: http://www.myghillie.info/lsitmkey-malazan-book-of-the-fallen-fan-art.shtml

Não se recordava daquele sabor. O sabor da maresia.

Uma torrente de água jorrou de uma artéria da cidade velha para tragar as crianças, os animais, os velhos comerciantes, os carrinhos de mão e as bancas de mercado. Uma outra viela parecia ter aberto uma comporta a um oceano. As línguas de mar vinham de longe, de muito para lá dos portões de Chrygia, de bocas abertas na areia. Não havia explicação de como ou quando apareceram, mas ninguém as vira antes. A parte velha e decrépita da fortaleza estava a ser engolida por um mar novo, transformando a zona nobre numa ilha, que se ia reduzindo pedaço a pedaço. Chrygia seria transformada num monte de entulho afundado nas profundezas de um oceano.

Um mar internar-se-á na cidade de prata, pensou, voltando o olhar para o bilhete, para transformar a sala do trono numa sepultura de água.

O sorriso desapareceu do seu rosto. Sander Camilli tinha a boca a pender como um cadáver e os olhos revelavam tanto surpresa como desesperança. Allen soltou um guincho e segurou-se ao balaústre esculpido da varanda para não cair. O seu tão desejado Império capitulava diante dos seus olhos.

― Corram, agora! ― gritou Língua de Ferro, afastando-se da varanda e seguindo para o interior da sala do trono, com Allen e Sander atrás de si. A nenhum dos três ocorreu agarrar na coroa de ferro que permaneceu repousada sobre o trono vazio.

Os deuses podem cair sobre Chrygia com os seus mares revoltos, pensou, enquanto encaminhava homens, mulheres e crianças a subirem os altos degraus do Capitólio com rapidez, mas o ferro não pode ser afogado. Uma onda irrompeu de chofre a varanda da sala do trono, rachando os vidros e vitrais e enchendo a sala de mar salgado. Cadáveres vindos do exterior vieram com ela, flutuando como peixes. Em outra reencarnação, rir-me-ei deles como um diabo. Talvez venha a ser um. Nesta, sou apenas um sacana. Um sacana qualquer.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis | Capítulo Vinte e Sete | Capítulo Vinte e Oito | Capítulo Vinte e Nove | Capítulo Trinta | Capítulo Trinta e Um | Capítulo Trinta e Dois

  

Estou no Wattpad #31

Viva! Chegámos ao antepenúltimo capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, o meu livro de leitura online. No último capítulo, Empecilho descobriu o segredo que Ravella guardava e por que confiava tão cegamente em Jupett Vance, no momento em que o profeta cego espalhava o caos pelo Capitólio. A chegada de Língua de Ferro, porém, poderá ditar o destino de um dos personagens. Espero que gostem!

CAPÍTULO TRINTA E UM: AS GUERRAS DE CHRYGIA

“Procurei Dooda na estalagem onde o deixei, mas a dona garantiu não se lembrar de quando é que ele partira, e Constania parecia, de forma generalizada, desconhecer-lhe o nome. Dooda Vvertagla era um fantasma. O nome de um homem que, para todos os efeitos, estava morto. Eu sabia que isso não era verdade. Falara com ele. Tocara-lhe. Sentira a vergonha de ter os olhos dele pousados sobre mim. A humilhação de obter o seu perdão. Deambulei pela cidade à procura dele. Falei em Doze Vermelhos, e riram-se na minha cara. Os Doze Vermelhos eram uma lenda, e estavam mortos. Era o que as pessoas comuns pensavam. Não tinham sequer cogitado a possibilidade de, muito embora o grupo se ter extinto, os seus membros terem sobrevivido e andarem por aí, a tentar conquistar o mundo. A legião de aprendizes que Dooda criara parecia invisível aos olhos de todos. Cheguei mesmo a duvidar de que fosse real. Não importa. Aluguei um quarto numa pensão, onde passei duas noites. Na minha segunda manhã em Constania, recebi um bilhete das mãos de um moço de recados, aquilo que costumávamos chamar de pequeno tarefeiro. Reconheci as letras e sorri. Não era quem eu procurava, mas naquela altura não importou. Desci uma rua ao acaso e o bulício de Constania conduziu-me, entre o cheiro a terra, a tijolos e a pevides, ao botequim que Dzanela me indicara. Um homem gordo que mascava amendoins apontou-me o quarto com um gesto frívolo, e subi com precaução. O homem que me abriu a porta fora um dos que eu traíra. Dzanela, uma lenda dos desertos. Mas eu conhecia o homem por detrás da lenda, e quando ele me disse «Oh, Val» com aquele olhar de Regan, não resisti a abraçá-lo. Mandou-me entrar e fechei a porta atrás de mim. Compadeci-me do seu estado maltrapilho. Dormia numa plataforma de madeira, e o quarto cheirava a urina por todos os lado. O que ele me contou em seguida revolucionou a minha vida.”

― O que sabes tu de dança, Leidviges Valentina? ― perguntou Vance, avançando para ele de braços abertos e mãos desarmadas. ― Quantas vezes já me tentaste enfrentar, para esbarrar na vontade da essência?

Língua de Ferro mordeu o lábio.

― Também eu sou agora um instrumento da essência, lembras-te?

Com essas palavras, rodou Apalasi num movimento descendente. Vance desviou-se com agilidade e soltou uma gargalhada quando a lâmina colidiu com o solo de mármore do Salão de Baile.

As pessoas afastavam-se cada vez mais. Língua de Ferro detetou o olhar assustado de Sander Camilli, de Ceil, Amehia e as suas irmãs; a Intendente parecia mais frágil que nunca; Finn tinha as mãos à frente dos lábios. Varro era um cadáver destroçado num monte de carne e Degas Pantaleoni chorava a morte do pai nos braços da mãe, com o avô a observar cautelosamente o transcorrer daquele despique. O velho mordomo, Ciaran, caíra sentado sobre um assento, levando as mãos à cabeça como se medisse uma febre. As amantes de Varro permaneciam encolhidas nos seus lugares, enquanto a grande maioria da corte refugiava-se junto aos pendões e colgaduras de veludo, tentando passar despercebidos. Empecilho, Boca de Sapo e Ravella compunham uma estranha trindade: eram os únicos que não se moveram dos seus lugares desde o jantar, muito embora o retinir dos talheres contra a cerâmica elegante das suas malgas se houvesse extinguido há muito.

Língua de Ferro voltou a estudar Vance e ergueu um braço.

― Seji!

Atrás de si, Seji e Tayscar tinham armas de fogo apontadas a Vance; Seji disparou do seu mosquete, sendo impelido para trás pelo coice. Um dos cães precipitou-se para ele, mas Tayscar abateu-o com dois tiros. O animal ganiu antes de morrer. A bala endereçada a Vance Cego, porém, esbarrou na barreira invisível que o protegia. Saltou para o pavimento e tamborilou até parar.

― Ora, Valentina ― disse Vance. ― Como me podes subestimar desta forma? O que sabes tu do que é ser um instrumento? Serviste a essência e darias um bom servo, não te tivesses rebelado às diretrizes. Depositei muita fé em ti, confesso. Quis acreditar que serias um bom governante, apesar de tudo. Fui ingénuo. Nasceste para destruir, só e apenas. Nunca conseguiste cimentar algo do que te foi oferecido. Primeiro os Doze Vermelhos, depois Chrygia…

― Cala-te ― grunhiu Língua de Ferro, girando sobre si próprio e movendo Apalasi rumo à cabeça calva de Vance.

Sem título
Fonte: http://art.marcsimonetti.com

O profeta baixou-se ligeiramente e respondeu com um golpe de mão aberta no peito de Língua de Ferro, projetando-o para trás. Com uma flexão de pernas, balançou-se para golpear o ventre do guerreiro a pés juntos. Num salto acrobático, Vance voltou a ficar de pé, enquanto Língua de Ferro era arremessado vários metros para trás, deixando a espada escorregar para fora do seu alcance.

Quando abriu os olhos, o salteador viu tudo turvo, mas tinha a certeza de que algo mudara. Perdera o dom que a essência lhe depositara. O olfato, a visão, o cheiro, o tato, voltaram a ser os de um homem comum. Provavelmente, também os seus olhos haviam recuperado as íris e pupilas, todos os componentes naturais. Sentiu os músculos e as costelas a repuxarem-se com o esforço. Fechou um punho e sentiu todos os dedos a estalarem, antes de se sentar no piso de mármore e sacudir o cabelo turquesa em volta da cabeça.

― Filho da mãe ― bradou.

― Nada sabes sobre mim ― disse Vance, aproximando-se lentamente. ― Não sabes o que me foi privado para ser considerado um filho da essência. O primogénito de Semboula. Varão da Casa Mãe. Estandarte dos velhos costumes. Fui vendido pelos meus pais de sangue a sacerdotes aos dois anos. Até aos seis, aprendi as cem teorias simples dos desertos. Dos seis aos dez, três horas por dia a caminhar com um cântaro à cabeça. Uma refeição por dia. Diziam-me ao ouvido que quando eu visse a mãe, saberia que tinha sido escolhido. Jejuei um mês por cada estação. Sobrevivi a favos de ganar, um legume seco das terras de Urão, e a chá de erva do diabo. Fizeram-me repetir os duzentos versos do Códice Velho dez vezes ao dia. ― Vance pegou em Língua de Ferro pela garganta e disse-lhe ao ouvido: ― No fim, fui recompensado. Fui o único que sobreviveu. Fui o único que resistiu. Fui o único que teve a visão. Encontrei um propósito para toda a minha existência. A essência concedeu-me o Verbo, e um fim para ele.

Língua de Ferro soltou um esgar que podia ser confundido com uma risada.

― Matar os deuses, hein? ― murmurou, com a voz embargada.

Vance deixou Língua de Ferro cair no solo.

― Achas mesmo que o fiz? Que os matei? Sabes que não. Ambos sabemos que eles ainda vivem, dentro daquelas malditas miúdas que tu fingiste matar. Usei o Verbo para os afastar temporariamente, para assustá-los, o tempo suficiente para cumprir os desígnios da essência.

Língua de Ferro meneou a cabeça.

― Instigaste Lucilla, Dooda e Dzanela à criação dos Poços. Não pretendias destruir a Humanidade. Não acredito que esse seja um objetivo da essência.

O rosto de Vance abriu-se.

Sem título
Fonte: http://pinterest.com/pin/525373112752332409/

― O objetivo da essência não é a extinção da Humanidade. Ela está prevista pelo Fluído. É algo que ocorrerá, queiramos ou não. O Fluído é algo que não pode ser revertido, é uma estrada única. A essência respeita-o, porque são feitos da mesma matéria atemporal. Eu sou a voz da essência em Semboula, e tu não foste um instrumento da essência, mas um instrumento meu, porque eu assim o entendi. A essência tem mais mundos e universos com que se preocupar. Semboula é problema meu. Sou a carne dela no mundo. O único que a viu. Tinha sete anos de idade.

― Então és puro anátema ― cuspiu Língua de Ferro. ― És uma mentira.

Vance voltou a apertar-lhe o pescoço.

― Não, não sou uma mentira. Tudo o que eu disse foi verdade. Os Poços foram estruturas imprescindíveis para os meus planos. A Seca irá traduzir-se na extinção, mas os Poços vieram dar tempo para que Semboula termine os seus dias a venerar a verdadeira religião. A essência. A mãe.

Língua de Ferro abriu muito os olhos.

― Deixa-me adivinhar. Foi ela quem te incutiu esta tarefa? Não foi, pois não? Apenas te ofereceu condições para exterminares este mundo, e tu agiste como um idiota fanático. A essência nunca desejou que abolisses deuses. A essência nunca desejou que as pessoas a reverenciassem.

Vance apertou-lhe ainda mais o pescoço, agora com as duas mãos. Língua de Ferro sentiu-se a asfixiar.

― Isso não importa, pois não? Ela orgulhar-se-á de mim. Afinal, usei o livre-arbítrio em seu proveito. A espinha atravessada na nossa garganta. Manobrei homens, fiz capitular impérios e criei condições para o nascimento de Landon X, uma base para o que viria em seguida. Anos seria a escolha evidente para liderar este Império, mas o mundo chegaria ao fim antes que ele tivesse idade para governar. Foi por isso que arranjei forma de ir parar à Prisão, onde saberia que te iria encontrar. Admirei-te, Valentina, por aquilo que foste. Admiro-te, por aquilo que és. Escolhi-te, e não me envergonho por isso. O mundo terminaria com um gigante nas suas rédeas. Um gigante a ovacionar a essência. Mas tu rebelaste-te, e agora tenho de te matar e ser eu a desempenhar o duro papel que nunca desejei. Mais um duro sacrifício, em nome dela. Assim seja.

― Não tem de ser assim ― disse uma voz feminina, que fez Vance fraquejar e soltar os dedos da traqueia do guerreiro.

Língua de Ferro estava vermelho como um tomate. Vance voltou-se para fitar Ravella, de pé junto à mesa, e uma lágrima deslizou de um dos olhos vazios de Jupett Vance.

― O que dizes?

― Não existe nenhum homem neste mundo capaz de adiar o fim dos dias ― disse Ravella. ― Semboula morrerá quando a água dos Poços se extinguir. A essência deixou-te com um mundo moribundo entre as mãos, meu amor. Ambos sabemos disso. Sabemos como és poderoso, e mesmo assim, capitularás de sede. Não precisas arcar com mais um fardo. Com a governação do mundo. Escolhe outro para desempenhá-lo. É um poder que te confere.

Vance recuperou a confiança, enquanto se aproximava lentamente de Ravella.

Sem título
Fonte: https://pt.aliexpress.com/gaara-art_reviews.html

― Bem, talvez tenhas razão, minha querida. Mas, de qualquer jeito, fiz com que toda a água do Capitólio fosse entregue à zona pobre da cidade, por esta altura, já foi consumida. Duvido que qualquer um dos presentes consiga sobreviver aqui tempo suficiente até à próxima remessa dos Poços chegar aos vossos portões. É que… todas as saídas do Capitólio estão a ser vigiadas por amigos como este.

Baixou-se para afagar o cachaço felpudo do único cão gigante que restava no salão. Seguiu-se um coro de “Ah’s” de surpresa, e da boca de Sander Camilli saiu uma pergunta que se propagou pelo salão:

― Mas como? Como conseguiu fazer desaparecer a água?

― Como é possível? ― perguntou Ceil.

Vance virou-se subitamente para Ciaran, mas o velho mordomo tentava esconder o rosto ossudo com as mãos.

― Seu velho traidor ― rugiu Finn, encolerizada.

― Não… Não olhem assim para mim ― pediu o velho. ― Ele disse que me deixava o suficiente para mim. Que se eu recusasse, torturar-me-ia. O Cirurgião mostrou-me o que ele fez ao menino Allen. Diga-lhe.

Ciaran apontou para um idoso de olhar cansado junto a uma janela, que baixou os olhos para o solo, e depois voltou-se para Allen, ainda pálido e temeroso, encostado à parede. Língua de Ferro recompôs-se finalmente, e não aguardou por mais diálogos.

Lançou-se para as costas de Vance e apertou-lhe a garganta com ambos os braços. Os dois homens cambalearam e Língua de Ferro sentiu as cartilagens do pescoço de Vance a estalar, quando algo de mais profundo e dilacerante o atingiu nas costelas. Gemidos de incompreensão e murmúrios de traição sucederam-se. Língua de Ferro soltou Vance e caiu sobre o pavimento. Levara um tiro pelas costas. Só precisava saber de quem…

Sem título
Fonte: https://www.pinterest.com/Harlequin579/class-monkmartial-artist/

Por um segundo, nada disso interessou. Arrastou-se no solo frio de mármore e temeu que o seu plano estivesse irremediavelmente comprometido. Tudo ficou escuro, sombrio. A consciência regressou pouco depois. Vance havia recuperado do seu ataque, Empecilho estava acocorado sobre o seu corpo e Tayscar aproximava-se de Vance com subserviência.

― Porque fizeste isto, rapaz? ― perguntou Vance.

― Ele matou o meu pai ― respondeu. ― E parece-me que você anda à procura de um candidato sério para governar Chrygia. Sou neto de Cacetel Domasi, tenho a minha pretensão.

Vance soltou uma gargalhada.

― Ora, rapaz. Fui eu que influenciei a queda do teu avô, e se Valentina não tivesse morto Agravelli, eu próprio o teria feito.

― Asseguro-lhe que posso ser mais leal e… religioso que qualquer um deles.

Vance encolheu os ombros.

― De qualquer forma, não há mais água no Capitólio.

― Pois não ― disse Ravella, com um copo de pé alto numa mão. ― Mas há vinho e espumante, e maravilhosos licores como este.

Vance assentiu com orgulho. Tinha em Ravella a sua fraqueza, como Língua de Ferro tivera em Lucilla. Aceitou o copo e bebeu o licor de um só trago. Depois de lançar um olhar apaixonado à uraniana, Jupett Vance pareceu sentir algo a chegar-lhe à garganta, mas era demasiado tarde para o parar.

― Porquê? ― perguntou Vance. Era um homem poderoso, que blindara o seu corpo de ataques físicos, capaz de profecias de magias temíveis, mas não blindara o coração e deixara-se vencer por ele. O veneno queimá-lo-á por dentro, em questão de segundos, pensou Língua de Ferro.  Antes de resvalar para o descanso da escuridão, Língua de Ferro ouviu a Intendente dizer:

― Em Chrygia, caro profeta cego, as guerras são ganhas à mesa. Um conhaque pode ser mais letal que um fio de espada.

Língua de Ferro gostou de ouvir aquilo.
Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis | Capítulo Vinte e Sete | Capítulo Vinte e Oito | Capítulo Vinte e Nove | Capítulo Trinta | Capítulo Trinta e Um

Estou no Wattpad #30

A minha publicação quinzenal, Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, chegou ao capítulo 30. No último capítulo, Língua de Ferro assistiu a uma verdadeira carnificina protagonizada por um grupo de cães de olhares brancos, enviados pela essência para espalhar o terror no Capitólio. O pequeno Anos não escapou à tragédia e o salteador só sobreviveu graças à intervenção de Tayscar, Seji e Marovarola, que teriam sido coordenados por Língua de Ferro no sentido de invadirem a cidade em seu auxílio, pelas filhas de Lucilla e Eduarda, que o herói levara a crer que estavam mortas. Espero que gostem deste novo capítulo.

CAPÍTULO TRINTA: O DILEMA DE RAVELLA

“A puta deu-me um cartão com o nome dela. Lançou-me um olhar com tanto de terror como de sedução, que teve um certo efeito em mim. Não olhei para o cartão antes de abandonar a cidade, e quando o fiz, as minhas tripas deram um nó. Aquelas letras arcaicas tanto podiam significar Helica como Secile, mas os meus olhos leram Lucilla. Sempre que me lembro disso, pergunto-me se ela queria dar-me a conhecer o seu nome, ou as respostas para as minhas perguntas. Fora por Lucilla que eu traíra os Doze Vermelhos, e imagino o quanto teria sido evitado se eu não o fizesse. As vidas que teriam sido poupadas. E fora a cabra quem movera as montanhas para a conceção de um novo mundo, sem olhar a quem. Naqueles tempos, e em todos os que se seguiram, eu não consegui olhar para o rosto de uma mulher sem a ver a ela. Durante a travessia dos desertos, rumo a Constania, com as virilhas apertadas na sela de Hije, estalada pelo sol, era nela em quem eu pensava.”

Empecilho sentiu-se arquejar quando viu um par de cães entrar pelo salão. Eram medonhos e enormes. Aconteceu tudo depressa demais. Saltaram por cima de mesas, perseguiram senhoras de vestidos elaborados e estraçalharam senhores de fatos e lenços aos pescoços. Os gritos aumentavam e as pessoas espezinhavam-se na direção das portas enquanto outros viam nas paredes um refúgio de pouco conforto. Ouviu os gritos de algumas pessoas quando lançarem-se pelas varandas se tornou a alternativa mais atraente. Sander Camilli e a família encostaram-se a uma parede, com uma mulher de uniforme que devia ser a célebre Intendente a organizar um muro de guardas à sua volta. O rapaz viu o horror nos olhos do senador. Não era para menos; dois enormes cães de olhar vazio invadiram o Salão de Baile para devorar as suas gentes, pessoas da elite chrygiana, a nata da civilização. A expressão facial de Camilli empalidecera. Não lhe restava um pingo de sangue.

Ainda assim, como se se preservasse alheio a tudo aquilo, Jupett Vance estava sentado a seu lado, com uma expressão divertida no rosto enquanto pegava num palito de madeira e o cravava numa lasca de queijo fatiado, que levou à boca. Os gritos à sua volta eram ensurdecedores. Empecilho trocou um olhar cúmplice com Boca de Sapo, que parecia tão disposto a erguer-se dali quanto ele.

Como se lhes lesse os pensamentos, Vance disse:

― Não se precipitem, eles estão comigo.

O ar com que o dissera parecia que tal asserção os pudesse apaziguar. Não aconteceu. Assim que acabou de comer, levantou-se, para ver um rapaz a desafiar um cão com uma valentia imberbe. Uma das filhas de Sander Camilli gritou.

― Para com isso, Degas. Não sejas parvo.

Mas quando o animal investiu, foi um sujeito de uniforme militar quem o tirou da frente e se viu alvo da bocarra horrível do canino. Vance deu uma palmadinha no ombro de Empecilho, abrindo um sorriso largo. A alegria nos olhos do homem parecia esclarecer todos os esforços daquele dia.

― General Pantaleoni ― gemeu uma voz feminina vinda de algures.

O homem viu o braço ser-lhe arrancado à dentada, e com um esgar de horror deixou-se cair para trás. O cão atirou o braço para o lado, mostrou as gengivas naquilo que podia ser um sorriso sádico e lançou-se ao rosto do general, que não demorou a morrer. O rapaz que ele havia salvo queria vingá-lo, voltando a desafiar o animal.

― Pai! Pai! ― gritou.

Não o deixaram enfrentar a fera. Pessoas do seu círculo familiar fizeram uma barreira semicircular à sua volta, e entre soluços e gemidos afastaram-no para longe. O jovem soçobrou nos braços de uma mulher gorda que devia ser a sua mãe. Empecilho viu senadores a tentarem fugir, mas os cães sentiam-lhes o medo e alcançavam-nos na corrida, manchando os seus tecidos ricos com vermelho de sangue. Encontrá-los foi fácil. Os homens que temem raramente têm o discernimento suficiente para ser subtis.

Vance virou-se então para a família de Camilli e fez estalar os dedos. Os cachos cinzentos da sua peruca caíram-lhe sobre os ombros.

― Basta! Podemos evitar aqui um genocídio.

Respondendo ao seu estalar de dedos, os cães baixaram as orelhas e aproximaram-se dele, lentamente, pata após pata. Um sujeito de cabelos escuros avançou à frente da guarda armada e, com os dentes cerrados numa expressão hostil, perguntou:

― Quem é você e o que quer de nós?

― Eu sou fiel à essência, Vance ― disse Sander Camilli, respondendo à pergunta com uma afirmação enigmática para muitos dos presentes. ― O meu convite para estardes presente é uma prova disso mesmo. Por isso pergunto-te, para quê tudo isto?

Sem título
Fonte: pinterest.com/charletoncarter/malazan-book-of-the-fallen-art

Vance Cego avançou, caminhando em círculos à volta do homem que o abordara inicialmente, um sujeito bem parecido e musculado. As jovens que o acompanhavam encolheram-se de terror, encaixadas umas nas outras como peças de um quebra-cabeças numa ponta da mesa.

― Não lhe faça mal ― gemeu uma das filhas de Sander Camilli, a mais velha. Empecilho leu no olhar da rapariga que gostava dele.

― Varro, o esclavagista ― disse Vance, sondando o homem. Uma linha de suor cruzou a testa do visado. ― Sempre tiveste mais jeito para barganhar que aqueles que se usaram de ti. Porque foi isso que eles fizeram contigo. Todos eles.

O homem ficou tenso. Era mais alto que Vance, mas não tinha a insensatez de o enfrentar. Aquelas palavras estavam cheias de bile. Com um movimento veloz, Jupett Vance arrancou o cinturão que prendia as calças ao homem e, com a outra mão, puxou-lhas para baixo. Algumas pessoas levaram as mãos à boca, escandalizadas, e Varro não conseguiu deixar-se humilhar mais pelo sujeito de olhar vazio. Dobrou-se para voltar a puxar as calças para cima, mas Vance torceu-lhe os braços, um atrás do outro, e, alto o suficiente para que todos o ouvissem, disse-lhe ao ouvido:

― Varro. O teu nome é conhecido nos desertos como vendedor de escravos, mas não passas de um prostituto. Usas a tua virilidade para conseguires o que queres, e para que aqueles por quem lutas consigam o que querem. Esses tempos acabaram.

Em vão, Varro tentou debater-se. Vance puxou-lhe os braços e todos os presentes ouviram-nos estalar. Os cães avançaram e voltaram a parar, com as línguas a dançar fora das bocas na expectativa de mais uma refeição. O grito de Varro foi comovente.

A filha de Camilli abraçou-se ao pai para não ver aquilo. Vance deixou o homem tombar de joelhos, com os cabelos caídos para a frente do rosto, e dirigiu-se à mesa onde estivera sentado, para recolher uma faca. Depois, ergueu o rosto de Varro com uma mão e fez passar-lhe a faca levemente pelo rosto. Devia estar bastante afiada, porque um filete de sangue escorreu-lhe pelo rosto. Sem sobreaviso, dobrou-se para pegar no sexo do esclavagista e lacerou-o. Um corte vertical, que não chegou para o desmembrar, mas serviu para incutir nos cães uma instrução primária.

Vance afastou-se, deixando o homem a gritar, e enquanto a rapariga suplicava para que alguém fizesse alguma coisa, os cães caíram sobre o torso de Varro para o empurrarem para o chão e o devorarem. Foi nesse momento que Língua de Ferro entrou no salão, seguido por Tayscar e Seji. Empecilho aproveitou que a atenção de Vance, sorridente, se voltava para os recém-chegados, para levar uma mão à perna de Ravella.

― Temos de fazer alguma coisa ― disse.

A mulher, que permanecera cabisbaixa e silenciosa até ali, não pareceu receber bem as suas palavras. Empecilho tentou incutir-lhe a sua preocupação com o olhar, mas não obteve daí qualquer sucesso. Agora que o jogo de Vance estava praticamente ganho, a falsa lealdade que antes demonstrara tão cautelosamente parecia agora irrelevante. O peso dos seus dedos na perna da mulher incomodou ambos, e o olhar que trocaram oscilou entre o constrangimento e a obstinação.

― Do que estás a falar? ― perguntou ela com hostilidade.

― Não podemos deixar que Vance mate Língua de Ferro.

O olhar que ela lhe lançou refulgia de ódio. Ódio velho como óleo ressequido numa panela.

― Porque não? Língua de Ferro nunca foi cortês para comigo. Ele é um traidor. Foi um traidor uma vez, e continuou a sê-lo. Vance disse-me que ele lutaria pela nossa causa. Disse-me qual era a sua importância nos nossos planos, e agora aqui o vês, disposto a lutar connosco em prol de Allen.

Empecilho deixou a perna da mulher, apertou os dedos em volta da mesa e trocou um olhar nervoso com Opyas “Boca de Sapo” Raymon.

― Allen era irmão de Regan. Tu sabes disso.

― E daí? Não sou obrigada a gostar dele por ser irmão de um homem que amei. Allen é um cobarde e um fingido. Tu sabes tão bem como eu que ele incentivou Bortoli a matar Lucilla com medo que ela lhe revelasse a verdade.

― Qual verdade?

― Que Sander Camilli nunca fora uma ameaça séria. Lucilla e Eduarda montaram um circo em volta dele, e isso acabou por funcionar a seu favor. Sander Camilli é pai de Allen e era pai de Regan, e se Bortoli soubesse disso, e soubesse que Camilli era um idiota frágil, teria usado Allen como moeda de troca para conquistar a coroa.

Empecilho deixou os ombros desvanecerem-se e suspirou.

― Ele não o usou como moeda de troca ― disse ― mas quase. Não foi melhor tratado por causa disso.

Ambos recordavam-se da tortura inflingida a Allen, bem espelhada no seu rosto amarelo, pálido e aterrorizado. O irmão de Regan estava agora encostado a uma parede.

― Isso aconteceu, porque Vance conhecia a verdade ― disse ela. ― E tinha a sua quota-parte de influência em Bortoli.

Sem título
Fonte: turbosquid.com/3dmodels

― Ele conhecia a verdade, porque tu lha contaste ― insistiu Empecilho, apertando agora um braço à mulher. ― Foi Regan quem te contou tudo isso, antes de morrer. Eu só me pergunto por que raio confiaste a verdade a Vance Cego e não a confiaste a Língua de Ferro. Porquê Vance? O que é que ele fez para comprar a tua lealdade desta forma?

Ravella revirou os olhos.

― Vance é um sacana bonito.

― Para os infernos com as tuas mentiras.

O rosto de Ravella endureceu.

― «Não contes isto a ninguém, a não ser ao homem pálido, que, sem ver, trará a verdade ao mundo.» Foram as últimas palavras dele. E, se queres saber toda a verdade, ainda bem que o fiz.

Empecilho fechou os olhos, antes de suspirar profundamente e voltar o olhar para Língua de Ferro, que se aproximava ferozmente, com a lâmina nua de Apalasi a brilhar à frente dos olhos. Vance Cego recebeu-o de braços abertos.

― Podes não gostar de Língua de Ferro ou de Allen, Ravella, mas se não fizeres nada para evitar isto, o teu amante morto nunca te perdoará, porque, por tua causa, também a família dele estará morta. Podes ainda não ter percebido isso, mas os homens cegos também podem ser traiçoeiros. Vance matou os deuses. Onde quer que eles estejam, sabem perfeitamente o que ele é capaz de fazer à cabeça de um homem. Regan não estaria decerto seguro das implicações quando te pediu isso, Ravella. Certamente que não estava.

Pela primeira vez, viu Ravella claudicar. Empecilho sabia que ela se tornara extraordinariamente leal a Vance Cego, uma sombra agarrada à sua pele. Nas noites quentes, ouvira os soluços e gemidos enquanto copulavam selvaticamente. Eram irmãos de pele, comungavam das mesmas origens, e as palavras de Regan haviam surtido nela um efeito profundo, algo a que ela precisava agarrar-se porque não lhe restava mais nada no mundo. Mas Empecilho sabia que os momentos que partilhara com Regan, as horas de vigília em Selaba, os tratamentos e o carinho que nele depositara e que dele retornaram, tinham um significado ainda mais profundo para ela. Vance e Regan tinham significado para Ravella, até ali, uma mesma força, a quem ela se entregara sem reservas e a que ela se escudava de tudo o resto. Agora, pareciam dois pólos distintos. Pela primeira vez, pareciam agora exigir uma escolha. Pela primeira vez, reclamavam uma decisão. Empecilho esperava que ela deixasse de mentir a si própria e fizesse essa escolha.

Independentemente de qual fosse, Vance Cego era o rosto de uma força maior. De um deus animal, uma energia primordial mais velha que os próprios deuses. Não era um construto, mas um construtor. Língua de Ferro tinha muitos argumentos, mas não seria obstáculo para tal empresa.

Jupett Vance atirou a peruca para o lado e, num tom bem-humorado, disse:

― Como é, Língua de Ferro? Viraste a casaca, mais uma vez?

Língua de Ferro olhou para a lâmina de Apalasi e lançou um olhar seco ao homem calvo.

― Este aço vai-te dizer quem é que virou a casaca.

Vance encolheu os ombros.

― Assim seja. Devo-te a desforra pela morte de Lucilla, não é verdade?

Língua de Ferro rugiu como um leão.

― Deixa-te de tretas. Vamos dançar.
Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis | Capítulo Vinte e Sete | Capítulo Vinte e Oito | Capítulo Vinte e Nove | Capítulo Trinta

Estou no Wattpad #29

É verdade, depois de vos ter apresentado o capítulo 28 na quarta-feira, eis que vos trago um bónus; só porque estou de férias. Estarei uma semana completamente arredado do blogue, daí que tenha decidido presentear-vos com mais um emocionante capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, agora que faltam pouquinhos capítulos para o grande final. O baile trouxe grandes revelações para o anti-herói, mas as surpresas estão longe de acabar. Espero que gostem.

CAPÍTULO VINTE E NOVE: CÃES

A aldeia-riscada não tinha mais nada para me oferecer. Aceitei acompanhar uma caravana de mercadores até à cidade de Venille, a troco do sempre bem condimentado guisado rezoli. Na verdade, precisava de uma desculpa para regressar a Constania, engolir o meu orgulho e pedir a Dooda que me perdoasse, ainda que ele já o tivesse feito. Não me sentia arrependido pela traição aos Doze Vermelhos e, se voltasse atrás no tempo, teria feito tudo outra vez, mas o que eu fizera ao meu melhor amigo tornara-se incomportável de suportar. O perdão dele só me fazia sentir mais culpado, principalmente porque nunca lho fora solicitado. Venille revelou-se um destino pouco agradável. O odor do couro acabado de curtir impregnava o ar e o guinchar dos abutres fazia-me perguntar o que raio acontecera às gaivotas que em tempos dominavam aqueles céus. Consolei-me entre as coxas de uma prostituta de olhos amendoados que me fazia lembrar Lucilla, mas a mulher não era aquilo que eu esperava. Possuía uma dignidade improvável para a profissão e uma autoconfiança que se lhe aderia ao corpo como uma segunda pele. Gritou um último gemido de prazer e, quando caiu para o lado, disse-me que seria traído por aqueles que eu traíra. Nunca ouvira falar de oráculos que viam o futuro através da cópula, pelo que zombei da mulher e disse-lhe que lhe pagara para foder e não para tecer profecias. A verdade é que eu estava inebriado pela zurrapa da noite e limitei-me a virá-la de costas para me voltar a servir do seu corpo. Ainda assim, nunca esqueci as suas palavras, e os nomes de Dooda, Dzanela, Bortoli, Marovarola, Brovios e Agravelli ficaram-me gravados na mente. Na manhã seguinte, regressei a Constania.”

O general Pantaleoni foi alvo de um ataque de espirros, as senhoras da corte mexericavam e os flautistas chegavam ao píncaro das suas melodias. Talvez por isso tenham demorado tanto tempo a ouvir os gritos.

Língua de Ferro lamentou não ter Apalasi consigo, mas lançou-se na direção das portas do salão. Ceil seguiu-lhe os passos, mas o amplo salteador parou-lhe a progressão com uma mão no peito.

― Não. Tu ficas aqui. Avisa o teu pai do que se está a passar.

O olhar estóico da rapariga adquiriu contornos febris.

― O que se está a passar? Mas o que mijo de ratazana sei eu do que se está a passar?

― O Capitólio ― disse ele ― está a ser alvo de um ataque.

Língua de Ferro deixou a jovem, quando assomou à porta um jovem criado, com um coto a sangrar onde devia ter uma mão. O rosto perdera parte da cor e tinha os olhos cheios de terror.

― Eles. Eles vêm aí ― balbuciou, com a língua a entaramelar-se, antes de cair desmaiado para a sua direita.

Língua de Ferro ouviu os gritos aterrorizados das senhoras da corte presentes no salão, mas não esperou que a massa de gente envolvesse o rapaz caído como corvos em busca de um banquete. Tranpôs a portada dupla e, quando subiu a escadaria, viu um rasto de sangue tanto nos degraus como na balaustrada. Dedadas vermelhas corriam o mármore do corrimão.

Ouviu um grito do corredor à esquerda, e um grito do corredor à direita. Avançou em passos largos até à cozinha, onde se deparou com os cadáveres mastigados das copeiras e ajudantes de cozinha, envolvidas por massas de entranhas, dejetos e sangue, e com expressões do mais puro horror nos rostos.

O odor nauseabundo de carne acabada de abater não guardava segredos para Língua de Ferro. Nele, pôde reconhecer um outro odor familiar.

O cheiro a cão.

Sem título
“Cão” (Fonte: simania.co.il)

Atrás de um aparador, o animal de olhos vazios que lhe guardara a porta na noite anterior debruçava-se sobre o corpo de Mia, arrancando-lhe um pesado seio do peito à dentada, enquanto a cozinheira soltava o estertor final. Uma boca de sangue e músculos postos a nu abriu-se-lhe no peito e Língua de Ferro viu-se visado do último e desesperado olhar da mulher. Que porra de merda é esta?, pensou para si mesmo enquanto o cão engolia o pedaço de carne. Esperou que o animal se virasse para si e o reconhecesse, mas quando ele o fez, sentiu-se intimidado.

O cão era enorme, tinha os olhos completamente vazios e as mandíbulas ameaçadoramente abertas estavam vermelhas do sangue das suas vítimas. Sangue que pingava e tamborilava no solo de mármore. O que queres com isto, essência?, perguntou em silêncio. Porque não me usas a mim, se é verdade que me controlas?

Uma voz atrás de si respondeu aos seus pensamentos:

― Cada instrumento tem a sua função ― disse Anos, com uma expressão tristonha no rosto. O cão soltou um silvar assustador e aproximou-se com o dorso a ondular. ― E, ao contrário dos animais, somos seres humanos. A essência pode definir as nossas tarefas e fazer-nos aceitá-las, mas ainda assim há algo mais profundo em nós que nos pode fazer recusá-la. O livre-arbítrio.

Língua de Ferro deslizou o olhar do rapaz para o cão. Anos avançou, pé ante pé, para o animal, passando pelo salteador com uma mão no ar.

― Porque é que estás a fazer isto? ― perguntou.

― Há algumas semanas, quando chegaste, perdi o meu dom ― disse o rapaz. ― Inicialmente, julguei que a essência te enviara para me substituir, mas agora percebi o que aconteceu. A essência não te criou oposição, porque o Fluído indicava que matarias a minha família e reclamarias o trono. Dentro de ti, ela já percebeu que essa intenção desapareceu ou, pelo menos, foi mitigada. O meu pai pode ter-se avassalado à doutrina, mas nem ele pretende reclamar a coroa, nem está destinado a isso. Ela queria um de nós dois com a coroa de acanto na cabeça, porque apenas um dos seus instrumentos lhe pode dar voz com legitimidade. Espalhar o verbo pelo Império. O meu irmão é um sério obstáculo a isso. Eles vieram, para o matar.

O silvar do cão tornou-se mais carregado com a aproximação do rapaz.

― Eles? ― perguntou Língua de Ferro.

― Sabes a quem me refiro. Durante mais de trezentos anos, o poder distribuído às famílias originais de Chrygia retrocedeu e avançou de forma periódica, até que a essência percebeu que os deuses haviam escolhido um caminho pantanoso e de interesses questionáveis. Um caminho que poderia levar-nos a todos ao abismo, baseado no poder e na arrogância. Nessa altura, os circuitos comerciais foram desviados e Chrygia passou por um período de contusão social, durante o governo de Cacetel Damasi. A cidade tinha então duas mil pessoas e chamava-se de capital do Império, a funcionar como coração das rotas comerciais. A descentralização foi essencial nos planos da essência em reformular o mundo. Ela não tinha intenção de modificar os planos sociais, mas reverter a forma como as pessoas a encaravam. Acreditava que a arrogância dos homens provinha dos deuses, e então tirou-lhes os deuses e tirou-lhes a água. Mas mesmo a caminho da extinção, os homens continuam arrogantes.

Os olhos de Língua de Ferro abriram-se de susto, não só pelas palavras do pequeno Anos, como pelo movimento súbito do canídeo. O enorme cão lançou-se para o rapaz e abocanhou-lhe a cabeça careca, fazendo chover um jato de miolos à sua volta. O jovem parecia ter-se entregue a ele voluntariamente, pelo que não exibira qualquer tremor ou lançara qualquer grito nos momentos que antecederam a sua morte. Língua de Ferro deu um passo atrás, incrédulo por ter permitido que a criança fosse assassinada. O animal mastigou-lhe os restos, sem deixar de o mirar de olhos vazios.

Sem título
“Cão” (Fonte: mundotentacular.blogspot.com)

Claro, percebeu. A essência quer ver Allen morto. Isso explica a minha vontade de o matar. Deu outro passo para trás, quando ouviu sons desagradavelmente familiares atrás de si. Dois cães, com a pelagem tão negra quanto a do primeiro, de olhos tão brancos e altura tão elevada quanto a dele, transpuseram a porta na sua direção. A essência não quer livrar-se apenas de Allen, mas também dos instrumentos que já não lhe servem.

O cão que matou Mia e Anos ergueu as patas dianteiras, fê-las cair no chão com um bambolear suave e ganhou balanço para a frente, lançando-se para cima do salteador. Língua de Ferro viu-lhe os músculos a pulsar no peito, as patas perfeitamente fletidas e a investida pareceu-lhe um borrão em retrospetiva. Não teria barreira mágica para se defender, sabia-o, mas nunca precisara dela. Os reflexos assumiram o lugar que lhe pertenciam quando abriu a bocarra do animal com as próprias mãos e puxou-lhe a cabeça com um torção. Língua de Ferro era um bárbaro, uma lenda dos desertos, um animal em corpo de gente. O peso do oponente fê-lo cair para o lado.

Mataria aquele animal com toda a propriedade. Fê-lo com selvajaria. Mas tanta bravura e ferocidade, paixão à vingança e corpulência física não lhe bastariam. Havia mais dois cães daqueles a avançar para ele, com raiva a verter-se-lhes das mandíbulas. Seria desmembrado e transformado em ração, se tiros não fossem disparados da entrada da cozinha, fazendo os animais encolherem-se e ganirem antes de caírem com manchas vermelhas nos dorsos negros como a noite.

Os cães gigantescos foram abatidos a tiro, o que lhe revelou não estarem protegidos pelo halo de proteção que os escolhidos pela essência costumavam deter. Talvez tal blindagem não granjeasse os animais, ou talvez a essência não os achasse importantes para lhas conceder. Língua de Ferro sentiu os dedos cheios de sangue que não era seu quando removeu os dedos da boca do animal que enfrentara. Sentou-se no mármore, com os reflexos embotados pela reação da essência no seu corpo. Viu vultos turvos à sua volta. Quando sentiu mãos nos seus ombros, reconheceu o jovem que o abraçava. Sob as sobrancelhas douradas, Tayscar parecia preocupado.

Atrás dele, sobranceiro, Seji ajeitava o mosquete com o ar presunçoso de quem salvara o dia. Atrás dele, às portas da cozinha, um homem com uma sobrecasaca de veludo cheia de bolsos e botões removeu uma máscara cinzenta do rosto, cujo nariz proeminente dava-lhe uma aparência risível. Era Dagias Marovarola, a balançar os caracóis negros e a gingar as ancas.

― Dívida saldada, Valentina. Não precisas agradecer-me. ― Aproximou-se de uma mesa, removeu a tampa de uma panela, sorveu o ar à sua volta e perguntou: ― O que é que há para jantar?

Se não tivesse assistido à morte de uma mulher e de uma criança inocentes, talvez sorrisse. Língua de Ferro ergueu-se de súbito e disse:

― Jantas depois. Ainda há trabalho a fazer. Por que raio demoraram tanto tempo a chegar?

Tayscar atirou-lhe um dedo indicador, acusatório:

― O seu plano deixou muitas brechas abertas. Porque não nos contou ainda nos Poços o que pretendia?

Não podia perder tempo a explicar-lhes tudo.

― Nunca verbalizei o meu plano em voz alta. Limitei-me a matar dois camelos e a pedir a Empecilho para os enterrar. Precisava fazê-los acreditar que tinha morto as miúdas. Duvidava que, através de mim, a essência não o descobrisse, e desse modo, Vance também o soubesse, mas precisava colocá-las em segurança e temia que Sander Camilli as mandasse matar. Para provar a minha lealdade à essência e conquistar a confiança de Chrygia, achei por bem forjar a morte das raparigas e enterrar os camelos junto ao cadáver do pai delas.

― E mandou-as de volta, sozinhas ― grunhiu Seji, com censura.

― Chegaram vivas, não chegaram?

― Por pouco ― respondeu Tayscar, cheio de azedume. ― Quase que as matou.

Isso não aconteceria, pensou Língua de Ferro, sem o verbalizar. Algo dos deuses mortos que matou o pai delas ainda vive no seu íntimo, e regressará, mais cedo ou mais tarde.

― Não importa. ― Virou o rosto para Marovarola. ― Uma vez que estás aqui, significa que elas transmitiram a mensagem e estão em segurança.

Marovarola passou com uma manga pelo nariz, limpando o muco que lhe escorria para a boca.

― Sim, Valentina. A tua cavalaria chegou. Tal como planeaste, sabotamos um comboio, fizemo-nos passar por locais e seduzimos umas copeiras. Onde é que está o maldito Camilli para o matar?

Sem título
“Pirata” (Fonte: fineartamerica.com)

Língua de Ferro suspirou profundamente, enquanto passava por eles e dirigia-se ao quarto para recuperar Apalasi.

― O jogo mudou, Marovarola. E o alvo também. Não vamos matar Sander Camilli.

Marovarola seguiu-o pelo corredor em passos bambos e rápidos, com Tayscar e Seji a segui-los sem vontade.

― Como assim? ― perguntou Marovarola. ― Quem é que vamos matar então?

Língua de Ferro pegou num candeeiro sobre uma cómoda e voltou a pousá-la.

― Vance Cego. O nosso velho amigo está aqui para matar Allen e eu vou impedi-lo. Estes cachorrinhos foram uma manobra de diversão para espalhar o terror no Capitólio e tirar-me do Salão de Baile.

Dagias Marovarola parou, com os olhos muito abertos.

― Mas, por que carga de água queres tu salvar Allen? O maldito é um cabrão presunçoso.

Língua de Ferro virou-se rapidamente e encostou o homem a uma parede, pelo pescoço. Viu os olhos de Marovarola a abrirem-se muito e apertou ainda mais os polegares na sua garganta. Sentiu vontade de o estrangular, ou talvez fosse a vontade da essência.

― Também tu és um cabrão presunçoso. Eu sei tudo, Marovarola. Eu sei que foram vocês que mataram o Regan.

Soltou-lhe o colarinho e deixou-o cair sentado no solo. Seji e Tayscar trocaram um olhar confuso. Quando Língua de Ferro lhes virou as costas, Marovarola começou a gargarejar.

― Ora, Val, Dzanela era um cretino. Demasiado certinho, demasiado seguidor das suas próprias regras. Lembras-te do que ele lhes chamava? Ética de salteador. Sim, foram mesmo essas as palavras que ele disse quando trocei dele. Antes de lhe dar um tiro. Não tive gosto em fazê-lo, mas Eduarda pagou-me uma pipa de ouro pela vida dele…

As palavras morreram-lhe na boca, ao perceber que se denunciara. Língua de Ferro lançou-lhe um olhar mortífero. Se tivesse uma arma nas mãos, possivelmente matá-lo-ia ali. Fá-lo-ia de mãos nuas. Sentiu-se impelido a fazê-lo, mas queria saber mais sobre aquilo.

― Marovarola, eu convivi convosco. Eu vi o horror nos olhos de Eduarda. Eu senti a verdade das vossas palavras. E agora, descubro que é tudo mais uma mentira que me atiraram aos olhos?

Dagias Marovarola fechou os olhos.

― Luce e Eduarda inventaram muitas mentiras. O medo pelas filhas deles era verdadeiro. E o medo que sentiam por Sander Camilli também…

Língua de Ferro fechou a boca numa expressão que sugeria fortemente que lhe iria cuspir em cima. Não o fez.

― Sander Camilli nunca lhes fez realmente oposição. O filho dele, sim.

― Sander Camilli teve um filho muito parecido com o profeta que os levou ao poder ― revelou Marovarola. ― Eles temiam que a força que enviara Vance para eles, que os alertara para o final do mundo como o conheciam e os exortou a reservar a água em poços, lhes roubasse agora o que tinham conquistado a favor de Camilli. Ora, Val, se o que Tayscar e Seji me contaram é verdade, tu estiveste lá dentro. Viste o que as miúdas tinham dentro delas. Eduarda e Luce estavam apavorados com isso. E, mesmo assim, também temiam que ele as matasse.

― A essência usou Sander Camilli para atrasar o regresso dos deuses ― disse Língua de Ferro. ― Mas nunca o quis no poder. Nem a ele, nem a Allen, nem a Luce ou a Eduarda. A essência quis-me no poder. A mim. Pelo menos, provisoriamente. Por alguma razão, vejo-me a cair envenenado aos pés de um criado qualquer, e vejo Vance a tutorar o pequeno Anos até que este atingisse a maioridade. A essência não contava que ambos nos virássemos contra ela. Agora, só lhe parece restar Vance, e Vance nunca me pareceu talhado para o poder. Muito provavelmente, os ditames do Fluído levam agora Semboula numa outra direção. Ou Vance tem um segredo qualquer com ele, ou não restará muito mais à raça humana quando a água dos Poços acabar. Quando isso acontecer, a raça humana será extinta.

Marovarola arqueou as sobrancelhas, e começou a rir como um louco.
Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis | Capítulo Vinte e Sete | Capítulo Vinte e Oito | Capítulo Vinte e Nove

Estou no Wattpad #28

Perdoem-me o atraso. Sei que vos tinha prometido novo capítulo no domingo, mas com a ida ao Sci-Fi Lx, o aniversário de um primo e o meu, estes primeiros dias de férias não me deixaram qualquer espaço para deixar o capítulo pronto a publicar. Depois de uma lição de etiqueta, Língua de Ferro descobriu que o esclavagista que havia estado em conluio com Lucilla, Varro, está de regresso a Chrygia, mas não é o único a chegar para o grande baile. Anos, o pequeno filho de Sander Camilli, oferece ao salteador pequenas revelações que podem mudar o rumo da história.

CAPÍTULO VINTE E OITO: O BAILE

Se tivesse tomado a liberdade de fintar o destino, havia recolhido a fortuna das minhas apostas, preparado Hije para mais uma viagem e seguido para leste, estabelecendo-me numa das antigas cidades fronteiriças como mecenas ou senhor local. Todavia, essa não era a minha essência, e posso dizer que, por esses dias, como em todos os outros, os ditames do Fluído já haviam sido definidos para mim. De Constania a Careepi havia viajado num camelo surripiado, e depois de encher os bolsos e reencontrar o meu diabo, escondi-me numa aldeia-riscada, que era o que chamavam àqueles fragmentos de cidades semi-destruídas pela Seca que agora não eram suportados por legislação ou magistérios, o que os tornava esconderijos perfeitos para todo o tipo de contrabandistas, caloteiros, ladrões e assassinos. Esperei que os rumores sobre a minha fuga se espalhassem, até procurar um velho ourives, vendedor de pedras contrafeitas que chegara de Veza dois dias antes. Foi através dele que cheguei a Bortoli, que engordara a carteira a olhos vistos e se havia tornado um famigerado mecenas, a quem se lhe conhecia fortuna em todas as sete cidades do deserto oriental. Vi-o quando passou por aquela aldeia, cercado de uma segurança apertada, seguido por uma caravana de camelos, rolos de seda e paletes de especiarias. Não deixei que ele me visse; caso me identificasse naquele momento, tenho a certeza que ordenaria a minha morte, mesmo num povoado clandestino como aquele. Observei-o de longe, escondido nas sombras dos becos e das vielas, enquanto ele fazia os seus negócios obscuros. Por aqueles dias, já não era segredo para mim que Mario Bortoli almejava fazer sombra ao novo Imperador, e que havia selado importantes alianças com tribos rezolis para lhe fazer oposição. Sub-repticiamente, através do ourives, deixei-lhe mensagens, oferecendo a minha espada aos seus serviços. Chamem-me ingénuo, mas eu acreditava que aquele mundo tornara-se demasiado pequeno para mim. Daria um olho da cara para ver a expressão de Bortoli no dia em que finalmente assinei uma das missivas que trocámos.”

― Dooda Vvertagla não era a pessoa que você julga que era ― disse-lhe Sander Camilli enquanto desciam a escadaria. ― Se ele fosse esse sujeito honrado de que fala, teria ele comandado um lendário grupo de salteadores? Liderado o assalto ao Império?

Língua de Ferro acompanhava-lhe o passo com as mãos nos bolsos e a mente enegrecida pelos pensamentos. Não se sentia confortável por ter deixado Apalasi no quarto, mas seria profundamente desrespeitoso apresentar-se armado num baile. As palavras de Camilli pareciam unhas a esgravatar uma borbulha cheia de pus na sua mente.

― Ele tinha um sentido de justiça, senador. Quem de nós tem moral para censurá-lo? Trabalhamos para o mesmo, ainda que ele tenha declinado a oportunidade de ser coroado quando ela se lhe apresentou.

Sander Camilli soltou uma risadinha nervosa.

― Pergunto-me quanto você conheceu do homem, Valentina.

Língua de Ferro não partilhou da sua falsa alegria. As palavras de Sander Camilli estavam impregnadas de azedume. A crer nas palavras da Intendente, o senador fora apaixonado por Dooda, e era notório que o seu desprezo por ele devia-se essencialmente à rejeição.

― Muito mais do que você, asseguro-lhe.

― Lamento, Valentina, mas depois da sua traição, julga mesmo que ele o perdoou? Ele era obcecado por Lucilla. Recorde-se que ambos estiveram por detrás da sua captura. Atiraram-no para a Prisão.

Língua de Ferro suspirou.

― Ele suicidou-se para me salvar.

Foram interpelados por uma gargalhada. Na base da escadaria, com um paramento militar coberto de estrelas douradas e dragonas aos ombros, a Intendente testemunhava a discussão. Tinha uma máscara de lacre escuro na forma de uma coruja sobre o rosto, mas Língua de Ferro não sentiu dificuldade alguma em identificá-la.

― Está a falar de Dooda Vvertagla, Língua de Ferro? Prometemos-lhe que saberia a verdade neste baile, concedo-lhe isso. Dooda estava condenado à morte. ― Sander chegou à base da escadaria e enlaçou o braço no da Intendente. ― Tinha uma doença grave, peneias azuis. Partes do corpo que enegreciam. Não há para isso uma cura milagrosa e Dooda não ia esperar pelos dias terríveis que esperam os condenados. Usou a vida para conseguir fazer valer as suas intenções e atirar Allen para as vossas mãos. Lucilla e Eduarda percebiam que Allen começava a fugir ao seu jugo, a ter ideias próprias, a manifestar vontade em exercer o título que lhe atribuíram em público. Convenhamos, era inexperiente na política, mas com Sander a aconselhá-lo, daria um bom líder.

― Talvez ainda julguem que sim ― disse Língua de Ferro, certo de que o pretendiam coroar.

Chegou à base da escadaria e prosseguiram o caminho, lado a lado, em direção ao Salão de Baile.

― Nunca excluímos essa hipótese, se bem que o rapaz está bastante fragilizado de saúde ― disse Sander Camilli com um suspiro, e caso Língua de Ferro não ouvisse o seu testemunho no Senado, julgá-lo-ia sincero.

Um par de guardas abriu as portas do salão para eles, quando a Intendente sussurrou:

― Lucilla tencionava matá-lo. Regan virou-se contra ela e tentou defender o irmão. Se, até ali, não viam Allen como um verdadeiro perigo, posso dizer que o irmão dele, por tudo o que haviam partilhado, era bem mais arrojado e podia, realmente, arruinar-lhe os planos a favor do irmão. Com Dooda a trabalhar como espião, tornou-se imperial que Eduarda deixasse Ccantia por sua conta e risco e se fixasse em Chrygia como um dos membros do Triunvirato. Foi por isso, essencialmente, que montaram a emboscada a Regan. Durante uma campanha nos desertos, a sua diligência foi atacada. Ele escapou com graves ferimentos, mas não foi muito longe.

Língua de Ferro fechou os olhos, enquanto transpunha as pesadas portas do salão. Tentava acreditar que aquilo era mentira, que Lucilla e Eduarda não eram os autores morais da morte de Regan. Algo dentro dele, a sua vontade, insistia consigo que era mentira, mas tudo lhe parecia fazer demasiado sentido para sê-lo. O Salão estava repleto de pessoas, homens vestidos de gibão e ternos de algodão, senhoras com belos corpetes de seda, veludo e pano de prata, cheios de folhos e pedrarias. Muitos traziam máscaras nos rostos, outros limitavam-se a usar perucas e disfarces pontuais. Sander Camilli e Língua de Ferro eram dos poucos que não portavam qualquer disfarce.

Sem título
Baile (Fonte: youtube.com)

― E no que é que a morte de Regan está relacionada com a morte de Dooda? ― perguntou-lhes.

― Dooda estava feito com eles, é claro ― disse Sander, e parou para se virar para ele. Esperou que um casal com máscaras na forma de focinhos de aves, com belos trajes de veludo, passasse por si. ― Ele amava Lucilla, apesar de nunca retomarem a velha relação que vós conhecestes. De certo modo, até apadrinhou o romance entre Anéis da Morte e a mulher. Pelo que me contaram, todos eles mudaram muito desde que traíste os Doze Vermelhos. As relações modificaram-se, e Dooda foi aquele que mais sofreu, refugiando-se numa máscara de passividade quando todo o seu interior regurgitava de veneno. Ele estava doente há já algum tempo, e limitou-se a aceitar aquele relacionamento como parte de algo maior. Vingar-se de ti.

Língua de Ferro cerrou os dentes.

― Ela traiu-o tanto quanto eu…

― Os argumentos de uma mulher podem ser um pouquinho mais convincentes ― interferiu a Intendente, com ironia no tom de voz. ― Com Regan morto, Allen nas tuas mãos e Eduarda no poder, Sander nada podia fazer para interferir na gestão do Império. Estava em minoria. Só o mantiveram no poder porque tinha influência no senado e conhecimentos que lhes faziam falta. Digamos que o meu esposo nunca se lhes opôs com frontalidade. Era um carneirinho na sua presença.

Sentiu uma ligeira tensão entre o casal, quando trocaram um olhar cauteloso.

― Isso não é bem assim ― contrapôs Sander, mas Língua de Ferro sabia que era e que Lucilla o utilizara como bode expiatório, rotulando-o como senhor malvado de Chrygia para sacudir dos seus ombros várias responsabilidades.

Transeuntes passaram por eles, com vestes requintadas, alguns com máscaras nos rostos, todos eles mexericos e gargarejos. Esperou que um grupo de cinco pessoas passasse por eles e reverenciassem Camilli, para lançar-lhes uma última pergunta.

― Porquê Allen? O que é que ele tem de especial? E porque quereriam eles deixá-lo nas minhas mãos?

― Porque ― disse Sander Camilli ―, na melhor das hipóteses, ele encher-te-ia os ouvidos com mentiras. Na pior, matá-lo-ias. Qualquer das hipóteses seria conveniente aos seus planos.

Retomaram a marcha. Entre tantas figuras desconhecidas, Língua de Ferro reconheceu alguns rostos. Ciaran portava-se com um verdadeiro anfitrião, conduzindo os convivas às suas mesas em passos lentos e arrastados, ainda assim perfeitamente cortês. Exuberâncias de loiças e guardanapos em leque transformavam as correntezas de mesas numa excentricidade luxuosa. Havia malabaristas e trovadores, e os sons das flautas eram abafados pelas conversas intermináveis dos convidados. Língua de Ferro sentia que vários olhares eram-lhe endereçados, todos eles com cautela e hostilidade. O baile era em sua honra e ao serviço que prestara a Chrygia ao quebrar o cerco da cidade, mas o que sentia era uma profunda desconfiança. As pessoas não estavam ali para o reverenciar, mas sim para festejar, porque nenhuma figura da nobreza que se prezasse podia faltar a um evento daqueles. Concentrou o rosto marcado pelas bexigas do General Pantaleoni, com profundas olheiras e olhar grave, numa mesa com a esposa, o sogro, um senador velho e cadavérico, e o filho, Degas, que apontou na direção de Língua de Ferro mal o viu, com ousadia e indignação no olhar. Vários dos senadores que havia encontrado na Câmara do Senado também ali estavam, a fitá-lo com desagrado. Tentarão matar-me esta noite?

― E se Allen me contasse a verdade? ― perguntou.

― Não seria uma grande perda ― respondeu a Intendente. ― Mas seria pouco provável. Allen sempre teve dotes de ator, e tinham o pai dele nas suas mãos. A morte do irmão fora um aviso bem sério de que não estavam para brincadeiras. Só quando raptamos as filhas deles é que Lucilla e Eduarda começaram a perceber que tínhamos as nossas armas e não éramos tão inofensivos como pensavam. Em boa verdade, até eles estavam assustados com aquilo que as miúdas tinham dentro delas, mas eram as filhas. A partir daí, começou um braço de ferro entre nós, e com Bortoli a morder-lhes os calcanhares, decidiram envolver-te no jogo deles.

Língua de Ferro sentiu-se derrotado. Sentia-se um idiota. Lucilla estivera por detrás de todas as armadilhas. Odiava-a profundamente, e mais profundamente do que isso, amava-a. E era isso que o dilacerava por dentro. Dooda, Lucilla e Eduarda tinham-no enganado. Meneou a cabeça e tentou atirar esses pensamentos para depois.

Sander Camilli cumprimentou uma matrona exuberante, que ergueu a máscara nariguda para o reverenciar com uma mesura, e voltaram a avançar. Varro liderava uma mesa ampla, cheia de jovens mulheres, belas e de pouca roupa, que emborcavam licores uns atrás dos outros. O esclavagista trocou com Sander um breve aceno de cabeça, mas não se deteram por mais tempo. Língua de Ferro viu no olhar de Varro um veneno ácido, a borbulhar. Sorriu ao reconhecer várias figuras familiares numa mesa próxima. Boca de Sapo tinha uma máscara de urso no rosto, Ravella um exuberante vestido drapeado com madrepérolas e Empecilho um fino fato vermelho de veludo. Com um olhar brilhante e sincero, o rapaz acenou-lhe, quando o viu. A figura de costas, com uma ampla peruca grisalha cheia de cachos e um gibão de veludo verde, era Jupett Vance. Não precisava ver-lhe o rosto para sabê-lo.

Sem título
Baile (Fonte: servandorocha.com)

Mais à frente, uma larga mesa esperava-os com distinção. Língua de Ferro reconheceu que lhes pertencia e quis fechar o seu esclarecimento com uma última questão.

― Falaram no pai de Allen. Que Luce e Eduarda o tinham em seu poder. Onde está ele? Talvez possa falar-lhe depois.

A Intendente baixou a cabeça e Sander respirou pausadamente, antes de apontar para a mesa. Encontrou os filhos de Sander Camilli sentados em fila, todos virados para a frente do Salão. Estava ali o pequeno Anos, que o saudou com um sorriso mal o viu, estavam ali Ceil e Amehia, com sorrisos abertos e a mexericar, e três outras raparigas de tons pálidos que seriam suas irmãs. Viu também Allen, com um aspeto amarelo e febril.

― Valentina ― sussurrou Sander num tom cansado. ― Disse-te que descobririas a verdade neste baile. Aqui a tens. Eu sou o pai de Allen e Regan. Ainda acreditas que sou eu o assassino do teu amigo?

Língua de Ferro estreitou os olhos com a surpresa. Sentiu-se a mergulhar em água fria. Fixou o rosto doente de Allen, mas ele não lhe retribuiu o olhar. Estava pálido e não parecia sentir a melhor das vontades em estar ali presente. Era assessorado por um escravo, e cada movimento parecia doer-lhe. Recebeste um tratamento doloroso, e o teu torturador está entre nós, se ainda não o reconheceste, pensou Língua de Ferro. Por alguma razão, sentia pena de não ter sido ele a torturá-lo.

A mesa onde se encontravam era a mais comprida e exuberante do Salão, e um empregado vestido de terno apressou-se a chegar para trás o seu cadeirão. Seria o primeiro dos três a sentar-se, como direito de convidado de honra. Depois de Língua de Ferro sentaram-se Sander Camilli e a Intendente, um de cada lado. O último lugar que faltava preencher pertencia à senhorita Finn, que chegou com um passo apressado e logo os cumprimentou com distinção.

― Está tudo a postos ― disse. ― Dei instruções para começarem a servir.

Sander Camilli sorriu-lhe antes que ela se sentasse.

― Obrigado, mãe!

Língua de Ferro abriu a boca num misto de admiração e sorriso. Recordou-se do hábito comum aos dois em empurrar as lunetas contra a cana do nariz e sentiu vontade de rir. O pai e a avó de Dzanela, pensou, ao recordar-se do velho amigo. O amigo que o traíra para salvar a família das mãos de Lucilla. Beliscou uma azeitona e depois de remover o caroço da boca com os dedos, colocou-o na borda de um prato. Finn pareceu observá-lo e lançou-lhe um olhar de censura. Língua de Ferro esperou que a refeição fosse servida para aproximar a boca do ouvido de Sander Camilli.

― Sabe que a sua filha Ceil se anda a encontrar com Varro?

O senador sorriu.

― Também eu já me encontrei com ele. O que é que isso pode ter de mal?

Língua de Ferro tossicou com um sorriso trocista.

― É do conhecimento público a relação que encetam ― disse. ― Preocupam-me mais as motivações do vendedor de escravos. Ele fê-lo a mando de Lucilla, e a sua filha parece apaixonada por ele.

Sentiu um breve constrangimento atravessar os olhos de Sander Camilli, enquanto cortava um pedaço de pernil assado.

Sem título
Máscara (Fonte: pinterest.com/explore/cyrano-de-bergerac-play)

― Pelo que me constou, a minha filha Ceil também se encontrou consigo e, no entanto, não me parece apaixonada.

Língua de Ferro cerrou os dentes. O homem não queria ver o que estava à frente dos seus olhos.

― Ceil usou-me para agravar Degas Pantaleoni. Para que ele rompesse o noivado e ficasse livre para Varro.

― Permita-me a descortesia, Valentina, mas esse assunto não é da sua conta. Meta-se na sua vida.

O salteador não engoliu aquilo.

― Isto é a minha vida, Sander. Não me disse antes que tencionava coroar-me? ― O constrangimento parecia cada vez mais notório em Sander Camilli. ― Eu sei que há quem queira matar-me esta noite. E que você planeia usar-me como seu instrumento, enquanto prepara a coroa para o seu rico filho Allen. Também sei que Ceil não é filha de uma escrava qualquer e que você matou a mãe dele quando a encontrou com um amante.

Sander Camilli virou o rosto para si, completamente aturdido.

― Falem mais baixo ― exortou a Intendente ao seu lado direito.

― Eu… eu… ― Sander Camilli engoliu a afronta e fez baixar os ombros, sem hipótese de rebater. ― Gostaria de saber como tomou conhecimento de tudo isso. Matarei o maldito traidor que deu com a língua nos dentes. Certamente que foi um opositor dentro do senado.

― Poupe-se a isso ― grunhiu Língua de Ferro. ― Descobri por minha conta e risco. Talvez ainda esteja a tempo de juntar-se àqueles que pretendem reclamar a minha cabeça esta noite.

― Cale-se ― exigiu Sander Camilli, baixo o suficiente para não despertar atenções. ― A minha filha Ceil é imprevisível e caprichosa. A mãe dela era igual. Eu amava-a, mas traiu-me da pior forma que uma mulher pode trair um homem. Encontrei-a nos braços do meu melhor amigo, o senador Cavallare. Matei-os aos dois e não é algo de que me arrependa. Acontece que Cavallare era irmão de Simono Gogios, o avô de Degas, que me tem criado alguma oposição no Senado. Ele é um dos impulsionadores da ideia de que você deve ser morto, Valentina. Não fosse a importância do General Pantaleoni, já teria quebrado aquela família. Ainda assim, se puder evitar que Ceil se case com Degas de forma passiva, tanto melhor. Quanto à relação de Ceil com Varro, eu próprio lhe pedi para o manter entretido, sob rédea curta. Não me parece merecedor de grande preocupação desde que nos chegou a notícia da morte de Lucilla, mas pretendo saber se ainda detém qualquer motivação para se nos opôr.

Língua de Ferro mastigou calmamente, ao compreender que Sander estava consciente de todos os pequenos passos que eram dados no interior do Capitólio. Tinha bons olhos, e usava a filha Ceil a seu bel-prazer, embora parecesse cego para com as vontades autónomas da rapariga. Sentiu-se propenso em dizer-lhe que a filha Amehia estava apaixonada pelo rapaz Pantaleoni, quando alguém abriu o baile com um rugido. Nem dois minutos mais tarde, Ceil lançou-se para a sua frente e esticou um braço na sua direção.

― Senhor Valentina, dá-me a honra desta dança?

Língua de Ferro sorriu. Várias máscaras, removidas para o jantar, foram recolocadas, e o perímetro de dança ficou cheio de gente. O salteador foi arrastado pela rapariga para o centro do salão e sentiu-se aliciado pelo seu olhar ansioso e prometedor. Uma opereta começou a tocar e Ceil segurou-lhe os ombros largos. Puxou-o para lhe dizer aos ouvidos:

― Deixe-me comandar os seus passos. Limite-se a seguir-me.

― Ora, julguei que você comanda sempre os meus passos. Esta noite, você vai descobrir que eu nasci para dançar.

A rapariga soltou uma gargalhada. Língua de Ferro sentiu a maciez daquela pele nos seus dedos endurecidos, uma frescura tentadora que lhe relembrava porque era tão bom sentir-se vivo. No rosto da rapariga, porém, viu outros traços. Mais duros e tentadores. Viu o rosto de Lucilla. Deu passos para a esquerda e para a direita, seguindo-a atentamente. A dado momento, ao padrão dos seus passos começaram a dançar em círculos. Língua de Ferro viu-se visado do olhar venenoso de Varro e do olhar ofendido de Degas Pantaleoni. Quando o corpo de Ceil tombou para trás, suportado pela mão ampla do guerreiro, este perguntou-lhe:

― Sentes alguma coisa por Varro?

A rapariga não parava de rir. Lançou-se para a frente, para retomar a posição original, e levou as mãos às ancas.

― Está com ciúmes, senhor Valentina?

Ele sorriu-lhe, e quando se preparou para responder, ouviu os primeiros gritos. A sua expressão ensombrou-se. Sentiu os ombros a ficarem tensos.

― O que foi? ― perguntou ela, assustada.

― Socorro! ― gritou uma voz distante. Em pouco tempo, os soluços arrastados e guinchos aterrorizados começaram a fazer-se ouvir por todo o salão. ― Eles vêm aí!

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis | Capítulo Vinte e Sete | Capítulo Vinte e Oito

Estou no Wattpad #27

Língua de Ferro resolveu aceder ao pedido de Ceil, a filha de Sander Camilli, e encontrar-se com ela nos banhos. Porém, percebeu que estava a ser usado como instrumento para a satisfação de mais um capricho da rapariga. Afinal, ela estava noiva e queria desesperadamente perder o amor do pretendente. O capítulo 27 continua com a integração de Língua de Ferro em Chrygia, funcionando como ponte para o grande baile que Camilli prepara em sua honra. Se estão a estranhar a data de publicação deste capítulo, esclareço-vos que faz hoje um ano que foi publicado o primeiro capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer. Espero que gostem deste bónus especial de aniversário, porque para a semana há mais.

CAPÍTULO VINTE E SETE: VELHOS AMIGOS

“A minha primeira estadia em Constania reservou-me grandes surpresas. Quando o mensageiro de olhar míope indicou-me uma estalagem nas sombras de um beco, preparei-me para uma facada nas costas, para uma puta com segundas intenções ou para um bando de caçadores de cabeças ou ladrões. Estava certo de que me esperava um qualquer tipo de armadilha, mas o que encontrei foi uma velha cheia de peles flácidas e olhar mortiço com toda a luz do sítio na vela que segurava entre as mãos. E só quando ela se afastou com a claridade, divisei Dooda Vvertagla ao fundo do recinto quase vazio, encostado a uma lareira apagada. A mulher desapareceu por uma dependência nos fundos da sala, deixando a vela na prateleira da lareira. Antes de se retirar, recebera em troca uma moeda das mãos de Dooda. O meu amigo, aquele que eu havia traído, sorriu-me, depois avançou para mim e, quando esperei que me atacasse, abraçou-me. Juro que as lágrimas picaram-me os olhos. Havia-lhe roubado a mulher que amava, havia-lhe destruído a companhia que liderava, havia-o deixado às mãos de Cooper Ravoli como se deixa um cadáver para abutres, e ainda assim ele amava-me. Continuava a amar. Passámos a noite a conversar. Contou-me primeiro como havia sobrevivido, a deambular pelas areias do deserto, a trabalhar como assassino a soldo, a envolver-se em esquemas de sabotagem bem remunerados. Durante horas, limitou-se a falar, como quem deseja narrar a um velho amigo tudo aquilo que venceu e todas as provações por que passou. Em nenhum desses momentos, pareceu desejoso de explicações. Mas, quando as histórias começaram a escassear, instalou-se um silêncio frio entre nós. Mandou chamar a estalajadeira para acender o fogo, mas não seria o estridular das labaredas a aquecer o ambiente entre nós. Quando voltamos a ficar sozinhos, ele perguntou-me porquê e eu respondi-lhe a única resposta honesta que lhe podia dar. Disse-lhe que a amava. Dooda limitou-se a assentir com a cabeça, e como se isso não importasse mais, falou-me da nova composição de Vermelhos que forjara. Muito mais do que doze, os seus novos pupilos eram uma legião de jovens sabotadores, salteadores e mercenários. Na manhã seguinte, antes de regressar a Careepi, disse que me perdoava, e fez-me prometer que voltaria ali para o encontrar.”

Só quando o sol se espraiou pela porta de sacada, Língua de Ferro sentiu que aquele quarto era bonito. A noite não lhe aplacara a visão, mas os detalhes arquitetónicos das colunas de pedra que suportavam a cama pareciam mais vívidos do que nunca à luz solar, os tamboretes de verga junto ao oráculo pareciam mais dourados e o armário mais imponente. Não havia frigidez no pavimento de mosaicos, nem fantasmas a vaguear nas colgaduras. Caminhou até à câmara privada para urinar na latrina e proceder às abluções matinais, não sem antes avalizar se a respiração pausada do cão de olhar branco ainda se sentia do outro lado da porta. Aparentemente, se os seus sentidos apurados pela essência não o traíam, o cão havia desaparecido.

Abriu a porta quando o mordomo se preparava para bater, apanhando-o com um punho fechado bem erguido acima de um ombro. O homem piscou os olhos com a surpresa.

― Em que posso ser útil? ― perguntou Língua de Ferro, vestido com um longo gibão azul-marinho cheio de botões e Apalasi à cintura, oculta por uma prega de seda e algodão.

― Bons dias! Será de grande utilidade se me deixar acompanhá-lo até ao Salão de Baile. O meu nome é Ciaran e sou o mordomo do Capitólio.

A forma pedante com que verbalizou a ocupação fazia parecer a posição privilegiada à sua ótica. Língua de Ferro aceitou acompanhar o homem velho e mirrado, uma vez que, de antemão, sabia que Ceil o esperava para prosseguir as aulas de dança. Arrastou-se atrás dele, corredor fora. Pequeno e curvado, o sujeito tinha orelhas que pareciam abanicos e um par de olhos cansados e leitosos. Vestia uma jaqueta escura de bom algodão sobre uma camisa rendada e cheia de folhos, mas também um par de calças justas, tão negras quanto piche.

― Foi Ceil quem o mandou acompanhar-me? ― perguntou. Tencionava quebrar o silêncio incómodo que lhes acompanhava o som dos passos enquanto desciam as imponentes escadarias cercadas de frescos e esculturas do período Damasi. ― A Intendente?

― Siga-me em silêncio e não perderá tempo a obter respostas infrutíferas ― disse o homem sem sombra de humor. ― A noite reservar-nos-á grandes momentos, senhor. Mas até lá, muito há a ser feito.

A hostilidade no tom de voz dava a entender que, sendo o mordomo do Capitólio, tinha muito trabalho a fazer para os preparativos do baile, e que lhe parecia indigno perder tempo a conduzi-lo até ao salão. No entanto, Língua de Ferro sentia dificuldade em acompanhar a lentidão de passos do velho. Sentiu-se tentado a verbalizá-lo, mas mordeu a língua. Sabia que realçar as limitações físicas do homem não ajudaria à sua integração.

― Se tem tantos afazeres, Ciaran, porque o enviaram a si para me guiar?

― Chamemos-lhe uma apresentação informal, senhor ― respondeu-lhe, sem nada mais a acrescentar.

Quando chegaram a um par de portas belamente esculpidas com toda uma variância de signos e motivos bélicos, pintadas de verde-marinho, soube que haviam chegado. Ciaran empurrou uma das portas com um esforço costumeiro e fez sinal a Língua de Ferro para entrar. O solo fora polido até brilhar. As amplas janelas de sacada estavam todas abertas para trás, fazendo arejar o salão. Língua de Ferro sentiu-se uma formiga, na imensidão que era aquele Salão de Baile. Enquanto caminhavam, observou os frescos do teto, representando cenas divinas, e as longas prateleiras que cobriam as paredes, com cerâmicas e porcelanas de toda a sorte, intervaladas por ocasionais quadros em caixilhos de veludo com rostos de reis e imperadores, e expositores com armas de caça e mosquetes de guerra.

Sem título
The Queen of Sheeba (Fonte: traveltoeat.com)

Procurou Ceil com o olhar, mas o que encontrou foi uma mesa atoalhada, sobre a qual dispunham-se elegantemente cinco copos numa meia-lua, contornando a orla dos pratos que se sobrepunham uns sobre os outros. Uma senhora de idade avançada, cheia de caracóis grisalhos que lhe caíam para a sobreveste verde, exibia um par de lunetas na ponta do nariz e esperava-os com as mãos atrás das costas. Atrás dela, três criadas vigiavam um aparador repleto de talheres, pratos e panelas cobertas.

― Pela maldita garganta de Profundo. Estás cada vez mais lento, Ciaran. Estou há tempos à vossa espera.

O velho mordomo recuperou o fôlego da caminhada até ali, mas não pareceu ter ânimo para discutir. Virou-se para Língua de Ferro e encolheu os ombros.

― Esta é a senhorita Finn, a mestra de etiqueta. O senador deixou indicações para a instruir nos nossos costumes.

Língua de Ferro sentiu o mau humor a absorvê-lo.

― Onde está Ceil? Disse que me esperava aqui para me ensinar a dançar.

A mestra de etiqueta deslizou em passos ágeis na sua direção, ultrapassando Ciaran e acariciando o bárbaro no rosto. Apertou-lhe uma bochecha, como se fazia às crianças.

― A menina Ceil tem outros compromissos, rapaz. Quanto à necessidade de saber dançar, não se preocupe. Dançar é uma metáfora para aquilo que vamos fazer com pratos, copos e talheres.

Língua de Ferro não se lembrava de ter passado horas tão tediosas durante os últimos anos da sua vida. Sentou-se à mesa e comportou-se o mais cordialmente que soube, mas cada gesto ou movimento eram corrigidos prontamente pela mulher com austeridade, empurrando frequentemente as lunetas contra a cana do nariz. Ciaran não se demorou a observá-los, alegando ter muito que fazer para ficar a vê-los naquilo. As jovens trocavam de pratos e refeições sucediam-se umas às outras, sem que Língua de Ferro provasse mais do que um pouquinho de cada uma. Uma espetada de cabril foi a última iguaria da manhã. O salteador colocou a faca de lado e logo foi surpreendido pela velha mulher.

― Pretende matar alguém esta noite?

Língua de Ferro abriu muito os olhos, aturdido.

― Como?

― O gume da faca, voltado para fora, é um claro sinal de ameaça para com aqueles que estão à sua volta. ― Língua de Ferro observou a faca. ― Para além do mais, uma vez que já usou a faca, não pode nunca reposicioná-la fora do prato. Estamos entendidos?

Suportara aquilo até então por cortesia para com a hospitalidade oferecida, mas a paciência tinha os seus limites. Ergueu-se e lançou um olhar tão feroz à mestra de etiqueta, que a mulher não se tentou a voltar repreendê-lo. Língua de Ferro afastou-se, e já se aproximava da portada dupla do salão quando ouviu o eco da voz de Finn a ir de encontro aos seus ouvidos.

― De qualquer forma, duvido que fizesse progressos.

Sem título
Old woman Disney (Fonte: huffingtonpost.com)

Preparava-se para procurar as cozinhas, uma vez que não lhe fora formalizado qualquer convite para almoçar, quando encontrou Anos a balançar-se de cima de um balaústre.

― Vais cair daí ― advertiu-o.

O rapaz, careca e de olhos vazios, fitou-o com uma expressão divertida. Vestia apenas uma tanga de couro.

― Sabes que não ― disse ele. ― Ambos sabemos que não.

Língua de Ferro sentiu um arrepio perpassar-lhe a coluna. Quase se havia esquecido de quem era o rapaz. Não era dotado de dons proféticos, mas ele tinha razão. Dificilmente estatelar-se-ia no chão, lá em baixo. Era um instrumento da essência.

― Gostava de falar contigo sobre o teu pai. Sobre Chrygia.

O menino continuou a oscilar na cabeça de pedra de um camelo.

― O pai não o matou. Matou a mãe dela.

Confuso, Língua de Ferro meneou a cabeça. Embora não fizesse qualquer intenção de a desembainhar, levou a mão à bainha de Apalasi, como fazia sempre que ficava apreensivo.

― Estás a falar de quem?

― A mãe de Ceil, a verdadeira. Foi afogada numa piscina, quando a encontrou com o amante.

Língua de Ferro arqueou uma sobrancelha.

― A mãe de Ceil não era uma escrava, como a tua?

O rapaz sorriu-lhe de novo, e então saltou e começou a correr escadaria acima. Quando chegou ao topo, voltou-se para lhe oferecer um último sorriso. Parecia malévolo. Seguiu-o sem a esperança de o alcançar. Se o rapaz não lhe queria dar mais respostas, não iria forçá-lo a concedê-las. Elas chegar-lhe-iam de alguma outra forma.

Perdeu o apetite e decidiu procurar Ceil. Por mero acaso, cruzou-se com um pátio atapetado de mosaicos brancos e vermelhos, com uma arquibancada semicircular cheia de homens de togas e uniformes cinzentos. Uma coroa de luzes descia do teto ornamentado, deixando um grave odor a cera no ar. Percebeu ter encontrado a Câmara do Senado, e quando viu Sander Camilli com a mesma toga que envergaram os seus antepassados, a gesticular e a esbracejar ao centro de um círculo de mosaicos, Língua de Ferro encostou-se a um gigantesco pilar de basalto para o ouvir.

― Ele disse-me. Ele matou as crianças. As filhas de Eduarda e Lucilla.

― Se o fez ― grunhiu um senador velho e encovado ― prestou mais um bom serviço ao Império. Mas segundo os relatos que nos chegaram de Selaba, ele também foi responsável pela morte de Dom Michelle.

― E que não fosse ― disse outro. ― Os seus serviços não lhe dão o direito à coroa de acanto.

― Não precisamos coroá-lo ― acrescentou Sander Camilli, cofiando o queixo proeminente. ― Apenas convencê-lo de que o faremos. Allen está em convalescença, mas logo estará preparado para assumir a coroa. Confio tanto nele hoje, como no primeiro dia. Arriscou muito por nós.

Rugidos de assentimento deram a entender que a maioria aceitava a ideia, mas um senador ainda jovem e cheio de um furor inquieto no olhar verbalizou o que muitos já consideravam.

― Temos de matar o bárbaro. Não pode passar desta noite.

― No baile ― concordou uma outra voz.

― Sim ― juntou-se-lhes um terceiro.

Surpreendendo Língua de Ferro, Sander Camilli interrompeu-os.

― Não acho boa ideia. É verdade que ele almeja a coroa de acanto e isso é algo que não lhe podemos dar, mas ele é um enviado da essência, rege-se pelo Fluído. Ele deu-nos a vitória no cerco, livrou-nos de Bortoli, de Eduarda e devolveu-nos Allen. Devemos utilizá-lo a nosso favor, torná-lo uma arma nas nossas mãos. Manobrá-lo, sim. Fazê-lo confiar em nós, sim. Matá-lo? Não. Não tenciono agravar a essência. Que o Fluído nos guie e oriente.

Vozes de contestação começaram a explodir à sua volta, mas tantas eram as que se lhe opunham como aquelas que o defendiam. A fé religiosa de Sander Camilli salvava-lhe a vida, pelo menos por algum tempo. Trôpego de emoções, Língua de Ferro afastou-se do pilar e regressou ao corredor.

Sem título
Senado romano (Fonte: theapricity.com)

Tinha a cabeça cheia de informações a processar. Sander Camilli não matou Dzanela, e tem em Allen o seu candidato à coroa de acanto. Parecia que Allen não era o mero fantoche e folha de rosto que lhe haviam pintado. Havia algo ali a descobrir. Para além disso, os medos religiosos de Sander Camilli impedem-no de querer matar-me, mas quererá utilizar-me para os seus fins. E mentir-me. Outros, porém, tentarão acabar comigo esta noite.

Perambulava pelos corredores quando encontrou as cozinhas. Uma velha gorda andava de vassoura na mão, a correr atrás de um rato. Pernas de frango e preparados de vitela salgada crepitavam ao lume.

― Há algo que possa comer aqui?

A cozinheira não o reconheceu e saltou com o susto. Concertou o toucado à cabeça enquanto o estudava de alto a baixo.

― Ah, deve ser o convidado de honra estrangeiro. O herói cego, como lhe chamam. O meu nome é Mia, muito prazer.

Língua de Ferro sorriu. Gostou da mulher.

― Acho que me chamam de bárbaro cego, Mia. Pode chamar-me de Língua de Ferro. Julgo que pensavam satisfazer-me o apetite nas aulas da senhorita Finn.

A cozinheira abriu a boca de espanto, e enquanto três ajudantes andavam apressadamente atrás de si, trabalhando nas refeições, transformou a surpresa numa gargalhada calorosa.

― A sério que o mandaram para a Finn? Quanta tortura, meu rapaz. Pobre coitado. Espere um pouco, que já lhe arranjo um pão com courato.

A mulher virou-lhe costas, mas Língua de Ferro não esperou pela refeição de improviso. Ao lançar o olhar pela janela, encontrou um dos belos jardins interiores do Capitólio, cheio de flores invernais e tramos de pedra faustosos. Num dos bancos de jardim, viu Ceil nos braços de um homem. Tinha longos cachos de cabelos morenos desdobrados sobre os ombros largos de pele tostada, acariciava o rosto de Ceil com o polegar e beijava-lhe os lábios com ternura. Língua de Ferro reconheceu o homem e sabia que ele estava a cumprir as diretivas de Lucilla, por quem morria de amores. Pegou no braço de uma ajudante de cozinha com força e fez-lhe uma pergunta antes que ela tivesse tempo de gritar.

― Há quanto tempo chegou Varro?

A jovem lançou o olhar para lá da janela e encolheu os ombros.

― Esta manhã, julgo.

Língua de Ferro soltou-a e saiu da cozinha, pronto a esclarecer aquilo. Varro, o esclavagista, chegara como um abutre, após o cerco, para se alimentar dos despojos da guerra. Se o que Seji lhe dissera fosse verdade, ele tornara-se amante de Sander Camilli e das suas filhas, de modo a controlá-las na teia de Luce. Com a apaixonada morta, que interesse manteria Varro em Ceil, para além do prazer carnal? Por sua vez, Ceil parecia desesperadamente apaixonada pelo esclavagista, e deveria ser esse o motivo pelo qual se queria ver livre de Degas Pantaleoni, o noivo. Mais uma vez, Língua de Ferro fora usado como peão.

Não é isso que me preocupa, disse a si próprio. Preocupava-o que Varro e Ceil mostrassem o seu amor tão abertamente num jardim do Capitólio, preocupava-o que um baile em sua honra estivesse a ser preparado e que o quisessem tramar, e mais incrível do que isso, preocupava-o que o tivessem deixado à solta nos corredores do Capitólio para descobrir todas aquelas pontas de segredos. Como que respondendo às suas perguntas mentais, o pequeno Anos esperava-o à curva de um corredor, com as mãos nas ancas e um sorriso aberto no rosto.

― Não foram eles que te deixaram à solta. Tu és um animal feroz e eles aprenderam com a experiência que não se domam animais ferozes com grades. Foi a essência que te proporcionou esta liberdade. Aproveita-a bem. ― Apontou para uma janela e antes de desaparecer em cabriolas pela longa galeria, acrescentou: ― Os convidados estão a chegar.

Língua de Ferro aproximou-se da janela e esperou ver mais um pátio interno. O que os seus olhos alcançaram, porém, foi o terminal ferroviário de Chrygia, trinta metros a jusante do Capitólio. As figuras que saíam de uma carruagem eram-lhe familiares. Boca de Sapo e Empecilho vestiam jaquetas revestidas a pele de cabril e calças largas. Ravella, um corpete simples de tom magenta. Logo atrás, Vance Cego, com um colete revestido a lã sobre o torso nu. Mal desceu a carruagem, ergueu a cabeça na sua direção. Estavam muito longe para que homens normais se pudessem vislumbrar, tinham os olhos vazios e, no entanto, pareceram reconhecer-se com facilidade. Jupett Vance assentiu com uma breve reverência.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis | Capítulo Vinte e Sete

Estou no Wattpad #26

A chegada a Chrygia não podia ser mais inesperada e cheia de surpresas. Língua de Ferro conheceu finalmente Sander Camilli, embora o homem não fosse propriamente aquilo que esperava. Personagens como Ceil, a sua filha, ou a poderosa Intendente, porém, revelam a sua face na corte. Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer é a minha publicação quinzenal no Wattpad e aqui no blogue. Boa leitura!

CAPÍTULO VINTE E SEIS: APRENDER A DANÇAR

“Deixei-me capturar por conveniência. Foi num verão infernal, quando o calor toldava o discernimento dos homens e fazia-o cair nas maiores patranhas. A verdade é que os verões depois desse não foram melhores, mas àquela data era impossível julgar que aqueles dias soalheiros se repetiriam. Aconteceu na estrada férrea que ligava Veza a Constania. Sabia que o Sargento Bary Feyman ia naquele comboio. A sua reputação ainda não era nada comparativamente à que ganhou após a minha captura, mas já era conhecido no deserto pelos seus esforços na perseguição de salteadores. Já o tinha visto uma vez, em Veza, e pelo menos por aqueles dias, gabava-me de nunca esquecer uma cara. Ao internar-me no comboio, procurei-o avidamente. Assustei senhores de bigodes repenicados e matronas afetadas, como era hábito, na esperança de que os seus gritinhos o chamassem para mim. Demorei um pouco mais do que presumira, mas ele veio até mim. Era um homem esguio e arguto, com uma compleição física que não me intimidou. Desafiei-o com palavrões e ofensas pessoais, e quando avançou para mim, golpeei-o na junta de uma perna com a minha. Ele caiu no chão, mas quando voltou a investir para mim, humilhado, fui lento de movimentos propositadamente, e deixei que ele me golpeasse no rosto. Senti o sabor metálico do meu próprio sangue e deixei que os seus subalternos me amarrassem. Foi com um lenho nos lábios e uma vontade enorme de ver aquilo concluído que cheguei a Constania. Na esquadra local ficaram em êxtase por me prender, se bem que eu achasse tudo aquilo uma encenação ridícula. Não precisaria de muito para escapar-lhes. Estavam bem armados de arcabuzes e revólveres, mas nem sequer os sabiam usar com desenvoltura. Esperei que a notícia da minha captura corresse meio mundo para, na noite que antecedia o meu julgamento, me resolvesse a chamar o carcereiro. De moto próprio, as coisas correram-me de feição. Uma festa afastou a maioria dos agentes naquela noite. Fingi que estava com falta de ar e o guarda de plantão, tão ingénuo quanto embotado pelo sono, aproximou-se das grades o suficiente para que eu lhe esmagasse a cabeça contra elas. Roubei-lhe as chaves do cinto e fugi. Antes de abandonar Constania para recolher o fruto das minhas apostas, porém, recebi um convite.”

― Espero que goste dos seus aposentos. Duvido que alguma vez tenha dormido em cama tão cómoda ― disse a Intendente.

― Você não sabe nada sobre mim ― ripostou Língua de Ferro, com uma voz dura e cheia de desprezo, enquanto cruzavam um corredor largo e fresco, com paredes forradas a veludo e ornamentadas de quadros a óleo.

A idosa soltou um risinho franco, e quando parou diante de uma porta prateada, disse-lhe:

― Aceito o seu desdém, Valentina. Tenha uma boa noite. ― Quando ia para se virar, reteve-se, com um brilho jocoso no olhar. ― Ah, e cuidado com Ceil. Ela é a primogénita de Sander e tem uma vontade irrevogável. Se quer manter-se discreto nos próximos tempos, aconselho-o a não a contrariar. Se ela, porém, lhe fizer alguma proposta que viole o bom-senso, exorto que reporte-o ao pai. Terá notícias minhas amanhã.

Com um sorriso desafiante, a Intendente virou-lhe costas e afastou-se, muito embora Língua de Ferro a tenha parado com uma pergunta:

― Onde são as termas?

Sem título
Woman (Fonte: Charlie Bowater)

Encontrou Ceil num tanque largo, sob uma nuvem de vapor, que se movia vagarosamente à sua volta. Colgaduras vermelhas e prateadas tornavam o tanque um local mais privado dentro da espaçosa divisão, onde piscinas menores revelavam-se desertas àquela hora da noite.

A jovem acendia uma vela de cheiro na orla do tanque, quando o viu. Sorriu-lhe com voluptuosidade. O local estava impregnado de odores afrodisíacos com toques de canela, lavanda e menta. Língua de Ferro cruzou os braços.

― Nem um guarda? Nem uma dama de companhia? O que a leva a ter tanta certeza que não sou uma ameaça à sua integridade?

Quando ela se voltou totalmente para si, viu que ela estava nua. A água dava-lhe pelas ancas.

― Não temo pela minha integridade, senhor Língua de Ferro. Você não sabe nada sobre mim.

Língua de Ferro sorriu.

― E você também não sabe nada sobre mim. O que a levou a pensar que eu viria ao seu encontro?

Ela fez rolar os olhos.

― Ora, os homens são todos iguais, presumo.

― Bela maneira de iniciar uma relação ― disse ele. O corpo da morena chamava-o para si, ainda que soubesse que não cometeria qualquer loucura. Tem idade para ser minha filha, dizia a si próprio. Era filha de Sander Camilli. E havia ainda a memória de Lucilla a morder-lhe os calcanhares. Ainda assim, viu-se a despir a roupa e a encaminhar-se para os degraus de acesso ao interior do tanque. Sentiu o cabelo azul-turquesa a desdobrar-se sobre os ombros proeminentes.

A rapariga franziu o nariz e sorriu diante da imponência da sua nudez, mas quando ele levou um pé ao degrau, ela ergueu os braços e disse:

― Espere, espere!

O local era iluminado por velas acesas na orla da piscina, produzindo sombras sinistras que se passeavam pelos seus corpos.

― O que foi agora?

― Certamente que os vossos costumes bárbaros vos ensinaram que uma mulher deve ser tomada com uma certa… liberdade, mas você está no coração do Império. Aqui, somos um pouco mais civilizados.

Língua de Ferro cruzou os braços e sentiu-se tentado a dizer-lhe que era filha de uma escrava e que nada sabia de civilização. Aquilo a que chamavam de Landon X era tão bárbaro quanto ele, e os anos em que vigorara tinham vindo a esmagar o legado cosmopolita de Cacetel Domasi.

― Pensas que sabes muito sobre Língua de Ferro, rapariguinha. O que queres de mim, afinal? E porque é que precisamos de ser vigiados pela tua irmã?

A jovem pareceu empalidecer. Nunca suspeitara que ele se pudesse aperceber dela, mas desde que chegara, Língua de Ferro havia compreendido que uma das raparigas que tinha encontrado com Ceil junto ao fontanário os espiava por detrás de uma colgadura. Ceil estremeceu, mas depois sorriu.

― Ameiha, podes ir.

Língua de Ferro não lhe viu a cara nem a expressão vexada, mas sentiu-as quando a rapariga se afastou aos tropeções e foi-se embora a correr.

Sem título
Steampunk woman (Fonte: pinterest.pt/joanasampaio52/desenhos-diversos)

― Onde é que nós estávamos? ― perguntou Língua de Ferro, ao sentir os passos de Ameiha a distanciarem-se.

― Como vê, eu não estava propriamente sozinha. Se bem que a pequena Ameiha não fosse de grande monta, se me planeasse atacar.

Língua de Ferro ignorou-a.

― Creio que lhe perguntava o que queria de mim.

Ceil aproximou-se, fazendo a água menear-se lentamente à sua volta.

― Três perguntas, e poderá entrar neste tanque. ― Para evitar que ele simplesmente a renegasse e lhe virasse costas, acrescentou: ― Se se recusar a responder-me, terá muito com que se preocupar durante a sua estadia por aqui.

Língua de Ferro encolheu os ombros. Conhecia bem a crueldade das mulheres rejeitadas e, se as palavras da Intendente fossem verdadeiras, Ceil seria uma jovem caprichosa, a quem não se negavam coisas daquelas.

― O que quer saber?

― Veio até aqui para matar o meu pai?

Língua de Ferro não sentiu a menor vontade em mentir-lhe. Tudo o que pudesse desafiar a rapariga seria agradável.

― Sim.

A jovem franziu a testa e substituiu a surpresa pela indignação.

― Vai fazê-lo?

― Essa é a segunda pergunta?

A rapariga franziu o nariz.

― Digamos que sim.

― Ainda não decidi ― respondeu. Era verdade.

A expressão de Ceil fazia parecer que tinha uma espinha atravessada na garganta, se bem que há muito o peixe deixara de ser refeição em Semboula.

― Terceira e última pergunta. O pai disse-me que amanhã haverá um baile e que você será o convidado de honra. Certamente que o convidarão a dançar e será de muita descortesia sua declinar. Quer aprender a dançar comigo?

Língua de Ferro soltou uma sonora gargalhada e sentiu o dedo de Camilli naquele convite.

― Ora, e quem lhe disse que eu não sei dançar?

A rapariga sorriu.

― Os costumes típicos de Chrygia? Duvido muito. Mas então venha, e prove-me que estou enganada.

Dançar num tanque? Nus? De repente, a ideia não lhe pareceu desagradável. Reteve-se, pensando naquilo como uma artimanha qualquer para o matar, mas uma arma escondida seria facilmente detetada pela sua visão apurada, e não viu ali alguma. Pensou que veneno seria uma arma mais apropriada, mas não havia ali qualquer bebida ou alimento e os fumos que cheirava eram inofensivos.

Decidiu-se a descer os degraus e a entrar no tanque. Ceil esperou-o de sorriso e braços abertos. Era uma rapariguinha que temia a morte do pai, mas era demasiado frívola para o considerar como algo terrível. Para ela, bons momentos de diversão e um ego alimentado valiam mais do que a vida do progenitor. Segurou-a por baixo dos braços e sentiu-lhe a pele aveludada sobre as costelas, fresca e mole ao toque, mas também o perfume a açafrão que jorrava do seu corpo. Quis beijá-la quando os lábios doces aproximaram-se do seu peito e aninhou a cabeça nele. Os cabelos da jovem cheiravam a lavanda.

Sentiu os dedos da jovem a firmarem-se nos seus ombros e ela deu alguns passos para trás, lentamente, ao que Língua de Ferro correspondeu de forma atabalhoada. Ela deu passos para a direita e ele fez o mesmo com passadas desastrosas. O peso dos seios frescos contra o seu ventre embotou-lhe a lógica. A lascívia ameaçava descontrolá-lo. Ceil soltou uma gargalhada, apartou-se dele e pegou-lhe nas mãos.

― Assim ― disse, e conduziu-o com os braços esticados. Dois passos para a direita, dois passos para trás, três para a frente. ― Isso. Estamos a fazer progressos.

Quando Língua de Ferro sentiu uma movimentação atrás de si, ela abraçou-o com força e colou a cabeça ao seu peito.

― Mas o que é isto? ― ouviu uma voz de rapaz fora do tanque.

Língua de Ferro segurou os ombros da jovem para a apartar e virou-se para o recém-chegado. Era um homem de tenra idade, com uma farda azul cheia de botões e a insígnia imperial ao peito. Tinha o cabelo cortado abaixo das orelhas e um rosto angular de tez morena. Os seus olhos jorravam indignação. Língua de Ferro pensou ter arranjado mais um inimigo dentro do Império.

― Degas, isto… isto não é o que parece ― disse Ceil, claudicante. Língua de Ferro detetou dissimulação na sua voz, enquanto ela escondia os seios com as próprias mãos e fingia constrangimento.

O rapaz não teria mais de vinte anos, mas pela indumentária, seria já graduado. Isso significava que provinha de boas famílias, de uma estirpe intocável no estrito círculo de poder chrygiano.

― És… és… ― Uma cabra, quis Língua de Ferro dizer por ele. O jovem não sabia o que dizer. ― Isto é um ultraje.

Amehia escondia-se atrás de Degas, tímida e apreensiva, e Língua de Ferro percebeu o que aquilo significava quando o jovem trincou o lábio inferior e ergueu um indicador. Ele queria dar voz ao seu agravo, mas não sabia fazê-lo de um modo que não ofendesse Sander Camilli. Então, mudou o peso de uma perna para a outra e foi-se embora, soltando desabafos sem sentido enquanto se afastava em passos rápidos. Amehia seguiu-o, a correr.

Sem título
American Private of the Massachusetts Regiment 1782 (Fonte: pinterest)

Mal os perdeu de vista, Ceil destapou o peito e caiu numa gargalhada. Língua de Ferro cruzou os braços, austero.

― O teu convite foi para isto, então. Utilizaste-me para te livrares de um pretendente inoportuno.

Não fora uma pergunta, pelo que ela limitou-se a corrigi-lo: ― Inoportuno, sim. E irritante. Pretendente não. É mais do que isso. Degas Pantaleoni é filho do general Pantaleoni, e o seu avô é o senador Gogios, a quem o meu pai deve favores. Ele é meu noivo e deverá continuar a sê-lo, se bem que espero avidamente pelo seu ódio. As suas declarações de amor são nauseantes.

Aquilo despertou alguma curiosidade no salteador.

― Impressão minha, ou a tua irmã tem um certo interesse nisto?

― Amehia gosta dele ― respondeu Ceil. ― Somos filhas de escravas, mas o que me difere das restantes é ser a primogénita do pai, o que me confere legitimidade aos olhos da lei. Ninguém se preocupa muito sobre mães, aqui em Chrygia. Para além disso, quem me olha não dirá que eu sou filha de uma escrava uraniana, pelo tom de pele.

A jovem fixou o olhar na água que se movia lentamente à sua volta, e Língua de Ferro viu alguma tristeza e honestidade no seu olhar.

― Onde vive a tua mãe? Aqui no Capitólio?

― Morreu quando eu nasci ― respondeu rapidamente, da forma que até tropeçou nas palavras e lhe soaram como uma única palavra. Mais calma, recuperando o desafio no tom de voz, disse: ― Volte para os seus aposentos. O pai quer mesmo que eu o ensine a dançar. Amanhã, à décima terceira hora da manhã, estarei à sua espera no salão de baile. Não me vai deixar ficar mal. ― Deu-lhe uma palmada no ombro, com um piscar de olhos.

Língua de Ferro sorriu e deslizou até à orla do tanque, onde uma toalha de linho o esperava para se limpar. Quando acabou de se vestir, percebeu que ela esperava que se fosse embora, antes de fazer o mesmo. Amarrou Apalasi à cintura e despediu-se com um aceno de cabeça.

Sentiu dificuldades em reencontrar o caminho de regresso aos aposentos que lhe foram reservados, se bem que as suas capacidades especiais fossem de grande ajuda para que não se perdesse. Os corredores estavam iluminados por candeias de azeite, e quando chegou àquele que lhe dizia respeito, um estranho odor a pelo de cão internou-se-lhe pelas narinas. Não se enganava. Um cão enorme, escuro como penas de corvo, esperava-o à porta do quarto. Língua de Ferro pensou numa armadilha por parte de Degas Pantaleoni, ou talvez que Camilli descobrisse pela boca do rapaz o que se passara e lhe reservasse aquele presente envenenado. Mas quando o canino – raios, ele terá quase um metro? – virou o focinho para si, Língua de Ferro viu não só as gengivas proeminentes e os fios de saliva entre os dentes pontiagudos, mas também o olhar, tão branco quanto o seu. Assim que o encontrou com o olhar, o cão soltou um latido e afastou-se da porta. Parecia estar a conceder-lhe passagem. Língua de Ferro avançou na direção do quarto, sem separar os dedos da empunhadura da espada, e desde que abriu a porta até que a fechou, já no interior, o animal nada mais fez do que mover-se lentamente de um lado para o outro, encarando-o com o olhar vazio e soltando um suave rosnar de entre as mandíbulas. No interior dos aposentos amplos e sombrios, Língua de Ferro pôs-se em alerta. Ouvia a respiração pausada e profunda do animal.

Segundo lhe parecia, montara guarda à sua porta.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis

Estou no Wattpad #25

Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, o meu livro de leitura online, chega ao capítulo 25. Depois de ter chegado à cidade de Chrygia e encontrado a famosa Intendente, comandante-em-chefe dos exércitos imperiais, Língua de Ferro viu-se obrigado a revelar as suas intenções. Mas será o encontro com Sander Camilli tão “amigável” quanto foi a sua chegada ao coração da capital? Leiam este novo capítulo e contem-me tudo sobre as vossas impressões. Espero que gostem.

CAPÍTULO VINTE E CINCO: APOSTAS

“A reputação precedia-me. Quando uma carruagem era invadida, os soluços entrecortados de surpresa misturavam-se com a minha alcunha sussurrada. Mesmo que não fosse eu o responsável. Os assaltos a comboios tornaram-se frequentes, mas creio que fui o assaltante mais bem sucedido, graças à velocidade de Hije e ao companheirismo que ambos forjamos. E fui talvez o precursor. Era o terror dos desertos e o nome Língua de Ferro era associado a qualquer incidente que ocorresse nas linhas-férreas. Alguns salteadores mais espertos e instruídos aproveitaram-se da minha fama para me culpabilizar de esquemas mais sofisticados. À falta de um animal veloz como o meu, começaram a fazer esperas na via-férrea, interrompendo a faixa e impedindo a progressão dos veículos. E depois, veio a dinamite. Não se pode dizer que explosivos estivessem à mão de semear, se assim fosse guerras entre o Império e os rebeldes demorariam muito mais tempo a ser resolvidas, mas havia sempre formas de colocar a mão num bom par de explosivos, ou até de os conceber de forma artesanal. Rebentar com a linha-férrea tornou-se a alternativa válida quando os maquinistas deixaram de parar quando viam um grupo invulgar a meio do percurso. Denveri, o Temível, um dos salteadores mais famosos do deserto rezoli, fora literalmente passado a ferro por um condutor mais temeroso. A história correu meio mundo e desde logo todos se sentiram tentados a não repetir a brincadeira. Então, houve alguém que decidiu sequestrar um académico e a sua sugestão foi bem executada, o que levou outros a fazer o mesmo. Fazer explodir os carris, para evitar a progressão dos comboios. Nunca precisei de usar tais esquemas. Na vila de Careepi, disfarçado de mercador, desenvolvi um sistema de apostas que incidia numa questão particular: quando é que a justiça do Império alcançaria Ravoti, um dos novos salteadores mais populares. Defendi o salteador e ganhei quatrocentas pratas em dois meses. Os jogos de apostas começaram a perder participantes e decidi mudar o objeto de apostas. Elas agora recaíam no mítico Língua de Ferro. Ao perceber que não havia quem apostasse na minha captura, apostei contra mim. E não é que ganhei uma fortuna?”

Sander Camilli não era nada daquilo que Língua de Ferro esperava. Pensou encontrar um homem velho e de olhos encovados cheios de malícia e astúcia. O que encontrou foi um sujeito de ar jovial, com olhos papudos e uma queixada larga e proeminente, sob a qual pendiam peles flácidas que denunciavam alguma obesidade no auge da juventude. O cabelo castanho, penteado para o lado, tinha algumas madeixas grisalhas. Vestia uma toga cinzenta e precipitava-se sobre o parapeito de uma varanda, enquanto um homem mirrado e corcunda com uma túnica de boa seda negra escrevinhava num bloco de papéis ao seu lado.

― O vermelho vai ganhar ― disse Língua de Ferro quando se aproximou da balaustrada e avistou a corrida de cangurus numa arena ampla e circular.

Distavam-nos mais de cinquenta metros de arquibancadas povoadas de gente agitada e barulhenta, mas via que cada animal tinha uma faixa de uma cor, e o canguru de faixa vermelha saltitava entre o pelotão da frente. Na tribuna imperial, Sander Camilli não se dignou a fitar-lhe o rosto.

― É pouco provável ― respondeu com desdém. Tinha uma voz rouca e um tom frívolo, como se não parecesse agradado nem tão pouco hostil. Desinteressado. Como se estivesse a falar com um amigo de sempre.

Língua de Ferro, seguido por guardas e de mãos amarradas, sorriu.

― A probabilidade de um em dez, parece-me. É sempre uma boa aposta.

Camilli virou então o rosto para ele e fitou-o de alto a baixo. O olhar inicial revelou alguma estranheza, que se dissipou com um sorriso divertido. Estava a mastigar algo, e quando falou, o hálito recendeu a amendoim. Estava próximo o suficiente para o sentir.

Sem título
Senator Armstrond of MetalGearSolid (Fonte: heavymetalhanzo.deviantart.com)

― Se há alguém que sabe de uma boa aposta, é Leidviges Valentina.

― As informações correm rápido.

O senhor que liderava os destinos de Chrygia afastou aquilo como quem afasta um mosquito. ― Ora, o meu filho tinha-me dito que o famigerado Língua de Ferro nos faria vencer o conflito com esses rebeldes. Porque acha que não o matei matar antes?

Antes, pensou. Aquilo significaria que ainda tencionava matá-lo? Aparentemente, o filho dele, o pequeno Anos, era um profeta como Vance.

― Foi você quem mandou matar Regan?

― Shiu! ― ordenou Camilli, virando os olhos para a corrida.

Surpreendentemente, o canguru com a fita vermelha cortou a meta em primeiro lugar. Língua de Ferro sentiu-se engolido por um orgulho profundo. Camilli abriu a boca, mas não formulou qualquer palavra. O corcunda ao seu lado pigarreou para aclarar a garganta, ou talvez para ganhar coragem.

― Perdemos duzentos ouros chrygianos, senhor.

― Eu vi, Milo, não sou cego. ― Lançou um olhar feroz a Língua de Ferro. ― Melhor fosse.

― E Regan? ― insistiu o salteador.

Sander Camilli olhou para os guardas inertes à sua volta e pareceu procurar alguém com o olhar antes de se lhe dirigir com um indicador acusatório em riste:

― Esse assunto não é para ser falado em público. Acompanhem-no aos meus escritórios daqui por uma hora. Tenho uma dívida a ser saldada até lá.

Sem título
Hot Tianna of Disney (Fonte: Altamirano)

Durante esse tempo, Língua de Ferro perambulou pelos pátios internos do Capitólio, repletos de belos jardins verdejantes e imponentes fontanários de basalto e obsidiana. Secos, como seria de esperar. Os guardas foram obrigados a seguir-lhe os passos e nada fizeram para lhe vedar caminho. Num desses pátios, encontrou três belas raparigas seminuas a rirem-se alegremente enquanto duas escravas uranianas as abanavam com longos leques de bambu. As jovens tinham longos cabelos escuros como penas de corvo e as suas vozes eram belas e puras como água. Estavam sentadas na orla de um fontanário, e mal viram Língua de Ferro, calaram-se. Fitaram-no com alguma estranheza.

― Quem sois vós, grande homem cego? ― perguntou uma delas, com o indicador direito preso no lábio inferior, forçando-o para baixo, num trejeito de curiosidade ingénua.

― Leidviges Valentina, menina. Talvez já tenham ouvido falar de mim como Língua de Ferro. E consigo ver-vos. Tanto o que exibis ao mundo, como o que se esconde por baixo do damasco pálido que envergais. E pela tonalidade híbrida da vossa pele, presumo serdes uma das filhas do nosso bom Camilli com uma das suas escravas parideiras.

A expressão da facial da rapariga passou do interesse lascivo para a ira, e da ira para a vergonha. Manteve uma curiosidade para com o homem, mais recatada, mas não deixou de o encarar.

― É como o Anos, então! O meu nome é Ceil e não vos enganais no que especulastes. E o que faz aqui um homem tão… perscrutador? ― As outras raparigas, presumivelmente suas irmãs, já protegiam as zonas íntimas com as mãos e soltaram uma gargalhada.

Língua de Ferro analisou o queixo pontudo de Ceil e a curva apetecível dos seus lábios. De repente, parecia completamente despropositado não os beijar, quase ridículo. Todo o seu corpo era um convite para o amor. Percebeu que ela tinha idade para ser sua filha e afastou as ideias que se lhe formavam na mente. Penseu em Lucilla e estremeceu.

― Lazer, menina. Fui convidado a conhecer os prazeres mundanos do Capitólio, enquanto espero por uma audiência com o seu pai.

A rapariga revirou os olhos.

― O pai costuma demorar. Parecem cola quando começam a falar com ele. ― Pareceu refletir no assunto. ― Talvez possamos tomar banho juntos, esta noite.

A formulação direta e sem rodeios da frase chocou-o.

― Não creio que seja boa ideia.

― Depreendo que irá depender de como corra a reunião com o pai ― disse com alguma tristeza. ― Estou entediada, senhor Valentina. Se ficar por cá, seria de grande préstimo ao pai se aceder ao meu pedido. Espero por si.

Então, levou a mão ao indicador esquerdo e arrancou de lá um anel com uma belíssima opala vermelha. Depois, pegou numa das mãos atadas de Língua de Ferro e fechou-a com ele dentro.

― Espero que tenha o bom senso de mo devolver, senhor Valentina.

Com essas palavras, virou-lhe costas e juntou-se de novo às suas irmãs, que a receberam com risadinhas envergonhadas e lançaram olhares lascivos ao convidado. Língua de Ferro ficou a fitá-las por segundos, até que registou as expressões hostis dos guardas e avançou para uma arcada. Não conseguiu evitar sorrir quando viu uma reprodução de Dzanela em calcário, uma estátua de dois metros e meio, no centro de um átrio fresco e amplo. Não teve dúvidas que se tratava do seu rosto de traços marcados e nariz comprido.

Sem título
Fall of Rome (Fonte: amethystdust27.deviantart.com)

― Céus, Dzanela tem uma estátua? ― perguntou quando foi conduzido a um belo escritório forrado a estantes de pedra, com janelas elevadas cobertas de vitrais. A divisão ficava no andar térreo do Capitólio, numa ala rica em bibliotecas e salas de estar. O ar estava impregnado de um odor adocicado e Camilli estava sentado numa escrivaninha cheia de livros antigos. O pó de papel levitava à sua volta, fazendo-o tossicar.

― Se o pergunta, é porque já a viu ― disse sem o fitar.

― E o embuste? Não era suposto Allen ser o rosto de Landon X?

Com uma expressão severa e irritada, Sander Camilli ergueu os olhos dos livros e empurrou um par de lunetas contra a cana do nariz. Fez um gesto para que os guardas se retirassem, ficando a sós com Língua de Ferro. Camilli retirou as lunetas para o lado e encarou Língua de Ferro.

― Regan era um cretino pedante ― disse, com a voz carregada de desprezo. ― Mas não nego o seu mérito na condução de Chrygia. Após a queda de Cacetel, foi uma das mentes por detrás de Landon X, e depois de ocupar o cargo de poder, foi um político influente e determinado. O povo pode não vê-lo como um Imperador, mas fazer parte do Triunvirato sempre foi mais do que ser um Imperador. O povo sabe que parte das políticas implementadas foram ideias dele. Regan foi visto por Chrygia como um notável membro do Conselho de Decisão. O irmão do Imperador.

Língua de Ferro assentiu.

― Tão notável ao ponto de lhe erigirem uma estátua?

― Foi erigida ainda ele estava entre nós. A pedido dele.

O salteador soltou uma gargalhada. Aquilo não parecia nada coisa de Regan. Ele era um homem discreto, subtil, despretensioso.

― O Regan que eu conheci nunca quereria uma estátua em sua honra. Anéis da Morte contou-me que você, sim, você, ameaçou Allen de morte. E que perseguiu Regan pelos desertos até o matar. Lucilla quis ver-se livre de si, Camilli, mas você já controlava o Império, através da corrupção e da ameaça. E enviou as filhas deles para os Poços, como reféns. Vai-me dizer que é verdade ou obriga-me a estrangulá-lo até o fazer?

Com um gesto, Língua de Ferro desenvencilhou-se das amarras e um bocado de corda caiu aos seus pés. Escondeu o anel de Ceil num bolso. Sander Camilli não pareceu impressionado.

― Se eu lhe contasse a verdade, Valentina, você não acreditaria em mim.

Língua de Ferro suspirou profundamente.

― Experimente.

Camilli pareceu ponderar a ideia.

― Prefiro que veja com os seus próprios olhos. Não me esqueço que tenho uma dívida de gratidão para consigo. Livrou o Império de Merren Eduarda e de Mario Bortoli, é um herói e devemos-lhe muito. Chrygia deve-lhe muito. Sinto-me tentado a perdoar-lhe o que aconteceu nos Poços. A propósito, o que é que fez com as miúdas? As filhas de Lucilla e Eduarda?

― Matei-as ― respondeu de pronto.

Camilli notou com a cabeça.

― Ótimo! É melhor assim. Ambos sabemos o que havia dentro delas…

Língua de Ferro deu dois passos à frente, severo. Os seus olhos vazios penetraram Camilli.

― Você matou Regan?

Camilli suspirou, enfadado, e remexeu nuns papéis.

― Não. Não matei ― respondeu. ― Essa morte não sujou as minhas mãos. Pelo menos essa. ― Fez uma pausa, pensativo. ― Mandarei prepararem-lhe uns aposentos cómodos, Valentina. Amanhã irei mostrar-lhe algo que poderá dar-lhe as respostas que almeja.

Língua de Ferro deu mais um passo em frente, até ficar com o ventre encostado à secretária. Cuspiu para os papéis à sua frente.

― Para que me tentem assassinar durante a noite? Camilli, ambos sabemos o que eu estou aqui a fazer. ― Com as duas mãos, pegou em Camilli pelas pregas da toga e arrancou-o à cadeira com uma expressão assustada. Moveu uma mão para apertar-lhe o pescoço. ― Dispensou os guardas para que eles não viessem a espalhar os seus podres? Ou para tentar conquistar a minha confiança? Saiba que eu também queria ganhar a sua confiança, a sua amizade, antes de o matar.

Sem título
Assassin’s Creed fanart (Fonte: otisso.deviantart.com)

― Pare com isso, Língua de Ferro ― disse uma voz após ouvir o som de um móvel a arrastar-se. ― Está a ser ridículo.

Uma porta secreta abrira-se de uma estante cheia de livros e a Intendente assomou das sombras, com um pequeno bacamarte em punho, que apontou à cabeça do salteador. Língua de Ferro mediu as suas alternativas. Se matasse o senador, ela disparava contra a sua nuca. Era possível que a barreira que protegia os escolhidos da essência se ativasse, para lhe salvar a vida, mas essa blindagem invisível nem sempre aparecia. Como podia ter a certeza de não levar com uma bala nos miolos? Pensou que podia ser essa a vontade da essência, agora que ele eliminara Bortoli e Eduarda. Camilli tornara-se fiel à sua vontade. O Império estava finalmente seguro nas mãos da essência. Por outro lado, se soltasse Camilli para pontapear a mão da Intendente, tinha a certeza que ela seria dura o suficiente para resistir-lhe até que o homem conseguisse fugir do escritório e mandasse chamar a guarda armada.

Decidiu soltar Camilli e deixá-lo cair no assento estofado, a resfolegar. Desgrenhado, levou o braço à testa para limpar o suor. Língua de Ferro virou-se para a Intendente com uma expressão voraz cheia de emoções reprimidas.

― O senador Camilli e eu estávamos a entabular uma conversa interessante. Esta sua interrupção foi deveras desagradável, Stella.

Dissera o seu nome propositadamente para a irritar. A Intendente baixou a arma e soltou uma risadinha pouco convincente.

― Nós sabemos aquilo que pretende, Língua de Ferro. A verdade e a coroa de acanto. Já sabíamos o que desejava antes de ter entrado pelos nossos portões. E o que talvez seja surpreendente para si, é que talvez estejamos dispostos a dar-lhe ambos.

Língua de Ferro virou o olhar para Sander Camilli, que se consertava no assento, ainda com a testa suada.

― Isto é verdade?

Ele não lhe respondeu.

― E talvez ninguém tenha de morrer ― disse a Intendente. ― Mais ninguém, quero eu dizer. Mas, porém, há toda uma estrutura social em Chrygia que você deve compreender. Há todo um código de etiqueta, uma ordem social, que deve ser entendida e compartilhada. Esqueça os seus truques de magia, as pragas nos lábios, os movimentos de espada e a quebra de pescoços. Em Chrygia, as guerras são ganhas à mesa. Um conhaque pode ser mais letal que um fio de espada.

― Veneno é uma arma de cobardes ― disse Língua de Ferro, antes de cerrar os dentes.

A Intendente sorriu e fez relaxar os ombros.

― Exatamente. Cobardes como Dooda Vvertagla, Merren Eduarda ou a sua tão querida Lucilla. E qual de nós nunca provou o sabor da cobardia? E você, quantas vezes já se deixou enganar por sentimentos tão voláteis como a cobardia?

― Não se atreva a colocar o nome de Lucilla nisto…

― Sander sentiu o mesmo, deixe-me dizer-lhe, quando se apaixonou por Dooda Vvertagla e por ele envenenou Cacetel, pondo fim a uma dinastia. Quando os quatro mercenários chegaram a Chrygia, Sander podia ter-lhes impedido o acesso à coroa, reclamá-la para ele. Mas estava de tal modo inebriado que lhes entregou tudo, tudo o que lhe havia sido pedido. Se ele quisesse, teria sido Imperador nessa hora. Mas não o quis. Nem na época, nem agora. Dooda mostrou ao que vinha, e em nenhum momento mostrou qualquer respeito pelas promessas que fizera a Sander. Enganou-o. Enganou-nos a todos. E partiu, deixando o controlo da cidade nas mãos daqueles cães.

Língua de Ferro riu, tanto por imaginar Sander Camilli romanticamente apaixonado por Dooda, como pela imagem cruel que desenhavam do seu velho amigo.

― Zomba de mim, Valentina? ― disse por fim Camilli, fazendo-o voltar-se para ele. ― Amanhã haverá um baile de gala para comemorar a nossa vitória, e você será o convidado de honra. Divirta-se até lá. Aposto em como irá conhecer a verdadeira face do seu velho amigo.

Língua de Ferro franziu a testa. Algo aqui está muito, muito mal explicado.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco

Estou no Wattpad #24

Mais uma semana, mais um capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, o meu livro de leitura online. Como vos disse, até ao início de junho postaria capítulos semanalmente, e aqui está o capítulo 24, que representa a primeira página de Língua de Ferro na cidade de Chrygia depois de, no capítulo passado, contar-vos a morte de um personagem central na história e dar-vos a perceber parte dos planos do nosso protagonista em tornar-se Imperador. Espero que gostem.

CAPÍTULO VINTE E QUATRO: A INTENDENTE

“Assaltar comboios a vapor tornou-se brincadeira de crianças. A velocidade de Hije cobria facilmente a dos veículos. Com ganchos de abordagem ou com as minhas próprias mãos, arremessava-me da sela estalada pelo sal para as lamelas quentes das composições. O mais divertido era sempre entrar nas carruagens, em grande estilo, ver a incredulidade dos seus habitantes estampada nos rostos, os lábios a franzirem-se, as rugas a formarem-se-lhes entre as sobrancelhas, a intocabilidade dos senhores a desmoronar numas boquinhas adoravelmente abertas e a das senhoras nuns gritinhos assustados que se derramavam da profundeza das suas gargantas e quase podiam ser interpretados como guinchares suínos ou gemidos de êxtase. Agradava-lhe vê-los borrados de medo. Toda a sua gabarolice, presunção e altivez transformada num horror inesperado. Vassalos da sua imponência. Vê-los subordinados a si, aquelas matronas de Veza e Constania, os todo-o-poderosos mecenas das cidades portuárias, reduzidos diante da polidez dos seus músculos e o brilho afiado da sua espada. Nunca lhe faziam oposição. Por vezes, até lhe suplicavam que lhes levasse os seus pertences. Nunca matou ninguém, a não ser num caso pontual em que o surpreenderam com os dentes e pelas costas, mas garantia sempre que toda a sua nobreza se desfazia numa humilhante mendicância. Até aos dias de hoje, ainda se contam histórias de como o Marquês de Costavallia chegou à cidade, amarrado de cabeça para baixo no assento e nu como veio ao mundo, enquanto que a sua esposa, uma matrona de quase duzentos quilos, fora amarrada na base da plataforma, igualmente nua e de traseiro para o ar. A boca do Marquês ficara humilhantemente próxima das suas nádegas.”

Uma porta de dois metros de altura abrira-se no imenso portão principal e uma ponte de madeira fora atirada para o fosso, fazendo Língua de Ferro atravessá-la, montado no seu diabo de estimação, enquanto os canhões chrygianos transformavam a rebelião de Bortoli num espirrar contínuo de sangue e miolos por todos os santos lados.

― O Imperador ― balbuciou. ― O Imperador. Salvem-no, por favor. O inimigo fê-lo prisioneiro. Por favor, levem-no a um curandeiro, por favor. Por favor…

Língua de Ferro foi recebido de olhos fechados e mãos no ar, deixando Apalasi presa à anca. Mãos cobertas por cota de malha conduziram-no por um bom quilómetro de areia, até que o atiraram para o chão. Mosquetes e alabardas apontaram na sua direção e as atenções mais relevantes centraram-se no moribundo Allen.

― Hije ― assobiou, lançando um olhar para o lugar onde um par de soldados imperiais lhe tentava colocar uma rede sobre a cabeça, e com ela um açaime. O diabo resfolegou e agitou a cabeça, fazendo-lhe a crina ondular. Elevou-se nas patas traseiras e só o assobio tranquilizador de Língua de Ferro o impediu de engolir as cabeças cobertas de metal e malha de aço dos soldados. Baixou as patas e deixou-se açaimar, enquanto Língua de Ferro voltava a concentrar-se nos homens à sua volta.

Allen era levado numa padiola em pele de cabril para longe, depois de um dos oficiais atestar os traços de Landon X no seu rosto. O mesmo oficial que se dirigiu a Língua de Ferro em passos largos. Abriu o elmo para desvendar um par de dentes podres e um bigode escuro e felpudo.

― Quem és tu e o que bosta fazes com o nosso Imperador? És um maldito rezoli, caralho.

Língua de Ferro baixou o olhar, para que os seus longos cabelos azul-turquesa cobrissem o branco do seu olhar. Se o julgassem cego, teria muito a explicar de como chegara até ali com o Imperador.

― Chamam-me Língua de Ferro, senhor. Decerto já ouvistes falar de mim. Salteador dos desertos, chamam-me. Aquele que traiu os Doze Vermelhos. O vosso Imperador foi sequestrado em Veza, como bem sabeis ― disse. ― Ou talvez não. Seja como for, eu salvei-lhe a vida das mãos da Rebelião, mas Bortoli voltou a colocar-lhe as mãos em cima, às portas de Rhove. Na batalha em que o general Cane morreu. Fui contactado por Anéis da Morte para o recuperar e foi isso o que eu fiz. ― Fingiu algum arrependimento e tossiu para aclarar a garganta. ― Não tenho mais nada para dizer-vos. Quero uma audiência com os vossos superiores, sejam eles quem forem.

O oficial cuspiu meia dúzia de pragas antes de o atirar ao chão com um pontapé no ombro que não podia magoar uma criança. Depois colocaram-lhe um saco de pano negro sobre a cabeça e tudo ficou mais escuro.

Sem título
The Son of Sand (Fonte: 0BO.deviantart.com)

― O meu diabo. O que lhe vão fazer?

― Diabos são transporte indígena. Veículo de hereges e blasfemos. Adoradores de Khsem ― disse o oficial. ― Não são permitidos em Chrygia, mas não lhe faremos nada até que a Intendente dê ordens para isso.

A Intendente. Língua de Ferro já ouvira falar nessa figura de poder. Uma das favoritas de Camilli, que se transformara na comandante-em-chefe dos exércitos chrygianos, os quais geria com mão de ferro. Língua de Ferro desconfiava que as histórias que se contavam a seu respeito fossem exageradas, uma vez que Dooda, Eduarda e Luce eram as verdadeiras forças dentro do Império. Pelo menos, era o que ele julgara, mas não podia olvidar o estatuto que o próprio Camilli angariara para si. Não foi Sander Camilli quem matou Regan, pensou. Pelo menos, eram essas as palavras de Vance. As últimas palavras que lhe ouvira. Mas, se tal fosse verdade, quem raios o tinha morto? E por que Eduarda lhe mentira a respeito? Amarraram-lhe os pulsos e colocaram-no sobre um camelo, o que obrigou ao esforço dedicado de seis mãos chrygianas.

Ouvia o disparo de canhões e mosquetes nas muralhas a afastar-se, enquanto o camelo que o dirigia, conduzido por um soldado chrygiano, avançava pela areia miúda e branca e poeirenta. Importunou o soldado com perguntas e gracejos, mas ele revelou-se mais estóico e silencioso que uma pedra. Ninguém suspeitava que ele visse fosse o que fosse sob aquele pano escuro e denso, mas ele via. Cobriram-no para evitar que ele descobrisse o caminho de regresso, se pretendesse fugir, ou talvez para o impedir de conhecer os podres de uma civilização que se dizia soberba.

Depois de cruzarem o portão rudimentar da muralha interior, viu as ruas cheias de pó, as crianças a correrem descalças e sem fôlego, as esquinas esfaceladas de edifícios devolutos. Viu as torres quebradas da cidade velha a jorrarem poeira das escoriações. Sentiu o odor a fruta podre, a merda e a mijo e a pus. Sentiu o perfume inebriante da gangrena e da devassidão, o cheiro a sangue e a sexo, tão profundamente opostos como semelhantes. As feridas magoavam, a lascívia consolava. Ambos transpiravam a podridão. Havia mendigos à porta dos poucos estabelecimentos abertos, mas eles confundiam-se com os habitantes mais abonados daquele bairro, que faziam fila pela maçã mais bonita do vendedor ambulante. Eram todos pele e ossos cobertos por andrajos acastanhados pela porcaria e espuma de baba a formar-se-lhes nos cantos das bocas.

Arcadas velhas cheias de símbolos gravados em pedra sucediam-se umas às outras, quando as ruas começaram a inclinar-se num gigantesco talude de pedra que antigamente chamavam de Bosta dos Deuses. A cidade prateada de Chrygia.

A cidade nova era todo um requinte de odores. Às especiarias tradicionais, como a canela, o açafrão e a noz-moscada, juntavam-se o perfume a rosas das lojas modernas, o cálido cheiro a castanhas grelhadas e a espetadas de aves, vendidos na berma da estrada por mulheres e crianças roliças. A manufatura era ali substituída pelo som de roldanas e de trabalhos sofisticados, como as bancas de amola-tesouras. As casas revelavam bom estado de conservação, edifícios geminados de dois ou mais andares, feitos em pedra e cimento. Lâmpadas de metal marginavam cada janela, apagadas à luz do dia; Língua de Ferro podia suspeitar que um qualquer sistema de canalização a gás acendia aquelas lâmpadas à noite, através de um processo alquímico que lhe conferia a coloração lilás que lhe dera fama. Sorriu ao passar por uma praça onde imperava uma estátua em argila de três metros com o rosto de Allen estampado na fronte. Quantas mentiras atiras ao mundo?, perguntou.

Sem título
Ancient City (Fonte: pinterest.com)

No topo do talude ficava um imenso edifício hexagonal cuja fachada exibia um entablamento cheio de mísulas e detalhes do período pré-Domasi. Todos sabiam que ele compreendia setenta palácios, mais de cem jardins e, nas suas traseiras, uma enorme ponte de pedra dava acesso a um edifício mais pequeno, semelhante a um templo, que era a sede do Senado, muito embora todos falassem daquilo como um só edifício, um só palácio. O Capitólio. O Palácio Supremo de Chrygia.

Foi para uma casa cúbica de dois andares, nas imediações, com um terraço de betão e sem telhado, que se dirigiram. A guarda armada abriu-lhes passagem e os camelos internaram-se na casa, para um átrio fresco onde uma fonte seca lembrava a desgraça da civilização. Uma longa correnteza de balaústres cercavam o átrio, proporcionando uma vista privilegiada do andar cimeiro. Língua de Ferro sentiu um formigueiro no braço quando um menino de olhar branco o viu de um desses balaústres, e logo desapareceu por detrás de um pilar nodoso e maciço.

― Caspare, seu desgraçado. O que fazes aqui? ― perguntou a mulher velha de sandálias que acabara de entrar uma arcada oriental. O oficial desmontou do camelo e resmoneou algo entredentes.

― Minha senhora, creio que esta é uma situação emergente.

Se aquela mulher magra e de ossos débeis, com longos cabelos brancos escorridos como cortinas pelos ombros ossudos era a famigerada Intendente, então a sua fama ultrapassara-a. Era esquálida e frágil, com uma camisa de linho e umas calças de anéis de prata que tilintavam a cada passo. Quando o oficial lhe contou o ocorrido, a mulher lançou a Língua de Ferro um olhar de relance. Tinha olheiras profundas e um rosto chupado, mas havia algo no seu olhar que o amedrontou. Era duro e confiante, mas também cansado e impaciente. Imprevisível.

― Façam-no descer desse camelo. Onde está o Imperador?

― Levaram-no para o quartel. Sefondos ficou responsável por ele, mas mandei já Gelabra chamar o Cirurgião.

A Intendente bufou de desagrado, enquanto os homens fizeram os joelhos do camelo fletir para removerem Língua de Ferro de cima dele.

― O Cirurgião tem muito mais para fazer do que sair do Capitólio para cuidar dos ferimentos desse palerma ― guinchou.

Dirigiu-se a Língua de Ferro e tirou-lhe o pano da cabeça. Sorriu ao contemplá-lo, mas sentiu-se de imediato cautelosa ao ver o seu olhar vazio.

Sem título
Sexy military woman (Fonte: pinterest.com)

― Por que raios vedaram este idiota? ― perguntou. ― Ele está cego. E amarraram-no? O gajo deu-nos a vitória. Quebrou o cerco e trouxe-nos o Imperador.

Caspare gaguejou.

― Minha senhora, limitei-me a seguir o protocolo. Pensei…

― Cala-te ― rugiu a Intendente, virando a sua expressão de dentes tortos para ele. Fez relaxar os ombros. ― Fizeste o que estava certo. Agora regressem para as muralhas, ainda são necessários por lá.

O oficial assentiu com a cabeça e fez uma pequena mesura. Antes de baixar o elmo e lhe virar costas, porém, perguntou:

― Este homem é Língua de Ferro, senhora. Há um prémio pela sua cabeça. É considerado perigoso e promotor da Rebelião. Tem a certeza que quer que o deixemos aqui?

A Intendente fitou-o com aspereza, e apenas o seu olhar foi o suficiente para que o oficial se desculpasse com uma nova mesura, concertando os homens para sair do edifício. Ainda não tinham saído do átrio quando a Intendente fez sinal para que Língua de Ferro a seguisse pela arcada de onde tinha surgido, ainda que não o libertasse da corda que lhe prendia os pulsos. Ele seguiu-a por uma alcova ampla, cheia de escravos uranianos nus, com a pele tão pálida que quase parecia transparente. Alguns seguravam folhas de palmeira, enquanto outros, maioritariamente mulheres, lavavam alguns homens chrygianos num tanque cheio de óleos. Uma guarda armada vigiava-os de lanças em punho.

Passaram por eles e transpuseram uma longa cortina de missangas escurecidas pelo fumo de tabaco. Do lado de lá esperava-os um estrado amplo e vazio, onde a Intendente se deixou afundar numa dezena de almofadas, parecendo por um segundo revelar os desconfortáveis sintomas da idade. Estavam longe dos guardas e dos escravos, a coberto pelas cortinas, longe o suficiente para que Língua de Ferro pudesse esganar a mulher e fugir. Apalasi mantinha-se presa à anca esquerda.

― Sabe quem eu sou, Língua de Ferro? ― perguntou a idosa, como se lhe estivesse a ler os pensamentos.

Manteve-se de pé à sua frente e sorriu.

― A Intendente de Chrygia. A favorita de Sander Camilli. Falaram-me de si.

A mulher abafou um risinho com uma mão e afastou o ar à sua frente com a outra.

― Sabe tão bem quanto eu que as histórias que se contam a nosso respeito têm um montão de coisas ridículas pelo meio. Sou esposa de Sander há vinte anos, mas creio que ele não me fode há mais de dez, por isso será difícil que me chamem de favorita. Para além disso, todas as outras são escravas. Ele não é polígamo, que se saiba. Ainda assim, nenhum dos seus filhos saiu de dentro de mim. Sou estéril. O meu nome é Stella Cristina Ravasi e dizem que sou uma grande cabra, que é das poucas coisas, das que são faladas a meu respeito, com que posso concordar. Temos muito em comum, Leidviges Valentina.

Língua de Ferro assentiu. Começava a gostar dela.

― Como assim? ― perguntou.

― Ora, ambos sabemos que tinha um objetivo em mente ao quebrar a Rebelião e devolver-nos Allen.

― Ganhar o apreço do Império e talvez uma estátua em minha honra ― respondeu com um tom de sarcasmo. Nenhum deles tinha a certeza de que estava a ser sarcástico.

Sem título
Knight – Dungeon 210fantasy (Fonte: pinterest.com)

― O primeiro passo para conquistar o Império seria quê? Ganhar a amizade de Sander? Talvez pense isso, porque acredito piamente que Eduarda lhe tenha contado como são as coisas por aqui. Ouvi falar do rebuliço em Ccantia. Talvez julgue que ser levado em ombros por Sander e matá-lo depois lhe conceda o amor do povo e a coroa de acanto. Permita-me dizer-lhe que está enganado.

Língua de Ferro fingiu um sorriso. A cabra era esperta.

― Talvez possamos chegar a um acordo, Stella.

― Talvez ― disse ela. ― Mas enquanto isso, prefiro que me chame de Intendente. É o que todos fazem por aqui. Também não sou ingénua a respeito do seu olhar. Chrygia tem sido visitada com muita frequência por pessoas cegas. Mais do que seria suposto. Tornaste-vos um escravo da essência, que é como alguns iluminados chamam a essa alucinação. Ou, pelo menos, um acessório dela.

Língua de Ferro cerrou os dentes.

― Não sou escravo de porra nenhuma. Ajo por mim, e para mim.

― Aqueles que são escolhidos em idade avançada sentem-se tentados a convencer-se disso ― afirmou.

― Escolhido por uma alucinação?

A mulher lançou-lhe um sorriso inocente e ergueu as mãos.

― Pronto, pronto, apanhou-me. Ela existe sim. Ou, pelo menos, o Império começa a acreditar na sua existência. Vários mensageiros têm chegado nos últimos anos. Vvertagla e Lucilla troçavam deles, mas Sander viu como os seus iguais caíram… e viu o poder de Mario Bortoli a agigantar-se, como esses mensageiros vaticinaram. Testemunhou alguma da sua magia e…

― Quem é aquele miúdo lá em cima?

― Nada lhe passa despercebido, já vi. Calculo também que se reconheçam uns aos outros. É o filho mais novo do meu esposo. Dele e de uma escrava. Ficou cego pouco depois de nascer, e desde então parece ver melhor do que qualquer outro mortal. É visto como um santo por aqui.

Língua de Ferro compreendeu.

― Isso explica a súbita religiosidade de Sander Camilli e o porquê de ter colocado as filhas de Eduarda nos Poços.

A expressão da Intendente ensombrou-se. Percebia que ele estava informado de coisas sigilosas.

― Eduarda tornou-se um problema sério. Refutou as crenças de Sander, moveu-lhe uma perseguição religiosa, tentou influenciar senadores a afastá-lo do poder e até tentou envenená-lo. Ele e Lucilla usaram Varro e ainda tentaram matar Allen. Sander fez de tudo para o salvar, eles sempre foram próximos. Mas Anéis da Morte revelou-se mais ardiloso do que nós presumíamos e usou-se das jogadas mais sórdidas para fazer valer a sua vontade. A coisa só piorou quando as filhas deles viraram uns demónios e tentaram matar o pequeno Anos. Fomos obrigados a tomar medidas drásticas.

Língua de Ferro suspirou. Não sabia qual a versão da história em que haveria de acreditar, mas alguém lhe mentia. Fosse Eduarda ou a Intendente, iria descobrir a verdade.

― Seja como for ― disse ― grande parte dos vossos problemas parece estar resolvido. Allen está de novo entre vós. Lucilla foi morta por Bortoli. Eu matei Bortoli por isso, e de caminho matei também Anéis da Morte. Ah, esqueci-me de lhe contar um pormenor. Também vos conquistei os Poços.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro