Estou no Wattpad #17

Olá a todos. Chegamos ao capítulo 17 do meu livro de leitura online “Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer”, disponível no Wattpad e aqui no blogue. No capítulo pretérito, assistimos a uma verdadeira batalha campal na cidade de Ccantia, com Língua de Ferro, Marovarola e Eduarda unidos contra os indígenas rezolis e os rhovianos, às ordens de Mario Bortoli. Após uma luta intensa pela sobrevivência, foram Tayscar e Seji quem salvaram os lendários campeões. No final, a descoberta do triste destino de Lucilla deixou os personagens principais de rastos.

CAPÍTULO DEZASSETE: MENTIRAS PIEDOSAS

“Tinha a boca esponjosa da última vez que o vi. Cheirava a urina com mais de quinze dias e a azedo de vómito. Um pano embebido em sangue mergulhou num pequeno barril de água, para regressar menos vermelho à superfície. O líquido dentro do recipiente, por sua vez, parecia viscoso e carmesim. Era Eduarda quem me limpava as feridas, com aqueles olhos negros como o Mar Zegreu, negros como a morte. Claro está que eu encontrava-me amarrado, coagido a ficar ali por quatro horas, onde homens melhores tinham morrido em condições semelhantes – o porão do galeão imperial que Merren Eduarda roubara à frota corsária de Cacetel. Fez-me fitar as contas coloridas dos anéis que orlavam os seus dedos, perguntou-me quantos dedos eu via e respondi seis, para o testar. Repetiu a pergunta, depois de colocar as mãos atrás das costas e as fazer regressar e então eu sorri, disse-lhe que não via dedos mas as patas de um burro e ele soltou uma gargalhada. Esperei pelo pontapé que me partiria o queixo, mas ele não veio. Eduarda ergueu-se e saiu, mas antes disso prometeu-me que voltaríamos a encontrar-nos, quando eu estivesse à sua altura, e que nos defrontaríamos até à morte. Essas palavras morderam-me o orgulho. Eu era um dos Doze Vermelhos. O traidor. O melhor guerreiro de toda a Rezoli. E saí dali no interior de um bote, vivo mas humilhado, em direção a nenhures”

Empecilho sabia que aquilo estava errado. Ccantia era agora uma cidade fantasma, pejada de cadáveres. O exército variegado de Mario Bortoli avançava para Chrygia, deixando a cidade sem os seus maiores tesouros, a braços com fogos deflagrados de difícil controlo e uma terrível sensação de vazio, provocada pela carnificina levada a cabo. Não restavam mais de duzentas pessoas vivas na cidade, quando antes, a população rondava os três mil. A maioria dos sobreviventes eram velhos, coxos, bêbados ou crianças de colo. Prostitutas tinham sido violentadas até à morte, e o mesmo sucedera-se com todo o tipo de mulheres jovens. O massacre de Ccantia figuraria nas gestas por muito tempo, desse por onde desse.

― Sete pintas! Ganhei outra vez ― disse Marovarola com ar vitorioso, ao olhar para o dado de madeira com sete pintas viradas para cima, sobre a tábua de uma mesa. Ainda estavam na estalagem que servira de sede logística a Mario Bortoli, e Marovarola esticou uma perna para cima da tábua, revelando uma bota de cano alto, cheia de atilhos e ilhoses. À sua frente, Seji ergueu-se, indignado e de mãos à cintura.

― Impossível. É a quinta vez consecutiva. Só pode ser batota.

― Marovarola tem um leque quase infindável de truques, Seji. Claro que é batota ― soou a voz de Anéis da Morte, que descia a escadaria. ― Não te deixes enganar.

Eduarda não revelava sombra de humor na sua expressão encovada e angular, embora as suas palavras tivessem o seu quê de brandura. Empecilho viu que ele estendera o seu olhar para a porta entreaberta, onde os primeiros raios de sol beijavam a pedra avermelhada de sangue seco da calçada com uma calma vespertina.

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Demon Warrior (playbuzz)

Merren “Anéis da Morte” Eduarda virou-se para Marovarola.

― Lembras-te do que te disse ontem à noite? ― Marovarola perdeu o sorriso e fitou a tábua da mesa com um olhar aborrecido.

― Lembro-me, mas tive esperança que você se tivesse esquecido. Envenenar senadores, foder putas virgens, despejar garrafas de rum numa dispensa vazia, ludibriar charlatões, Marovarola consegue. Mas… governar uma cidade? Não, isso é mau demais.

O antigo líder da Trupe da Morte pareceu tenso. A ferida no peito fora costurada, mas mantinha a sua veste negra, rasgada na zona do golpe.

― Ccantia precisa da tua astúcia Marovarola. Precisa reerguer-se com aquilo que tem. Há muito trabalho a fazer, corpos a enterrar, fogos a apagar, recursos monetários a fazer aparecer, obras de reconstrução a proceder, esperança a nascer… E eu vou abandonar a cidade quando ela mais precisa de um líder. Perdi esta batalha, Marovarola. Mas ainda tenho batalhas a travar, que não me podem reter aqui. As minhas filhas, Chrygia… Por Luce, sei o que tenho a fazer.

Marovarola soltou uma qualquer maldição entredentes e mascou um amendoim, que removera de um bolso do casaco.

― Precisa de mim, senhor? ― perguntou Empecilho, ao sentir-se constrangido por ali estar. Eduarda não pareceu dar-lhe atenção.

― Marovarola, não é a fazer apostas por amendoins e a beber até cair para o lado que vais honrar a memória dos teus irmãos mortos.

Por um segundo, Marovarola lançou-lhe um olhar a fulgir de ódio.

― Não foi Bortoli quem matou Bar e Vivelma, Dooda e Dzanela, Brovios e Agravelli.

Eduarda sacudiu a cabeça.

― Nem ele foi responsável por todas essas mortes, Marovarola. Leidviges Valentina tem muitos pecados a expiar, mas ser-nos-á útil.

Marovarola voltou a ruminar qualquer coisa entredentes e fez um gesto, como que a deixar a conversa para lá.

― Val tem a sua quota-parte de culpa, talvez não mais que Luce e eu trabalhei para ela, não foi? Ontem à noite, ele salvou-me a vida. Não sigo princípios de cordialidade muito dignos, mas não sou homem que ignore coisas destas. Salve lá as suas filhas, arranque o escalpe a Bortoli e Camilli, ponha a coroa de acanto em Val, e regresse vivo. Tomarei conta aqui da tasca até esse dia.

Pela primeira vez desde a morte de Lucilla, Merren “Anéis da Morte” Eduarda sorriu. Afagou o ombro a Marovarola e deixou-o a jogar com Seji. Pegou em Empecilho pelo braço e conduziu-o para o exterior. Ainda conseguiram ouvir a voz áspera de Seji a praguejar:

― Outra vez?! Batota, repito. Isto é batota!

Grandes caixotes de madeira empilhados amontoavam-se rua fora, com os últimos pertences de famílias desabitadas. Cadáveres em pilha eram colocados em piras fumegantes, para serem incinerados. Não era uma tradição local, mas as valas comuns estavam cheias. Pairava um cheiro bafiento a morte no ar. Empecilho encolheu-se. Tinham enterrado Lucilla antes da autora, num descampado a dez metros dali. Eduarda e Língua de Ferro tinham sido os únicos para além dele presentes no ritual.

― Vou precisar de ti, rapaz ― disse-lhe Eduarda, enquanto o conduzia entre esqueletos carbonizados do que tinham sido bancas de mercado, nas ruas marginadas pelas fachadas tisnadas de edifícios altos. ― Vance não atacará Chrygia de surpresa. Irá montar cerco. Convence-o a esperar, a vencer pela paciência.

Empecilho levou a mão atrás da nuca para coçar o couro cabeludo.

― Para Bortoli, os seus exércitos não passam de um mero transporte. São carne para canhão, senhor. Não me parece que Vance me dê ouvidos, mesmo que tente.

Eduarda pareceu refletir, mas não refreou o passo.

― Vance Cego não é Mario Bortoli. É um profeta. Há diferença nisso, rapaz. Se não conseguires convencê-lo… bem, Valentina disse-me que eras hábil. Terás de entrar em Chrygia, infiltrares-te na corte como artista itinerante e mexeres os cordelinhos certos para que Sander Camilli não se mova um centímetro. Ele que espere até chegarmos. Ele que espere… ― A pausa que se seguiu àquelas palavras foi dura para Empecilho, à medida que pesava a importância do fardo que lhe era colocado sobre os ombros. ― Posso confiar em ti?

― Posso confiar em ti? ― dissera-lhe Jupett Vance, antes de partir para Chrygia. ― Já ouviste falar em mentiras piedosas, rapaz? O cérebro humano é forte em arranjar desculpas que justifiquem as suas ações falhas. Ainda assim, há verdade em admitir que uma mentira bem contada pode salvar a pele ao cordeirinho curioso, que espreita para o pardo, pondo-se à vista do leão. Mente-lhes, rapaz, com todos os dentes que tens na boca. Diz-lhes que Bortoli vai para os Poços. Quero-os lá. Quem conseguir os Poços, consegue o Império, lembra-te disso. Na batalha, Língua de Ferro encontrará morte e desolação. Eduarda pode proporcionar-lhe o que a essência almeja. Um Império. Um Sacro-Império Chrygiano, nos dedos de um renegado. Confio em ti. A essência confia em ti. Peço-te que mintas.

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Tatooed Warrior (dasAoD em deviantart)

Jupett Vance não lhe pediu que mentisse a propósito da morte de Lucilla, mas ainda assim ele fê-lo, garantindo a centelha de ódio que conduziria Língua de Ferro e Anéis da Morte a Mario Bortoli. Não sabia porquê, mas era como se a sua mente soubesse que tinha de o fazer. Chegaram à estação ferroviária dez minutos depois.

Uma lanterna partida repousava ao lado de um cadáver, aos pés de uma escadaria que conduzia ao terminal. Era um guarda alfandegário. Não havia ali qualquer carruagem de locomotiva, nem qualquer expressão de vida, para além da nuvem de moscas que zumbia sobre o cadáver. Uma estalagem ladeava o terminal a leste, e uma estrebaria a oeste. Foi ali que encontraram Língua de Ferro, a acariciar o pelo sedoso de um diabo. A criatura encolhia-se ao seu toque, com a zona das costelas a latejar, de uma cor vermelha como sangue. Era um equídeo, mas a sua expressão ferina lembrava uma hiena. Baba escorria-lhe pela fissura labial.

― Dooda disse-me que o Império o devia ter capturado ― disse Língua de Ferro ao dar pela sua presença, sem os fitar. ― Não foi uma completa mentira.

― Não existem completas mentiras, assim como não existem completas verdades ― assumiu Eduarda, encolhendo os ombros. ― Só pontos de vista e deturpações, deliberadas ou não. Eu quis matar o animal, mas Dooda proibiu-me. Garantiu que cuidassem bem de Hije. Sabia que um dia voltarias para ele, e que recuperarias o teu poder.

Língua de Ferro fez oscilar os seus longos cabelos turquesa ao fitar Eduarda com ceticismo.

― Fui um joguete nas vossas mãos, Anéis da Morte.

― Precisavas aprender a ser humilde ― respondeu-lhe com convicção. ― No fundo, foi sempre isso. Sabíamos todos do teu potencial, só precisavas engolir esse orgulho para deixares que alguém te ensinasse algo. Aprendeste da pior forma. Foste obrigado a isso. Não fomos felizes ou eficazes em todas as nossas ações, atos deliberados que tinham como objetivo manter-nos no poder…

Língua de Ferro soltou uma risadinha.

― Compreendo. Mas não era só uma lição de humildade que me queriam oferecer. Queriam usar-me como peão numa guerra interna pela máscara chamada Landon X. E a minha morte seria necessária, de acordo com os vossos planos, mais cedo ou mais tarde.

Como se reagisse à palavra morte, os olhos de Hije, o diabo de estimação de Língua de Ferro, abriram-se muito.

― Os planos mudam, não é? ― concluiu Eduarda com uma expressão triste. ― Hoje ofereço-te um Império.

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Locomotiva steampunk (douglas-self)

― Não é justo ― disse uma voz à esquerda. Sentado numa meda de feno engolida pelas sombras, Tayscar estava ali sem que Empecilho tivesse dado conta. O membro da guarda da cidade teria levado Língua de Ferro até ali, seguindo as diretivas de Eduarda.

Ao erguer-se do assento, tornou-se totalmente visível, com uma expressão desafiadora e um indicador levantado. Dirigia-se ao seu soberano.

― O que é que não é justo, Tayscar?

― Este homem matou o mau pai, e você diz que quer oferecer-lhe o Império? O Império é meu por direito, sou neto de Cacetel.

Eduardo fitou-o com olhos frios, quase capazes de fazer gelar um deserto.

― Este homem matou o teu pai porque ele era um fraco. Agravelli nunca reclamou o seu lugar dinástico. Vais tu fazê-lo, quando pouco mais não és que um cadete doméstico?

Tayscar engoliu o orgulho com as feições a enrubescer. O indicador estremeceu no ar.

― Eu só disse… que não era justo!

E ao repeti-lo, passou por Eduarda e Empecilho em passos largos, saindo da estrebaria como um louco, com os longos cabelos a adejar ao vento. Língua de Ferro saltou para cima de Hije, já ajaezado com sela e chagrém. Com um olhar altivo, disse:

― Empecilho, quero que saibas que não te recrimino. És um bom miúdo. Aquele guarda, na estação, fui quem o matou. Antes, disse-me que Bortoli entrou, realmente, naquela locomotiva, mas que não se dirigia aos Poços. Bortoli foi para Chrygia.

Eduarda suspirou profundamente e cofiou o queixo.

― Nenhuma rota ferroviária leva diretamente aos Poços! ― Voltou-se para Empecilho com um olhar perscrutador.

O rapaz encolheu-se, comprometido. As sombras que lhe beijavam o corpo eram frias e incómodas.

― Foi Vance quem…

― Eu sei quem foi ― interrompeu Língua de Ferro. ― Seja como for, eu vou encontrar Bortoli e fazê-lo pagar. ― Virou o rosto para Merren “Anéis da Morte” Eduarda. ― Cesare LaCelles… foi mesmo ele quem deu albergue a Marovarola e, supostamente, esteve envolvido na rebelião rhoviana?

Eduarda pareceu momentaneamente confuso, mas assentiu com a cabeça.

― Sim… LaCelles foi um agente nosso. Camilli descobriu-o e matou-o, assim como toda a sua família. Alegou que eles se batiam contra a lei do Imperador nas suas funções administrativas.

Língua de Ferro sorriu. Era tudo o que precisava saber. Segurou o cabresto de Hije e deu-lhe um puxão, fazendo o animal relinchar como o rugido de um trovão.

― Empecilho, segue as indicações de Anéis da Morte. Confio em ti. Quanto a ti, Eduarda, prepara uma caravana para os Poços. Em breve, juntar-me-ei a ti e lutarei para salvar as tuas filhas. Hije, vamos!

O diabo guinchou ao sentir as esporas enterrarem-se na carne, mas avançou pela estrebaria fora, obrigando Empecilho e Eduarda a desviarem-se contra as tábuas divisórias da baia.

Confio em ti, dizia-lhe agora Língua de Ferro, e Empecilho sabia que ele, a quem acabara de trair a confiança, era o único que nunca iria trair verdadeiramente. Ali, com dedos sem pontas abraçados à porta de madeira, Empecilho via-o a afastar-se entre nuvens de poeira. Podia imaginá-lo a atravessar o deserto montado em Hije, o seu diabo de estimação, com uma mão nas rédeas e a outra a erguer Apalasi acima da sua cabeça. O velho salteador estava de volta. Talvez ferido. Talvez humilhado. Talvez vergado. Vazio. Morto por dentro. Mas era Língua de Ferro. A lenda. O homem que Mario Bortoli e Sander Camilli, dois tiranos em guerra, deviam temer.

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Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete

Estou no Wattpad #16

Estou no Wattpad a publicar o 16.º capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, o meu livro de leitura online. No último capítulo, assistimos às maquinações de Bortoli pelo olhar de Empecilho, no momento em que os exércitos rezoli espalhavam o terror em Ccantia. Apesar das advertências e conselhos de Jupett Vance, Bortoli ordena a morte de uma das personagens principais desta trama. A partir de agora, nada será como antes.

CAPÍTULO DEZASSEIS: MASSACRE EM CCANTIA

“Encontrei Eduarda num dia terrível, cheio de relâmpagos, profecias e coisas piores. Dois tipos apostavam os seus parcos recursos sobre a tempestade do dia seguinte. Não eram muito espertos, talvez por isso foram os únicos homens a sul de Tavela a aceitar seguir-me por aquele deserto sem fim à vista. O oásis revelou-se ao cair da noite. Uma baía imensa, cheia de embarcações prenhes de remendos e com péssimas condições de calafetagem, atracadas à margem. Ainda assim, soube que não tinha escolha. Era um animal a agir por puro instinto, com apenas Apalasi em quem confiar. Via muitas cabeças ao longo da margem, de homens vivos e mortos, e sons que sugeriam amena cavaqueira, troça ou algum ritual esquisito. Enviei os meus dois seguidores como isca. Quando comecei a ouvir os gritos, esgueirei-me até à água, onde resisti à tentação de a beber. Fui até ao primeiro bote e desprendi-o da escora onde o prenderam. Um galeão pirata esperava por mim. Lancei um desafio aos céus e pedi aos deuses que me confundissem com um deles. Beijei o meu polegar da sorte. Quando me içaram uma corda, vi a morte no seu olhar. O homem que baixou o monóculo era o líder da Trupe da Morte, como contou logo que fui levado à sua presença. Avaliou-me. Desafiou-me para um duelo. Os relâmpagos tremeram diante do choque das nossas espadas. Lutei e perdi. Era ridículo pressupor isso. Ninguém me derrotava. Ninguém. Mas ele fê-lo, como faria uma e outra vez, caso nos voltássemos a defrontar. Derrotou-me, e para me castigar ainda mais, deixou-me viver.”

A mansão de “Averze” já não era um lugar seguro. Os homens às suas ordens entraram pelo escritório dentro, com olhares assustados e dedos a tremer nos cabos das armas. Um estouro fez-se ouvir quando um qualquer objeto atingiu a janela oriental e uma chuva de fragmentos de madeira se espalhou pelo pavimento. Merren “Anéis da Morte” Eduarda ergueu-se do seu assento quando um dos seus homens perguntou:

― O que fazemos?!

― Vamos embora daqui ― respondeu ele, sem humor.

O belíssimo jardim da mansão estava a arder. As plantas, outrora verdes e viçosas, encarquilhavam-se em tons alaranjados. Marovarola encolheu-se quando uma planta de caule comprido se desfez na sua direção. Língua de Ferro avançava atrás dele, com Eduarda e um grupo de guardas nos seus calcanhares.

― Uma toufelina! ― guinchou Marovarola, virando-se para Língua de Ferro. ― Já te contei o que esta planta…

― Sim ― disse Língua de Ferro, puxando-o por um braço. ― Cura diarreias.

Saíram do jardim de armas em punho. Língua de Ferro desembainhara Apalasi e segurava-a agora com as duas mãos. Marovarola exibia um revólver de freixo em cada mão e Eduarda um bacamarte mais longo, esculpido em cerejeira. Ambos mantinham as lâminas afiveladas à cintura. Foram surpreendidos ao atravessar a rua. Uma companhia de indígenas rezoli, de tochas em punho e expressões ameaçadoras, mudou a sua rota conquistadora ao avistarem o grupo, e avançaram para eles. As poucas roupas que traziam eram feitas de lã pura, e as armas pareciam rudimentares. Os guardas de Eduarda dispararam tiros certeiros na direção deles, e fumo evolou-se também das armas de Marovarola e Eduarda.

Isto é uma loucura, pensou Língua de Ferro.

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Batalha (lovelessdevotions em deviantart)

Vários indígenas tombaram para o lado, com feridas de bala nos corpos desnudos e jatos de sangue a espirrarem à sua volta. Mas eles eram demasiado numerosos. Continuavam a avançar e, muito embora o grupo de Língua de Ferro se enfiasse às arrecuas pela via ocidental, os homens de Bortoli pareciam estar espalhados por todo o lado. As armas de fogo precisavam ser recarregadas e não havia tempo para isso. Marovarola tinha os olhos cheios de horror quando colocou os revólveres no cinto, atrás das costas, e desembainhou o seu florete. Eduarda cerrou os dentes e atirou o bacamarte para o lado, desafivelando uma lâmina larga de trinta centímetros, que pôs a nu com um silvo.

Língua de Ferro sorriu com a ironia. Ele, a lutar ao lado de Anéis da Morte e Marovarola, era uma situação tremendamente improvável. E, no entanto, ali estava ele, de espada em punho, ao lado dos dois espadachins mais notáveis com quem já tinha tido a oportunidade de privar. Certamente resolveriam aquele problema sem grande dificuldade – trinta rezolis não eram oposição. Todavia, apareciam mais homens, rezolis mas também rhovianos, de todos os lados da rua. A sua testa franziu-se de apreensão.

A noite estava quente. Ou gelada. Não sabia dizer. Suores frios percorriam todo o seu corpo, a cada movimento. A sua carne enchia-se de calor com o sangue dos inimigos, a cada golpe certeiro. Os seus movimentos eram fluídos, animalescos, irracionais. Os únicos sons que ouvia eram o raspar do aço em madeira, os gritos dos moribundos e a terra a ranger sob os seus pés. O braço direito movia-se com leviandade da direita para a esquerda e da esquerda para a direita. Exibia uma expressão ferina no rosto franzido. Rugidos terríveis jorravam dos seus lábios. Recuou diante de um rezoli de lança, para evitar a sua ponta aguçada a fogo. Com um estridular bárbaro, avançou para o adversário e abriu-lhe o ventre de um golpe. Os olhos do rezoli abriram-se muito quando sentiu as tripas a escorrerem-lhe pela pélvis. O sorriso de triunfo de Língua de Ferro, porém, morreu num segundo.

Três rezolis atiraram-se aos seus ombros. Um golpeou-o com uma adaga num braço, mas ele conseguiu esquivar-se e dobrar-se para a frente, obrigando os adversários a caírem com ele. Levou as mãos à terra e balançou-se para cima de novo, quebrando um queixo com um cotovelo. Desbaratou o segundo adversário com uma cabeçada potente e tinha já uma faca cravada no joelho quando largou Apalasi, cravando-a em pé na terra à sua frente, e partiu o pescoço do inimigo com as duas mãos.

Dentes cravaram-se no pescoço de um rhoviano. Com os olhos injetados de sangue e os cabelos azul-turquesa a levitarem como cortinas de seda, Língua de Ferro parecia um vampiro. Mordeu a jugular e cuspiu um pedaço de carne para o lado, enquanto um jato de sangue esguichava para o ombro do rhoviano enfraquecido. Língua de Ferro pontapeou os dois homens que se aproximaram das suas costas, quebrando lanças e patelas, voltou a segurar em Apalasi, rodou-a nas suas mãos com aparente leveza e mais sangue e gritos jorraram na noite.

Marovarola esquivava-se com uma perícia inusitada. Era veloz e leve, e a ponta do seu florete estava banhada de sangue. Perderam de vista os guardas chrygianos de Eduarda, restando somente um ccantiano que foi varado por uma comprida lança rezoli. Marovarola engoliu em seco e avançou, com a expressão atrapalhada de quem não queria hostilizar ninguém.

― Isto é tudo um terrível mal-entendido, senhores. Não somos todos amigos? Não me reconhecem? Sou Marovarola. Ma-ro-va-ro-la, imperador entre os pedintes. Ahh, raios, o amigo de índios. Cara pálida amigo? Não?

Os indígenas responderam-lhe com rosnidos pouco amigáveis. Quando um o segurou por um braço, Marovarola empurrou-o para cima dos outros e correu, tropeçando e utilizando os braços para se voltar a endireitar, passando entre as pernas de um rezoli aparvalhado até chegar perto de Merren “Anéis da Morte” Eduarda, que a peleja conduzira para leste.

Ao encontrar Eduarda, Marovarola ficou de queixo caído. Anéis da Morte estava de espada erguida, ereto sobre um monte de cadáveres. Um golpe aberto no seu peito abrira-lhe a veste e a ferida parecia vermelha e esponjosa. Eduarda moveu a espada num movimento ascendente, da esquerda para a direita, e com uma rapidez incrível decepou uma cabeça. Um único golpe. Marovarola olhou-o com orgulho, mas também com a certeza que, por muito bons que fossem, não tinham hipótese de sair dali vivos. Os inimigos jorravam, uns depois dos outros, mais e mais, de todos os lados, tentando queimá-los com as suas tochas em punho. Mario Bortoli via ali feita a sua justiça.

Uma ingratidão.

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Batalha (BrowsingFanArt em deviantart)

O relinchar de um cavalo atraiu atenções e dispersou vários rezoli e rhovianos. Era um garanhão syliano de grande envergadura, negro como um céu sem estrelas, à frente de uma carroça de mercador. Na condução do veículo estava um rapaz de longos cabelos louros, enquanto um sujeito velho e sujo disparava contra os homens de Bortoli com um longo bacamarte de dois canos. Língua de Ferro tinha a vista turva e sentia-se trôpego, mas foi o primeiro a reconhecer os seus salvadores.

Tayscar e Seji. Quando é que a piada termina? Não lhe bastava estar a lutar contra rezolis, ao lado de Marovarola e Eduarda, como também os homens que tinha deixado amarrados no esconderijo da Companhia dos Ossos o vinham salvar. Ainda que não lhe parecesse lógico, sabia não haver qualquer lógica quando tudo dava para o torto. Furou os surpreendidos rezolis com uma correria insana e atirou-se de ombros contra o espaldar da carruagem, caindo no seu interior. Ainda ouviu os gritos e rosnidos dos inimigos, assim como as vozes de Marovarola e Eduarda, ao subirem para a carruagem, instigando os seus salvadores a saírem dali rapidamente. Depois, perdeu a consciência.

Quando voltou a abrir os olhos, o cheiro a putrefação não lhe devolveu a confiança. Tinha golpes nas pernas e nos braços, dentadas nos ombros, o maxilar dorido. Ainda estava na carruagem. Eduarda puxou-o por um braço e colocou-o em volta do seu pescoço. Foi impelido a erguer-se. A noite era escura, mas estava iluminada por tochas. O odor a fumo e a óleo a arder não imperava sobre o doce perfume a carne morta. Estavam ainda em Ccantia, não havia dúvidas, mas noutro lugar. Ainda assim, haviam vários rezolis e rhovianos por ali, e o garanhão que conduzira a carruagem tinha sido decepado pela garupa.

Língua de Ferro segurou em Apalasi pelo punho e deslizou para fora da carruagem, amparado por Eduarda. Seji e Tayscar abriam caminho com espadas longas e adelgaçadas, seguidos por Marovarola, Eduarda e Língua de Ferro, na direção de uma estalagem. Um rezoli preparava-se para queimar Leidviges Valentina com o seu archote, quando Eduarda o silenciou com aço entre as costelas. Removeu a espada de imediato. Língua de Ferro apoiou-se no ombro de Eduarda e assentiu-lhe com a cabeça, dando a entender que conseguiria avançar sozinho.

Nessa tomada de consciência, viu Marovarola a medir forças com um rhoviano, espadeirando à esquerda e à direita. Um outro rhoviano assomou por trás, de adaga em punho, pronto para matar Marovarola pelas costas. Língua de Ferro avançou com uma fúria esmagadora, e sem dar hipótese ao inimigo, cortou-lhe um terço da cabeça com um único golpe de Apalasi. O pedaço da cabeça voou e o sangue foi varrido pelo vento. Marovarola venceu o seu inimigo e voltou-se para Língua de Ferro com altivez. Ao ver o homem morto aos seus pés, percebeu o que tinha acontecido.

― Salvaste-me a vida, Val?

Língua de Ferro afagou-lhe o ombro com um sorriso e coxeou para o interior da estalagem.

― Agradece-me depois, sim?

As surpresas, porém, não terminavam por ali. Ao entrar na estalagem, viu Tayscar e Seji a cochicharem com um rapaz. Uma figura familiar.

― Empecilho?

O jovem afastou os outros com um gesto e aproximou-se de Língua de Ferro com uma expressão séria. Colocou-lhe as mãos à frente dos olhos, para mostrar que lhe faltavam as pontas dos dedos.

― Parece-me que sim. Bortoli deixou-me aqui, uma vez que não deveria precisar de mim… para onde foi. Fui eu quem encontrou Tayscar e Seji e libertei-os.

Algo ali estava mal explicado. Virou-se para os dois salvadores; pareciam comprometidos, hesitantes.

― Por que razão vocês nos salvaram? Depois de eu ter morto Agravelli, de os ter deixado amarrados…

― Creio que isso não passa de um mal-entendido ― disse uma voz atrás de si. Eduarda. ― Eles salvaram-te porque estavas comigo. Estavas contra o nosso inimigo comum. Eles foram salvar-me, Valentina. Tayscar é meu discípulo, um dos membros mais promissores da guarda ccantiana. E Seji… bem, Seji pertence à velha guarda. Defende Ccantia acima de tudo.

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Guerreiro (Sina Pakzad Kasra em pinterest)

Marovarola estava de olho à janela, depois de ter fechado a porta. Língua de Ferro afastou Tayscar e Eduarda ao ver um cadáver caído sobre uma mesa. Aproximou-se, passo a passo, como se o corpo o chamasse para si. Eduarda pareceu sentir algo parecido e seguiu-o. O corpo nu e cinzento de Lucilla estava ali, a apodrecer. Anéis da Morte soltou um grito e caiu de joelhos. Língua de Ferro cerrou os dentes e sentiu as lágrimas a escorrerem pelas maçãs do rosto. Luce… este é o fim? Tudo o que fiz, tudo o que vivi, todos os lugares por onde andei, para acabar aqui? A minha Luce… Meteste-te com as pessoas erradas, meu amor… Desculpa-me. Desculpa-me. Desculpa-me. Mil vezes desculpa-me. Desculpa-me por não ter chegado a tempo. Por ter duvidado de ti, todo este tempo.

Merren Eduarda não era mais um venerável homem de negro, inexpugnável na sua aura bélica. Era um esposo viúvo, caído de joelhos, a soluçar, com os olhos suplicantes a rogar pragas e as mãos presas nos dedos moles do cadáver. E Língua de Ferro partilhava da sua dor. Os dois homens amavam aquela mulher, e não importava agora qual deles ela amara mais.

― Quem a matou? ― perguntou Língua de Ferro, ao virar-se para Empecilho com um olhar de aparência serena. Limpara as lágrimas do rosto antes de se voltar. Empecilho estremeceu diante daquele olhar.

― Bortoli ― respondeu depois de refletir. ― Foi Mario Bortoli quem a matou. Sim, foi ele.

Língua de Ferro deu alguns passos na sua direção, depois de lançar um último olhar ao cadáver. Aquele rosto macio, tão pálido, tão morto. A curva daqueles lábios, tão triste.

― Para onde é que ele foi? Para Chrygia?

Empecilho engoliu em seco. Sabia o que se esperava dele.

― Os exércitos começaram a marchar para lá. Vance Cego comanda-os. Mas Bortoli não… Bortoli disse que ia apanhar um comboio. Levou Ravella com ele. E uma diligência de rezolis. Pretende tomar os Poços, por alguma estranha razão.

Quem tomar os Poços, toma o Império, pensou Língua de Ferro, e virou-se ao sentir duas mãos nas suas costas. Eduarda, frio como um morto, com os olhos vermelhos de tanto chorar, disse-lhe:

― As minhas filhas, Leidviges. As minhas filhas…

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