Estou no Wattpad #29

É verdade, depois de vos ter apresentado o capítulo 28 na quarta-feira, eis que vos trago um bónus; só porque estou de férias. Estarei uma semana completamente arredado do blogue, daí que tenha decidido presentear-vos com mais um emocionante capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, agora que faltam pouquinhos capítulos para o grande final. O baile trouxe grandes revelações para o anti-herói, mas as surpresas estão longe de acabar. Espero que gostem.

CAPÍTULO VINTE E NOVE: CÃES

A aldeia-riscada não tinha mais nada para me oferecer. Aceitei acompanhar uma caravana de mercadores até à cidade de Venille, a troco do sempre bem condimentado guisado rezoli. Na verdade, precisava de uma desculpa para regressar a Constania, engolir o meu orgulho e pedir a Dooda que me perdoasse, ainda que ele já o tivesse feito. Não me sentia arrependido pela traição aos Doze Vermelhos e, se voltasse atrás no tempo, teria feito tudo outra vez, mas o que eu fizera ao meu melhor amigo tornara-se incomportável de suportar. O perdão dele só me fazia sentir mais culpado, principalmente porque nunca lho fora solicitado. Venille revelou-se um destino pouco agradável. O odor do couro acabado de curtir impregnava o ar e o guinchar dos abutres fazia-me perguntar o que raio acontecera às gaivotas que em tempos dominavam aqueles céus. Consolei-me entre as coxas de uma prostituta de olhos amendoados que me fazia lembrar Lucilla, mas a mulher não era aquilo que eu esperava. Possuía uma dignidade improvável para a profissão e uma autoconfiança que se lhe aderia ao corpo como uma segunda pele. Gritou um último gemido de prazer e, quando caiu para o lado, disse-me que seria traído por aqueles que eu traíra. Nunca ouvira falar de oráculos que viam o futuro através da cópula, pelo que zombei da mulher e disse-lhe que lhe pagara para foder e não para tecer profecias. A verdade é que eu estava inebriado pela zurrapa da noite e limitei-me a virá-la de costas para me voltar a servir do seu corpo. Ainda assim, nunca esqueci as suas palavras, e os nomes de Dooda, Dzanela, Bortoli, Marovarola, Brovios e Agravelli ficaram-me gravados na mente. Na manhã seguinte, regressei a Constania.”

O general Pantaleoni foi alvo de um ataque de espirros, as senhoras da corte mexericavam e os flautistas chegavam ao píncaro das suas melodias. Talvez por isso tenham demorado tanto tempo a ouvir os gritos.

Língua de Ferro lamentou não ter Apalasi consigo, mas lançou-se na direção das portas do salão. Ceil seguiu-lhe os passos, mas o amplo salteador parou-lhe a progressão com uma mão no peito.

― Não. Tu ficas aqui. Avisa o teu pai do que se está a passar.

O olhar estóico da rapariga adquiriu contornos febris.

― O que se está a passar? Mas o que mijo de ratazana sei eu do que se está a passar?

― O Capitólio ― disse ele ― está a ser alvo de um ataque.

Língua de Ferro deixou a jovem, quando assomou à porta um jovem criado, com um coto a sangrar onde devia ter uma mão. O rosto perdera parte da cor e tinha os olhos cheios de terror.

― Eles. Eles vêm aí ― balbuciou, com a língua a entaramelar-se, antes de cair desmaiado para a sua direita.

Língua de Ferro ouviu os gritos aterrorizados das senhoras da corte presentes no salão, mas não esperou que a massa de gente envolvesse o rapaz caído como corvos em busca de um banquete. Tranpôs a portada dupla e, quando subiu a escadaria, viu um rasto de sangue tanto nos degraus como na balaustrada. Dedadas vermelhas corriam o mármore do corrimão.

Ouviu um grito do corredor à esquerda, e um grito do corredor à direita. Avançou em passos largos até à cozinha, onde se deparou com os cadáveres mastigados das copeiras e ajudantes de cozinha, envolvidas por massas de entranhas, dejetos e sangue, e com expressões do mais puro horror nos rostos.

O odor nauseabundo de carne acabada de abater não guardava segredos para Língua de Ferro. Nele, pôde reconhecer um outro odor familiar.

O cheiro a cão.

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“Cão” (Fonte: simania.co.il)

Atrás de um aparador, o animal de olhos vazios que lhe guardara a porta na noite anterior debruçava-se sobre o corpo de Mia, arrancando-lhe um pesado seio do peito à dentada, enquanto a cozinheira soltava o estertor final. Uma boca de sangue e músculos postos a nu abriu-se-lhe no peito e Língua de Ferro viu-se visado do último e desesperado olhar da mulher. Que porra de merda é esta?, pensou para si mesmo enquanto o cão engolia o pedaço de carne. Esperou que o animal se virasse para si e o reconhecesse, mas quando ele o fez, sentiu-se intimidado.

O cão era enorme, tinha os olhos completamente vazios e as mandíbulas ameaçadoramente abertas estavam vermelhas do sangue das suas vítimas. Sangue que pingava e tamborilava no solo de mármore. O que queres com isto, essência?, perguntou em silêncio. Porque não me usas a mim, se é verdade que me controlas?

Uma voz atrás de si respondeu aos seus pensamentos:

― Cada instrumento tem a sua função ― disse Anos, com uma expressão tristonha no rosto. O cão soltou um silvar assustador e aproximou-se com o dorso a ondular. ― E, ao contrário dos animais, somos seres humanos. A essência pode definir as nossas tarefas e fazer-nos aceitá-las, mas ainda assim há algo mais profundo em nós que nos pode fazer recusá-la. O livre-arbítrio.

Língua de Ferro deslizou o olhar do rapaz para o cão. Anos avançou, pé ante pé, para o animal, passando pelo salteador com uma mão no ar.

― Porque é que estás a fazer isto? ― perguntou.

― Há algumas semanas, quando chegaste, perdi o meu dom ― disse o rapaz. ― Inicialmente, julguei que a essência te enviara para me substituir, mas agora percebi o que aconteceu. A essência não te criou oposição, porque o Fluído indicava que matarias a minha família e reclamarias o trono. Dentro de ti, ela já percebeu que essa intenção desapareceu ou, pelo menos, foi mitigada. O meu pai pode ter-se avassalado à doutrina, mas nem ele pretende reclamar a coroa, nem está destinado a isso. Ela queria um de nós dois com a coroa de acanto na cabeça, porque apenas um dos seus instrumentos lhe pode dar voz com legitimidade. Espalhar o verbo pelo Império. O meu irmão é um sério obstáculo a isso. Eles vieram, para o matar.

O silvar do cão tornou-se mais carregado com a aproximação do rapaz.

― Eles? ― perguntou Língua de Ferro.

― Sabes a quem me refiro. Durante mais de trezentos anos, o poder distribuído às famílias originais de Chrygia retrocedeu e avançou de forma periódica, até que a essência percebeu que os deuses haviam escolhido um caminho pantanoso e de interesses questionáveis. Um caminho que poderia levar-nos a todos ao abismo, baseado no poder e na arrogância. Nessa altura, os circuitos comerciais foram desviados e Chrygia passou por um período de contusão social, durante o governo de Cacetel Damasi. A cidade tinha então duas mil pessoas e chamava-se de capital do Império, a funcionar como coração das rotas comerciais. A descentralização foi essencial nos planos da essência em reformular o mundo. Ela não tinha intenção de modificar os planos sociais, mas reverter a forma como as pessoas a encaravam. Acreditava que a arrogância dos homens provinha dos deuses, e então tirou-lhes os deuses e tirou-lhes a água. Mas mesmo a caminho da extinção, os homens continuam arrogantes.

Os olhos de Língua de Ferro abriram-se de susto, não só pelas palavras do pequeno Anos, como pelo movimento súbito do canídeo. O enorme cão lançou-se para o rapaz e abocanhou-lhe a cabeça careca, fazendo chover um jato de miolos à sua volta. O jovem parecia ter-se entregue a ele voluntariamente, pelo que não exibira qualquer tremor ou lançara qualquer grito nos momentos que antecederam a sua morte. Língua de Ferro deu um passo atrás, incrédulo por ter permitido que a criança fosse assassinada. O animal mastigou-lhe os restos, sem deixar de o mirar de olhos vazios.

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“Cão” (Fonte: mundotentacular.blogspot.com)

Claro, percebeu. A essência quer ver Allen morto. Isso explica a minha vontade de o matar. Deu outro passo para trás, quando ouviu sons desagradavelmente familiares atrás de si. Dois cães, com a pelagem tão negra quanto a do primeiro, de olhos tão brancos e altura tão elevada quanto a dele, transpuseram a porta na sua direção. A essência não quer livrar-se apenas de Allen, mas também dos instrumentos que já não lhe servem.

O cão que matou Mia e Anos ergueu as patas dianteiras, fê-las cair no chão com um bambolear suave e ganhou balanço para a frente, lançando-se para cima do salteador. Língua de Ferro viu-lhe os músculos a pulsar no peito, as patas perfeitamente fletidas e a investida pareceu-lhe um borrão em retrospetiva. Não teria barreira mágica para se defender, sabia-o, mas nunca precisara dela. Os reflexos assumiram o lugar que lhe pertenciam quando abriu a bocarra do animal com as próprias mãos e puxou-lhe a cabeça com um torção. Língua de Ferro era um bárbaro, uma lenda dos desertos, um animal em corpo de gente. O peso do oponente fê-lo cair para o lado.

Mataria aquele animal com toda a propriedade. Fê-lo com selvajaria. Mas tanta bravura e ferocidade, paixão à vingança e corpulência física não lhe bastariam. Havia mais dois cães daqueles a avançar para ele, com raiva a verter-se-lhes das mandíbulas. Seria desmembrado e transformado em ração, se tiros não fossem disparados da entrada da cozinha, fazendo os animais encolherem-se e ganirem antes de caírem com manchas vermelhas nos dorsos negros como a noite.

Os cães gigantescos foram abatidos a tiro, o que lhe revelou não estarem protegidos pelo halo de proteção que os escolhidos pela essência costumavam deter. Talvez tal blindagem não granjeasse os animais, ou talvez a essência não os achasse importantes para lhas conceder. Língua de Ferro sentiu os dedos cheios de sangue que não era seu quando removeu os dedos da boca do animal que enfrentara. Sentou-se no mármore, com os reflexos embotados pela reação da essência no seu corpo. Viu vultos turvos à sua volta. Quando sentiu mãos nos seus ombros, reconheceu o jovem que o abraçava. Sob as sobrancelhas douradas, Tayscar parecia preocupado.

Atrás dele, sobranceiro, Seji ajeitava o mosquete com o ar presunçoso de quem salvara o dia. Atrás dele, às portas da cozinha, um homem com uma sobrecasaca de veludo cheia de bolsos e botões removeu uma máscara cinzenta do rosto, cujo nariz proeminente dava-lhe uma aparência risível. Era Dagias Marovarola, a balançar os caracóis negros e a gingar as ancas.

― Dívida saldada, Valentina. Não precisas agradecer-me. ― Aproximou-se de uma mesa, removeu a tampa de uma panela, sorveu o ar à sua volta e perguntou: ― O que é que há para jantar?

Se não tivesse assistido à morte de uma mulher e de uma criança inocentes, talvez sorrisse. Língua de Ferro ergueu-se de súbito e disse:

― Jantas depois. Ainda há trabalho a fazer. Por que raio demoraram tanto tempo a chegar?

Tayscar atirou-lhe um dedo indicador, acusatório:

― O seu plano deixou muitas brechas abertas. Porque não nos contou ainda nos Poços o que pretendia?

Não podia perder tempo a explicar-lhes tudo.

― Nunca verbalizei o meu plano em voz alta. Limitei-me a matar dois camelos e a pedir a Empecilho para os enterrar. Precisava fazê-los acreditar que tinha morto as miúdas. Duvidava que, através de mim, a essência não o descobrisse, e desse modo, Vance também o soubesse, mas precisava colocá-las em segurança e temia que Sander Camilli as mandasse matar. Para provar a minha lealdade à essência e conquistar a confiança de Chrygia, achei por bem forjar a morte das raparigas e enterrar os camelos junto ao cadáver do pai delas.

― E mandou-as de volta, sozinhas ― grunhiu Seji, com censura.

― Chegaram vivas, não chegaram?

― Por pouco ― respondeu Tayscar, cheio de azedume. ― Quase que as matou.

Isso não aconteceria, pensou Língua de Ferro, sem o verbalizar. Algo dos deuses mortos que matou o pai delas ainda vive no seu íntimo, e regressará, mais cedo ou mais tarde.

― Não importa. ― Virou o rosto para Marovarola. ― Uma vez que estás aqui, significa que elas transmitiram a mensagem e estão em segurança.

Marovarola passou com uma manga pelo nariz, limpando o muco que lhe escorria para a boca.

― Sim, Valentina. A tua cavalaria chegou. Tal como planeaste, sabotamos um comboio, fizemo-nos passar por locais e seduzimos umas copeiras. Onde é que está o maldito Camilli para o matar?

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“Pirata” (Fonte: fineartamerica.com)

Língua de Ferro suspirou profundamente, enquanto passava por eles e dirigia-se ao quarto para recuperar Apalasi.

― O jogo mudou, Marovarola. E o alvo também. Não vamos matar Sander Camilli.

Marovarola seguiu-o pelo corredor em passos bambos e rápidos, com Tayscar e Seji a segui-los sem vontade.

― Como assim? ― perguntou Marovarola. ― Quem é que vamos matar então?

Língua de Ferro pegou num candeeiro sobre uma cómoda e voltou a pousá-la.

― Vance Cego. O nosso velho amigo está aqui para matar Allen e eu vou impedi-lo. Estes cachorrinhos foram uma manobra de diversão para espalhar o terror no Capitólio e tirar-me do Salão de Baile.

Dagias Marovarola parou, com os olhos muito abertos.

― Mas, por que carga de água queres tu salvar Allen? O maldito é um cabrão presunçoso.

Língua de Ferro virou-se rapidamente e encostou o homem a uma parede, pelo pescoço. Viu os olhos de Marovarola a abrirem-se muito e apertou ainda mais os polegares na sua garganta. Sentiu vontade de o estrangular, ou talvez fosse a vontade da essência.

― Também tu és um cabrão presunçoso. Eu sei tudo, Marovarola. Eu sei que foram vocês que mataram o Regan.

Soltou-lhe o colarinho e deixou-o cair sentado no solo. Seji e Tayscar trocaram um olhar confuso. Quando Língua de Ferro lhes virou as costas, Marovarola começou a gargarejar.

― Ora, Val, Dzanela era um cretino. Demasiado certinho, demasiado seguidor das suas próprias regras. Lembras-te do que ele lhes chamava? Ética de salteador. Sim, foram mesmo essas as palavras que ele disse quando trocei dele. Antes de lhe dar um tiro. Não tive gosto em fazê-lo, mas Eduarda pagou-me uma pipa de ouro pela vida dele…

As palavras morreram-lhe na boca, ao perceber que se denunciara. Língua de Ferro lançou-lhe um olhar mortífero. Se tivesse uma arma nas mãos, possivelmente matá-lo-ia ali. Fá-lo-ia de mãos nuas. Sentiu-se impelido a fazê-lo, mas queria saber mais sobre aquilo.

― Marovarola, eu convivi convosco. Eu vi o horror nos olhos de Eduarda. Eu senti a verdade das vossas palavras. E agora, descubro que é tudo mais uma mentira que me atiraram aos olhos?

Dagias Marovarola fechou os olhos.

― Luce e Eduarda inventaram muitas mentiras. O medo pelas filhas deles era verdadeiro. E o medo que sentiam por Sander Camilli também…

Língua de Ferro fechou a boca numa expressão que sugeria fortemente que lhe iria cuspir em cima. Não o fez.

― Sander Camilli nunca lhes fez realmente oposição. O filho dele, sim.

― Sander Camilli teve um filho muito parecido com o profeta que os levou ao poder ― revelou Marovarola. ― Eles temiam que a força que enviara Vance para eles, que os alertara para o final do mundo como o conheciam e os exortou a reservar a água em poços, lhes roubasse agora o que tinham conquistado a favor de Camilli. Ora, Val, se o que Tayscar e Seji me contaram é verdade, tu estiveste lá dentro. Viste o que as miúdas tinham dentro delas. Eduarda e Luce estavam apavorados com isso. E, mesmo assim, também temiam que ele as matasse.

― A essência usou Sander Camilli para atrasar o regresso dos deuses ― disse Língua de Ferro. ― Mas nunca o quis no poder. Nem a ele, nem a Allen, nem a Luce ou a Eduarda. A essência quis-me no poder. A mim. Pelo menos, provisoriamente. Por alguma razão, vejo-me a cair envenenado aos pés de um criado qualquer, e vejo Vance a tutorar o pequeno Anos até que este atingisse a maioridade. A essência não contava que ambos nos virássemos contra ela. Agora, só lhe parece restar Vance, e Vance nunca me pareceu talhado para o poder. Muito provavelmente, os ditames do Fluído levam agora Semboula numa outra direção. Ou Vance tem um segredo qualquer com ele, ou não restará muito mais à raça humana quando a água dos Poços acabar. Quando isso acontecer, a raça humana será extinta.

Marovarola arqueou as sobrancelhas, e começou a rir como um louco.
Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis | Capítulo Vinte e Sete | Capítulo Vinte e Oito | Capítulo Vinte e Nove

Estou no Wattpad #28

Perdoem-me o atraso. Sei que vos tinha prometido novo capítulo no domingo, mas com a ida ao Sci-Fi Lx, o aniversário de um primo e o meu, estes primeiros dias de férias não me deixaram qualquer espaço para deixar o capítulo pronto a publicar. Depois de uma lição de etiqueta, Língua de Ferro descobriu que o esclavagista que havia estado em conluio com Lucilla, Varro, está de regresso a Chrygia, mas não é o único a chegar para o grande baile. Anos, o pequeno filho de Sander Camilli, oferece ao salteador pequenas revelações que podem mudar o rumo da história.

CAPÍTULO VINTE E OITO: O BAILE

Se tivesse tomado a liberdade de fintar o destino, havia recolhido a fortuna das minhas apostas, preparado Hije para mais uma viagem e seguido para leste, estabelecendo-me numa das antigas cidades fronteiriças como mecenas ou senhor local. Todavia, essa não era a minha essência, e posso dizer que, por esses dias, como em todos os outros, os ditames do Fluído já haviam sido definidos para mim. De Constania a Careepi havia viajado num camelo surripiado, e depois de encher os bolsos e reencontrar o meu diabo, escondi-me numa aldeia-riscada, que era o que chamavam àqueles fragmentos de cidades semi-destruídas pela Seca que agora não eram suportados por legislação ou magistérios, o que os tornava esconderijos perfeitos para todo o tipo de contrabandistas, caloteiros, ladrões e assassinos. Esperei que os rumores sobre a minha fuga se espalhassem, até procurar um velho ourives, vendedor de pedras contrafeitas que chegara de Veza dois dias antes. Foi através dele que cheguei a Bortoli, que engordara a carteira a olhos vistos e se havia tornado um famigerado mecenas, a quem se lhe conhecia fortuna em todas as sete cidades do deserto oriental. Vi-o quando passou por aquela aldeia, cercado de uma segurança apertada, seguido por uma caravana de camelos, rolos de seda e paletes de especiarias. Não deixei que ele me visse; caso me identificasse naquele momento, tenho a certeza que ordenaria a minha morte, mesmo num povoado clandestino como aquele. Observei-o de longe, escondido nas sombras dos becos e das vielas, enquanto ele fazia os seus negócios obscuros. Por aqueles dias, já não era segredo para mim que Mario Bortoli almejava fazer sombra ao novo Imperador, e que havia selado importantes alianças com tribos rezolis para lhe fazer oposição. Sub-repticiamente, através do ourives, deixei-lhe mensagens, oferecendo a minha espada aos seus serviços. Chamem-me ingénuo, mas eu acreditava que aquele mundo tornara-se demasiado pequeno para mim. Daria um olho da cara para ver a expressão de Bortoli no dia em que finalmente assinei uma das missivas que trocámos.”

― Dooda Vvertagla não era a pessoa que você julga que era ― disse-lhe Sander Camilli enquanto desciam a escadaria. ― Se ele fosse esse sujeito honrado de que fala, teria ele comandado um lendário grupo de salteadores? Liderado o assalto ao Império?

Língua de Ferro acompanhava-lhe o passo com as mãos nos bolsos e a mente enegrecida pelos pensamentos. Não se sentia confortável por ter deixado Apalasi no quarto, mas seria profundamente desrespeitoso apresentar-se armado num baile. As palavras de Camilli pareciam unhas a esgravatar uma borbulha cheia de pus na sua mente.

― Ele tinha um sentido de justiça, senador. Quem de nós tem moral para censurá-lo? Trabalhamos para o mesmo, ainda que ele tenha declinado a oportunidade de ser coroado quando ela se lhe apresentou.

Sander Camilli soltou uma risadinha nervosa.

― Pergunto-me quanto você conheceu do homem, Valentina.

Língua de Ferro não partilhou da sua falsa alegria. As palavras de Sander Camilli estavam impregnadas de azedume. A crer nas palavras da Intendente, o senador fora apaixonado por Dooda, e era notório que o seu desprezo por ele devia-se essencialmente à rejeição.

― Muito mais do que você, asseguro-lhe.

― Lamento, Valentina, mas depois da sua traição, julga mesmo que ele o perdoou? Ele era obcecado por Lucilla. Recorde-se que ambos estiveram por detrás da sua captura. Atiraram-no para a Prisão.

Língua de Ferro suspirou.

― Ele suicidou-se para me salvar.

Foram interpelados por uma gargalhada. Na base da escadaria, com um paramento militar coberto de estrelas douradas e dragonas aos ombros, a Intendente testemunhava a discussão. Tinha uma máscara de lacre escuro na forma de uma coruja sobre o rosto, mas Língua de Ferro não sentiu dificuldade alguma em identificá-la.

― Está a falar de Dooda Vvertagla, Língua de Ferro? Prometemos-lhe que saberia a verdade neste baile, concedo-lhe isso. Dooda estava condenado à morte. ― Sander chegou à base da escadaria e enlaçou o braço no da Intendente. ― Tinha uma doença grave, peneias azuis. Partes do corpo que enegreciam. Não há para isso uma cura milagrosa e Dooda não ia esperar pelos dias terríveis que esperam os condenados. Usou a vida para conseguir fazer valer as suas intenções e atirar Allen para as vossas mãos. Lucilla e Eduarda percebiam que Allen começava a fugir ao seu jugo, a ter ideias próprias, a manifestar vontade em exercer o título que lhe atribuíram em público. Convenhamos, era inexperiente na política, mas com Sander a aconselhá-lo, daria um bom líder.

― Talvez ainda julguem que sim ― disse Língua de Ferro, certo de que o pretendiam coroar.

Chegou à base da escadaria e prosseguiram o caminho, lado a lado, em direção ao Salão de Baile.

― Nunca excluímos essa hipótese, se bem que o rapaz está bastante fragilizado de saúde ― disse Sander Camilli com um suspiro, e caso Língua de Ferro não ouvisse o seu testemunho no Senado, julgá-lo-ia sincero.

Um par de guardas abriu as portas do salão para eles, quando a Intendente sussurrou:

― Lucilla tencionava matá-lo. Regan virou-se contra ela e tentou defender o irmão. Se, até ali, não viam Allen como um verdadeiro perigo, posso dizer que o irmão dele, por tudo o que haviam partilhado, era bem mais arrojado e podia, realmente, arruinar-lhe os planos a favor do irmão. Com Dooda a trabalhar como espião, tornou-se imperial que Eduarda deixasse Ccantia por sua conta e risco e se fixasse em Chrygia como um dos membros do Triunvirato. Foi por isso, essencialmente, que montaram a emboscada a Regan. Durante uma campanha nos desertos, a sua diligência foi atacada. Ele escapou com graves ferimentos, mas não foi muito longe.

Língua de Ferro fechou os olhos, enquanto transpunha as pesadas portas do salão. Tentava acreditar que aquilo era mentira, que Lucilla e Eduarda não eram os autores morais da morte de Regan. Algo dentro dele, a sua vontade, insistia consigo que era mentira, mas tudo lhe parecia fazer demasiado sentido para sê-lo. O Salão estava repleto de pessoas, homens vestidos de gibão e ternos de algodão, senhoras com belos corpetes de seda, veludo e pano de prata, cheios de folhos e pedrarias. Muitos traziam máscaras nos rostos, outros limitavam-se a usar perucas e disfarces pontuais. Sander Camilli e Língua de Ferro eram dos poucos que não portavam qualquer disfarce.

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Baile (Fonte: youtube.com)

― E no que é que a morte de Regan está relacionada com a morte de Dooda? ― perguntou-lhes.

― Dooda estava feito com eles, é claro ― disse Sander, e parou para se virar para ele. Esperou que um casal com máscaras na forma de focinhos de aves, com belos trajes de veludo, passasse por si. ― Ele amava Lucilla, apesar de nunca retomarem a velha relação que vós conhecestes. De certo modo, até apadrinhou o romance entre Anéis da Morte e a mulher. Pelo que me contaram, todos eles mudaram muito desde que traíste os Doze Vermelhos. As relações modificaram-se, e Dooda foi aquele que mais sofreu, refugiando-se numa máscara de passividade quando todo o seu interior regurgitava de veneno. Ele estava doente há já algum tempo, e limitou-se a aceitar aquele relacionamento como parte de algo maior. Vingar-se de ti.

Língua de Ferro cerrou os dentes.

― Ela traiu-o tanto quanto eu…

― Os argumentos de uma mulher podem ser um pouquinho mais convincentes ― interferiu a Intendente, com ironia no tom de voz. ― Com Regan morto, Allen nas tuas mãos e Eduarda no poder, Sander nada podia fazer para interferir na gestão do Império. Estava em minoria. Só o mantiveram no poder porque tinha influência no senado e conhecimentos que lhes faziam falta. Digamos que o meu esposo nunca se lhes opôs com frontalidade. Era um carneirinho na sua presença.

Sentiu uma ligeira tensão entre o casal, quando trocaram um olhar cauteloso.

― Isso não é bem assim ― contrapôs Sander, mas Língua de Ferro sabia que era e que Lucilla o utilizara como bode expiatório, rotulando-o como senhor malvado de Chrygia para sacudir dos seus ombros várias responsabilidades.

Transeuntes passaram por eles, com vestes requintadas, alguns com máscaras nos rostos, todos eles mexericos e gargarejos. Esperou que um grupo de cinco pessoas passasse por eles e reverenciassem Camilli, para lançar-lhes uma última pergunta.

― Porquê Allen? O que é que ele tem de especial? E porque quereriam eles deixá-lo nas minhas mãos?

― Porque ― disse Sander Camilli ―, na melhor das hipóteses, ele encher-te-ia os ouvidos com mentiras. Na pior, matá-lo-ias. Qualquer das hipóteses seria conveniente aos seus planos.

Retomaram a marcha. Entre tantas figuras desconhecidas, Língua de Ferro reconheceu alguns rostos. Ciaran portava-se com um verdadeiro anfitrião, conduzindo os convivas às suas mesas em passos lentos e arrastados, ainda assim perfeitamente cortês. Exuberâncias de loiças e guardanapos em leque transformavam as correntezas de mesas numa excentricidade luxuosa. Havia malabaristas e trovadores, e os sons das flautas eram abafados pelas conversas intermináveis dos convidados. Língua de Ferro sentia que vários olhares eram-lhe endereçados, todos eles com cautela e hostilidade. O baile era em sua honra e ao serviço que prestara a Chrygia ao quebrar o cerco da cidade, mas o que sentia era uma profunda desconfiança. As pessoas não estavam ali para o reverenciar, mas sim para festejar, porque nenhuma figura da nobreza que se prezasse podia faltar a um evento daqueles. Concentrou o rosto marcado pelas bexigas do General Pantaleoni, com profundas olheiras e olhar grave, numa mesa com a esposa, o sogro, um senador velho e cadavérico, e o filho, Degas, que apontou na direção de Língua de Ferro mal o viu, com ousadia e indignação no olhar. Vários dos senadores que havia encontrado na Câmara do Senado também ali estavam, a fitá-lo com desagrado. Tentarão matar-me esta noite?

― E se Allen me contasse a verdade? ― perguntou.

― Não seria uma grande perda ― respondeu a Intendente. ― Mas seria pouco provável. Allen sempre teve dotes de ator, e tinham o pai dele nas suas mãos. A morte do irmão fora um aviso bem sério de que não estavam para brincadeiras. Só quando raptamos as filhas deles é que Lucilla e Eduarda começaram a perceber que tínhamos as nossas armas e não éramos tão inofensivos como pensavam. Em boa verdade, até eles estavam assustados com aquilo que as miúdas tinham dentro delas, mas eram as filhas. A partir daí, começou um braço de ferro entre nós, e com Bortoli a morder-lhes os calcanhares, decidiram envolver-te no jogo deles.

Língua de Ferro sentiu-se derrotado. Sentia-se um idiota. Lucilla estivera por detrás de todas as armadilhas. Odiava-a profundamente, e mais profundamente do que isso, amava-a. E era isso que o dilacerava por dentro. Dooda, Lucilla e Eduarda tinham-no enganado. Meneou a cabeça e tentou atirar esses pensamentos para depois.

Sander Camilli cumprimentou uma matrona exuberante, que ergueu a máscara nariguda para o reverenciar com uma mesura, e voltaram a avançar. Varro liderava uma mesa ampla, cheia de jovens mulheres, belas e de pouca roupa, que emborcavam licores uns atrás dos outros. O esclavagista trocou com Sander um breve aceno de cabeça, mas não se deteram por mais tempo. Língua de Ferro viu no olhar de Varro um veneno ácido, a borbulhar. Sorriu ao reconhecer várias figuras familiares numa mesa próxima. Boca de Sapo tinha uma máscara de urso no rosto, Ravella um exuberante vestido drapeado com madrepérolas e Empecilho um fino fato vermelho de veludo. Com um olhar brilhante e sincero, o rapaz acenou-lhe, quando o viu. A figura de costas, com uma ampla peruca grisalha cheia de cachos e um gibão de veludo verde, era Jupett Vance. Não precisava ver-lhe o rosto para sabê-lo.

Sem título
Baile (Fonte: servandorocha.com)

Mais à frente, uma larga mesa esperava-os com distinção. Língua de Ferro reconheceu que lhes pertencia e quis fechar o seu esclarecimento com uma última questão.

― Falaram no pai de Allen. Que Luce e Eduarda o tinham em seu poder. Onde está ele? Talvez possa falar-lhe depois.

A Intendente baixou a cabeça e Sander respirou pausadamente, antes de apontar para a mesa. Encontrou os filhos de Sander Camilli sentados em fila, todos virados para a frente do Salão. Estava ali o pequeno Anos, que o saudou com um sorriso mal o viu, estavam ali Ceil e Amehia, com sorrisos abertos e a mexericar, e três outras raparigas de tons pálidos que seriam suas irmãs. Viu também Allen, com um aspeto amarelo e febril.

― Valentina ― sussurrou Sander num tom cansado. ― Disse-te que descobririas a verdade neste baile. Aqui a tens. Eu sou o pai de Allen e Regan. Ainda acreditas que sou eu o assassino do teu amigo?

Língua de Ferro estreitou os olhos com a surpresa. Sentiu-se a mergulhar em água fria. Fixou o rosto doente de Allen, mas ele não lhe retribuiu o olhar. Estava pálido e não parecia sentir a melhor das vontades em estar ali presente. Era assessorado por um escravo, e cada movimento parecia doer-lhe. Recebeste um tratamento doloroso, e o teu torturador está entre nós, se ainda não o reconheceste, pensou Língua de Ferro. Por alguma razão, sentia pena de não ter sido ele a torturá-lo.

A mesa onde se encontravam era a mais comprida e exuberante do Salão, e um empregado vestido de terno apressou-se a chegar para trás o seu cadeirão. Seria o primeiro dos três a sentar-se, como direito de convidado de honra. Depois de Língua de Ferro sentaram-se Sander Camilli e a Intendente, um de cada lado. O último lugar que faltava preencher pertencia à senhorita Finn, que chegou com um passo apressado e logo os cumprimentou com distinção.

― Está tudo a postos ― disse. ― Dei instruções para começarem a servir.

Sander Camilli sorriu-lhe antes que ela se sentasse.

― Obrigado, mãe!

Língua de Ferro abriu a boca num misto de admiração e sorriso. Recordou-se do hábito comum aos dois em empurrar as lunetas contra a cana do nariz e sentiu vontade de rir. O pai e a avó de Dzanela, pensou, ao recordar-se do velho amigo. O amigo que o traíra para salvar a família das mãos de Lucilla. Beliscou uma azeitona e depois de remover o caroço da boca com os dedos, colocou-o na borda de um prato. Finn pareceu observá-lo e lançou-lhe um olhar de censura. Língua de Ferro esperou que a refeição fosse servida para aproximar a boca do ouvido de Sander Camilli.

― Sabe que a sua filha Ceil se anda a encontrar com Varro?

O senador sorriu.

― Também eu já me encontrei com ele. O que é que isso pode ter de mal?

Língua de Ferro tossicou com um sorriso trocista.

― É do conhecimento público a relação que encetam ― disse. ― Preocupam-me mais as motivações do vendedor de escravos. Ele fê-lo a mando de Lucilla, e a sua filha parece apaixonada por ele.

Sentiu um breve constrangimento atravessar os olhos de Sander Camilli, enquanto cortava um pedaço de pernil assado.

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Máscara (Fonte: pinterest.com/explore/cyrano-de-bergerac-play)

― Pelo que me constou, a minha filha Ceil também se encontrou consigo e, no entanto, não me parece apaixonada.

Língua de Ferro cerrou os dentes. O homem não queria ver o que estava à frente dos seus olhos.

― Ceil usou-me para agravar Degas Pantaleoni. Para que ele rompesse o noivado e ficasse livre para Varro.

― Permita-me a descortesia, Valentina, mas esse assunto não é da sua conta. Meta-se na sua vida.

O salteador não engoliu aquilo.

― Isto é a minha vida, Sander. Não me disse antes que tencionava coroar-me? ― O constrangimento parecia cada vez mais notório em Sander Camilli. ― Eu sei que há quem queira matar-me esta noite. E que você planeia usar-me como seu instrumento, enquanto prepara a coroa para o seu rico filho Allen. Também sei que Ceil não é filha de uma escrava qualquer e que você matou a mãe dele quando a encontrou com um amante.

Sander Camilli virou o rosto para si, completamente aturdido.

― Falem mais baixo ― exortou a Intendente ao seu lado direito.

― Eu… eu… ― Sander Camilli engoliu a afronta e fez baixar os ombros, sem hipótese de rebater. ― Gostaria de saber como tomou conhecimento de tudo isso. Matarei o maldito traidor que deu com a língua nos dentes. Certamente que foi um opositor dentro do senado.

― Poupe-se a isso ― grunhiu Língua de Ferro. ― Descobri por minha conta e risco. Talvez ainda esteja a tempo de juntar-se àqueles que pretendem reclamar a minha cabeça esta noite.

― Cale-se ― exigiu Sander Camilli, baixo o suficiente para não despertar atenções. ― A minha filha Ceil é imprevisível e caprichosa. A mãe dela era igual. Eu amava-a, mas traiu-me da pior forma que uma mulher pode trair um homem. Encontrei-a nos braços do meu melhor amigo, o senador Cavallare. Matei-os aos dois e não é algo de que me arrependa. Acontece que Cavallare era irmão de Simono Gogios, o avô de Degas, que me tem criado alguma oposição no Senado. Ele é um dos impulsionadores da ideia de que você deve ser morto, Valentina. Não fosse a importância do General Pantaleoni, já teria quebrado aquela família. Ainda assim, se puder evitar que Ceil se case com Degas de forma passiva, tanto melhor. Quanto à relação de Ceil com Varro, eu próprio lhe pedi para o manter entretido, sob rédea curta. Não me parece merecedor de grande preocupação desde que nos chegou a notícia da morte de Lucilla, mas pretendo saber se ainda detém qualquer motivação para se nos opôr.

Língua de Ferro mastigou calmamente, ao compreender que Sander estava consciente de todos os pequenos passos que eram dados no interior do Capitólio. Tinha bons olhos, e usava a filha Ceil a seu bel-prazer, embora parecesse cego para com as vontades autónomas da rapariga. Sentiu-se propenso em dizer-lhe que a filha Amehia estava apaixonada pelo rapaz Pantaleoni, quando alguém abriu o baile com um rugido. Nem dois minutos mais tarde, Ceil lançou-se para a sua frente e esticou um braço na sua direção.

― Senhor Valentina, dá-me a honra desta dança?

Língua de Ferro sorriu. Várias máscaras, removidas para o jantar, foram recolocadas, e o perímetro de dança ficou cheio de gente. O salteador foi arrastado pela rapariga para o centro do salão e sentiu-se aliciado pelo seu olhar ansioso e prometedor. Uma opereta começou a tocar e Ceil segurou-lhe os ombros largos. Puxou-o para lhe dizer aos ouvidos:

― Deixe-me comandar os seus passos. Limite-se a seguir-me.

― Ora, julguei que você comanda sempre os meus passos. Esta noite, você vai descobrir que eu nasci para dançar.

A rapariga soltou uma gargalhada. Língua de Ferro sentiu a maciez daquela pele nos seus dedos endurecidos, uma frescura tentadora que lhe relembrava porque era tão bom sentir-se vivo. No rosto da rapariga, porém, viu outros traços. Mais duros e tentadores. Viu o rosto de Lucilla. Deu passos para a esquerda e para a direita, seguindo-a atentamente. A dado momento, ao padrão dos seus passos começaram a dançar em círculos. Língua de Ferro viu-se visado do olhar venenoso de Varro e do olhar ofendido de Degas Pantaleoni. Quando o corpo de Ceil tombou para trás, suportado pela mão ampla do guerreiro, este perguntou-lhe:

― Sentes alguma coisa por Varro?

A rapariga não parava de rir. Lançou-se para a frente, para retomar a posição original, e levou as mãos às ancas.

― Está com ciúmes, senhor Valentina?

Ele sorriu-lhe, e quando se preparou para responder, ouviu os primeiros gritos. A sua expressão ensombrou-se. Sentiu os ombros a ficarem tensos.

― O que foi? ― perguntou ela, assustada.

― Socorro! ― gritou uma voz distante. Em pouco tempo, os soluços arrastados e guinchos aterrorizados começaram a fazer-se ouvir por todo o salão. ― Eles vêm aí!

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis | Capítulo Vinte e Sete | Capítulo Vinte e Oito

Estou no Wattpad #27

Língua de Ferro resolveu aceder ao pedido de Ceil, a filha de Sander Camilli, e encontrar-se com ela nos banhos. Porém, percebeu que estava a ser usado como instrumento para a satisfação de mais um capricho da rapariga. Afinal, ela estava noiva e queria desesperadamente perder o amor do pretendente. O capítulo 27 continua com a integração de Língua de Ferro em Chrygia, funcionando como ponte para o grande baile que Camilli prepara em sua honra. Se estão a estranhar a data de publicação deste capítulo, esclareço-vos que faz hoje um ano que foi publicado o primeiro capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer. Espero que gostem deste bónus especial de aniversário, porque para a semana há mais.

CAPÍTULO VINTE E SETE: VELHOS AMIGOS

“A minha primeira estadia em Constania reservou-me grandes surpresas. Quando o mensageiro de olhar míope indicou-me uma estalagem nas sombras de um beco, preparei-me para uma facada nas costas, para uma puta com segundas intenções ou para um bando de caçadores de cabeças ou ladrões. Estava certo de que me esperava um qualquer tipo de armadilha, mas o que encontrei foi uma velha cheia de peles flácidas e olhar mortiço com toda a luz do sítio na vela que segurava entre as mãos. E só quando ela se afastou com a claridade, divisei Dooda Vvertagla ao fundo do recinto quase vazio, encostado a uma lareira apagada. A mulher desapareceu por uma dependência nos fundos da sala, deixando a vela na prateleira da lareira. Antes de se retirar, recebera em troca uma moeda das mãos de Dooda. O meu amigo, aquele que eu havia traído, sorriu-me, depois avançou para mim e, quando esperei que me atacasse, abraçou-me. Juro que as lágrimas picaram-me os olhos. Havia-lhe roubado a mulher que amava, havia-lhe destruído a companhia que liderava, havia-o deixado às mãos de Cooper Ravoli como se deixa um cadáver para abutres, e ainda assim ele amava-me. Continuava a amar. Passámos a noite a conversar. Contou-me primeiro como havia sobrevivido, a deambular pelas areias do deserto, a trabalhar como assassino a soldo, a envolver-se em esquemas de sabotagem bem remunerados. Durante horas, limitou-se a falar, como quem deseja narrar a um velho amigo tudo aquilo que venceu e todas as provações por que passou. Em nenhum desses momentos, pareceu desejoso de explicações. Mas, quando as histórias começaram a escassear, instalou-se um silêncio frio entre nós. Mandou chamar a estalajadeira para acender o fogo, mas não seria o estridular das labaredas a aquecer o ambiente entre nós. Quando voltamos a ficar sozinhos, ele perguntou-me porquê e eu respondi-lhe a única resposta honesta que lhe podia dar. Disse-lhe que a amava. Dooda limitou-se a assentir com a cabeça, e como se isso não importasse mais, falou-me da nova composição de Vermelhos que forjara. Muito mais do que doze, os seus novos pupilos eram uma legião de jovens sabotadores, salteadores e mercenários. Na manhã seguinte, antes de regressar a Careepi, disse que me perdoava, e fez-me prometer que voltaria ali para o encontrar.”

Só quando o sol se espraiou pela porta de sacada, Língua de Ferro sentiu que aquele quarto era bonito. A noite não lhe aplacara a visão, mas os detalhes arquitetónicos das colunas de pedra que suportavam a cama pareciam mais vívidos do que nunca à luz solar, os tamboretes de verga junto ao oráculo pareciam mais dourados e o armário mais imponente. Não havia frigidez no pavimento de mosaicos, nem fantasmas a vaguear nas colgaduras. Caminhou até à câmara privada para urinar na latrina e proceder às abluções matinais, não sem antes avalizar se a respiração pausada do cão de olhar branco ainda se sentia do outro lado da porta. Aparentemente, se os seus sentidos apurados pela essência não o traíam, o cão havia desaparecido.

Abriu a porta quando o mordomo se preparava para bater, apanhando-o com um punho fechado bem erguido acima de um ombro. O homem piscou os olhos com a surpresa.

― Em que posso ser útil? ― perguntou Língua de Ferro, vestido com um longo gibão azul-marinho cheio de botões e Apalasi à cintura, oculta por uma prega de seda e algodão.

― Bons dias! Será de grande utilidade se me deixar acompanhá-lo até ao Salão de Baile. O meu nome é Ciaran e sou o mordomo do Capitólio.

A forma pedante com que verbalizou a ocupação fazia parecer a posição privilegiada à sua ótica. Língua de Ferro aceitou acompanhar o homem velho e mirrado, uma vez que, de antemão, sabia que Ceil o esperava para prosseguir as aulas de dança. Arrastou-se atrás dele, corredor fora. Pequeno e curvado, o sujeito tinha orelhas que pareciam abanicos e um par de olhos cansados e leitosos. Vestia uma jaqueta escura de bom algodão sobre uma camisa rendada e cheia de folhos, mas também um par de calças justas, tão negras quanto piche.

― Foi Ceil quem o mandou acompanhar-me? ― perguntou. Tencionava quebrar o silêncio incómodo que lhes acompanhava o som dos passos enquanto desciam as imponentes escadarias cercadas de frescos e esculturas do período Damasi. ― A Intendente?

― Siga-me em silêncio e não perderá tempo a obter respostas infrutíferas ― disse o homem sem sombra de humor. ― A noite reservar-nos-á grandes momentos, senhor. Mas até lá, muito há a ser feito.

A hostilidade no tom de voz dava a entender que, sendo o mordomo do Capitólio, tinha muito trabalho a fazer para os preparativos do baile, e que lhe parecia indigno perder tempo a conduzi-lo até ao salão. No entanto, Língua de Ferro sentia dificuldade em acompanhar a lentidão de passos do velho. Sentiu-se tentado a verbalizá-lo, mas mordeu a língua. Sabia que realçar as limitações físicas do homem não ajudaria à sua integração.

― Se tem tantos afazeres, Ciaran, porque o enviaram a si para me guiar?

― Chamemos-lhe uma apresentação informal, senhor ― respondeu-lhe, sem nada mais a acrescentar.

Quando chegaram a um par de portas belamente esculpidas com toda uma variância de signos e motivos bélicos, pintadas de verde-marinho, soube que haviam chegado. Ciaran empurrou uma das portas com um esforço costumeiro e fez sinal a Língua de Ferro para entrar. O solo fora polido até brilhar. As amplas janelas de sacada estavam todas abertas para trás, fazendo arejar o salão. Língua de Ferro sentiu-se uma formiga, na imensidão que era aquele Salão de Baile. Enquanto caminhavam, observou os frescos do teto, representando cenas divinas, e as longas prateleiras que cobriam as paredes, com cerâmicas e porcelanas de toda a sorte, intervaladas por ocasionais quadros em caixilhos de veludo com rostos de reis e imperadores, e expositores com armas de caça e mosquetes de guerra.

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The Queen of Sheeba (Fonte: traveltoeat.com)

Procurou Ceil com o olhar, mas o que encontrou foi uma mesa atoalhada, sobre a qual dispunham-se elegantemente cinco copos numa meia-lua, contornando a orla dos pratos que se sobrepunham uns sobre os outros. Uma senhora de idade avançada, cheia de caracóis grisalhos que lhe caíam para a sobreveste verde, exibia um par de lunetas na ponta do nariz e esperava-os com as mãos atrás das costas. Atrás dela, três criadas vigiavam um aparador repleto de talheres, pratos e panelas cobertas.

― Pela maldita garganta de Profundo. Estás cada vez mais lento, Ciaran. Estou há tempos à vossa espera.

O velho mordomo recuperou o fôlego da caminhada até ali, mas não pareceu ter ânimo para discutir. Virou-se para Língua de Ferro e encolheu os ombros.

― Esta é a senhorita Finn, a mestra de etiqueta. O senador deixou indicações para a instruir nos nossos costumes.

Língua de Ferro sentiu o mau humor a absorvê-lo.

― Onde está Ceil? Disse que me esperava aqui para me ensinar a dançar.

A mestra de etiqueta deslizou em passos ágeis na sua direção, ultrapassando Ciaran e acariciando o bárbaro no rosto. Apertou-lhe uma bochecha, como se fazia às crianças.

― A menina Ceil tem outros compromissos, rapaz. Quanto à necessidade de saber dançar, não se preocupe. Dançar é uma metáfora para aquilo que vamos fazer com pratos, copos e talheres.

Língua de Ferro não se lembrava de ter passado horas tão tediosas durante os últimos anos da sua vida. Sentou-se à mesa e comportou-se o mais cordialmente que soube, mas cada gesto ou movimento eram corrigidos prontamente pela mulher com austeridade, empurrando frequentemente as lunetas contra a cana do nariz. Ciaran não se demorou a observá-los, alegando ter muito que fazer para ficar a vê-los naquilo. As jovens trocavam de pratos e refeições sucediam-se umas às outras, sem que Língua de Ferro provasse mais do que um pouquinho de cada uma. Uma espetada de cabril foi a última iguaria da manhã. O salteador colocou a faca de lado e logo foi surpreendido pela velha mulher.

― Pretende matar alguém esta noite?

Língua de Ferro abriu muito os olhos, aturdido.

― Como?

― O gume da faca, voltado para fora, é um claro sinal de ameaça para com aqueles que estão à sua volta. ― Língua de Ferro observou a faca. ― Para além do mais, uma vez que já usou a faca, não pode nunca reposicioná-la fora do prato. Estamos entendidos?

Suportara aquilo até então por cortesia para com a hospitalidade oferecida, mas a paciência tinha os seus limites. Ergueu-se e lançou um olhar tão feroz à mestra de etiqueta, que a mulher não se tentou a voltar repreendê-lo. Língua de Ferro afastou-se, e já se aproximava da portada dupla do salão quando ouviu o eco da voz de Finn a ir de encontro aos seus ouvidos.

― De qualquer forma, duvido que fizesse progressos.

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Old woman Disney (Fonte: huffingtonpost.com)

Preparava-se para procurar as cozinhas, uma vez que não lhe fora formalizado qualquer convite para almoçar, quando encontrou Anos a balançar-se de cima de um balaústre.

― Vais cair daí ― advertiu-o.

O rapaz, careca e de olhos vazios, fitou-o com uma expressão divertida. Vestia apenas uma tanga de couro.

― Sabes que não ― disse ele. ― Ambos sabemos que não.

Língua de Ferro sentiu um arrepio perpassar-lhe a coluna. Quase se havia esquecido de quem era o rapaz. Não era dotado de dons proféticos, mas ele tinha razão. Dificilmente estatelar-se-ia no chão, lá em baixo. Era um instrumento da essência.

― Gostava de falar contigo sobre o teu pai. Sobre Chrygia.

O menino continuou a oscilar na cabeça de pedra de um camelo.

― O pai não o matou. Matou a mãe dela.

Confuso, Língua de Ferro meneou a cabeça. Embora não fizesse qualquer intenção de a desembainhar, levou a mão à bainha de Apalasi, como fazia sempre que ficava apreensivo.

― Estás a falar de quem?

― A mãe de Ceil, a verdadeira. Foi afogada numa piscina, quando a encontrou com o amante.

Língua de Ferro arqueou uma sobrancelha.

― A mãe de Ceil não era uma escrava, como a tua?

O rapaz sorriu-lhe de novo, e então saltou e começou a correr escadaria acima. Quando chegou ao topo, voltou-se para lhe oferecer um último sorriso. Parecia malévolo. Seguiu-o sem a esperança de o alcançar. Se o rapaz não lhe queria dar mais respostas, não iria forçá-lo a concedê-las. Elas chegar-lhe-iam de alguma outra forma.

Perdeu o apetite e decidiu procurar Ceil. Por mero acaso, cruzou-se com um pátio atapetado de mosaicos brancos e vermelhos, com uma arquibancada semicircular cheia de homens de togas e uniformes cinzentos. Uma coroa de luzes descia do teto ornamentado, deixando um grave odor a cera no ar. Percebeu ter encontrado a Câmara do Senado, e quando viu Sander Camilli com a mesma toga que envergaram os seus antepassados, a gesticular e a esbracejar ao centro de um círculo de mosaicos, Língua de Ferro encostou-se a um gigantesco pilar de basalto para o ouvir.

― Ele disse-me. Ele matou as crianças. As filhas de Eduarda e Lucilla.

― Se o fez ― grunhiu um senador velho e encovado ― prestou mais um bom serviço ao Império. Mas segundo os relatos que nos chegaram de Selaba, ele também foi responsável pela morte de Dom Michelle.

― E que não fosse ― disse outro. ― Os seus serviços não lhe dão o direito à coroa de acanto.

― Não precisamos coroá-lo ― acrescentou Sander Camilli, cofiando o queixo proeminente. ― Apenas convencê-lo de que o faremos. Allen está em convalescença, mas logo estará preparado para assumir a coroa. Confio tanto nele hoje, como no primeiro dia. Arriscou muito por nós.

Rugidos de assentimento deram a entender que a maioria aceitava a ideia, mas um senador ainda jovem e cheio de um furor inquieto no olhar verbalizou o que muitos já consideravam.

― Temos de matar o bárbaro. Não pode passar desta noite.

― No baile ― concordou uma outra voz.

― Sim ― juntou-se-lhes um terceiro.

Surpreendendo Língua de Ferro, Sander Camilli interrompeu-os.

― Não acho boa ideia. É verdade que ele almeja a coroa de acanto e isso é algo que não lhe podemos dar, mas ele é um enviado da essência, rege-se pelo Fluído. Ele deu-nos a vitória no cerco, livrou-nos de Bortoli, de Eduarda e devolveu-nos Allen. Devemos utilizá-lo a nosso favor, torná-lo uma arma nas nossas mãos. Manobrá-lo, sim. Fazê-lo confiar em nós, sim. Matá-lo? Não. Não tenciono agravar a essência. Que o Fluído nos guie e oriente.

Vozes de contestação começaram a explodir à sua volta, mas tantas eram as que se lhe opunham como aquelas que o defendiam. A fé religiosa de Sander Camilli salvava-lhe a vida, pelo menos por algum tempo. Trôpego de emoções, Língua de Ferro afastou-se do pilar e regressou ao corredor.

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Senado romano (Fonte: theapricity.com)

Tinha a cabeça cheia de informações a processar. Sander Camilli não matou Dzanela, e tem em Allen o seu candidato à coroa de acanto. Parecia que Allen não era o mero fantoche e folha de rosto que lhe haviam pintado. Havia algo ali a descobrir. Para além disso, os medos religiosos de Sander Camilli impedem-no de querer matar-me, mas quererá utilizar-me para os seus fins. E mentir-me. Outros, porém, tentarão acabar comigo esta noite.

Perambulava pelos corredores quando encontrou as cozinhas. Uma velha gorda andava de vassoura na mão, a correr atrás de um rato. Pernas de frango e preparados de vitela salgada crepitavam ao lume.

― Há algo que possa comer aqui?

A cozinheira não o reconheceu e saltou com o susto. Concertou o toucado à cabeça enquanto o estudava de alto a baixo.

― Ah, deve ser o convidado de honra estrangeiro. O herói cego, como lhe chamam. O meu nome é Mia, muito prazer.

Língua de Ferro sorriu. Gostou da mulher.

― Acho que me chamam de bárbaro cego, Mia. Pode chamar-me de Língua de Ferro. Julgo que pensavam satisfazer-me o apetite nas aulas da senhorita Finn.

A cozinheira abriu a boca de espanto, e enquanto três ajudantes andavam apressadamente atrás de si, trabalhando nas refeições, transformou a surpresa numa gargalhada calorosa.

― A sério que o mandaram para a Finn? Quanta tortura, meu rapaz. Pobre coitado. Espere um pouco, que já lhe arranjo um pão com courato.

A mulher virou-lhe costas, mas Língua de Ferro não esperou pela refeição de improviso. Ao lançar o olhar pela janela, encontrou um dos belos jardins interiores do Capitólio, cheio de flores invernais e tramos de pedra faustosos. Num dos bancos de jardim, viu Ceil nos braços de um homem. Tinha longos cachos de cabelos morenos desdobrados sobre os ombros largos de pele tostada, acariciava o rosto de Ceil com o polegar e beijava-lhe os lábios com ternura. Língua de Ferro reconheceu o homem e sabia que ele estava a cumprir as diretivas de Lucilla, por quem morria de amores. Pegou no braço de uma ajudante de cozinha com força e fez-lhe uma pergunta antes que ela tivesse tempo de gritar.

― Há quanto tempo chegou Varro?

A jovem lançou o olhar para lá da janela e encolheu os ombros.

― Esta manhã, julgo.

Língua de Ferro soltou-a e saiu da cozinha, pronto a esclarecer aquilo. Varro, o esclavagista, chegara como um abutre, após o cerco, para se alimentar dos despojos da guerra. Se o que Seji lhe dissera fosse verdade, ele tornara-se amante de Sander Camilli e das suas filhas, de modo a controlá-las na teia de Luce. Com a apaixonada morta, que interesse manteria Varro em Ceil, para além do prazer carnal? Por sua vez, Ceil parecia desesperadamente apaixonada pelo esclavagista, e deveria ser esse o motivo pelo qual se queria ver livre de Degas Pantaleoni, o noivo. Mais uma vez, Língua de Ferro fora usado como peão.

Não é isso que me preocupa, disse a si próprio. Preocupava-o que Varro e Ceil mostrassem o seu amor tão abertamente num jardim do Capitólio, preocupava-o que um baile em sua honra estivesse a ser preparado e que o quisessem tramar, e mais incrível do que isso, preocupava-o que o tivessem deixado à solta nos corredores do Capitólio para descobrir todas aquelas pontas de segredos. Como que respondendo às suas perguntas mentais, o pequeno Anos esperava-o à curva de um corredor, com as mãos nas ancas e um sorriso aberto no rosto.

― Não foram eles que te deixaram à solta. Tu és um animal feroz e eles aprenderam com a experiência que não se domam animais ferozes com grades. Foi a essência que te proporcionou esta liberdade. Aproveita-a bem. ― Apontou para uma janela e antes de desaparecer em cabriolas pela longa galeria, acrescentou: ― Os convidados estão a chegar.

Língua de Ferro aproximou-se da janela e esperou ver mais um pátio interno. O que os seus olhos alcançaram, porém, foi o terminal ferroviário de Chrygia, trinta metros a jusante do Capitólio. As figuras que saíam de uma carruagem eram-lhe familiares. Boca de Sapo e Empecilho vestiam jaquetas revestidas a pele de cabril e calças largas. Ravella, um corpete simples de tom magenta. Logo atrás, Vance Cego, com um colete revestido a lã sobre o torso nu. Mal desceu a carruagem, ergueu a cabeça na sua direção. Estavam muito longe para que homens normais se pudessem vislumbrar, tinham os olhos vazios e, no entanto, pareceram reconhecer-se com facilidade. Jupett Vance assentiu com uma breve reverência.

Para ler pelo Wattpad:

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Estou no Wattpad #26

A chegada a Chrygia não podia ser mais inesperada e cheia de surpresas. Língua de Ferro conheceu finalmente Sander Camilli, embora o homem não fosse propriamente aquilo que esperava. Personagens como Ceil, a sua filha, ou a poderosa Intendente, porém, revelam a sua face na corte. Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer é a minha publicação quinzenal no Wattpad e aqui no blogue. Boa leitura!

CAPÍTULO VINTE E SEIS: APRENDER A DANÇAR

“Deixei-me capturar por conveniência. Foi num verão infernal, quando o calor toldava o discernimento dos homens e fazia-o cair nas maiores patranhas. A verdade é que os verões depois desse não foram melhores, mas àquela data era impossível julgar que aqueles dias soalheiros se repetiriam. Aconteceu na estrada férrea que ligava Veza a Constania. Sabia que o Sargento Bary Feyman ia naquele comboio. A sua reputação ainda não era nada comparativamente à que ganhou após a minha captura, mas já era conhecido no deserto pelos seus esforços na perseguição de salteadores. Já o tinha visto uma vez, em Veza, e pelo menos por aqueles dias, gabava-me de nunca esquecer uma cara. Ao internar-me no comboio, procurei-o avidamente. Assustei senhores de bigodes repenicados e matronas afetadas, como era hábito, na esperança de que os seus gritinhos o chamassem para mim. Demorei um pouco mais do que presumira, mas ele veio até mim. Era um homem esguio e arguto, com uma compleição física que não me intimidou. Desafiei-o com palavrões e ofensas pessoais, e quando avançou para mim, golpeei-o na junta de uma perna com a minha. Ele caiu no chão, mas quando voltou a investir para mim, humilhado, fui lento de movimentos propositadamente, e deixei que ele me golpeasse no rosto. Senti o sabor metálico do meu próprio sangue e deixei que os seus subalternos me amarrassem. Foi com um lenho nos lábios e uma vontade enorme de ver aquilo concluído que cheguei a Constania. Na esquadra local ficaram em êxtase por me prender, se bem que eu achasse tudo aquilo uma encenação ridícula. Não precisaria de muito para escapar-lhes. Estavam bem armados de arcabuzes e revólveres, mas nem sequer os sabiam usar com desenvoltura. Esperei que a notícia da minha captura corresse meio mundo para, na noite que antecedia o meu julgamento, me resolvesse a chamar o carcereiro. De moto próprio, as coisas correram-me de feição. Uma festa afastou a maioria dos agentes naquela noite. Fingi que estava com falta de ar e o guarda de plantão, tão ingénuo quanto embotado pelo sono, aproximou-se das grades o suficiente para que eu lhe esmagasse a cabeça contra elas. Roubei-lhe as chaves do cinto e fugi. Antes de abandonar Constania para recolher o fruto das minhas apostas, porém, recebi um convite.”

― Espero que goste dos seus aposentos. Duvido que alguma vez tenha dormido em cama tão cómoda ― disse a Intendente.

― Você não sabe nada sobre mim ― ripostou Língua de Ferro, com uma voz dura e cheia de desprezo, enquanto cruzavam um corredor largo e fresco, com paredes forradas a veludo e ornamentadas de quadros a óleo.

A idosa soltou um risinho franco, e quando parou diante de uma porta prateada, disse-lhe:

― Aceito o seu desdém, Valentina. Tenha uma boa noite. ― Quando ia para se virar, reteve-se, com um brilho jocoso no olhar. ― Ah, e cuidado com Ceil. Ela é a primogénita de Sander e tem uma vontade irrevogável. Se quer manter-se discreto nos próximos tempos, aconselho-o a não a contrariar. Se ela, porém, lhe fizer alguma proposta que viole o bom-senso, exorto que reporte-o ao pai. Terá notícias minhas amanhã.

Com um sorriso desafiante, a Intendente virou-lhe costas e afastou-se, muito embora Língua de Ferro a tenha parado com uma pergunta:

― Onde são as termas?

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Woman (Fonte: Charlie Bowater)

Encontrou Ceil num tanque largo, sob uma nuvem de vapor, que se movia vagarosamente à sua volta. Colgaduras vermelhas e prateadas tornavam o tanque um local mais privado dentro da espaçosa divisão, onde piscinas menores revelavam-se desertas àquela hora da noite.

A jovem acendia uma vela de cheiro na orla do tanque, quando o viu. Sorriu-lhe com voluptuosidade. O local estava impregnado de odores afrodisíacos com toques de canela, lavanda e menta. Língua de Ferro cruzou os braços.

― Nem um guarda? Nem uma dama de companhia? O que a leva a ter tanta certeza que não sou uma ameaça à sua integridade?

Quando ela se voltou totalmente para si, viu que ela estava nua. A água dava-lhe pelas ancas.

― Não temo pela minha integridade, senhor Língua de Ferro. Você não sabe nada sobre mim.

Língua de Ferro sorriu.

― E você também não sabe nada sobre mim. O que a levou a pensar que eu viria ao seu encontro?

Ela fez rolar os olhos.

― Ora, os homens são todos iguais, presumo.

― Bela maneira de iniciar uma relação ― disse ele. O corpo da morena chamava-o para si, ainda que soubesse que não cometeria qualquer loucura. Tem idade para ser minha filha, dizia a si próprio. Era filha de Sander Camilli. E havia ainda a memória de Lucilla a morder-lhe os calcanhares. Ainda assim, viu-se a despir a roupa e a encaminhar-se para os degraus de acesso ao interior do tanque. Sentiu o cabelo azul-turquesa a desdobrar-se sobre os ombros proeminentes.

A rapariga franziu o nariz e sorriu diante da imponência da sua nudez, mas quando ele levou um pé ao degrau, ela ergueu os braços e disse:

― Espere, espere!

O local era iluminado por velas acesas na orla da piscina, produzindo sombras sinistras que se passeavam pelos seus corpos.

― O que foi agora?

― Certamente que os vossos costumes bárbaros vos ensinaram que uma mulher deve ser tomada com uma certa… liberdade, mas você está no coração do Império. Aqui, somos um pouco mais civilizados.

Língua de Ferro cruzou os braços e sentiu-se tentado a dizer-lhe que era filha de uma escrava e que nada sabia de civilização. Aquilo a que chamavam de Landon X era tão bárbaro quanto ele, e os anos em que vigorara tinham vindo a esmagar o legado cosmopolita de Cacetel Domasi.

― Pensas que sabes muito sobre Língua de Ferro, rapariguinha. O que queres de mim, afinal? E porque é que precisamos de ser vigiados pela tua irmã?

A jovem pareceu empalidecer. Nunca suspeitara que ele se pudesse aperceber dela, mas desde que chegara, Língua de Ferro havia compreendido que uma das raparigas que tinha encontrado com Ceil junto ao fontanário os espiava por detrás de uma colgadura. Ceil estremeceu, mas depois sorriu.

― Ameiha, podes ir.

Língua de Ferro não lhe viu a cara nem a expressão vexada, mas sentiu-as quando a rapariga se afastou aos tropeções e foi-se embora a correr.

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Steampunk woman (Fonte: pinterest.pt/joanasampaio52/desenhos-diversos)

― Onde é que nós estávamos? ― perguntou Língua de Ferro, ao sentir os passos de Ameiha a distanciarem-se.

― Como vê, eu não estava propriamente sozinha. Se bem que a pequena Ameiha não fosse de grande monta, se me planeasse atacar.

Língua de Ferro ignorou-a.

― Creio que lhe perguntava o que queria de mim.

Ceil aproximou-se, fazendo a água menear-se lentamente à sua volta.

― Três perguntas, e poderá entrar neste tanque. ― Para evitar que ele simplesmente a renegasse e lhe virasse costas, acrescentou: ― Se se recusar a responder-me, terá muito com que se preocupar durante a sua estadia por aqui.

Língua de Ferro encolheu os ombros. Conhecia bem a crueldade das mulheres rejeitadas e, se as palavras da Intendente fossem verdadeiras, Ceil seria uma jovem caprichosa, a quem não se negavam coisas daquelas.

― O que quer saber?

― Veio até aqui para matar o meu pai?

Língua de Ferro não sentiu a menor vontade em mentir-lhe. Tudo o que pudesse desafiar a rapariga seria agradável.

― Sim.

A jovem franziu a testa e substituiu a surpresa pela indignação.

― Vai fazê-lo?

― Essa é a segunda pergunta?

A rapariga franziu o nariz.

― Digamos que sim.

― Ainda não decidi ― respondeu. Era verdade.

A expressão de Ceil fazia parecer que tinha uma espinha atravessada na garganta, se bem que há muito o peixe deixara de ser refeição em Semboula.

― Terceira e última pergunta. O pai disse-me que amanhã haverá um baile e que você será o convidado de honra. Certamente que o convidarão a dançar e será de muita descortesia sua declinar. Quer aprender a dançar comigo?

Língua de Ferro soltou uma sonora gargalhada e sentiu o dedo de Camilli naquele convite.

― Ora, e quem lhe disse que eu não sei dançar?

A rapariga sorriu.

― Os costumes típicos de Chrygia? Duvido muito. Mas então venha, e prove-me que estou enganada.

Dançar num tanque? Nus? De repente, a ideia não lhe pareceu desagradável. Reteve-se, pensando naquilo como uma artimanha qualquer para o matar, mas uma arma escondida seria facilmente detetada pela sua visão apurada, e não viu ali alguma. Pensou que veneno seria uma arma mais apropriada, mas não havia ali qualquer bebida ou alimento e os fumos que cheirava eram inofensivos.

Decidiu-se a descer os degraus e a entrar no tanque. Ceil esperou-o de sorriso e braços abertos. Era uma rapariguinha que temia a morte do pai, mas era demasiado frívola para o considerar como algo terrível. Para ela, bons momentos de diversão e um ego alimentado valiam mais do que a vida do progenitor. Segurou-a por baixo dos braços e sentiu-lhe a pele aveludada sobre as costelas, fresca e mole ao toque, mas também o perfume a açafrão que jorrava do seu corpo. Quis beijá-la quando os lábios doces aproximaram-se do seu peito e aninhou a cabeça nele. Os cabelos da jovem cheiravam a lavanda.

Sentiu os dedos da jovem a firmarem-se nos seus ombros e ela deu alguns passos para trás, lentamente, ao que Língua de Ferro correspondeu de forma atabalhoada. Ela deu passos para a direita e ele fez o mesmo com passadas desastrosas. O peso dos seios frescos contra o seu ventre embotou-lhe a lógica. A lascívia ameaçava descontrolá-lo. Ceil soltou uma gargalhada, apartou-se dele e pegou-lhe nas mãos.

― Assim ― disse, e conduziu-o com os braços esticados. Dois passos para a direita, dois passos para trás, três para a frente. ― Isso. Estamos a fazer progressos.

Quando Língua de Ferro sentiu uma movimentação atrás de si, ela abraçou-o com força e colou a cabeça ao seu peito.

― Mas o que é isto? ― ouviu uma voz de rapaz fora do tanque.

Língua de Ferro segurou os ombros da jovem para a apartar e virou-se para o recém-chegado. Era um homem de tenra idade, com uma farda azul cheia de botões e a insígnia imperial ao peito. Tinha o cabelo cortado abaixo das orelhas e um rosto angular de tez morena. Os seus olhos jorravam indignação. Língua de Ferro pensou ter arranjado mais um inimigo dentro do Império.

― Degas, isto… isto não é o que parece ― disse Ceil, claudicante. Língua de Ferro detetou dissimulação na sua voz, enquanto ela escondia os seios com as próprias mãos e fingia constrangimento.

O rapaz não teria mais de vinte anos, mas pela indumentária, seria já graduado. Isso significava que provinha de boas famílias, de uma estirpe intocável no estrito círculo de poder chrygiano.

― És… és… ― Uma cabra, quis Língua de Ferro dizer por ele. O jovem não sabia o que dizer. ― Isto é um ultraje.

Amehia escondia-se atrás de Degas, tímida e apreensiva, e Língua de Ferro percebeu o que aquilo significava quando o jovem trincou o lábio inferior e ergueu um indicador. Ele queria dar voz ao seu agravo, mas não sabia fazê-lo de um modo que não ofendesse Sander Camilli. Então, mudou o peso de uma perna para a outra e foi-se embora, soltando desabafos sem sentido enquanto se afastava em passos rápidos. Amehia seguiu-o, a correr.

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American Private of the Massachusetts Regiment 1782 (Fonte: pinterest)

Mal os perdeu de vista, Ceil destapou o peito e caiu numa gargalhada. Língua de Ferro cruzou os braços, austero.

― O teu convite foi para isto, então. Utilizaste-me para te livrares de um pretendente inoportuno.

Não fora uma pergunta, pelo que ela limitou-se a corrigi-lo: ― Inoportuno, sim. E irritante. Pretendente não. É mais do que isso. Degas Pantaleoni é filho do general Pantaleoni, e o seu avô é o senador Gogios, a quem o meu pai deve favores. Ele é meu noivo e deverá continuar a sê-lo, se bem que espero avidamente pelo seu ódio. As suas declarações de amor são nauseantes.

Aquilo despertou alguma curiosidade no salteador.

― Impressão minha, ou a tua irmã tem um certo interesse nisto?

― Amehia gosta dele ― respondeu Ceil. ― Somos filhas de escravas, mas o que me difere das restantes é ser a primogénita do pai, o que me confere legitimidade aos olhos da lei. Ninguém se preocupa muito sobre mães, aqui em Chrygia. Para além disso, quem me olha não dirá que eu sou filha de uma escrava uraniana, pelo tom de pele.

A jovem fixou o olhar na água que se movia lentamente à sua volta, e Língua de Ferro viu alguma tristeza e honestidade no seu olhar.

― Onde vive a tua mãe? Aqui no Capitólio?

― Morreu quando eu nasci ― respondeu rapidamente, da forma que até tropeçou nas palavras e lhe soaram como uma única palavra. Mais calma, recuperando o desafio no tom de voz, disse: ― Volte para os seus aposentos. O pai quer mesmo que eu o ensine a dançar. Amanhã, à décima terceira hora da manhã, estarei à sua espera no salão de baile. Não me vai deixar ficar mal. ― Deu-lhe uma palmada no ombro, com um piscar de olhos.

Língua de Ferro sorriu e deslizou até à orla do tanque, onde uma toalha de linho o esperava para se limpar. Quando acabou de se vestir, percebeu que ela esperava que se fosse embora, antes de fazer o mesmo. Amarrou Apalasi à cintura e despediu-se com um aceno de cabeça.

Sentiu dificuldades em reencontrar o caminho de regresso aos aposentos que lhe foram reservados, se bem que as suas capacidades especiais fossem de grande ajuda para que não se perdesse. Os corredores estavam iluminados por candeias de azeite, e quando chegou àquele que lhe dizia respeito, um estranho odor a pelo de cão internou-se-lhe pelas narinas. Não se enganava. Um cão enorme, escuro como penas de corvo, esperava-o à porta do quarto. Língua de Ferro pensou numa armadilha por parte de Degas Pantaleoni, ou talvez que Camilli descobrisse pela boca do rapaz o que se passara e lhe reservasse aquele presente envenenado. Mas quando o canino – raios, ele terá quase um metro? – virou o focinho para si, Língua de Ferro viu não só as gengivas proeminentes e os fios de saliva entre os dentes pontiagudos, mas também o olhar, tão branco quanto o seu. Assim que o encontrou com o olhar, o cão soltou um latido e afastou-se da porta. Parecia estar a conceder-lhe passagem. Língua de Ferro avançou na direção do quarto, sem separar os dedos da empunhadura da espada, e desde que abriu a porta até que a fechou, já no interior, o animal nada mais fez do que mover-se lentamente de um lado para o outro, encarando-o com o olhar vazio e soltando um suave rosnar de entre as mandíbulas. No interior dos aposentos amplos e sombrios, Língua de Ferro pôs-se em alerta. Ouvia a respiração pausada e profunda do animal.

Segundo lhe parecia, montara guarda à sua porta.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis

Estou no Wattpad #25

Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, o meu livro de leitura online, chega ao capítulo 25. Depois de ter chegado à cidade de Chrygia e encontrado a famosa Intendente, comandante-em-chefe dos exércitos imperiais, Língua de Ferro viu-se obrigado a revelar as suas intenções. Mas será o encontro com Sander Camilli tão “amigável” quanto foi a sua chegada ao coração da capital? Leiam este novo capítulo e contem-me tudo sobre as vossas impressões. Espero que gostem.

CAPÍTULO VINTE E CINCO: APOSTAS

“A reputação precedia-me. Quando uma carruagem era invadida, os soluços entrecortados de surpresa misturavam-se com a minha alcunha sussurrada. Mesmo que não fosse eu o responsável. Os assaltos a comboios tornaram-se frequentes, mas creio que fui o assaltante mais bem sucedido, graças à velocidade de Hije e ao companheirismo que ambos forjamos. E fui talvez o precursor. Era o terror dos desertos e o nome Língua de Ferro era associado a qualquer incidente que ocorresse nas linhas-férreas. Alguns salteadores mais espertos e instruídos aproveitaram-se da minha fama para me culpabilizar de esquemas mais sofisticados. À falta de um animal veloz como o meu, começaram a fazer esperas na via-férrea, interrompendo a faixa e impedindo a progressão dos veículos. E depois, veio a dinamite. Não se pode dizer que explosivos estivessem à mão de semear, se assim fosse guerras entre o Império e os rebeldes demorariam muito mais tempo a ser resolvidas, mas havia sempre formas de colocar a mão num bom par de explosivos, ou até de os conceber de forma artesanal. Rebentar com a linha-férrea tornou-se a alternativa válida quando os maquinistas deixaram de parar quando viam um grupo invulgar a meio do percurso. Denveri, o Temível, um dos salteadores mais famosos do deserto rezoli, fora literalmente passado a ferro por um condutor mais temeroso. A história correu meio mundo e desde logo todos se sentiram tentados a não repetir a brincadeira. Então, houve alguém que decidiu sequestrar um académico e a sua sugestão foi bem executada, o que levou outros a fazer o mesmo. Fazer explodir os carris, para evitar a progressão dos comboios. Nunca precisei de usar tais esquemas. Na vila de Careepi, disfarçado de mercador, desenvolvi um sistema de apostas que incidia numa questão particular: quando é que a justiça do Império alcançaria Ravoti, um dos novos salteadores mais populares. Defendi o salteador e ganhei quatrocentas pratas em dois meses. Os jogos de apostas começaram a perder participantes e decidi mudar o objeto de apostas. Elas agora recaíam no mítico Língua de Ferro. Ao perceber que não havia quem apostasse na minha captura, apostei contra mim. E não é que ganhei uma fortuna?”

Sander Camilli não era nada daquilo que Língua de Ferro esperava. Pensou encontrar um homem velho e de olhos encovados cheios de malícia e astúcia. O que encontrou foi um sujeito de ar jovial, com olhos papudos e uma queixada larga e proeminente, sob a qual pendiam peles flácidas que denunciavam alguma obesidade no auge da juventude. O cabelo castanho, penteado para o lado, tinha algumas madeixas grisalhas. Vestia uma toga cinzenta e precipitava-se sobre o parapeito de uma varanda, enquanto um homem mirrado e corcunda com uma túnica de boa seda negra escrevinhava num bloco de papéis ao seu lado.

― O vermelho vai ganhar ― disse Língua de Ferro quando se aproximou da balaustrada e avistou a corrida de cangurus numa arena ampla e circular.

Distavam-nos mais de cinquenta metros de arquibancadas povoadas de gente agitada e barulhenta, mas via que cada animal tinha uma faixa de uma cor, e o canguru de faixa vermelha saltitava entre o pelotão da frente. Na tribuna imperial, Sander Camilli não se dignou a fitar-lhe o rosto.

― É pouco provável ― respondeu com desdém. Tinha uma voz rouca e um tom frívolo, como se não parecesse agradado nem tão pouco hostil. Desinteressado. Como se estivesse a falar com um amigo de sempre.

Língua de Ferro, seguido por guardas e de mãos amarradas, sorriu.

― A probabilidade de um em dez, parece-me. É sempre uma boa aposta.

Camilli virou então o rosto para ele e fitou-o de alto a baixo. O olhar inicial revelou alguma estranheza, que se dissipou com um sorriso divertido. Estava a mastigar algo, e quando falou, o hálito recendeu a amendoim. Estava próximo o suficiente para o sentir.

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Senator Armstrond of MetalGearSolid (Fonte: heavymetalhanzo.deviantart.com)

― Se há alguém que sabe de uma boa aposta, é Leidviges Valentina.

― As informações correm rápido.

O senhor que liderava os destinos de Chrygia afastou aquilo como quem afasta um mosquito. ― Ora, o meu filho tinha-me dito que o famigerado Língua de Ferro nos faria vencer o conflito com esses rebeldes. Porque acha que não o matei matar antes?

Antes, pensou. Aquilo significaria que ainda tencionava matá-lo? Aparentemente, o filho dele, o pequeno Anos, era um profeta como Vance.

― Foi você quem mandou matar Regan?

― Shiu! ― ordenou Camilli, virando os olhos para a corrida.

Surpreendentemente, o canguru com a fita vermelha cortou a meta em primeiro lugar. Língua de Ferro sentiu-se engolido por um orgulho profundo. Camilli abriu a boca, mas não formulou qualquer palavra. O corcunda ao seu lado pigarreou para aclarar a garganta, ou talvez para ganhar coragem.

― Perdemos duzentos ouros chrygianos, senhor.

― Eu vi, Milo, não sou cego. ― Lançou um olhar feroz a Língua de Ferro. ― Melhor fosse.

― E Regan? ― insistiu o salteador.

Sander Camilli olhou para os guardas inertes à sua volta e pareceu procurar alguém com o olhar antes de se lhe dirigir com um indicador acusatório em riste:

― Esse assunto não é para ser falado em público. Acompanhem-no aos meus escritórios daqui por uma hora. Tenho uma dívida a ser saldada até lá.

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Hot Tianna of Disney (Fonte: Altamirano)

Durante esse tempo, Língua de Ferro perambulou pelos pátios internos do Capitólio, repletos de belos jardins verdejantes e imponentes fontanários de basalto e obsidiana. Secos, como seria de esperar. Os guardas foram obrigados a seguir-lhe os passos e nada fizeram para lhe vedar caminho. Num desses pátios, encontrou três belas raparigas seminuas a rirem-se alegremente enquanto duas escravas uranianas as abanavam com longos leques de bambu. As jovens tinham longos cabelos escuros como penas de corvo e as suas vozes eram belas e puras como água. Estavam sentadas na orla de um fontanário, e mal viram Língua de Ferro, calaram-se. Fitaram-no com alguma estranheza.

― Quem sois vós, grande homem cego? ― perguntou uma delas, com o indicador direito preso no lábio inferior, forçando-o para baixo, num trejeito de curiosidade ingénua.

― Leidviges Valentina, menina. Talvez já tenham ouvido falar de mim como Língua de Ferro. E consigo ver-vos. Tanto o que exibis ao mundo, como o que se esconde por baixo do damasco pálido que envergais. E pela tonalidade híbrida da vossa pele, presumo serdes uma das filhas do nosso bom Camilli com uma das suas escravas parideiras.

A expressão da facial da rapariga passou do interesse lascivo para a ira, e da ira para a vergonha. Manteve uma curiosidade para com o homem, mais recatada, mas não deixou de o encarar.

― É como o Anos, então! O meu nome é Ceil e não vos enganais no que especulastes. E o que faz aqui um homem tão… perscrutador? ― As outras raparigas, presumivelmente suas irmãs, já protegiam as zonas íntimas com as mãos e soltaram uma gargalhada.

Língua de Ferro analisou o queixo pontudo de Ceil e a curva apetecível dos seus lábios. De repente, parecia completamente despropositado não os beijar, quase ridículo. Todo o seu corpo era um convite para o amor. Percebeu que ela tinha idade para ser sua filha e afastou as ideias que se lhe formavam na mente. Penseu em Lucilla e estremeceu.

― Lazer, menina. Fui convidado a conhecer os prazeres mundanos do Capitólio, enquanto espero por uma audiência com o seu pai.

A rapariga revirou os olhos.

― O pai costuma demorar. Parecem cola quando começam a falar com ele. ― Pareceu refletir no assunto. ― Talvez possamos tomar banho juntos, esta noite.

A formulação direta e sem rodeios da frase chocou-o.

― Não creio que seja boa ideia.

― Depreendo que irá depender de como corra a reunião com o pai ― disse com alguma tristeza. ― Estou entediada, senhor Valentina. Se ficar por cá, seria de grande préstimo ao pai se aceder ao meu pedido. Espero por si.

Então, levou a mão ao indicador esquerdo e arrancou de lá um anel com uma belíssima opala vermelha. Depois, pegou numa das mãos atadas de Língua de Ferro e fechou-a com ele dentro.

― Espero que tenha o bom senso de mo devolver, senhor Valentina.

Com essas palavras, virou-lhe costas e juntou-se de novo às suas irmãs, que a receberam com risadinhas envergonhadas e lançaram olhares lascivos ao convidado. Língua de Ferro ficou a fitá-las por segundos, até que registou as expressões hostis dos guardas e avançou para uma arcada. Não conseguiu evitar sorrir quando viu uma reprodução de Dzanela em calcário, uma estátua de dois metros e meio, no centro de um átrio fresco e amplo. Não teve dúvidas que se tratava do seu rosto de traços marcados e nariz comprido.

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Fall of Rome (Fonte: amethystdust27.deviantart.com)

― Céus, Dzanela tem uma estátua? ― perguntou quando foi conduzido a um belo escritório forrado a estantes de pedra, com janelas elevadas cobertas de vitrais. A divisão ficava no andar térreo do Capitólio, numa ala rica em bibliotecas e salas de estar. O ar estava impregnado de um odor adocicado e Camilli estava sentado numa escrivaninha cheia de livros antigos. O pó de papel levitava à sua volta, fazendo-o tossicar.

― Se o pergunta, é porque já a viu ― disse sem o fitar.

― E o embuste? Não era suposto Allen ser o rosto de Landon X?

Com uma expressão severa e irritada, Sander Camilli ergueu os olhos dos livros e empurrou um par de lunetas contra a cana do nariz. Fez um gesto para que os guardas se retirassem, ficando a sós com Língua de Ferro. Camilli retirou as lunetas para o lado e encarou Língua de Ferro.

― Regan era um cretino pedante ― disse, com a voz carregada de desprezo. ― Mas não nego o seu mérito na condução de Chrygia. Após a queda de Cacetel, foi uma das mentes por detrás de Landon X, e depois de ocupar o cargo de poder, foi um político influente e determinado. O povo pode não vê-lo como um Imperador, mas fazer parte do Triunvirato sempre foi mais do que ser um Imperador. O povo sabe que parte das políticas implementadas foram ideias dele. Regan foi visto por Chrygia como um notável membro do Conselho de Decisão. O irmão do Imperador.

Língua de Ferro assentiu.

― Tão notável ao ponto de lhe erigirem uma estátua?

― Foi erigida ainda ele estava entre nós. A pedido dele.

O salteador soltou uma gargalhada. Aquilo não parecia nada coisa de Regan. Ele era um homem discreto, subtil, despretensioso.

― O Regan que eu conheci nunca quereria uma estátua em sua honra. Anéis da Morte contou-me que você, sim, você, ameaçou Allen de morte. E que perseguiu Regan pelos desertos até o matar. Lucilla quis ver-se livre de si, Camilli, mas você já controlava o Império, através da corrupção e da ameaça. E enviou as filhas deles para os Poços, como reféns. Vai-me dizer que é verdade ou obriga-me a estrangulá-lo até o fazer?

Com um gesto, Língua de Ferro desenvencilhou-se das amarras e um bocado de corda caiu aos seus pés. Escondeu o anel de Ceil num bolso. Sander Camilli não pareceu impressionado.

― Se eu lhe contasse a verdade, Valentina, você não acreditaria em mim.

Língua de Ferro suspirou profundamente.

― Experimente.

Camilli pareceu ponderar a ideia.

― Prefiro que veja com os seus próprios olhos. Não me esqueço que tenho uma dívida de gratidão para consigo. Livrou o Império de Merren Eduarda e de Mario Bortoli, é um herói e devemos-lhe muito. Chrygia deve-lhe muito. Sinto-me tentado a perdoar-lhe o que aconteceu nos Poços. A propósito, o que é que fez com as miúdas? As filhas de Lucilla e Eduarda?

― Matei-as ― respondeu de pronto.

Camilli notou com a cabeça.

― Ótimo! É melhor assim. Ambos sabemos o que havia dentro delas…

Língua de Ferro deu dois passos à frente, severo. Os seus olhos vazios penetraram Camilli.

― Você matou Regan?

Camilli suspirou, enfadado, e remexeu nuns papéis.

― Não. Não matei ― respondeu. ― Essa morte não sujou as minhas mãos. Pelo menos essa. ― Fez uma pausa, pensativo. ― Mandarei prepararem-lhe uns aposentos cómodos, Valentina. Amanhã irei mostrar-lhe algo que poderá dar-lhe as respostas que almeja.

Língua de Ferro deu mais um passo em frente, até ficar com o ventre encostado à secretária. Cuspiu para os papéis à sua frente.

― Para que me tentem assassinar durante a noite? Camilli, ambos sabemos o que eu estou aqui a fazer. ― Com as duas mãos, pegou em Camilli pelas pregas da toga e arrancou-o à cadeira com uma expressão assustada. Moveu uma mão para apertar-lhe o pescoço. ― Dispensou os guardas para que eles não viessem a espalhar os seus podres? Ou para tentar conquistar a minha confiança? Saiba que eu também queria ganhar a sua confiança, a sua amizade, antes de o matar.

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Assassin’s Creed fanart (Fonte: otisso.deviantart.com)

― Pare com isso, Língua de Ferro ― disse uma voz após ouvir o som de um móvel a arrastar-se. ― Está a ser ridículo.

Uma porta secreta abrira-se de uma estante cheia de livros e a Intendente assomou das sombras, com um pequeno bacamarte em punho, que apontou à cabeça do salteador. Língua de Ferro mediu as suas alternativas. Se matasse o senador, ela disparava contra a sua nuca. Era possível que a barreira que protegia os escolhidos da essência se ativasse, para lhe salvar a vida, mas essa blindagem invisível nem sempre aparecia. Como podia ter a certeza de não levar com uma bala nos miolos? Pensou que podia ser essa a vontade da essência, agora que ele eliminara Bortoli e Eduarda. Camilli tornara-se fiel à sua vontade. O Império estava finalmente seguro nas mãos da essência. Por outro lado, se soltasse Camilli para pontapear a mão da Intendente, tinha a certeza que ela seria dura o suficiente para resistir-lhe até que o homem conseguisse fugir do escritório e mandasse chamar a guarda armada.

Decidiu soltar Camilli e deixá-lo cair no assento estofado, a resfolegar. Desgrenhado, levou o braço à testa para limpar o suor. Língua de Ferro virou-se para a Intendente com uma expressão voraz cheia de emoções reprimidas.

― O senador Camilli e eu estávamos a entabular uma conversa interessante. Esta sua interrupção foi deveras desagradável, Stella.

Dissera o seu nome propositadamente para a irritar. A Intendente baixou a arma e soltou uma risadinha pouco convincente.

― Nós sabemos aquilo que pretende, Língua de Ferro. A verdade e a coroa de acanto. Já sabíamos o que desejava antes de ter entrado pelos nossos portões. E o que talvez seja surpreendente para si, é que talvez estejamos dispostos a dar-lhe ambos.

Língua de Ferro virou o olhar para Sander Camilli, que se consertava no assento, ainda com a testa suada.

― Isto é verdade?

Ele não lhe respondeu.

― E talvez ninguém tenha de morrer ― disse a Intendente. ― Mais ninguém, quero eu dizer. Mas, porém, há toda uma estrutura social em Chrygia que você deve compreender. Há todo um código de etiqueta, uma ordem social, que deve ser entendida e compartilhada. Esqueça os seus truques de magia, as pragas nos lábios, os movimentos de espada e a quebra de pescoços. Em Chrygia, as guerras são ganhas à mesa. Um conhaque pode ser mais letal que um fio de espada.

― Veneno é uma arma de cobardes ― disse Língua de Ferro, antes de cerrar os dentes.

A Intendente sorriu e fez relaxar os ombros.

― Exatamente. Cobardes como Dooda Vvertagla, Merren Eduarda ou a sua tão querida Lucilla. E qual de nós nunca provou o sabor da cobardia? E você, quantas vezes já se deixou enganar por sentimentos tão voláteis como a cobardia?

― Não se atreva a colocar o nome de Lucilla nisto…

― Sander sentiu o mesmo, deixe-me dizer-lhe, quando se apaixonou por Dooda Vvertagla e por ele envenenou Cacetel, pondo fim a uma dinastia. Quando os quatro mercenários chegaram a Chrygia, Sander podia ter-lhes impedido o acesso à coroa, reclamá-la para ele. Mas estava de tal modo inebriado que lhes entregou tudo, tudo o que lhe havia sido pedido. Se ele quisesse, teria sido Imperador nessa hora. Mas não o quis. Nem na época, nem agora. Dooda mostrou ao que vinha, e em nenhum momento mostrou qualquer respeito pelas promessas que fizera a Sander. Enganou-o. Enganou-nos a todos. E partiu, deixando o controlo da cidade nas mãos daqueles cães.

Língua de Ferro riu, tanto por imaginar Sander Camilli romanticamente apaixonado por Dooda, como pela imagem cruel que desenhavam do seu velho amigo.

― Zomba de mim, Valentina? ― disse por fim Camilli, fazendo-o voltar-se para ele. ― Amanhã haverá um baile de gala para comemorar a nossa vitória, e você será o convidado de honra. Divirta-se até lá. Aposto em como irá conhecer a verdadeira face do seu velho amigo.

Língua de Ferro franziu a testa. Algo aqui está muito, muito mal explicado.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco

Estou no Wattpad #24

Mais uma semana, mais um capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, o meu livro de leitura online. Como vos disse, até ao início de junho postaria capítulos semanalmente, e aqui está o capítulo 24, que representa a primeira página de Língua de Ferro na cidade de Chrygia depois de, no capítulo passado, contar-vos a morte de um personagem central na história e dar-vos a perceber parte dos planos do nosso protagonista em tornar-se Imperador. Espero que gostem.

CAPÍTULO VINTE E QUATRO: A INTENDENTE

“Assaltar comboios a vapor tornou-se brincadeira de crianças. A velocidade de Hije cobria facilmente a dos veículos. Com ganchos de abordagem ou com as minhas próprias mãos, arremessava-me da sela estalada pelo sal para as lamelas quentes das composições. O mais divertido era sempre entrar nas carruagens, em grande estilo, ver a incredulidade dos seus habitantes estampada nos rostos, os lábios a franzirem-se, as rugas a formarem-se-lhes entre as sobrancelhas, a intocabilidade dos senhores a desmoronar numas boquinhas adoravelmente abertas e a das senhoras nuns gritinhos assustados que se derramavam da profundeza das suas gargantas e quase podiam ser interpretados como guinchares suínos ou gemidos de êxtase. Agradava-lhe vê-los borrados de medo. Toda a sua gabarolice, presunção e altivez transformada num horror inesperado. Vassalos da sua imponência. Vê-los subordinados a si, aquelas matronas de Veza e Constania, os todo-o-poderosos mecenas das cidades portuárias, reduzidos diante da polidez dos seus músculos e o brilho afiado da sua espada. Nunca lhe faziam oposição. Por vezes, até lhe suplicavam que lhes levasse os seus pertences. Nunca matou ninguém, a não ser num caso pontual em que o surpreenderam com os dentes e pelas costas, mas garantia sempre que toda a sua nobreza se desfazia numa humilhante mendicância. Até aos dias de hoje, ainda se contam histórias de como o Marquês de Costavallia chegou à cidade, amarrado de cabeça para baixo no assento e nu como veio ao mundo, enquanto que a sua esposa, uma matrona de quase duzentos quilos, fora amarrada na base da plataforma, igualmente nua e de traseiro para o ar. A boca do Marquês ficara humilhantemente próxima das suas nádegas.”

Uma porta de dois metros de altura abrira-se no imenso portão principal e uma ponte de madeira fora atirada para o fosso, fazendo Língua de Ferro atravessá-la, montado no seu diabo de estimação, enquanto os canhões chrygianos transformavam a rebelião de Bortoli num espirrar contínuo de sangue e miolos por todos os santos lados.

― O Imperador ― balbuciou. ― O Imperador. Salvem-no, por favor. O inimigo fê-lo prisioneiro. Por favor, levem-no a um curandeiro, por favor. Por favor…

Língua de Ferro foi recebido de olhos fechados e mãos no ar, deixando Apalasi presa à anca. Mãos cobertas por cota de malha conduziram-no por um bom quilómetro de areia, até que o atiraram para o chão. Mosquetes e alabardas apontaram na sua direção e as atenções mais relevantes centraram-se no moribundo Allen.

― Hije ― assobiou, lançando um olhar para o lugar onde um par de soldados imperiais lhe tentava colocar uma rede sobre a cabeça, e com ela um açaime. O diabo resfolegou e agitou a cabeça, fazendo-lhe a crina ondular. Elevou-se nas patas traseiras e só o assobio tranquilizador de Língua de Ferro o impediu de engolir as cabeças cobertas de metal e malha de aço dos soldados. Baixou as patas e deixou-se açaimar, enquanto Língua de Ferro voltava a concentrar-se nos homens à sua volta.

Allen era levado numa padiola em pele de cabril para longe, depois de um dos oficiais atestar os traços de Landon X no seu rosto. O mesmo oficial que se dirigiu a Língua de Ferro em passos largos. Abriu o elmo para desvendar um par de dentes podres e um bigode escuro e felpudo.

― Quem és tu e o que bosta fazes com o nosso Imperador? És um maldito rezoli, caralho.

Língua de Ferro baixou o olhar, para que os seus longos cabelos azul-turquesa cobrissem o branco do seu olhar. Se o julgassem cego, teria muito a explicar de como chegara até ali com o Imperador.

― Chamam-me Língua de Ferro, senhor. Decerto já ouvistes falar de mim. Salteador dos desertos, chamam-me. Aquele que traiu os Doze Vermelhos. O vosso Imperador foi sequestrado em Veza, como bem sabeis ― disse. ― Ou talvez não. Seja como for, eu salvei-lhe a vida das mãos da Rebelião, mas Bortoli voltou a colocar-lhe as mãos em cima, às portas de Rhove. Na batalha em que o general Cane morreu. Fui contactado por Anéis da Morte para o recuperar e foi isso o que eu fiz. ― Fingiu algum arrependimento e tossiu para aclarar a garganta. ― Não tenho mais nada para dizer-vos. Quero uma audiência com os vossos superiores, sejam eles quem forem.

O oficial cuspiu meia dúzia de pragas antes de o atirar ao chão com um pontapé no ombro que não podia magoar uma criança. Depois colocaram-lhe um saco de pano negro sobre a cabeça e tudo ficou mais escuro.

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The Son of Sand (Fonte: 0BO.deviantart.com)

― O meu diabo. O que lhe vão fazer?

― Diabos são transporte indígena. Veículo de hereges e blasfemos. Adoradores de Khsem ― disse o oficial. ― Não são permitidos em Chrygia, mas não lhe faremos nada até que a Intendente dê ordens para isso.

A Intendente. Língua de Ferro já ouvira falar nessa figura de poder. Uma das favoritas de Camilli, que se transformara na comandante-em-chefe dos exércitos chrygianos, os quais geria com mão de ferro. Língua de Ferro desconfiava que as histórias que se contavam a seu respeito fossem exageradas, uma vez que Dooda, Eduarda e Luce eram as verdadeiras forças dentro do Império. Pelo menos, era o que ele julgara, mas não podia olvidar o estatuto que o próprio Camilli angariara para si. Não foi Sander Camilli quem matou Regan, pensou. Pelo menos, eram essas as palavras de Vance. As últimas palavras que lhe ouvira. Mas, se tal fosse verdade, quem raios o tinha morto? E por que Eduarda lhe mentira a respeito? Amarraram-lhe os pulsos e colocaram-no sobre um camelo, o que obrigou ao esforço dedicado de seis mãos chrygianas.

Ouvia o disparo de canhões e mosquetes nas muralhas a afastar-se, enquanto o camelo que o dirigia, conduzido por um soldado chrygiano, avançava pela areia miúda e branca e poeirenta. Importunou o soldado com perguntas e gracejos, mas ele revelou-se mais estóico e silencioso que uma pedra. Ninguém suspeitava que ele visse fosse o que fosse sob aquele pano escuro e denso, mas ele via. Cobriram-no para evitar que ele descobrisse o caminho de regresso, se pretendesse fugir, ou talvez para o impedir de conhecer os podres de uma civilização que se dizia soberba.

Depois de cruzarem o portão rudimentar da muralha interior, viu as ruas cheias de pó, as crianças a correrem descalças e sem fôlego, as esquinas esfaceladas de edifícios devolutos. Viu as torres quebradas da cidade velha a jorrarem poeira das escoriações. Sentiu o odor a fruta podre, a merda e a mijo e a pus. Sentiu o perfume inebriante da gangrena e da devassidão, o cheiro a sangue e a sexo, tão profundamente opostos como semelhantes. As feridas magoavam, a lascívia consolava. Ambos transpiravam a podridão. Havia mendigos à porta dos poucos estabelecimentos abertos, mas eles confundiam-se com os habitantes mais abonados daquele bairro, que faziam fila pela maçã mais bonita do vendedor ambulante. Eram todos pele e ossos cobertos por andrajos acastanhados pela porcaria e espuma de baba a formar-se-lhes nos cantos das bocas.

Arcadas velhas cheias de símbolos gravados em pedra sucediam-se umas às outras, quando as ruas começaram a inclinar-se num gigantesco talude de pedra que antigamente chamavam de Bosta dos Deuses. A cidade prateada de Chrygia.

A cidade nova era todo um requinte de odores. Às especiarias tradicionais, como a canela, o açafrão e a noz-moscada, juntavam-se o perfume a rosas das lojas modernas, o cálido cheiro a castanhas grelhadas e a espetadas de aves, vendidos na berma da estrada por mulheres e crianças roliças. A manufatura era ali substituída pelo som de roldanas e de trabalhos sofisticados, como as bancas de amola-tesouras. As casas revelavam bom estado de conservação, edifícios geminados de dois ou mais andares, feitos em pedra e cimento. Lâmpadas de metal marginavam cada janela, apagadas à luz do dia; Língua de Ferro podia suspeitar que um qualquer sistema de canalização a gás acendia aquelas lâmpadas à noite, através de um processo alquímico que lhe conferia a coloração lilás que lhe dera fama. Sorriu ao passar por uma praça onde imperava uma estátua em argila de três metros com o rosto de Allen estampado na fronte. Quantas mentiras atiras ao mundo?, perguntou.

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Ancient City (Fonte: pinterest.com)

No topo do talude ficava um imenso edifício hexagonal cuja fachada exibia um entablamento cheio de mísulas e detalhes do período pré-Domasi. Todos sabiam que ele compreendia setenta palácios, mais de cem jardins e, nas suas traseiras, uma enorme ponte de pedra dava acesso a um edifício mais pequeno, semelhante a um templo, que era a sede do Senado, muito embora todos falassem daquilo como um só edifício, um só palácio. O Capitólio. O Palácio Supremo de Chrygia.

Foi para uma casa cúbica de dois andares, nas imediações, com um terraço de betão e sem telhado, que se dirigiram. A guarda armada abriu-lhes passagem e os camelos internaram-se na casa, para um átrio fresco onde uma fonte seca lembrava a desgraça da civilização. Uma longa correnteza de balaústres cercavam o átrio, proporcionando uma vista privilegiada do andar cimeiro. Língua de Ferro sentiu um formigueiro no braço quando um menino de olhar branco o viu de um desses balaústres, e logo desapareceu por detrás de um pilar nodoso e maciço.

― Caspare, seu desgraçado. O que fazes aqui? ― perguntou a mulher velha de sandálias que acabara de entrar uma arcada oriental. O oficial desmontou do camelo e resmoneou algo entredentes.

― Minha senhora, creio que esta é uma situação emergente.

Se aquela mulher magra e de ossos débeis, com longos cabelos brancos escorridos como cortinas pelos ombros ossudos era a famigerada Intendente, então a sua fama ultrapassara-a. Era esquálida e frágil, com uma camisa de linho e umas calças de anéis de prata que tilintavam a cada passo. Quando o oficial lhe contou o ocorrido, a mulher lançou a Língua de Ferro um olhar de relance. Tinha olheiras profundas e um rosto chupado, mas havia algo no seu olhar que o amedrontou. Era duro e confiante, mas também cansado e impaciente. Imprevisível.

― Façam-no descer desse camelo. Onde está o Imperador?

― Levaram-no para o quartel. Sefondos ficou responsável por ele, mas mandei já Gelabra chamar o Cirurgião.

A Intendente bufou de desagrado, enquanto os homens fizeram os joelhos do camelo fletir para removerem Língua de Ferro de cima dele.

― O Cirurgião tem muito mais para fazer do que sair do Capitólio para cuidar dos ferimentos desse palerma ― guinchou.

Dirigiu-se a Língua de Ferro e tirou-lhe o pano da cabeça. Sorriu ao contemplá-lo, mas sentiu-se de imediato cautelosa ao ver o seu olhar vazio.

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Sexy military woman (Fonte: pinterest.com)

― Por que raios vedaram este idiota? ― perguntou. ― Ele está cego. E amarraram-no? O gajo deu-nos a vitória. Quebrou o cerco e trouxe-nos o Imperador.

Caspare gaguejou.

― Minha senhora, limitei-me a seguir o protocolo. Pensei…

― Cala-te ― rugiu a Intendente, virando a sua expressão de dentes tortos para ele. Fez relaxar os ombros. ― Fizeste o que estava certo. Agora regressem para as muralhas, ainda são necessários por lá.

O oficial assentiu com a cabeça e fez uma pequena mesura. Antes de baixar o elmo e lhe virar costas, porém, perguntou:

― Este homem é Língua de Ferro, senhora. Há um prémio pela sua cabeça. É considerado perigoso e promotor da Rebelião. Tem a certeza que quer que o deixemos aqui?

A Intendente fitou-o com aspereza, e apenas o seu olhar foi o suficiente para que o oficial se desculpasse com uma nova mesura, concertando os homens para sair do edifício. Ainda não tinham saído do átrio quando a Intendente fez sinal para que Língua de Ferro a seguisse pela arcada de onde tinha surgido, ainda que não o libertasse da corda que lhe prendia os pulsos. Ele seguiu-a por uma alcova ampla, cheia de escravos uranianos nus, com a pele tão pálida que quase parecia transparente. Alguns seguravam folhas de palmeira, enquanto outros, maioritariamente mulheres, lavavam alguns homens chrygianos num tanque cheio de óleos. Uma guarda armada vigiava-os de lanças em punho.

Passaram por eles e transpuseram uma longa cortina de missangas escurecidas pelo fumo de tabaco. Do lado de lá esperava-os um estrado amplo e vazio, onde a Intendente se deixou afundar numa dezena de almofadas, parecendo por um segundo revelar os desconfortáveis sintomas da idade. Estavam longe dos guardas e dos escravos, a coberto pelas cortinas, longe o suficiente para que Língua de Ferro pudesse esganar a mulher e fugir. Apalasi mantinha-se presa à anca esquerda.

― Sabe quem eu sou, Língua de Ferro? ― perguntou a idosa, como se lhe estivesse a ler os pensamentos.

Manteve-se de pé à sua frente e sorriu.

― A Intendente de Chrygia. A favorita de Sander Camilli. Falaram-me de si.

A mulher abafou um risinho com uma mão e afastou o ar à sua frente com a outra.

― Sabe tão bem quanto eu que as histórias que se contam a nosso respeito têm um montão de coisas ridículas pelo meio. Sou esposa de Sander há vinte anos, mas creio que ele não me fode há mais de dez, por isso será difícil que me chamem de favorita. Para além disso, todas as outras são escravas. Ele não é polígamo, que se saiba. Ainda assim, nenhum dos seus filhos saiu de dentro de mim. Sou estéril. O meu nome é Stella Cristina Ravasi e dizem que sou uma grande cabra, que é das poucas coisas, das que são faladas a meu respeito, com que posso concordar. Temos muito em comum, Leidviges Valentina.

Língua de Ferro assentiu. Começava a gostar dela.

― Como assim? ― perguntou.

― Ora, ambos sabemos que tinha um objetivo em mente ao quebrar a Rebelião e devolver-nos Allen.

― Ganhar o apreço do Império e talvez uma estátua em minha honra ― respondeu com um tom de sarcasmo. Nenhum deles tinha a certeza de que estava a ser sarcástico.

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Knight – Dungeon 210fantasy (Fonte: pinterest.com)

― O primeiro passo para conquistar o Império seria quê? Ganhar a amizade de Sander? Talvez pense isso, porque acredito piamente que Eduarda lhe tenha contado como são as coisas por aqui. Ouvi falar do rebuliço em Ccantia. Talvez julgue que ser levado em ombros por Sander e matá-lo depois lhe conceda o amor do povo e a coroa de acanto. Permita-me dizer-lhe que está enganado.

Língua de Ferro fingiu um sorriso. A cabra era esperta.

― Talvez possamos chegar a um acordo, Stella.

― Talvez ― disse ela. ― Mas enquanto isso, prefiro que me chame de Intendente. É o que todos fazem por aqui. Também não sou ingénua a respeito do seu olhar. Chrygia tem sido visitada com muita frequência por pessoas cegas. Mais do que seria suposto. Tornaste-vos um escravo da essência, que é como alguns iluminados chamam a essa alucinação. Ou, pelo menos, um acessório dela.

Língua de Ferro cerrou os dentes.

― Não sou escravo de porra nenhuma. Ajo por mim, e para mim.

― Aqueles que são escolhidos em idade avançada sentem-se tentados a convencer-se disso ― afirmou.

― Escolhido por uma alucinação?

A mulher lançou-lhe um sorriso inocente e ergueu as mãos.

― Pronto, pronto, apanhou-me. Ela existe sim. Ou, pelo menos, o Império começa a acreditar na sua existência. Vários mensageiros têm chegado nos últimos anos. Vvertagla e Lucilla troçavam deles, mas Sander viu como os seus iguais caíram… e viu o poder de Mario Bortoli a agigantar-se, como esses mensageiros vaticinaram. Testemunhou alguma da sua magia e…

― Quem é aquele miúdo lá em cima?

― Nada lhe passa despercebido, já vi. Calculo também que se reconheçam uns aos outros. É o filho mais novo do meu esposo. Dele e de uma escrava. Ficou cego pouco depois de nascer, e desde então parece ver melhor do que qualquer outro mortal. É visto como um santo por aqui.

Língua de Ferro compreendeu.

― Isso explica a súbita religiosidade de Sander Camilli e o porquê de ter colocado as filhas de Eduarda nos Poços.

A expressão da Intendente ensombrou-se. Percebia que ele estava informado de coisas sigilosas.

― Eduarda tornou-se um problema sério. Refutou as crenças de Sander, moveu-lhe uma perseguição religiosa, tentou influenciar senadores a afastá-lo do poder e até tentou envenená-lo. Ele e Lucilla usaram Varro e ainda tentaram matar Allen. Sander fez de tudo para o salvar, eles sempre foram próximos. Mas Anéis da Morte revelou-se mais ardiloso do que nós presumíamos e usou-se das jogadas mais sórdidas para fazer valer a sua vontade. A coisa só piorou quando as filhas deles viraram uns demónios e tentaram matar o pequeno Anos. Fomos obrigados a tomar medidas drásticas.

Língua de Ferro suspirou. Não sabia qual a versão da história em que haveria de acreditar, mas alguém lhe mentia. Fosse Eduarda ou a Intendente, iria descobrir a verdade.

― Seja como for ― disse ― grande parte dos vossos problemas parece estar resolvido. Allen está de novo entre vós. Lucilla foi morta por Bortoli. Eu matei Bortoli por isso, e de caminho matei também Anéis da Morte. Ah, esqueci-me de lhe contar um pormenor. Também vos conquistei os Poços.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro

Estou no Wattpad #23

Este podia ser, na verdade, o último capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, se eu pretendesse arrastar a jornada do salteador para uma duologia ou trilogia. Acontece que, mesmo que venha a escrever mais sobre Semboula no futuro, será uma outra história, com outros protagonistas. Ainda assim, este capítulo é crucial para o desenvolvimento da trama e marca um virar de página para o último arco de história do meu livro de leitura online. Depois de confrontar Ravella para os segredos que esta partilha com Jupett Vance, Língua de Ferro vê-se perseguido pelos homens de Mario Bortoli, no coração do seu próprio acampamento. O que irá ele fazer? Espero que gostem.

CAPÍTULO VINTE E TRÊS: QUEBRAR UM HOMEM, QUEBRAR UM CERCO

“Inseparáveis, eu e o meu diabo percorremos as noventa dunas que separavam Erratia do extinto Mar Rezoli. Testemunhamos o dealbar de novas formas de subsistência, o fim de antigos hábitos e tornámo-nos, nós próprios, sobreviventes. A velha cidade de Kang parecia ter sido feita de madeira estalada, e os poucos habitantes que ali encontramos pouco poderiam suprir das nossas necessidades. Sem água, não havia mais daquela sopa de nabo que tanto a tornara famosa. Os jovens haviam migrado para leste, onde a oportunidade de se alistarem no exército afigurava-se um melhor consolo a permanecer por ali. Conheci um velho bardo sem um olho, chamado Rigga, que falou numa fação científica a quem chamava Os Ótimos, que disseminava novas técnicas de cultivo e plantação. Também sugeriam alternativas alquímicas para serem usadas na culinária. Não posso assegurar que os locais se mostraram recetivos às técnicas vanguardistas d’Os Ótimos, mas não havia muito a regatear quando a garganta estava seca e o pó de areia arrepanhava-a, ainda que pudesse ser mais comestível que os seus próprios cozinhados. Foram ramais dessa primeira comunidade científica, patrocinadas pelo Império, quem trabalhou no desenvolvimento da Revolução Industrial que testemunhei nos anos que se seguiram. Plantações regadas a óleo floresceram nas terras mais férteis, enquanto licores com gosto a leite se comercializavam nas cidades. A via ferroviária seguiu-se, num espaço de cinco anos. Tornou-se, a bem dizer, o meu ganha-pão.”

Um ditado antigo falava que aquele que mais baralhava as runas, menos sabia do seu destino. Atualmente, as artes da adivinhação através de letras esculpidas em osso estava restrita aos nómadas tribais, mas Língua de Ferro criara um ditado com significado similar. Aquele que mais mexe na merda menos sabe qual é a sua, e Mario Bortoli era daqueles homens que podia não ser responsável pelas maiores atrocidades, mas não seria mal empregue pagar por elas.

Bortoli regressou à sua tenda com uma expressão afligida, logo depois de orientar os responsáveis máximos pelas equipas de busca na peugada do sacana que lhe escapava por entre os dedos, quando deu com esse mesmo sacana deitado no seu catre almofadado a pele de felino do norte. Estava a fumar de um dos seus charutos, com dois incensórios de bronze acesos, um de cada lado do catre.

Os seus dedos trémulos roçaram na manga de cetim da sua túnica, em cujo compartimento secreto se escondia uma adaga finamente trabalhada, que se revelou comprida e esguia na sua mão balofa, com um punho de bronze cheio de detalhes rezolis e placas de esmalte verde nas guardas ornamentais. As moscas que lhe reclamavam os cabelos empapados em suor, as gotas que se lhe derramavam pela testa sebosa e a expressão aterrada ao fitá-lo tornaram-se secundários para Língua de Ferro quando sentiu o odor nauseabundo que encheu o pavilhão.

― Cagaste-te, Bortoli? ― perguntou com uma gargalhada. ― Cagaste-te mesmo, não foi?

A adaga ornamentada foi fechada no punho decidido de Bortoli, impelido pela zombaria do seu inimigo.

― Maldito filho da mãe ― guinchou, como um porco. ― Guardas! Guardas!

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Golden sand (Fonte: matchack.deviantar.com)

― Isto podia ter sido tão diferente, Bortoli. O que é que pretendes fazer com essa adaga? Atirá-la contra mim? Arrico a dizer que a possibilidade ínfima de acertar-me reduz-se à nulidade, tendo em conta os meus reflexos e a tua pontaria, já para não falar no teu estado… alterado. Irás lançar-te contra mim e tentar golpear-me? Segurarei o teu pulso e abrir-te-ei o ventre antes que sequer dês por isso.

― Guardas! ― gritou Bortoli, com todo o ar que lhe restava nos pulmões.

As sombras que dominavam o interior da tenda, ludibriadas pelas chamas de dois archotes e de um braseiro aceso ocultavam o vazio no olhar de Língua de Ferro, mas não disfarçavam o brilho acutilante da lâmina nua que repousava sobre as suas pernas. Mario Bortoli conhecia-a bem, pois Língua de Ferro mantinha Apalasi tão bem estimada como quando a conhecera, graças à lanolina e à gordura de cabras quando a cera de lã escasseava.

― Língua de Ferro, seu maldito bastardo, não te chegou tudo o que me tiraste? A virilidade, o orgulho, a confiança de Dooda?

O salteador sorriu. No fundo, sempre fora aquilo que os separava. Bortoli era o que se chamava um típico lambe-botas, tentando sistematicamente ganhar o favor de Dooda Vvertagla quando Língua de Ferro, sem fazer nada para além de ser ele próprio, conquistara a amizade do homem. Isso causou a inimizade entre ambos, que a traição aos Doze Vermelhos veio agigantar.

― Eu quis entregar-te a coroa de acanto, Bortoli. Coloquei-me ao teu serviço quando cheguei ao acampamento rezoli com Dooda ao meu lado. Entreguei-te o exército que tinha conquistado na Prisão.

― Sempre soubeste que essa aliança era areia atirada para os olhos ― grunhiu Bortoli, esganiçado. Segurava a adaga com tanta força que parecia quase esmagar o seu punho. ― Nunca confiei em ti, e tinha razões para isso. Aliaste-te a Marovarola contra mim.

Língua de Ferro meneou a cabeça.

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Earth mage (Fonte: hunqwert.deviantart.com)

― Não aconteceu necessariamente nesses moldes. Também tu te aliaste a Marovarola, e ele só não ativou a armadilha em que me colocaram porque tal não lhe foi conveniente. Precisou de mim. Tu tornaste-te um problema mais premente. Eduarda, para quem servia, tinha outros planos. Mas no fundo, tens razão. Eras o Mecenas, tinhas dinheiro e exércitos, e era isso o que eu precisava. Enquanto eu era um peão para ti, tu eras um peão para mim. No final, ambos queríamos o mesmo, sem suspeitar que eram os nossos irmãos de armas quem o possuía. A coroa de acanto.

A fúria venceu o terror na expressão de Bortoli. Não compreendia porque é que os seus guardas tardavam em chegar. Atreveu-se a lançar o olhar para a aba do pavilhão, fechada. As sombras vindas do exterior denunciavam as silhuetas dos guardas, nos seus lugares habituais.

― Perguntas-te porque é que eles não vêm em teu auxílio? Escusado será dizer que isso tem dedo meu.

Bortoli soltou uma risadinha.

― O que é que prometeste aos indígenas, para que eles me entreguem deste modo tão desleal?

Língua de Ferro não lhe respondeu, mas estudou o charuto que tinha na mão e fungou.

― Tabaco. Mandaste os rezolis rastrear o acampamento em busca de tabaco, lembras-te?

― Eu… ― As palavras morreram-lhe na boca. Ambos sabiam que essa ordem não havia saído dos seus lábios. ― Isso significa que os homens ali fora…

― Viste-os quando entraste, mas devem ser-te demasiado familiares para suspeitares de uma mudança de turno. São os homens que eu libertei. O meu exército. O exército que tu me roubaste. A lealdade é difícil de roubar, meu amigo. Embora, por vezes, pareça fácil fingi-lo, especialmente se alguém se mostrar tão generoso como tu. Eles precisavam de um líder e limitaram-se a seguir-te, mas também é verdade que sempre favoreceste os rezolis e os rhovianos, uma vez que te garantiam maior número no campo de batalha.

Bortoli exibiu um sorriso nervoso.

― Tocaste num ponto interessante. Esses homens estariam em menor número contra qualquer um dos meus outros exércitos.

― Não te preocupes com isso, Bortoli!

― Não sou eu quem tem que se preocupar.

Mario Bortoli pareceu subitamente menos terrificado, como se aceitasse o destino que o aguardava.

― Vais matar-me, não é?

Língua de Ferro fez que sim com a cabeça, cheio de aparente descontração.

― Ambos sabemos que sim.

― E que espécie de vitória pensas alcançar? Que espécie de controlo julgas tu que deterás sobre os meus homens? Poderão ficar confusos, mas terão Vance a liderá-los, e o cerco não cairá. Vance previu-o. Talvez querias tomar-lhe as rédeas, mas não deves subestimar o meu comandante. Ele não é um sacana qualquer.

O salteador deitado sobre o catre soprou uma baforada de fumo por entre os lábios.

― Pois não. Efetivamente, Vance não é um sacana qualquer. Mas eu sou.

― Sugiro que me mantenhas vivo ― disse, demasiado depressa, devolvendo algum nervosismo à sua expressão gordurosa. Fez a adaga regressar à manga e emprestou um tom de súplica à sua voz. ― Podes usar-me como refém, sem que ninguém o saiba. Une-te a mim, se te aprouver. Conquistemos Chrygia em conjunto. Deixar-te-ei com a cidade; deixar-te-ei com a coroa de acanto. Regressarei a Veza, se me deixares vivo. Irei agora mesmo, se assim o determinares.

Língua de Ferro pareceu refletir naquilo.

― Nenhum homem inteligente deixa o seu inimigo vivo, depois de o ver acobardado ― disse algum tempo depois.

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Sandstorm (Fonte: llamllam em deviantart)

Viu na expressão de Bortoli o quanto ele estava desejoso de recuperar a sua vida, a sua liberdade, a sua arrogância.

― Ora, Val, és bem melhor do que isso.

Língua de Ferro inclinou-se então para a frente, e o seu rosto tornou-se distinguível pelo clarão de archotes. Mario Bortoli viu o seu olhar branco e a expressão dura como uma rocha, de dentes cerrados.

― Tu mataste Luce, eunuco. Tu mataste a mulher da minha vida e vais morrer por isso.

Com um assomo de terror, Bortoli cambaleou na direção do braseiro aceso e empurrou-o contra o solo. Óleo a arder irrompeu pelas carpetes e uma chama ampla logo separou o Mecenas de Língua de Ferro, a oportunidade para o homem tentar a sua fuga.

Como um leão a atacar, Língua de Ferro pegou em Apalasi e saltou sobre a cortina de fogo que ainda se elevava, alimentada pelos ricos tecidos do pavilhão. Alcançou Bortoli quando este tocava na aba, para se esgueirar, e virou-o para si por um ombro com tal violência que o terror no olhar do indivíduo quase o fez compadecer-se dele.

Língua de Ferro, porém, não era um homem sensível nem tão pouco um homem bom. Deixou cair Apalasi aos seus pés e a espada encontrou cama na areia sem dificuldade. Depois, removeu o cinto da sua cintura e voltou a virar Bortoli, para amarrar-lhe os pulsos inchados. Bortoli estrebuchou e debateu-se com os ombros, mas uma cabeçada do seu inimigo silenciou-o.

Quando Mario Bortoli acordou, parecia confuso e o mover dos lábios dizia estranhar o gosto na sua boca. As moscas zuniam à volta do seu rosto, e algumas passeavam-lhe pelas têmporas. Estava completamente nu, amarrado pelos pulsos e tornozelos sobre o catre. Os seios eram tão pesados como os de uma mulher, pendentes e sebosos, e bóias de gordura lamelavam-lhe o ventre. Opyas “Boca de Sapo” Raymon apagava os últimos vestígios de fogo, reduzidos a alguns penachos de fumo, com uma vassoura velha. Língua de Ferro observava-o de pé, ao seu lado. Bortoli parecia querer lançar-lhes uma praga quando sentiu algo viscoso a derramar-se-lhe dos lábios.

― Tem um gostinho delicioso, não tem Bortoli? ― perguntou Língua de Ferro. ― É o gosto da tua própria merda. Aposto que nunca comeste nada tão saboroso, hein?

Sem sobreaviso, Língua de Ferro encheu-lhe a boca com mais excrementos castanhos e nauseabundos, e fechou-lhe os lábios com a mão. Bortoli viria a morrer, engasgado ou asfixiado com os seus próprios dejetos. Os seus olhos ampliaram-se de aflição e estavam assim, abertos, quando se imobilizou. O salteador de olhos vazios virou-se para Raymon quando o Mecenas morreu.

― Obrigado pela mãozinha, Boca de Sapo.

O homem soltou uma risada irónica e encolheu os ombros.

― Um foguinho de nada, na verdade! E a cagadeira de Bortoli estava ali à mão. Uma sorte ainda não a terem trocado.

― Não estou a falar disso. Estou a falar da forma como ludibriaste os rezolis a afastar-se da tenda, com a história do tabaco, e de como subornaste alguns dos homens a alinhar nisto. Achas que teria hipóteses em recuperar o meu exército?

Boca de Sapo voltou a encolher os ombros.

― Com Bortoli morto, talvez. Nenhum deles era bem leal a ele, mais ao que ele lhes proporcionava. Neste momento, você acabou de tirar-lhes o sustento, mas daqui por uns tempos esquecerão isso tudo.

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Fantasy warrior (Fonte: playbuzz.com)

Língua de Ferro lavou as mãos sujas num recipiente cheio de água e limpou-as a uma toalha. Depois, esticou uma caixa de acácia ornamentada na direção de Boca de Sapo. Tinha a tampa aberta e o interior almofadado a veludo guardava uma bela coleção de charutos.

― Toma! Prometido é devido. Jurei que ficarias com os charutos do Mecenas se me ajudasses nisto. E, pelos malditos deuses mortos, não teria sequer encontrado Empecilho se não tivesse concertado tudo contigo.

Boca de Sapo assentiu com a cabeça e afastou a vassoura com que afastava o lixo para segurar no cofre. Sorriu ao agarrá-lo, e logo o colocou de lado, sobre um cómodo.

― Obrigado. Sabe bem que não foi por causa dos charutos do Mecenas que o ajudei. Ajudei porque gosto de si. É um pouco estranho, e está mais estranho ainda, agora que parece tão cego como Vance e continua a parecer ver tão bem como ele, mas ainda assim gosto de si. Gostaria de vê-lo como imperador, Língua de Ferro, só para poder dizer em Veza e em Constania que ajudei o lendário Língua de Ferro a tornar-se um.

Língua de Ferro acreditava nisso. Tinha, porém, a cabeça concentrada no que lhe faltava fazer. A noite chegava ao zénite e ainda havia trabalho em mãos. Matar Bortoli fora brincadeira de criança. O que tencionava fazer em seguida era uma tarefa de herói.

A coberto de um manto em pele de lince, colocado sobre a cabeça, fintou as milícias de rezolis que ainda vasculhavam o acampamento à sua procura. Encontrou Empecilho a aparelhar Hije, junto à cruz de madeira onde Allen permanecia crucificado.

― Tive dúvidas que encontrasses Hije. Fizeste um bom trabalho, Empecilho. ― Sentia-se verdadeiramente grato por o rapaz ter encontrado o seu esconderijo. Tinha o rosto pálido como cal e gaguejava, mas sabia exatamente porquê. Trazer o diabo até ali, mesmo assim, dizia-lhe que podia confiar no rapaz.

Língua de Ferro escalou a trave de madeira. Arrancava os pregos às palmas das mãos de Allen, cobertas de escaras e veios de sangue seco, quando o rapaz ganhou coragem para perguntar:

― Aquilo que eu vi, foi você? Os cadáveres?

Língua de Ferro desceu da cruz com o corpo do moribundo Allen sobre um ombro, e colocou-o sobre o diabo antes de o montar. Alguém pareceu ver o que eles estavam a fazer, porque viu braços a serem apontados na sua direção, e uma boa dezena de indígenas rezolis a correr para lá. Língua de Ferro estava acomodado à sua sela, com um Allen inconsciente e gravemente ferido à sua frente, quando estudou o rosto ténue do rapaz. Esmagou uma mosca que se passeava pela garupa de Hije com ambas as mãos.

― Sim, fui eu. Não me orgulho disso. Agora, cumpre a tua parte. Grita aos sete ventos que um homem sequestrou o prisioneiro, e que o leva para a cidade. Fá-lo, e vai ter com Boca de Sapo. O nosso antigo prisioneiro de cela está comigo. Sabe o que terão que fazer em seguida. Eu não sou um homem bom, Empecilho, lembra-te disso, mas posso ser o melhor para Semboula.

Com essas palavras, puxou pelas rédeas e Hije soube qual era a sua função. O diabo avançou pela areia em direção aos megalíticos portões de Chrygia, uma cidade colossal prenhe de cores lilases na noite escura. Homens armados de lanças e maças lançaram-se na sua perseguição, sem perceberem que estavam a morder o isco do homem que os iria conduzir à morte. Não havia ali nenhum líder que lhes gritasse que estavam a cair numa armadilha. O cerco quebrava-se, e Chrygia estava preparada para se defender. A meio do percurso, Língua de Ferro hasteou uma longa bandeira, que trouxera consigo dos Poços.

A bandeira do Império.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três

Estou no Wattpad #22

Bem sei que esta semana não era suposto sair nenhum capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, mas para fazer avançar a história para o seu arco final decidi que até ao início de junho irá sair um capítulo por semana. No último, vimos Empecilho a transmitir a Bortoli e Vance as notícias de Ccantia, enquanto percebia que o cerco montado à cidade de Chrygia incluía o domínio sobre os nativos e a tortura a um antigo companheiro.

CAPÍTULO VINTE E DOIS: HUMILHAÇÃO

“Havia alto no comportamento de Hije que me fez gostar dele. Os diabos eram, por natureza, hostis, mas nos dias em que se viviam, a velocidade compensava o trabalho que significava domá-los. Os cavalos eram escassos e pouco desenvoltos nos desertos; os camelos lentos e caprichosos. Domar diabos para se servir deles como transporte era algo que faria os nossos avós benzerem-se, tal a heresia que tal pensamento acarretava. Mas os tempos mudavam com as necessidades e possuir um diabo tornara-se premente para quem desejava cobrir longas distâncias em pouco tempo. Posso dizer sem hesitação que me tornei amigo de Hije desde o primeiro instante. Não sei dizer se ele se sentia constrangido, privado da sua natureza e liberdade, se vira em mim um veículo para recuperá-las, mas os seus olhos deixaram claro, desde o início, que estava em sintonia comigo. Quase não precisei orientá-lo quando tentamos fugir da fazenda de Roq’ia, procurando possíveis caminhos alternativos, nem esporeá-lo quando cheguei à conclusão que investir contra os inimigos era a única alternativa. Sentia-o resfolegar, senti o pulsar do seu coração a fremir contra mim, em uníssono com o meu. Pensámos como um só, sentimos as mesmas limitações, receios e expectativas. Sem modéstia, posso afirmar que boa parte da minha fama lendária deve-se a ele.”

Língua de Ferro estudou sem entusiasmo o acampamento militar onde Mario Bortoli se havia sediado. As estrelas coroavam a noite límpida, sem uma voluta de brisa que se sentisse. Não perdeu tempo a explicar a Empecilho como chegara ali ou o que havia acontecido consigo. Nunca gostara de perder tempo com detalhes e aquela noite seria decisiva para todos. Para além do mais, Empecilho revelara-se um mero fantoche nas mãos de Vance, o que lhe gerava um certo descontentamento, mas não surpresa.

Depois de lhe deixar uma série de recomendações, inclusive a localização de Hije e o tipo de mistura de carne com ração que devia preparar-lhe, avançou em passos largos por entre dois renques de pavilhões rústicos, forrados a pele de camelo curtida. As suas passadas eram calmas, mas o modo como caminhava, altivo e a transpirar de segurança, não sugeria qualquer tipo de discrição.

Um par de rhovianos avistou-o quando cochichavam junto a uma tenda. Um tinha uma capa em pele de cabril atirada sobre um ombro e uma bragadura de linho, enquanto o segundo, mais velho e de expressão retorcida, vestia um manto grená com pregas de lã nos antebraços e perneiras de couro. Língua de Ferro lançou-lhes um olhar sem íris ou pupilas quando nele se concentraram. O mais velho segredou algo ao ouvido do mais novo e este afastou-se, certamente com a intenção de levar a mensagem daquela aparição aos ouvidos de um intendente ou alguém de maior patente, caso não fosse ao próprio Bortoli.

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Guerreiro celta (Fonte: Alpha Coders em pinterest.com)

Língua de Ferro soltou um aviso:

― Hei, tu!

Ao contrário do que o rhoviano mais velho sugeria por gestos, o homem estacou, encarando o invasor com algum desafio, não obstante a expressão reticente. Língua de Ferro aproximou-se dos dois homens em passos largos e viu os olhares deslizarem do seu olhar vazio para a espada embainhada à sua anca.

― Seja a quem for que desejas informar da minha presença, dizei-lhe que se trata de Língua de Ferro, o Assassino de Deuses.

Falou no idioma rhoviano, porque muito embora a língua franca rezoli fosse conhecida pela grande maioria dos povos na margem oriental de Semboula, o conhecimento do seu dialeto específico transmitia um saber secreto sobre eles próprios e conhecer os seus segredos era sempre um fator de medo entre os homens. Língua de Ferro sabia disso ao entrar na sua intimidade.

Os homens entreolharam-se com algum ceticismo e apreensão, quando o mais velho puxou dos seus galões e atirou a cabeça para trás, demonstrando autoridade com o pomo da garganta em franca exposição.

― Talvez deva acompanhar-nos a ambos até lá, pretenso diocida zarolho, e afirmá-lo com os seus próprios lábios ― disse com desdém na voz, no rezoli comum.

Língua de Ferro sorriu, depois o sorriso transformou-se numa risada e por fim numa sonora gargalhada, abrindo a mão com força no peito, de tanto rir. Aquela reação não só retesou os dois rhovianos, como os preocupou, obrigando-os a levar aos mãos aos punhais que traziam presos à cintura. O salteador pareceu mais rápido que a sua própria sombra e não precisou desembainhar Apalasi. Pontapeou o punhal do rhoviano mais novo quando este o desnudou, fazendo-o voar para fora do seu alcance, e depois firmou a sua mão, nodosa, no pulso do oponente mais velho, rodando-a até soltar um sonoro grunhido e perder a força. Deixar cair o punhal na areia aos seus pés não foi o suficiente para Língua de Ferro. Continuou a pressionar-lhe o pulso.

O homem tinha a outra mão apertada no antebraço do salteador, mas isso não foi impeditivo para que ele lhe quebrasse o punho. Ao som de ossos a quebrarem-se seguiu-se um carpir pouco viril, quando Língua de Ferro o soltou e o velho caiu em soluços sobre as suas mãos. O outro rhoviano pareceu indeciso entre atacá-lo ou fugir dali para contar o ocorrido, mas tinha a mão em brasa, fruto do pontapé que lhe atingira os dedos, e enfrentá-lo não pareceu a melhor solução.

Língua de Ferro avançou para ele, com os músculos nervurados a pulsar, brilhantes sob o luar. Sem saber como se defender, o rhoviano colocou um braço à frente e outro atrás, numa posição de defesa básica, com as pernas em semelhante disposição de equilíbrio. A forma como estremeceu, porém, denunciou a precariedade dessa defesa, bem como a sua hesitação. O gigante que enfrentava simulou um murro e ele levou ambas as mãos à frente do rosto. Língua de Ferro abriu a mão no seu peito para o empurrar para trás e puxou-lhe uma perna com a sua, pela dobradiça, puxando-a como um ganho. O rhoviano estatelou-se no chão, o que lhe permitiu fazer a jogada mais desleal de um embate. Segurou num punhado de areia e arremessou-a contra o rosto do adversário, esquecendo-se, por ventura, que este era cego.

Mas Língua de Ferro não era cego, ainda que a flâmula de areia que lhe atingiu os olhos não lhe fizesse mais do que alguma comichão. Pisou um pulso ao inimigo, fazendo-o gritar e impedindo-o de se reerguer. Posto isso, desafivelou o seu cinto. Nenhum dos rhovianos caídos no chão compreendia o que ele ia fazer, mas ele sabia. Humilhá-los. Fazer engolir o orgulho a um rhoviano era mais letal que a morte, ainda que tal pudesse inspirar futuras sublevações. Ele não as temia. Deixou cair as calças aos seus pés, provocando uma nuvem de pó de areia, como a ondulação provocada por uma moeda atirada a um lago. Pegou no seu pénis curvo e urinou sobre o homem prostrado no chão. A urina quente ensopou o rhoviano, que levou a mão livre ao rosto para aplacar tal humilhação. Em vão. Urina cobriu-o como uma película, do torso coriáceo ao cabelo poeirento, passando-lhe pelos lábios franzidos e enojados e pelos olhos semicerrados. Língua de Ferro sacudiu o pénis e quando as últimas gotas de urina desapareceram, voltou a erguer as calças.

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Guerreiro (Fonte: es.pinterest.com)

Fitou o rhoviano mais velho, que se arrastava para mais longe enquanto o estudava numa mistura de náusea e horror, com uma mão sobre a outra.

― Agora sim, podem ir comunicar o ocorrido aos vossos superiores. Dizei-lhes que o inimigo de Bortoli chegou, e está à sua espera. Podem dizer-lhes também, se a vossa coragem chegar a tanto, que não temo derramar sangue inocente, se isso significar chegar até ele, para o fazer pagar pela morte de Lucilla.

Com essas palavras, Língua de Ferro afivelou o cinto e deixou-os consigo mesmos e com as suas reflexões. Sabia que os atrasara. Iriam medir as suas palavras e procurar forma de comunicar uma versão menos humilhante dos acontecimentos, quando estivessem recompostos. Enquanto isso, avançou entre as tendas, inspirando o ar pesado e asfixiante, sentindo-se pegadiço de suor e alvo fácil para os moscardos imundos que zuniam à sua volta.

Passou por um espeto escamado de fuligem e gordura, sob o qual jaziam os restos carbonizados de uma fogueira, junto à qual repousava uma malga de ferro vazia e um almofariz de cerâmica com restos do que parecia pimenta moída. Franziu o nariz com o odor e afastou-se o mais rápido possível dali, mudando o seu curso para ocidente, onde o corredor proporcionado pelas tendas o conduzia para o largo perímetro onde eram escavadas valas comuns para encher de cadáveres. Língua de Ferro suspeitava que os corpos dos indígenas não seriam os únicos a alimentar aquelas bocas de areia.

Parou e sorriu, momentos antes de vislumbrar uma figura familiar, que se esgueirava da aba de uma tenda. Usava um porta-seios e um saiote de samito, e o rosto pálido pareceu-lhe mais surpreso e desconfortável do que alguma vez o contemplara, quando finalmente o encontrou com o olhar.

― Olá Ravella! Como estás?

A mulher passou com o polegar por cima da orelha para afastar o cabelo e olhou para um lado e para o outro, confirmando que ninguém os perscrutava. Archotes estavam acesos em volta das tendas, mas a maioria dos homens já dormiam ou reuniam-se nas tendas mais sumptuosas, de onde se ouviam os batuques nativos, a sudeste, muito possivelmente locais onde os homens de maior patente obrigavam os sobreviventes do acampamento original a dançar, fazer música com os seus tambores de osso e pele plissada, cozinhar e ceder aos seus prazeres lascivamente mundanos. Língua de Ferro agradecia tais distrações. Podiam favorecê-lo nos seus planos.

― O que faz aqui? ― perguntou.

Língua de Ferro aproximou-se e sentiu no ar a doce fragrância a alfazema e a incensos que brotava do interior da tenda. Sondou na sua direção e o perfume agradou-lhe. O próprio corpo de Ravella, definido em músculos e curvas estonteantes, jorrava de odores almiscarados, e brilhava com a película de óleos e essências com que se banhara.

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Jovem (Fonte: wall.alphacoders.com)

― Esperava que Vance te tivesse contado. Vocês agora não são íntimos? ― perguntou, num misto de diversão e ciúme. ― Não era à sua procura que ias agora mesmo, para o trazer para a tua cama?

A uraniana meneou a cabeça, como se isso não importasse.

― O que é que Jupett tem a ver com isto? ― Abriu a aba da sua tenda, e convidou-o a entrar com a cabeça. ― Venha, não vai querer que o vejam.

― É, talvez, um pouco tarde para isso ― disse, ao baixar a cabeça para entrar no pavilhão.

Foi recebido por um mundo de sombras opacas. Um braseiro estava aceso ao centro da tenda, borbulhando de óleos. As suas flamas pareciam dedos de danados em busca de uma fuga ao tormento do Inferno. Quando o seu olhar se adaptou à luminosidade, reconheceu a amplitude e os detalhes daquele lugar. Colgaduras em pele de tigre e rolos de seda enriqueciam a divisão, enquanto uma tela de acácia servia de suporte a uma bonita aguarela que mostrava o porto de Constania nos seus dias áureos, antes da Seca. Um compartimento fechado a biombos não ocultava os tapetes vistosos nem os colchões felpudos e almofadas que compunham o leito noturno de Ravella. À passagem para o seu íntimo, montava guarda um par de panteras em calcário. Língua de Ferro aprovou a riqueza do seu pavilhão.

― Quem és tu, afinal, para mereceres tamanho luxo? ― perguntou com sinceridade.

― Sou a esposa do comandante, o seu amuleto de fortuna. É tudo o que precisais saber ― disse ela enquanto fechava a aba da tenda com um atilho de cânhamo. Virou-se para ele com austeridade. ― Quando ele me disse que era agora também um instrumento, não imaginei que ficasse também… assim.

Ela estava a referir-se ao vazio no seu olhar, e falava-o com algum constrangimento e pena, o que revelava a sua inocência naquele assunto. Podia estar a referir-se a qualquer outra coisa.

― Conhecias Vance antes do nosso primeiro encontro? Antes de Rivia?

Língua de Ferro não se coibiu a esclarecer uma das suas maiores dúvidas. Tanto Ravella como Vance eram originários da vasta província setentrional do Urão, onde as pessoas nasciam pálidas, fruto da volatilidade do sol sob as montanhas, mas seria apenas isso a unir aqueles dois? No seu íntimo, sentiu o desconforto de Ravella em abordar aquele tema. Moveu-se, graciosa como uma pantera, de um lado para o outro, abrindo uma garrafa de um vinho aguado que verteu por duas canecas, regressando com ambas. O salteador segurou a que ela lhe ofereceu e interpretou a sua inquietude como uma ameaça à confiança estabelecida entre ela e Jupett Vance.

Pareceu refletir na questão enquanto beberricou da sua caneca, debicando como um passarinho. Língua de Ferro esperou pela resposta, envolvendo o receptáculo de barro com as duas mãos.

― Só conheci Jupett em Rhove, mas foi como se nos conhecêssemos desde sempre. Para além de partilharmos a mesma origem, ele impediu que alguns bárbaros me estuprassem. Por alguma razão, ele viu algo em mim. Nas mãos de Mario Bortoli, nenhuma mulher vale mais que um objeto, que se usa e dispensa a seu bel-prazer. Jupett tratou-me como uma princesa.

Língua de Ferro assentiu com a cabeça, mas sentia que ela lhe escondia algo.

― Talvez porque ambos partilharam segredos, parece-me. Há algo que escondeste de mim, durante todo o tempo que estivemos juntos.

Ravella cuspiu para os seus pés.

― O tempo em que estive consigo? Depois que me levou de Rivia como uma escrava? Uma escrava que eu era, porque todos me viam assim? Levou-me em troca dos meus conhecimentos sobre Regan…

Língua de Ferro sentiu o azedume na sua voz, mas não se sentiu ofendido.

― É tarde demais para recriminações. A nossa relação não foi apenas um negócio, e ambos sabemos disso. Como também sabemos o que significamos um para o outro. Ambos amámos aquele homem, cada um à sua maneira.

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Guerreiro (Fonte: wallpapercave.com)

Aquilo quase fê-la engasgar-se. Engoliu o vinho e tossicou, antes de limpar os lábios com o antebraço e avançar um passo com o indicador em riste.

― Não, Língua de Ferro. Se admirou um homem, esse homem era Dzanela. Um salteador, um criminoso. Eu amei Regan, o homem.

― Um moribundo ― corrigiu.

― Um homem vivo ― sublinhou Ravella. ― Antes de Jupett Vance, foi o único homem que me tratou como uma mulher.

Língua de Ferro sorriu diante do insulto.

― Que seja. Antes de morrer, Regan contou-te um segredo. Foi esse segredo que contaste a Vance e foi isso que te fez cair nas suas boas graças. Quero saber que segredo foi esse.

Ela pareceu hesitar.

― Sander Camilli usou Allen para chantagear Regan, até lançar-lhe uma perseguição que acabou às portas de Selaba. Só isso. Jupett não me tratou melhor por saber disso, calculo.

Língua de Ferro assentiu.

― Mentes. És uma mentirosa, Ravella.

O olhar dela revelou incompreensão. E se ela não estiver a mentir?, pensou.

― Tudo o que sei é que amava aquele homem, e amo-o como nunca amarei outro.

― Nem mesmo Vance?

― Nem mesmo Vance. Mas estarei com ele até ao fim, para levar justiça ao seu carrasco.

Língua de Ferro suspirou profundamente.

― Pretendes matar Sander Camilli, então.

― Não foi Sander Camilli quem matou Regan, Leidviges Valentina ― disse uma voz da aba da tenda.

Jupett Vance.

Antes sequer de pensar na discrição do homem em abrir a aba que Ravella tão afincadamente se esforçara por amarrar, Língua de Ferro viu-o a erguê-la, para revelar as luzes de tochas em punho que passavam atrás de si. Vozes que não passavam de sussurros aos seus ouvidos apurados revelavam-se agora demasiado próximas para que as ignorasse. Um linguajar de homens hostis. Clarões dourados recortaram sombras na calva de Vance Cego quando ele baixou a aba e disse, com aparente serenidade:

― Há uma saída secreta do outro lado da tenda. Bortoli já sabe que estás aqui. Não te esqueças daquilo que és, um instrumento da essência. Ainda não o compreendeste na totalidade, mas não te admoesto por isso. Fui treinado desde criança para o que fiz e virei a fazer, e em alguns momentos até eu reservo para mim certas dúvidas. Mas terás de ultrapassar a tua ignorância em relação a certos assuntos. A compreensão está vedada a alguns instrumentos. Basta que deixes a aceitação serenar-te o espírito. Somos ajuramentados, tu e eu. Sabes o que tens a fazer, e isso deve chegar-te.

O tom impositivo com que falou não deixou margem para discussões. Língua de Ferro fitou o seu rosto sereno e olhar branco, tão enigmático como sempre o fora. Depois, volveu para Ravella, tão bela quanto confusa e envergonhada, e sentiu algum despeito por aquilo que lhe era vedado. Sentiu-se afastado de algo que lhe devia pertencer. Ravella avançou à sua frente para lhe indicar a saída secreta do pavilhão e ele seguiu-a, estudando os contornos ágeis do seu corpo e desejando-o para si. Não lhe dirigiu qualquer palavra ou olhar quando ela abriu uma orla de tecido descosido nos fundos da tenda e tocou-lhe na omoplata para o ajudar a sair. O toque teve o sabor de uma bênção.

Saiu para o exterior e não a voltou a ver. Homens armados de lanças e alabardas corriam para um lado e para o outro, vasculhando o acampamento à sua procura. Vance tinha razão. Não era hora para revolver o passado em busca de respostas. Havia trabalho a fazer. Havia um cerco a quebrar. No entanto, aquela frase pairava-lhe na mente. Não foi Sander Camilli quem matou Regan.
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Estou no Wattpad #21

Com algumas horas de atraso em relação ao que vos habituei, chega agora o capítulo 21 de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, a minha história de leitura online. No último capítulo assistimos a um confronto entre os deuses renascidos e a essência, através dos corpos de Língua de Ferro e Anéis da Morte. Depois de ter abandonado os Poços ao cuidado de Seji e Tayscar, o anti-herói avançou para a cidade de Chrygia com as duas filhas de Lucilla e Eduarda. O que o esperará nessa cidade sob cerco? Espero que gostem.

CAPÍTULO VINTE E UM: CERCO MONTADO

“O nome dele era Gero. Encontrara-me quase morto sobre o cadáver de um boi e levara-me para o solar dos seus patrões, ali perto. Estava em Sinara, uma província despida de riquezas ou preconceitos, mas bem almofadada a frutos do campo. Até ali, a terra tinha sido fértil, mas todos sabiam que não seria assim por muito mais tempo. O futuro era um desafio para todos nós. Nós, os que sobrevivíamos da água. Gero revelou-se um tipo cortês, pouco dado a conversas, o que não o abstinha de se revelar gentil, quando podia. Manteve-me escondido naquela estrebaria, alimentado a batatas meio apodrecidas e a nacos de carne cheios de sal, já orlados de bolor. Via na expressão dele o quanto lhe custava, alimentar-me assim. Algo dentro de mim nutria alguma simpatia pelo homem, mas isso não me coibiu a fazer o que fiz. Hije era um dos seis diabos sob aquele teto de madeira. Pertenciam a El Roq’ia, o fazendeiro. Certa noite, acordei com o cheiro a óleo a arder. Aproximei-me da janela e vi que eram eles, quem se aproximava. Gero, e Roq’ia, o seu patrão. Consigo, trinta capangas, bem armados com bacamartes e tochas em punho. Gero parecia envergonhado quando escancarou a porta e o luar lhe orlou o rosto com sinais de tristeza. Chamou por mim com cautela, mas eu sabia que era uma armadilha. Tudo na minha vida, até ali, tinha sido uma armadilha. Sabia que usá-lo como refém não me salvaria a vida, pois não passava de um capataz. Só um capataz. Assim que o asfixiei com as minhas próprias mãos, libertei Hije e saltei para o seu dorso. Fugi dali por entre disparos e nuvens de fumo, com mais de uma vintena de homens no meu encalço. De nada lhes adiantou. Quando me fecharam os canais de fuga e me vi cercado, fui obrigado a desembainhar Apalasi e a matar. Roq’ia foi o último a morrer. Cortei-lhe a língua e as pontas dos dedos, e deixei-o amarrado, enquanto me via a matar a mulher e as filhas. Quis que ele me visse a violá-las, mas não consegui fazê-lo. Algo dentro de mim renegava o ato de estupro, ainda que isso não fosse perdão para os meus atos.”

― Onde é que está esse músculo? Entre as pernas? Vamos lá a trabalhar ― gritava Opyas “Boca de Sapo” Raymon aos rhovianos que escavavam terra de forma a gerar uma vala comum. Corpos eram atirados para o interior. Eram corpos de nómadas, os donos do acampamento que a horda de Mario Bortoli engolira com a sua crueldade. Trinta metros a ocidente, erguiam-se as torres e minaretes imponentes de Chrygia, a capital do Império, rodeados por uma muralha de pedra com mais de duzentos metros de altura. Uma outra circunferência sitiava a cidade. O exército de Bortoli.

Era princípio de tarde e estava um calor infernal. Cheirava a pele de animal recentemente esfolada, ou seja, cheirava verdadeiramente mal. Empecilho apareceu sem sobreaviso, com um manto em pele de cabril atirado sobre um ombro e umas calças de couro que lhe davam um pouco abaixo dos joelhos. Sandálias do mesmo material protegiam-lhe os pés. Era escoltado por um par de rhovianos de rostos chupados e expressões terríveis, que o encaminhavam para uma das tendas quando quase tropeçaram em Raymon.

― Empecilho, miúdo, o que raio estás aqui a fazer?

― Como estás, Boca de Sapo?

O homem estreitou os lábios grossos numa expressão surpresa.

― Digamos que me puseram a orientar a mão-de-obra. De vez em quando encontramos um camelo ou uma cabra mumificada, mas podia estar pior, a trabalhar couros em Veza. Bortoli é generoso. ― Piscou-lhe o olho. Havia algo naquela voz que lhe soava a irónico. O homem estava em tronco nu, com a camada de pelos negros colados à pele coriácea pelo suor. Calças de samito cobriam-no até aos pés peludos e descalços. ― E tu, miúdo? Pensava que Bortoli te tinha deixado em Ccantia…

― E deixou. Vance Cego deixou-me como espião. Venho trazer as notícias que tenho para eles.

Raymon esfregou o próprio ombro com a mão direita e resmoneou algo entredentes, como se algo ali não lhe agradasse. Deitou um olhar de través a Empecilho e deixou-os passar com um “boa sorte” sussurrado.

Sem título
Fantasy Sand City (Fonte: pinterest)

Chegaram ao pavilhão de cetim mais exuberante do acampamento, com faixas de pano de ouro a esvoaçar sobre alabardas esculpidas em osso, e um par de indígenas rezolis a margear a aba de pano que dava acesso à tenda. Os rhovianos trocaram três palavras com os rezoli num idioma ininteligível para Empecilho e pouco depois um dos guardas retirou-se para o interior, regressando pouco depois com um assentimento de cabeça. Os rhovianos passaram por eles, arrastando Empecilho pelos braços.

O interior do pavilhão regurgitava de odores. Mel, óleo a arder, enxofre, alfazema. Uma mistura de perfumes que tentava disfarçar, com algum êxito, na verdade, os odores nauseabundos do exterior. Havia um silêncio desmoralizador naquela tenda. Uma quietude envolvente, sugestivamente precária. Era uma montanha em risco de desabar. Não registara vento no exterior, por isso era fácil perceber porque é que os foles de cetim não se moviam, mas não ouvia palavras ali dentro. As bocas estavam fechadas, os olhares postos num tripé de ferro, com juntas castanhas de ferrugem. Uma mulher de joelhos tinha os punhos agrilhoados ao tripé, acima da sua cabeça. Mantinha a cabeça pendurada para o peito, com os cabelos castanhos a cobrirem-lhe a maior parte do rosto cor de cacau. Estava nua.

À sua frente, Mario Bortoli mantinha-se afundado numa meia dúzia de almofadas, beberricando de um cálice que não podia ser maior que um dedal. Uma garrafa de vidro esmaltado repousava ao seu colo. Jupett Vance mantinha-se de pé à sua direita, com Ravella logo atrás. Mantinha uma expressão pensativa e, até certo ponto, pesarosa. As sobrancelhas tocavam-se, formando um ângulo expectante. O silêncio foi apagado com o pigarrear de um homem de meia-idade, tão escuro e tão nu como a mulher de joelhos. O torso magríssimo destacava-lhe o par de costelas e as pernas exangues estavam cobertas de varizes. Um rhoviano mantinha uma faca afiada abaixo do seu queixo, onde uma barbela flácida parecia uma bandeira a pender de uma haste.

Podia ser uma tarde normalmente agitada, mas o silêncio fazia das horas sombrias. Ninguém pareceu dar pela presença de Empecilho, muito embora a sua presença tivesse sido autorizada. Por incrível que fosse, foi o indígena sob coação quem lançou ao rapaz o primeiro olhar, um olhar aflitivo e sugestivo, com uma chuva de súplicas. Nenhuma lhe podia valer. Se houvesse um homem que o pudesse salvar da morte certa, Empecilho não seria esse homem.

O silêncio foi quebrado pela voz do indivíduo, como o tinir de uma peça de xadrez a cair de um tabuleiro:

― Se fizerem mal a Xamandra, as lágrimas de Ke cairão sobre vós! Ela é a filha de Kaxã, o ancião dos mioru. E é filha de Kima, a que descende do deus. Ele virá, degrau sobre degrau, dos avós aos netos, e neles calcará a espora que os fará falar por si. Lanças de prata esventrarão as vossas mulheres quando dos seus ventres penderem os vossos rebentos.

― O que dizes, pagão? ― perguntou Bortoli com uma gargalhada.

O homem atreveu-se a sorrir, embora soubesse que ia morrer. A bravata não escondia o terror no seu olhar.

― Quando esperarem receber nos braços os vossos filhos, das pernas das vossas mulheres jorrará estrume de cavalo. Quando vos julgares fausto no vosso trono de verga, a tosse de sangue ocupar-se-á de vós. Quando fordes…

― Levem-no! ― gritou Bortoli. ― Cortem-lhe os testículos e queimem-no para lhe fechar a ferida. Quero-o vivo, para que saiba o que é sofrer.

O humor desaparecera na voz de barítono de Mario Bortoli. Empecilho sabia que Bortoli estava a oferecer ao indígena a sua própria dor, uma vez que vivera frustrado pela lesão sexual provocada por Língua de Ferro. Nunca seria pai, mas o indígena não sabia disso e as suas pragas tinham surtido um efeito talvez mais terrível do que pretendera. Um rhoviano levou o homem, que esbracejava e grunhia enquanto passou por Empecilho e lhe lançou um olhar que tanto pareceu de súplica, quanto de ironia. Os homens vêm aquilo que querem ver, pensava Empecilho, relembrando-se das palavras do seu pai. Estranhamente, da última vez que cruzou o olhar com o homem, aquilo que viu nele foi uma espécie de diversão.

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Príncipe da Pérsia (Fonte: izabela-wilson.deviantart.com)

― Um absurdo. Isto é obsceno ― disse Mario Bortoli ao erguer-se. Vestia um manto verde com pregas castanhas coladas às mangas. Parecia ofendido. Pegou no queixo da mulher sob o tripé e puxou-lhe a cabeça para cima.

Os cabelos espalharam-se pelo rosto e Empecilho viu a sua expressão angular franzir-se de horror. Os seus olhos eram grandes e expressivos, com uma cor incomum. Dourados. A pele negra como teca parecia brilhar à luz de um braseiro aceso junto ao tripé, completando uma beleza exótica que o rapaz nunca testemunhara. Viu Bortoli a beliscar-lhe um mamilo pontudo e a sorrir lascivamente para ela.

― És tu, quem aquele homem chamou de Xamandra? És mesmo descendente de um deus qualquer, como ele disse? ― Soltou uma gargalhada, com os lábios a abrirem-se numa expressão que mal disfarçava o azedume ali implícito. ― Devias ter ouvido falar de mim. Das orgias de sangue que provoquei. Dos gritos de prazer que soltei enquanto via homens meus a estuprar mulheres mais feias do que tu. Devias ter ouvido falar de Mario Bortoli. Roubaram-me muito, nesta vida, mas não me roubarão os prazeres sádicos de um sátrapa. Comecei como salteador, mas ascendi a mecenas numa das cidades mais importantes de um império. Depois, veio a revolução e tomei-lhe a face. Amanhã, serei Imperador.

Pesou-lhe o seio e soltou uma risadinha. A mulher não demonstrou reação, e isso não o satisfez. Deu-lhe um estalo com as costas da mão, da esquerda para a direita, e o estalido que se fez ouvir não foi simpático. O rosto da mulher virou-se para a direita, mas nenhuma marca pareceu revelar-se no momento. Abriu-lhe o lábio, porém, e um fino filete de sangue escorreu-lhe pelo queixo. Pela primeira vez, a mulher lançou-lhe um olhar com significado legível. Uma expressão ameaçadora. Aquilo perturbou Bortoli, porque voltou-se repentinamente para Empecilho e perguntou:

― Então, rapaz? O que tens para mim?

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Mistborn fan art (Fonte: Lexi Gold)

― Com que então, Eduarda rumou aos Poços… ― Bortoli cofiava o queixo, caminhando de um lado para o outro. ― Aquele mísero bastardo!

Com um passo assertivo, Jupett Vance aproximou-se e Ravella seguiu-o como uma sombra. O homem dirigiu o olhar cego para Empecilho, mas foi para Bortoli que falou:

― Como lhe adverti, Língua de Ferro e Eduarda estarão ocupados com os Poços por um bom tempo. Não serão estorvo na vossa empresa.

Bortoli permaneceu um momento em silêncio, a acariciar os pelos hirsutos que lhe despontavam do queixo.

― Preferia que estivessem mortos! Já deviam estar mortos por esta altura. Neste momento, tenho muito mais com que me preocupar. Aposto um polegar em como os cães grandes da cidade não conseguem pregar olho a pensar em como quebrar este cerco. Devem ter enviado todos os homens sãos para a muralha. Devem ter contratado rapazes para separar munições e velhos para racionar pólvora. Mulheres foram pagas para fazer sopa aos patrulheiros, e outras para lhes aquecerem a cama. Algumas para ambos os ofícios. Uma aposta em como foder-me tornou-se o principal meio de subsistência para o povo de Chrygia. Uma aposta em como Camilli se revira na cama, alagado em suor, pensando em quebrar-nos. Ele não faz ideia de que o demónio em pessoa irá reclamar o Império para si.

O demónio em pessoa. Empecilho sentiu-se ligeiramente divertido ao perceber a forma destrutiva como Bortoli falava de si próprio. Também recordou-se que Língua de Ferro falava do seu polegar como um amuleto da sorte. Parecia algo que ambos aprenderam em conjunto, a avaliar o modo como Bortoli apostava o seu. Bortoli virou-se para Vance e colocou-lhe uma mão no ombro.

― Confio em ti, Vance! Venceremos este cerco.

Jupett Vance sorriu, abrindo as rugas de expressão em volta dos olhos e dos lábios.

― Venceremos, senhor. A essência assim o prediz. Os tempos errados estão a terminar: um trovão de ferro, uma vertigem de seda e um oscilar de ancas prenunciam a nova era. Um mar internar-se-á na cidade de prata, para transformar a sala do trono numa sepultura de água.

Empecilho estremeceu com as palavras. Mais do que as palavras, fora a forma como Vance as proferiu, estante que nem um fuso e num tom profético, o que lançou um tom críptico à frase. Bortoli pareceu igualmente inquieto, e não parecia ter alguma vez ouvido aquelas palavras.

― O meu exército ― disse, levando as mãos ao peito com fervor ― , será esse mar de que falais. E dessa sepultura aquática farei eu um novo Império.

Vance rodou a cabeça na sua direção, satisfeito.

― Descanse, senhor! As profecias falam por si. Há quem diga que o céu é um reflexo da terra. As nuvens podem não ser tão saborosas como um bolo de arroz, mas os seus habitantes não se parecem queixar. Há em cada tom um aspeto da nossa vida, e em cada grau de luz um pormenor da nossa complexidade. Somos seres pensantes, e isso pode tornar-nos pedantes diante da natureza. Se ter o dom de perguntar é uma dádiva, julgar-nos omniscientes conduz-nos a uma ignorância consentida. Não há grande esperteza, em viver empertigado como um sábio. Talvez por isso, hajam tantos. – Franziu o sobrolho. – E tão poucos.

― Ás vezes confundes-me.

Vance respondeu com um sorriso à apreensão do seu soberano.

― A nossa mensagem está quase pronta a ser entregue.

Com uma gargalhada estrondosa, Bortoli bateu-lhe na omoplata. Empecilho enrugou a testa, confuso.

― Vivo? ― perguntou Bortoli.

― Descanse. Sei como realizar um exercício de tortura pelos meios mais terríveis e manter um homem vivo. Allen sobreviverá, prego após prego. O que ele sabe é um perigo para nós. Se nada souber, poderá ser uma oportunidade.

Nem Bortoli nem Empecilho pareceram descansados quanto a isso. Allen… O rapaz ganhava coragem para perguntar por Allen quando a mulher sob o tripé grunhiu e cuspiu uma algaraviada qualquer, que ninguém pareceu compreender no momento. Vance aproximou-se da mulher e acocorou-se à sua frente. A mulher encolheu-se sob o seu olhar branco e, por um instante, também os seus olhos pareceram leitosos e marginados por sombras brancas. Quando se reestabeleceu, ficou em pele de galinha, encolhida em si mesma.

― Este homem ― disse na língua franca ― é um arauto das chamas brancas. Ele carrega consigo o terror dos homens. Evitem-no. Fujam dele.

Mario Bortoli engoliu o seu próprio terror e aproximou-se deles com passos decididos. Afastou Vance da mulher e sorriu para ela.

― Xamandra, Xamandra! Se este homem é aquilo que dizes, então quem devia querer fugir eras tu. Porque ele está comigo e juntos somos poder.

― O poder atrai inimigos ― atreveu-se Empecilho. Todos os olhos voltaram-se de súbito para ele. Ravella censurava o seu atrevimento com o olhar. Vance sorriu. Bortoli pareceu desagradado. Xamandra terrificada.

― O homem que levastes, senhor ― disse a mulher ― é o meu esposo. Um homem de pecados. Estou prometida a ele desde os oito anos de idade. Nunca me tocou. Ke perdoá-lo-á. A vós, homem gordo e sádico, o meu deus sangrar-vos-á até os gritos vos queimarem a garganta.

Bortoli cuspiu-lhe em cima com repugnância.

― Pára com isso, cabra. Os deuses estão mortos. Todos eles.

Xamandra voltou o olhar para Vance com um sorriso.

― Oh, é mesmo? Os deuses morrem e voltam a nascer das suas cinzas. Afinal de contas, não é por isso que aqui estás, arauto?

― A essência o prediz ― repetiu Vance.

Com um laivo de fúria, Mario Bortoli desembainhou uma faca do seu cinto e enterrou-a no crânio da mulher, pela têmpora esquerda. Ela fechou os olhos antes de sentir a lâmina, fria, a enterrar-se-lhe no couro cabeludo. A faca ficou ali, com o sangue a cair em pasta, avermelhando-lhe os cabelos.

Ravella pôs uma mão à boca, indisposta. Empecilho fechou os olhos.

Vance assentiu.

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Conan, o Bárbaro (Fonte: pinterest)

Empecilho foi dispensado pouco depois. Vance juntou-se-lhe quando estavam a fazer cama junto a uma fogueira, e acocorou-se ao seu lado, a limpar as unhas com uma faca afiada. Os reflexos das labaredas orlavam-lhe o rosto de tons quentes, laranjas e vermelhos. Os seus dedos de fogo pareciam querer alcançá-lo, em vão. Suor e calor agarravam-se ao ar, evolados em nuvens de fumo.

― Fizeste um bom trabalho, rapaz… A essência agradece.

O rapaz estudou-lhe o rosto. Não lhe agradava fazer o que o homem lhe mandava, em especial se isso significava trair Língua de Ferro. Ainda assim, nada devia a Merren “Anéis da Morte” Eduarda nem a Dagias Marovarola. Eram homens cruéis, todos eles. O próprio Língua de Ferro era um homem cruel, muito embora já lhe tivesse salvo a vida mais do que uma vez. Uma moeda de ouro surgiu como por magia na mão de Jupett Vance. Voltou-a para baixo e ficou colada na palma. Passado um pouco, caiu sem qualquer som na areia quente. Empecilho cobriu-a de imediato, olhando por cima dos ombros para perceber se alguns dos homens que andavam para cá e para lá o teriam testemunhado. Fechou a mão sem pontas de dedos na moeda, e sentiu o calor da areia e o frio do ouro. Guardou a moeda numa bolsa.

― Espero que o meu testemunho não prejudique Língua de Ferro.

Vance ampliou os lábios sem humor, com o olhar branco concentrado nas labaredas.

― Língua de Ferro não terá problemas, rapaz. Ele é um instrumento. Apenas e só um instrumento. Apenas aqueles que não pretendem servir a essência terão algo a temer.

― A essência. Tanto que fala na essência. Quem raios é ela?

― É tão difícil compreender a essência como é difícil cheirar a lua. É como compreender um trava-línguas enlouquecido. Um sussurro de gargantas mortas, aflitivo como um estertor de moribundo. Gostava de te dizer que ela tem cor, sexo ou cara. Não tem. Tem os seus toques de humor, uma construção mental, os seus laivos de violência e quando achas que a podes subestimar, que baixou as barreiras defensivas, habilitas-te a perder a cabeça – literalmente – enquanto dormes. Ela possui toda a magia de que podes imaginar, mas não penses que se trata de um feiticeiro com os seus grimórios e arsenal de magias. Ela controla o mundo e pode viciar-te em quebra-cabeças do mesmo modo que te pode viciar em drogas. Ela controla o curso do vento da mesma forma que controla seitas e políticos. Ela manobra as feitiçarias dos homens em seu proveito. Ah, e tem a sua própria justiça, mais efetiva que a dos homens, o seu mistério e a sua superstição. Podes procurá-la durante toda a vida e morrer sem a encontrar. Tentar conhecê-la é como tentar descobrir o assassino num romance policial, com a diferença de que podes chegar ao fim sem a ter descoberto. Destila preocupação como suor, mas se és tu o motivo, não preciso de dizer quem deve ficar preocupado.

Empecilho engoliu em seco e fez que sim com a cabeça.

Encontrou Allen ao cair da noite, já a maior parte dos homens tinham-se aglomerado em volta das fogueiras para a refeição noturna. Estava amarrado a uma grande cruz de madeira, uma trave maciça sobre um poste de quase quatro metros. Sem qualquer roupa, o homem que fora o rosto de Landon X tinha as mãos e os pés unidos à madeira por pregos, e chagas de sangue percorriam o seu próprio corpo. Um feixe de sangue já seco percorria-lhe o rosto, e tinha feridas a gangrenar. O sol diurno queimara-lhe a pele em muitas áreas. Pequenos penachos de fumo pareciam manar do seu corpo. Compadeceu-se dele.

― Allen.

O homem oscilava entre o delírio e a inconsciência, mas por um segundo pareceu mover a cabeça na sua direção, quando Empecilho caiu de joelhos aos pés da cruz.

― Allen, o que é que te fizeram?

Estavam longe dos pavilhões mais imponentes, numa espécie de descampado entre os maiores aglomerados do acampamento.

― Fizeram-lhe o que te farão a ti ou a mim, se representarmos uma pequena ameaça para os seus desígnios. ― A voz que ouviu, atrás de si, era-lhe familiar. ― Esta noite, Empecilho, quebrarei o cerco a Chrygia e serei recordado como um herói.

Empecilho voltou-se subitamente, ainda confuso. Cambaleou antes de se apoiar na areia e reerguer-se. Reconhecera-lhe primeiro a voz, depois o torso musculado e por fim o cabelo, apanhado num rabo-de-cavalo atrás da nuca. Fiapos de barba azul-turquesa derramavam-se-lhe do queixo vigoroso. Tinha os olhos vazios.

Era Língua de Ferro.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um

Estou no Wattpad #20

Estamos a entrar na reta final de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer. O nosso protagonista chegou aos Poços e encontrou as filhas de Lucilla presas nas cisternas. Mas um mal muito antigo revelou-se. Língua de Ferro foi finalmente reclamado pela essência, revelando-se preparado para um embate que poderá ser-lhe trágico. A chegada de Merren “Anéis da Morte” Eduarda fará pender os pratos da balança?

CAPÍTULO VINTE: APALASI

“Segurava Apalasi com todas as minhas forças. Via as linhas venosas a percorrer os meus braços como serpentes, terminando na base do pulso, numa lamela de rugas que mais pareciam cicatrizes. Apalasi. Significava Língua de Ferro no antigo idioma rezoli. Com o passar dos anos, outros significados foram-lhe atribuídos. Língua Morta de Reis, Martelo dos Deuses ou Mijo dos Deuses foram significados soprados por vozes leigas. Diziam que havia sido forjada a partir da urina congelada de um deus. Ainda me rio desses boatos. Sei o que ela é. Uma bela espada, forjada a partir de duas lâminas menores, dobrada cem vezes sobre si mesma, por um célebre ferreiro uraniano chamado Qizello. Oferecida ao meu pai antes de eu ter nascido. Lembrar-me das minhas raízes enrola-me os cordões intestinais num nó cego. O passado não era coisa que eu gostava de me recordar. Agora, não era mais necessário. Tudo o que fazia por norma tinha um propósito. Naquele dia, os meus propósitos estavam embotados. Rugi como um diabo e movi os braços da esquerda para a direita. O boi caiu ao meu golpe. O seu cheiro impregnou-se em mim com tanta potência, que não pensei em vomitar. Fi-lo, e caí sobre o cadáver do bovino. Antes, estava no que parecia uma fazenda. Depois, quando acordei, parecia estar num palheiro, ou num estábulo, não consegui decifrar. Cheirava a feno velho, mas não a cavalos. Era outra coisa. Animalesca. Cruel. Uma língua vermelha lambeu-me o rosto. Alguém me havia levado até ali, disso não restavam dúvidas. Quando ergui os olhos, percebi que a língua que me havia despertado pertencia a um diabo. Sim. Foi naquela manhã que conheci Hije.”

Os seus olhos brancos não estavam cegos. Conseguia ver na perfeição tudo à sua volta, como se o sol tivesse vencido a noite e irrompido por todos os poros daquela cisterna. Via tanto os detalhes interiores, como exteriores. Cada fragmento de pó a levitar no ar, cada pedaço de textura do ferro que forrava as cisternas. A água morta no seu interior. A sua cor. A sua temperatura. Fria.

― Val! És tu?

Foi com uma tristeza imensa que soube que o iria matar naquela noite. Um rival terrível que se transformara num amigo. O Fluído assim o exigia. Estava escrito nas estrelas. Língua de Ferro sabia daquilo e não conseguia lutar contra isso. Não conseguia e não queria. Era como se o tivesse aceite. Seria essa aceitação e compreensão aquilo que Vance sentia? Sou um instrumento, pensou Língua de Ferro, ao perceber que estava a ser utilizado por uma força maior. Viu Eduarda na perfeição quando ele chegou à plataforma onde o esperava. Vestido de gibão negro, com uma espada embainhada à cintura. Tinha aqueles olhos negros como a morte cheios de dúvida e temor. Partira com uma caravana de Ccantia, desejoso de recuperar as suas filhas. Língua de Ferro rumara até ali para fazer o mesmo. Agora sabia que não. Sabia que o seu propósito mudara, porque estava a ser coagido a isso. Vance Cego empurrara-o para ali porque sabia que ele iria impedir Eduarda de cumprir o seu propósito. Teria também Sander Camilli sido influenciado pela entidade que os coagia, a aprisionar ali as crianças?

Inicialmente, partira do princípio que Camilli colocara a vida das meninas em risco como uma rédea para os movimentos de Lucilla e Eduarda, tal como fizera com Allen para constranger Dzanela. Talvez fosse a mesma técnica. Talvez fosse um dois em um. Na verdade, isso pouco importava. Pegara em Apalasi antes que Eduarda o encontrasse com o olhar. Não era fácil detetar alguém naquela escuridão, mas Língua de Ferro não era tão pequeno que não se conseguisse ver.

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Soldado (pinterest)

― Valentina, graças aos deuses! Não pensei que cá chegasses primeiro. Não imaginas como fiquei aliviado quando vi Hije nas redondezas.

Graças aos deuses, pensou Língua de Ferro. Pertinente.

― As tuas filhas estão aqui ― disse sem humor. Viu os ombros de Eduarda crescerem e diminuírem de tensão e alívio. O seu coração pareceu esvaziar toda a pressão existente.

― Foste tu que provocaste toda aquela confusão lá em baixo? Bom trabalho, Val. Onde estão as minhas meninas? Precisamos libertá-las.

Eduarda virou-lhe costas à procura das filhas e Língua de Ferro fitou a menina possuída por um deus chamado Profundo. O pai precisaria de mais algum tempo até encontrá-la com o olhar. Quando a encontrou, ela tinha a cabeça caída para baixo e parecia debilitada.

― Pelos malditos infernos… Aquele cão. Ajuda-me a tirá-la dali, Valentina!

― Não vou fazer isso, Anéis da Morte ― disse, sem contemplações.

― O quê?!

Eduarda ampliou os olhos de terror. Mesmo com a aproximação, não conseguia ver que os olhos de Língua de Ferro estavam brancos. Ainda assim, o azedume na sua voz não o deixava enganar-se. Aquele homem não o iria ajudar.

― Aquelas crianças não são o que pensas, Eduarda ― disse com tato. ― Não são mais as tuas filhas.

O olhar de Eduarda aprofundou-se. Terríveis sulcos pareceram abrir-se-lhe à volta dos olhos. A sua mão deslizou imediatamente para a empunhadura da espada na anca esquerda.

― O que se passa, Val?! Estás feito com Camilli, é isso?! O que te ofereceu ele?! Eu ofereci-te o Império, o que pode ser mais valioso do que isso?

O que pode ser mais valioso do que isso?, perguntou Língua de Ferro a si próprio.

― Nasci no seio de uma família nómada. Um dia, atacamos uma caravana imperial para a roubar, porque o meu pai fizera alguns trabalhos para o Império, como batedor e, por isso, conhecia as estradas que percorriam. Nesses tempos, foi-lhe entregue Apalasi. Foi-lhe entregue ou roubou-a, nunca quis saber. Nunca tínhamos sido tão pouco subtis, mas a necessidade obrigou-nos a isso. Passamos por períodos difíceis, nos desertos; a fome é uma coisa tramada. Matamo-los a todos. Eu tinha dez anos quando a minha mãe tentou matar-me, para comer a minha carne. O pai tentou impedi-la, e ao fazê-lo, morreu com um punhal na curva do pescoço. Aproveitei a distração para a matar. Eu tinha duas opções: apertar uma faixa de couro que tinha à mão sobre a sua garganta não seria exequível. Não tinha força de braços para a asfixiar antes que ela ganhasse controlo sobre a situação. Rastejei até Apalasi e tentei fugir da minha mãe. Esperei que ela me alcançasse, voraz e cheia de pragas nos lábios, para a fazer tropeçar. Caiu sobre mim e morreu varada na espada. Foi a primeira vez que matei. Ainda hoje tenho pesadelos com a baba dela, a gotejar sangue sobre a minha testa, os lábios a tremelicar e a sussurrar que eu era o reles de um bastardo. Sobrevivi sozinho, por uns bons tempos, depois disso. Enfim, como vês, nem eu nem a minha espada temos grande paciência para dramas familiares. E o Império? Não preciso de ti para o subjugar. Conquista os Poços; Conquista o Império, nunca ouviste o chavão?

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O Poço da Ascensão: Mistborn (Jon Foster)

Eduarda ainda estava em choque quando disse:

― A tua mãe tinha razão.

― Ah, sim?

― Sim, não passas do reles de um bastardo!

Nesse momento, a cabeça da rapariga na cisterna ergueu-se com um sorriso. Abriu a boca, e de entre os seus lábios jorraram fumos negros como piche. Línguas fumarentas percorreram o poço na direção dos dois, e quando os alcançaram pareciam tentáculos de uma massa viscosa e irreal. Os braços de terror abriram-se como uma teia de aranha em direção às costas de Eduarda, que se sentiu impelido para a frente, mas quando parecia cair foi suspenso por aquela mesma massa fétida. Eduarda fechou os olhos e soltou um grito, as suas mãos abriram-se sem força e sentiu a massa a subir-lhe a coluna vertebral até à nuca, e da nuca ao topo da cabeça, até lhe chegar à testa. Língua de Ferro fitou aquilo com surpresa. O que se assemelhava a uma mão negra passeava-se na testa de Merren Eduarda, até que encontrou os seus orifícios oculares e toda a massa negra se aspirou pelos seus olhos.

A cabeça da menina voltou a cair, aparentemente sem vida, e os olhos de Anéis da Morte abriram-se, negros como a massa que o envolvera. Os dedos da mão direita de Eduarda fletiram-se, e fecharam-se de imediato no punho da sua arma. Língua de Ferro soube, naquele momento, que não seria a luta entre Língua de Ferro e Anéis da Morte. Seria a luta entre a essência e os deuses mortos. Uma ironia.

Nunca esperou que Eduarda fosse tão rápido a desembainhar a espada. Defendeu-se do seu ataque com um movimento fluído e elegante. Aço cruzou-se com aço e o som não foi agradável. Merren “Anéis da Morte” sorria. Mas o sorriso não era seu. Era o sorriso de Profundo. Um deus morto. A voz terrível que saiu dos seus lábios refutou-o.

― Sou Profundo, sou Antigo, sou Bravo, sou Negro, sou Anátema, sou Luz, sou Benesse e sou Punho. Os oito deuses num só. Habitamos em duas crianças até à tua chegada. Agora, estamos unos num corpo preparado para nós. Um corpo ligado por sangue às duas hospedeiras. Um corpo preparado para te derrotar.

Tenta, pensou Língua de Ferro.

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Mage: The Ascension (Mark Jackson)

Sentia uma loucura genuína dentro de si. Uma vontade de matar que não lhe era estranha. Um contentamento sádico. Indignava-o que isso não o surpreendesse. Às vezes, não se conhecia a si mesmo, e não era o controlo da essência que o deixava nesse estado. Perguntou-se qual a última vez em que refletira sobre a sua conduta. No dia em que matara a mãe? No dia em que os deuses morreram? Quando o mundo se virou do avesso ou da última vez que viu o seu reflexo no fundo de uma garrafa? A aguardente sempre lhe propiciara grandes momentos de circunspeção. Sentiu o peso à espada e a fome de sangue alastrou-se dentro de si. Iria matar um homem bom, sabia-o, mas isso nunca fora impeditivo para fazer o que era certo. O mundo tinha daquelas coisas. Prosas de bardo chamar-lhe-iam injustiça. Vance chamá-lo-ia Fluído. Língua de Ferro limitava-se a fazê-lo. Cortaria peça a peça, se fosse necessário. Inflingir-lhe-ia a dor de dentes quebrados, de dedos torcidos, o vazio de membros lacerados, o horror de um esfolamento, caso o obrigasse a isso. Sangrá-lo-ia por um bem maior. Mas a tortura não derrubaria aquele mal milenar que o corroía por dentro. A morte talvez. O homem bom era só uma casca. Língua de Ferro sabia que ele não se importaria, uma vez que aquilo que estava em causa era soberano. A sobrevivência. Um império. Não. O Império.

O movimento seguinte pertenceu-lhe. Foi por puro instinto que Língua de Ferro se moveu para evitar que um golpe lhe lacerasse o ombro. Seguiram-se uma série de movimentos de ataque e defesa. Língua de Ferro investia com mais voracidade, mas a sua sequência de ataques era assertivamente defendida pela lâmina de Eduarda. Língua de Ferro sorriu um sorriso lupino ao vê-lo recuar para a cisterna e percebeu que não se cansava. Os seus movimentos pareciam mais líquidos e fluidos e o corpo não se ressentia. Parou quando a lâmina encontrou a cisterna e Anéis da Morte rodou sobre si mesmo para lhe acotovelar o peito.

O golpe foi mais forte do que podia prever e fê-lo voar para trás. Língua de Ferro sentiu as omoplatas a chocarem contra o solo e ergueu-se num salto. As têmporas latejaram-lhe. Sentiu dor. Aquilo não era suposto ser assim. Recordou-se que não estava a lutar com Merren “Anéis da Morte” Eduarda, mas com oito deuses. Naquele momento, uma terrível certeza inundou-o. Língua de Ferro iria vingar a sua derrota no galeão. Gostaria de pensar que seria isso a impeli-lo, e não a vontade da essência em derrotar os deuses, mas não mentiu a si mesmo. De nada lhe valia.

Ergueu Apalasi à frente do rosto e viu o seu próprio reflexo. Os contornos pareciam mais definidos. O olhar, branco como marfim. Rugas terríveis ornavam-lhe os lábios, desenhando um sorriso cínico. Quando ergueu o olhar da lâmina, já uma tempestade avançava na sua direção. Eduarda parecia voar, da forma como os seus pés se moviam em corrida sobre a plataforma metálica. Língua de Ferro gargarejou. A espada de Eduarda colidiu com a sua uma vez, duas, três, quatro vezes. Agora era Eduarda quem investia com mais fulgor, empurrando-o para trás. Língua de Ferro não se incomodava com isso.

Aquilo iria cansá-lo, esperava ele.

Faúlhas foram geradas da colisão metálica entre as duas armas, e Eduarda parecia mais alto do que ele, mas era porque lutava em bicos dos pés, e isso parecia surtir efeito. Língua de Ferro era obrigado a recuar na passadeira entre as cisternas, defendendo com fluidez os golpes do inimigo. Irritou-se quando um golpe passou a um milímetro da sua testa, mas aproveitou a oportunidade para golpear de cabeça o peito de Anéis da Morte. O inimigo recuou um passo. Esse recuo durou apenas um segundo. Voltou a investir e as espadas cruzaram-se novamente. Chocaram duramente quatro vezes, com uma força terrível a coagi-las. Aquelas eram espadas lendárias, mas foram feitas por homens e para homens. Dificilmente sobreviveriam incólumes a uma luta entre deuses.

Mas eu não sou um deus, disse Língua de Ferro a si mesmo, e um laivo de humanidade assomou por um momento à frente dos seus olhos. Isso enfraqueceu-o. Um golpe de Eduarda passou-lhe próximo do pescoço, mas na aproximação algo o reteve. Uma barreira invisível, fraca mas forte o suficiente para o barrar, ergueu-se à volta de Língua de Ferro. Este sorriu. Finalmente, aquilo que eu mais esperava.

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Inquisidor de Aço Mistborn (Emanuele Desiati)

Uma barreira como a que defendia Vance tão inexoravelmente pareceu fluir como um halo do corpo de Língua de Ferro. Isso fez Eduarda soltar um rugido.

― Julgas estar a combater Anéis da Morte, Leidviges Valentina? Esse teu condutor não te preveniu para as forças com que irias lidar?! Esses teus truques não são para os paladinos da nossa igualha.

Língua de Ferro sorriu e recuou dois passos largos. Anéis da Morte investiu para si, e era isso o que ele esperava. O seu último passo foi um decalque na plataforma metálica, que a fez estremecer em toda a sua complexidade.

― Jupett Vance matou-os. Os truques dele também não eram para os paladinos da vossa igualha?

Uma nova pisadela de Língua de Ferro fez a plataforma vacilar com maior violência, e dois dos nove cabos que a sustentavam quebraram-se. Os cabos estavam velhos e ferrugentos, por isso não seria difícil fazer aquilo cair, mas não era propriamente fazê-los cair a ideia de Língua de Ferro. Recuou mais um passo.

― O que trovões estás tu a fazer? ― gemeu Anéis da Morte numa dúzia de vozes.

Sem sobreaviso, Língua de Ferro saltou para um cabo e agarrou-o com a mão esquerda, enquanto a direita segurava Apalasi. Cortou o cabo com facilidade e a ponte metálica sacudiu-se, pendendo assimetricamente para o lado esquerdo. Anéis da Morte deslizou para a esquerda, segurando-se ao corrimão metálico para se apoiar. Língua de Ferro sabia que nada de mal lhes aconteceria se quebrasse a plataforma e caíssem nos destroços, lá em baixo. Não era isso em que pensava. A sua ideia era desconcentrar o inimigo. Conseguiu-o. Apoiando-se precariamente no corrimão metálico, Língua de Ferro deu um duplo mortal no ar que se dirigiu a Anéis da Morte, aterrando a três passos de distância. Foi quase com surpresa que o inimigo reparou na sua aproximação e defendeu-se, erguendo a espada à frente dos olhos. Apalasi moveu-se da direita para a esquerda. Um movimento contínuo de parada e resposta seguiu-se, aparentemente casual, mas Anéis da Morte precisava de maior precaução, para não cair. Estava claramente em posição desfavorável, com Língua de Ferro a atacá-lo de cima para baixo.

Foram trinta e sete ataques consecutivos. Língua de Ferro parecia esfomeado por sangue, sem sinais de cansaço ou de quebra. Rodava Apalasi nas suas mãos, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda. Um outro cabo rebentou-se, desgastado pelo tempo e pela força que a quebra dos restantes o obrigava a exercer. A plataforma quase girou por si só. Anéis da Morte desequilibrou-se por um momento e quando se segurou ao corrimão, Língua de Ferro não perdoou a oportunidade que esperava e fez Apalasi romper-lhe o ventre. A espada varou-o e isso não bastou para o atacante. Enquanto o negro dos olhos desaparecia e uma centena de guinchos guturais manavam da sua boca, Eduarda mantinha o corpo em pé, sustido pela pesada espada que lhe saía pelas costelas como um acrescento anatómico. Língua de Ferro puxou a espada para cima com um grito, e ela cortou-lhe o âmago até abaixo do peito. Uma quantidade estarrecedora de entranhas vomitou do seu corpo, e Língua de Ferro removeu Apalasi do cadáver.

Os deuses não morreriam se tudo aquilo caísse lá em baixo, mas não precisamos saber que sobrevivemos para querer evitar certos embates. Até mesmo os deuses têm vertigens, ainda para mais se estiverem presos no corpo de um homem. Até mesmo os deuses temem viver sem um braço ou com o maxilar quebrado. É a humanidade dos deuses a sua maior fraqueza.

Língua de Ferro não sabia como Vance os teria vencido numa época em que apenas estavam presos à natureza, mas não devia ter sido bonito. Nem mesmo tinha a certeza de querer saber. Era problema para depois.

Encontrou Tayscar e Seji aos portões do complexo quando saiu dos Poços, com Apalasi presa às costas e o cadáver de Merren “Anéis da Morte” Eduarda sobre os braços. Tinha o tronco nu violentamente aberto entre o peito e o ventre. O cabelo comprido caía para trás, quase a rasar o solo. Não se viam patrulheiros. Língua de Ferro voltou o olhar para as cisternas e sorriu. Havia muito a explicar, mas não tinha disposição para isso. Tayscar caiu de joelhos ao colocar as mãos no rosto frio de Eduarda. Seji soltou um rosnido ao reparar nos olhos sem íris de Língua de Ferro. Depois desembainhou uma adaga longa e pontiaguda.

― O sacana cego fez-lhe alguma coisa ― rugiu. ― E você matou o nosso senhor.

Sem título
Vasher de Warbreaker (Castaguer93 em deviantart)

Língua de Ferro sabia que o criado se condenaria à morte se não visse as duas meninas logo depois. As duas crianças saíram do complexo a correr na sua direção e ladearam Língua de Ferro com ar aflitivo. Tinham ares pueris e estavam quase nuas. Cobriam-se mal com pedaços do gibão que o pai envergava. Alguns pedaços ainda estavam sujos de sangue negro. Parecia goma.

― Não, por favor! Não faça isso ― pediu uma menina, afogueada.

― Um monstro apoderou-se do papá e este homem salvou-nos ― disse a outra.

Não havia mentira naquilo. Ainda assim, Língua de Ferro não se sentia melhor. Elas não estavam conscientes quando aconteceu. Obrigara as meninas a proferir aquelas palavras, ameaçando a vida da mãe dela, se não o fizessem. Pobrezinhas, pensou. Também a mãe delas estava morta, mas elas não o sabiam e estavam demasiado assustadas para o enfrentar. Língua de Ferro lançou um olhar embaraçado a Seji. Um olhar branco. Ninguém veria o seu embaraço. Mas ele via. Como viu a gota de suor que desceu pela testa do criado. Registou a sua apreensão.

― Vou levar o corpo de Eduarda para Chrygia ― disse. ― E as meninas também. Sindi e Tenna, não é como se chamam? Temos uma longa viagem à nossa espera. Seji, prepara-nos dois camelos e instalações cómodas para as meninas. Depois, quero que rumes a Ccantia e contes o ocorrido a Marovarola. Os Poços são meus. Não peço que compreendam: os deuses manifestaram-se. Estavam aqui, os deuses mortos. Tive de o matar, mas não foi uma escolha fácil. Só peço que não me criem mais inimigos. Como conquistei estes Poços, posso voltar aqui e conquistá-los com maior facilidade. Nenhum de vós é tão terrível como um deus. Raios, nem eu sei como o fiz. ― Mentiras. Mentiras piedosas. ― Quero que Marovarola envie para aqui uma patrulha. Digamos que, um pagamento, por eu lhe ter salvo a vida, se assim preferirem. Tayscar?

O rapaz permanecia de joelhos, com os punhos fechados, cabisbaixo. Ergueu a cabeça e os seus olhos estavam cheios de ódio.

― Matei o teu pai e salvaste-me a vida. Agora matei o homem a quem juraste vassalagem. Não te peço amizade. Se pudesses, matar-me-ias. Eu sei disso. Ambos sabemos disso. Não obstante, és sangue de Cacetel e mostraste ser mais homem que o teu pai. Mostraste valor. O teu avô foi imperador. Tenho planos para ti, e o primeiro deles é fazer de ti chefe desta patrulha. Fica aqui enquanto Seji for buscar os homens. Depois, podes regressar a Ccantia para te acostumares à ideia e arranjares as tuas coisas. Os Poços serão o teu novo lar. Defende-os para mim, e dar-te-ei justiça pelas tuas perdas.

O rapaz ergueu-se, e naquele momento Língua de Ferro sentiu-lhe o ímpeto. Em silêncio, dizia-lhe que nenhuma justiça lhe traria os homens que amara. Depois, soube que seria irrelevante verbalizá-lo. Alguma cobardia ainda media os seus passos. Língua de Ferro iria, a seu tempo, removê-la. Viu-o passar por si em passos largos, com os longos cabelos louros a bailarem nas suas costas. Tayscar Domasi não virou costas aos Poços. Iria aceder ao seu pedido. Talvez por medo. Talvez por honra. Talvez por esperança. Esperança de que as suas palavras fossem verdadeiras. Talvez fossem.

Língua de Ferro atravessou o deserto montado em Hije, numa travessia calma e serena. Atrás de si, dois camelos de pele estalada avançavam lentamente. Uma padiola com dossel de seda sustinha-se entre eles, onde as duas meninas semi-nuas se abraçavam, com o terror a aplacar-se lentamente no seu interior. As filhas de Lucilla. Sangue do sangue da mulher que eu mais amei na vida. Para onde as conduzo eu?

Chrygia, disse uma voz dentro de si. Língua de Ferro teve medo dessa voz. Desembainhou Apalasi das costas e olhou para a sua lâmina. O sol beijava-lhe o aço num reflexo brilhante. A visão apurada de Língua de Ferro viu no seu interior uma vontade de sangue. A sede do aço. Mais rapidamente do que desembainhou a arma, voltou a embainhá-la, e olhou para o horizonte luminoso. Uma explosão de luz solar engoliu-os a todos. Chrygia. Chrygia.

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