A Divulgar: “O Núcleo” pela Edições ASA

A novidade foi comunicada pelo autor Peter V. Brett através da sua página de facebook, sendo rapidamente difundida nas redes sociais da Coleção 1001 Mundos. O Núcleo, quinto e último volume da série Ciclo dos Demónios, será lançado em terras lusitanas a 8 de maio. Recordo que a série tem sido publicada em Portugal poucos meses após a publicação internacional, por isso não é de espantar que The Core chegue ao nosso país tão depressa, uma vez que o livro foi lançado por Brett no final de 2017.

Trata-se de uma série de fantasia protagonizada por Arlen Fardos, Leesha Papel e Rojer Meia-Mão, três jovens que vêm a sobrevivência do mundo recair nos seus ombros quando se mostram resilientes e capazes de travar a ameaça dos nuclitas, demónios que se erguem à noite. As armas para os travar, guardas de ataque, haviam sido esquecidas com o tempo, mas foram recuperadas, fazendo com que os povos finalmente conseguissem erguer-se para caçar este horror. Fica com a minha opinião aos três primeiros volumes da série:

O Homem Pintado;

A Lança do Deserto;

A Guerra Diurna.

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Fonte: http://petervbrett.com
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Resumo Trimestral de Leituras #13

É verdade, já se passaram três meses em 2018 e o NDZ continua no radar das melhores publicações de Ficção Especulativa no nosso país. Janeiro, fevereiro e março trouxeram-me ótimas leituras, continuando ao mesmo ritmo que vinha trazendo o ano anterior. Os meus destaques vão para a série Ciclo dos Demónios de Peter V. Brett, de que li três volumes, enquanto que nas BDs li todos os seis álbuns da série Locke & Key, de Joe Hill e Gabriel Rodriguez. Quanto a séries terminadas, para além da supracitada, terminei a trilogia Área X de Jeff VanderMeer, com o livro Aceitação.

Melhor livro: A Revelação do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #2), Robin Hobb

Melhor BD: O Sangue (Monstress #2), Marjorie Liu e Sana Takeda

Pior avaliação: A Espada de Shannara (A Espada de Shannara #1), Terry Brooks

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Comecei 2018 em grande. Passada no shardworld Sel, o mesmo mundo de Elantris, The Emperor’s Soul é uma novella de Brandon Sanderson cheia de pequenas subtilezas bem originais. Shai, a protagonista, é uma ladra perita num tipo de magia chamada Forgery. Ela invade o palácio do Imperador para roubar um artefacto antigo e substituí-lo por uma reprodução idêntica, mas é apanhada e colocada atrás das grades. Muito embora o Império considere a Forgery uma abominação, não vêm outra alternativa para recuperar o seu Imperador, caído em total apatia após a morte da esposa, do que usá-la em seu proveito. Pelas Edições Gailivro, Se Acordar Antes de Morrer é uma coletânea de contos escritos por João Barreiros, na minha opinião o melhor autor de ficção científica nacional. Sentia bastante expectativa para os dois primeiros contos, “Brinca Comigo” e “Disney no Céu entre os Dumbos”, mas para quem já leu bastante do autor, acabei por achar as ideias um tanto repetitivas. No entanto, fui surpreendido por uma mão cheia de contos que achei bem interessantes. Nas suas histórias podemos encontrar um exército fortemente armado com a missão de aniquilar o Pai Natal ou uma série de zombies bastante desagradados por não conseguirem comer um robot.

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Sykes, dos franceses Pierre Dubois e Dimitri Armand, é um western gráfico bem violento e cheio de texturas. Somos apresentados a um marshall, que se une a um irlandês e a um índio para perseguir uma quadrilha de malfeitores, conhecidos pelo saque, homicídio e violação. A perseguição de “Sentence” Sykes aos Clayton é bem cliché no género, mas agradará certamente a todos os fãs. Pessoalmente, adorei o desenho de Armand e gostei de ver um autor de fantástico juvenil como Dubois, a trabalhar numa história com este índice de violência. O Sangue dos Elfos é o terceiro volume da série The Witcher de Andrzej Sapkowski, publicado em Portugal pela Saída de Emergência. Pode-se dizer que é a partir daqui que a história começa, uma vez que os dois primeiros livros, escritos em forma de contos, foram uma prequela e este pode ser visto como um prólogo para a história central. Gostei bastante do livro e achei que subiu de qualidade em relação aos antecessores, mostrando o treino da pequena Ciri e as relações que daqui surgem. A escrita foi uma das maiores qualidades do livro, faltou a meu ver maior harmonia e sensatez nos saltos temporais.

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O primeiro volume da série Locke & Key de Joe Hill e Gabriel Rodriguez, Welcome To Lovecraft apresenta-nos uma família curiosa, os Locke. O pai, um professor, decide envolver os filhos nas tarefas campestres, mas quando um grupo de rufias invade a casa e decide vingar-se do professor e matá-lo, os restantes familiares são obrigados a mudar de vida e a ir viver para a antiga mansão de família, em Lovecraft. Já no segundo volume, Head Games, a história adensa-se. Bode, Tyler e Kinsey, os três filhos do professor assassinado, começam a sentir-se familiarizados com os mistérios da mansão, e nem uma chave mágica que consegue abrir cabeças e mudar memórias é o suficiente para os assombrar. Gostei bastante. Primeiro volume da trilogia Espada de Shannara de Terry Brooks, com o mesmo nome, este livro da Saída de Emergência tem um design lindíssimo e uma edição muito bem cuidada. Pena o conteúdo não lhe fazer justiça. A escrita de Brooks oscila entre um vocabulário rico e uma escrita algo infantil, principalmente nos diálogos. Mas o principal defeito do livro é mesmo a sua enorme semelhança à trilogia O Senhor dos Anéis. Espero que o segundo volume seja bem mais original a esse respeito.

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Publicado pela Coleção 1001 Mundos da Gailivro, o primeiro volume da série Ciclo dos Demónios de Peter V. Brett, O Homem Pintado, foi uma agradável surpresa. Todas as noites, os nuclitas atacam. São demónios que assumem diferentes formas e respeitam uma ordem natural de entreajuda, rivalidade ou estratificação entre eles. Quando a noite cai, erguem-se do Núcleo e materializam-se, correndo atrás de vidas humanas para delas se alimentarem. É aqui que surgem Arlen, Leesha e Rojer, três crianças que, cada um à sua maneira, e cada um a viver numa povoação distinta, é vítima destes demónios e moldam a sua personalidade de acordo com a sua coragem para dizer Basta! A escrita do autor norte-americano é simples, mas revela conhecimento e grande maturidade. Não gostei tanto do último terço, mas é um livro ótimo. Li o segundo volume já em fevereiro, A Lança do Deserto, cuja primeira metade do livro é dedicada a Jardir, uma personagem até então bastante secundária. Jardir acredita ser o Libertador que irá livrar o mundo dos demónios, mas a forma como tenta unir os povos é através da guerra, avançando com as suas tropas do deserto para as chamadas terras verdes. Depois, vemos como os três protagonistas agem na defesa dos seus povos e como lidam com os “fantasmas” do passado. Um livro muito bom e consistente, ao nível do primeiro.

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Li o mais recente álbum da BD Harrow County de Cullen Bunn e Tyler Crook, que tem sido publicada em Portugal pela G Floy Studio. O terceiro, A Encantadora de Serpentes, conta com a participação especial de duas artistas convidadas, Carla Speed McNeil e Hannah Christenson. Este volume distancia-se da história principal, focando-se em histórias paralelas do povo que dá título à série. Apesar de achar interessante o plot de umas serpentes que endoidecem a população ou ver o Rapaz sem Pele à procura de respostas, achei um volume mais fraco que os antecessores. A arte das convidadas foi notavelmente fraca, em comparação com o traço de Crook. Já O Sangue é um livro lindíssimo que consegue combinar de certo modo o melhor das comics americanas ao mangá, imprimindo nas pranchas emoções e subtilezas como poucos o fazem. Segundo volume da BD Monstress de Marjorie Liu e Sana Takeda, publicada pela Saída de Emergência, trata-se de uma história para adultos, que embora apresente gatinhos e crianças fofinhas, traz também palavrões, olhos arrancados e dedos cortados, entre muitas outras coisas. Maika Meio Lobo continua em busca de respostas sobre a obsessão da sua mãe pela Imperatriz-Xamã, enquanto a guerra entre arcânicos e humanos parece longe do fim.

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Se O Assassino do Bobo foi a minha melhor leitura de 2017, A Revelação do Bobo foi a melhor, até agora, do presente ano. Apesar de ter ficado ligeiramente frustrado por a ação não avançar aquilo que eu esperava, o segundo volume da Saga Assassino e o Bobo de Robin Hobb foi uma maré de revelações e de acontecimentos de se ficar com a boca aberta. Com Abelha nas mãos dos Servos, cabe a Fitz assumir as consequências das suas escolhas e corrigir os erros do passado. Uma escrita maravilhosa, mais um livro lindíssimo. Pelas mãos da G Floy chega Luta de Poderes, o primeiro volume da famosa série O Legado de Júpiter, com argumento de Mark Millar e arte de Frank Quitely. Gostei bastante da ideia e da composição; abraçamos um mundo de super-heróis atípico, com uma forte componente de crítica social e política. A história começa em 1932, quando uma expedição liderada por Sheldon Sampson, a sua família e amigos, encontra uma misteriosa ilha no Oceano Atlântico que os transforma a todos em super-heróis. Mas, anos mais tarde, os seus filhos parecem estar mais interessados na frivolidade das suas vidas como celebridades, do que realmente em preocupar-se com o mundo que os rodeia.

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Continuei a leitura da BD Locke & Key, com mais um divertido e bizarro volume da série escrita por Joe Hill e ilustrada por Gabriel Rodriguez. Em Crown of Shadows, abrir cabeças e extrair ou implantar memórias, vaguear como um fantasma, aumentar de tamanho, reparar loiça partida ou controlar as sombras são apenas alguns dos poderes que as chaves da mansão dos Locke providenciam. Mais do que deslindar estes mistérios, este volume vem adensá-los numa profusão de quebra-cabeças e engodos. Descender foi uma das novidades de fevereiro da G Floy. Estrelas de Lata, o primeiro volume, foca-se no Dr. Jin Quon e no pequeno andróide TIM-21, que descobre, dez anos após um conflito que colocou robots contra humanos no planeta Niyrata, que possui sentimentos. A trama começou dispersa, mas o desenvolvimento de vários personagens como a Capitã Telsa, o cão robot Bandit e o dróide mineiro Broca vieram canalizar o álbum para um final implacável que me encheu de expectativas para os álbuns seguintes. O argumento de Jeff Lemire foi crescendo de qualidade, e a arte de Dustin Nguyen, que inicialmente me desagradou, acabou por casar muito bem com a narrativa.

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Quem já é caso sério de sucesso na G Floy Studio é Tony Chu, o Detective Canibal. No oitavo volume, Receitas de Família, a genialidade de John Layman (argumento) e de Rob Guillory (arte) supera-se. Polícias, bandidos, cozinheiros, canibais, frangos psicadélicos e poderes paranormais são uma vez mais o destaque num álbum cheio de extravagâncias alimentares e imagens sensacionais que tanto podem provocar enjoos como gargalhadas. Adorei. Ao nível dos volumes interiores da série Ciclo dos Demónios, A Guerra Diurna veio cimentar a minha opinião sobre o autor Peter V. Brett. O mundo não me entusiasma e o foco em flashbacks trava um pouco a leitura em determinados momentos. Ainda assim, os personagens continuam a ser muito bem desenvolvidos e adorei o cliffhanger final. A escrita do autor revela-se simples, mas madura. Terminei fevereiro com o conto de Robert E. Howard O Colosso Negro. Ele conta como um mago poderoso tenta apoderar-se da cidade de Corajá, seduzindo a irmã do rei, e como ela vê na nomeação de Conan para um posto elevado do seu exército a salvação para os seus maiores pesadelos. Com um início algo confuso, ainda assim apresenta uma escrita deliciosa e um desenvolvimento auspicioso, com cenas de batalha excelentes.

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Comecei março com O Fiel Jardineiro de John le Carré, publicado pelas Edições D. Quixote. Trata-se de uma trama envolvente, contada de vários pontos de vista, que procura encontrar a verdade para um mistério terrível: a morte de uma activista dos Direitos Humanos e de um médico, às margens do lago Turkana, no Quénia. As verdades que o seu esposo encontra são tão inconvenientes como credíveis, bem diferentes daquilo que amigos e Imprensa tentaram passar. Uma obra-prima que parece real mesmo sendo uma história fictícia. Seguiu-se o primeiro volume da série Imperatriz, com argumento de Mark Millar e arte de Stuart Immonen, editado pela G Floy. A história não apresenta grandes inovações, a esposa de um rei tirano quer fugir do marido e com a ajuda do capitão da guarda, pega nos três filhos e foge. O volume narra uma aventura cheia de peripécias, com o grupo a saltar de planeta em planeta graças a um tele-transportador. Com várias nuances a fazerem lembrar Star Wars, uma linguagem bem agradável e um desenho lindíssimo e colorido, é mais uma série a seguir.

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O último volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer chegou às minhas mãos precisamente na altura em que a adaptação do primeiro, Aniquilação, chegou à Netflix. Um dos lançamentos de fevereiro da Saída de Emergência, Aceitação coloca um ponto final numa história densa e cheia de mistérios, contada do ponto de vista de Control, do Pássaro Fantasma, da Diretora e do Faroleiro. As respostas não são concretas, dependendo muito da nossa interpretação dos factos, mas não deixa de ser desconcertante e, independentemente dos gostos, genial. Publicado pela Editorial Presença, Uma Chama Entre as Cinzas foi um sucesso internacional quando saiu, em 2015. Trata-se de um livro Young Adult com vários traços de fantasia adulta. Com inspiração na Roma Antiga e no Médio Oriente, Sabaa Tahir convida-nos a conhecer os Eruditos, um povo escravizado, e os Ilustres, dos quais os Máscaras são o representante de toda a sua crueldade. Quando o irmão é capturado e pede ajuda à Rebelião para o libertar, a jovem Laia é obrigada a conhecer a crueldade de Keris Veturia, mas também o amor do filho desta, Elias. Com menos foco na parte amorosa e uma linha narrativa que não me lembrasse tanto The Hunger Games, este livro estaria facilmente entre os melhores lidos este ano. A escrita da autora é lindíssima e o mundo bem construído.Sem título
Uma das últimas novidades da G Floy Studio, Antes do Dilúvio é o primeiro volume da série Os Malditos, que alia uma dupla já famosa pela série Scalped: Jason Aaron e r. m. Guéra. Com o magnífico trabalho de Giulia Brusco nas cores, o álbum convenceu-me pelo visceral e pelo sujo, mas também pelo grafismo apetecível. Somos convidados a enveredar pela jornada de Caim, castigado por Deus a viver a vida eterna, e no seu percurso encontra personagens como o fanático Noé, mas também propósitos que o levam a olhar para a vida com outros olhos. Não me fascinou, mas o plot-twist final deixou-me pelo menos com a certeza de que vou continuar a série. Quarto volume da série As Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, publicado em Portugal pela Saída de Emergência, A Canção da Espada traz de novo Uthred de Bebbanburg em busca do reconhecimento sucessivamente negado pelo seu senhor, o rei Alfredo. Desta vez, é um morto que lhe diz que deverá trair Alfredo para tornar-se rei da Mércia, mas um complot organizado por antigos e novos aliados levá-lo-á mais uma vez a lutar pelos saxões. Apaixonante e vibrante, Cornwell continua a não desiludir.Resultado de imagem para keys to the kingdom locke and key
Para terminar o trimestre, li os três últimos volumes da série Locke & Key de Joe Hill e Gabriel Rodriguez, Keys to the Kingdom, Clockworks e Alpha & Omega. Foram, sem margem para dúvidas, os melhores álbuns da série, com reviravoltas e revelações de deixar o leitor a chorar por mais. Toda a bizarrice da composição (cabeças a serem abertas, sombras a atacarem pessoas e pessoas a assumirem formas de animais, por exemplo) funde-se com um realismo palpável na interação de uma família disfuncional, os Locke, com aquilo que os rodeia. Dodge, o grande vilão, alcança uma dimensão estonteante e os seus propósitos tornam-se muito mais claros, para culminar num final repleto de ação e coerente. Gostei bastante. Neste momento, estou a terminar o livro Sonho Febril de George R. R. Martin, e as leituras seguintes serão Nove Príncipes de Âmbar de Roger Zelazny e Carbono Alterado de Richard Morgan. Continuem por aí!

Especial: A Legislação de Joe Abercrombie

Falar de Joe Abercrombie sem falar de A Primeira Lei é passar ao lado de um dos seus trabalhos mais bem-sucedidos e reconhecidos no mundo inteiro. Por isso, o NDZ vai esmiuçar esta tão bem falada trilogia e catapultar-vos para um mundo de coragem, honra e sacrifício. Para Midderland, onde nada é aquilo que realmente parece. Agora que sabemos que Joe está a trabalhar numa sequela para a série, passada 30 anos depois, parece-me mais do que justo prestar-lhe esta homenagem. A série foi publicada em Portugal pela Edições Asa / 1001 Mundos.

Um dos mais talentosos escritores de fantasia da nova geração, comparado a autores como Justin Cronin, Mark Lawrence, Brandon Sanderson e Peter V. Brett, Joe é autor de vários livros como The Heroes, Best Served Cold, Red Country ou a série YA Shattered Sea. Por aqui, para além da trilogia A Primeira Lei, li os seus contos “Está Difícil Para Todos” e “Completamente Perdida”, publicados nas antologias Histórias de Vigaristas e Canalhas e Mulheres Perigosas, respetivamente.

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Fonte: http://firstlaw.wikia.com/wiki/Joe_Abercrombie

Mas quem é Joe Abercrombie?

Joe Abercrombie nasceu em Lancaster em 1974 e atualmente mora em Bath com a esposa e os filhos. Foi editor freelancer de filmes e trabalhou em vários documentários e eventos musicais, até dedicar-se a corpo inteiro à escrita. A Lâmina (The Blade Itself), o seu primeiro romance, viu os direitos vendidos para 24 países. Em 2008, Abercrombie foi finalista do prémio John W. Campbell na categoria Autor Revelação, graças ao sucesso da trilogia A Primeira Lei.

Foi educado na pretensiosa Lancaster Royal Grammar School, só para rapazes, onde passou muito do seu tempo a jogar computador, dados, e a desenhar mapas de locais que não existiam. Rumou em seguida à Universidade de Manchester, onde estudou Psicologia. Tendo sempre o sonho de, sozinho, redefinir o género fantástico, começou a escrever uma trilogia épica baseada nas desventuras de um bárbaro, Logen Novededos. O resultado não lhe agradou e mudou-se para Londres, onde, segundo ele, viveu numa espelunca com dois homens à beira da loucura.

Com um esforço heróico e o apoio da sua família, terminou The Blade Itself em 2004, sendo publicada junto de um público insuspeito em 2006. Before They Are Hanged e The Last Argument of Kings foram publicados em 2007 e 2008, respetivamente.

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Fonte: http://firstlaw.wikia.com/wiki/First_Law_Wiki

Antes que me esqueça, convém avisar que o texto seguinte contém minor spoilers de cada um dos livros, um resumo das informações que coligi na minha opinião aos mesmos, ainda que me abstenha às revelações mais impactantes.

Porque devemos lê-lo?

TEM PERSONAGENS COMPLEXOS

A Primeira Lei é passado em Midderland. Logen Novededos ganhou fama de sanguinário no norte gelado, onde lutou durante muitos anos ao lado de Bethod, um veterano de guerra que conquistara o norte a pulso. As rixas acentuaram-se e Bethod ganhou uma feiticeira como conselheira. Depois, avançou para o centro, tentando expandir os seus domínios. O centro de Midderland é dominado pela União, com capital em Adua, onde perambulam personagens carismáticos como o major Collem West, o inquisidor Sand dan Glotka e o espadachim Jezal dan Luthar. Já o rei Guslav V não parece muito influente, sendo o Círculo Fechado o verdadeiro cérebro por detrás de todas as ações da União.

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Fonte: https://darey-dawn.deviantart.com/art/The-First-Law-trilogy-483682777

Abercrombie apresenta-nos três cenários distintos no continente de Midderland, qualquer um deles repleto de personagens BEM complexos. Logen Novededos é um bárbaro temível e infame, que deve o seu nome à perda de um dedo em batalha. No norte distante, combate com os shanka, criaturas repugnantes vulgarmente conhecidos como cabeças-chatas. É lá que perde os seus companheiros e julga-os mortos. Logen tem o dom invulgar de conseguir falar com espíritos e é dessa forma que uma mensagem é-lhe enviada. Um mago poderosíssimo procura-o.

Logen encontra Malacus Quai, um jovem aprendiz de magia, e salva-o de morrer à fome. O rapaz leva-o até ao grande Bayaz, o Primeiro dos Magos. É uma figura ríspida e pouco convencional, que regularmente se usa de poderes do Outro Lado. No início, o mundo era habitado por demónios e seres mágicos, mas uma cisão drástica fez com que todas as criaturas fossem atiradas para o Outro Lado. Tocá-lo e recorrer à magia é quebrar a Primeira Lei, mas Bayaz sabe que as leis antigas estão a ser violadas.

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Fonte: https://darey-dawn.deviantart.com/art/The-First-Law-trilogy-483682777

O Primeiro dos Magos vive numa fortaleza nortenha, mas é figura de destaque em todo o mundo, tomando lugar em estátuas e retratos nas cidades mais civilizadas. Junto de Bayaz, Logen enfrenta o próprio Bethod, mas também os dois filhos do veterano, viscerais como o pai, mostram a sua face. Quando fica claro que Bethod não irá poupar ninguém, Bayaz, Malacus e Logen abandonam a fortaleza e dirigem-se ao centro do continente.

“É uma honra para todos os homens de boas famílias representar o Exército”

Ainda no norte, os velhos companheiros de Logen: Cão, Cabeça de Trovão, Dow Negro, Sisudo e o Mais-Fraco sobreviveram, ao contrário do que ele julgara. Por sua vez, também eles pensam que Novededos morreu, e prosseguem a sua campanha contra Bethod, ainda que a liderança do grupo seja motivo de discussões e pequenas rixas, o que deixa clara a lacuna que a ausência de Logen provoca no grupo.

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Fonte: https://thetattooedbookgeek.wordpress.com/2016/04/25/sharp-ends-book-review/
INTRIGAS INCRÍVEIS

No centro do Círculo do Mundo fica Adua, uma cidade populosa onde reside o rei da União, Guslav V, e a família real. A Inquisição e o Exército têm grande preponderância no modo de vida da cidade, e é lá que encontramos alguns dos nossos protagonistas. Sand dan Glotka foi em tempos um guerreiro prodigioso, uma das grandes esperanças da União, mas na guerra contra Gurkhul, um poderoso império sulista, acabou sendo inutilizado de uma perna e foi tomado como prisioneiro, onde foi torturado. Quando regressou a casa, quebrado por dentro e por fora, acabou por tornar-se uma figura mesquinha e espirituosa. Nomeado como inquisidor, aplica aos prisioneiros uma terrível tortura, como se assim vingasse aquela a que foi submetido.

É uma honra para todos os homens de boas famílias representar o Exército, e Jezal dan Luthar vive com esse fardo. Jezal prefere passar os dias a jogar e as noites a embebedar-se com os amigos. Mas não é isso o que esperam de si. O major Collem West foi um grande amigo de Glotka e soldado de grande talento. Vindo de famílias modestas, West ganhou o seu prestígio a pulso, graças a feitos como a quebra de um importante cerco. Por isso não entende como Jezal não aproveita a oportunidade que o seu sangue oferece. West tem uma irmã, Ardee, uma beleza exótica que vem virar o mundo de Jezal do avesso. Já o marechal Varuz, que treinara Glotka e West nos seus tempos áureos, não desiste de Jezal e transforma-o num grande espadachim, de modo a que este consiga vencer a Prova que lhe está destinada.

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Fonte: https://dejan-delic.deviantart.com/art/His-Majesty-s-Inquisition-429415014

Uma série de intrigas são tecidas no seio de Adua, culminando na chegada de Bayaz, Quai e Novededos à cidade. Ninguém acredita que o mago seja quem diga ser, uma vez que a sua figura faz parte da “mitologia” da cidade, e o arquileitor Sult, líder da Inquisição, envia Glotka para provar que Bayaz não é mais do que uma fraude. Algures no centro da cidade há um monumento de tempos imemoriais, que foi feito para ninguém entrar, e Bayaz diz ter a chave desse edifício: A Casa do Criador. Quanto mais Glotka investiga o caso, mais se apercebe que o impostor pode ser, na verdade, o mago lendário.

As peças encaixam-se pouco a pouco, relações antigas desvendam-se e Ferro Maljinn, uma sulista que fugiu da escravidão, chega à cidade, apadrinhada por Yulwei, um mago misterioso. Como um verdadeiro bicho-do-mato, Ferro não controla o seu sentimento de vingança contra a nação de Gurkhul, mas Bayaz garante que os seus adversários, tanto a norte como a sul, servem um mesmo propósito, e que terão de empreender uma grande viagem para os travar.

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Fonte: https://geeklyinc.com/geekly-guide-to-authors-joe-abercrombie/
UMA GUERRA IMINENTE

A União está sob ameaça. A norte, a guerra contra Bethod e os seus carls. A sul, a guerra contra Gurkhul e o impiedoso imperador Uthman-ul-Dosht, discípulo do profeta Khalul. Certo de que os exércitos da União não terão capacidade de os travar a ambos, Bayaz empreende uma jornada para vencer o inimigo através da magia. Para alcançar os seus intentos misteriosos, ele pega em Malacus Quai, Logen e Ferro, no egocêntrico Jezal e num navegador experiente, chamado Pé Longo, e condu-los numa viagem até aos confins do mundo, em busca de uma pedra mágica. Os caminhos que são obrigados a atravessar escondem, porém, todo o tipo de perigos.

“Glotka terá de lidar com várias pontas soltas e só poderá contar com os seus melhores amigos: os instrumentos de tortura.”

Glokta, por sua vez, é enviado pelo arquileitor Sult a Dagoska, o último bastião da União no Sul, localizado numa península. O objetivo, ajudar à defesa da cidade e descobrir o que acontecera ao superior da Inquisição, Davoust, então desaparecido. Para surpresa do conselho administrativo da cidade, composto pelo velho governador Vrums, o seu filho Korsten dan Vurms, o general Vissbruck, a magistrada da guilda dos especieiros Carlot dan Eider e o sacerdote nativo Kahdia, Glotka chega com plenos poderes para as decisões políticas e militares em Dagoska.

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O que ele não esperava era ter de lidar com uma conspiração hedionda, um mercenário volúvel chamado Nicomo Cosca, uma doação imprevisível do banco Valint e Balk, um cerco terrível à cidade… bem como a visita do velho mago Yulwei, que o alerta para um ataque de devoradores, seguidores eleitos por Khalul para violarem a Segunda Lei: a proibição de se comer carne humana. Para o ajudar, Glotka apenas conta com a sua mente astuta e com o poderio físico dos seus práticos: Frost, Severard e Vitari.

Nas terras de Angland, os exércitos da União preparam-se para repelir Bethod. O próprio príncipe herdeiro Ladisla comanda um dos exércitos, ainda que lhe falte tanto experiência como sensatez. O marechal Burr coloca o príncipe sob a supervisão de West, promovendo este a coronel. São surpreendidos com a aliança improvável de um grupo de nortenhos, um grupo formado por Cão, Rudd Três Árvores, Tul Cabeça de Trovão, Dow Negro e Sisudo. Homens lendários no norte, que haviam sido liderados outrora por Logen Novededos.

Enquanto os generais Kroy e Poulder medem forças, os regimentos acabam por separar-se e a West cabe-lhe a tarefa ingrata de vigiar o príncipe, ainda que não compreenda nenhuma das suas diretivas. O frio ameaça abalar as suas forças mais do que a guerra, e é obrigado a recrutar forjadores numa colónia penal. O homem de rosto queimado chamado Pike e a rapariga Cathil transformam as vidas de West, Cão e Ladisla de modo incontornável.

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UMA DINASTIA EM PERIGO

O coração da União está dilacerado após a morte dos herdeiros ao trono, e o Conselho Fechado move as suas peças desesperadamente, para impedir que a futura e mais do que certa morte do rei coloque um inimigo no trono. É ao Conselho Aberto que cabe a votação, e votos são comprados, jogadas são dadas, braços medem forças à margem dos olhares comuns. O juiz superior Marovia e o arquileitor Sult parecem ser os mais influentes, defrontando-se em jogos de bastidores que deixam claro que o rei é pouco mais do que um fantoche.

“O mundo em que se passa A Primeira Lei foi, no início dos tempos, palco de demónios e criaturas malignas.”

Sand dan Glotka, o torturador, vê-se entre a espada e a parede quando o seu superior e os seus financiadores secretos, a misteriosa firma bancária Valint e Balk, o empurram em direções opostas. Com o seu lado mais emocional à tona de água quando o assunto é Ardee West, a irmã do seu melhor amigo a quem prometeu que cuidaria, Glotka terá de lidar com várias pontas soltas e só poderá contar com os seus melhores amigos: os instrumentos de tortura.

A norte, a ação concertada entre o exército da União e os nortenhos dissidentes a Bethod não parece dar frutos, com a saúde fragilizada do marechal Burr e os constantes braços-de-ferro entre os generais Kroy e Poulder a não contribuírem para os tão almejados progressos. É em Collem West e no nortenho Cão que as esperanças parecem recair, mas os dois homens sofreram demasiadas perdas para que a responsabilidade pareça, de facto, mais do que uma esperança vaga.

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UMA MITOLOGIA PODEROSA

O mundo em que se passa A Primeira Lei foi, no início dos tempos, palco de demónios e criaturas malignas. Um dia, tanto as criaturas como todo o tipo de magias foram atirados para o Outro Lado, tornando-se proibitivo entrar em contacto com ele: esta era a Primeira Lei. Duas leis foram decretadas, sendo que a segunda tratava de proibir o consumo de carne humana. Kanedias, o Criador, e Juvens, o mago original, defrontaram-se, assim como alguns dos seus discípulos. No fim, sobraram poucos, mas Bayaz, o Primeiro dos Magos, continuou a medir forças com Khalul, que se havia tornado influente em Gurkhul.

No centro de tudo estava a paixão de Bayaz pela filha de Kanedias, Tolomei, que conduziu a uma rixa com o Criador e à consequente morte de pai e filha. Várias perspetivas foram projetadas sobre esta mesma história, enquanto Bayaz digere a desilusão de não ter encontrado a Semente, a pedra que lhe permitiria contactar diretamente o Outro Lado, uma ferramenta para repelir Khalul e os seus devoradores. Mas até que ponto seria essa Semente uma mera fantasia?

Em suma…

Um sistema de magia soft e pouco convicente é utilizado por Joe Abercrombie nesta série, ainda que a descrição de batalhas e o desenvolvimento de personagens seja uma das mais-valias do autor britânico. Os plot-twists são deliciosos. Uma trilogia para os fãs de George R. R. Martin, e para aqueles que adoram bons vilões.

Estive a Ler: A Guerra Diurna, Ciclo dos Demónios #3

Até as plantas podiam guardar segredos.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A GUERRA DIURNA”, TERCEIRO VOLUME DA SÉRIE CICLO DOS DEMÓNIOS

Publicado originalmente em fevereiro de 2013, The Daylight War é o terceiro volume da série Ciclo dos Demónios, editada em Portugal pela Coleção 1001 Mundos das Edições ASA / Gailivro, que pertence ao Grupo Leya. Chamado por cá de A Guerra Diurna, o livro foi publicado pouco depois do lançamento original, continuando as histórias que Brett iniciara com os volumes anteriores, O Homem Pintado e A Lança do Deserto. A versão nacional tem um total de 796 páginas e tradução de Renato Carreira.

Peter V. Brett é reconhecido internacionalmente, não só pelos livros da série Ciclo dos Demónios, cujo último volume, The Core, foi publicado o ano passado, mas também por vários contos passados no mesmo mundo. Escreveu também a novela gráfica Red Sonja: Unchained para a Dynamite Entertainment. Antes de avançarem na leitura, deixo um aviso à navegação: os parágrafos seguintes podem ter revelações e pistas evidentes sobre os dois primeiros livros da série.

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Fonte: http://www.petervbrett.com/2012/12/07/uk-daylight-war-cover-reveal/

A Guerra Diurna traz mais ou menos os mesmos ingredientes que os volumes anteriores. Um ótimo desenvolvimento de personagens e um escrutínio, camada após camada, de figuras com as quais não tínhamos ganhado grande intimidade, para descobrir ali nuances e peculiaridades dignas de verdadeiras laudas. Se A Lança do Deserto nos trouxe o ponto de vista de Jardir e nos levou a conhecer a sua perspectiva, este terceiro volume faz-nos olhar pela visão da sua Jiwah Ka, Inevera.

“Até as personagens mais secundárias como Gared e Wonda vêm, pouco a pouco, a ganhar vida.

Assim como no livro predecessor, achei os pontos de vista destas personagens krasianas interessantíssimos, mas se os flashbacks que elas vivem vêm trazer um novo olhar sobre as mesmas e sobre o enredo presente, fiquei de certo modo entediado em vários momentos. Confesso que aprecio a ideia de panorâmica que Brett trouxe aos seus livros, mas na prática, comigo, não resultou muito bem. É quando a ação se passa no presente que o autor consegue de facto destacar-se.

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Fonte: https://www.fnac.pt/A-Guerra-Diurna-Peter-V-Brett/a720645#

Inevera foi uma das minhas personagens favoritas de A Lança do Deserto, e agora, com os seus pontos de vista, fiquei ainda mais encantado com o misticismo e perseverança desta mulher. A forma como chegou ao poder e como tentou, a qualquer custo, preservá-lo, faz dela uma personagem cheia de carisma que é de certo modo a antítese do khaffit gordo e coxo Abban, o mercador que, também ao seu jeito, tenta influenciar Ahmann Jardir de acordo com os seus interesses.

As personagens krasianas, uma cultura inspirada na Antiga Esparta, no Japão Medieval mas sobretudo no Islamismo do Médio Oriente, vêm ganhando força na trama e os títulos dos livros, só por si, retratam fragmentos dessa cultura e das suas crenças. A ideia do autor foi construir uma civilização aglutinadora, que acredita que só unificando todos os povos através da chamada Guerra Diurna conseguirá a União profetizada pelo seu Criador, capaz de esmagar os demónios da noite.

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Fonte: http://www.petervbrett.com/2013/03/19/how-to-get-a-signed-u-k-daylight-war/

Foi para evitar que o seu povo fosse esmagado que Leesha Papel, a herbanária de Outeiro do Lenhador, que embora jovem revelou-se já uma mãe para o seu povo, decidiu rumar à Fortuna de Everam, como fora apelidado o Forte Rizon após a conquista dos krasianos, para conhecer os seus credos, tradições e costumes. A ideia de Jardir em tomá-la como esposa veio, no entanto, originar uma série de desdobramentos na trama.

“É difícil não gostar de Leesha enquanto personagem e ainda bem, para mim, que está longe de ser uma protagonista tradicional.

Várias personagens cresceram e ganharam ênfase ao longo dos últimos dois livros. Rojer sempre foi uma personagem à parte, que nunca acrescentou muito à narrativa e, no entanto, os seus capítulos sempre foram dos mais gostosos de se ler. A interação com as suas esposas – sim, leram bem! – foi uma das mais interessantes deste livro, com interferência no clima instalado entre os krasianos e os “hortelões”. Até as personagens mais secundárias como Gared e Wonda vêm, pouco a pouco, a ganhar vida.

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Fonte: http://www.petervbrett.com/2017/08/17/unused-covers/

Leesha Papel e Renna Curtidor mostraram-se ser duas protagonistas bem diferentes. Brett fez-nos apaixonar pela Leesha indefesa que aprendeu, face a várias tragédias, a monitorar e manusear os recursos e as pessoas à sua volta. Mas, ao longo dos livros, vem a torná-la também cada vez mais semelhante à sua mãe, Elona, uma mulher hipócrita e manipuladora. É difícil não gostar de Leesha enquanto personagem e ainda bem, para mim, que está longe de ser uma protagonista tradicional.

Já Renna representa um lado mais duro e em simultâneo, meigo. Ela veio humanizar o protagonista, Arlen, e ao mesmo tempo que passou por situações tão ou mais difíceis que Leesha, reagiu às adversidades de outra forma, sobretudo devido ao modo como o Homem Pintado a resgatou ao mundo que a flagelava. A dependência emocional a Arlen e a forma como ambos estão ligados à dimensão sobrenatural dos demónios torna vívida e consistente a relação do casal.

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Fonte: http://www.unboundworlds.com/2017/06/dirt-cheap-ebooks-warded-man-peter-v-brett/

No outro pólo da barricada, encontram-se os dois Libertadores. Tanto o Cânone como o Evejah não deixam dúvidas de que só há espaço para um Libertador, por isso, mais cedo ou mais tarde, o confronto entre Arlen e Jardir teria de ocorrer. Arlen é o Homem Pintado, aquele que inspirou povos e incitou os mais vulgares camponeses a enfrentar os demónios da noite. Jardir, por sua vez, é o autoproclamado Libertador, aquele que está destinado a erguer a Lança de Kaji e a escorraçar de uma vez para sempre os demónios para as profundezas do Núcleo.

“(Peter V. Brett) Deixa-nos, por assim dizer, a babar pelo volume seguinte.

No cômputo geral, este terceiro livro não avançou muito na narrativa. Tivemos vários regressos e reencontros no Outeiro, assim como uma grande batalha, mas não aconteceu realmente uma evolução espaço-tempo significativa. Perdeu por começar com força na história de Inevera, alternando-a com o estado presente de outros personagens, para deixar a Dama’ting de novo no seu papel secundário na segunda parte do livro.

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Fonte: https://www.barnesandnoble.com/blog/sci-fi-fantasy/5-reasons-binge-read-demon-cycle/

Independentemente das opções do autor, foi um livro bastante coeso e bem amarrado, com os acontecimentos no Outeiro a satisfazerem-me bastante. A evolução geográfica da localidade, os planos do duque Rhinebeck de Angiers e do seu filho, o conde Thamos e a forma como eles estão interligados à individualidade das personagens principais foi extremamente bem desenvolvida pelo autor.

Autor este que, para além de nos oferecer alguns momentos de cortar a respiração no último capítulo do livro, deixa-nos com um cliffhanger enorme. Deixa-nos, por assim dizer, a babar pelo volume seguinte. Pessoalmente, é a maturidade literária de Peter V. Brett, a forma como ele trabalha personagens e lhes dá credibilidade, a grande mais-valia desta série que vou, sem dúvida, continuar a seguir.

Avaliação: 7/10

Ciclo dos Demónios (ASA / 1001 Mundos):

#1 O Homem Pintado

#2 A Lança do Deserto

#3 A Guerra Diurna

Estive a Ler: A Lança do Deserto, Ciclo dos Demónios #2

O príncipe nuclita silvou ao ouvir o escolhido rejeitar a questão. A lógica ditava que os matasse aos dois, mas não era urgente. O número de guardas em volta do seu abrigo sugeria que não partiriam tão cedo. Podia observá-los por mais alguns ciclos.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A LANÇA DO DESERTO”, SEGUNDO VOLUME DA SÉRIE CICLO DOS DEMÓNIOS

Publicado originalmente em março de 2010 pela Harper Collins, A Lança do Deserto é o segundo livro do autor americano Peter V. Brett, cimentando o início auspicioso que este revelara em O Homem Pintado, volume inaugural da série Ciclo dos Demónios. A história segue o trajeto épico de Arlen Fardos, Leesha Papel e Rojer Meia-Mão, três heróis improváveis num mundo definhado pelos medos que a noite desperta.

Autor de várias histórias curtas e publicações passadas no mesmo mundo, Peter V. Brett vive em Manhattan com a esposa Lauren e as duas filhas, Cassandra e Sirena. A edição portuguesa da Coleção 1001 Mundos da Gailivro foi lançada em julho de 2010, poucos meses após o lançamento oficial, num total de 744 páginas e tradução de Renato Carreira.

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Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/6736971-the-desert-spear

Se O Homem Pintado já me havia conquistado (muito embora tivesse torcido o nariz à reta final), A Lança do Deserto veio consolidar a minha opinião em relação ao autor. Peter V. Brett é dono de uma escrita fluída e madura, ao mesmo tempo que consegue construir histórias verosímeis e consistentes, não descurando pormenores e sabendo jogar com as emoções dos leitores, assim como o faz com as suas personagens.

“Leesha conseguiu fazer do Outeiro um dos primeiros povoados com “garras” para fazer frente aos demónios.”

Embora ambos sejam livros com qualidade, senti que o primeiro veio a decrescer com o desenvolvimento das personagens, enquanto neste segundo volume senti precisamente o oposto. Após um início muito bem escrito e interessante, mas completamente deslocado da ação principal e até em alguns momentos aborrecido, a partir do momento em que nos focamos no fio narrativo do anterior volume, o livro veio a crescer em inventividade e desenvolvimento.

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Fonte: https://www.wook.pt/livro/a-lanca-do-deserto-peter-v-brett/8646628

A secção inicial é focada em Ahmann Jardir, o Shar’Dama Ka de Krasia, a cidade conhecida como a Lança do Deserto. Para os mais esquecidos, Jardir é aquele senhor krasiano que traiu Arlen durante a sua estadia no forte, ficando com a lança mística cravejada de guardas (as protecções contra os demónios) que este encontrara numas ruínas antigas em pleno deserto. Guardas que Arlen copiou antes de Jardir o expulsar e condenar à morte na noite desértica de Krasia. Foram mesmo esses conhecimentos que fizeram Arlen tornar-se o Homem Pintado, cujos feitos bélicos contra os demónios fizeram muitos chamá-lo de Libertador, à sua passagem.

Por quase dois quartos do livro conhecemos ao pormenor Jardir, desde a sua infância, à amizade com o mercador Abban e como este se tornou khaffit, um homem menor de acordo com os padrões krasianos, mas também revisitamos a estadia do Par’Chin (Arlen) em Krasia e como Jardir começou a ver-se como o novo Libertador, seguindo os passos de Kaji. Achei bem interessantes todas as passagens que envolveram Jardir, mas confesso que os flashbacks que mostraram a sua infância e desenvolvimento pessoal tornaram o livro algo maçudo, especialmente porque foi apresentado numa fase inicial do mesmo.

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Fonte: https://www.pinterest.co.uk/pin/354025220686352316/

As intrigas palacianas, a sua ascensão e o desafio ao Andrah foram excelentes, acima de tudo pelo emergir de uma das personagens mais incríveis da série até agora: a Dama’ting Inevera, uma das esposas de Jardir. Mais do que uma esposa, é ela quem controla o harém e decide com quem Jardir deve casar. Para além disso, tem capacidades místicas, pois vê o futuro no lançamento de dados e porta um crânio de demónio da chama. Inevera é também responsável por decisões políticas, graças à sua influência em muitos círculos.

“Pessoalmente, prefiro Jardir a Arlen, enquanto personagem.”

Assim que regressamos ao Outeiro do Lenhador, agora chamado de Outeiro do Libertador após a grande batalha em que culminou o primeiro volume, vemos Leesha e Rojer a assumir papéis de liderança, ensinando aos populares as suas técnicas e guarnecendo como podem a povoação. Enquanto Arlen vai e vem, recusando-se a permanecer num sítio só quando há tantas povoações para instruir e convencer a lutar, Leesha conseguiu fazer do Outeiro um dos primeiros povoados com “garras” para fazer frente aos demónios.

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Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/6736971-the-desert-spear

O mesmo não pode dizer Rojer. Para além de renegado pela mulher que ama, os seus ensinamentos na arte de enfeitiçar demónios com música não parecem obter êxito. O dom parece estar restrito à sua pessoa, e os fantasmas do passado teimam em bater-lhe à porta. Com Wonda e Gared Lenhador como guarda-costas, Leesha vê o ataque dos krasianos a Forte Rizon como um forte motivo para tentar unir Angiers e Miln na defesa das Cidades Livres, uma vez que o Outeiro não tem capacidade para receber muitos mais refugiados.

É então que uma comitiva parte do povoado, comandada por Arlen, para tentar unir os duques arqui-inimigos, Rhineback e Euchor, contra o inimigo comum. Durante a jornada, Arlen revisita lugares e reencontra pessoas do seu passado, para deixá-lo cada vez com mais dúvidas sobre o seu papel no mundo, mas cada vez mais certo que o seu lugar é na frente de combate contra os demónios.

Aqui reside uma das principais diferenças entre Arlen e Jardir. Enquanto o segundo acredita ser o Libertador reencarnado, que virá trazer a união ao mundo e escorraçar os demónios, Arlen crê que o seu papel é apenas o de levar ao mundo o conhecimento das guardas de combate, mostrar às pessoas que podem viver sem medo, e que não basta esconderem-se atrás de guardas quando a noite chega, é imperial enfrentar os demónios e lutar contra eles.

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Fonte: https://lina0809.deviantart.com/favourites/62366653/Demon-Cycle

Sem dúvida, gostei mais do Arlen deste segundo livro do que aquele que conheci no primeiro. Ainda assim, a personagem de Jardir não lhe fica atrás. Extremamente bem construído, enraizado em ideais profusos da cultura krasiana, Jardir acabou por mostrar uma variância de traços que faz o leitor, por momentos, torcer pelo seu sucesso. Pessoalmente, prefiro Jardir a Arlen, enquanto personagem.

Mas a adição de outros pontos de vista ao livro foi também benéfico ao mesmo. Falo de Jardir e Abban, mas também do pai de Arlen, Jeph Fardos, que foi muito positivo voltar a encontrar, mas sobretudo de Renna Curtidor. O ambiente sufocante de uma pessoa que é vítima do próprio pai foi descrito de forma exímia por Peter V. Brett, e ver focados assuntos dramáticos e bem reais em livros de fantasia é sempre meio caminho andado para me conquistar.

E, como bónus, temos novos demónios. Os demónios da mente e os seus miméticos ainda irão dar muito que falar. A Lança do Deserto é mais um livro a recomendar, porque o Ciclo dos Demónios consegue apresentar um mundo fantástico não muito original, cheio de paralelismos ao nosso e de inversões interessantes, apresentando idiossincrasias, hipocrisias e preconceitos que fazem desta uma história credível, que consegue fugir ao padrão e ganhar uma identidade própria bem agradável.

Avaliação: 7/10

Ciclo dos Demónios (Gailivro / 1001 Mundos):

#1 O Homem Pintado

#2 A Lança do Deserto

#3 A Guerra Diurna

Estive a Ler: O Homem Pintado, Ciclo dos Demónios #1

Leesha não queria morrer. Sabia-o agora. Demasiado tarde. Mas, mesmo que desejasse voltar para trás, a sua casa ficava agora mais distante do que a cabana de Bruna e não havia nada entre uma e outra.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O HOMEM PINTADO”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE CICLO DOS DEMÓNIOS

O Homem Pintado foi o romance de estreia de Peter V. Brett, autor norte-americano formado em Literatura Inglesa e História da Arte. Fã confesso de bandas-desenhadas e Dungeons & Dragons, Peter saltou para o estrelato com o seu primeiro livro, cujo sucesso o “obrigou” a prorrogar a série. A trilogia inicialmente pensada transformou-se numa saga de culto, ainda em publicação.

Ao lado de Joe Abercrombie e Patrick Rothfuss, Peter V. Brett é outro dos autores de literatura fantástica que mereciam uma casa melhor do que a Coleção 1001 Mundos do Grupo Leya, tão questionável a nível de títulos que até mudou o nome desta série durante a publicação. O primeiro volume, com 608 páginas e tradução de Renato Carreira, nem sequer tem o nome da série impresso no livro.

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Fonte: http://onlythebestscifi.blogspot.com/2010/04/review-painted-man-by-peter-v-brett.html

O livro é grande, em boa verdade, mas as letras também e Brett consegue manter o leitor agarrado às páginas, na expectativa do que se sucede em seguida. Confesso que não consegui ler menos de 100 páginas por dia. Brett convida o leitor a manter-se acordado na noite escura, a devorar as páginas do seu livro e a conhecer os demónios terríveis que amedrontam os seus lugares imaginados. A premissa tem uma vibe muito M. Night Shyamalan, muito embora a descrição das personagens na sinopse não me tenha entusiasmado por aí além. Felizmente, o livro revelou-se melhor do que eu esperava.

“…só posso granjear elogios à forma como o autor explorou as hipocrisias da sociedade.”

A escrita do autor norte-americano é simples, mas revela conhecimentos e maturidade literária, algo que falta em muitos autores do género. Pessoalmente, achei a escrita fluída e bastante competente. E a história revelou-se também prometedora e bem construída; pena que Brett tenha perdido completamente a mão no terço final do livro, caindo em clichés e desenrolares algo forçados.

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Fonte: http://pilulasliterarias.blogspot.com/2014/09/analise-o-homem-pintado-de-peter-v.html

A história é contada em capítulos com ponto de vista – o conhecido POV – protagonizados por Arlen, Rojer e Leesha. Quando a história começa, eles são crianças, cada um a viver numa povoação distinta. É aqui que conhecemos os dramas e dilemas de Arlen, personagem central da narrativa.

Todas as noites, os nuclitas atacam. São demónios de fogo, de ar, de madeira, de rocha, de água ou de areia, que assumem diferentes formas e respeitam uma ordem natural de entreajuda, rivalidade ou estratificação entre eles. Quando a noite cai, erguem-se do Núcleo e materializam-se, correndo atrás de vidas humanas para delas se alimentarem. É a típica história do papão que só aparece à noite, mas aqui todos sabem que eles vêem e cada um faz o que pode para se proteger.

A essa proteção chamaram guardas. Tratam-se de símbolos mágicos herdados de tempos imemoriais que, gravados, repelem os demónios e os impedem de entrar em determinados territórios. As guardas podem ser encontradas nos limites amuralhados das Cidades Livres, em postes, na madeira das residências ermas ou mesmo em círculos portáteis, usados em viagens.

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Fonte: https://thedemoncycle.deviantart.com/gallery/37869437/Random-from-Featured

Quem se utiliza muito desses círculos são os Mensageiros. De Fort Miln a Angiers, passando pelo Rio Divisor e pelas muitas terras do mundo fracturado de Thesa, esta figura viaja de terra em terra distribuindo correio e notícias, geralmente acompanhada de um Jogral. Tanto um como o outro são filiados a uma Associação, devendo responder a certas normas e deveres. Estes Mensageiros, uma vez que passam a grande maioria das noites ao relento, são também Guardadores, exímios na arte de esculpir ou traçar guardas.

Por sua vez, os Jograis mitigam os medos e dramas pessoais dos populares com os seus malabarismos, canções e pantominas. Uma das histórias que cantavam remonta a um passado longínquo, quando um sujeito chamado de Libertador escorraçou os demónios da face de Thesa com guardas de ataque. Os demónios viriam, porém, a regressar muito tempo depois, quando os homens já se haviam esquecido dos símbolos de ataque, restando-lhes apenas as guardas defensivas.

“…foram os capítulos protagonizados por Rojer e Leesha a alma do livro.”

A primeira parte do livro é seguramente aquela em que mais gostei de Arlen, embora nunca tenha sido um personagem que me suscitasse grandes simpatias. O seu papel na comunidade do Ribeiro de Tibbet, os conflitos com o pai, as certezas do que não queria para a sua vida e a devastadora perda que sofreu foram um aperitivo interessante para esta história. Também gostei do seu tempo em Miln, com o Mensageiro Ragen e a sua esposa Elissa, que o acolheram, e da sua aprendizagem com Cob.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=DSxSIoq0mjU

Mas foram os capítulos protagonizados por Rojer e Leesha a alma do livro. O trajeto de Rojer surpreendeu-me desde o primeiro momento, quando Brett o colocou, quase um bebé, nas mãos do Jogral baboso que olhava para o generoso decote da sua mãe. As suas desventuras com Arrick Doce-Canção foram muito boas, revelando um dom inusitado para a música, sempre acompanhado pela tragédia que permeia a vida de artista.

Com Leesha, Brett revelou mão firme e uma consistência narrativa de salutar. Fez-me lembrar as intrigas de Ken Follett em Kingsbridge, tal a forma como conseguiu cativar-me e fazer-me torcer pela protagonista, da mesma forma com que me fez odiar Elona e os restantes vilões. No Outeiro do Lenhador, todos pareciam pessoas verídicas, de carne e osso, e só posso granjear elogios à forma como o autor explorou as hipocrisias da sociedade.

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Fonte: http://amalgamate.katalyst.com.au/students/caitlin-liebich/projects/creature-design-the-painted-man

Senti, no entanto, que os vários saltos temporais prejudicaram a narrativa, sobretudo porque vários núcleos mereciam ter sido melhor explorados neste primeiro volume. Perdi a pouca simpatia que tinha por Arlen e perguntei-me se o maior cobarde em toda a história não era ele, o moralista que passou a trama a fugir de terra em terra, abandonando todos os que o amavam.

“O Homem Pintado é um livro muito satisfatório

Krasia pareceu-me ser uma cidade interessante de ver explorada, mas preferia que fosse apresentada apenas no segundo volume. O autor perdeu imenso tempo a apresentar a cultura krasiana, que por sinal é extremamente semelhante à islâmica, para deixar o protagonista por lá pouco tempo. Quando a cidade tiver maior foco narrativo, sinto que o impacto não será tão grande.

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Fonte: http://amalgamate.katalyst.com.au/students/caitlin-liebich/projects/creature-design-the-painted-man

E, a partir do momento em que os três protagonistas se cruzam, Peter V. Brett pareceu ter ligado o piloto automático. O livro perdeu a magia e a consistência e seguiu um rumo previsível. De uma escolha romântica cliché e pouco credível, a uma batalha sem a emoção e o volume de páginas que merecia, passando por uma violação esquecida em três tempos, o terço final desiludiu-me bastante.

Ainda assim, O Homem Pintado é um livro muito satisfatório, uma espécie de prólogo gigante de uma série com muito potencial. Bem escrito e envolvente, o livro inaugural do Ciclo dos Demónios deixa claro o porquê de Peter V. Brett ser um dos novos autores de fantástico mais procurados dos últimos anos.

Avaliação: 7/10

Ciclo dos Demónios (Gailivro / 1001 Mundos):

#1 O Homem Pintado

#2 A Lança do Deserto

#3 A Guerra Diurna

Estive a Ler: Se Acordar Antes de Morrer

Peço informações suplementares. Onde estou? Onde está o meu Dono? Porque é que ninguém quer brincar comigo?

O texto seguinte aborda o livro Se Acordar Antes de Morrer

Ler João Barreiros é estar disposto, goste-se ou não do estilo, linguagem e conteúdo, a conhecer o melhor da ficção científica escrita na língua de Camões. Se Acordar Antes de Morrer foi publicado pela Edições Gailivro em 2010, incluindo vários contos do autor nacional. A coletânea faz parte da Coleção 1001 Mundos, que colige os mais variados livros de Ficção Especulativa publicados pela editora.

Co-fundador da Simetria e da Épica, João Barreiros destacou-se como escritor, editor e crítico de ficção científica. Professor de filosofia, venceu por mais de uma vez o prémio Nova, que reconhece os melhores contos publicados na América do Sul.

Não é novidade que sou admirador do trabalho de João Barreiros. Acho que, para qualquer autor de Ficção Especulativa nacional ele é uma referência, quanto mais não seja pela luta constante que trava, não só para a expansão da FC cá dentro, como para a promoção da escrita nacional no estrangeiro. A sua carreira literária passa sobretudo por histórias curtas, contos e noveletas, e posso dizer que já li uma boa parte do seu trabalho.

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Fonte: https://nit.pt/coolt/livros/joao-barreiros-star-wars-um-filme-fantasia-putos

Terrarium, o romance em mosaicos que escreveu com Luís Filipe Silva, foi lançado numa versão melhorada em 2016, resultando na minha melhor leitura do ano passado escrita por autores nacionais. Mas é de Se Acordar Antes de Morrer que estamos a falar. Senti-me bastante atraído por este livro sobretudo por dois contos: “Brinca Comigo” e “Disney no Céu entre os Dumbos”. Surpreendentemente, as notas introdutórias de cada conto acabaram por ser experiências de leitura quase mais interessantes que os próprios contos. Quase.

Infelizmente, as minhas expectativas traíram-me. O livro abria com os dois contos que tinha mais interesse em ler, e acabei por não gostar muito deles. Não que lhes falte qualidade, mas achei-os arrastados e sem qualquer novidade. “Brinca Comigo” mostra um mundo futurista em que o Noddy, as Barbies e os Kens têm de se “aguentar à bronca” numa era em que a raça humana abandonou a superfície da Terra. Divertido e irreverente, achei-o um conto ótimo para quem não conheça o autor. Pessoalmente, já li bem melhor dele.

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Algo comum na escrita de João Barreiros é a aliança entre a sátira, o horror e a ficção científica, sempre de forma coesa e hilariante. São estas três componentes a marca literária do escritor, sempre dotado de um entusiasmo jovial que, tanto encanta como, por vezes, pode fazer cansar. “Disney no Céu entre os Dumbos” é um conto muito bem escrito, divertido na medida em que exorciza a figura Disney e satiriza o mainstream. Mas, para quem leu o seu conto “Mais do Mesmo” e o livro Terrarium primeiro, pode achá-lo um tanto ou quanto… repetitivo. As minhas expectativas não ajudaram.

“Surpreendentemente, as notas introdutórias de cada conto acabaram por ser experiências de leitura quase mais interessantes que os próprios contos.”

O pequeno conto “Efemérides” mostrou-se interessante, uma visita guiada a um evento, num mundo paralelo onde Kennedy não morreu. “Fantascom – A Catastrófica Chegada” só pecou por extenso. O conto apresenta-nos o escritor Gervásio Quiroga, numa convenção de fantástico onde ele é o único escritor vivo, obrigado a engolir as diretrizes do regime. Foi também o primeiro conto que li com o alter-ego de João, José de Barros, como personagem.

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Fonte: http://a-chave-dicotomica.blogspot.pt/2012/07/lisboa-electropunk-um-cenario-futurista.html

Continuando em onda de convenções literárias, “Liscon 2060” apresenta-nos Álvaro de Sousa e a terrível viagem do Porto para Lisboa, para um evento que termina muito mal para o herói. Um conto bem divertido e de leitura fácil. A partir daqui, os contos tornaram-se, para mim, mais interessantes. “Noite de Paz” traz-nos um exército armado aos confins do mundo para abater o temível e maquiavélico Pai Natal. Na sequência de “Efemérides”, embora tenha sido escrito dez anos depois, “A Síndroma de Abraão” revisita a chegada do homem à Lua de um jeito bem engraçado.

“Os Minino da Noite” foi um dos meus contos preferidos da coletânea. A Fortaleza Europa trouxe novas regras ao nosso mundo e uma série de acontecimentos obrigou os não-europeus a regressar aos países de origem. O que aconteceu? Onde estão as crianças? Protagonizado pela personagem Olga, “Por Amor à Prole” fala de maternidade, de um jeito que só João Barreiros podia escrever. Absolutamente delicioso.

Já tinha lido “Por Detrás da Luz” na antologia da Saída de Emergência A Sombra Sobre Lisboa. O conto é uma homenagem a Lovecraft, uma história com cabeça, tronco e membros, de que sempre me irei recordar pela positiva. O conto “Se Acordar Antes de Morrer” traz a história que dá título e capa ao livro. Numa homenagem a George Romero, o conto mostra-nos um robot vestido de Pai Natal que faz os mortos- vivos que o mordem perguntarem-se por que raio não tem carne.

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Fonte: https://www.slideshare.net/andebuca/se-acordar-antes-de-morrer-12832334

Os contos “O Teste” e “Sincronidade” conduzem-nos numa visita peculiar a uma Lisboa futurista, enquanto “Uma Noite na Periferia do Império” apresenta-nos as aventuras e desventuras do Embaixador Cultural dos Croap’tic, Sua Senhoria Canto-Franco (qualquer semelhança com o Poupas da Rua Sésamo não é coincidência) e do seu companheiro símio, o servo Chirptic. Um dos contos mais excêntricos de Se Acordar Antes de Morrer.

Por fim, “Um Homem e o Seu Gato” faz referência à obra original de Harlan Ellison, “A Boy and his Dog”, um conto que fala de IA’s, conflitos de interesses… e de amor. O amor profundo de Sequeira pelo seu gato, o Senhor Luvas. Em suma, Se Acordar Antes de Morrer acabou por ser mais uma excelente leitura com o nome João Barreiros estampado na capa.

Avaliação: 7/10

A Divulgar: Netflix Adapta “The Witcher” e “A Guerra É Para os Velhos”

Não é novidade que a Netflix está a preparar a adaptação televisiva da famosa saga de Andrzej Sapkowski, The Witcher, que se popularizou através de um jogo de computador. A poucos dias de Portugal receber o autor polaco (dia 16, na ComicCon), começam agora a conhecer-se alguns pormenores da nova série.

Segundo a revista Variety, a guionista e produtora executiva da série será Lauren Schmidt Hissrich, que tem já um trabalho relevante na Netflix, uma vez que foi a responsável por êxitos como Jessica Jones, Daredevil e The Defenders. Acessorada por Sapkowski, Hissrich terá um grande trabalho em mãos. Vale recordar que o terceiro volume da série literária, O Sangue dos Elfos, tem lançamento nacional a 12 de janeiro, pelas mãos da Saída de Emergência.

Outra grande série literária será adaptada pela Netflix. A Guerra é Para os Velhos, livro de ficção científica de John Scalzi, chegará à produtora, não como série, mas como filme. Robyn Meisinger e Adam Kolbrenner serão os responsáveis pelo trabalho, com Ryan Cunningham e o próprio Scalzi a assumir as vezes de produtores executivos. Vale lembrar que este foi o livro de estreia de Scalzi, publicado em 2009 pela chancela 1001 Mundos das Edições Gailivro no nosso país.

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Fonte: https://www.investireoggi.it/tech/netflix-tutti-amazon-anche-google-facebook-apple-puntano-allo-streaming/

Resumo Trimestral de Leituras #11

O verão costuma ser uma estação menos dada a leituras, mas em 2017 acabei por conseguir ler mais do que nos anos anteriores durante este período. Se julho foi o mês em que li mais, com as bandas-desenhadas a conhecerem alguma predominância, agosto trouxe-me boas surpresas como Os Despojados de Ursula K. Le Guin ou Anjos de Carlos Silva. Já o mês de setembro ficou marcado pela conclusão de várias sagas que vinha a seguir, como é o caso da Saga O Regresso do Assassino de Robin Hobb, A Torre Negra de Stephen King e A Primeira Lei de Joe Abercrombie. Destaque ainda para a leitura de vários autores nacionais, como Carlos Silva, Pedro Cipriano, Jay Luís ou Bruno Martins Soares. Foi A Súbita Aparição de Hope Arden, de Claire North, porém, o livro que mais me arrebatou, tornando-se a melhor leitura do ano até ao momento.

Regressos, Southern Bastards #3 – Jason Aaron e Jason Latour

O Homem Que Roubou o Mundo, Velvet #3 – Ed Brubaker, Steve Epting e Elizabeth Breitweiser

Monge Guerreiro – Romulo Felippe

Despertar, Monstress #1 – Marjorie Liu e Sana Takeda

Conquista da Liberdade, Rebeldes Europeus #1 – Jay Luís

As Nuvens de Hamburgo – Pedro Cipriano

A Jornada do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #4 – Robin Hobb

Os Despojados – Ursula K. Le Guin

Anjos – Carlos Silva

Os Mares do Destino, Elric #3 – Michael Moorcock

Bruxas | Wytches – Scott Snyder e Jock

A Forca, A Primeira Lei #2 – Joe Abercrombie

Os Dragões do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #5 – Robin Hobb

A Súbita Aparição de Hope Arden – Claire North

One-Punch Man #3 – One e Yusuke Murata

A Torre Negra, A Torre Negra #7 – Stephen King

Moving – Bruno Martins Soares

A Coroa, A Primeira Lei #3 – Joe Abercrombie

Fighting The Silent, The Dark Sea War Chronicles #1 – Bruno Martins Soares

Sem TítuloComecei julho com o terceiro volume de Southern Bastards, Regressos. É mais um capítulo da violenta saga sobre as gentes do Alabama criada por Jason Aaron e Jason Latour, autor e ilustrador norte-americanos. Focado em seis personagens, Regressos é ambientado no período do Homecoming, em que a equipa dos Reb’s prepara-se para receber os Warriors, um jogo ensombrado pelo suicídio de Big, que se sentira esmagado pela atitude conspiratória da população em torno da morte de Earl Tubb. Os dois autores conseguiram enriquecer a série e abrir novas perspectivas para a mesma, ao mesmo tempo em que submergiram o leitor num ritmo crescente. O Homem que Roubou o Mundo é o terceiro volume de Velvet, com argumento de Ed Brubaker, arte de Steve Epting e cores de Elizabeth Breitweiser. A um ritmo alucinante, o leitor segue a espia Velvet Templeton na peugada de respostas sobre a cabala que a fez matar o homem que amava. Uma conspiração que a leva aos meandros do Caso Watergate e ao rapto do presidente Nixon. Uma conclusão de trilogia fantástica, cheia de ação, perseguições e tiroteios. Duas fantásticas BD’s trazidas até nós pelas mãos da G Floy Studio Portugal.

Sem títuloDo autor brasileiro Romulo Felippe, Monge Guerreiro é um ótimo livro histórico pincelado de fantasia. Vemos um templário montado num unicórnio, um dragão a perseguir o papa pelas cidades italianas e uma missão lançada por Luís IX de França para proteger duas relíquias sagradas: a Lança de Longinus e a Coroa de Espinhos. Com uma melhor revisão e um maior equilíbrio entre a primeira e a segunda metade, o livro seria fantástico. Com argumento de Marjorie Liu e arte de Sana Takeda, duas artistas ligadas à Marvel, Despertar é o primeiro volume de Monstress, a nova aposta das Edições Saída de Emergência. Num mundo de inspiração asiática, uma rapariga arcânica vê-se no cerne de uma disputa de anos entre humanos e arcânicos. Muito embora pareça inofensiva, Maika Meiolobo tem dentro de si um poder imensurável, o resquício de um mal muito antigo que tem permanecido adormecido. Brilhante na arte e com um argumento maravilhoso, Monstress atira-nos para um mundo que levamos tempo a compreender, no qual a liderança matriarcal e a linguagem crua e direta nos absorvem de forma natural desde o primeiro momento.

Sem títuloPrimeiro volume da série Rebeldes Europeus da autora nacional Jay Luís, publicada pela Pastel de Nata Edições, Conquista da Liberdade é uma distopia interessante sobre um grupo rebelde que tenta resgatar famílias para colónias espaciais quando o nosso mundo foi dominado por um tirano de origens islâmicas. Duas irmãs que fazem parte desse sistema lutam contra a tirania, ao mesmo tempo que tentam proteger a sua própria família. Um livro algo fraco a nível de escrita, com muito a ser melhorado num próximo volume. Num outro patamar de qualidade está o livro de Pedro Cipriano, As Nuvens de Hamburgo, publicado pela Flybooks. O autor faz-nos vestir a pele de Marta, uma estudante de Erasmus em Hamburgo que começa a ter visões de acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo que tenta descobrir o que se passa consigo, procura usar o dom para fazer algo de importante. Um livro de leitura rápida e vocabulário simples que funcionou muito bem e agradou-me. O quarto volume da Saga O Regresso do Assassino de Robin Hobb, A Jornada do Assassino, não tem nada de muito original ou rasgos de génio, mas as ligações entre os personagens e entre os personagens e o leitor são incríveis e a escrita de Hobb é simplesmente maravilhosa. Respeitador avança na sua jornada para as Ilhas Externas acompanhado de Fitz, Breu, Obtuso e companhia, mas tanto o reencontro com a narcheska Eliânia como a procura do dragão não são exatamente como esperavam. Uma fantástica série publicada pela Edições Saída de Emergência.

Sem TítuloAgosto começou com ficção científica, também publicada pela Saída de Emergência. Escrito por Ursula K. Le Guin, Os Despojados narra a estadia de um físico natural de Anarres no seu planeta gémeo, Urras, de modo a conhecer melhor aquela civilização e a ajudá-los com os seus estudos. Rapidamente, porém, Shevek percebe o alcance da manipulação de que é alvo. Um livro bastante filosófico e político, acima de tudo uma dura crítica social aos regimes capitalistas, mas que acaba por mostrar que nenhuma civilização é perfeita e nenhum estado social consegue estar imune a vários e sérios problemas. Um livro que me deliciou, em parte graças à escrita envolvente de Ursula, mas que demorei a ler, por em determinados momentos ser algo confuso e aborrecido. Vencedor do Prémio Divergência em 2015, Anjos é o romance de estreia de Carlos Silva e o primeiro livro de solar punk em Portugal. Num futuro longínquo, o nosso país foi vítima de um terramoto. Seguiu-se um período de várias mudanças a nível social e tecnológico, que se traduziu num novo modo de vida. O Portugal que conhecíamos transformou-se. É um livro pequeno e por vezes pouco equilibrado na chuva de pontos de vista que nos quer mostrar, ainda assim de uma qualidade acima da média dentro da literatura nacional.

Sem títuloOs Mares do Destino é o terceiro volume da saga Elric de Michael Moorcock, e o último publicado em Portugal pela Saída de Emergência. Nesta aventura do imperador albino, acompanhamo-lo através do Multiverso, conhecendo países e culturas que julgava impossíveis. Dos mares revoltos, onde conhece uma jovem predestinada, ao navio de um capitão onde encontra três facetas de si próprio, Elric percorre um gólgota de devastação onde a sua vida encontra-se sempre em risco. É quando conhece um duque careca e enfrenta um antepassado que a jornada ganha finalmente sentido, no encontro das suas origens e das origens do seu povo. Um volume de que gostei bastante, porque apesar de não acrescentar nada de novo à trama conseguiu envolver-me. Uma prova de que as velhas histórias de espada e feitiçaria continuam a fascinar-me. Lançado pela G Floy Studio Portugal, Bruxas | Wytches é um produto de sucesso de um dos principais argumentistas de Batman, Scott Snyder. Com ilustração de Jock, Wytches é uma história tensa e incrível sobre uma família que tenta ultrapassar uma tragédia que os marcou a todos e unir os fragmentos do que tinham. A jovem Sailor não se consegue adaptar à nova escola nem à nova vida, e nessa espiral depressiva descobre que a floresta à volta da casa nova está pejada de bruxas. Para piorar, ela está marcada para morrer. Estas bruxas de Snyder são, no entanto, bem mais monstruosas do que a visão comum das mesmas. Não me maravilhou, mas gostei bastante e a arte está brutal.

Sem títuloA minha última leitura de agosto foi A Forca, o segundo volume da série A Primeira Lei de Joe Abercrombie. Enquanto Bayaz conduz Logen Novededos, Jezal dan Luthar, Ferro Maljinn, Malacus Quai e Pé-Longo até aos confins do mundo para encontrar um artefacto mágico capaz de salvar o mundo, o major West é obrigado a enfrentar os exércitos de Bethod e resistir à futilidade das ordens do príncipe Ladisla, a quem foi confiado. No sul, os exércitos gurkeses montam cerco a Dagoska, o último bastião da União naquelas paragens, e o inquisidor Glotka é enviado para lá não só para resistir ao cerco como para descobrir o que aconteceu ao seu antecessor. Arruinar uma conspiração torna-se, no entanto, o menor dos seus problemas. Foi um volume que melhorou em relação ao anterior, mas continuo sem gostar do núcleo principal. Os capítulos de Glotka, West e Cão foram, sem dúvida, o que salvou o livro. Uma edição 1001 Mundos. Pela Saída de Emergência, iniciei setembro com Os Dragões do Assassino. Numa toada semelhante à dos volumes anteriores, Robin Hobb desdobra a capa que encerrava todos os segredos no quinto e último volume da Saga O Regresso do Assassino. Os mistérios na Ilha de Aslevjal são finalmente descobertos, o dragão Fogojelo é arrancado da sua clausura sob o gelo e personagens como Castro, Fitz, Moli, Breu, Respeitador e Eliânia conhecem fins de maior ou menor felicidade. Um ciclo que foi encerrado com grande perícia e mestria por parte da autora canadiana, ainda assim houve algo que me fez não gostar tanto deste como dos anteriores.

Sem títuloO novo livro da autora Claire North, que já o ano passado havia surpreendido com As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, foi só a minha melhor leitura deste ano até ao momento. Envolvente, rico em pormenores e extremamente ambicioso, A Súbita Aparição de Hope Arden foca-se numa rapariga que desde os 16 anos viu toda a gente esquecer-se dela. Quando as pessoas deixam de a ver por segundos, esquecem-se do seu rosto e de quem ela é ou o que fez. Hope transformou-se numa rapariga esquecível, o que a obrigou a sobreviver por sua própria conta e risco e, à margem da sociedade, caiu no mundo do crime. A história é excelente mas foi sobretudo a escrita da autora que me encantou. Com argumento de One e ilustrações de Yusuke Murata, o terceiro volume de One-Punch Man, recentemente publicado pela Devir, leva os heróis Saitama e Genos a uma prova para determinarem a classe de super-heróis a que pertencem e verem os seus nomes registados na lista oficial. Depois, terão de lidar ainda com um motim de super-heróis e com monstros aborrecidos. Apesar de ter vários pormenores interessantes, a história vale sobretudo pelo braço-de-ferro entre Saitama e Genos e a insistência do ciborgue em ser ensinado por um homem que não está nem aí, nem sabe o que lhe haveria de ensinar. Parece-me, no entanto, um mangá que está longe de justificar o sucesso que obteve.

Sem títuloCheguei finalmente ao fim da saga A Torre Negra de Stephen King, publicado no nosso país pela Bertrand Editora. O último volume, com o mesmo nome, mostra Roland, Jake, Eddie, Susannah, Oi e o padre Callahan numa corrida contra o tempo para impedirem grandes males, mas a reta final da caminhada para a Torre Negra pertence exclusivamente a Roland de Gilead. Um livro que deixou a claro toda a simbologia criada pelo autor, foi uma história que me agradou imenso, os finais foram excelentes e as cenas de mortes incríveis. O pecado do livro, tal como havia verificado em livros anteriores da série, é o volume ostensivo de páginas, quando muitos capítulos são absurdamente dispensáveis. Já o conto do autor português Bruno Martins Soares disponível na Amazon, Moving, fala sobre livros (teimosos) e sobre Paulo, um homem averso a mudanças que é obrigado a aceitá-las. A escrita do Bruno é inteligente e fluída, mas também intimista, deixando-nos vestir a pele do personagem principal e nunca abandona a toada humorística durante a narração.

Sem TítuloTerceiro e último volume da série A Primeira Lei de Joe Abercrombie, A Coroa é um desenrolar de acontecimentos frenéticos e plot-twists de cortar a respiração. Bayaz e Ferro foram os personagens de que gostei menos e toda a magia envolvida soou-me forçada e anti-natural, quebrando a fluidez narrativa que Joe demonstrou ao desenvolver personagens como Glotka, Collem West ou Cão. Ainda assim, os personagens Jezal e Logen melhoraram bastante e, ainda que não tenha “comprado” a história nem gostado muito do final, fica claro que é uma trilogia a não deixar de ler. Primeiro volume da série The Dark Sea War Chronicles, Fighting The Silent do autor nacional Bruno Martins Soares estará disponível já dia 1 de outubro na Amazon. Trata-se de uma série de ficção científica protagonizada por Byllard Iddo, onde a ação acontece num sistema solar longínquo. Ali, uma guerra é travada entre o reino de Torrance e a temida República Axx. Após o fatídico incidente, Byl juntou-se à Marinha Espacial, onde se tornou tenente na poderosa armada de Webbur, a nação aliada a Torrance que estará na linha da frente para receber o embate de uma incursão inimiga. É um livro pequeno, muito bem escrito e original.

Neste momento estou a ler Elantris de Brandon Sanderson, e autores como Steven Erikson, George R. R. Martin, Edgar Allan Poe e Andrzej Sapkowski serão seguramente comentados por mim aqui no NDZ no próximo trimestre. Também as BD’s não serão esquecidas e os novos volumes de Saga e Tony Chu não me escaparão. Fiquem atentos.

Estive a Ler: A Coroa, A Primeira Lei #3

— Estás sempre bêbedo a esta hora da manhã?

— Eminência, ofende-me. — Nicomo Cosca sorriu. — Habitualmente, embebedo-me muitas horas antes.

O texto seguinte aborda o livro “A Coroa”, terceiro volume da série A Primeira Lei 

Joe Abercrombie nasceu em Lancaster em 1974 e atualmente mora em Bath com a esposa e os filhos. Foi editor freelancer de filmes e trabalhou em vários documentários e eventos musicais, até dedicar-se a corpo inteiro à escrita. A Lâmina (The Blade Itself), o seu primeiro romance, viu os direitos vendidos para 24 países, conquistando o público que se havia apaixonado pelas histórias de George R. R. Martin.

Em 2008, Abercrombie foi finalista do prémio John W. Campbell na categoria Autor Revelação, graças ao sucesso da trilogia A Primeira Lei. A série, cujo livro A Coroa (The Last Argument of Kings) é o terceiro volume, foi publicada em Portugal pela Edições Asa / 1001 Mundos. Com tradução de Renato Carreira, este terceiro livro encerra a trilogia com um tomo de 636 páginas que se tornaram um marco indelével da alta fantasia moderna.

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Fonte: http://firstlaw.wikia.com/wiki/First_Law_Wiki

Tenho motivos de sobra para dizer que Joe Abercrombie é um dos novos autores de fantasia com maior potencial. A sua prosa é algo banal, mas competente, e as suas histórias cativam com facilidade qualquer bom amante de literatura fantástica. Ainda assim, termino esta que é a série mais elogiada do autor com um sabor agridoce, o que está relacionado às escolhas narrativas de Joe.

Quem leu as minhas opiniões aos livros anteriores, sabe que eu adorei alguns núcleos e odiei outros, que julguei que a jornada de Bayaz, Logen, Ferro e companhia aos Limites do Mundo para encontrar uma pedra mágica era completamente out, e mais out ficou quando compreendemos o que ali se passou. Todos os capítulos deles no segundo volume serviram somente para o desenvolvimento de personagens e de relações. Tudo o resto foi pura perda de tempo.

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Fonte: 1001 Mundos

Com alguns spoilers do primeiro terço do livro, posso dizer que encontramos o grupo a regressar a Adua no início deste terceiro volume. Acabam por separar-se e cada um segue o seu caminho, com Logen a rumar ao norte para enfrentar Bethod, Jezal a tentar ser um homem melhor e a encontrar o amor nos braços de Ardee e Ferro a manter-se próxima de Bayaz, uma vez que pretende cobrar a promessa de vingança que este lhe deu. Malacus Quai e Pé Longo mantêm-se próximos, com participações decisivas no transcorrer da história.

“Tenho motivos de sobra para dizer que Joe Abercrombie é um dos novos autores de fantasia com maior potencial.”

Mas o coração da União está dilacerado após a morte dos herdeiros ao trono, e o Conselho Fechado move as suas peças desesperadamente, para impedir que a futura e mais do que certa morte do rei coloque um inimigo no trono. É ao Conselho Aberto que cabe a votação, e votos são comprados, jogadas são dadas, braços medem forças à margem dos olhares comuns. O juiz superior Marovia e o arquileitor Sult parecem ser os mais influentes, defrontando-se em jogos de bastidores que deixam claro que o rei é pouco mais do que um fantoche.

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Fonte: https://darey-dawn.deviantart.com/art/The-First-Law-trilogy-483682777

Sand dan Glotka, o torturador, vê-se entre a espada e a parede quando o seu superior oficial, Sult, e os seus financiadores secretos, a misteriosa firma bancária Valint e Balk, o empurram em direções opostas. Com o seu lado mais emocional à tona de água quando o assunto é Ardee West, a irmã do seu melhor amigo a quem prometeu que cuidaria, Glotka terá de lidar com várias pontas soltas e só poderá contar com os seus melhores amigos: os instrumentos de tortura.

Dos práticos Severard e Frost, à ruiva Vitari, passando pelo sempre charmoso Nicomo Cosca e a sua grande língua, Glotka é obrigado a chamar todos os recursos para se livrar da grande embrulhada em que o meteram, e a aparição inesperada de Carlot dan Eider, que havia libertado por comiseração, não o ajuda a resolver os problemas em mãos, principalmente quando ela é um deles. O anúncio de uma guerra iminente é a gota de água que poderá conduzi-lo definitivamente à ruína… ou uma janela de oportunidade única de ascensão.

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Fonte: https://dejan-delic.deviantart.com/art/His-Majesty-s-Inquisition-429415014

A norte, a ação concertada entre o exército da União e os nortenhos dissidentes a Bethod não parece dar frutos, com a saúde fragilizada do marechal Burr e os constantes braços-de-ferro entre os generais Kroy e Poulder a não contribuírem para os tão almejados progressos. É em Collem West e no nortenho Cão que as esperanças parecem recair, mas os dois homens sofreram demasiadas perdas para que a responsabilidade pareça, de facto, mais do que uma esperança vaga.

“Glotka terá de lidar com várias pontas soltas e só poderá contar com os seus melhores amigos: os instrumentos de tortura.”

A Primeira Lei é uma série que explica que o mundo onde vivem foi, no início dos tempos, palco de demónios e criaturas malignas. Um dia, tanto as criaturas como todo o tipo de magias foram atirados para o Outro Lado, tornando-se proibitivo entrar em contacto com ele: esta é a Primeira Lei. Duas leis foram decretadas, sendo que a segunda tratava de proibir o consumo de carne humana. Kanedias, o Criador, e Juvens, o mago original, defrontaram-se, assim como alguns dos seus discípulos. No fim, sobraram poucos, mas Bayaz, o Primeiro dos Magos, continuou a medir forças com Khalul, que se havia tornado influente em Gurkhul.

No centro de tudo estava a paixão de Bayaz pela filha de Kanedias, Tolomei, que conduziu a uma rixa com o Criador e à consequente morte de pai e filha. Várias perspetivas são projetadas sobre esta história, enquanto Bayaz digere a desilusão de não ter encontrado a Semente, a pedra que lhe permitiria contactar diretamente o Outro Lado, uma ferramenta para repelir Khalul e os seus devoradores. Enquanto isso, faz o seu jogo político que atinge o zénite quando o rei Guslav V morre.

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Fonte: http://firstlaw.wikia.com/wiki/Category:Characters_from_the_Union

Posso garantir que, sem recurso a magias, a saga A Primeira Lei tornar-se-ia possivelmente uma das minhas favoritas. A magia apresentada não tem qualquer explicação e a História dos magi é insípida. Bayaz seria um personagem muito mais interessante se se limitasse ao campo político / científico. Como foi apresentado, juntou-se à amuada Ferro como um dos piores personagens da série. A única porção de sobrenatural que achei bem executado na saga foi a que esteve relacionada à Segunda Lei. Os devoradores foram um dos pontos mais positivos.

A própria História do mundo criado é estéril, fazendo parecer que Casamir, Arnault e Harod foram os únicos reis da União, tantas as vezes em que os mesmos nomes foram referidos e sublinhados. Assim como as lutas antigas de Logen foram recitadas até à exaustão. Em comparação com o segundo volume, as batalhas brilhantemente descritas onde Cão e West participaram, e a estadia de Glotka em Dagoska, este último livro perdeu qualidade.

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Fonte: https://darey-dawn.deviantart.com/art/The-First-Law-trilogy-483682777

Ainda assim, todos os capítulos e secções focados em Glotka foram geniais. Que personagem! Tornou-se facilmente um dos meus preferidos, e todos os volte-faces e jogadas em que participou são memoráveis. Também West e Cão mantiveram a toada, sendo dos restantes personagens os que mais me agradaram, e sobremaneira. Ardee West surpreendeu-me e muito pela positiva neste volume final, e ainda um louvor adicional aos secundários Eider, os práticos Severard e Frost, o juiz Marovia e o sargento Pike. Fantásticas criações do autor.

“Em comparação com o segundo volume, as batalhas brilhantemente descritas onde Cão e West participaram, e a estadia de Glotka em Dagoska, este último livro perdeu qualidade.”

Também Jezal e Logen melhoraram em relação ao segundo volume. Vimos Jezal dan Luthar de regresso à casa de partida, a tornar-se um homem melhor, fez-me lembrar a construção de Elend ao longo da trilogia Mistborn, conseguindo ser mais rico como personagem, mas os seus capítulos tornaram-se francamente deprimentes com o nível de auto-comiseração do mesmo. Já Logen Novededos finalmente mostrou ao que veio, mostrando ser o personagem que o autor prometia desde o início e que nunca tinha sido até então. A partir do momento em que se junta à campanha militar, a sua performance melhora consideravelmente.

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Fonte: https://geeklyinc.com/geekly-guide-to-authors-joe-abercrombie/

A trilogia também vive muito de personagens-fantasma. Marovia só aparece em carne e osso praticamente neste último volume, Malacus Quai e Pé Longo foram meras ferramentas narrativas, porque se tiveram um ou dois momentos de protagonismo não foram mais que promessas, e há uma série de nomes que quem não ler os três livros de seguida vai ter dificuldade em lembrar-se deles. Salem Rews é um exemplo, apesar de ser um foreshadowing bem interessante. Yoru Sulfur, outro personagem importante na narrativa, apareceu de pára-quedas sem que me recordasse de onde ele tinha vindo.

“A trilogia também vive muito de personagens-fantasma.”

Não posso afiançar que foi problema de tradução, se uma vontade do autor, mas a repetição exagerada de certas expressões incomodou-me um pouco. O termo “rosado”, tão ostensivamente repetido nos POV’s de Ferro e a expressão “se disserem alguma coisa de Logen, digam que…”, como exemplos, irritaram-me. A própria edição da 1001 Mundos não inspira grande confiança: erros ortográficos ocasionais, capas pouco atrativas e títulos que não fazem justiça aos originais.

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Fonte: https://dejan-delic.deviantart.com/art/Northmen-519093474

Em jeito de conclusão, é um livro e uma saga que levo com carinho. Não comprei o plot central da narrativa, tanto em redor da Primeira Lei, como as movimentações forçadas de Bayaz, e o final deixou-me a pensar “a sério que isto acabou assim?”, quando depois de tantos volte-faces e plot-twists de nos deixar a chorar por mais tanto ficou por dizer, mas é uma série bem “comestível”, com personagens bem construídos e mudanças improváveis.

O livro surpreendeu-me com os jogos políticos, mas foram sobretudo as descrições de batalhas, o percurso de Collem West e a peculiaridade do personagem Sand dan Glotka o que mais me agradou. Uma mão cheia de personagens incríveis e uma história bem escrita da qual gostei, mas os factores negativos também pesam e quando a desilusão trai as expectativas, há que fazer justiça ao que sentimos. Não custa sublinhar, porém, que Glotka é um dos melhores personagens da literatura fantástica e A Primeira Lei uma série de leitura obrigatória.

Avaliação: 7/10

A Primeira Lei (1001 Mundos):

#1 A Lâmina

#2 A Forca

#3 A Coroa