Resumo Trimestral de Leituras #10

Chegámos ao meio do ano e como tal chegou a hora de proceder a um novo balanço trimestral de leituras. Neste segundo trimestre, o destaque vai para Robin Hobb, não só porque organizei um desafio relativo à autora californiana, mas também porque li três livros dela que andaram perto de ser os melhores deste trimestre. Melhor que Hobb só Patrick Rothfuss. Li as duas partes de O Medo do Homem Sábio, e embora a primeira tenha sido significativamente melhor, a Crónica do Regicida tornou-se uma das minhas sagas preferidas. As minhas leituras nos meses de abril, maio e junho foram:

One-Punch Man #1 – One e Yusuke Murata

O Diário do Meu Pai – Jiro Taniguchi

Poder e Vingança, Império das Tormentas #1 – Jon Skovron

Terra de Sonhos – Jiro Taniguchi

Presas Fáceis – Miguelanxo Prado

As Águias de Roma Livro V – Enrico Marini

O Regresso do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #1 – Robin Hobb

Como Falar com Raparigas em Festas – Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá

Dejah Thoris #1 – Frank J. Barbiere e Francesco Manna

A Dança das Andorinhas – Zeina Abirached

O Rei Macaco – Silverio Pisu e Milo Manara

Imperador dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #3 – Mark Lawrence

A Fortaleza da Pérola, Elric #2 – Michael Moorcock

A História de um Rato Mau – Bryan Talbot

Bolos Janados, Tony Chu: Detective Canibal #6 – John Layman e Rob Guillory

Os Dilemas do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #2 – Robin Hobb

Os Senhores do Norte, Crónicas Saxónicas #3 – Bernard Cornwell

A Louca do Sacré Coeur – Alejandro Jodorowsky e Moebius

A Garagem Hermética – Moebius

Nimona – Noelle Stevenson

O Medo do Homem Sábio Parte 1, Crónica do Regicida #2 – Patrick Rothfuss

All is Lost, The Walking Dead #28 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

O Medo do Homem Sábio Parte 2, Crónica do Regicida #2 – Patrick Rothfuss

One-Punch Man #2 – One e Yusuke Murata

Uma Ruína Sem Fim, Outcast #2 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

Duas Vezes Contado, Harrow County #2 – Cullen Bunn e Tyler Crook

Sangue do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #3 – Robin Hobb

Sem TítuloComecei o segundo trimestre com a leitura de alguma banda-desenhada. Publicado pela Devir, o primeiro volume da edição em mangá de One-Punch Man apresenta um super-herói entediado com a facilidade com que derrota os adversários. A Humanidade é frequentemente atacada por monstros, que parecem não ter fim. No entanto, este herói parece mais preocupado em manter o seu apartamento inviolado. Uma história provocadora, com argumento de One e arte de Yusuke Murata, que não me fascinou pessoalmente. Depois, li duas novelas gráficas da Levoir, da autoria de Jiro Taniguchi, autor falecido em fevereiro deste ano. Para além de tocante e reflexivo, O Diário do Meu Pai mostra que aquilo que compreendemos nem sempre está próximo da realidade. O outro álbum, Terra de Sonhos, apresenta cinco contos que mesclam a ternura à reflexão. Um casal sem filhos sofre com os últimos dias do seu animal de estimação, e quando ele morre juram não mais adotar nenhum outro. Mas quando uma gata persa, grávida, lhes surge nas vidas, tudo muda.

Sem títuloPoder e Vingança é o primeiro livro de Jon Skovron no registo fantasia adulta, com a marca de qualidade Saída de Emergência. Divertido e cheio de ritmo, o Império das Tormentas é um mundo bem construído que apresenta Esperança Sombria e Ruivo, dois personagens que vêm os seus percursos cruzar-se quando os criminosos que controlam Círculo do Paraíso começam a colaborar com os biomantes, servos místicos do Imperador. A escrita do autor não me convenceu, mas foi uma boa leitura. Piratas e ladrões, coleccionadores de arte e inventores, samurais, mutações humanas e perseguições sem fim. Disfarçado de alegoria, a BD da Levoir Presas Fáceis, da autoria do autor espanhol Miguelanxo Prado, é uma história inquietante sobre os interesses nefastos da banca. A burla é o tema central. Uma série de homicídios de pessoas ligadas à banca e o suicídio de um casal de idosos arrasta a inspetora Olga Tabares para uma investigação que levanta um sério debate moral. Saltei para o livro V da série gráfica As Águias de Roma, que oferece ao leitor um sucedâneo de emoções. Da revelação da paternidade de Tito à denúncia dos planos de Armínio, Enrico Marini desenha com precisão o clima bélico da Roma Antiga e coloca o embate entre Marco e o seu irmão de criação num patamar superior. Excelente álbum das Edições Asa, que prossegue a um ritmo altíssimo.

Sem TítuloComecei a segunda série de Robin Hobb focada em FitzCavalaria Visionário. O primeiro volume de O Regresso do Assassino mostra-nos o protagonista quinze anos mais velho. O mundo pensa que ele morreu, mas a verdade é que estabeleceu-se como camponês ao lado do seu lobo Olhos-de-Noite e acolheu um jovem órfão chamado Zar. A visita do seu amigo Bobo, agora transformado em Dom Dourado, e a revelação que o príncipe Respeitador desapareceu misteriosamente, colocam de novo Fitz na órbita de Torre do Cervo e das suas intricadas intrigas. Um volume que me fascinou do primeiro ao último momento, melhorando substancialmente em relação à primeira série. Depois de já ter lido o conto, há dois anos atrás, na antologia Coisas Frágeis, foi de bom grado que li a adaptação para BD de Como Falar com Raparigas em Festas. Pelas mãos da dupla brasileira Fábio Moon e Gabriel Bá, esta história de Neil Gaiman sobre dois jovens adolescentes nos anos 70 que, dedicados a fazer sucesso numa festa cheia de raparigas, descobrem que elas não são bem aquilo que pensavam, revelou-se uma lufada de ar-fresco. Divertido e despretensioso, é mais um excelente álbum trazido para o nosso país, desta feita pelas mãos da Bertrand.

Sem títuloCom argumento de Frank J. Barbiere e ilustrações de Francesco Manna, a BD Dejah Thoris é o primeiro volume de uma série da Dynamite Entertainment sobre a princesa de Marte da obra de Edgar Rice Burroughs. Casada com o terráqueo John Carter, Dejah vê-se vítima de um complot dentro do palácio para afastar a sua família do poder, fazendo desaparecer o seu pai e culpando-a por isso. Dejah Thoris é assim obrigada a fugir da cidade e mudar de identidade. Apesar de o argumento ser relativamente bom, foi também previsível e ficou um pouco aquém das expetativas. O mesmo para a arte, que valeu pela cor. Publicada na Colecção Novela Gráfica da Levoir com o jornal Público, A Dança das Andorinhas, da libanesa Zeina Abirached, encanta pela forma inocente e quase cómica com que um grupo de pessoas lida com a guerra. Separados do mundo e refugiados num átrio, os personagens são obrigados a encarar a vida como ela lhes é oferecida. Foi uma BD que não me apaixonou, mas fez-me refletir.

Sem título 2Entrei em maio com a BD O Rei Macaco da Arte de Autor. Com arte de Milo Manara e argumento de Silverio Pisu, trata-se de um mergulho nas tradições orientais. É uma releitura da Jornada para o Oeste, para encontrar o Jovem Macaco em busca da eternidade, com o Imperador de Jade disposto a dificultar-lhe a tarefa. Apesar de ser uma obra de referência, muito bem humorada, a nível de arte já vi melhor de Manara, o que se compreende uma vez que este foi um dos seus primeiros trabalhos. O terceiro e último volume da Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence, publicado pela TopSeller, Imperador dos Espinhos veio cimentar a minha opinião sobre a obra. O autor convence com a escrita, mas a história continuou confusa, sem uma proposta clara ou um plot bem definido. Um livro mediano, numa trilogia mediana. A Fortaleza da Pérola, de Michael Moorcock, mostra-nos Elric na cidade de Quarzhasaat, onde é chantageado por um nobre local a dar-lhe uma pérola desaparecida no deserto em troca de um antídoto para a droga que lhe haviam dado. Elric inicia assim uma viagem pelo deserto que o levará a Varadia, uma menina que ficou em estado comatoso desde que viu a sua integridade violentada. Mais uma excelente leitura, como Moorcock já nos habituou.

Sem títuloBaseado na história de vida da autora de livros infantis Beatrix Potter, o autor Bryan Talbot escreveu e desenhou uma BD tocante e metafórica sobre uma jovem que, vítima dos maus tratos dos pais e sentindo-se culpada pelos abusos sexuais que sofreu, acaba nas ruas de Londres, a sobreviver como sem-abrigo. A História de Um Rato Mau foi uma leitura reflexiva, que não me agradou no seu todo pelo peso que tomou, em certo ponto. Das novelas gráficas da Levoir passei para os grandes lançamentos da G Floy. Bolos Janados é mais uma aventura do detective mais louco da BD, Tony Chu, desta feita protagonizada pela sua irmã-gémea, Antonelle. Desde um leilão polémico até a um casamento de final abrupto, passando por uma aliança inusitada entre a NASA, a FDA e a USDA, somos convidados a percorrer uma série de aventuras com a participação sempre especial do galo Poyo. A história não desilude, mantendo-se fresca, colorida, bem-humorada e com muitas, muitas vísceras à mostra. Geniais, John Layman e Rob Guillory mantêm a toada. No seguimento do meu desafio com o apoio da Saída de Emergência li Os Dilemas do Assassino de Robin Hobb. FitzCavalaria continua mais perdido do que nunca, agora que é um homem adulto e tem de lidar com uma série de questões políticas e com a imaturidade dos mais jovens. Este segundo volume tem mais mistérios e alguma magia, relacionada com um rapaz de pele escamada e com a narcheska Eliânia, mas também referências a dragões e a navivivos, que me agradou.

Sem títuloTerceiro volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, Os Senhores do Norte mostra-nos Uthred a caminho do norte, enraivecido com o Rei Alfredo pela ridícula recompensa que lhe deu depois de tudo o que fez para que vencesse a importante Batalha de Ethandun. Disposto a recuperar a Bebbanburg que o viu nascer, Uthred “tropeça” em Guthred, um dinamarquês convertido ao Cristianismo que pretendia reclamar para si o norte. Mais um magnífico livro cheio de passagens belas e inquietantes, com o selo de qualidade Bernard Cornwell e Saída de Emergência. Escrito por dois dinossauros da BD, Alejandro Jodorowsky e Moebius, A Louca do Sacré Coeur conta a história de um professor de filosofia da Sorbonne, tradicionalmente vestido de lilás que, assediado por uma das suas alunas, sucumbe à tradicional crise de meia-idade e vê-se arrastado para uma parafernália de rituais bizarros que mesclam o religioso e o misticismo a práticas sexuais completamente lunáticas. Um livro que me agradou nas ideias e no desenho, mas que achei um pouco mal executado, ou pelo menos sem brilho. Outra grande obra de Moebius pelas mãos da Levoir, A Garagem Hermética é uma história confusa de ficção científica que gira à volta do Major Grubert. O misterioso personagem concebe um asteróide que cabe no seu bolso através de treze geradores. Porém, no interior desse corpo existem três mundos e vida, possivelmente tão real como a nossa. Mas quem será este enigmático Major Grubert? Gostei imenso, mesmo não percebendo muito da história.

Sem TítuloO mês de junho começou com Nimona, da norte-americana Noelle Stevenson, que marca o regresso da Saída de Emergência à publicação de BD’s. Nasceu como um trabalho universitário da autora, mas foi como webcomic que alcançou o sucesso e transformou autora e personagem em celebridades. Dona de um traço único e de um humor aguçado, Stevenson aborda temas como a amizade, a falsidade, o controlo dos media pelas forças de poder e a homossexualidade, de forma simples e divertida, num mundo marcadamente medieval com televisões, computadores e tecnologias futuristas. Em senda de leituras maravilhosas, seguiu-se o segundo volume da Crónica do Regicida (Parte 1 e Parte 2), publicado em português pela ASA/1001 Mundos. O Medo do Homem Sábio traz-nos de volta ao mundo escrito por Patrick Rothfuss. Depois de sobreviver às artimanhas de Ambrose, Kvothe sobrevive na Universidade, pagando as “propinas” com a música que faz em Imre, a cidade vizinha, e com os empréstimos que forja com Devi, a lendária ex-aluna da Universidade. É quando uma acusação antiga lhe bate à porta que surge a oportunidade de arranjar um mecenas, o que o leva para longe, para a distinta Vintas. Enquanto a primeira parte foi, muito possivelmente, dos melhores livros que já li na vida, o segundo perdeu bastante em comparação, ainda que a escrita do autor continue como uma das maravilhas da série.

Sem títuloMais um brilhante volume da BD The Walking Dead, All is Lost prossegue na rota de sucesso do argumentista Robert Kirkman, com a arte sempre consensual de Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano. Hilltop caiu e uma legião de walkers foi canalizada pelos Sussurradores em direção a Alexandria. Negan e Rick defendem a comunidade, mas os portões caem e Rick vê no seu antigo adversário um amigo improvável, o único que consegue ajudá-lo quando tudo parece desmoronar-se à sua volta. Mais um volume excelente e uma morte impactante com repercussões no futuro das BD’s. Li também o segundo volume do mangá One-Punch Man de One e Yusuke Murata, com quem tinha iniciado o trimestre. Uma série de apontamentos divertidos fazem-me olhar com agrado para este álbum, cuja proposta ou mesmo linha narrativa não oferecem nada de original ou interessante. E regressei a Robert Kirkman. Depois de ter lido o primeiro volume no início do ano, eis que chegou às bancas o segundo álbum de Outcast, Uma Ruína Sem Fim, com argumento do autor de The Walking Dead e ilustrações de Paul Azaceta. Argumento e arte casam na perfeição numa história sobre possessões que começa a dar maiores sinais de interesse, e com os mistérios a adensarem-se. Apesar de a história parecer demorar a avançar, notam-se os laivos de genialidade que atiraram Kirkman para as bocas do mundo.

Sem título 2Tal como o álbum de Outcast, Duas Vezes Contado foi um dos mais recentes lançamentos da G Floy no nosso país, lançado no Festival de BD de Beja. O segundo volume da BD de horror Harrow County, com argumento de Cullen Bunn e arte de Tyler Crook, revela um maior amadurecimento por parte do artista, ainda que o argumento não me tenha agradado por aí além. À medida que a protagonista Emmy vem aprendendo a lidar com os seus poderes e com as criaturas sobrenaturais que habitam Harrow County, tem também de proteger a povoação de um novo inimigo: a própria irmã gémea, Kammi. E terminei o trimestre com o terceiro volume da Saga O Regresso do Assassino. Em Sangue do Assassino, Robin Hobb volta a não desiludir. Vemos o protagonista FitzCavalaria arrastado para uma chuva de situações inusitadas, desde a ganância pela magia do seu velho mentor, à preocupação com os filhos, rumores de homossexualidade e principalmente a ameaça dos pigarços à sua integridade e à da família real. A obra, porém, oferece muito mais do que isso. Oferece pessoas reais, com defeitos e virtudes, e problemas que podiam ser partilhados por qualquer um de nós. Uma história enriquecedora.

Neste momento, estou a ler o livro Monge Guerreiro do autor brasileiro Romulo Felippe, e deverei continuar com as BD’s Southern Bastards, Velvet, Monstress e mais alguns livrinhos. Entre os nomes que pretendo ler nos meses de verão estão Ursula K. Le Guin e Joe Abercrombie, mas irei também concluir a Saga O Regresso do Assassino de Robin Hobb.

Estive a Ler: Como Falar com Raparigas em Festas

Nas festas das outras pessoas, ouvíamos Elo ou 10CC, Roxy Music até. Talvez Bowie, se tivéssemos sorte.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Como Falar com Raparigas em Festas” (Formato BD)

Como Falar com Raparigas em Festas é um conto do autor britânico Neil Gaiman, publicado originalmente em 2006. Dez anos volvidos, o conto foi adaptado para banda-desenhada, pelas mãos da dupla brasileira Fábio Moon e Gabriel Bá, irmãos-gémeos conhecidos pelos seus inúmeros trabalhos de sucesso, em que se destacam 10 pãezinhos, Daytripper e Dois Irmãos.

Se o autor de Sandman e Deuses Americanos dispensa apresentações, sendo um dos mais conhecidos no género fantástico e também um dos mais comentados aqui no blogue, a dupla brasileira também não é totalmente virgem por estas bandas. Gabriel Bá é o ilustrador da série Umbrella Academy, cuja resenha podes ler aqui e aqui. Também o conto que serviu de inspiração à BD foi já aqui comentado, na versão em pt-br da antologia Coisas Frágeis de Neil Gaiman, um dos trabalhos que mais gostei do autor.

Pelas mãos da Bertrand Editora, Como Falar com Raparigas em Festas saiu no passado dia 13 de abril no nosso país, com tradução de Pedro Carvalho e Guerra. Com ideia e produção pela Dark Horse Comics, a escolha dos ilustradores partiu do próprio Neil Gaiman. “Têm uma estética narrativa na qual a linguagem corporal é tudo. A história passa muito pelo que os narradores pensam e isso pode ser muito difícil de traduzir em banda-desenhada. É incrivelmente agradável escrever uma história e vê-los a torná-la real” disse o autor britânico ao Publishers Weekly.

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Capa Bertrand Editora

A adolescência

Passado nos anos 70, Como Falar com Raparigas em Festas tinha tudo para ser um guia de sobrevivência para jovens adolescentes… mas não é. Vic é um rapaz desenrascado que parece saber nadar como ninguém entre raparigas. Ele sabe o que dizer, como agir, e revela relativa facilidade em engrenar conversas com as jovens mais vistosas; ao passo que o seu amigo Enn é exatamente o oposto. Ele treme como varas verdes perante uma rapariga, não sabe o que dizer, onde pôr as mãos, como alimentar o interesse, e por aí vai.

Na verdade, o jovem Enn mostra as dúvidas comuns num rapaz imberbe de 16 anos. Para além de não saber o que fazer, ele não conhece nada do universo feminino e a sua complexidade parece-lhe um enigma completamente… alienígena. É o seu amigo Vic quem o leva para mais uma festa, mas Enn já está plenamente convencido do resultado final. Vic agarrará a rapariga mais bonita da festa, enquanto Enn acabará por ouvir as conversas aborrecidas de uma mãe nos fundos de uma cozinha.

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Neil Gaiman (omelete)

Uma festa… diferente

Vic tenta ensinar a Enn a melhor forma de engatar uma rapariga, induzindo-o a conversar. Seguindo as indicações de uma rapariga chamada Allison, chegam à casa onde se espera uma bela festa. De facto, a casa está cheia de raparigas. Vic acalma-o, garantindo-lhe que são só raparigas, não extraterrestres. Mas será que ele não estará enganado?

Enquanto Vic se entretém com uma jovem exuberante chamada Stella, Enn explora a casa e encontra uma jovem na sala de música, com quem experimenta meter conversa. A rapariga diz chamar-se Wain da Wain, revela ser uma segunda e que talvez não procrie. A estranheza da rapariga, porém, não parece ser muito diferente daquela que Enn espera de todas as jovens, e prossegue na sua conversa. A rapariga mostra-lhe, porém, uma mão cujo dedo mindinho estava dividido em dois. Uma deficiência física, nada de mais.

A conversa é interrompida quando Enn vai à cozinha buscar-lhe água, mas quando regressa ela já lá não está. Encontra, porém, ao longo da casa, outras raparigas, tão estranhas como a primeira. A casa está cheia de jovens extraterrestres, uma experiência que tanto Enn como Vic não esquecerão com facilidade.

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Raparigas (Fábio Moon e Gabriel Bá)
SINOPSE:

Como Falar com Raparigas em Festas, conto premiado com o Hugo Award e Locus Award, de Neil Gaiman, um dos autores mais célebres do nosso tempo, foi adaptado a banda desenhada com ilustrações vibrantes pela dupla brasileira Gabriel Bá e Fábio Moon. Apesar da história se desenrolar na década de 70, o conto de Neil Gaiman retrata ainda hoje um momento da puberdade comum aos jovens. A obra está prevista chegar ainda este ano às salas de cinema com os atores Alex Sharp e Abraham Lewis nos papéis de Enn e Vic respetivamente. Elle Fanning , Ruth Wilson e Nicole Kidman também integram o elenco. A realização é de John Cameron Mitchell.

Enn tem 16 anos e não compreende as raparigas, ao passo que o seu amigo Vic parece já ter tudo na ponta da língua. Mas ambos apanham o choque da sua vida ao depararem com uma festa em que as raparigas são muito mais do que aquilo que aparentam…

OPINIÃO:

Se, há dois anos atrás, achei o conto um pouco aborrecido, não podia ter opinião contrária em relação à BD. Talvez o meu próprio gosto tenha mudado, mas este Como Falar com Raparigas em Festas propiciou-me um bom bocado. Despretensiosa e divertida, esta história mostra Neil Gaiman na sua melhor forma, misturando dúvidas e medos e hormonas juvenis com toques de ficção científica bem superficiais, sem deixarem de ser claros.

Talvez por isso, reli o conto, e gostei mais do que da primeira vez. Foi, talvez, a leveza do todo e a superficialidade dos temas apresentados, o que mais me agradou. Usando a ironia e o humor, Gaiman contou uma história com princípio, meio e fim, curta e sem exageros. Os personagens foram bem apresentados e construídos, os temas, pouco debatidos, mostraram-se pertinentes.

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Esquisso (Getty Images)

A arte foi outro dos pontos fortes da obra. Vejo grande importância nos coloridos, e este livro tem na cor forte e impactante um espelho daquilo que a obra quis imprimir – uma caricatura da juventude. Também os traços de Bá e Moon revelam algo de caricatural nos personagens, sem deixarem de ser realistas q.b. O propósito do álbum não foi ser realista, mas usar a realidade como cenário.

É uma BD bastante leve, que se lê rapidamente. Uma lufada de ar fresco. Gostei sobretudo do tom despretensioso da obra, sem demasiadas complexidades e com uma conclusão a assentar como uma luva no seu todo. Original e divertido, Como Falar como Uma Rapariga em Festas está super recomendado.

Avaliação: 8/10

Resumo Trimestral de Leituras #8

Chego ao final do ano com a sensação de objetivos cumpridos e um ano pleno de excelentes leituras. Este último trimestre foi rico em obras diversificadas, com algumas das melhores avaliações do ano a ocorrerem neste período. Podem ver a lista anual aqui e segue em baixo os livros lidos no último trimestre:

Proxy: Antologia Cyberpunk – Vários Autores

O Cavaleiro da Morte, Crónicas Saxónicas #2 – Bernard Cornwell

Fome de Vencer, Tony Chu: Detective Canibal #5 – John Layman e Rob Guillory

A Canção de Susannah, A Torre Negra #6 – Stephen King

Suíte do Apocalipse, Umbrella Academy #1 – Gerard Way e Gabriel Bá

As Primeiras Quinze Vidas de Harry August – Claire North

Saga Vol. 5 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

A Lâmina, A Primeira Lei #1 – Joe Abercrombie

Dallas, Umbrella Academy #2 – Gerard Way e Gabriel Bá

Prelúdios e Nocturnos, Sandman #1 – Neil Gaiman

Jardins da Lua, Saga do Império Malazano #1 – Steven Erikson

Casa de Bonecas, Sandman #2 – Neil Gaiman

Terra do Sonho, Sandman #3 – Neil Gaiman

Rei dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #2 – Mark Lawrence

The Horror in the Museum – H. P. Lovecraft

Aniquilação, Área X #1 – Jeff Vandermeer

The Walking Dead: The Alien – Brian K. Vaughan e Marcos Martin

Estação das Brumas, Sandman #4 – Neil Gaiman

O Terceiro Desejo, The Witcher #1 – Andrzej Sapkowski

sem-tituloO mês de outubro começou com a leitura de uma excelente coletânea de contos portugueses. Antologia da Editorial Divergência, Proxy: Antologia Cyberpunk conta com alguns dos autores nacionais mais talentosos. Reúne seis histórias mirabolantes passadas em mundos futuristas que conquistam pela originalidade. Todos os contos são protagonizados por mulheres; os que mais me agradaram foram Alma Mater de José Pedro Castro e Bastet de Mário Coelho. Logo depois li O Cavaleiro da Morte. O segundo volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell traz-nos um Uthred imaturo e intempestivo, que continua dividido entre o sangue saxão que lhe corre nas veias, e o fervor guerreiro dos viquingues, que o criaram. As contingências colocam-no do mesmo lado que Alfredo, o Rei saxão, e contra o seu irmão de criação. Uma escrita brilhante, um dos melhores romances históricos que já li.

sem-titulo-2Em Fome de Vencer, com argumento de John Layman e ilustração de Rob Guillory, a banda-desenhada Tony Chu: Detective Canibal volta a surpreender. Neste quinto volume, a filha de Tony Chu é raptada pelo terrível Mason Savoy, enquanto ele e o seu parceiro são despromovidos. Mais tarde, o próprio Chu é raptado por um jornalista desportivo, que quer usar os seus dons cibopáticos para descobrir os podres das principais estrelas de futebol. A Canção de Susannah é o penúltimo volume da saga visionária de Stephen King, A Torre Negra. Soberbo em toda a sua largura, King consegue oferecer um livro cheio de ação e suspense, dividindo o ka-tet (grupo de protagonistas) em três grupos. Susannah, grávida de um demónio, caminha para o parto na Nova Iorque de 1999; Jake, Oi e o Padre Callahan seguem as pistas na sua peugada, enquanto Roland e Eddie viajam para o passado, onde se encontram com um jovem escritor chamado Stephen King e o obrigam a escrever a história de A Torre Negra. Um livro cheio de referências e twists deliciosos, como o autor já nos habituou. Umbrella Academy (Vol. 1 e Vol. 2) é uma série de banda-desenhada divertidíssima, escrita pelo vocalista da extinta banda My Chemical Romance, Gerard Way, e com ilustrações do brasileiro Gabriel Bá. 43 crianças nascem do ventre de mulheres que não teriam dado qualquer sinal de gravidez, e todas mostram super-poderes. Ou… quase todas. Reginald Hargreeves, um cientista, recolhe 7 dessas crianças e educa-as na sua mansão, criando uma escola de super-heróis, The Umbrella Academy. Porém, as relações entre eles virão a fraturar-se, com o passar dos tempos. O segundo e último volume já publicado revelou-se ainda melhor que o primeiro.

sem-titulo-2Em novembro comecei por ler As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, livro de Claire North, pseudónimo da britânica Catherine Webb. Harry August é um jovem ruivo, fruto de uma violação, criado por um casal de origens humildes. Não sabe nada sobre as suas origens, até morrer. Mas Harry volta à sua data de nascimento, e poucos anos depois, tem consciência de que tudo aquilo já lhe aconteceu. Morte após morte, Harry volta ao ponto de partida, recordando-se de tudo o que ficou para trás. Certo dia, descobre que não é o único a possuir esse dom. Brilhante livro de suspense e mistério, contado na primeira pessoa, o livro perde por saltar de vida para vida como alguém que conta uma história e volta para trás por se ter esquecido de algum pormenor. Li também o quinto volume da série de banda-desenhada Saga, escrita por Brian K. Vaughan e ilustrada por Fiona Staples. Mais uma vez brilhante, neste volume acompanhamos a demanda de Marko e Robot IV, declarados inimigos, em busca dos seus filhos raptados por Dengo, enquanto Gwendolyn e Marca procuram sémen de dragão para curar o freelancer Vontade. Claro está, cenas hilariantes, disparates, sexo e sátiras não faltam. Simplesmente delicioso.

sem-tituloHá muito que queria ler Joe Abercrombie e a trilogia A Primeira Lei. Sand dan Glotka foi em tempos um soldado promissor, mas a guerra inutilizou-lhe a perna e foi capturado pelo temido Império Gurkhul. Quando regressou, coxo e sem dentes, tornou-se um inquisidor, aplicando a tortura a prisioneiros para conseguir as confissões que mais fossem convenientes aos seus superiores. Logen Novededos é um guerreiro famoso no Norte, bárbaro sanguinário que incutiu massacres às ordens do terrível Bethod. Agora, com o advento de criaturas horripilantes no norte e a perda dos seus companheiros, Logen decide lutar contra Bethod. Jezal dan Luthar é um jovem capitão de linhagem nobre. Egoísta e vaidoso, prefere passar os dias a jogar e a embebedar-se, do que a cumprir os seus deveres. É Bayaz, o famigerado Primeiro dos Magos, que irá unir estes três homens tão diferentes, com um único propósito. A Lâmina não me conquistou, porque tinha as expectativas altas e esperava algo mais credível, ainda assim os personagens são incríveis, e a história promissora. Continuei o mês a ler boa fantasia. Escrito por Steven Erikson, Jardins da Lua é o primeiro volume da Saga do Império Malazano. O continente de Genabackis está sob fogo cruzado. De um lado, o Império em expansão, com os exércitos de Dujek Umbraço a ganhar terreno graças ao apoio dos moranthianos e dos Altos Magos. Do outro, as últimas cidades livres, com a proteção dos Tiste Andii liderados por Anomander Rake e Caladan Brood. A cidade de Pale é destruída e ocupada pelos homens de Umbraço; entre eles está o sargento Whiskeyjack, que inclui no seu pelotão uma recruta possuída por um Ascendente. Após o cerco a Pale, Darujhistan torna-se a única cidade livre. Repleta de personagens riquíssimos, Darujhistan é uma cidade governada por um conselho corrupto e por uma sociedade de assassinos, embora sejam os magos a deter o verdadeiro poder, vinculados a Anomander Rake. Um grupo de amigos que se reune frequentemente numa taberna torna-se o centro de toda a ação. Esta foi, de longe, a melhor leitura do ano de 2016.

sem-titulo-3Terminei novembro e comecei dezembro a ler a BD Sandman de Neil Gaiman (Vol. 1, Vol. 2, Vol. 3 e Vol. 4). Se o primeiro e o terceiro volumes da icónica série de banda-desenhada não me conquistaram, parecendo mantas de retalhos cheias de referências e com pouco conteúdo, o segundo e o quarto volumes apresentaram histórias bem amarradas, cheias de tramas paralelas que se entrelaçaram e revelações credíveis sobre os personagens apresentados. Prelúdios e Noturnos é focado no cativeiro em que o Senhor dos Sonhos esteve submetido, depois de ter sido convocado acidentalmente para o mundo real, onde permaneceu durante 70 anos sob uma redoma de vidro. Casa de Bonecas foca-se em várias mulheres (e no seu papel para a sociedade). Rose Walker é uma menina que, por uma qualquer estranha razão, causou um distúrbio no mundo dos sonhos, de onde fugiram vários pesadelos. Terra do Sonho divide-se em várias short stories intrigantes que, ainda assim, não me encheram as medidas, limitando-se a aumentar o significado simbólico da mitologia concebida por Gaiman.  O quarto volume, Estação das Brumas, foi melhor. Com genialidade, o autor humaniza o protagonista ao colocá-lo com problemas de consciência. Lúcifer comunica a Sonho que libertou todas as criaturas, e entrega-lhe as chaves do Inferno para que ele possa fazer dele o que quiser.

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Rei dos Espinhos é o segundo volume da Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence. Aliando uma escrita cuidada e de qualidade a um background pós-apocalíptico cheio de deliciosas referências, Lawrence escreveu mais um livro com um dos personagens mais badass da fantasia moderna, Jorg Ancrath. No entanto, as boas ideias não conseguiram cativar-me. As várias linhas temporais confusas e uma condução de história deficiente e pouco credível desiludiram-me. Já o elegi The Horror in the Museum como o melhor conto que li este ano. Escrito por Lovecraft como ghost writer de Hazel Heald, apresenta-nos um protagonista cético que julga louco o escultor de um museu de cera, uma vez que este alega que as criações que apresenta não são esculturas mas sim monstros que caçou e enbalsamou. É uma fantástica narrativa que consegue inspirar ao leitor o mais profundo e inquietante dos terrores. The Alien é um volume isolado da BD The Walking Dead escrito por Brian K. Vaughan, o autor de Saga. Sem uma história propriamente original ou muito diferente, apresenta-nos dois personagens na cidade de Barcelona, no início da propagação do vírus. Apesar de pequeno e cliché, apresentou algumas surpresas.

sem-titulo-3Li este mês aquele que elegi o melhor livro de ficção científica deste ano. Primeiro volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer, Aniquilação é o relato de uma bióloga que se voluntariou para estudar uma área selvagem abandonada pelos humanos, depois de o seu esposo ter regressado de lá como uma sombra do que um dia foi. Envolvente e cheio de suspense, faz-nos pensar sobre os segredos da natureza e da evolução humana. A última leitura do ano foi O Terceiro Desejo. O primeiro volume de The Witcher apresenta uma sequência de contos protagonizados por Geralt de Rivia, um bruxo que mata monstros a troco de pagamento. Obstinado em afirmar que não trabalha como assassino a soldo, Geralt enfrenta vampiros, elfos e génios, num livro muito bem escrito por Andrzej Sapkowski. Para o ano há mais. Votos de um 2017 cheio de felicidades e boas leituras para todos os seguidores do blogue.

A Canção de Susannah, A Torre Negra #6

Eu recuso-me a acreditar nisso. Recuso-me a acreditar que fui criado em Brooklyn simplesmente por causa do erro de algum escritor, algo que acabará por ser corrigido nas segundas provas. Ei, père, estou contigo… recuso-me a acreditar que sou uma personagem. Esta é a porra da minha vida!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Canção de Susannah”, sexto volume da série A Torre Negra.

A Torre Negra é a obra mais visionária do autor Stephen King. A Canção de Susannah, o sexto volume, prossegue a demanda de Roland Deschain, o pistoleiro, em busca da onírica torre, focando-se no estado de “graças” de Susannah Dean.

O contexto

Em 19 de junho de 1999, Stephen King foi atropelado durante uma caminhada a pé. Depois de algum tempo entre a vida e a morte, o famoso escritor do Maine recuperou, embora tenha ficado marcado para o resto da vida, e a sua obra literária também sofreu com o acidente. Um pouco influenciado pelas torrentes de fãs, que tinham pensado perder o seu autor preferido sem que tivesse concluído A Torre Negra, King decidiu pôr um ponto final na série, concluindo-a com mais três livros – Lobos de Calla, A Canção de Susannah e A Torre Negra.

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Susannah Dean (Daria T-s, deviantart)

Stephen King desenvolveu a narrativa e atou pontas soltas, usando a história de Os Sete Samurais como base e parodiando vários blockbusters, como Harry Potter ou Star Wars. Transformou também a data do seu acidente num símbolo da série, usando frequentemente os números 19 e 99 com tremenda frequência na história, fazendo os personagens reconhecerem o seu grande simbolismo. O ka-tet de Roland (o seu grupo unido pelo mesmo destino) tornou-se o ka-tet do 19. Da mesma forma, usa-se de vários recursos mitológicos e personagens de outras obras (como o urso Shardik e a tartaruga Maturin) e usa-os como símbolos de grande poder.

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A Torre Negra (Marvel)

A Canção de Susannah

Lobos de Calla termina com o desaparecimento súbito de Susannah, quando já todos tinham percebido que ela estava a ser manietada por uma entidade demoníaca chamada Mia, ou Mãe, e que estava grávida, fruto da relação sexual com o demónio descrita em Terras Devastadas, que permitiu a viagem de Jake para o Mundo Médio. A Canção de Susannah mostra-nos três focos narrativos distintos. Ao contrário dos restantes livros, este não é dividido por capítulos, mas por estrofes, e cada um termina com uma estrofe da cantiga que dá título ao livro. Susannah e Mia viajam para o ano de 1999 (familiar?), onde se conhecem mutuamente e procuram os seus pontos fortes e fraquezas, tentando demover-se uma à outra dos seus intentos. Os temíveis servos do Rei Rubro – homens vis, vampiros e outros – pretendem colocar-lhes as mãos em cima, para receber a criança que se chamará Mordred. Tal como o personagem da lenda arturiana, destinado a assassinar o seu pai.

Com a ajuda dos índios manni, o resto do grupo consegue atravessar um portal para o nosso mundo, mas qual realidade será mais real? Jake, Oi e o padre Callahan seguem as pistas de Susannah na Nova Iorque de 1999, mas os outros dois têm outra missão. Em 1977, Roland e Eddie voltam a enfrentar Jack Andolini e os homens de Balazar, mas vão também obrigar Calvin Tower a cumprir o prometido (Cal, Calla, Callahan), ou seja, vender-lhes o terreno onde está a Rosa no nosso mundo (onde fica a Torre Negra no mundo de Roland). Depois disso, procuram um tal Stephen King, escritor que parece reconhecer Roland de uma história que havia deixado numa gaveta. Roland hipnotiza-o, instigando-o a continuar a história da Torre Negra. No final do livro, em jeito de autobiografia, King noticia a sua própria morte na tragédia de 99.

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Capa Bertrand Editora

SINOPSE:

Na sua viagem em direção à torre, Roland e o seu ka-tet enfrentam adversidades sem fim: Susannah Dean foi levada por um demónio-mãe e usa a Treze Negra para ir para Nova Iorque. Mas quem é o pai da criança? E que papel desempenha o Rei Rubro nesta história? Roland envia Jake para tentar desviar Susannah do seu terrível destino, ao passo que ele próprio se dirige ao Maine para conversar com um certo Stephen King, autor de Salems Lot: A Hora do Vampiro. Um livro surpreendente que deixará os leitores desesperados pelo capítulo final desta série…

OPINIÃO:

Stephen King conseguiu fazer, neste livro, o que lhe faltou nos anteriores. Condensação. A Canção de Susannah, sexto e penúltimo volume da série A Torre Negra, tem pouco mais de 400 páginas, sem os tempos mortos que eu havia criticado nos livros anteriores. A narrativa, porém, não avançou muito, apesar do ritmo constante e crescente e dos vários encontros saborosos que King nos proporciona – um deles, consigo mesmo.

Commala-vem-ver

A batalha vai agora ser!

E os inimigos dos homens e da rosa

Erguem-se ao anoitecer.

As referências a obras do autor e de outros autores são constantes, como se esta luta contra o tempo desesperante fizesse parte de uma piada privada, como se os deuses se rissem e se divertissem com as desgraças dos personagens. Também encontrei referências ao nosso mundo real, como a palantír aka Treze Negra escondida num cofre secreto sobre o World Trade Center. Aquele humorzinho negro de King, sempre presente.

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Servo do Rei Rubro (pinterest)

A ironia de King não o poupa a si mesmo, e as suas inversões e piadas são constantes. Por vezes, estamos tão imbuídos na adrenalina e no sentimento dos personagens, que não reparamos logo na presença de certas referências. Felizmente, King não se nega a esforços de nos fazer vê-las. É ele quem mais se diverte com as reviravoltas rocambolescas do seu ka-tet. As próprias parcerias (Jake, Oi e Callahan; Roland e Eddie) tomam rumos diferentes do que haveríamos suposto, pertencendo ao rapaz e ao padre o papel principal nos eventos que estão prestes a acontecer, ainda que o pistoleiro deva ter uma função determinante nesse desfecho. O final de A Canção de Susannah foi, em simultâneo, um gancho miserável e saboroso. O impasse para o último volume faz-se através de um prenúncio terrível. O Rei Rubro está de olhos bem abertos, e o desfile de servos malignos começa agora a mostrar o seu rosto. Os personagens do ka-tet estão posicionados para cenas de grande ação, e fiquei de água na boca por ler o livro final desta série.

Avaliação: 8/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e a Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

TAG – Os Cavaleiros do Apocalipse

Boa noite, amigos! Trouxe-vos uma tag literária e espero que se divirtam. Os Cavaleiros do Apocalipse? Eu sei que parece estranho, mas depressa vão perceber. Usando pormenores de trechos da Bíblia, mais propriamente do Livro da Revelação, identificarei capas de livros. Vamos a isso?

#1 Peste

E eu vi, e eis um cavalo branco; e o que estava sentado nele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e ele saiu vencendo…

#1.1. Um livro com um cavalo na capa

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A Tormenta de Espadas, de George R. R. Martin

Mais do que um verdadeiro refresh na literatura de fantasia, George R. R. Martin veio dar um novo significado a este género literário, mostrando ao mundo que fantasia não é feita somente de elfos e princesas guerreiras. Tormenta de Espadas é o terceiro livro de Crónicas do Gelo e Fogo, sendo o quinto da edição portuguesa e um dos mais empolgantes da série literária.

# 1.2. Um livro com um arco na capa

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A Manopla de Karasthan, de Filipe Faria

Primeiro volume de Crónicas de Allaryia, A Manopla de Karasthan foi das primeiras obras de fantasia a emergir no panorama nacional no início deste século, à época em que a adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis acrescentava uma legião de fãs para o género. Amado por uns e odiado por outros, Filipe Faria conquistou lugar cativo nas livrarias portuguesas.

#1.3. Um livro com uma coroa na capa

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O Rei de Ferro e a Rainha Estrangulada, de Maurice Druon

Esta edição compreende os dois primeiros volumes da série Os Reis Malditos, na qual Maurice Druon narra a história de Filipe, o Belo, rei de França. Mais do que isso, fala da maldição que o acossou, como à sua prole, após ter queimado vivo o grão-mestre da Ordem dos Templários, condenando a confraria à extinção. Um rigor histórico notável e uma escrita rápida e vibrante.

#2 Guerra

E saiu outro, um cavalo vermelho; e ao que estava sentado nele foi concedido tirar da terra a paz, para que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada.

#2.1. Um livro com capa vermelha

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O Herói das Eras Parte 1, Brandon Sanderson

Mistborn – Nascidos da Bruma é uma das séries literárias de fantasia mais faladas da atualidade. Brandon Sanderson ganhou fama ao terminar a série A Roda do Tempo após a morte de Robert Jordan e desde então não parou. Conhecido por publicar com grande frequência, sempre com sistemas de magia originais, tem em Misborn uma das suas protagonistas mais carismáticas, Vin.

#2.2. Um livro com a palavra “Terra” na capa

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Os Pilares da Terra, de Ken Follett

Com uma prosa elegante e uma capacidade raríssima de fazer o leitor sentir-se na época descrita, Ken Follett apresenta-nos um livro emocionante, que relata um período conturbado da História de Inglaterra, onde a construção de um mosteiro ganha protagonismo num braço de ferro entre a Igreja e a Coroa. Os Pilares da Terra é um dos livros mais emocionantes que já li.

#2.3. Um livro com uma espada na capa

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Histórias de Aventureiros e Patifes, Vários Autores

Com organização de George R. R. Martin e Gardner Dozois, Histórias de Aventureiros e Patifes é a primeira parte da antologia Rogues, uma colectânea de contos sobre patifes, escrita por alguns dos mais conceituados autores de fantasia, ficção científica e romance policial. A segunda metade já foi publicada e também opinada no blogue.

#3 Fome

E eu vi, e eis um cavalo preto; e o que estava sentado nele tinha uma balança na mão. E eu ouvi uma voz como que no meio das quatro criaturas viventes dizer: “Um litro de trigo por um denário, e três litros de cevada por um denário; e não faças dano ao azeite de oliveira e ao vinho.

#3.1. Um livro com capa preta

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Príncipe dos Espinhos, Mark Lawrence

Primeiro volume da Trilogia dos Espinhos, de Mark Lawrence, Príncipe dos Espinhos apresenta o Príncipe Honório Jorg Ancrath, e a sua sede de vingança pela morte da mãe e irmão. Um mundo medieval pós-apocalíptico bem constuído, uma escrita envolvente e elegante, mas um desenvolvimento aquém das expectativas.

#3.2. Um livro com uma mão na capa

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O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

Com uma escrita envolvente, Oscar Wilde fala sobre o egocentrismo e sobre o papel que as aparências ocupam nas nossas vidas. Ao mesmo tempo que as hipocrisias de comportamento são retratadas com grande rigor, a obsessão pela beleza também é um dos principais temas do livro.

#3.3. Um livro com vigaristas na capa

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As Mentiras de Locke Lamora, Scott Lynch

Um dos meus autores de eleição, Scott Lynch revolucionou o mundo da fantasia com uma trama ao mesmo tempo leve e complexa, num mundo inspirado na Itália renascentista. Uma trupe de jovens ladrões protagoniza a história, recorrendo somente à sua matreirice para ludibriar os mais poderosos senhores do submundo camorri. A escrita deliciosa e os diálogos cómicos são os ex-libris deste autor.

#4 Morte

Então ouvi a quarta Criatura:”Venha” e apareceu um cavalo baio, o nome do cavaleiro era Morte e o Inferno o seguia de perto.

#4.1. Um livro com uma Criatura na capa

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Lisboa Triunfante, David Soares

Esta raposa não é somente uma raposa. É uma criatura mitológica, que atravessa as eras e interfere nos seus acontecimentos. Do lado oposto tem um miserável lagarto, e os dois têm medido forças ao longo dos séculos, participando ativamente na construção da Lisboa que hoje conhecemos. Com uma escrita excelente e um conhecimento histórico impressionante, David Soares criou um romance extraordinário de fantasia histórica.

#4.2. Um livro com a palavra “Morte” na capa

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A Morte Persegue-me, Ed Brubaker e Sean Phillips

Este livro de banda-desenhada é o primeiro volume da série Fatale. Uma mulher misteriosa que traz azar a todos aqueles com quem se cruza é a protagonista desta história sinistra que mescla temas como a imortalidade, a corrupção e o ocultismo. O legado de H. P. Lovecraft surge inegavelmente associado às criaturas apresentadas.

#4.3. Um livro com a palavra “Inferno” na capa

Inferno

Inferno, Dan Brown

Com uma estrutura similar a outros livros do autor, como O Código DaVinci ou Anjos e Demónios, Inferno distingue-se pelo tema (a sobrepopulação) e pela originalidade na conceção do vilão. Assustador e extremamente visual, esta aventura de Robert Langdon está entre as minhas favoritas do escritor norte-americano.

Sintam-se à vontade para fazer a vossa tag. Mas, pormenor importante, só conta livros que já tenham lido, mesmo que ainda não tenham comentado. Até à próxima.

Lobos de Calla, A Torre Negra #5

– E as sneetches – disse Eddie. – Já ouviste falar do Harry Potter?

– Acho que não. Tu já?

– Não, e vou dizer-te porquê. Porque as sneetches são do futuro. Talvez de um livro de banda desenhada da Marvel que vai sair em 1990 ou 1995. Percebes o que estou a dizer?

Jake anuiu com a cabeça.

O texto seguinte contém spoilers do livro “Lobos de Calla”, quinto volume da série A Torre Negra.

Lobos de Calla é o quinto volume da visionária saga de Stephen King, A Torre Negra. A história acompanha a viagem do pistoleiro Roland Deschain, de Gilead, na peugada do seu objetivo final, a misteriosa A Torre Negra.

O que é a Torre Negra?

A Torre Negra pode ser considerado o lugar onde tudo acaba, o cume da montanha, o Santo Graal da epopeia de Roland. É também o lugar onde vive o poderoso vilão Rei Rubro.  Na saga é comum dizerem que “o último andar da Torre encontra-se vazio” para dizer que Deus não existe. Tudo isto num mundo paralelo ao nosso, onde os descendentes do Rei Artur tornaram-se cowboys. Para Roland, o seu ka (destino) é encontrar a Torre, e para isso veio buscar ao nosso mundo, através de portais, três companheiros de aventura: Jake, Eddie e Susannah, a que se juntou o caricato billy-bumbler Oi. Juntos, formam o ka-tet do dezanove.

Os Lobos de Calla.

Após uma série de aventuras, o ka-tet chega a Calla, uma remota zona de rancheiros onde a população vive assolada por uma ameaça terrível. De tempos a tempos, um grupo de cavaleiros com cabeças de lobo invade a população e rapta-lhes as crianças. Acontece que os naturais de Calla normalmente têm gémeos, e os Lobos levam-lhes um exemplar de cada. Passado pouco tempo, um comboio devolve as crianças raptadas, mas vêm com grandes atrasos mentais, deformando-se fisicamente com o passar dos anos até morrerem de dor. Chamam-lhes os roont. Para além dos rancheiros e das suas famílias, em Calla também vivem os manni (um clã de índios), um robot que serve como criado (Andy) e um padre (Callahan) saído de outro livro de Stephen King (Salem’s Lot – A Hora do Vampiro).

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ka-tet do 19 (pinterest)

Roland e o seu ka-tet vêm dar a este povo uma esperança de enfrentar os temíveis Lobos, planeando metodicamente uma emboscada aos seus inimigos. Treiná-los não é uma tarefa difícil, uma vez que a maioria das mulheres da população está familiarizada com o lançamento do prato, relacionado com o culto a uma deusa chamada Riza. Paralelamente a esse desafio, o grupo enfrenta outros. Susannah está grávida de um demónio, depois de ter sido obrigada a copular com ele para trazer Jake ao Mundo Médio no terceiro volume, e uma nova e terrível personalidade chamada Mia parece querer possuí-la. O padre Callahan torna-se também ele membro do ka-tet de Roland e conta-lhes todas as suas aventuras desde os eventos vividos em Salem’s Lot até chegar a Calla Bryn Sturgis. Mas há também viagens ao nosso mundo. Os servos do Rei Rubro planeiam comprar um lugar em Nova Iorque onde apenas existe uma rosa (o correspondente à Torre Negra no nosso mundo), propriedade nas mãos de um livreiro chamado Calvin Tower, o mesmo que vendeu o livro Charlie Pouca-Terra a Jake antes de ele viajar para o Mundo Médio. Os pistoleiros do ka-tet têm como missão convencer Tower a vender a eles a propriedade.

Entre traições, romances, descobertas inacreditáveis e visões do mais absoluto terror, Roland e os seus companheiros enfrentam os Lobos num confronto tão trágico quanto hilariante. Pelo meio, têm de se adaptar aos hábitos estranhos do povo de Calla, como por exemplo a palavra commala, que é usada para um sem-número de fins, com uma conotação muitas vezes sexual.

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SINOPSE:

Roland Deschain e o seu ka-tet atravessam as florestas do Mundo Médio em direção à Torre Negra. O caminho leva-os aos arredores de Calla Bryn Sturgis, onde, sob a calma vida campestre, se esconde algo horrível. A cada geração, vindos das trevas do Trovão, chegam seres com máscaras de lobos , montados em cavalos cinzentos, para roubarem as crianças da vila. Resistir-lhes implica arriscar tudo, mas os pistoleiros fazem do risco a sua vida. As suas armas, contudo, não serão suficientes…

OPINIÃO (SEM SPOILERS):

Depois de, no último volume, a história de Roland e o seu ka-tet ter-me desapontado um pouco, com mais de 500 páginas de flashback sobre o passado do herói e um final pouco convincente, eis que Lobos de Calla volta a ganhar-me como fã. Tal como nos anteriores volumes, somos convidados a ler um grande calhamaço cheio de informação demasiado detalhada sobre aspetos que parecem de pouca importância. Desta vez, coube ao personagem padre Callahan o protagonismo da chamada palha. A história que ele contou acabou por ter algum interesse, mas pouco acrescentou ao enredo e podia ter sido cortada pela metade que todos saíriamos a ganhar.

Adorei o núcleo de Calla Bryn Sturgis. Todos os personagens acabaram por ter a sua importância e foi um sentimento bom ver o ka-tet parcialmente dividido, a lidar com as suas tramas pessoais e a conhecer outras pessoas; parados depois de tantas passagens fugazes por tantos outros locais. Apesar de muitas vozes preferirem o Feiticeiro e a Bola de Cristal a este Lobos de Calla – percebo que teve mais informações importantes para a busca pela Torre Negra -, gostei mais deste livro. Algumas tramas ficaram por resolver, mas encerrou-se aquela a que este volume se propunha, terminando com um bom gancho para o livro seguinte.

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Lobos de Calla (31daysofhell)

O sentido de humor de Stephen King é a grande mais-valia desta saga, mais ainda que a sua capacidade de contar e descrever histórias e cenários. As referências aparecem quando menos esperamos, e nesta história abrangem A Guerra das Estrelas, Harry Potter, Sherlock Holmes e num momento especial, King faz referência a ele próprio. Ao contrário do que aconteceu no volume anterior, termino este livro com a sensação que as peças se estão a encaixar com mais fluidez, e a vontade em ler o seguinte aumentou. Só posso dizer: vem vem commala.

Avaliação: 8/10

Livros Publicados (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e a Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

Resumo Trimestral de Leituras #4

Chegamos ao fim do ano e, mais do que o habitual resumo trimestral de leituras, exige-se um breve resumo de tudo o que li este ano. Foi um ano excelente, em que consegui ler mais do que imaginava e livros que tinha vontade de conhecer há muito tempo.

Aqui vai a “listinha” :p :

Lisboa no ano 2000 – Org. João Barreiros
O Espião que Saiu do Frio – John le Carré
O Coração é um Predador Solitário – João Barreiros
O Saque de Lampedusa – João Barreiros
A Cativa, Wulfric #1 – Manuel Alves
Mares de Sangue, The Gentleman Bastards #2 – Scott Lynch
Exhalation – Ted Chiang
Suspeito – Robert Crais
Os Anjos Não Têm Asas – Ruy de Carvalho
A Lenda do Vento, A Torre Negra #4,5 – Stephen King
As Raparigas Cintilantes – Lauren Beukes
Operação Tolerância Zero, X-Men #65 – Scott Lobdell
Os Anos Perdidos, Merlin #1 – T. A. Barron
Coisas Frágeis – Neil Gaiman
The New Atlantis – Ursula K. Le Guin
Bons Augúrios – Neil Gaiman e Terry Pratchett
Operação Tolerância Zero, Wolverine #13 – Scott Lobdell
Voo Nocturno – Antoine de Saint-Exupery
O Miniaturista – Jessie Burton
As Terras Devastadas, A Torre Negra #3 – Stephen King
As Cidades Invisíveis – Italo Calvino
O Monarca – Vassilis Vassilikos
Alice in Wonderland – Lewis Carroll
O Punhal do Soberano, Saga do Assassino #2 – Robin Hobb
Duna, Crónicas de Duna #1 – Frank Herbert
A Grande Matança, Sin City – Frank Miller
República de Ladrões, The Gentleman Bastards #3 – Scott Lynch
Cardiga: De Comenda a Quinta da Ordem de Cristo (1529 – 1630) – Luís Batista
Os Leões de Al-Rassan – Guy Gavriel Kay
A Rapariga no Comboio – Paula Hawkins
A Voz da Vingança, Tigana #2 – Guy Gavriel Kay
O Império Final, Mistborn #1 – Brandon Sanderson
A Sombra Sobre Lisboa – Org. Rogério Ribeiro
Lisboa Triunfante – David Soares
O Feiticeiro e a Bola de Cristal, A Torre Negra #4 – Stephen King
A Tumba – H. P. Lovecraft
A Corte dos Traidores, Saga do Assassino #3 – Robin Hobb
O Poço da Ascensão, Mistborn #2 – Brandon Sanderson
O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
Histórias de Aventureiros e Patifes – Org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
A Celebração – H. P. Lovecraft
O Herói das Eras, Mistborn #3 Parte 1 – Brandon Sanderson
Tis The Season – China Miéville

Sem títuloEste último trimestre começou com a leitura de dois livros comprados a 5 euros na Feira do Livro do Porto. A Sombra Sobre Lisboa é uma antologia muito interessante, de vários autores portugueses e um ou outro internacional, que formaram contos inspirados na obra de H.P. Lovecraft passados na nossa Lisboa. Para mim os melhores contos foram as criações de João Seixas, João Barreiros e David Soares. Desde um Eça de Queirós a lutar contra zombies e um arroz de polvo feito do mítico Cthulhu, podemos encontrar de tudo. Logo depois li Lisboa Triunfante, de David Soares, e adorei. É um livro que atravessa Lisboa em todos os espaços temporais, começa a contar a história de um menino no neolítico, apresenta-nos vários personagens ao longo da história de Lisboa, como Aquilino Ribeiro, Sá de Miranda, Frei Gil Valadares, com papéis muito importantes na narrativa, e não como simples figurantes. Mas é um livro de fantasia, de imaginação, carregado de simbolismos, desde a Pré-História ao futuro, passando pelos templários. É uma amálgama de tantas histórias quase verídicas, nas quais não saímos alheios à pesquisa notável do autor, utilizadas para o seu proveito narrativo, que se interligam numa história rocambolesca. É que tudo gira à volta de uma raposa e de um lagarto, que interferem no destino do mundo desde a sua génese. Como podem ver neste post, elegi-o como o melhor romance que li este ano.

Sem títuloContinuei então a saga A Torre Negra de Stephen King com o quarto volume, O Feiticeiro e a Bola de Cristal.  É um livro que me deixa excelentes recordações e me dá vontade de continuar a saga, apesar de ter sido uma leitura cansativa, porque a história podia ter sido contada em metade das páginas. Pois, são 840 páginas, e a maioria é a contar uma história do passado do protagonista, uma história de amor no faroeste do Mundo Médio. No entanto, vamos percebendo que aqueles enredos tiveram uma razão de ser e o final deixou-me de água na boca. Também notei bastante que o autor estava um pouco perdido na narrativa por esta altura do campeonato. A Tumba é um conto de terror de H. P. Lovecraft. É extremamente envolvente e negro, mas em momento nenhum cheguei a sentir-me perturbado. Conta a história de um homem internado num asilo psiquiátrico, que em jeito de autobiografia fala da sua infância e com normalidade aponta as coisas “não vivas” que lhe despertavam interesse, em especial uma sepultura de família que ele venerava com uma obsessão doentia. Gostei bastante dos acontecimentos em torno dessa sepultura, mas fica no ar a incerteza sobre se o homem era louco ou se aquilo foi real. A Corte dos Traidores é o terceiro volume da Saga do Assassino da Robin Hobb. É uma saga passada num ambiente medieval, com personagens de nomes estranhamente pitorescos. A escrita de Robin Hobb é fluente e as relações humanas são extremamente bem retratadas, não é à toa que Hobb é chamada a Primeira Dama da Fantasia. Ainda assim, e apesar de este volume ter bem mais ritmo e acontecimentos de destaque em volta do protagonista Fitz, não consigo gostar muito da série.

Sem título 4Terminei Novembro com O Poço da Ascensão, segundo volume da saga Mistborn. Se O Império Final foi uma agradável surpresa para mim, O Poço da Ascensão já não gostei tanto, e os poderes “mágicos” da protagonista contribuíram para perder a credibilidade do mundo apresentado. Ainda assim, foi um livro muito interessante, com vários dilemas morais. Brandon Sanderson fez-me refletir bastante sobre relações humanas, de amor e amizade, mas acima de tudo os debates em volta da honestidade de um rei e no papel que ele deve ter fez-me lembrar o Príncipe de Maquiavel. A questão religiosa e a forma como a fé interfere no nosso modo de vida foi muito pertinente. Uma surpresa muito agradável foi O Retrato de Dorian Gray. Nunca vi o filme, mas adorei o livro. A história de um jovem aristocrata britânico idolatrado por todos graças à sua beleza, que o torna obcecado pelo superficial da vida e pelo prazer momentâneo. Uma experiência enriquecedora, porque tanto a escrita de Oscar Wilde como todas as críticas que ele apresentou de forma discreta fizeram imenso sentido para mim. Seguiu-se Histórias de Aventureiros e Patifes. Já queria ter esta antologia desde que foi publicada no Brasil. Organizada por George R. R. Martin, o autor de A Guerra dos Tronos, e com contos de autores como Neil Gaiman, Patrick Rothfuss e Scott Lynch, só podia ser um brilhante livro de contos. De facto, não foi tão brilhante como eu presumia, mas não deixou de ser uma leitura muito agradável. No conjunto, o conto de Lynch foi o meu preferido. Não conhecia o trabalho de Gillian Flynn, nem de Connie Willis, mas fiquei deliciado com as duas escritoras.

Sem títuloA Celebração (The Festival) é um ótimo conto de H. P. Lovecraft. Um sujeito encontra-se a revolver o passado da sua família e encontra um livro, o maligno Necronomicon, que o coloca numa espécie de transe que o conduz às catacumbas sob uma igreja, onde vive um mal muito antigo. É arrepiante a descrição pormenorizada dos rituais, das criaturas, da procissão. Adorei. Voltei a Brandon Sanderson para ler a primeira parte do terceiro volume original de Mistborn. Em O Herói das Eras, Vin e Elend estão mais unidos do que nunca, agora que ele finalmente revela todo o seu potencial. Os cenários mudam e o casal tenta manter o Império unido, ao mesmo tempo que precisam lutar contra o mal incorpóreo que libertaram no Poço da Ascensão. Nota-se um excelente desenvolvimento de personagens, as pontas estão a ser bem amarradas, mas ainda assim algumas explicações dadas pelo autor pareceram forçadas e as espécies criadas pelo Senhor Soberano desagradaram-me.  Tis The Season é um conto natalício do autor de ficção científica China Miéville. É passado num futuro em que tudo o que está relacionado ao Natal tornou-se marca registada de uma empresa. Ao mesmo tempo crítico e cómico, o conto fala-nos sobre um pai divorciado que, ao procurar uma prenda para a filha, ganha bilhetes para comemorar o Natal no centro de Londres. É aí que estala a confusão. Gostei bastante, este é um autor que só oiço falar muito bem e tenho pena de ainda não estar publicado em português. E assim termina o meu 2015 em termos literários. Um excelente 2016 para todos vós que seguem o meu blogue. 😀

 

O Feiticeiro e a Bola de Cristal, A Torre Negra #4

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Feiticeiro e A Bola de Cristal”, quarto volume da série A Torre Negra

O Feiticeiro e a Bola de Cristal é o quarto volume da saga literária A Torre Negra, de Stephen King, o mestre do terror. Considerada por muitos como a sua obra mais visionária, demorou décadas a ser concluída e tem sido colocada várias vezes como hipótese para virar filme ou série de tv, o que não se adivinha tarefa fácil. O próprio King assume que, mesmo com as várias crises de inspiração ao longo da obra, ela é a mais complexa e expandida que alguma vez criou.

Roland de Gilead, Eddie, Jake e Susannah de Nova Iorque, acompanhados pelo afável billy-bumbler Oi, são um ka-tet. O ka é o destino, e o ka-tet é um grupo de pessoas (Oi é a exceção) ligadas pelo mesmo destino. No volume anterior, As Terras Devastadas, o grupo ficou finalmente unido. Jake viajou da sua Nova Iorque para o Mundo Médio de Roland, graças ao esforço conjunto dos restantes, que implicou uma cena sexual entre Susannah com um demónio que guardava o portal, e isso pode ter implicações no futuro da personagem. Depois de atravessarem terras inóspitas, chegam à cidade de Lud e embarcam num comboio louco dominado pelo demónio Blaine, obcecado por adivinhas, e aí percebem que este pretende suicidar-se e levá-los consigo para a morte.

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Mapa de Mejis (pinterest)

Neste volume, o ka-tet consegue estabelecer um trato com a criatura: se Blaine não souber a resposta a uma das suas adivinhas até chegarem à paragem de Topeka em que eles pretendem sair, o comboio parará nesse destino e deixá-los-á sair em segurança. Tornou-se uma situação desesperante, mas o pistoleiro Roland e os seus companheiros sempre conseguem surpreender em situações de maior urgência.

Ultrapassado o susto, chegam a Topeka, uma cidade que se parece com uma povoação do Kansas, futura ao espaço temporal de onde vieram Jake, Suse ou Eddie. Um mundo que nem é o deles, nem o de Roland. É nesse mundo que enfrentam novos desafios, estranhos enigmas, e que Roland lhes fala de Susan Delgado, a mulher que amou, e lhes conta uma história passada no ambiente western do Mundo Médio, na longínqua Mejis, uma história que está mais relacionada com os dias que ali vivem do que podem imaginar.

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SINOPSE:

No quarto livro da série fantástica de Stephen King, Roland, o último dos pistoleiros, e os seus companheiros continuam a sua demanda pela Torre Negra. Depois de terem escapado por pouco à morte, os cinco companheiros iniciam uma viagem aterradora por uma paisagem urbana devastada a bordo de um comboio suicida. Roland terá de enfrentar um velho e astucioso inimigo de grande astúcia e a tentação da diabólica bola de vidro do feiticeiro, uma força poderosa no primeiro amor de Roland. E a torre está mais perto…

OPINIÃO:

Escrever opinião a este livro revela-se mais difícil do que fui ajuizando no decorrer da leitura. Traz-me um sabor agridoce: a minha verdadeira opinião é que esta saga é extremamente bizarra. Nota-se que nada foi muito pensado, que as coisas saíram de forma empolgada e improvisada pelo autor, e se há autor que pode fazer isso com mestria é Stephen King. Fica a sensação que as coisas vão sendo escritas ao sabor do vento, e que King se refugia no passado já estabelecido do personagem principal para ir desenvolvendo a narrativa e montar as peças do puzzle. A forma como ele fez a analogia ao Feiticeiro de Oz foi rebuscada mas acabou por fazer sentido.

Houve momentos em que odiei este livro. Ele tem 840 páginas e o grosso delas foi passado em recordações. Ou seja, percebi desde logo que a ação propriamente dita da saga ia ser muito pouca ou nenhuma. E ao longo dessas muitas e muitas páginas, Roland conta como conheceu Susan, o grande amor da sua vida, e a sua passagem por Mejis, um vilarejo de cowboys onde vivia a rapariga. Os núcleos foram muito bem trabalhados pelo autor… bem demais. A história é muito boa, há personagens que marcam, como o fantástico Eldred Jonas e os seus cavaleiros com caixões tatuados nos dedos, a referência a Sheb, o pianista que surgiu no primeiro livro da saga ou mesmo Rhea, a bruxa, uma personagem que não gostei nada, que me conseguiu irritar do princípio ao fim mas que mostrou fazer muito sentido para toda a história do Roland.

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Rhea de Coos (RedHeretic)

Metade das páginas teria sido o suficiente para narrar a aventura com o devido desenvolvimento, e isso desanimou-me imenso ao longo da leitura. Cansou-me, é verdade. Mas King é perito em animar-nos quando as coisas estão a dar para o torto e a sua linguagem intimista e nuances de falsa infantilidade relançaram-me para a leitura.

Não fico com a melhor das impressões sobre esta história tão repleta de vilões e personagens desprezíveis, que não terminou da melhor maneira… mas não consigo dizer que não gostei. Foi bem construída e ajudou a dar mais alma à personagem principal da saga. E no fim, bem, as poucas páginas no final do livro que voltaram ao presente da narrativa fizeram desenvolver de uma forma rápida a ação da trama, atar pontas soltas, trazer respostas e um novo rol de perguntas.

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Não tenho grandes ilusões em relação a esta saga. Percebe-se facilmente que o autor não sabia o que viria a fazer à obra e foi escrevendo conforme a imaginação dele assim o ditava, mas o empolgamento e a riqueza deste estranho mundo que mistura a lenda do Rei Artur, cowboys, viagens pelo tempo e dimensões, e utiliza de uma forma inteligente pedaços do folclore americano e das suas criações literárias, a par da elegância e empolgamento do escritor, vão-me mantendo com vontade de ir lendo estes livros e chegar, tal como Roland e o seu ka-tet, à malfadada Torre Negra para descobrir os seus mistérios.

Recomendo esta saga a quem queira embrenhar-se no mundo do bizarro e do fantástico de uma forma descomplexada, tentando acompanhar o raciocínio do autor e os traços multifacetados destes personagens tão ricos que vão aparecendo. Aviso que os livros vão-se tornando cada vez maiores e menos interessantes, mas a curiosidade vai sendo fomentada pelo autor. Porque o mundo avança, e os personagens avançam com ele. É o ka. Os livros estão todos escritos, e a curiosidade não me permite parar por aqui.

Avaliação: 7/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e A Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

As Terras Devastadas, A Torre Negra #3

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “As Terras Devastadas”, terceiro volume da série A Torre Negra

O que mais tenho a dizer sobre o autor Stephen King? Já todos sabem que é um dos meus escritores favoritos e um dos mais célebres no género fantástico/terror. Aliando uma introspeção narrativa a uma descrição subtil de cenários e personagens, este autor consegue conquistar-nos com um sarcasmo permanente e muitas vezes impercetível a quem não estiver mais atento às camadas internas da narrativa. Essa ironia constante, aliada a um humor perverso e a uma sombra de terror cada vez mais aguçada, está uma vez mais presente no terceiro volume desta saga A Torre Negra.

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Esta saga acompanha o pistoleiro Roland de Gilead, o último dos pistoleiros remanescentes que sobreviveram ao avanço do mundo, e o seu ka-tet: Jake, o rapaz de lunetas, Eddie, o ex-viciado em heroína, Susannah, uma afro-americana sem pernas e Oi, um billy-bumbler (um animal com traços de texugo e doninha). Em As Terras Devastadas, o grupo dá de caras com um urso gigante… com uma antena parabólica na cabeça. Isso é apenas o início de uma aventura que atingirá o seu ápice na cidade perdida de Lud, onde um diabólico comboio comandado por um demónio muito antigo os poderá matar a todos.

Viagens à Lareira #5: Este mês o desafio Viagens à Lareira “obrigava-me” a ler um livro de fantasia. Apesar de ter começado este livro no mês de Abril, demorei bastante tempo a acabá-lo, por isso é ele o eleito para o desafio.

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SINOPSE:

 Neste terceiro volume da série de culto, Roland prossegue com a sua demanda pela Torre Negra, mas agora já não está sozinho. Treinou Eddie e Susannah, que entraram no Mundo Médio em momentos diferentes no livro anterior, à velha maneira dos pistoleiros. Mas o seu ka-tet ainda não está completo. Falta escolher um terceiro elemento: alguém que já esteve no Mundo Médio, um menino que morreu não uma, mas duas vezes, mas que continua vivo. Os quatro do ka-tet, unidos pelo destino, terão de fazer uma longa viagem até às terras devastadas e à cidade destruída de Lud, que fica para além delas. Pelo caminho, encontrarão a fúria de um comboio, que pode muito bem ser o seu único meio de fuga…

«Momentos de fantasia encantadores, episódios de uma tensão extraordinária e uma cena de terror arrasadora.»
Publishers Weekly
«Stephen King no seu melhor.»
Library School

OPINIÃO:

Este não foi um livro fácil. A leitura foi morosa, a acção lenta, arrastada… mas tantas introspecções, e tantas aventuras que me pareciam inúteis acabaram por fazer sentido no seu todo, e cheguei ao final com a sensação que adorei o livro e cada vez mais adoro a maneira de King nos relatar cada evento. O que dá um certo encanto à narrativa é que vemos que King escreveu ao sabor da maré, nem ele sabe o que quer para a história e os acontecimentos vão surgindo e surpreendendo não só o leitor como também o autor. A história é muito simples, e consegue ser original, mesmo que os personagens e os contextos não o sejam. De uma forma muito subtil, o autor vai fazendo piadas a outras obras, literárias, musicais ou cinematográficas. O perfil do protagonista remete-nos ao Velho Oeste, e mesmo a ação lenta do livro faz-me lembrar a lentidão dos western spaghetti.

Mas o livro é muito mais do que isso. Tem demónios, cidades destruídas, ficção científica, quebra-cabeças que puxam pela nossa astúcia, uma fantástica química entre personagens e uma coesão incrível a formar-se entre eles. Se há momentos em que quase parece que estamos a ler um livro infantil – tão básica e simples que se torna a história e os diálogos – essa imagem é completamente esmagada quando percebemos a complexidade do Mundo Médio, o khef, ka, ka-tet (parece chinês, não?), e quando vemos a linguagem áspera e os diálogos cheios de palavrões entre os personagens.

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Ka-tet (pinterest)

Gostei também de o livro conter imagens. Não só torna os sinais encontrados pelos personagens mais identificáveis, como nos dá folga a tantas letras; este terceiro volume são 550 páginas com letras um pouco para o pequenas – o formato habitual da Bertrand. O livro no seu todo é bom, mas peca pela lentidão da leitura. O terço final do livro é excelente, e termina no seu auge, com um gancho muito apetecível para o próximo volume. Recomendo vivamente aos amantes de fantasia e, como diria Roland: não se esqueçam do rosto do vosso pai. 😛

Avaliação: 8/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e A Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

A Lenda do Vento, A Torre Negra #4.5

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Lenda do Vento”, volume isolado da série A Torre Negra

Stephen King é um nome incontornável da ficção mundial e o mestre do terror e do suspense. Sempre carregado de uma boa dose de originalidade, este extraordinário autor norte-americano já conta com um vasto currículo de obras-primas. A saga A Torre Negra é, no entanto, a sua obra mais visionária, uma incursão no fantástico de proporções colossais. Uma saga que o autor demorou cerca de trinta anos a concluir.

A Lenda do Vento é tido como um romance isolado dentro da própria saga, tanto que a editora Bertrand optou por o publicar antes dos restantes. Erradamente, a meu ver. Embora o próprio autor crie as condições, no início do livro, para que quem não leu nada da saga possa começar por este volume, acho que ele deve ser lido entre o quarto e o quinto volume.

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Via Apogeu do Abismo

E isto porque eu, que já li os dois primeiros da saga, acabei por levar com uns quantos spoilers de cenas que eu não tinha lido ao pegar nas primeiras páginas. Nem sou das pessoas que se importa de levar com spoilers, e mesmo assim julgo que teria preferido ler este livro entre os volumes quatro e cinco, como o próprio autor recomenda.

Em relação ao livro, para quem não sabe do que se trata a saga A Torre Negra, fala das aventuras e desventuras do pistoleiro Roland Deschain na Terra Média, o fantástico mundo criado por King, onde os descendentes do Rei Artur viraram cowboys e lidam com todo o tipo de ameaças, desde demónios a dragões. Criaturas criadas pelo autor também vão aparecendo, assim como objetos futuristas; no fundo o mundo do autor é uma piada sobre fantasia e ficção científica, incluindo elementos de outros mundos fantásticos de uma forma subtil.

Começa com os personagens da série: Roland, Jake, Susannah, Eddie e o billy-bumbler Oy em busca de um abrigo para sobreviverem à tormenta-mor. No retiro, Roland começa a contar histórias da sua juventude, onde temos mais recordações de Gilead e a caça dos cowboys ao homem-pele, um sujeito que se transforma, e nessa mesma recordação o jovem Roland conta a uma criança que acabou de perder o pai às mãos da criatura a história que a mãe lhe contava em criança: A Lenda do Vento. O livro conclui com a resolução do mistério do homem-pele e o fim da tormenta-mor para os nossos heróis seguirem viagem.

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Capa Bertrand
SINOPSE:

Em A Lenda do Vento, Stephen King transporta-nos à Terra Média, o território espetacular da saga A Torre Negra. Roland Deschain, Jake, Susannah, Eddie e Oy enfrentam uma terrível tempestade quando acabam de atravessar o rio Whye e são obrigados a abrigar-se numa cidade há muito abandonada. Embalados pelo brilho das chamas e pelo uivo do vento, os quatro companheiros acompanham o pistoleiro em dois episódios de seu passado. Uma viagem encantadora e assustadora ao mundo de Roland e um testemunho do poder e da magia de Stephen King a contar histórias.

OPINIÃO:

É sempre uma experiência refrescante ler Stephen King e este livro não foi excepção. Senti o livro como uma espécie de matrioska. Tirando o facto de algumas passagens roçarem a exaustão e a própria Lenda do Vento poder ser contada em metade das páginas, foi uma boa leitura. Para além do Homem da Coleta e da subtileza deliciosa de King (a referência a Aslan de As Crónicas de Nárnia deu-me vontade de rir), o capítulo da Lenda do Vento foi uma pequena deceção.

Foi uma história que não me surpreendeu e tornou-se um pouco enfadonha. Gostei muito mais da perseguição dos cowboys ao homem-pele e das recordações de Roland. Apesar de algumas passagens mais chatas, foi um livro que não me desiludiu no seu todo. Acho esta saga incrível. Apesar de a história em si não ser nada de extraordinário, o autor condimenta-a com uma certa dose de intenções encriptadas e uma escrita mordaz que não deixa ninguém indiferente. Até agora os livros desta saga sempre me deixaram a “chorar por mais”. Recomendo vivamente. Volto a frisar, porém, que se não quiserem apanhar spoilers, leiam este livro entre o quarto e o quinto da série.

Avaliação: 8/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e A Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah