Resenha: Como Falar com Raparigas em Festas

Nas festas das outras pessoas, ouvíamos Elo ou 10CC, Roxy Music até. Talvez Bowie, se tivéssemos sorte.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Como Falar com Raparigas em Festas” (Formato BD)

Como Falar com Raparigas em Festas é um conto do autor britânico Neil Gaiman, publicado originalmente em 2006. Dez anos volvidos, o conto foi adaptado para banda-desenhada, pelas mãos da dupla brasileira Fábio Moon e Gabriel Bá, irmãos-gémeos conhecidos pelos seus inúmeros trabalhos de sucesso, em que se destacam 10 pãezinhos, Daytripper e Dois Irmãos.

Se o autor de Sandman e Deuses Americanos dispensa apresentações, sendo um dos mais conhecidos no género fantástico e também um dos mais comentados aqui no blogue, a dupla brasileira também não é totalmente virgem por estas bandas. Gabriel Bá é o ilustrador da série Umbrella Academy, cuja resenha podes ler aqui e aqui. Também o conto que serviu de inspiração à BD foi já aqui comentado, na versão em pt-br da antologia Coisas Frágeis de Neil Gaiman, um dos trabalhos que mais gostei do autor.

Pelas mãos da Bertrand Editora, Como Falar com Raparigas em Festas saiu no passado dia 13 de abril no nosso país, com tradução de Pedro Carvalho e Guerra. Com ideia e produção pela Dark Horse Comics, a escolha dos ilustradores partiu do próprio Neil Gaiman. “Têm uma estética narrativa na qual a linguagem corporal é tudo. A história passa muito pelo que os narradores pensam e isso pode ser muito difícil de traduzir em banda-desenhada. É incrivelmente agradável escrever uma história e vê-los a torná-la real” disse o autor britânico ao Publishers Weekly.

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Capa Bertrand Editora

A adolescência

Passado nos anos 70, Como Falar com Raparigas em Festas tinha tudo para ser um guia de sobrevivência para jovens adolescentes… mas não é. Vic é um rapaz desenrascado que parece saber nadar como ninguém entre raparigas. Ele sabe o que dizer, como agir, e revela relativa facilidade em engrenar conversas com as jovens mais vistosas; ao passo que o seu amigo Enn é exatamente o oposto. Ele treme como varas verdes perante uma rapariga, não sabe o que dizer, onde pôr as mãos, como alimentar o interesse, e por aí vai.

Na verdade, o jovem Enn mostra as dúvidas comuns num rapaz imberbe de 16 anos. Para além de não saber o que fazer, ele não conhece nada do universo feminino e a sua complexidade parece-lhe um enigma completamente… alienígena. É o seu amigo Vic quem o leva para mais uma festa, mas Enn já está plenamente convencido do resultado final. Vic agarrará a rapariga mais bonita da festa, enquanto Enn acabará por ouvir as conversas aborrecidas de uma mãe nos fundos de uma cozinha.

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Neil Gaiman (omelete)

Uma festa… diferente

Vic tenta ensinar a Enn a melhor forma de engatar uma rapariga, induzindo-o a conversar. Seguindo as indicações de uma rapariga chamada Allison, chegam à casa onde se espera uma bela festa. De facto, a casa está cheia de raparigas. Vic acalma-o, garantindo-lhe que são só raparigas, não extraterrestres. Mas será que ele não estará enganado?

Enquanto Vic se entretém com uma jovem exuberante chamada Stella, Enn explora a casa e encontra uma jovem na sala de música, com quem experimenta meter conversa. A rapariga diz chamar-se Wain da Wain, revela ser uma segunda e que talvez não procrie. A estranheza da rapariga, porém, não parece ser muito diferente daquela que Enn espera de todas as jovens, e prossegue na sua conversa. A rapariga mostra-lhe, porém, uma mão cujo dedo mindinho estava dividido em dois. Uma deficiência física, nada de mais.

A conversa é interrompida quando Enn vai à cozinha buscar-lhe água, mas quando regressa ela já lá não está. Encontra, porém, ao longo da casa, outras raparigas, tão estranhas como a primeira. A casa está cheia de jovens extraterrestres, uma experiência que tanto Enn como Vic não esquecerão com facilidade.

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Raparigas (Fábio Moon e Gabriel Bá)
SINOPSE:

Como Falar com Raparigas em Festas, conto premiado com o Hugo Award e Locus Award, de Neil Gaiman, um dos autores mais célebres do nosso tempo, foi adaptado a banda desenhada com ilustrações vibrantes pela dupla brasileira Gabriel Bá e Fábio Moon. Apesar da história se desenrolar na década de 70, o conto de Neil Gaiman retrata ainda hoje um momento da puberdade comum aos jovens. A obra está prevista chegar ainda este ano às salas de cinema com os atores Alex Sharp e Abraham Lewis nos papéis de Enn e Vic respetivamente. Elle Fanning , Ruth Wilson e Nicole Kidman também integram o elenco. A realização é de John Cameron Mitchell.

Enn tem 16 anos e não compreende as raparigas, ao passo que o seu amigo Vic parece já ter tudo na ponta da língua. Mas ambos apanham o choque da sua vida ao depararem com uma festa em que as raparigas são muito mais do que aquilo que aparentam…

OPINIÃO:

Se, há dois anos atrás, achei o conto um pouco aborrecido, não podia ter opinião contrária em relação à BD. Talvez o meu próprio gosto tenha mudado, mas este Como Falar com Raparigas em Festas propiciou-me um bom bocado. Despretensiosa e divertida, esta história mostra Neil Gaiman na sua melhor forma, misturando dúvidas e medos e hormonas juvenis com toques de ficção científica bem superficiais, sem deixarem de ser claros.

Talvez por isso, reli o conto, e gostei mais do que da primeira vez. Foi, talvez, a leveza do todo e a superficialidade dos temas apresentados, o que mais me agradou. Usando a ironia e o humor, Gaiman contou uma história com princípio, meio e fim, curta e sem exageros. Os personagens foram bem apresentados e construídos, os temas, pouco debatidos, mostraram-se pertinentes.

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Esquisso (Getty Images)

A arte foi outro dos pontos fortes da obra. Vejo grande importância nos coloridos, e este livro tem na cor forte e impactante um espelho daquilo que a obra quis imprimir – uma caricatura da juventude. Também os traços de Bá e Moon revelam algo de caricatural nos personagens, sem deixarem de ser realistas q.b. O propósito do álbum não foi ser realista, mas usar a realidade como cenário.

É uma BD bastante leve, que se lê rapidamente. Uma lufada de ar fresco. Gostei sobretudo do tom despretensioso da obra, sem demasiadas complexidades e com uma conclusão a assentar como uma luva no seu todo. Original e divertido, Como Falar como Uma Rapariga em Festas está super recomendado.

Avaliação: 8/10

Resumo Trimestral de Leituras #8

Chego ao final do ano com a sensação de objetivos cumpridos e um ano pleno de excelentes leituras. Este último trimestre foi rico em obras diversificadas, com algumas das melhores avaliações do ano a ocorrerem neste período. Podem ver a lista anual aqui e segue em baixo os livros lidos no último trimestre:

Proxy: Antologia Cyberpunk – Vários Autores

O Cavaleiro da Morte, Crónicas Saxónicas #2 – Bernard Cornwell

Fome de Vencer, Tony Chu: Detective Canibal #5 – John Layman e Rob Guillory

A Canção de Susannah, A Torre Negra #6 – Stephen King

Suíte do Apocalipse, Umbrella Academy #1 – Gerard Way e Gabriel Bá

As Primeiras Quinze Vidas de Harry August – Claire North

Saga Vol. 5 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

A Lâmina, A Primeira Lei #1 – Joe Abercrombie

Dallas, Umbrella Academy #2 – Gerard Way e Gabriel Bá

Prelúdios e Nocturnos, Sandman #1 – Neil Gaiman

Jardins da Lua, Saga do Império Malazano #1 – Steven Erikson

Casa de Bonecas, Sandman #2 – Neil Gaiman

Terra do Sonho, Sandman #3 – Neil Gaiman

Rei dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #2 – Mark Lawrence

The Horror in the Museum – H. P. Lovecraft

Aniquilação, Área X #1 – Jeff Vandermeer

The Walking Dead: The Alien – Brian K. Vaughan e Marcos Martin

Estação das Brumas, Sandman #4 – Neil Gaiman

O Terceiro Desejo, The Witcher #1 – Andrzej Sapkowski

sem-tituloO mês de outubro começou com a leitura de uma excelente coletânea de contos portugueses. Antologia da Editorial Divergência, Proxy: Antologia Cyberpunk conta com alguns dos autores nacionais mais talentosos. Reúne seis histórias mirabolantes passadas em mundos futuristas que conquistam pela originalidade. Todos os contos são protagonizados por mulheres; os que mais me agradaram foram Alma Mater de José Pedro Castro e Bastet de Mário Coelho. Logo depois li O Cavaleiro da Morte. O segundo volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell traz-nos um Uthred imaturo e intempestivo, que continua dividido entre o sangue saxão que lhe corre nas veias, e o fervor guerreiro dos viquingues, que o criaram. As contingências colocam-no do mesmo lado que Alfredo, o Rei saxão, e contra o seu irmão de criação. Uma escrita brilhante, um dos melhores romances históricos que já li.

sem-titulo-2Em Fome de Vencer, com argumento de John Layman e ilustração de Rob Guillory, a banda-desenhada Tony Chu: Detective Canibal volta a surpreender. Neste quinto volume, a filha de Tony Chu é raptada pelo terrível Mason Savoy, enquanto ele e o seu parceiro são despromovidos. Mais tarde, o próprio Chu é raptado por um jornalista desportivo, que quer usar os seus dons cibopáticos para descobrir os podres das principais estrelas de futebol. A Canção de Susannah é o penúltimo volume da saga visionária de Stephen King, A Torre Negra. Soberbo em toda a sua largura, King consegue oferecer um livro cheio de ação e suspense, dividindo o ka-tet (grupo de protagonistas) em três grupos. Susannah, grávida de um demónio, caminha para o parto na Nova Iorque de 1999; Jake, Oi e o Padre Callahan seguem as pistas na sua peugada, enquanto Roland e Eddie viajam para o passado, onde se encontram com um jovem escritor chamado Stephen King e o obrigam a escrever a história de A Torre Negra. Um livro cheio de referências e twists deliciosos, como o autor já nos habituou. Umbrella Academy (Vol. 1 e Vol. 2) é uma série de banda-desenhada divertidíssima, escrita pelo vocalista da extinta banda My Chemical Romance, Gerard Way, e com ilustrações do brasileiro Gabriel Bá. 43 crianças nascem do ventre de mulheres que não teriam dado qualquer sinal de gravidez, e todas mostram super-poderes. Ou… quase todas. Reginald Hargreeves, um cientista, recolhe 7 dessas crianças e educa-as na sua mansão, criando uma escola de super-heróis, The Umbrella Academy. Porém, as relações entre eles virão a fraturar-se, com o passar dos tempos. O segundo e último volume já publicado revelou-se ainda melhor que o primeiro.

sem-titulo-2Em novembro comecei por ler As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, livro de Claire North, pseudónimo da britânica Catherine Webb. Harry August é um jovem ruivo, fruto de uma violação, criado por um casal de origens humildes. Não sabe nada sobre as suas origens, até morrer. Mas Harry volta à sua data de nascimento, e poucos anos depois, tem consciência de que tudo aquilo já lhe aconteceu. Morte após morte, Harry volta ao ponto de partida, recordando-se de tudo o que ficou para trás. Certo dia, descobre que não é o único a possuir esse dom. Brilhante livro de suspense e mistério, contado na primeira pessoa, o livro perde por saltar de vida para vida como alguém que conta uma história e volta para trás por se ter esquecido de algum pormenor. Li também o quinto volume da série de banda-desenhada Saga, escrita por Brian K. Vaughan e ilustrada por Fiona Staples. Mais uma vez brilhante, neste volume acompanhamos a demanda de Marko e Robot IV, declarados inimigos, em busca dos seus filhos raptados por Dengo, enquanto Gwendolyn e Marca procuram sémen de dragão para curar o freelancer Vontade. Claro está, cenas hilariantes, disparates, sexo e sátiras não faltam. Simplesmente delicioso.

sem-tituloHá muito que queria ler Joe Abercrombie e a trilogia A Primeira Lei. Sand dan Glotka foi em tempos um soldado promissor, mas a guerra inutilizou-lhe a perna e foi capturado pelo temido Império Gurkhul. Quando regressou, coxo e sem dentes, tornou-se um inquisidor, aplicando a tortura a prisioneiros para conseguir as confissões que mais fossem convenientes aos seus superiores. Logen Novededos é um guerreiro famoso no Norte, bárbaro sanguinário que incutiu massacres às ordens do terrível Bethod. Agora, com o advento de criaturas horripilantes no norte e a perda dos seus companheiros, Logen decide lutar contra Bethod. Jezal dan Luthar é um jovem capitão de linhagem nobre. Egoísta e vaidoso, prefere passar os dias a jogar e a embebedar-se, do que a cumprir os seus deveres. É Bayaz, o famigerado Primeiro dos Magos, que irá unir estes três homens tão diferentes, com um único propósito. A Lâmina não me conquistou, porque tinha as expectativas altas e esperava algo mais credível, ainda assim os personagens são incríveis, e a história promissora. Continuei o mês a ler boa fantasia. Escrito por Steven Erikson, Jardins da Lua é o primeiro volume da Saga do Império Malazano. O continente de Genabackis está sob fogo cruzado. De um lado, o Império em expansão, com os exércitos de Dujek Umbraço a ganhar terreno graças ao apoio dos moranthianos e dos Altos Magos. Do outro, as últimas cidades livres, com a proteção dos Tiste Andii liderados por Anomander Rake e Caladan Brood. A cidade de Pale é destruída e ocupada pelos homens de Umbraço; entre eles está o sargento Whiskeyjack, que inclui no seu pelotão uma recruta possuída por um Ascendente. Após o cerco a Pale, Darujhistan torna-se a única cidade livre. Repleta de personagens riquíssimos, Darujhistan é uma cidade governada por um conselho corrupto e por uma sociedade de assassinos, embora sejam os magos a deter o verdadeiro poder, vinculados a Anomander Rake. Um grupo de amigos que se reune frequentemente numa taberna torna-se o centro de toda a ação. Esta foi, de longe, a melhor leitura do ano de 2016.

sem-titulo-3Terminei novembro e comecei dezembro a ler a BD Sandman de Neil Gaiman (Vol. 1, Vol. 2, Vol. 3 e Vol. 4). Se o primeiro e o terceiro volumes da icónica série de banda-desenhada não me conquistaram, parecendo mantas de retalhos cheias de referências e com pouco conteúdo, o segundo e o quarto volumes apresentaram histórias bem amarradas, cheias de tramas paralelas que se entrelaçaram e revelações credíveis sobre os personagens apresentados. Prelúdios e Noturnos é focado no cativeiro em que o Senhor dos Sonhos esteve submetido, depois de ter sido convocado acidentalmente para o mundo real, onde permaneceu durante 70 anos sob uma redoma de vidro. Casa de Bonecas foca-se em várias mulheres (e no seu papel para a sociedade). Rose Walker é uma menina que, por uma qualquer estranha razão, causou um distúrbio no mundo dos sonhos, de onde fugiram vários pesadelos. Terra do Sonho divide-se em várias short stories intrigantes que, ainda assim, não me encheram as medidas, limitando-se a aumentar o significado simbólico da mitologia concebida por Gaiman.  O quarto volume, Estação das Brumas, foi melhor. Com genialidade, o autor humaniza o protagonista ao colocá-lo com problemas de consciência. Lúcifer comunica a Sonho que libertou todas as criaturas, e entrega-lhe as chaves do Inferno para que ele possa fazer dele o que quiser.

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Rei dos Espinhos é o segundo volume da Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence. Aliando uma escrita cuidada e de qualidade a um background pós-apocalíptico cheio de deliciosas referências, Lawrence escreveu mais um livro com um dos personagens mais badass da fantasia moderna, Jorg Ancrath. No entanto, as boas ideias não conseguiram cativar-me. As várias linhas temporais confusas e uma condução de história deficiente e pouco credível desiludiram-me. Já o elegi The Horror in the Museum como o melhor conto que li este ano. Escrito por Lovecraft como ghost writer de Hazel Heald, apresenta-nos um protagonista cético que julga louco o escultor de um museu de cera, uma vez que este alega que as criações que apresenta não são esculturas mas sim monstros que caçou e enbalsamou. É uma fantástica narrativa que consegue inspirar ao leitor o mais profundo e inquietante dos terrores. The Alien é um volume isolado da BD The Walking Dead escrito por Brian K. Vaughan, o autor de Saga. Sem uma história propriamente original ou muito diferente, apresenta-nos dois personagens na cidade de Barcelona, no início da propagação do vírus. Apesar de pequeno e cliché, apresentou algumas surpresas.

sem-titulo-3Li este mês aquele que elegi o melhor livro de ficção científica deste ano. Primeiro volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer, Aniquilação é o relato de uma bióloga que se voluntariou para estudar uma área selvagem abandonada pelos humanos, depois de o seu esposo ter regressado de lá como uma sombra do que um dia foi. Envolvente e cheio de suspense, faz-nos pensar sobre os segredos da natureza e da evolução humana. A última leitura do ano foi O Terceiro Desejo. O primeiro volume de The Witcher apresenta uma sequência de contos protagonizados por Geralt de Rivia, um bruxo que mata monstros a troco de pagamento. Obstinado em afirmar que não trabalha como assassino a soldo, Geralt enfrenta vampiros, elfos e génios, num livro muito bem escrito por Andrzej Sapkowski. Para o ano há mais. Votos de um 2017 cheio de felicidades e boas leituras para todos os seguidores do blogue.