Resumo Trimestral de Leituras #8

Chego ao final do ano com a sensação de objetivos cumpridos e um ano pleno de excelentes leituras. Este último trimestre foi rico em obras diversificadas, com algumas das melhores avaliações do ano a ocorrerem neste período. Podem ver a lista anual aqui e segue em baixo os livros lidos no último trimestre:

Proxy: Antologia Cyberpunk – Vários Autores

O Cavaleiro da Morte, Crónicas Saxónicas #2 – Bernard Cornwell

Fome de Vencer, Tony Chu: Detective Canibal #5 – John Layman e Rob Guillory

A Canção de Susannah, A Torre Negra #6 – Stephen King

Suíte do Apocalipse, Umbrella Academy #1 – Gerard Way e Gabriel Bá

As Primeiras Quinze Vidas de Harry August – Claire North

Saga Vol. 5 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

A Lâmina, A Primeira Lei #1 – Joe Abercrombie

Dallas, Umbrella Academy #2 – Gerard Way e Gabriel Bá

Prelúdios e Nocturnos, Sandman #1 – Neil Gaiman

Jardins da Lua, Saga do Império Malazano #1 – Steven Erikson

Casa de Bonecas, Sandman #2 – Neil Gaiman

Terra do Sonho, Sandman #3 – Neil Gaiman

Rei dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #2 – Mark Lawrence

The Horror in the Museum – H. P. Lovecraft

Aniquilação, Área X #1 – Jeff Vandermeer

The Walking Dead: The Alien – Brian K. Vaughan e Marcos Martin

Estação das Brumas, Sandman #4 – Neil Gaiman

O Terceiro Desejo, The Witcher #1 – Andrzej Sapkowski

sem-tituloO mês de outubro começou com a leitura de uma excelente coletânea de contos portugueses. Antologia da Editorial Divergência, Proxy: Antologia Cyberpunk conta com alguns dos autores nacionais mais talentosos. Reúne seis histórias mirabolantes passadas em mundos futuristas que conquistam pela originalidade. Todos os contos são protagonizados por mulheres; os que mais me agradaram foram Alma Mater de José Pedro Castro e Bastet de Mário Coelho. Logo depois li O Cavaleiro da Morte. O segundo volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell traz-nos um Uthred imaturo e intempestivo, que continua dividido entre o sangue saxão que lhe corre nas veias, e o fervor guerreiro dos viquingues, que o criaram. As contingências colocam-no do mesmo lado que Alfredo, o Rei saxão, e contra o seu irmão de criação. Uma escrita brilhante, um dos melhores romances históricos que já li.

sem-titulo-2Em Fome de Vencer, com argumento de John Layman e ilustração de Rob Guillory, a banda-desenhada Tony Chu: Detective Canibal volta a surpreender. Neste quinto volume, a filha de Tony Chu é raptada pelo terrível Mason Savoy, enquanto ele e o seu parceiro são despromovidos. Mais tarde, o próprio Chu é raptado por um jornalista desportivo, que quer usar os seus dons cibopáticos para descobrir os podres das principais estrelas de futebol. A Canção de Susannah é o penúltimo volume da saga visionária de Stephen King, A Torre Negra. Soberbo em toda a sua largura, King consegue oferecer um livro cheio de ação e suspense, dividindo o ka-tet (grupo de protagonistas) em três grupos. Susannah, grávida de um demónio, caminha para o parto na Nova Iorque de 1999; Jake, Oi e o Padre Callahan seguem as pistas na sua peugada, enquanto Roland e Eddie viajam para o passado, onde se encontram com um jovem escritor chamado Stephen King e o obrigam a escrever a história de A Torre Negra. Um livro cheio de referências e twists deliciosos, como o autor já nos habituou. Umbrella Academy (Vol. 1 e Vol. 2) é uma série de banda-desenhada divertidíssima, escrita pelo vocalista da extinta banda My Chemical Romance, Gerard Way, e com ilustrações do brasileiro Gabriel Bá. 43 crianças nascem do ventre de mulheres que não teriam dado qualquer sinal de gravidez, e todas mostram super-poderes. Ou… quase todas. Reginald Hargreeves, um cientista, recolhe 7 dessas crianças e educa-as na sua mansão, criando uma escola de super-heróis, The Umbrella Academy. Porém, as relações entre eles virão a fraturar-se, com o passar dos tempos. O segundo e último volume já publicado revelou-se ainda melhor que o primeiro.

sem-titulo-2Em novembro comecei por ler As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, livro de Claire North, pseudónimo da britânica Catherine Webb. Harry August é um jovem ruivo, fruto de uma violação, criado por um casal de origens humildes. Não sabe nada sobre as suas origens, até morrer. Mas Harry volta à sua data de nascimento, e poucos anos depois, tem consciência de que tudo aquilo já lhe aconteceu. Morte após morte, Harry volta ao ponto de partida, recordando-se de tudo o que ficou para trás. Certo dia, descobre que não é o único a possuir esse dom. Brilhante livro de suspense e mistério, contado na primeira pessoa, o livro perde por saltar de vida para vida como alguém que conta uma história e volta para trás por se ter esquecido de algum pormenor. Li também o quinto volume da série de banda-desenhada Saga, escrita por Brian K. Vaughan e ilustrada por Fiona Staples. Mais uma vez brilhante, neste volume acompanhamos a demanda de Marko e Robot IV, declarados inimigos, em busca dos seus filhos raptados por Dengo, enquanto Gwendolyn e Marca procuram sémen de dragão para curar o freelancer Vontade. Claro está, cenas hilariantes, disparates, sexo e sátiras não faltam. Simplesmente delicioso.

sem-tituloHá muito que queria ler Joe Abercrombie e a trilogia A Primeira Lei. Sand dan Glotka foi em tempos um soldado promissor, mas a guerra inutilizou-lhe a perna e foi capturado pelo temido Império Gurkhul. Quando regressou, coxo e sem dentes, tornou-se um inquisidor, aplicando a tortura a prisioneiros para conseguir as confissões que mais fossem convenientes aos seus superiores. Logen Novededos é um guerreiro famoso no Norte, bárbaro sanguinário que incutiu massacres às ordens do terrível Bethod. Agora, com o advento de criaturas horripilantes no norte e a perda dos seus companheiros, Logen decide lutar contra Bethod. Jezal dan Luthar é um jovem capitão de linhagem nobre. Egoísta e vaidoso, prefere passar os dias a jogar e a embebedar-se, do que a cumprir os seus deveres. É Bayaz, o famigerado Primeiro dos Magos, que irá unir estes três homens tão diferentes, com um único propósito. A Lâmina não me conquistou, porque tinha as expectativas altas e esperava algo mais credível, ainda assim os personagens são incríveis, e a história promissora. Continuei o mês a ler boa fantasia. Escrito por Steven Erikson, Jardins da Lua é o primeiro volume da Saga do Império Malazano. O continente de Genabackis está sob fogo cruzado. De um lado, o Império em expansão, com os exércitos de Dujek Umbraço a ganhar terreno graças ao apoio dos moranthianos e dos Altos Magos. Do outro, as últimas cidades livres, com a proteção dos Tiste Andii liderados por Anomander Rake e Caladan Brood. A cidade de Pale é destruída e ocupada pelos homens de Umbraço; entre eles está o sargento Whiskeyjack, que inclui no seu pelotão uma recruta possuída por um Ascendente. Após o cerco a Pale, Darujhistan torna-se a única cidade livre. Repleta de personagens riquíssimos, Darujhistan é uma cidade governada por um conselho corrupto e por uma sociedade de assassinos, embora sejam os magos a deter o verdadeiro poder, vinculados a Anomander Rake. Um grupo de amigos que se reune frequentemente numa taberna torna-se o centro de toda a ação. Esta foi, de longe, a melhor leitura do ano de 2016.

sem-titulo-3Terminei novembro e comecei dezembro a ler a BD Sandman de Neil Gaiman (Vol. 1, Vol. 2, Vol. 3 e Vol. 4). Se o primeiro e o terceiro volumes da icónica série de banda-desenhada não me conquistaram, parecendo mantas de retalhos cheias de referências e com pouco conteúdo, o segundo e o quarto volumes apresentaram histórias bem amarradas, cheias de tramas paralelas que se entrelaçaram e revelações credíveis sobre os personagens apresentados. Prelúdios e Noturnos é focado no cativeiro em que o Senhor dos Sonhos esteve submetido, depois de ter sido convocado acidentalmente para o mundo real, onde permaneceu durante 70 anos sob uma redoma de vidro. Casa de Bonecas foca-se em várias mulheres (e no seu papel para a sociedade). Rose Walker é uma menina que, por uma qualquer estranha razão, causou um distúrbio no mundo dos sonhos, de onde fugiram vários pesadelos. Terra do Sonho divide-se em várias short stories intrigantes que, ainda assim, não me encheram as medidas, limitando-se a aumentar o significado simbólico da mitologia concebida por Gaiman.  O quarto volume, Estação das Brumas, foi melhor. Com genialidade, o autor humaniza o protagonista ao colocá-lo com problemas de consciência. Lúcifer comunica a Sonho que libertou todas as criaturas, e entrega-lhe as chaves do Inferno para que ele possa fazer dele o que quiser.

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Rei dos Espinhos é o segundo volume da Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence. Aliando uma escrita cuidada e de qualidade a um background pós-apocalíptico cheio de deliciosas referências, Lawrence escreveu mais um livro com um dos personagens mais badass da fantasia moderna, Jorg Ancrath. No entanto, as boas ideias não conseguiram cativar-me. As várias linhas temporais confusas e uma condução de história deficiente e pouco credível desiludiram-me. Já o elegi The Horror in the Museum como o melhor conto que li este ano. Escrito por Lovecraft como ghost writer de Hazel Heald, apresenta-nos um protagonista cético que julga louco o escultor de um museu de cera, uma vez que este alega que as criações que apresenta não são esculturas mas sim monstros que caçou e enbalsamou. É uma fantástica narrativa que consegue inspirar ao leitor o mais profundo e inquietante dos terrores. The Alien é um volume isolado da BD The Walking Dead escrito por Brian K. Vaughan, o autor de Saga. Sem uma história propriamente original ou muito diferente, apresenta-nos dois personagens na cidade de Barcelona, no início da propagação do vírus. Apesar de pequeno e cliché, apresentou algumas surpresas.

sem-titulo-3Li este mês aquele que elegi o melhor livro de ficção científica deste ano. Primeiro volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer, Aniquilação é o relato de uma bióloga que se voluntariou para estudar uma área selvagem abandonada pelos humanos, depois de o seu esposo ter regressado de lá como uma sombra do que um dia foi. Envolvente e cheio de suspense, faz-nos pensar sobre os segredos da natureza e da evolução humana. A última leitura do ano foi O Terceiro Desejo. O primeiro volume de The Witcher apresenta uma sequência de contos protagonizados por Geralt de Rivia, um bruxo que mata monstros a troco de pagamento. Obstinado em afirmar que não trabalha como assassino a soldo, Geralt enfrenta vampiros, elfos e génios, num livro muito bem escrito por Andrzej Sapkowski. Para o ano há mais. Votos de um 2017 cheio de felicidades e boas leituras para todos os seguidores do blogue.

A Canção de Susannah, A Torre Negra #6

Eu recuso-me a acreditar nisso. Recuso-me a acreditar que fui criado em Brooklyn simplesmente por causa do erro de algum escritor, algo que acabará por ser corrigido nas segundas provas. Ei, père, estou contigo… recuso-me a acreditar que sou uma personagem. Esta é a porra da minha vida!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Canção de Susannah”, sexto volume da série A Torre Negra.

A Torre Negra é a obra mais visionária do autor Stephen King. A Canção de Susannah, o sexto volume, prossegue a demanda de Roland Deschain, o pistoleiro, em busca da onírica torre, focando-se no estado de “graças” de Susannah Dean.

O contexto

Em 19 de junho de 1999, Stephen King foi atropelado durante uma caminhada a pé. Depois de algum tempo entre a vida e a morte, o famoso escritor do Maine recuperou, embora tenha ficado marcado para o resto da vida, e a sua obra literária também sofreu com o acidente. Um pouco influenciado pelas torrentes de fãs, que tinham pensado perder o seu autor preferido sem que tivesse concluído A Torre Negra, King decidiu pôr um ponto final na série, concluindo-a com mais três livros – Lobos de Calla, A Canção de Susannah e A Torre Negra.

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Susannah Dean (Daria T-s, deviantart)

Stephen King desenvolveu a narrativa e atou pontas soltas, usando a história de Os Sete Samurais como base e parodiando vários blockbusters, como Harry Potter ou Star Wars. Transformou também a data do seu acidente num símbolo da série, usando frequentemente os números 19 e 99 com tremenda frequência na história, fazendo os personagens reconhecerem o seu grande simbolismo. O ka-tet de Roland (o seu grupo unido pelo mesmo destino) tornou-se o ka-tet do 19. Da mesma forma, usa-se de vários recursos mitológicos e personagens de outras obras (como o urso Shardik e a tartaruga Maturin) e usa-os como símbolos de grande poder.

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A Torre Negra (Marvel)

A Canção de Susannah

Lobos de Calla termina com o desaparecimento súbito de Susannah, quando já todos tinham percebido que ela estava a ser manietada por uma entidade demoníaca chamada Mia, ou Mãe, e que estava grávida, fruto da relação sexual com o demónio descrita em Terras Devastadas, que permitiu a viagem de Jake para o Mundo Médio. A Canção de Susannah mostra-nos três focos narrativos distintos. Ao contrário dos restantes livros, este não é dividido por capítulos, mas por estrofes, e cada um termina com uma estrofe da cantiga que dá título ao livro. Susannah e Mia viajam para o ano de 1999 (familiar?), onde se conhecem mutuamente e procuram os seus pontos fortes e fraquezas, tentando demover-se uma à outra dos seus intentos. Os temíveis servos do Rei Rubro – homens vis, vampiros e outros – pretendem colocar-lhes as mãos em cima, para receber a criança que se chamará Mordred. Tal como o personagem da lenda arturiana, destinado a assassinar o seu pai.

Com a ajuda dos índios manni, o resto do grupo consegue atravessar um portal para o nosso mundo, mas qual realidade será mais real? Jake, Oi e o padre Callahan seguem as pistas de Susannah na Nova Iorque de 1999, mas os outros dois têm outra missão. Em 1977, Roland e Eddie voltam a enfrentar Jack Andolini e os homens de Balazar, mas vão também obrigar Calvin Tower a cumprir o prometido (Cal, Calla, Callahan), ou seja, vender-lhes o terreno onde está a Rosa no nosso mundo (onde fica a Torre Negra no mundo de Roland). Depois disso, procuram um tal Stephen King, escritor que parece reconhecer Roland de uma história que havia deixado numa gaveta. Roland hipnotiza-o, instigando-o a continuar a história da Torre Negra. No final do livro, em jeito de autobiografia, King noticia a sua própria morte na tragédia de 99.

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Capa Bertrand Editora

SINOPSE:

Na sua viagem em direção à torre, Roland e o seu ka-tet enfrentam adversidades sem fim: Susannah Dean foi levada por um demónio-mãe e usa a Treze Negra para ir para Nova Iorque. Mas quem é o pai da criança? E que papel desempenha o Rei Rubro nesta história? Roland envia Jake para tentar desviar Susannah do seu terrível destino, ao passo que ele próprio se dirige ao Maine para conversar com um certo Stephen King, autor de Salems Lot: A Hora do Vampiro. Um livro surpreendente que deixará os leitores desesperados pelo capítulo final desta série…

OPINIÃO:

Stephen King conseguiu fazer, neste livro, o que lhe faltou nos anteriores. Condensação. A Canção de Susannah, sexto e penúltimo volume da série A Torre Negra, tem pouco mais de 400 páginas, sem os tempos mortos que eu havia criticado nos livros anteriores. A narrativa, porém, não avançou muito, apesar do ritmo constante e crescente e dos vários encontros saborosos que King nos proporciona – um deles, consigo mesmo.

Commala-vem-ver

A batalha vai agora ser!

E os inimigos dos homens e da rosa

Erguem-se ao anoitecer.

As referências a obras do autor e de outros autores são constantes, como se esta luta contra o tempo desesperante fizesse parte de uma piada privada, como se os deuses se rissem e se divertissem com as desgraças dos personagens. Também encontrei referências ao nosso mundo real, como a palantír aka Treze Negra escondida num cofre secreto sobre o World Trade Center. Aquele humorzinho negro de King, sempre presente.

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Servo do Rei Rubro (pinterest)

A ironia de King não o poupa a si mesmo, e as suas inversões e piadas são constantes. Por vezes, estamos tão imbuídos na adrenalina e no sentimento dos personagens, que não reparamos logo na presença de certas referências. Felizmente, King não se nega a esforços de nos fazer vê-las. É ele quem mais se diverte com as reviravoltas rocambolescas do seu ka-tet. As próprias parcerias (Jake, Oi e Callahan; Roland e Eddie) tomam rumos diferentes do que haveríamos suposto, pertencendo ao rapaz e ao padre o papel principal nos eventos que estão prestes a acontecer, ainda que o pistoleiro deva ter uma função determinante nesse desfecho. O final de A Canção de Susannah foi, em simultâneo, um gancho miserável e saboroso. O impasse para o último volume faz-se através de um prenúncio terrível. O Rei Rubro está de olhos bem abertos, e o desfile de servos malignos começa agora a mostrar o seu rosto. Os personagens do ka-tet estão posicionados para cenas de grande ação, e fiquei de água na boca por ler o livro final desta série.

Avaliação: 8/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e a Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah