Resumo Trimestral de Leituras #4

Chegamos ao fim do ano e, mais do que o habitual resumo trimestral de leituras, exige-se um breve resumo de tudo o que li este ano. Foi um ano excelente, em que consegui ler mais do que imaginava e livros que tinha vontade de conhecer há muito tempo.

Aqui vai a “listinha” :p :

Lisboa no ano 2000 – Org. João Barreiros
O Espião que Saiu do Frio – John le Carré
O Coração é um Predador Solitário – João Barreiros
O Saque de Lampedusa – João Barreiros
A Cativa, Wulfric #1 – Manuel Alves
Mares de Sangue, The Gentleman Bastards #2 – Scott Lynch
Exhalation – Ted Chiang
Suspeito – Robert Crais
Os Anjos Não Têm Asas – Ruy de Carvalho
A Lenda do Vento, A Torre Negra #4,5 – Stephen King
As Raparigas Cintilantes – Lauren Beukes
Operação Tolerância Zero, X-Men #65 – Scott Lobdell
Os Anos Perdidos, Merlin #1 – T. A. Barron
Coisas Frágeis – Neil Gaiman
The New Atlantis – Ursula K. Le Guin
Bons Augúrios – Neil Gaiman e Terry Pratchett
Operação Tolerância Zero, Wolverine #13 – Scott Lobdell
Voo Nocturno – Antoine de Saint-Exupery
O Miniaturista – Jessie Burton
As Terras Devastadas, A Torre Negra #3 – Stephen King
As Cidades Invisíveis – Italo Calvino
O Monarca – Vassilis Vassilikos
Alice in Wonderland – Lewis Carroll
O Punhal do Soberano, Saga do Assassino #2 – Robin Hobb
Duna, Crónicas de Duna #1 – Frank Herbert
A Grande Matança, Sin City – Frank Miller
República de Ladrões, The Gentleman Bastards #3 – Scott Lynch
Cardiga: De Comenda a Quinta da Ordem de Cristo (1529 – 1630) – Luís Batista
Os Leões de Al-Rassan – Guy Gavriel Kay
A Rapariga no Comboio – Paula Hawkins
A Voz da Vingança, Tigana #2 – Guy Gavriel Kay
O Império Final, Mistborn #1 – Brandon Sanderson
A Sombra Sobre Lisboa – Org. Rogério Ribeiro
Lisboa Triunfante – David Soares
O Feiticeiro e a Bola de Cristal, A Torre Negra #4 – Stephen King
A Tumba – H. P. Lovecraft
A Corte dos Traidores, Saga do Assassino #3 – Robin Hobb
O Poço da Ascensão, Mistborn #2 – Brandon Sanderson
O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
Histórias de Aventureiros e Patifes – Org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
A Celebração – H. P. Lovecraft
O Herói das Eras, Mistborn #3 Parte 1 – Brandon Sanderson
Tis The Season – China Miéville

Sem títuloEste último trimestre começou com a leitura de dois livros comprados a 5 euros na Feira do Livro do Porto. A Sombra Sobre Lisboa é uma antologia muito interessante, de vários autores portugueses e um ou outro internacional, que formaram contos inspirados na obra de H.P. Lovecraft passados na nossa Lisboa. Para mim os melhores contos foram as criações de João Seixas, João Barreiros e David Soares. Desde um Eça de Queirós a lutar contra zombies e um arroz de polvo feito do mítico Cthulhu, podemos encontrar de tudo. Logo depois li Lisboa Triunfante, de David Soares, e adorei. É um livro que atravessa Lisboa em todos os espaços temporais, começa a contar a história de um menino no neolítico, apresenta-nos vários personagens ao longo da história de Lisboa, como Aquilino Ribeiro, Sá de Miranda, Frei Gil Valadares, com papéis muito importantes na narrativa, e não como simples figurantes. Mas é um livro de fantasia, de imaginação, carregado de simbolismos, desde a Pré-História ao futuro, passando pelos templários. É uma amálgama de tantas histórias quase verídicas, nas quais não saímos alheios à pesquisa notável do autor, utilizadas para o seu proveito narrativo, que se interligam numa história rocambolesca. É que tudo gira à volta de uma raposa e de um lagarto, que interferem no destino do mundo desde a sua génese. Como podem ver neste post, elegi-o como o melhor romance que li este ano.

Sem títuloContinuei então a saga A Torre Negra de Stephen King com o quarto volume, O Feiticeiro e a Bola de Cristal.  É um livro que me deixa excelentes recordações e me dá vontade de continuar a saga, apesar de ter sido uma leitura cansativa, porque a história podia ter sido contada em metade das páginas. Pois, são 840 páginas, e a maioria é a contar uma história do passado do protagonista, uma história de amor no faroeste do Mundo Médio. No entanto, vamos percebendo que aqueles enredos tiveram uma razão de ser e o final deixou-me de água na boca. Também notei bastante que o autor estava um pouco perdido na narrativa por esta altura do campeonato. A Tumba é um conto de terror de H. P. Lovecraft. É extremamente envolvente e negro, mas em momento nenhum cheguei a sentir-me perturbado. Conta a história de um homem internado num asilo psiquiátrico, que em jeito de autobiografia fala da sua infância e com normalidade aponta as coisas “não vivas” que lhe despertavam interesse, em especial uma sepultura de família que ele venerava com uma obsessão doentia. Gostei bastante dos acontecimentos em torno dessa sepultura, mas fica no ar a incerteza sobre se o homem era louco ou se aquilo foi real. A Corte dos Traidores é o terceiro volume da Saga do Assassino da Robin Hobb. É uma saga passada num ambiente medieval, com personagens de nomes estranhamente pitorescos. A escrita de Robin Hobb é fluente e as relações humanas são extremamente bem retratadas, não é à toa que Hobb é chamada a Primeira Dama da Fantasia. Ainda assim, e apesar de este volume ter bem mais ritmo e acontecimentos de destaque em volta do protagonista Fitz, não consigo gostar muito da série.

Sem título 4Terminei Novembro com O Poço da Ascensão, segundo volume da saga Mistborn. Se O Império Final foi uma agradável surpresa para mim, O Poço da Ascensão já não gostei tanto, e os poderes “mágicos” da protagonista contribuíram para perder a credibilidade do mundo apresentado. Ainda assim, foi um livro muito interessante, com vários dilemas morais. Brandon Sanderson fez-me refletir bastante sobre relações humanas, de amor e amizade, mas acima de tudo os debates em volta da honestidade de um rei e no papel que ele deve ter fez-me lembrar o Príncipe de Maquiavel. A questão religiosa e a forma como a fé interfere no nosso modo de vida foi muito pertinente. Uma surpresa muito agradável foi O Retrato de Dorian Gray. Nunca vi o filme, mas adorei o livro. A história de um jovem aristocrata britânico idolatrado por todos graças à sua beleza, que o torna obcecado pelo superficial da vida e pelo prazer momentâneo. Uma experiência enriquecedora, porque tanto a escrita de Oscar Wilde como todas as críticas que ele apresentou de forma discreta fizeram imenso sentido para mim. Seguiu-se Histórias de Aventureiros e Patifes. Já queria ter esta antologia desde que foi publicada no Brasil. Organizada por George R. R. Martin, o autor de A Guerra dos Tronos, e com contos de autores como Neil Gaiman, Patrick Rothfuss e Scott Lynch, só podia ser um brilhante livro de contos. De facto, não foi tão brilhante como eu presumia, mas não deixou de ser uma leitura muito agradável. No conjunto, o conto de Lynch foi o meu preferido. Não conhecia o trabalho de Gillian Flynn, nem de Connie Willis, mas fiquei deliciado com as duas escritoras.

Sem títuloA Celebração (The Festival) é um ótimo conto de H. P. Lovecraft. Um sujeito encontra-se a revolver o passado da sua família e encontra um livro, o maligno Necronomicon, que o coloca numa espécie de transe que o conduz às catacumbas sob uma igreja, onde vive um mal muito antigo. É arrepiante a descrição pormenorizada dos rituais, das criaturas, da procissão. Adorei. Voltei a Brandon Sanderson para ler a primeira parte do terceiro volume original de Mistborn. Em O Herói das Eras, Vin e Elend estão mais unidos do que nunca, agora que ele finalmente revela todo o seu potencial. Os cenários mudam e o casal tenta manter o Império unido, ao mesmo tempo que precisam lutar contra o mal incorpóreo que libertaram no Poço da Ascensão. Nota-se um excelente desenvolvimento de personagens, as pontas estão a ser bem amarradas, mas ainda assim algumas explicações dadas pelo autor pareceram forçadas e as espécies criadas pelo Senhor Soberano desagradaram-me.  Tis The Season é um conto natalício do autor de ficção científica China Miéville. É passado num futuro em que tudo o que está relacionado ao Natal tornou-se marca registada de uma empresa. Ao mesmo tempo crítico e cómico, o conto fala-nos sobre um pai divorciado que, ao procurar uma prenda para a filha, ganha bilhetes para comemorar o Natal no centro de Londres. É aí que estala a confusão. Gostei bastante, este é um autor que só oiço falar muito bem e tenho pena de ainda não estar publicado em português. E assim termina o meu 2015 em termos literários. Um excelente 2016 para todos vós que seguem o meu blogue. 😀

 

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O Feiticeiro e a Bola de Cristal, A Torre Negra #4

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Feiticeiro e A Bola de Cristal”, quarto volume da série A Torre Negra

O Feiticeiro e a Bola de Cristal é o quarto volume da saga literária A Torre Negra, de Stephen King, o mestre do terror. Considerada por muitos como a sua obra mais visionária, demorou décadas a ser concluída e tem sido colocada várias vezes como hipótese para virar filme ou série de tv, o que não se adivinha tarefa fácil. O próprio King assume que, mesmo com as várias crises de inspiração ao longo da obra, ela é a mais complexa e expandida que alguma vez criou.

Roland de Gilead, Eddie, Jake e Susannah de Nova Iorque, acompanhados pelo afável billy-bumbler Oi, são um ka-tet. O ka é o destino, e o ka-tet é um grupo de pessoas (Oi é a exceção) ligadas pelo mesmo destino. No volume anterior, As Terras Devastadas, o grupo ficou finalmente unido. Jake viajou da sua Nova Iorque para o Mundo Médio de Roland, graças ao esforço conjunto dos restantes, que implicou uma cena sexual entre Susannah com um demónio que guardava o portal, e isso pode ter implicações no futuro da personagem. Depois de atravessarem terras inóspitas, chegam à cidade de Lud e embarcam num comboio louco dominado pelo demónio Blaine, obcecado por adivinhas, e aí percebem que este pretende suicidar-se e levá-los consigo para a morte.

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Mapa de Mejis (pinterest)

Neste volume, o ka-tet consegue estabelecer um trato com a criatura: se Blaine não souber a resposta a uma das suas adivinhas até chegarem à paragem de Topeka em que eles pretendem sair, o comboio parará nesse destino e deixá-los-á sair em segurança. Tornou-se uma situação desesperante, mas o pistoleiro Roland e os seus companheiros sempre conseguem surpreender em situações de maior urgência.

Ultrapassado o susto, chegam a Topeka, uma cidade que se parece com uma povoação do Kansas, futura ao espaço temporal de onde vieram Jake, Suse ou Eddie. Um mundo que nem é o deles, nem o de Roland. É nesse mundo que enfrentam novos desafios, estranhos enigmas, e que Roland lhes fala de Susan Delgado, a mulher que amou, e lhes conta uma história passada no ambiente western do Mundo Médio, na longínqua Mejis, uma história que está mais relacionada com os dias que ali vivem do que podem imaginar.

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SINOPSE:

No quarto livro da série fantástica de Stephen King, Roland, o último dos pistoleiros, e os seus companheiros continuam a sua demanda pela Torre Negra. Depois de terem escapado por pouco à morte, os cinco companheiros iniciam uma viagem aterradora por uma paisagem urbana devastada a bordo de um comboio suicida. Roland terá de enfrentar um velho e astucioso inimigo de grande astúcia e a tentação da diabólica bola de vidro do feiticeiro, uma força poderosa no primeiro amor de Roland. E a torre está mais perto…

OPINIÃO:

Escrever opinião a este livro revela-se mais difícil do que fui ajuizando no decorrer da leitura. Traz-me um sabor agridoce: a minha verdadeira opinião é que esta saga é extremamente bizarra. Nota-se que nada foi muito pensado, que as coisas saíram de forma empolgada e improvisada pelo autor, e se há autor que pode fazer isso com mestria é Stephen King. Fica a sensação que as coisas vão sendo escritas ao sabor do vento, e que King se refugia no passado já estabelecido do personagem principal para ir desenvolvendo a narrativa e montar as peças do puzzle. A forma como ele fez a analogia ao Feiticeiro de Oz foi rebuscada mas acabou por fazer sentido.

Houve momentos em que odiei este livro. Ele tem 840 páginas e o grosso delas foi passado em recordações. Ou seja, percebi desde logo que a ação propriamente dita da saga ia ser muito pouca ou nenhuma. E ao longo dessas muitas e muitas páginas, Roland conta como conheceu Susan, o grande amor da sua vida, e a sua passagem por Mejis, um vilarejo de cowboys onde vivia a rapariga. Os núcleos foram muito bem trabalhados pelo autor… bem demais. A história é muito boa, há personagens que marcam, como o fantástico Eldred Jonas e os seus cavaleiros com caixões tatuados nos dedos, a referência a Sheb, o pianista que surgiu no primeiro livro da saga ou mesmo Rhea, a bruxa, uma personagem que não gostei nada, que me conseguiu irritar do princípio ao fim mas que mostrou fazer muito sentido para toda a história do Roland.

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Rhea de Coos (RedHeretic)

Metade das páginas teria sido o suficiente para narrar a aventura com o devido desenvolvimento, e isso desanimou-me imenso ao longo da leitura. Cansou-me, é verdade. Mas King é perito em animar-nos quando as coisas estão a dar para o torto e a sua linguagem intimista e nuances de falsa infantilidade relançaram-me para a leitura.

Não fico com a melhor das impressões sobre esta história tão repleta de vilões e personagens desprezíveis, que não terminou da melhor maneira… mas não consigo dizer que não gostei. Foi bem construída e ajudou a dar mais alma à personagem principal da saga. E no fim, bem, as poucas páginas no final do livro que voltaram ao presente da narrativa fizeram desenvolver de uma forma rápida a ação da trama, atar pontas soltas, trazer respostas e um novo rol de perguntas.

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Não tenho grandes ilusões em relação a esta saga. Percebe-se facilmente que o autor não sabia o que viria a fazer à obra e foi escrevendo conforme a imaginação dele assim o ditava, mas o empolgamento e a riqueza deste estranho mundo que mistura a lenda do Rei Artur, cowboys, viagens pelo tempo e dimensões, e utiliza de uma forma inteligente pedaços do folclore americano e das suas criações literárias, a par da elegância e empolgamento do escritor, vão-me mantendo com vontade de ir lendo estes livros e chegar, tal como Roland e o seu ka-tet, à malfadada Torre Negra para descobrir os seus mistérios.

Recomendo esta saga a quem queira embrenhar-se no mundo do bizarro e do fantástico de uma forma descomplexada, tentando acompanhar o raciocínio do autor e os traços multifacetados destes personagens tão ricos que vão aparecendo. Aviso que os livros vão-se tornando cada vez maiores e menos interessantes, mas a curiosidade vai sendo fomentada pelo autor. Porque o mundo avança, e os personagens avançam com ele. É o ka. Os livros estão todos escritos, e a curiosidade não me permite parar por aqui.

Avaliação: 7/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e A Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

#7 A Torre Negra

As Terras Devastadas, A Torre Negra #3

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “As Terras Devastadas”, terceiro volume da série A Torre Negra

O que mais tenho a dizer sobre o autor Stephen King? Já todos sabem que é um dos meus escritores favoritos e um dos mais célebres no género fantástico/terror. Aliando uma introspeção narrativa a uma descrição subtil de cenários e personagens, este autor consegue conquistar-nos com um sarcasmo permanente e muitas vezes impercetível a quem não estiver mais atento às camadas internas da narrativa. Essa ironia constante, aliada a um humor perverso e a uma sombra de terror cada vez mais aguçada, está uma vez mais presente no terceiro volume desta saga A Torre Negra.

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Esta saga acompanha o pistoleiro Roland de Gilead, o último dos pistoleiros remanescentes que sobreviveram ao avanço do mundo, e o seu ka-tet: Jake, o rapaz de lunetas, Eddie, o ex-viciado em heroína, Susannah, uma afro-americana sem pernas e Oi, um billy-bumbler (um animal com traços de texugo e doninha). Em As Terras Devastadas, o grupo dá de caras com um urso gigante… com uma antena parabólica na cabeça. Isso é apenas o início de uma aventura que atingirá o seu ápice na cidade perdida de Lud, onde um diabólico comboio comandado por um demónio muito antigo os poderá matar a todos.

Viagens à Lareira #5: Este mês o desafio Viagens à Lareira “obrigava-me” a ler um livro de fantasia. Apesar de ter começado este livro no mês de Abril, demorei bastante tempo a acabá-lo, por isso é ele o eleito para o desafio.

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SINOPSE:

 Neste terceiro volume da série de culto, Roland prossegue com a sua demanda pela Torre Negra, mas agora já não está sozinho. Treinou Eddie e Susannah, que entraram no Mundo Médio em momentos diferentes no livro anterior, à velha maneira dos pistoleiros. Mas o seu ka-tet ainda não está completo. Falta escolher um terceiro elemento: alguém que já esteve no Mundo Médio, um menino que morreu não uma, mas duas vezes, mas que continua vivo. Os quatro do ka-tet, unidos pelo destino, terão de fazer uma longa viagem até às terras devastadas e à cidade destruída de Lud, que fica para além delas. Pelo caminho, encontrarão a fúria de um comboio, que pode muito bem ser o seu único meio de fuga…

«Momentos de fantasia encantadores, episódios de uma tensão extraordinária e uma cena de terror arrasadora.»
Publishers Weekly
«Stephen King no seu melhor.»
Library School

OPINIÃO:

Este não foi um livro fácil. A leitura foi morosa, a acção lenta, arrastada… mas tantas introspecções, e tantas aventuras que me pareciam inúteis acabaram por fazer sentido no seu todo, e cheguei ao final com a sensação que adorei o livro e cada vez mais adoro a maneira de King nos relatar cada evento. O que dá um certo encanto à narrativa é que vemos que King escreveu ao sabor da maré, nem ele sabe o que quer para a história e os acontecimentos vão surgindo e surpreendendo não só o leitor como também o autor. A história é muito simples, e consegue ser original, mesmo que os personagens e os contextos não o sejam. De uma forma muito subtil, o autor vai fazendo piadas a outras obras, literárias, musicais ou cinematográficas. O perfil do protagonista remete-nos ao Velho Oeste, e mesmo a ação lenta do livro faz-me lembrar a lentidão dos western spaghetti.

Mas o livro é muito mais do que isso. Tem demónios, cidades destruídas, ficção científica, quebra-cabeças que puxam pela nossa astúcia, uma fantástica química entre personagens e uma coesão incrível a formar-se entre eles. Se há momentos em que quase parece que estamos a ler um livro infantil – tão básica e simples que se torna a história e os diálogos – essa imagem é completamente esmagada quando percebemos a complexidade do Mundo Médio, o khef, ka, ka-tet (parece chinês, não?), e quando vemos a linguagem áspera e os diálogos cheios de palavrões entre os personagens.

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Ka-tet (pinterest)

Gostei também de o livro conter imagens. Não só torna os sinais encontrados pelos personagens mais identificáveis, como nos dá folga a tantas letras; este terceiro volume são 550 páginas com letras um pouco para o pequenas – o formato habitual da Bertrand. O livro no seu todo é bom, mas peca pela lentidão da leitura. O terço final do livro é excelente, e termina no seu auge, com um gancho muito apetecível para o próximo volume. Recomendo vivamente aos amantes de fantasia e, como diria Roland: não se esqueçam do rosto do vosso pai. 😛

Avaliação: 8/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e A Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

#7 A Torre Negra

A Lenda do Vento, A Torre Negra #4.5

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Lenda do Vento”, volume isolado da série A Torre Negra

Stephen King é um nome incontornável da ficção mundial e o mestre do terror e do suspense. Sempre carregado de uma boa dose de originalidade, este extraordinário autor norte-americano já conta com um vasto currículo de obras-primas. A saga A Torre Negra é, no entanto, a sua obra mais visionária, uma incursão no fantástico de proporções colossais. Uma saga que o autor demorou cerca de trinta anos a concluir.

A Lenda do Vento é tido como um romance isolado dentro da própria saga, tanto que a editora Bertrand optou por o publicar antes dos restantes. Erradamente, a meu ver. Embora o próprio autor crie as condições, no início do livro, para que quem não leu nada da saga possa começar por este volume, acho que ele deve ser lido entre o quarto e o quinto volume.

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Via Apogeu do Abismo

E isto porque eu, que já li os dois primeiros da saga, acabei por levar com uns quantos spoilers de cenas que eu não tinha lido ao pegar nas primeiras páginas. Nem sou das pessoas que se importa de levar com spoilers, e mesmo assim julgo que teria preferido ler este livro entre os volumes quatro e cinco, como o próprio autor recomenda.

Em relação ao livro, para quem não sabe do que se trata a saga A Torre Negra, fala das aventuras e desventuras do pistoleiro Roland Deschain na Terra Média, o fantástico mundo criado por King, onde os descendentes do Rei Artur viraram cowboys e lidam com todo o tipo de ameaças, desde demónios a dragões. Criaturas criadas pelo autor também vão aparecendo, assim como objetos futuristas; no fundo o mundo do autor é uma piada sobre fantasia e ficção científica, incluindo elementos de outros mundos fantásticos de uma forma subtil.

Começa com os personagens da série: Roland, Jake, Susannah, Eddie e o billy-bumbler Oy em busca de um abrigo para sobreviverem à tormenta-mor. No retiro, Roland começa a contar histórias da sua juventude, onde temos mais recordações de Gilead e a caça dos cowboys ao homem-pele, um sujeito que se transforma, e nessa mesma recordação o jovem Roland conta a uma criança que acabou de perder o pai às mãos da criatura a história que a mãe lhe contava em criança: A Lenda do Vento. O livro conclui com a resolução do mistério do homem-pele e o fim da tormenta-mor para os nossos heróis seguirem viagem.

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Capa Bertrand
SINOPSE:

Em A Lenda do Vento, Stephen King transporta-nos à Terra Média, o território espetacular da saga A Torre Negra. Roland Deschain, Jake, Susannah, Eddie e Oy enfrentam uma terrível tempestade quando acabam de atravessar o rio Whye e são obrigados a abrigar-se numa cidade há muito abandonada. Embalados pelo brilho das chamas e pelo uivo do vento, os quatro companheiros acompanham o pistoleiro em dois episódios de seu passado. Uma viagem encantadora e assustadora ao mundo de Roland e um testemunho do poder e da magia de Stephen King a contar histórias.

OPINIÃO:

É sempre uma experiência refrescante ler Stephen King e este livro não foi excepção. Senti o livro como uma espécie de matrioska. Tirando o facto de algumas passagens roçarem a exaustão e a própria Lenda do Vento poder ser contada em metade das páginas, foi uma boa leitura. Para além do Homem da Coleta e da subtileza deliciosa de King (a referência a Aslan de As Crónicas de Nárnia deu-me vontade de rir), o capítulo da Lenda do Vento foi uma pequena deceção.

Foi uma história que não me surpreendeu e tornou-se um pouco enfadonha. Gostei muito mais da perseguição dos cowboys ao homem-pele e das recordações de Roland. Apesar de algumas passagens mais chatas, foi um livro que não me desiludiu no seu todo. Acho esta saga incrível. Apesar de a história em si não ser nada de extraordinário, o autor condimenta-a com uma certa dose de intenções encriptadas e uma escrita mordaz que não deixa ninguém indiferente. Até agora os livros desta saga sempre me deixaram a “chorar por mais”. Recomendo vivamente. Volto a frisar, porém, que se não quiserem apanhar spoilers, leiam este livro entre o quarto e o quinto da série.

Avaliação: 8/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e A Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

#7 A Torre Negra

O Vale dos Cinco Leões

“Follett vintage… Trata-se do seu romance mais ambicioso, e consegue um sucesso admirável.” – USA Today

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Vale dos Cinco Leões”

Comprei O Vale dos Cinco Leões de Ken Follett, exemplar da Bertrand com 520 páginas, em Janeiro deste ano para o levar comigo em viagem. A verdade é que comecei a lê-lo antes e terminei-o depois da referida viagem, mas bastou-me uma meia dúzia de leituras para o devorar por completo. Vale não é a melhor obra deste renomeado autor galês; a sua linguagem é muito acessível mas sem jogos de palavras que nos apaixone, a história não prima pela originalidade, e ainda assim, posso dizer que este livro é uma perfeita leitura de Verão.

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Capa Bertrand
Sinopse:

“Num mundo dividido ao meio onde todos são forçados a tomar partido, Jane, uma corajosa jovem inglesa, vê-se envolvida num perigoso triângulo de amor, intriga e enganos. Depois de ter sido traída pelo homem que amava, rende-se ao atraente Jean-Pierre e juntos partem para o Afeganistão para ali ajudarem os resistentes da guerra contra o invasor russo. É ali, no vale dos Cinco Leões, num ambiente selvagem e inóspito onde grassam a violência e a morte, que Jane descobre uma nova teia de mentiras. Encurralada e desesperada por escapar dali, a sua única esperança é Ellis, o seu grande amor e o maior inimigo de Jean-Pierre, que aparece inesperadamente no vale em missão ao serviço da CIA. Dá-se então início a uma perseguição alucinante e sem tréguas, uma luta vertiginosa pela sobrevivência na qual só poderá haver um vencedor.

Opinião:

Como os leitores mais atentos devem saber, um dos meus livros preferidos, senão o preferido é A Chave para Rebecca, deste mesmo autor, e a história deste livro, ou pelo menos a estrutura do mesmo não é muito diferente, embora num ambiente longínquo. Isso soma-lhe imensos pontos na minha análise. É, sem dúvida, um estilo literário que me agrada, aliando o rigor histórico a uma escrita despretensiosa, com uma história “para entreter”, que me remete a filmes antigos que me povoam as recordações.

Passamos grande parte do livro sem bem entender quem é o herói e quem é o vilão, ao mesmo tempo que a própria Jane não consegue perceber qual é – de entre os dois – aquele que verdadeiramente ama. É uma história simples, com aquele ingrediente mágico para o sucesso que é conseguir capturar o interesse do leitor, fazendo-o viver as mesmas experiências, os mesmos receios e inseguranças que a personagem fulcral do livro – a liberal e obstinada Jane.

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Menina afegã (pinterest)

Não gostei tanto das longas caminhadas que os personagens fizeram pelas montanhas do Afeganistão, em que a descrição se tornou cansativa na minha leitura, mas também isso mostrou um grande trabalho de pesquisa do autor – para além de quase nos sentirmos a sufocar por aquele ambiente árido, tiro o chapéu à fantástica pesquisa de Follett em relação às condições de vida de uma mãe estrangeira no Afeganistão. Não é um livro rico em palavras e em significados, mas é, sem dúvida, uma excelente leitura de entretenimento.

Avaliação: 7/10

A Escolha dos 3, A Torre Negra #2

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Escolha dos Três”, segundoo volume da série A Torre Negra

A Escolha dos Três, da Bertrand Editora, é o segundo volume da visionária obra de Stephen King, a saga A Torre Negra. São 424 páginas repletas de ação que transformam este livro em mais um surpreendente mar de letras maravilhosamente esculpido pela varinha de condão chamada King. A quem pegar pela primeira vez neste livro, eu só posso sugerir: saboreiem, divirtam-se. Porque este livro não tem tempos mortos, é uma montanha-russa de emoções, onde a fantasia se mistura com a comédia de uma forma que nos deixa completamente “à nora”.

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Capa Bertrand Editora

A história do livro é rocambolesca. Depois de no primeiro volume, O Pistoleiro, o protagonista Roland nos mostrar o seu mundo em tudo idêntico (aparentemente) ao do antigo Faroeste, neste segundo livro o nosso protagonista encontra-se numa praia, tentando sobreviver às lagostosidades (uma espécie de lagostas gigantes) que saem da água assim que o sol se põe, e que fazem perguntas estranhas como “did-a-chum” ou “did-a-choque”. Como Stephen King tão bem ironiza, parecem perguntas de advogado.

Roland consegue sobreviver durante algum tempo a essas criaturas, mas acaba por se ferir gravemente e perder alguns dedos nas mãos e parte do pé. Encontra então o primeiro portal, tal como o Homem de Negro lhe haveria garantido que encontraria. Ao entrar no primeiro portal, encontra O Prisioneiro, Eddie Dean, um viciado em droga do nosso mundo em pleno ano de 1987, com quem Roland estabelece uma enorme empatia. Após várias peripécias, Eddie transporta o portal para o inóspito mundo de Roland.

Quando encontram o segundo portal, Roland atravessa-o e encontra, no ano de 1964 do nosso mundo, A Senhora das Sombras. É, na verdade, uma afro-americana que perdeu as pernas após ser atirada para a frente de um metro. Roland e Eddie sofrerão inúmeros reveses quando percebem que esta mulher, tem, na verdade, duas personalidades bem distintas: a benévola Odetta Holmes e a inssurrecta Detta Walker, que se tornará mais em inimigo do que em aliada.

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Odetta/Detta, Roland, Eddie e Jake (glockart)

No terceiro portal, Roland encontra Jack Mort, O Que Empurra, o homem responsável por dois crimes marcantes na vivência do nosso herói. Mort é, também, a chave para a resolução dos problemas do pistoleiro, que prossegue na senda da sua Torre Negra. A forma como ele encara e se choca com os objetos e formas de vida no nosso mundo que encontra através dos portais, é, em simultâneo, uma alegoria e uma crítica mordaz do nosso autor. Para nós, leitores, é tudo o que podemos desejar num livro.

Apesar de não achar a história em si minimamente interessante, a forma como o autor nos conduz através dela, e a sua forma de escrever são desconcertantes e só nos fazem chorar por mais. Recomendo vivamente.

Avaliação: 8/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e A Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

#7 A Torre Negra

O Pistoleiro, A Torre Negra #1

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Pistoleiro”, primeiro volume da série A Torre Negra

Stephen King é o mestre do terror e do suspense, uma figura incontornável do último século que dispensa qualquer tipo de apresentações. Muitos dos seus romances foram adaptados para os ecrãs, como o filme A Tempestade do Século ou a série Under the Dome. A Torre Negra é a saga mais visionária e ambiciosa deste autor americano, uma série literária que demorou trinta anos a ser concluída. O Pistoleiro é a primeira incursão do autor neste mundo fantástico que mistura as lendas arturianas com westerns num árido ambiente futurista. O meu volume, da Bertrand Editora, edição de 2013, tem 214 páginas.

King foi ousado ao criar este mundo de horrores. Fascinado pela magia do Senhor dos Anéis e pelas revistas de cowboys que lera em criança, Stephen King instigou-se a criar um cenário pós-apocalíptico que nos remete aos bons e velhinhos westerns, onde nos surgem demónios diferentes a cada virar de página. Inicialmente, King publicou separadamente os cinco contos que compõem este primeiro livro, para os editar juntos, na forma de livro, em 1982, como o primeiro volume desta pioneira obra de terror onde nem as crianças são poupadas. Trinta anos volvidos, no ano de 2012, Stephen King terminou a sua saga fantástica.

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Capa Bertrand
SINOPSE:

No primeiro livro desta série brilhante, Stephen King apresenta aos leitores uma das suas personagens mais enigmáticas, Roland de Gilead, o último dos pistoleiros. Roland é uma figura marcante, um solitário numa viagem arrebatadora em direção ao bem e ao mal. No seu mundo desolado, que reflete assustadoramente o nosso, Roland persegue o homem de negro, conhece a cativante Alice e começa a sua relação de amizade com um rapaz de Nova Iorque chamado Jake. Ao mesmo tempo realista e onírico, O Pistoleiro deixa os leitores ansiosos pelo novo capítulo desta série. Passada num mundo de circunstâncias extraordinárias, com um imaginário visual espantoso e personagens inesquecíveis, a série A Torre Negra é ímpar. A obra mais visionária de Stephen King, um misto mágico de fantasia e horror.

OPINIÃO:

É esta, realmente, a premissa desta obra: tudo começa com Roland, o Pistoleiro, a perseguir um maligno feiticeiro pelo deserto. Em termos narrativos King consegue ser imprevisível utilizando clichés de terror. Um homem possuído, uma mulher grávida por um demónio, um demónio que fala através de um buraco na parede, um solitário que se torna amigo de um jovem imberbe e sonhador.

A magia de King não está na história em si. Para mim, o final deste primeiro volume foi decepcionante, até porque ao longo do livro o autor colocara as minhas expectativas bem no topo, mas isso não apaga a maravilha que foi ler este livro. Os pontos negativos da obra são mesmo a conclusão com gosto a pouco, a falta de um combate entre os dois inimigos desta trama, a escuridão com que são abordados alguns assuntos (de resto, King sempre nos habituou a esse véu macabro e sinistro nas suas obras), o que me deixou muitas vezes com um gosto amargo na boca.

Surpreendeu-me o facto de começarmos o volume com capítulos minúsculos, para, a partir de determinado momento, deixarmos de ter capítulos, apenas blocos inteiriços que fazem parte do mesmo conto. Em relação a pontos positivos, realço a escrita do autor: King nunca desilude. Consegue-nos convencer a entrar nos seus mundos, e o mais difícil é, realmente, sair deles. Aprecio e muito a escrita deste autor fantástico. Os grandes pontos fortes do livro, para mim, são os flashbacks, nomeadamente o combate entre Roland e Cort, para mim qualquer coisa de forte – não estava à espera da violência do mesmo – e de inesquecível.

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Roland Deschain (The Dark Tower Comics)

A presença do pistoleiro na vila de Tull foi para mim a melhor parte deste volume. King começou com tudo, com ação, com romance, com intensidade, para depois passar aos flashbacks e a momentos de grande contemplação, daí que, para mim, o livro tenha vindo sempre a decrescer em termos de qualidade, embora compreenda a opção do autor. Em termos literários, não tenho mais nada a apontar ao escritor. Gostei imenso e recomendo, a quem gosta de fantástico e a quem gosta de horror. Digamos que, não é um livro para meninos.

Avaliação: 8/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e A Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

#7 A Torre Negra

Inferno

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Inferno”, quarto volume da série Robert Langdon

Arrepiante! É o adjectivo que mais se adequa a várias das inquietantes passagens deste mirabolante volume de 551 páginas.

O autor é sobejamente conhecido. Dan Brown, responsável por sucessos como Anjos e Demónios, Código Da Vinci ou O Símbolo Perdido, leva-nos por uma viagem alucinante ao assombroso mundo de Dante Alighieri, naquele que é, à data, um dos melhores romances deste escritor norte-americano. Na minha opinião, e dentro das obras deste autor, Inferno é apenas suplantado pelo icónico Código Da Vinci, idolatrado por muitos e renegado por outros tantos.

Inferno
Capa Bertrand Editora

A escrita de Brown é alvo de uma chuva de críticas, tanto positivas como negativas. É um tipo de escrita que me cativa, pela sua acessibilidade, pela forma única do autor em manter o suspense página atrás de página. Brown faz-nos sentir imersos no mundo a que nos convidou a entrar ao conseguir descrever ambientes, mostrar-nos um conhecimento único de ciência e arte sem perder o fio condutor da intriga que nos quer contar, nem sequer deixar de nos manter com o coração aos saltos enquanto nos conduz numa verdadeira aula de História.

No reverso da medalha, Brown perde leitores ao manter uma história-padrão nos quatro últimos volumes que escreveu. O protagonista, Robert Langdon, vê-se sem saber bem como a braços com uma conspiração a nível mundial, e na companhia de uma bela mulher decifra códigos e símbolos antigos. Depois de uma série de volte-faces, acaba por descobrir um segredo assustador. No fim, surge o clima de romance entre os protagonistas que termina com uma despedida, um até já que raramente se concretiza. Esta história parece-vos familiar? É o que acontece nos últimos livros de Brown, e Inferno não é excepção.

No entanto, penso que Dan Brown se esforçou por recuperar o público que perdeu em O Símbolo Perdido. Inferno revela problemas reais do nosso mundo, personagens extremamente humanos, conseguimos compreender as razões do vilão da história e posso até dizer que não existem personagens completamente maus. À excepção de Langdon, peço ao leitor que não confie em mais ninguém, pois tudo pode acontecer e reviravoltas incríveis estão à sua espera. O outro destaque positivo é a forma como Brown abordou os temas em questão, a profundidade q.b. que lhes deu, e como nos levou por uma visita guiada a Itália, de Florença a Veneza, para terminar a história do outro lado do mundo.

Inferno é um mar de truques, tentáculos que surgem das sombras, a obra de Dante Alighieri explorada num íntimo retrato do poeta italiano, uma abordagem real e assustadora do mundo em que vivemos. Dan Brown consegue-nos surpreender a cada capítulo, onde tudo o que achamos previsível se desmancha de um momento para o outro. Robert Langdon vê-se a braços com um inimigo que… se suicidou antes da história começar. Surpreendido, não?

Convido-vos a ler o livro. Não é nenhuma obra de literatura que ficará para sempre na nossa memória, mas sem dúvida é uma excelente forma de entreter e ficar a conhecer um pouco mais sobre A Divina Comédia de Dante e sobre riscos iminentes que o nosso mundo atravessa. A realidade consegue ser mais assustadora do que a ficção.

Avaliação: 9/10

Robert Langdon:

#1 Anjos e Demónios (lido não comentado)

#2 O Código DaVinci (lido não comentado)

#3 O Símbolo Perdido (lido não comentado)

#4 Inferno

#5 Origem

O Assassino Inglês

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Assassino Inglês”, segundo volume da série Gabriel Allon

The English Assassin (2008) do jornalista e escritor Daniel Silva é um dos emocionantes livros da saga Gabriel Allon. Colocado pelo Washington Post como um dos melhores autores norte-americanos de espionagem e correntemente comparado a mestres do género, Daniel Silva destaca-se pela fluidez da escrita e pelo carisma imprimido nos seus personagens.

Gabriel Allon é um espião e restaurador de arte guarnecido de amplos créditos em ambos os ofícios. Rumando a Zurique para o restauro de uma impressionante obra de arte, Gabriel acaba por ser arrastado para um cenário de morte, conspiração, roubo e traições. Fantasmas do passado dançam na sua mente a um ritmo cada vez mais ritmado, demoníaco, ao ritmo da música de Anna Rolfe, uma célebre violinista filha de um poderoso banqueiro suíço. Ao mesmo tempo que se envolve com Anna, Gabriel descobre um sem número de podres, que se encaixam como peças de um puzzle deixado pelo falecido banqueiro e que se estendem até aos longínquos anos do regime nazi. Um homem assombrado por mágoas antigas, uma jovem assustada, um “elfo” e um assassino inglês, entre muitos outros deliciosos personagens, entre Portugal, Itália e Suiça. Um ritmo surpreendente. Aconselho vivamente este livro a todos os amantes de espionagem.

O meu livro, edição de 2009, da Bertrand Editora, possui aproximadamente 350 páginas.

Avaliação: 7/10

Gabriel Allon:

#1 O Artista da Morte
#2 O Assassino Inglês
#3 O Confessor
#4 Morte em Viena
#5 Príncipe de Fogo
#6 A Mensageira
#7 O Criado Secreto
#8 As Regras de Moscovo
#9 O Desertor
#10 O Caso Rembrandt ;
#11 Retrato de Uma Espia
#12 O Anjo Caído
#13 A Rapariga Inglesa
#14 O Assalto
#15 O Espião Inglês
#16 The Black Widow – ainda não publicado em Portugal