Resumo Trimestral de Leituras #9

O primeiro trimestre do ano chegou ao fim e com ele chegou a altura de fazer o habitual balanço trimestral de leituras. De Ken Follett a Neil Gaiman, passando por Brandon Sanderson e George R. R. Martin, revisitei alguns dos meus escritores favoritos e ainda tive o prazer de iniciar a Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss. Vejam a lista de leituras dos meses de janeiro, fevereiro e março:

A Darkness Surrounds Him, Outcast #1 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

The Whisperer War, The Walking Dead #27 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

Inimigos – Anton Tchekov

Um Jogo de Ti, Sandman #5 – Neil Gaiman

Fábulas e Reflexões, Sandman #6 – Neil Gaiman

Um Mundo Sem Fim, Vol. 1 – Ken Follett

Um Mundo Sem Fim Vol. 2 – Ken Follett

Vidas Breves, Sandman #7 – Neil Gaiman

A Estalagem no Fim do Mundo, Sandman #8 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 1, Sandman #9 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 2, Sandman #10 – Neil Gaiman

A Vigília, Sandman #11 – Neil Gaiman

Warbreaker, Warbreaker #1 – Brandon Sanderson

La Dueña – J. A. Alves

Vidas Secretas de Homens Mortos, Velvet #2 – Ed Brubaker, Steve Epting e Elizabeth Breitweiser

Autoridade, Área X #2 – Jeff Vandermeer

O Cavaleiro de Westeros – George R. R. Martin

White Sand #1 – Brandon Sanderson

Terrarium – João Barreiros e Luís Filipe Silva

Príncipe dos Dragões, Elric #1 – Michael Moorcock

Loki – Robert Rodi e Esad Ribic

Assombrações Sem Fim, Harrow County #1 – Cullen Bunn e Tyler Crook

Saga #6 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Um Diamante Para o Além, Bouncer #1 – Alejandro Jodorowsky e François Boucq

O Nome do Vento, Crónica do Regicida #1 – Patrick Rothfuss

sem-tituloO ano iniciou-se com um desafio em mente: começar a série fantástica de Patrick Rothfuss e ler os dois volumes em português do famoso Mundo Sem Fim de Ken Follett. E não é que cumpri? Janeiro foi um mês rico em leitura de bandas-desenhadas. Comecei com o primeiro volume da BD Outcast de Robert Kirkman, o mesmo autor de The Walking Dead. A Darkness Surrounds Him apresenta Kyle Byrnes como protagonista, e uma narrativa sombria prenhe de possessões demoníacas e histórias de vida dramáticas e violentas. Muito diferente da história de mortos-vivos, a mais conhecida de Kirkman, agradou-me acima de tudo pela forma como toda a temática é explorada de forma fluída e misteriosa. Também li o mais recente volume de The Walking Dead, a edição 27. The Whisperer War mostrou ser apenas a primeira batalha entre as comunidades e os Sussurradores. O exército de Rick, liderado por Dwight e com Negan na linha da frente, vence o primeiro round. No entanto, Hilltop é completamente destruída e a muito custo Maggie, Carl, Aaron e Jesus conseguem derrotar os seus inimigos. Mais um volume genial, que tem direito ao “funeral” de Lucille.

sem-tituloAinda nos primeiros dias de janeiro li o conto de Anton Tchekov Inimigos, uma história tão curta que não achei necessidade de escrever uma opinião. Fala sobre Varka, uma jovem criada cuja tarefa de adormecer um bebé faz-lhe crescer uma intensa sensação de sonolência, que é incapaz de dominar. Li ainda, de uma assentada, o que faltava da coleção Sandman (Vol. 5, Vol. 6, Vol. 7, Vol. 8, Vol. 9, Vol. 10, Vol. 11) de Neil Gaiman, publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público. Entremeando histórias soltas com uma linha narrativa central, Gaiman soube tecer toda a narrativa nos últimos volumes, que trouxeram inúmeras reflexões e uma sensação de renovação e esperança ao leitor. Apesar disso, Sandman não me apaixonou em nenhum momento e, por muito mérito que tenha, soou-me muito a “eterna promessa” e a histórias vagas.

sem-tituloDividido em Portugal em dois volumes, o livro Um Mundo Sem Fim (Vol. 1 e Vol. 2) de Ken Follett agarrou-me desde o primeiro momento. Apesar de repetir a receita de Os Pilares da Terra, adorei tanto um como o outro. Histórias dramáticas de amor e superação, sobre religião, política, medicina e sobrevivência. Uma história de época que retrata o drama da Peste Negra e a Guerra dos Cem Anos. Warbreaker é um livro de Brandon Sanderson, o autor do momento no que diz respeito à literatura fantástica. Uma espada falante, cabelos que mudam de cor mediante as emoções, soldados mortos-vivos que são comandados através de palavras de ordem, a capacidade de dar vida a objetos inanimados e, principalmente, um panteão de deuses que está bem vivo e habita entre os demais. Original e muito bem escrita, esta obra de fantasia consegue também acumular bons momentos de humor e imensas reviravoltas.

sem-tituloComecei fevereiro com La Dueña: Devoradora de Homens. Da autoria de J. A. Alves, o autor de Batalha Entre Sistemas, La Dueña mostra todo o esplendor dos llanos venezuelanos e uma história tensa de superstições locais e pactos com o demónio. Chris viaja até à Venezuela com a noiva, Ana Clara, para conhecer a fazenda que herdou do seu tio Miguel, mas quando lá chega encanta-se por Yolanda, a dona da fazenda vizinha. Dizem que essa mulher rouba a alma de todos que por ela se apaixonam. Gostei imenso. Vidas Secretas de Homens Mortos, o segundo volume da graphic novel Velvet traz-nos o melhor da equipa composta por Ed Brubaker (argumento), Steve Epting (ilustração) e Elizabeth Breitweiser (cores). Uma história de espionagem tensa que prende desde o primeiro momento. Velvet é uma antiga espia que se vê atirada para o centro da ação quando o seu superior é assassinado. Neste segundo volume, ela tenta descobrir quem a tramou e porquê, depois de saber que o seu esposo não era quem ela pensava. Entre soltar um prisioneiro, fazer uma viagem de comboio alucinante e fugir a cães-pisteiros, Velvet passa por várias amarguras neste excelente segundo álbum da trilogia.

sem-tituloAutoridade é o segundo volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer. Se esta história que mistura o terror psicológico ao bizarro (o new weird fiction) me fascinou no primeiro volume ao mostrar in loco as experiências vividas por quatro exploradoras numa zona frondosa alegadamente contaminada, este segundo livro vai mais além ao apresentar-nos Control, o novo diretor da agência que as enviou, e é através dele – tão ingénuo quanto o leitor – que vamos descobrindo, nos escritórios da Extensão Sul, os terríveis segredos que a agência guarda sobre aquela região tenebrosa. Passado 100 anos antes da ação de A Guerra dos Tronos, O Cavaleiro de Westeros (versão conto de George R. R. Martin e BD com adaptação de Ben Avery e ilustrações de Mike S. Miller) narra a ação no Torneio de Vaufreixo durante o reinado de Daenor II. Sor Arlan de Pataqueira morre de uma gripe a caminho do torneio, e o seu escudeiro Dunk resolve disputá-lo. Para isso, terá de contar com a ajuda do pequeno Egg e provar ser um cavaleiro, o que o irá colocar no cerne de várias disputas e provocar uma tempestade no reinado então calmo dos Targaryen. Excelente conto muito bem escrito, enquanto a BD se destaca pelas ilustrações cativantes e coloridas.

sem-titulo-2White Sand é uma graphic novel da Dynamite Entertainment. Com argumento de Rik Hoskin, ilustrações de Julius Gopez e cores de Ross Campbell, trata-se da adaptação de uma obra não publicada de Brandon Sanderson, com base numa revisão do seu primeiro livro, ambientado no universo Cosmere. Na verdade, este volume inaugural corresponde ao primeiro terço do livro. Em Taldain, um planeta inamovível – metade vive de dia e metade de noite – conhecemos Kenton, um jovem Mestre de Areia que desafia o mundo com a sua teimosia e determinação, vendo-se arrastado para uma conspiração terrível que pode acabar com o seu povo. Apesar de ser uma obra pouco convincente a nível de credibilidade, gostei do álbum. E terminei o mês de fevereiro da melhor forma. Vinte anos depois da publicação original, a Saída de Emergência vem publicar uma versão Redux, melhorada e ampliada de Terrarium, considerado por muitos como o melhor romance de Ficção Científica português. João Barreiros e Luís Filipe Silva são os autores. Estamos num futuro não tão distante assim, em que os exóticos, várias espécies de seres extraterrestres, foram atirados para o nosso planeta por entidades superiores. Quem são as Potestades, os IXytil, e esse tal de Mr. Lux? Uma guerra entre espécies dominantes poderá ser resolvida por meros humanos? Carregado de um humor ácido e termos futuristas, Terrarium é um hino à FC, indispensável para todos os fãs do género em Portugal.

sem-tituloMarço teve também um início auspicioso. Príncipe dos Dragões é o primeiro volume de Elric, uma série de fantasia épica publicada em 1972 por Michael Moorcock. Simples em prosa e carregado de dilemas morais, Príncipe dos Dragões apresenta-nos um Império em declínio e um imperador doente, dependente de drogas para se manter forte. Melniboné é o seu domínio, abrigo de dragões e de homens terríveis. A tradição relata os melniboneanos como sádicos e perversos, mas Elric parece uma alma generosa e cortês, o que provoca chispas de ódio no seu primo Yyrkoon, que lhe pretende usurpar o trono. O braço de ferro entre Elric e Yyrkoon arrasta-se até às últimas consequências, com Cymoril, a amada de Elric, no vértice de um triângulo inconstante de amor familiar. Com argumento de Robert Rodi e ilustração de Esad Ribic, a BD Loki mostra uma outra face da história de Thor, focada no seu meio-irmão. De inspiração trágica e enaltecendo a decadência de Asgard através da queda de Odin e dos múltiplos dilemas do personagem-título, foi uma boa leitura que se destaca pelos coloridos e traços fortes.

Sem títuloPrimeiro volume de Harrow County, Assombrações Sem Fim apresenta a história desta povoação isolada no sul dos E.U.A., envolta em superstições e crendices. O povo recorria a Hester para se livrar dos seus problemas domésticos, mas quando a natureza se virou contra eles, depressa atiraram-lhe as culpas e condenaram-na à morte, sob a acusação de bruxaria. A mulher demorou a morrer e jurou regressar. Pouco tempo depois, uma criança surgiu naquele lugar fatídico. Uma brilhante BD de terror, escrita por Cullen Bunn e com arte de Tyler Crook. Brilhante álbum da série Saga, o quinto volume da space opera gráfica de Brian K. Vaughan e Fiona Staples traz uma linguagem crua e brutal, momentos de grande ritmo e ação entremeados por muito humor. A pequena Hazel começa a sua educação numa prisão galática, enquanto os pais procuram desesperadamente por ela. Vontade está de regresso, disposto a vingar a morte da irmã, e nem Gus o consegue parar. Provocante e irreverente, esta série da Image Comics está bem e recomenda-se.

sem-tituloUm Diamante Para o Além é o primeiro volume da série de BD Bouncer de Alejandro Jodorowsky e François Boucq. Publicado pelas Edições ASA em 2007, trata-se de um western subversivo, que narra de forma ficcional os acontecimentos que se sucederam à Guerra da Secessão nos E.U.A. O Capitão Raltan reúne os seus mercenários, que se recusaram a render após o final do conflito militar, espalhando o terror nos ranchos. Mas o que ele procura é um diamante, que roubara anos atrás. Na sua busca, assassina um antigo subordinado, provocando assim a atenção de um familiar daquele. Bouncer é um velho maneta, conhecido por resolver problemas de forma abrupta e imprevisível. Uma BD muito boa, da qual tinha grandes expectativas e não me surpreendeu tanto. E terminei março com O Nome do Vento. Primeiro volume da Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss, esta auto-biografia de um personagem fictício é brilhante. Desde a infância de Kvothe na trupe até aos seus estudos na Universidade, passando por várias privações como espancamentos, fome e dramas familiares, o personagem recorre à ardileza e ao poder da música para sobreviver. Somos apresentados a uma história única que fala sobre superação, música, ciência e amor. O mundo criado é original e misterioso, e os enigmas sobre o Chandrian, uma lenda que se revela real da pior forma, deliciosos. Cativante, fluído e profundo, este foi o livro que apresentou ao mundo a escrita maravilhosa de Patrick Rothfuss.

Depois deste início de ano excelente em leituras, estou a ler Poder e Vingança de Jon Skovron, o primeiro volume do Império das Tormentas, e deverei seguir com Robin Hobb, Mark Lawrence e Bernard Cornwell, pelo que o segundo semestre deve ser também ótimo. Por cá vou continuar a partilhar opiniões, espero que gostem.

White Sand #1

And with that, my father humiliates the one man in the whole of the Diem who might one day stand against him.

O texto seguinte pode conter spoilers do primeiro volume da série White Sand (Formato BD)

White Sand é o título do primeiro romance de alta fantasia escrito pelo norte-americano Brandon Sanderson. O livro nunca foi publicado, mas quando pediram ao autor uma história para ser adaptada como graphic novel, Sanderson foi buscá-lo à gaveta e reescreveu-o, melhorando a trama de modo a que esta fosse publicável.

A Dynamite Entertainment transformou o primeiro terço do livro na primeira de três graphic novels, que compreendem o livro na íntegra. O volume inaugural da trilogia White Sand foi publicado em junho de 2016, com adaptação de Rik Hoskin, ilustrações de Julius Gopez e cores de Ross Campbell. Os restantes dois volumes ainda não foram publicados, e a história só está disponível em inglês e em formato gráfico.

Ainda que o formato seja completamente diferente do que os fãs de Brandon Sanderson estão acostumados, os ingredientes são os mesmos. O planeta em que este livro se passa pertence ao universo partilhado pelas séries Mistborn, Elantris, Warbreaker e The Stormlight Archive, a Cosmere. Existem, porém, diferenças substanciais no ambiente deste shardworld (fragmento de mundo), nomenclatura atribuída aos planetas deste universo.

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Imagem Dynamite

Enquadramento social e geográfico

Taldain é o shardworld de White Sand. Se Mistborn e Warbreaker apresentam planetas mais semelhantes à nossa Terra, esta história apresenta um planeta dividido. Uma vez que ele é inamovível, numa das suas metades é sempre de dia e na outra é sempre de noite. Isso divide este mundo em Dayside e Nightside. Como parece evidente, cada metade conta com as suas características únicas e especiais, e como é apanágio do autor do Nebraska, o mundo conta com um sistema de magia peculiar.

Neste primeiro volume, pouco nos é revelado sobre a História de Taldain. As mais importantes nações do Dayside são Kerzta, Kerla e Lossand. No Dayside há os Mestres de Areia, sujeitos de vestes brancas que vivem em comunidade pelos desertos, onde treinam e melhoram as suas práticas mágicas. Voar, invocar tempestades ou mover objetos com a mente são capacidades que lhes são atribuídas. Estes Mestres de Areia possuem, no entanto, uma sede localizada nas imediações da cidade de Kezare, em Lossand, chamada de Diem. O mesmo nome que é atribuído à guilda dos Mestres de Areia.

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Capa Dynamite

Os Mestres de Areia possuem uma hierarquia, encabeçada pelo mastrell, que possui a faixa dourada, seguido por várias posições inferiores, cada uma com a sua cor, até ao acolent, que possui a faixa branca. As crianças que pretendem iniciar a sua formação para se tornarem Mestres da Areia são obrigadas a passar por exigentes provações e exames, e só os mais talentosos são admitidos. Uma vez que se tornou um acolent, o aprendiz tem um treino de quatro anos até poder alistar-se numa das sete fileiras permanentes, de acordo com a autorização do mastrell.

Por sua vez, o Nightside permanece um grande mistério. A sua estrutura social rege-se por uma espécie de feudos ou ducados, pertencentes ao grandioso Império Dynasty. Os seus habitantes têm pele escura e usam armas de fogo como revólveres ou bacamartes, graças à descoberta da pólvora nessa metade do planeta, o que desmascara uma clara evolução em relação à zona diurna.

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Prancha Dynamite

O sistema de magia e a religião

Num mundo habitado por espécies distintas e inusitadas, cada cultura contém os seus credos e ritos próprios. Os Mestres de Areia veneram o Senhor da Areia, o deus mais influente do Dayside, mas nem todos os povos “diurnos” o adoram e existem mesmo outras interpretações da sua fé. Os kerztianos seguem uma doutrina chamada Filosofia Ker’Reen, na qual o Senhor da Areia manifesta-se através do sol, e qualificam o domínio das areias como heresia, o que provocou uma guerra antiga entre Kerzta e Lossand.

O sistema de magia utilizado em White Sand é exatamente o domínio das areias. Os Mestres de Areia conseguem controlar fitas de areia, para se defender ou atacar, com recurso à água do seu próprio corpo, daí que a água seja um elemento essencial na sua cultura e nutrição. O domínio excessivo da areia pode, porém, conduzi-los à desidratação. Deste modo, a água desempenha o papel de combustível que o metal possui na série Mistborn e o breath em Warbreaker, outras obras de Sanderson.

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Imagem Dynamite

Lossand possui um conselho de guildas chamado Taishin, composto por oito representantes das Profissões de Lossand. O Lord Mastrell, que representa o líder dos Mestres de Areia, e Lady Judge, que representa a Justiça, são os mais importantes. Eles governam a nação de uma forma férrea e conservadora.

No que diz respeito aos kerztianos, eles também possuem um grupo social semelhante às Profissões de Lossand, o grupo DaiKeen, que professa a Filosofia Ker’Reen. Tradicionalmente, são divididos entre sacerdotes, guerreiros e comerciantes. O clero é liderado pelo a’kar – o sumo sacerdote – e os seus membros possuem cicatrizes na testa de forma quadrangular, enquanto os guerreiros exibem cicatrizes em forma de X. Surgem, no entanto, evidências de um quarto “ofício” entre os Daikeen – o sacerdote-guerreiro – , uma vez que alguns kerztianos exibem cicatrizes que misturam o X com o quadrado.

Here on Dayside the sun is king. Ker’Reen Philosophy, the religion of Kerztians, calls the sun the manifestation of the Sand Lord, the source of man’s autonomy and independence.

A história de Kenton

Kenton é o protagonista de White Sand. Ele é o filho mais novo do mastrell Praxton, líder de uma comunidade de Mestres de Areia. É fruto de uma relação deste com uma mulher darksider, como denunciam as feições morenas do rapaz. Nove dos seus irmãos revelaram talento para o domínio da areia e subiram na hierarquia, mas Kenton nunca mostrou controlo sobre as fitas de areia. Ainda assim, sempre foi teimoso e bom em argumentos, e recitando a Lei conseguiu ingressar no Diem como acolent.

Nessa posição, foi influenciado a subir à posição de underfen, o grau acima, mas seria uma posição estática, sem possibilidade de ascender na hierarquia, e Kenton acredita poder revelar-se talentoso como Mestre de Areia. Nesse sentido, compromete-se a seguir o Mastrell’s Path, um caminho tortuoso de grande exigência física e mental, para provar que conseguirá tornar-se um mastrell.

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Exemplar White Sand (pinterest)

Ainda que ninguém acredite que ele consiga concluir o caminho, Kenton não só alcança as esferas, como enfrenta o guardião final, um monstro das areias. Nesse despique, o rapaz mata a criatura, o que se revela uma grande façanha e culmina com o desaparecimento do Mastrell’s Path para sempre.

O evento surpreende toda a comunidade, mas Praxton não parece satisfeito, uma vez que sempre desdenhou daquele filho. Oferece-lhe uma vez mais a posição de underfen, mas é obrigado, pela dimensão da façanha, a atribuir-lhe o título de mastrell, contra a sua vontade. De um momento para o outro, Kenton passa de besta a bestial, mas poucos parecem satisfeitos com isso.

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Ais, Aarik, Kenton, Drile, Khriss e Baon (botanicaxu em pinterest)

A queda dos Mestres

Centenas de Mestres de Areia são convocados para a cerimónia que oficializa Kenton como novo mastrell. Na cerimónia, todos os mastrell seguem o protocolo de beber um cálice de água, mas Drile recusa-se a beber. Drile é um rapaz da mesma idade de Kenton, que já fora mastrell, mas tornou-se o primeiro a retroceder em estatuto, por alegadamente oferecer domínio de areia e homens a troco de pagamento. Durante a celebração, os Mestres de Areia são atacados por um exército de guerreiros kerztianos e o combate é desfavorável aos Mestres de Areia de uma forma assustadora. Mais tarde, Kenton julga que Drile possa ter traído o seu povo, colocando alguma espécie de veneno ou inibidor na água que fora servida, o único argumento que justifica que os kerztianos tenham conseguido vencer os Mestres, conhecidos pela sua perícia no domínio da areia, o que sugere fortemente uma cabala entre Drile e os DaiKeeni.

Naquele momento, porém, Kenton vê o pai morrer, assim como centenas de semelhantes. A hecatombe dos Mestres é esmagadora. Gravemente ferido e desidratado, Kenton perde a consciência. Quando acorda, encontra um grupo de pessoas de pele escura à sua volta. Darksiders. Kenton compreende o seu idioma, mas não o revela de imediato, até perceber que estes não constituem uma ameaça clara. O grupo é liderado por uma mulher chamada Khrissalla, uma duquesa jovem de aspeto refinado e educação académica, acompanhada por um homem de forte constituição chamado Baon, um antropólogo chamado Jon Acron e um linguista de seu nome Cynder. Ao perceberem que ele os compreende, Khriss convida-o para ser o seu guia, ao que ele acede, sem nunca revelar ser um Mestre de Areia.

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Imagem Dynamite

Usando armas de fogo e montados em equídeos coriáceos, os darksiders são misteriosos, mas parecem mais eruditos que ameaçadores. À medida que Kenton lhes apresenta a cultura kerztiana, ele tenta compreender as suas intenções. A duquesa Khriss revela ter vindo de Elis, porque acredita que o príncipe Gevaldin foi morto. Por alguma razão, ela pretende seguir com o seu propósito – encontrar os Mestres de Areia – sem que revele os seus motivos. Kenton, que julga ser um dos últimos, senão o último, continua a esconder a verdade sobre a sua identidade. Ainda assim, um objetivo molda-se na sua mente: rumar a Lossand para reclamar o posto de Lord Mastrell e procurar vingança ao massacre que vitimou o seu povo.

A tarefa, porém, revela-se mais difícil do que poderia supor e várias forças parecem convergir para o embargar. Kenton, porém, sempre se mostrou conhecedor das leis, teimoso e cheio de lábia. As várias surpresas e contrariedades em que tropeça não o impedem de seguir os seus propósitos.

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Kenton e Khriss (17thshard)
SINOPSE:

A brand new saga of magic and adventure by #1 New York Times best-selling author Brandon Sanderson.
On the planet of Taldain, the legendary Sand Masters harness arcane powers to manipulate sand in spectacular ways. But when they are slaughtered in a sinister conspiracy, the weakest of their number, Kenton, believes himself to be the only survivor. With enemies closing in on all sides, Kenton forges an unlikely partnership with Khriss — a mysterious Darksider who hides secrets of her own.
White Sand brings to life a crucial, unpublished part of Brandon Sanderson s sprawling Cosmere universe. The story has been adapted by Rik Hoskin (Mercy Thompson), with art by Julius Gopez and colors by Ross Campbell. Employing powerful imagery and Sanderson s celebrated approach to magical systems, White Sand is a spectacular new saga for lovers of fantasy and adventure.

OPINIÃO:

A Cosmere chegou às graphic novels. Depois de ter conquistado o mundo da fantasia com os seus worldbuildings e sistemas de magia originais, Brandon Sanderson vem agora apresentar-nos Taldain, o primeiro planeta deste universo expandido, nunca antes conhecido pelos leitores. Culturas ricas e variegadas, carregadas de histórias, odores e sensações, magias únicas, chichés invertidos e plot-twists geniais são os ingredientes de sucesso deste autor norte-americano. White Sand não é exceção.

Depois de já ter piscado o olho a este livro na Feira do Livro do Porto e no Fórum Fantástico em Lisboa, acabei por ter acesso a ele numa fase em que Brandon Sanderson ganhou um lugar importante na minha lista de referências. Apesar de achar que as auto-proclamadas Leis de Sanderson já são praticadas há muito por escritores melhores, de lhe faltar mais palpabilidade nos mundos criados e algum lirismo literário, este autor cativa pela inovação constante e pelo ritmo de escrita.

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Prancha Dynamite

White Sand é uma graphic novel bem estruturada, conseguindo intervalar várias informações importantes para o enriquecimento do mundo apresentado com sequências de ação interessantes. Gostei praticamente de tudo o que foi difundido, dos personagens às várias culturas, todo o ambiente é muito “a minha praia” e a própria história bastante promissora. As inovações a nível de mundo são agradáveis. O planeta não se move. Metade vive sempre de dia. Metade sempre de noite. Conhecemos uma criatura das areias que lembra os vermes da saga Duna, “cavalos” esverdeados com protuberâncias ósseas pelo corpo, uma cultura mais erudita com recurso à pólvora, um ataque em massa de monges-guerreiros e uma traição. Motivos mais do que suficientes para me fazer apaixonar pela história.

Este é, no entanto, apenas o primeiro volume de uma trilogia, e compreende apenas o terço inicial do livro escrito por Brandon Sanderson. Por isso, é natural que muito esteja ainda por explorar e terminemos este volume com algumas dúvidas. Espero que algumas incongruências sejam sanadas nos álbuns seguintes. Muito embora a mensagem passada seja elogiável – Kenton nunca desiste dos seus objetivos e tem na teimosia o seu trunfo para conseguir ser o que deseja – foi um pouco displicente a rapidez com que fizeram o personagem passar de um zero à esquerda para o Mestre de Areia mais talentoso. Explicações para isso? Espero pelo próximo volume.

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Prancha Dynamite

Fiquei surpreendido com algumas questões que ficaram por explicar. Não percebo como é que o povo que vive do lado do dia tem a pele branca e os que vivem no lado da noite têm a pele escura, e como é que Kenton, sendo desprezado por todos desde tão novo, tem tantos conhecimentos sobre leis. Dividir a história em três volumes publicados com tanto tempo de distância pareceu-me um erro.

Ficamos a conhecer pouquíssimo sobre uma das protagonistas, Khriss (embora saiba que ela também entra nos livros de Sanderson Mistborn Era 2: The Bands of Mourning e Mistborn: Secret History, onde são reveladas muitas surpresas sobre ela). A duquesa é, ainda assim, uma das personagens que mais gostei. Houve outras, como Ais ou Aarik que tiveram meras aparições, embora parecesse que estavam já a meio de uma história que ficou por contar. Ao contrário de outras obras de Sanderson, mais originais, esta história parece ter sido influenciada largamente, em alguns momentos, por Duna de Frank Herbert, e segundo consta, também a história de Kenton parece um eco de A Roda do Tempo. De qualquer forma, essa questão não me incomodou.

A escrita de Rik Hoskin cumpriu, e embora não conheça o argumento original de Sanderson, pode-se dizer que a informação só falhou nas questões supracitadas. Já no que diz respeito à ilustração, o trabalho de Julius Gopez deixa-me algumas dúvidas. Em várias camadas de cores amareladas, entre o branco e o bege, o lápis de Gopez pareceu algo turvo, mas acabou por deixar os personagens bem reconhecíveis. Foi o casamento com essas mesmas cores, no entanto, que me encheu o olho. As tonalidades quentes coadunaram-se com o ambiente apresentado.

Este é um livro que não tomo como exemplo para o trabalho de Brandon Sanderson, nem recomendo para os virgens no género. Trata-se de uma pequena parcela da adaptação de um trabalho que sofreu alterações durante os últimos vinte anos. Mas que é uma bela adição ao universo Cosmere, lá isso é.

Avaliação: 7/10

Cosmere:

Mistborn Era 1 (Saída de Emergência):

#1 O Império Final

#2 O Poço da Ascensão

#3 O Herói das Eras Parte 1

#4 O Herói das Eras Parte 2

Warbreaker:

#1 Warbreaker

White Sand (Dynamite):

#1 White Sand Volume 1