Estive a Ler: The Emperor’s Soul

“Her aunt Sol had once told Shai to smile at the worst insults and snap at the minor ones. That way, no man would know your heart.”

O texto seguinte aborda a novella The Emperor’s Soul

O quê? Vamos começar o ano a falar de Sanderson? Parece-me que sim. The Emperor’s Soul é uma novella do autor norte-americano, publicada em 2012 pela Tachyon Publications e, posteriormente, incluída na coletânea Arcanum Unbounded: The Cosmere Collection, que inclui outros trabalhos do autor. Em 2013, venceu o Hugo Award para Melhor Novella.

A ação de The Emperor’s Soul é passada no shardworld de Sel, o mesmo planeta onde ocorrem os eventos do livro Elantris, embora tanto o sistema de magia como a política vigentes sejam muito diferentes. No entanto, permitam-me assegurar-vos que ambos são deliciosos para o bom apreciador de literatura fantástica.

Brandon Sanderson não é dos meus autores preferidos; falta-lhe maior maturidade literária e aquilo que gosto de chamar de “senso de credibilidade” para entrar no topo das minhas preferências, mas tanto as extravagâncias do seu universo compartilhado, a Cosmere, como a riqueza de plot-twists e originalidade do autor vêm cimentá-lo, a pouco e pouco, como um dos nomes maiores da literatura fantástica deste século. Quando me são solicitadas recomendações, Sanderson é um dos primeiros nomes que me vêm à mente.

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Fonte: http://www.17thshard.com/forum/topic/24294-sanderson-memes/?page=69

Querem saber do que se trata The Emperor’s Soul?

Num ambiente de inspiração chinesa, o Império é ameaçado com as exigências dos insurgentes e com a forte oposição das facções separatistas. Uma das ações rebeldes atentou contra a vida do Imperador Ashravan, e muito embora ele tenha sobrevivido, as sequelas foram terríveis. A esposa do Imperador faleceu. Ele, danificado mentalmente pelos adversários, permanece vegetativo na sua alcova, enquanto os seus Árbitros cantam ao mundo que ele se encontra de luto pela esposa. O luto, porém, não durará para sempre.

“Os personagens têm um grande potencial, assim como as relações estabelecidas na narrativa.

É aqui que entra Shai. A protagonista da história é uma jovem Forger. A Forgery é o sistema de magia apresentado. Imaginem a arte de reproduzir peças de arte. É necessário um molde, assim como conhecer na perfeição o objeto a reproduzir. É um pouco assim que funciona a Forgery… mas este sistema de magia não só serve para reproduzir obras de arte, como também qualquer objeto ou… almas humanas. Até porque, segundo a protagonista, todas as coisas têm alma.

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Fonte: https://www.amazon.co.uk/Emperors-Soul-Elantris-Book-ebook/dp/B00A1XOPE8

Shai invade o palácio do Imperador para roubar um artefacto antigo e substituí-lo por uma reprodução idêntica, mas é apanhada e colocada atrás das grades. Muito embora o Império considere a Forgery uma abominação, não vêm outra alternativa para recuperar o seu Imperador. Então, através de uma série de recursos, inclusive um outro sistema de magia chamado Bloodseal, conseguem manter Shai reclusa e em seu poder. Dando-lhe para as mãos os diários do Imperador, dão-lhe 98 dias para replicar a mente de Ashravan e recuperá-lo para o mundo.

Muito embora sinta alguma empatia para com o velho Gaotona, o árbitro que a ajuda a forjar a “nova” alma, Shai acredita que irão matá-la, consiga ou não terminar a tarefa a tempo. Por isso, ao mesmo tempo que conhece, a pouco e pouco, os meandros de Ashravan, Shai vai pensando como fugir com vida do seu cativeiro. Para isso, terá de lidar com a extração de sangue do seu corpo, e com a guarda armada que a vigia, encabeçada pelo capitão Zu.

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Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/13578175-the-emperor-s-soul

O que dizer então? A novella está muito bem escrita, o sistema de magia muito bem explicado, os personagens são riquíssimos. The Emperor’s Soul foi uma leitura excelente, como já adivinhava que seria. Na verdade, foi mesmo para começar 2018 em bom que escolhi esta como a primeira leitura do ano. A Cosmere é um universo que me fascina cada vez mais, e Sanderson, embora use sempre um esqueleto similar, acaba por reinventar-se a cada história.

“A Forgery é mais um sistema de magia a juntar às criações super originais de Brandon Sanderson.

Acho que esta podia ser um pouco maior ou mesmo ter sequências. Os personagens têm um grande potencial, assim como as relações estabelecidas na narrativa. A empatia de Shai para com Gaotona, e sobretudo para com Ashravan, pedem isso. Muito ficou por ver das relações que poderiam advir entre eles, até porque são personagens que, desenvolvidos, marcariam seguramente mais do que já o fizeram. Que, para mim, já foi bastante.

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Fonte: http://www.17thshard.com/forum/gallery/image/683-tes-shai/

A Forgery é mais um sistema de magia a juntar às criações super originais de Brandon Sanderson. O autor teve a ideia ao observar uma técnica de esculpir carimbos chineses num museu em Taiwan, e resultou. Esta novella tem mais uma história cheia de potencial e gostaria de ver, num futuro breve, uma correlação entre a história de The Emperor’s Soul e a de Elantris, uma vez que ocorrem no mesmo mundo.

Avaliação: 8/10

Cosmere:

Mistborn Era 1 (Saída de Emergência):

#1 O Império Final

#2 O Poço da Ascensão

#3 O Herói das Eras Parte 1

#4 O Herói das Eras Parte 2

Warbreaker:

#1 Warbreaker

White Sand (Dynamite):

#1 White Sand Volume 1

Elantris (Leya):

#1 Elantris

#* The Emperor’s Soul

Mulheres Perigosas (Saída de Emergência)

#* Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno

(*) conto ou novella

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Resumo Trimestral de Leituras #12

O ano de 2017 chegou ao fim com 96 leituras no seu total, entre livros, BDs e contos avulsos. Foram em geral ótimas leituras, cujas opiniões podes consultar na minha lista anual, assim como podes conferir os Prémios NDZ atribuídos em As Escolhas de 2017. Este último trimestre foi maravilhoso, com três ou quatro leituras a destacarem-se em cada mês. Robin Hobb, Neil Gaiman, Brandon Sanderson, Dan Brown, Brent Weeks e Steven Erikson são os autores que merecem o maior relevo. As antologias e coletâneas também tiveram o seu tempo, e participei ainda de um ciclo de leituras em torno dos contos de Robert E. Howard. Fica com o meu balanço do último trimestre do ano:

Mitologia Nórdica – Neil Gaiman

Elantris, Elantris #1 – Brandon Sanderson

Maçãs Podres, Tony Chu: Detective Canibal #7 – John Layman e Rob Guillory

A Espada do Destino, The Witcher #2 – Andrzej Sapkowski

Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe – Edgar Allan Poe

Mulheres Perigosas – Vários Autores

A Torre do Elefante – Robert E. Howard

Origem – Dan Brown

Solomon Kane – Robert E. Howard

Liberdade e Revolução, Império das Tormentas #2 – Jon Skovron

Nocturno – Tony Sandoval

O Deus no Sarcófago – Robert E. Howard

O Assassino do Bobo, Saga Assassino e o Bobo #1 – Robin Hobb

O Acto de Fausto, The Witched + The Divine #1 – Kieron Gillen e Jamie McKelvie

Os Portões da Casa dos Mortos, Saga do Império Malazano #2 Parte 1 – Steven Erikson

Caminho das Sombras, Anjo da Noite #1 – Brent Weeks

Patifes na Casa – Robert E. Howard

Uma Pequena Luz, Outcast #3 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

À Margem das Sombras, Anjo da Noite #2 – Brent Weeks

Saga Vol. 7 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Deuses Americanos – Neil Gaiman

A Filha do Gigante de Gelo – Robert E. Howard

Mission in the Dark, The Dark Sea War Chronicles #2 – Bruno Martins Soares

Lines We Cross, The Walking Dead #29 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

A Rainha da Costa Negra – Robert E. Howard

Sem TítuloComecei outubro com Mitologia Nórdica da Editorial Presença, livro adquirido no Fórum Fantástico deste ano. Uma homenagem de Neil Gaiman à mitologia que tanto inspira as suas obras, o livro é de leitura fácil e conta a versão suave e bem-humorada do autor britânico sobre a história de Thor, Odin, Loki e companhia, desde a criação dos mundos até ao tão temido Ragnarok. Um dos livros que mais gostei de ler do escritor, que prima sobretudo pela simplicidade da composição. O primeiro livro publicado por Brandon Sanderson, Elantris revela algumas deficiências a nível estrutural e, sobretudo, alguma inexperiência na forma como resolveu as situações finais do livro, recorrendo a forças inexplicáveis para “salvar o dia”. Ainda assim, adorei. A forma como Sanderson nos apresenta Raoden, Sarene e Hrathen e os desenvolve é simplesmente genial. Um príncipe que se transforma, da noite para o dia, num morto-vivo, uma princesa prometida que chega ao reino do noivo e descobre que ele morreu e um sacerdote de armadura vermelha destinado a converter um povo à doutrina dos seus superiores são os personagens centrais de uma história envolvente e encantadora com um ritmo cada vez mais entusiasmante a cada virar de página. Foi publicado no Brasil pela Leya.

Sem títuloO sétimo volume de Tony Chu: Detective Canibal, intitulado Maçãs Podres, continua a boa senda da BD publicada em Portugal pela G Floy. Agora que nos adentramos pela segunda metade da série, as aventuras do detective mais irreverente das BDs tendem a dispersar-se, mas vários caminhos entrecruzam-se e a morte da sua irmã gémea é o mote para mais um álbum hilariante, em que tudo (ou nada) pode acontecer. De pessoas que adquirem a expressão facial daquilo que comem a um menage a trois inusitado protagonizado pelo colega ciborgue do protagonista, Maçãs Podres é mais uma prova do talento de John Layman, argumentista que esteve no último fim-de-semana de outubro no Festival de BD da Amadora. Já o segundo volume da saga The Witcher de Andrzej Sapkowski, A Espada do Destino trouxe seis contos passados no mundo de Geralt de Rivia, servindo também de prólogo para a saga que será iniciada no terceiro volume. Alguns contos têm ideias muito boas, como o divertido “O Fogo Eterno”, em que o ananico Biberveldt descobre que um doppler adquiriu a sua forma e anda a fazer negócios em seu nome, ou os últimos dois, que nos apresentam a excelente personagem Ciri, uma menina cujo destino está entrelaçado ao de Geralt. Ainda assim, a prosa de Sapkowski não me convenceu como havia feito no primeiro volume, achei os diálogos excessivos e sem conteúdo, e sobretudo pareceu-me um livro infantil com muitos palavrões para parecer adulto. Tem qualidade, mas foi uma leitura bem mediana a meu ver.

Sem título28 dos melhores contos de Edgar Allan Poe coligidos numa edição maravilhosa em capa dura e ilustrada por 28 artistas nacionais, Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe foram uma prenda da Edições Saída de Emergência para todos os leitores. E se a edição é lindíssima, os contos fazem-lhe justiça. Poe foi um autor único e o precursor de vários géneros, como o policial e o horror e até contribuiu para o ascender da ficção científica, com uma escrita intimista capaz de mexer com os medos mais primários do leitor. Alguns contos são melhores do que outros, mas destaco “Os Crimes da Rua Morgue”, “A Queda da Casa de Usher” e “O Coração Delator” como os meus preferidos. Também publicada pela Saída de Emergência, Mulheres Perigosas foi uma antologia organizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois, incluindo contos de Joe Abercrombie, Brandon Sanderson, Melinda M. Snodgrass e Megan Abbott, entre outros. Muito embora explore vários géneros, o que certamente fará os leitores preferir uns em detrimento de outros, os contos que mais me agradaram foram “Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno”, ambientado no universo Cosmere de Brandon Sanderson, “Dar Nome à Fera” de Sam Sykes e “A Princesa e a Rainha ou Os Negros e os Verdes” de George R. R. Martin, passado no mundo de Westeros.

Sem títuloIniciei um ciclo de leituras em torno de Robert E. Howard, um dos meus autores de eleição. Em A Torre do Elefante, o conquistador Conan entra em litígio com um malfeitor numa taberna, acabando por salvar uma aristocrata da escravidão. O cimério persegue um tesouro escondido na icónica Torre do Elefante, aliando-se a ladrões e enfrentando monstros terríveis para o alcançar. Dono de uma prosa maravilhosa, Howard volta a brilhar neste conto, que já havia lido inicialmente na coletânea A Rainha da Costa Negra da Saída de Emergência. Terminei o mês de outubro a ler o mais recente livro de Dan Brown, mas só consegui escrever a opinião no início de novembro. Origem, publicado em Portugal pela Bertrand, foi o livro de Brown que menos gostei, mas não posso dizer que tenha desiludido. Seguindo os ingredientes clássicos que lhe deram sucesso, Dan Brown coloca Robert Langdon numa corrida pela sobrevivência, desta vez com menos códigos ligados à Antiguidade e mais virado para o futuro e para as tecnologias. Mais fraco que os outros livros da série, valeu sobretudo pela ação dentro da Basílica da Sagrada Família, em Barcelona.

Sem TítuloContinuando a leitura dos velhos clássicos de Robert E. Howard, decidi-me a ler na versão italiana a coletânea de contos, poemas e fragmentos póstumos protagonizados por Solomon Kane, o puritano inglês que enfrenta homens e monstruosidades para fazer justiça com as próprias mãos. Com um sentido de moral muito profundo, as aventuras de Solomon Kane revelam Howard na sua melhor forma e escondem várias peculiaridades do pensamento da época. Publicado pela Saída de Emergência no início do mês, Liberdade e Revolução é o segundo volume da trilogia Império das Tormentas de Jon Skovron. Enquanto Ruivo se encontra confinado à cidade de Pico da Pedra, onde se tornou o melhor amigo do príncipe, Esperança Sombria tornou-se uma temível pirata, tentando ganhar nome e prestígio para, finalmente, enfrentar os biomantes e resgatar o seu amado. A história melhorou em relação ao primeiro volume, parecendo mais madura e mais fluída, com algumas adições deliciosas, como Merivale Hempist, Vassoura ou o Senhor Chapeleira.

Sem TítuloPelas mãos da Kingpin Books chegou-me o livro Nocturno de Tony Sandoval. De tons fortes e negros e desenhos adoráveis, ela traz-nos a história de um cantor rock perseguido pelo fantasma do seu pai que, depois de ser espancado e dado como morto, se transfigura como um justiceiro. Gostei bastante do conteúdo e da forma como foi apresentado, assim como da arte incrível do autor mexicano, mais do que podia adivinhar da premissa. O Deus no Sarcófago é um conto de Robert E. Howard que incluí no ciclo de leituras em redor do escritor norte-americano. Ele conta como Conan se infiltrou num templo nemédio para roubar e acabou sendo acusado do homicídio do conservador do museu, ao mesmo tempo que um mal de outras eras desperta. Policial, thriller, horror e aventura permeiam uma das histórias de Howard que mais me encantaram, um pouco por não esperar ver Conan metido numa aura de Agatha Christie.

Sem títuloPrimeiro volume da terceira trilogia de Robin Hobb focada em FitzCavalaria Visionário, O Assassino do Bobo é uma sequência incrível de acontecimentos surpreendentes. Passado maioritariamente nas propriedades de Floresta Mirrada, pertences a Urtiga e que Fitz e Moli gerem com amor, este novo livro de Hobb mantém a toada lenta e perscrutadora dos anteriores volumes, de uma forma que em vez de entediar, delicia. Constantemente a surpreender-me, este livro de Robin Hobb trouxe momentos de ação, amor, amizade, reencontros, lutas, paixões e mortes e foi, seguramente, o melhor livro que li este ano. Uma das mais recentes surpresas da G Floy Studio, O Acto de Fausto é o primeiro volume de The Wicked + The Divine, mais uma das grandes séries publicadas pela Image Comics a chegar ao nosso país. Escrita por Kieron Gillen e ilustrada por Jamie McKelvie, este volume inaugural apresenta Laura, uma rapariga normal que se envolve com os deuses do Panteão. Trata-se de um grupo de doze pessoas que descobrem ser a reencarnação de deuses. Essa descoberta garante-lhes fama e poderes sobrenaturais, com a condição de que morrerão em dois anos. Apesar de não ser grande apreciador de fantasia urbana, esta é mais uma série a seguir.

Sem TítuloComecei dezembro com Os Portões da Casa dos Mortos de Steven Erikson. Publicado pela Saída de Emergência, o segundo volume da Saga do Império Malazano foi dividido em duas partes. Nesta primeira metade, deixamos a ação em Genabackis e acompanhamos a viagem de Violinista, Kalam, Apsalar e Crokus até ao continente das Sete Cidades, onde uma profecia está no cerne de um movimento rebelde às forças da Imperatriz Laseen. Acompanhamos também a jornada de Duiker, um historiador, Coltaine, um comandante intrépido, e a jovem Felisin, uma exilada. Morte e desolação seguem os passos de todos estes personagens, à medida que nos vamos envolvendo num novelo de conspiração em que a guerra e o sobrenatural se misturam. O mundo é incrível e a escrita de Erikson maravilhosa, mas não senti qualquer empatia pelos personagens, pelo que espero que a segunda parte me prenda mais. Primeiro volume da série Anjo da Noite de Brent Weeks, Caminho das Sombras é um livro de fantasia que segue os passos de um menino órfão chamado Azoth, que vive nas Tocas da cidade de Cenária. Certo dia, ele testemunha um massacre e fica obcecado com a ideia de tornar-se como o assassino, Durzo Blint. Com uma premissa muito interessante e uma escrita boa, achei Caminho das Sombras um livro mediano. As cenas foram expectáveis e o leque imenso de personagens tornou a narrativa um tanto ou quanto confusa. Ainda assim, para quem gosta de livros inebriantes e cheios de ritmo, fica a indicação. O livro foi publicado no Brasil pela Arqueiro.

Sem títuloO ciclo de leituras em torno de Robert E. Howard prossegue, desta feita com o conto Patifes na Casa. Não é dos contos protagonizados por Conan que mais me fascinaram, mas ainda assim proporcionou alguns bons momentos de suspense, ação e aventura, condimentados com uns salpicos de intriga política. A história ocorre numa cidade-estado entre Zamora e Corinthia durante uma aparente luta de poder entre dois líderes poderosos: Murilo, um aristocrata, e Nabonidus, o Sacerdote Vermelho, um clérigo com uma forte base de poder. Depois de o sacerdote o ameaçar com uma orelha cortada, Murilo ouve falar da reputação de Conan como mercenário e decide pedir-lhe ajuda. Pelas mãos da G Floy chegou até nós Uma Pequena Luz, terceiro volume de Outcast. Robert Kirkman volta a surpreender com a história de Kyle Barnes, um homem que desde a infância vê a família ser possuída por demónios. Com a ajuda de um padre, tenta descobrir a razão destas manifestações sobrenaturais e porque aparenta ter poderes especiais sobre elas. Uma Pequena Luz é um volume sólido e expansivo, cada vez mais à altura do seu próprio autor, para quem as provas dadas são “que baste” para o idolatrar. Já a arte de Paul Azaceta tem vindo a melhorar. Confesso que gosto das suas ilustrações desde o primeiro volume, mas está longe de ser dos meus artistas favoritos no género. Ainda assim, grande parte da qualidade do seu trabalho está na pintura.

Sem TítuloContinuando a série Anjo da Noite de Brent Weeks, li À Margem das Sombras, publicado no Brasil pela editora Arqueiro. Se achei o primeiro volume mediano, este segundo foi francamente bom. A escrita fluída e rica é uma das maiores virtudes de Weeks. Os diálogos estão cheios de humor e sarcasmo, as descrições de batalhas, movimentos e ambientes, incríveis. O set é absolutamente apelativo. Os dedos das mãos não chegam para nomear as frases de efeito. Se À Margem das Sombras fosse um filme, seria um blockbuster. Confesso que preferi a primeira metade, mais lenta e verosímil, que a segunda, cheia de volte-faces e ritmo elevado. Mas o que dizer daquele final? O cliffhanger é de deixar qualquer um a babar pelo terceiro volume. Perto de alcançar a publicação norte-americana, o 7.º volume de Saga foi, provavelmente, um dos melhores até agora. Subversivo e original, o argumento de Brian K. Vaughan convence e a arte de Fiona Staples é um espetáculo à parte. Aliando o bom humor às cenas mais chocantes de mortes e sexo, a história é contada por uma criança fruto de uma família disfuncional resultante do choque entre duas culturas distintas. Perdidos num cometa, os protagonistas da space opera vão ter de lidar com os mais diversos problemas.

Sem TítuloUma das obras mais aclamadas de Neil Gaiman, Deuses Americanos foi recentemente adaptado a uma série de TV pela Starz. Publicado em Portugal pela Editorial Presença, a obra fala de uma luta entre os deuses antigos e os novos. Sombra é um homem que sai da prisão após cumprir uma pena, quando sabe que a esposa faleceu. Durante o voo de regresso a casa, cruza-se com um senhor que diz chamar-se Quarta-Feira, e que o conduz numa espiral alucinante de acontecimentos. Gostei do livro, mas pareceu-me bastante superestimado, com uma narrativa em forma de road trip, densa e um pouco entediante, que podia ser contada como um conto. Continuando a revista aos contos de Robert E. Howard, li A Filha do Gigante de Gelo e foi um dos contos de Conan de que menos gostei. O herói cimério encontra-se num cenário de morte após uma batalha e vê uma bela mulher semi-nua, que o ofende e foge. Conan persegue-a para descobrir ser alvo de uma armadilha… sobrenatural. Segundo volume da trilogia de ficção científica The Dark Sea War Chronicles de Bruno Martins Soares, Mission in the Dark está disponível em inglês, na Amazon. Byllard Iddo continua a sua senda de sabotagem aos Barcos Silenciosos da República Axx, ao comando da nave Arrabat. Mas a Guerra do Mar Negro está longe de chegar ao fim, e nem só de vitórias se faz o seu percurso. Gostei mais deste livro que do primeiro, mesmo assim notei tratar-se de um típico volume de transição. Uma trilogia ótima, cheia de cenas de ação e humor militar.

Resultado de imagem para lines we cross the walking dead 29Lines We Cross é o volume 29 da BD The Walking Dead, com argumento de Robert Kirkman e arte de Cliff Rathburn, Charlie Adlard e Stefano Gaudiano. Apesar de ser um volume mais morno, teve várias supresas interessantes, envolvendo Dwight, Negan, uma nova personagem chamada Princesa e até envolvimentos amorosos, com Jesus, Aaron, Magna, Yumiko e Siddiq em destaque. Ao contrário da série de TV, a série em quadradinhos está cada vez melhor. E terminei o ano literário com mais um conto de Robert E. Howard. A Rainha da Costa Negra conta como Conan se lançou a bordo do veleiro Argus, para travar amizade com um capitão chamado Tito e, posteriormente, cruzar-se com a temível pirata Bêlit, também conhecida como A Rainha da Costa Negra. A escrita é maravilhosa e a primeira metade incrível, mas tanto a paixão de Conan por Bêlit me pareceu demasiado brusca, como a parte final do conto foi demasiado fantasiosa para os meus parâmetros. Resta-me deixar os votos de um ano de 2018 repleto de boas leituras e felicidades pessoais para todos os seguidores do NDZ.

As Escolhas de 2017

O ano de 2017 está à beira do fim e chegou a altura dos balanços literários. De modo geral, acabou por ser um ano sensivelmente idêntico ao anterior, com mais de 90 leituras no seu todo, embora este ano tenham sido significativamente mais livros e menos BDs que no ano pretérito, conforme podem conferir na minha listagem de leituras de 2017. 44 livros de bandas desenhadas, 44 livros em prosa e mais alguns contos soltos perfazem um ano cheio de surpresas e boas leituras.

Robin Hobb (6 livros), Neil Gaiman (7 BDs e 2 livros), Brandon Sanderson (2 livros, 1 BD e 1 conto) e Robert Kirkman (5 BDs) foram os autores que mais li este ano, mas vários foram aqueles de que repeti a “dose”. Conheci nomes como Patrick Rothfuss (li tudo o que havia do nosso Kvothe), Michael Moorcock (três volumes de Elric), Jon Skovron (dois volumes de Império das Tormentas), Brent Weeks (dois volumes de Anjo da Noite) e Noelle Stevenson (Nimona) e terminei várias séries que tinha em suspenso, como a Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence, A Primeira Lei de Joe Abercrombie ou A Torre Negra de Stephen King.

Fiquem, então, com as minhas escolhas literárias do ano de 2017.

MELHOR LIVRO

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O Assassino do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #1), Robin Hobb

aqui a opinião

Praticamente empatado com A Súbita Aparição de Hope Arden de Claire North nas minhas preferências literárias de 2017, O Assassino do Bobo talvez tenha a vantagem de pertencer ao género que mais me agrada, a fantasia épica. Profundo, dramático, bem desenvolvido e até enternecedor, o primeiro volume da terceira trilogia de Robin Hobb foi a minha melhor leitura do presente ano. Na minha escolha, pesou também o facto de ter lido os 5 livros da série anterior este ano, e todos com nota elevada. Hobb merece a medalha de ouro.

MELHOR FANTASIA

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O Assassino do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #1), Robin Hobb

aqui a opinião

Pensei seriamente que seria mais difícil escolher o melhor livro de fantasia do ano, quando a pouco mais de um mês para o final, Robin Hobb facilitou-me a tarefa. Ainda assim, foi um ano fantástico para mim como amante do género. Deslumbrei-me com Elantris e Warbreaker de Brandon Sanderson, amei os livros da Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss e ainda tive direito à primeira parte de Os Portões da Casa dos Mortos de Steven Erikson.

MELHOR FICÇÃO CIENTÍFICA

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A Súbita Aparição de Hope Arden, Claire North

aqui a opinião

Quem também me facilitou a tarefa foi Claire North, com algumas ressalvas. Este livro está normalmente catalogado num sub-género de Fantasia, magia urbana, é também um thriller mas, acima de tudo, a trama gira em torno de uma aplicação futurista para smartphones, o que justifica encontrá-lo tantas vezes vinculado à FC, e razão pela qual acabei por incluí-lo nesta categoria. O romance venceu o The World Fantasy Award 2017 com todo o mérito. No entanto, leituras como Terrarium de João Barreiros e Luís Filipe Silva, Autoridade de Jeff VanderMeer, Os Despojados de Ursula K. Le Guin e a space opera Saga (formato BD) de Brian K. Vaughan e Fiona Staples também me ficaram na retina.

MELHOR HORROR

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Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe, Edgar Allan Poe

aqui a opinião

Entre alguns contos de Robert E. Howard e BDs como Harrow County e Outcast, acabou por ser esta lindíssima coletânea da Saída de Emergência, com ilustrações de 28 artistas nacionais, o livro que mais me marcou dentro do género Horror em 2017. Os contos que mais me agradaram foram “A Queda da Casa de Usher” e “Os Crimes da Rua Morgue”. Em 2018 espero ler mais histórias dentro deste género especulativo.

MELHOR ROMANCE HISTÓRICO

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Um Mundo Sem Fim, Ken Follett

aqui e aqui a opinião

Uma vez mais, a minha escolha no género Romance Histórico ficou dividida entre Ken Follett e Bernard Cornwell, acabando por ser o primeiro a vencer. Embora ambos sejam ótimos, a escrita de Follett encanta-me com uma profundidade a que o autor das Crónicas Saxónicas ainda não me conseguiu chegar. Um Mundo Sem Fim, dividido em Portugal em dois volumes, foi publicado pela Editorial Presença, enquanto o terceiro volume das Crónicas de Cornwell, Os Senhores do Norte, chegou até nós pelas mãos da Saída de Emergência.

MELHOR ANTOLOGIA / COLETÂNEA

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Mulheres Perigosas, Organização George R.R. Martin e Gardner Dozois

aqui a opinião

Embora tenha lido algumas coletâneas de contos, esta acabou por ser a melhor antologia que li em 2017. Permeada de autores renomeados como Melinda M. Snodgrass, Carrie Vaughn, Brandon Sanderson, Joe Abercrombie e Megan Abbott, a antologia da Saída de Emergência oscilou entre os contos muito bons e outros menos. Sam Sykes foi a grande surpresa do conjunto e George R. R. Martin voltou a mostrar aquilo que vale.

MELHOR CONTO

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Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno, Brandon Sanderson

aqui a opinião

Incluído em Mulheres Perigosas, o conto “Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno” foi não só o melhor conto da antologia, como o melhor que li em 2017. Ambientada no universo da Cosmere, a história de uma mulher cheia de recursos que gere uma estalagem numa floresta prenhe de fantasmas cativou-me. Mais um pequeno exemplo de que Brandon Sanderson é um dos autores que deve, urgentemente, voltar a ser publicado em Portugal. Destaque ainda para o ciclo de leituras em que estou a participar, no qual revisito vários dos contos de Robert E. Howard, que merecem as minhas menções de honra.

MELHOR BANDA-DESENHADA

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Saga Volume 7, Brian K. Vaughan e Fiona Staples

aqui a opinião

Este ano, Saga conseguiu suplantar The Walking Dead como a minha BD favorita, embora ambas continuem ótimas. Se o volume 6 da space opera já me havia fascinado, no 7.º o enredo só melhora. Resta-me enaltecer o trabalho da G Floy Studio neste segmento. Num ano em que li mais de 40 BDs, entre elas toda a coleção Sandman de Neil Gaiman, livros como A Garagem Hermética e A Louca do Sacré-Coeur de Moebius, acabaram por ser as BDs da Image Comics que a G Floy tem trazido até nós a marcarem-me.

Wytches, The Witched + The Divine, a trilogia Velvet, Southern Bastards, Tony Chu: Detective Canibal e Outcast são alguns dos destaques do ano, e provas de que a G Floy está a crescer a olhos vistos. Quero, porém, deixar ainda um louvor para as excelentes Nocturno de Tony Sandoval (Kingpin), Monstress: Despertar de Marjorie Liu e Sana Takeda (Saída de Emergência), Nimona de Noelle Stevenson (Saída de Emergência) e Como Falar Com Raparigas em Festas de Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá (Bertrand).

MELHOR LANÇAMENTO

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O Assassino do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #1), Robin Hobb

aqui a opinião

Não podia deixar de vencer em todas as categorias em que se insere. O Assassino do Bobo foi lançado em maio pela Saída de Emergência, mas só em novembro é que o li, porque ainda me faltava ler a segunda série protagonizada por Fitz antes de mergulhar nesta terceira. Ainda assim, este ano foi fantástico em lançamentos, nomeadamente pela Saída de Emergência no que diz respeito à fantasia e também com a sua nova incursão no mundo das bandas-desenhadas. Outros livros que foram lançados este ano e merecem o meu destaque, mas não só a nível nacional como internacional, foram Origem de Dan Brown (Bertrand) e Mitologia Nórdica de Neil Gaiman (Editorial Presença), que li neste último semestre do ano.

MELHOR NACIONAL

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Terrarium, João Barreiros e Luís Filipe Silva

aqui a opinião

2017 foi mais um ano com espaço para a literatura nacional. Li a antologia Os Monstros que nos Habitam (que inclui um conto meu), A Nuvem de Hamburgo de Pedro Cipriano, Anjos de Carlos Silva, Moving, Fighting the Silent e Mission in the Dark de Bruno Martins Soares, La Dueña de José Augusto Alves e Conquista da Liberdade de Jay Luis, mas foi a nova edição de Terrarium, revista e aumentada pelos dois autores, e publicada pela Saída de Emergência, que mais me agradou. João Barreiros e Luís Filipe Silva são os mestres da FC no nosso país e merecem todo o destaque que lhes possa ser dado, para que o seu talento possa chegar a mais e a mais pessoas.

Deixo-vos com os mais sinceros votos de um ano de 2018 cheio de boas surpresas e que para o próximo ano continuem a acompanhar as minhas indicações literárias. Boas leituras para todos.

A Divulgar: Ilustrações de “Oathbringer” de Brandon Sanderson

Oathbringer é o título do tão aguardado terceiro volume de The Stormlight Archive, a obra-prima de Brandon Sanderson que tem deixado os fãs em grande ansiedade. A edição americana chegou finalmente às bancas, e um dos detalhes que tem feito mais sucesso tem sido a ilustração do livro. Para além da fantástica capa de Michael Whelan, o livro conta com ilustrações de Dan dos Santos (que já havia ilustrado a Edição Comemorativa dos 10 anos de O Nome do Vento) e de Howard Lyon, que destacam alguns dos personagens mais lendários da história.

Os dois primeiros desenhos, trabalho de Dan, representam Ishtar e Shalash, enquanto as duas obras de Lyon ilustram Jezerezeh e Vedeledev. Os quatro personagens são Heralds, uma facção mística de Roshar que, exaustos pelo sem-número de batalhas, puseram um ponto final nas guerras contra os enigmáticos Voidbringer, comunicando ao mundo a sua vitória.

Figuras de destaque na mitologia, os Heralds fundaram a Ordem dos Knight Radiants, na qual cada uma das suas dez secções seria dedicada aos Heralds originais, onde cada um exerce um par de artes mágicas que poderiam ser combinadas entre si. Segundo consta, os Heralds regressarão quando chegar a hora de lutar contra a Desolação, mas tanto eles como a ordem que fundaram terão desaparecido. Significarão estas ilustrações que estão de regresso?

 

Estive a Ler: Mulheres Perigosas

Aquilo a que os colonos chamavam de “vão branco” era uma secção da estrada ladeada por campos de cogumelos. Levaram cerca de uma hora pelas Florestas para alcançarem o vão e Silêncio, quando chegou, estava a sentir o preço de uma noite sem sono.

O texto seguinte aborda o livro Mulheres Perigosas

Depois de, em finais de 2015 e meados de 2016, a Edições Saída de Emergência ter lançado em dois volumes a célebre antologia Rogues organizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois, com os títulos Histórias de Aventureiros e Patifes e Histórias de Vigaristas e Canalhas, a editora volta a apostar na série de antologias organizadas pelos célebres autor e editor. Mulheres Perigosas traz até nós vários dos contos apresentados no original Dangerous Women, mas ainda é uma incógnita se os restantes serão publicados, como aconteceu com a anterior antologia.

Com tradução de Rui Azeredo e um volume de 448 páginas, a mais recente antologia da Coleção Bang! traz até nós uma panóplia de contos de alguns dos maiores autores no campo da Ficção Especulativa atual. O original foi publicado originalmente em dezembro de 2013, cruzando géneros como a ficção científica, a fantasia, o mistério, o romance paranormal, o thriller psicológico e o western, embora a peça uniforme em todos eles seja o tema que dá título ao livro: a mulher perigosa. E quem melhor para nos falar delas que o renomeado autor de A Guerra dos Tronos?

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Fonte: http://www.businessinsider.com/george-rr-martin-role-of-religion-got-game-of-thrones-westeros-2015-4

No cômputo geral, a antologia prima pela variância de géneros literários e de estilos linguísticos, mas acima de tudo tem o mérito de, ao falarem sobre o mesmo tema, os contos não caírem na repetição. Todas as histórias têm uma alma própria e os plots dizem muito dos seus autores, mais até do que sobre as mulheres perigosas. Cada conto, por si só, podia ser o preâmbulo de um livro que eu, pessoalmente, não me importaria de ler. Ainda assim, claro está, acabei por preferir os contos de fantasia, talvez por ser o género que nos dias de hoje mais me apaixona.

Mulheres Perigosas é uma oferta bem consistente da Edições Saída de Emergência ao público nacional. Dos traços mais contemporâneos aos cenários mais vintage, os vários contos coligidos por George R. R. Martin e Gardner Dozois parecem apelar ao interesse de variados públicos, o que vai, sem qualquer dúvida, fazer com que os fãs de cada género elejam certamente dois ou três contos em detrimento dos restantes e, por natureza, influenciar negativamente a avaliação do livro no seu todo. Mas essa é, porém, uma consequência que não rouba o mérito à antologia.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/litfantastica-bang/fantasia-o-202346/-mulheres-perigosas/

O primeiro dos contos apresentados é Completamente Perdida de Joe Abercrombie. Ambientado no mundo de A Primeira Lei, Red Country e Best Served Cold, a história apresenta Shy South, a protagonista de Red Country, num cenário de faroeste. Apercebi-me que se passava no mundo da trilogia A Primeira Lei pela referência à moeda (o marco) e à União, mas mais tarde percebi que o próprio conto era o spin-off de um romance, o que justifica, talvez, a falta de um maior worldbuilding por parte do autor. O conto está bem escrito e puxa pelo leitor, mas mais um final em aberto deixa-me a ideia que Abercrombie está determinado em frustrar os seus leitores. Faltou ali um plot-twist e um pouquinho mais de sal para o conto me encher as medidas.

“E quem melhor para nos falar delas (mulheres perigosas) que o renomeado autor de A Guerra dos Tronos?”

Megan Abbott escreveu para esta antologia o conto Ou o Meu Coração Está Destroçado. Muito ao estilo de Gillian Flynn, este conto de pressão psicológica apresenta-nos o casal Lorie e Tom Ferguson e fala-nos sobre o desaparecimento da pequena Shelby, a filha deles. O conto passou muito por levar o leitor a olhar para a esposa como a “mulher perigosa” da trama, apostando muito no julgamento público para tentar um volte-face final que, não só não surpreendeu, como quis ser mais do que foi. História bem ok, ganha a Flynn em termos de escrita.

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Fonte: https://www.joeabercrombie.com/2013/06/10/lamb-shy-and-essential-fantasy/

O conto As Mãos Que Não Estão Lá é a única história de ficção científica deste volume. Escrita por Melinda M. Snodgrass, que participou, entre outras, na série Star Trek: The Next Generation, situa-nos num bar onde o segundo-tenente da Liga Solar Tracy Belmanor ouve uma história mirabolante da boca de um alcóolico. Rohan narra a forma como se apaixonou pela mestiça cara / humana Samarith, uma stripper mais conhecida como Sammy, e as consequências que daí resultaram. Muito bem escrito e envolvente, só pecou por exagerar na ridicularização do comportamento sexual dos homens.

Raisa Stepanova é o conto de Carrie Vaughn. Apesar de gostar desta autora, que para além de escrever bem consegue ser extremamente credível na criação e desenvolvimento das suas histórias, este conto passou-me muito ao lado. Ele fala sobre uma jovem piloto de caças russa na Segunda Guerra Mundial, nas cartas que enviava ao irmão e nas suas melhores amigas: a colega Inna e o seu próprio Yak. Foi um conto que caiu muito para o romântico, mas valeu sobretudo pela forma como a autora contextualizou os personagens.

Escrito por Lawrence Block, Eu Sei Escolhê-las a Dedo foi o pior conto da antologia. Ainda que estivesse relativamente bem escrito, o tom degradante e as revelações doentias sobre o passado do personagem central, Gary, foram o mote para uma série de descrições eróticas desnecessárias. O conto caiu no banal e a resolução final soou forçada. Para além de as mulheres perigosas deste conto não o serem tanto quanto foi o protagonista. Fica a sensação que o autor queria escrever sobre um personagem com tendência para escolher as mulheres erradas, mas acabou por fazer o inverso e a história soou fraca.

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Fonte: https://www.amazon.co.uk/Dangerous-Women-George-R-R-Martin/dp/0007549407

O conto de Brandon Sanderson é mais uma viagem alucinante ao universo da Cosmere. Passado no mundo de Threnody, o conto Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno é, de longe, o melhor da antologia. Enquanto os ricos vivem protegidos em fortes, as florestas são lar de espíritos de olhos verdes que devoram quem quer que faça barulho ou derrame sangue nos seus territórios. Mas aqueles domínios são frequentemente cruzados por mercadores, comerciantes, e é num desses caminhos tortuosos que fica a estalagem de Silêncio Montane, uma boa mulher que pode esconder alguns… esqueletos no armário. História bem escrita e bem desenvolvida, embora confesse que esperava um final mais Woow!

“O conto de Brandon Sanderson é mais uma viagem alucinante ao universo da Cosmere. Passado no mundo de Threnody, o conto «Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno» é, de longe, o melhor da antologia.”

Uma Rainha no Exílio de Sharon Kay Penman foi um conto aborrecido. Embora a história de Constança de Hauteville e do seu esposo Henrique von Hohenstaufen, Rei da Germânia e herdeiro do Sacro Império Romano-Germânico seja bastante interessante, a forma documental como foi contada deu-me sono. Para além de que a mulher só se revela realmente perigosa… na nota de autora final. Faltou-lhe aqui muita coisa para me agradar.

Passado no mundo de Os Mágicos, a obra mais conhecida do autor Lev Grossman, A Rapariga no Espelho foi um conto engraçado e juvenil. A escrita revelou-se competente e o mundo uma clara “imitação” de Harry Potter, com uma pequena e deliciosa referência a Hermione Granger. Passada na escola de Brakebills, fala de como a presidente da Liga, Plum, investiga a razão por que Wharton anda a servir muito pouco vinho às refeições. Simples e dinâmico, serviu para entreter mas só.

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Fonte: http://mirandameeks.com/portfolio/brandon-sanderson-book-cover/

Chegamos então àquele que foi, para mim, a maior revelação da antologia. Eu já conhecia o trabalho de Sam Sykes pelas redes sociais e plataformas digitais, mas nunca tinha lido nada dele. Ao ter o primeiro contacto com a sua prosa, adorei. Posso dizer que a sua escrita bastava para tornar este conto um dos meus preferidos da antologia. Mas houve mais. O filho de Diana Gabaldon trouxe em Dar Nome à Fera uma das suas criações literárias, os shicts. Eles assemelham-se a elfos com ar de índios, mas talvez sejam mais parecidos ainda aos na’vi do filme Avatar.

Sam atira-te para um ritual de iniciação inusitado, não te entrega a história e obriga-te a um esforço permanente para não te sentires perdido. Todo narrado pelo ponto de vista da shict Kalindris, em dois planos temporais distintos, o conto faz-nos temer as feras para surpreender quando elas são finalmente reveladas e fazer-nos questionar quem é quem. A questão que permeia o terço final do conto fica sem resposta, mas a ideia que passa é que os povos estão tão agarrados às suas tradições que aquilo que fazem é justificável por si só porque tal faz parte da sua identidade.

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Fonte: http://www.samsykes.com/lost-pages/shicts/

As Mentiras Que A Minha Mãe Me Contou é o penúltimo conto da antologia. Passada no ambiente da série antológica de George R. R. Martin Wild Cards, a história de Caroline Spector apresenta-nos os Wild Cards Michelle, que projeta bolhas, Joey, fabricante de zombies, e ainda Adesina, uma menina cujo rosto pende de um corpo de inseto mas ainda assim pergunta-se se será cortejada pelos colegas de escola. Uma história divertida, simples e leve, mas que, talvez por não ser bem o meu género, e ser bem longa, não me agradou por aí além.

A antologia termina com a maior de todas as histórias do livro. A Princesa e a Rainha ou Os Negros e os Verdes, de George R. R. Martin, conduz-nos ao mundo de A Guerra dos Tronos, para narrar o período conhecido como A Dança dos Dragões. O rei Viserys I Targaryen deixou claro que o Trono de Ferro seria herdado pela filha mais velha, Rhaenyra, filha única do seu primeiro matrimónio, mas quando morre, nem a sua viúva, a Rainha Alicent, nem o filho de ambos, Aegon II, nem mesmo a Mão do Rei, Sor Criston Cole, parecem dar grande consideração a tal facto, pois é inconcebível que o trono seja tomado por uma mulher. Assim, Rhaenyra e Aegon começam uma batalha incrível que colocará todos os Sete Reinos em sentido.

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Fonte: http://char-portraits.tumblr.com/post/142748682337/fire-and-blood-by-ludvikskp

A história é enorme e contada de forma meio documental, com o discurso direto usado pontualmente. Confesso que prefiro, muito mas muito mais, os pontos de vista usados por Martin nas suas Crónicas. Mas, se o conto de Sharon Kay Penman, narrado desta forma, não me aliciou minimamente, posso dizer que George R. R. Martin agarrou-me sobremaneira e só consegui largar a história ao último parágrafo. Uma sequência vertiginosa de combates entre dragões, mortes e traições, “A Princesa e A Rainha ou Os Negros e Os Verdes” é uma história extraordinária, bem melhor que o “Príncipe de Westeros” que Martin escrevera em Histórias de Aventureiros e Patifes.

“Mas, se o conto de Sharon Kay Penman, narrado desta forma, não me aliciou minimamente, posso dizer que George R. R. Martin agarrou-me sobremaneira e só consegui largar a história ao último parágrafo.”

Esta história de George R. R. Martin peca um pouco no que diz respeito à edição, por não conciliar totalmente os termos com os usados nas Crónicas de Gelo e Fogo da mesma editora (por exemplo, o Estranho é aqui chamado de Forasteiro), já para não falar de algumas falhas de coerência, ao usar tanto a palavra valiriano, como valyriano ou valyrian na mesma história. Também Larys começa por ter o cognome Pé-Torto para terminar como Larys, o Coxo.

Concluindo, Mulheres Perigosas é uma excelente antologia que, tão certamente não agradará a todos, como todos terão histórias de que irão gostar. A nível de edição, confesso que adorei a capa e o facto de a lombada casar na perfeição com as das antologias anteriores. O conto de Brandon Sanderson, “Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno” é o meu preferido, com “Dar Nome à Fera” de Sam Sykes na segunda posição, mais pelo que me fez sentir do que pela história em si, e “A Princesa e a Rainha ou Os Negros e os Verdes “de George R. R. Martin encerra o meu Top 3, graças ao envolvimento e ação que me fez matar as saudades daquele mundo incrível que é Westeros.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 7/10

Estive a Ler: Elantris, Elantris #1

A Shaod podia tomar um mendigo, um artesão, um nobre ou um guerreiro. Quando chegava, a vida da pessoa afortunada terminava e recomeçava; ela descartava sua antiga existência mundana e mudava-se para Elantris. Lá podia viver em bem-aventurança, governar com sabedoria e ser venerada por toda a eternidade. A eternidade terminou há dez anos.

O texto seguinte aborda o livro “Elantris”, primeiro volume da série Elantris

Que Brandon Sanderson é um fenómeno literário ninguém duvida. O autor de Mistborn, The Stormlight Archive, Alcatraz e Reckoners escreve livros atrás de livros, grande parte da sua obra passada no universo Cosmere. Foi também o responsável por concluir a série A Roda do Tempo após a morte do autor, Robert Jordan. Se nos perguntarmos o que lhe falta fazer, a resposta é simples: concluir as sagas iniciadas. O que, dada a velocidade com que publica livro atrás de livro, não parece difícil. Há, no entanto, um nome que paira na mente dos seus leitores mais acérrimos: Elantris. Para quando a continuação?

Elantris foi o primeiro livro publicado por Brandon Sanderson. Foi produzido como um stand-alone, mas a repercussão foi tanta e tão boa que o fandom apelou desde logo à continuação, que Brandon assegurou mas ainda não concretizou. Publicado pela Tor Books em 2005, o livro que catapultou o autor de Mistborn: Nascida das Brumas “ainda” não foi publicado em Portugal, mas a Leya publicou-o no Brasil em 2012, com tradução de Marcia Blasques.

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Fonte: http://www.17thshard.com/forum/gallery/image/885-raoden/

Antes de vos falar sobre a minha química para com a obra de Brandon no geral, e para com Elantris, em particular, gostaria de contextualizar-vos. Elantris é o nome de uma cidade, que passou do Paraíso ao Inferno num piscar de olhos. Já lá vamos! Ao contrário dos sistemas de magia que conheci em Mistborn (baseados em metais), em Warbreaker (respiração e cores) e em White Sand (areia e água), o sistema mágico de Elantris não se fortalece ou enfraquece consoante a “ingestão” ou captura seja do que for. Ele é baseado no AonDor, aquela componente de vida que faz os mares agitarem-se ou as pedras caírem, como exemplos. Está também intimamente relacionado com o alfabeto aónico, cujas letras formam partes dos nomes dos personagens e têm relação com a geografia do shardworld (mundo/planeta), Sel.

No livro, porém, esta magia é apresentada como um dom que se transformou numa doença / maldição. Aqueles que eram presenteados com o Shaod (escolhidos involuntariamente e, aparentemente, ao acaso) dominavam o AonDor e podiam fazer coisas incríveis, como transportar-se para longas distâncias, curar doentes e realizar milagres. Eles eram vistos como deuses e consideravam-se como tal, muito embora não se preocupassem muito nas crenças dos comuns, à sua volta. A partir do momento em que recebiam o dom, mudavam-se para a cidade de Elantris, a capital de Arelon, e aí eram reverenciados. Elantris era mais do que uma capital, era um santuário.

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Fonte: http://geral.leya.com.br/pt/literatura-fantastica/elantris/

As coisas mudaram, no entanto, dez anos antes da ação do livro ter início, num acontecimento trágico conhecido como o Reod: o AonDor, sem explicação aparente, abandonou os elantrinos. Aqueles que ali viviam foram tomados pela loucura ou morreram, e os que receberam a Shaor depois disso tornaram-se uma espécie de mortos-vivos. O cabelo caía-lhes, a pele ficava cinzenta e enrugada, o coração parava de bater. Continuavam a ser enviados para Elantris, com uma cesta de alimentos na mão, mas a ideia era apartá-los, bani-los da sociedade. Chutá-los para a lixeira. A própria cidade transformou-se. Perdeu o dourado das suas edificações sublimes, tornou-se oca e cheia de lama e muco.

“Eles eram vistos como deuses e consideravam-se como tal, muito embora não se preocupassem muito nas crenças dos comuns”

Kae foi outrora uma pequena aldeia nas imediações de Elantris, mas transformou-se numa cidade, a capital de Arelon. Quando se deu o Reod e os elantrinos caíram, deu-se uma revolução sócio-económica, com os criados a matarem os seus patrões e os mercadores a tornarem-se nobres. Iadon tornou-se o primeiro rei da nova dinastia, sediando o seu trono em Kae. No entanto, se fora um mercador notável, Iadon transformou-se num rei medíocre. Outras nações importantes espreitavam as suas fragilidades para lhe caírem em cima.

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Fonte: https://solrac-onaicilef.deviantart.com/art/Elantris-Sketch-of-Raoden-and-Sarene-361258445

Na verdade, dez anos após Elantris cair, o mundo vive uma guerra santa. Embora comunguem das mesmas origens (o Shu-Kheseg), o Shu-Dereth e o Shu-Korath têm visões próprias e distintas do Deus (Jaddeth e Domi), e embora o Shu-Korath seja mais antigo, restam apenas duas nações que lhe são devotas: Kae e Teod. O que significa, na prática, que foram as únicas que ainda não caíram diante do poder bélico de Fjorden, a imensa nação que tem usado a religião como um meio de controlar o mundo. Quando Kae e Teod se converterem ao Shu-Dereth, como aconteceu com a pobre Duladel, Fjorden governará o mundo. Wyrn é o senhor de Fjorden, um título que o apresenta como um messias, um filho de Deus, o seu criado.

Está então na hora de apresentar os três personagens que dão vida ao livro. Raoden era o príncipe de Kae. Filho do rei Iadon, no entanto um líder muito mais dotado que o pai, Raoden conspirava sub-repticiamente com vários nobres para a sobrevivência do seu povo. Entre esses nobres encontravam-se Roial, Shuden, Aan e o general Eondel, entre outros. O motivo porque muitos ainda aceitavam Iadon, era porque acreditavam que Raoden seria o seu sucessor natural, e ninguém duvidava de que ele seria o rei de que precisavam. O pior aconteceu, porém, quando Raoden acordou certo dia e descobriu que fora tomado pela Shaod. A família simulou a sua morte, e Raoden foi então convertido num elantrino, conduzido para a cidade das trevas.

“O cabelo caía-lhes, a pele ficava cinzenta e enrugada, o coração parava de bater.”

Em Elantris, Raoden conhece um dula, Galladon. Na verdade, se o povo de Duladel era conhecido pelo caráter despreocupado e otimista, Galladon não podia fugir mais ao estereótipo. Ele é terrivelmente pessimista, mas também se torna o melhor amigo de Raoden e o seu braço direito. À medida que conhece Elantris, Raoden também verifica a suas deficiências e o seu potencial. Eles não podem morrer de causas naturais, mas sentem todas as dores e podem sofrer até à loucura, tornando-se hoed. Raoden percebe que Elantris é controlada por gangues, que são lideradas por Karata, Aanden e Shaor, e depressa percebe que precisa uni-los e dar vida àquela cidade de mortos.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/541417186434868457/

Sarene é a princesa de Teod, filha do rei Eventeo. Ela estava prometida em noivado a Raoden, por motivos plenamente políticos, e nunca o conhecera pessoalmente, embora se tivesse encantado com as mensagens que iam enviando um ao outro. Por isso, sofre uma grande desilusão quando chega a Kae e descobre que o príncipe morreu. Acompanhada pelo seu seon (bolas de luz falantes que servem para transmitir mensagens, dar conselhos ou supervisionar criados), Ashe, Sarene tem um choque ao perceber que os seus planos de casamento fracassaram. Ainda assim, uma minuta do contrato nupcial permite que ela seja vista como viúva, o que a equipara a ser filha do rei Iadon.

“Por isso, sofre uma grande desilusão quando chega a Kae e descobre que o príncipe morreu.”

Inicialmente, ela suspeita que o rei teve participação na morte do filho e move-se de modo a deixar que pensem que é tola e estúpida, mas rapidamente conquista os velhos amigos de Raoden para o seu lado e ocupa o lugar de líder nas reuniões secretas que o príncipe havia deixado vago. Sarene surpreende-se também ao perceber que o seu tio paterno, Kiin, faz parte desse grupo. Para além de ter uma grande família, onde se contam vários filhos, um deles com, aparentemente, algum tipo de deficiência ou autismo, Kiin revela-se também um grande cozinheiro. Mas o verdadeiro desafio de Sarene começa quando Hrathen chega a Kae.

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Fonte: https://www.pinterest.com/botanicaxu/elantris-emperors-soul/

Hrathen é um gyorn, um sacerdote do Shu-Dereth com uma tradicional armadura vermelha, e chega a Kae com uma missão. Hrathen tem três meses para converter aquele povo à sua doutrina, caso contrário Wyrn avançará com as suas tropas e devastará a cidade. Para ele, não chegará a tanto. Tanto o seu dom de oratória como as capacidades de intriga política chegarão para fazer Iadon cair da cadeira do poder e colocar nela um rei mais fácil de ser convertido. A tarefa, no entanto, pode ser mais difícil do que previa.

São três os grandes obstáculos com que se cruza. O primeiro é Dilaf. Trata-se de um jovem sacerdote de Kae que Hrathen transforma em seu acólito, um arteth, mas Dilaf revela-se demasiado fervoroso na sua crença do Shu-Dereth, demasiado fogoso, demasiado difícil de controlar. E com ideias demasiado próprias e demasiado apaixonadas. O segundo obstáculo é Sarene. A jovem consegue embaraçá-lo em público e fintar todos os seus planos, num braço-de-ferro de intriga política que poderá não acabar como ele previa. O último obstáculo é a própria Elantris. A cidade dos mortos pode ser utilizada como peça chave dos seus planos, mas… e se a cidade voltar à vida?

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Fonte: https://www.deviantart.com/tag/elantris

O que dizer mais sobre este livro? Um misto de novela argentina com The Walking Dead e muita intriga política? Podia perfeitamente procurar defeitos nele, uma vez que foi o primeiro livro publicado pelo autor, e a verdade é que ele os tem, dependendo e muito do ponto de vista de cada um. A ação do livro começa lenta e vai avançando bastante com o desenrolar da leitura, mas será que os acontecimentos frenéticos da segunda e terceira partes do livro teriam tanto impacto sem o background bem construído da primeira? Duvido muito.

“Um misto de novela argentina com The Walking Dead e muita intriga política?”

Sinceramente, até me senti um pouco desiludido com os acontecimentos finais da trama, quando Brandon Sanderson, como é seu apanágio, destrói tudo o que podia dar credibilidade à trama num todo irrealista com muito recurso a magias e endeusamentos, mas esse já é mesmo o jeito dele, há que aceitar caso se goste do todo. Uma conclusão mais credível e não tinha como não dar nota máxima ao livro. Mas, como disse anteriormente, se quisermos encontrar defeitos, há muito por onde pegar. Isso acontece em todas as obras, claro está.

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Fonte: https://www.deviantart.com/tag/elantris

A verdade é que Elantris me apaixonou do primeiro ao último instante, e mesmo a inserção de [SPOILER SPOILER SPOILER] criaturas com excesso de ossos [/SPOILER SPOILER SPOILER] na trama não me roubou a ideia de que este é um livro muito mais fluído e credível do que a trilogia Mistborn. Não só o sistema de magia em Elantris parece mais enraizado na cultura e faz mais sentido, como foi explicado nos momentos indicados, e não constantemente colocado em causa como aconteceu em Mistborn, onde durante muito tempo me pareceu que o autor ia apresentando explicações forçadas e “metidas a martelo”.

“A verdade é que Elantris me apaixonou do primeiro ao último instante”

É uma mera opinião pessoal e não coloco em causa que Mistborn tem um mundo mais bem construído e com mais detalhes, mas pessoalmente não “comprei” a história e tão pouco a engoli, o que aconteceu de uma forma bem mais envolvente com Elantris. Suponho, porém, que isso também depende muito da nossa interpretação pessoal sobre ambas as obras. Elantris não tem a tempestade de plot-twists de Warbreaker, mas gostei tanto de um como do outro.

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Fonte: https://www.deviantart.com/art/Elantris-399139039

A principal força de Elantris centra-se nos protagonistas. Apesar de nos últimos capítulos serem incluídos os pontos de vista de Galladon, Lukel e Dilaf, o livro é, em todo o resto, apresentado pelo olhar de Raoden, Sarene e Hrathen. Que personagens! É impossível deixar este livro sem sentir saudades do otimismo de Raoden e da sua capacidade de melhorar tudo à sua volta, a argúcia e senso político de Sarene, sempre com o seon Ashe a flutuar sobre o ombro, e aquele que mais me impressionou, o sacerdote de armadura vermelha, Hrathen. Não posso dizer muito mais sobre ele porque estaria a spoilar, mas que personagem incrível e surpreendente é o gyorn.

“Que personagens!”

Acredito que se este fosse o meu primeiro livro de Brandon, tornar-me-ia mais um acérrimo acólito da Igreja Cosmérica, mas mesmo sem abençoar o excesso de deus ex machina e recursos divinos pouco convincentes do autor, não há como deixar de admirar as suas histórias e Elantris é a prova de todo o seu potencial, ainda que se note claramente ser um livro de estreia. The Stormlight Archive é uma das séries que tenciono ler, mas esperarei também que o autor se decida a escrever as sequelas de Elantris e Warbreaker. Por ora, este é um dos livros dele que posso recomendar sem reservas.

Avaliação: 9/10

Cosmere:

Mistborn Era 1 (Saída de Emergência):

#1 O Império Final

#2 O Poço da Ascensão

#3 O Herói das Eras Parte 1

#4 O Herói das Eras Parte 2

Warbreaker:

#1 Warbreaker

White Sand (Dynamite):

#1 White Sand Volume 1

Elantris (Leya):

#1 Elantris

#* The Emperor’s Soul

Mulheres Perigosas (Saída de Emergência)

#* Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno

(*) conto incluído em antologia

Especial: Quem Ainda Não Leu Brandon Sanderson?

É muito difícil encontrar um fã de ficção fantástica que não tenha lido, ou pelo menos ouvido falar de Brandon Sanderson. As suas obras de fantasia estão publicadas pelo mundo inteiro, o autor escreve com uma rapidez notável e uma legião de fãs segue atentamente todos os seus passos. Dono de uma relação com o público pautada pela acessibilidade e simpatia, Brandon tem tanta facilidade para explicar ao mundo as suas ideias e processos criativos, como para colocá-los em prática. O autor esteve em novembro em Portugal, a convite da Edições Saída de Emergência, editora responsável pela publicação da saga Mistborn – Nascida das Brumas.

O seu ritmo de publicação parece imparável, de tal modo que os leitores chegam a sentir dificuldades em acompanhá-lo. Através do site de Brandon, é possível seguir a progressão do seu trabalho, saber em que eventos o autor estará presente e até ler gratuitamente um livro, Warbreaker. O autor escreve tanto para adultos como para jovens, mas pode-se dizer que redefiniu toda a conceção de fantasia através das 3 Leis que canonizou como guia para todo o bom escritor de fantástico.

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Brandon Sanderson (Fonte: sltrib.com)

Quem é Brandon Sanderson?

Natural do Nebraska, Brandon Sanderson (19 de dezembro de 1975) vive atualmente em American Fork, no Utah. Concluiu o mestrado de escrita criativa em 2005 pela Universidade de Brigham, onde trabalhou numa revista de ficção especulativa, e no ano seguinte casou-se com Emily Bushman, de quem tem dois filhos. De ideologia Mórmon, Brandon foi missionário em Seul, na Coreia do Sul. Foi ao ser escolhido por Harriet McDougal, viúva do escritor Robert Jordan, para concluir a série épica do esposo, A Roda do Tempo, que Brandon Sanderson ganhou reconhecimento mundial. Daí em diante, a sua popularidade cresceu a olhos vistos, sendo difícil não encontrar um livro seu em qualquer grande superfície livreira.

Elantris foi o primeiro livro que publicou, mas foi com a trilogia Mistborn que o seu sucesso venceu muralhas. A história de uma menina que vence um déspota tirano e percebe que cometeu um erro grave ao fazê-lo conquistou adeptos em todo o mundo, mas esses seriam apenas os primeiros passos na rica trajetória de êxitos de Brandon. Mistborn transformou-se não em uma, mas em três trilogias, com a última por publicar, mas é com The Stormlight Archive que Sanderson parece ter quebrado todos os paradigmas e conquistado definitivamente o amor do público.

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Brandon Sanderson fanart (Fonte: pastemagazine.com)

As 3 Leis de Sanderson

Um dos motivos pelos quais Brandon é reconhecido é exatamente por ter parametrizado o trabalho de um escritor de fantasia, principalmente no que concerne à utilização da magia e ao quanto é dado a conhecer ao leitor da sua conceção. Separando as águas, Brandon distingue a construção mágica credível e detalhada, aquela em que o leitor compra a ideia de forma categórica e até científica (Hard Magic), da magia mais tradicional, sem qualquer detalhe ou explicação, que se encaixa no deus ex-machina habitual nas leituras YA (Soft Magic).

O autor também reforça o papel determinante que as dificuldades dos personagens têm no envolvimento com o leitor e a importância de montar um mundo credível, honesto e bem estruturado, para que personagens ou situações não caiam de pára-quedas na história. Pessoalmente, concordo em absoluto com estas leis, ainda que me pareça que Brandon não seja um inventor, mais um estudioso sobre o assunto.

As 3 Leis são:

Lei 1: “A capacidade de um autor em resolver conflitos de forma satisfatória com a magia é diretamente proporcional ao quão bem o leitor compreenda esta magia.”

Lei 2: “As fraquezas das personagens são mais interessantes que as suas habilidades. Ou seja: limitações são mais importantes que poderes.”

Lei 3: “Expanda o seu mundo antes de adicionar novos elementos.”

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Fanart de The Stormlight Archive (Fonte: pinterest.com/sparkybeanbag)

Porque o NDZ acredita que todos devem ler Brandon Sanderson?

CONSTRUIU UM MUNDO CHEIO DE POSSIBILIDADES

Brandon publicou o seu primeiro romance, Elantris, através da editora Tor Books em 2005, com críticas muito positivas. Foi em 2006, porém, que o seu trabalho mais famoso saiu para as bancas – Mistborn. Posteriormente, Brandon dedicou-se a trabalhos mais juvenis, como Alcatraz ou Coração de Aço, mas logo regressaria com novos livros da série Mistborn e The Stormlight Archive.

Segundo o autor, a série Mistborn atravessará várias fases de vida do planeta Scadrial. Se a primeira série (publicada em Portugal pela Edições Saída de Emergência) foi o mais próximo de uma clássica fantasia épica, a segunda trilogia foca-se num período perpassado por uma austera Revolução Industrial, com perfume a western. A terceira trilogia deverá ocorrer, então, num período correspondente à nossa atualidade ou futurista, uma vez que o autor garantiu vir a tratar-se de uma trilogia de ficção científica, sempre com os seus sistemas de magia intricados como pano de fundo.

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Szeth de The Stormlight Archive (Fonte: 17th Shard)

Todos os livros de high fantasy publicados por Brandon passam-se no mesmo universo, a Cosmere. Se Scadrial é o “planeta” que serve de palco à série Mistborn, Elantris e o conto Emperor’s Soul são passados no shardworld Sel, Warbreaker em Nalthis, The Stormlight Archive em Roshar e White Sand em Taldain. De alguma forma, todos estes lugares estão conectados, muito embora se tratem de “fragmentos de mundo” muito diferentes. Há, no entanto, vários indícios de que se trata do mesmo universo (para além da confirmação do autor, vá).

Um deles é a existência misteriosa de saltadores de mundo, sendo o mais conhecido Hoid, um indivíduo que aparece como informador de confiança na primeira trilogia Mistborn, um contador de histórias em Warbreaker e contrabandista em Elantris, por exemplo, ganhando um papel de maior protagonismo em The Stormlight Archive, onde adquire a identidade de Wit. Khriss, a duquesa de White Sand, também surge em Mistborn: The Bands of Mourning e Mistborn: The Secret History.

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Vin de Mistborn (Fonte: pinterest.com)
OS SISTEMAS DE MAGIA SÃO ORIGINAIS

Brandon Sanderson é, a meu ver, um dos autores que melhor constrói sistemas de magia. Da alomância e feruquimia de Mistborn, ao breath de Warbreaker, passando pelo domínio da areia em White Sand – e falo destes porque foram os livros/sagas que li – a técnica passa pela ingestão ou absorção de uma matéria, cujo processo de metabolismo resulta na aquisição de um dom considerado mágico, incrível para um humano.

Desta forma, Vin, Kelsier, Vasher e Kenton tornaram-se personagens cativantes pelas suas habilidades, embora o autor, recorrendo à lei número 2 que definiu, crie também grandes dificuldades ao seu desenvolvimento, seja na aprendizagem das magias, na grandiosidade dos adversários ou na introdução de problemas do foro pessoal. Ainda assim, muito embora a magia de Sanderson seja algo mais científico que maravilhoso, desmantela a ilusão de super-heróis pré-concebida e apresenta uma plataforma credível e bem montada que só pode encantar os novos leitores de ficção fantástica.

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Siri e Susebron de Warbreaker (Fonte: puncker–rocker.deviantart.com)
TEM AS SUAS HABILIDADES NARRATIVAS

Quem me conhece e ao NDZ há algum tempo, sabe que não morro de amores por Brandon Sanderson, sobretudo por ser possuidor de uma escrita fast-food, principalmente em Mistborn. Brandon não revela grande riqueza de vocabulário e as imensas voltas e reviravoltas no enredo sugerem muito improviso e muito pouco de esqueleto. O recurso a salvamentos de última hora são ainda um furúnculo no seu processo narrativo, para alguém que fomenta tanto a credibilidade dos mundos criados. Neste aspeto, Brandon tem ainda muito a crescer. Esta ideia marcou-me principalmente durante a leitura da primeira trilogia Mistborn, aclamada pela grande maioria do público de fantástico.

O autor, porém, veio a ganhar-me pouco a pouco. O final de Herói das Eras encantou-me, não que tenha ficado agradado com o recurso ao espiritual, quando Brandon tanto se havia esforçado por explicar “cientificamente” todos os detalhes, mas posso dizer que a trilogia foi concluída com chave de ouro. Não gostei de muitas explicações oferecidas a esmo ao longo dos três livros, mas os maravilhosos personagens, as relações humanas e os plot-twists prenderam-me, da primeira à última página. Acabei a Era 1 de Mistborn com nostalgia e com a sensação de que podia ser melhor, mas que mesmo assim foi muito bom.

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Senhor Soberano de Mistborn (Fonte: pinterest.com/Rebeksterz)

A leitura de Warbreaker, porém, foi o cheque-mate a que se deve este artigo. A escrita do autor pareceu-me mais rica e envolvente e os plot-twists ganharam-me por completo. Cada reviravolta foi uma machadada e terminei o livro completamente apaixonado por Vivenna, Siri, Susebron, Vasher e companhia. Foi, sinceramente, uma das melhores leituras deste ano até agora. A novela gráfica White Sand, com argumento original de Brandon, não teve muita qualidade ou originalidade, mas não me desagradou. Mais uma vez, foram as surpresas e os plot-twists a conquistarem-me.

Brandon Sanderson é, inegavelmente, um dos mestres da fantasia moderna e um dos que mais fomentam aquilo que tanto me agrada no género: a construção de mundos credíveis e originais. Prevejo ler Elantris em setembro (versão pt-br) e espero que a Saída de Emergência continue a apostar neste autor que tanto tem acarinhado, seja com a segunda série de Mistborn ou com a publicação de The Stormlight Archive, aquela que, muito provavelmente, será num futuro recente a série de fantasia com melhor repercussão em todo o mundo. Cá esperamos por mais publicações, Brandon.

Resumo Trimestral de Leituras #9

O primeiro trimestre do ano chegou ao fim e com ele chegou a altura de fazer o habitual balanço trimestral de leituras. De Ken Follett a Neil Gaiman, passando por Brandon Sanderson e George R. R. Martin, revisitei alguns dos meus escritores favoritos e ainda tive o prazer de iniciar a Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss. Vejam a lista de leituras dos meses de janeiro, fevereiro e março:

A Darkness Surrounds Him, Outcast #1 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

The Whisperer War, The Walking Dead #27 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

Inimigos – Anton Tchekov

Um Jogo de Ti, Sandman #5 – Neil Gaiman

Fábulas e Reflexões, Sandman #6 – Neil Gaiman

Um Mundo Sem Fim, Vol. 1 – Ken Follett

Um Mundo Sem Fim Vol. 2 – Ken Follett

Vidas Breves, Sandman #7 – Neil Gaiman

A Estalagem no Fim do Mundo, Sandman #8 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 1, Sandman #9 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 2, Sandman #10 – Neil Gaiman

A Vigília, Sandman #11 – Neil Gaiman

Warbreaker, Warbreaker #1 – Brandon Sanderson

La Dueña – J. A. Alves

Vidas Secretas de Homens Mortos, Velvet #2 – Ed Brubaker, Steve Epting e Elizabeth Breitweiser

Autoridade, Área X #2 – Jeff Vandermeer

O Cavaleiro de Westeros – George R. R. Martin

White Sand #1 – Brandon Sanderson

Terrarium – João Barreiros e Luís Filipe Silva

Príncipe dos Dragões, Elric #1 – Michael Moorcock

Loki – Robert Rodi e Esad Ribic

Assombrações Sem Fim, Harrow County #1 – Cullen Bunn e Tyler Crook

Saga #6 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Um Diamante Para o Além, Bouncer #1 – Alejandro Jodorowsky e François Boucq

O Nome do Vento, Crónica do Regicida #1 – Patrick Rothfuss

sem-tituloO ano iniciou-se com um desafio em mente: começar a série fantástica de Patrick Rothfuss e ler os dois volumes em português do famoso Mundo Sem Fim de Ken Follett. E não é que cumpri? Janeiro foi um mês rico em leitura de bandas-desenhadas. Comecei com o primeiro volume da BD Outcast de Robert Kirkman, o mesmo autor de The Walking Dead. A Darkness Surrounds Him apresenta Kyle Byrnes como protagonista, e uma narrativa sombria prenhe de possessões demoníacas e histórias de vida dramáticas e violentas. Muito diferente da história de mortos-vivos, a mais conhecida de Kirkman, agradou-me acima de tudo pela forma como toda a temática é explorada de forma fluída e misteriosa. Também li o mais recente volume de The Walking Dead, a edição 27. The Whisperer War mostrou ser apenas a primeira batalha entre as comunidades e os Sussurradores. O exército de Rick, liderado por Dwight e com Negan na linha da frente, vence o primeiro round. No entanto, Hilltop é completamente destruída e a muito custo Maggie, Carl, Aaron e Jesus conseguem derrotar os seus inimigos. Mais um volume genial, que tem direito ao “funeral” de Lucille.

sem-tituloAinda nos primeiros dias de janeiro li o conto de Anton Tchekov Inimigos, uma história tão curta que não achei necessidade de escrever uma opinião. Fala sobre Varka, uma jovem criada cuja tarefa de adormecer um bebé faz-lhe crescer uma intensa sensação de sonolência, que é incapaz de dominar. Li ainda, de uma assentada, o que faltava da coleção Sandman (Vol. 5, Vol. 6, Vol. 7, Vol. 8, Vol. 9, Vol. 10, Vol. 11) de Neil Gaiman, publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público. Entremeando histórias soltas com uma linha narrativa central, Gaiman soube tecer toda a narrativa nos últimos volumes, que trouxeram inúmeras reflexões e uma sensação de renovação e esperança ao leitor. Apesar disso, Sandman não me apaixonou em nenhum momento e, por muito mérito que tenha, soou-me muito a “eterna promessa” e a histórias vagas.

sem-tituloDividido em Portugal em dois volumes, o livro Um Mundo Sem Fim (Vol. 1 e Vol. 2) de Ken Follett agarrou-me desde o primeiro momento. Apesar de repetir a receita de Os Pilares da Terra, adorei tanto um como o outro. Histórias dramáticas de amor e superação, sobre religião, política, medicina e sobrevivência. Uma história de época que retrata o drama da Peste Negra e a Guerra dos Cem Anos. Warbreaker é um livro de Brandon Sanderson, o autor do momento no que diz respeito à literatura fantástica. Uma espada falante, cabelos que mudam de cor mediante as emoções, soldados mortos-vivos que são comandados através de palavras de ordem, a capacidade de dar vida a objetos inanimados e, principalmente, um panteão de deuses que está bem vivo e habita entre os demais. Original e muito bem escrita, esta obra de fantasia consegue também acumular bons momentos de humor e imensas reviravoltas.

sem-tituloComecei fevereiro com La Dueña: Devoradora de Homens. Da autoria de J. A. Alves, o autor de Batalha Entre Sistemas, La Dueña mostra todo o esplendor dos llanos venezuelanos e uma história tensa de superstições locais e pactos com o demónio. Chris viaja até à Venezuela com a noiva, Ana Clara, para conhecer a fazenda que herdou do seu tio Miguel, mas quando lá chega encanta-se por Yolanda, a dona da fazenda vizinha. Dizem que essa mulher rouba a alma de todos que por ela se apaixonam. Gostei imenso. Vidas Secretas de Homens Mortos, o segundo volume da graphic novel Velvet traz-nos o melhor da equipa composta por Ed Brubaker (argumento), Steve Epting (ilustração) e Elizabeth Breitweiser (cores). Uma história de espionagem tensa que prende desde o primeiro momento. Velvet é uma antiga espia que se vê atirada para o centro da ação quando o seu superior é assassinado. Neste segundo volume, ela tenta descobrir quem a tramou e porquê, depois de saber que o seu esposo não era quem ela pensava. Entre soltar um prisioneiro, fazer uma viagem de comboio alucinante e fugir a cães-pisteiros, Velvet passa por várias amarguras neste excelente segundo álbum da trilogia.

sem-tituloAutoridade é o segundo volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer. Se esta história que mistura o terror psicológico ao bizarro (o new weird fiction) me fascinou no primeiro volume ao mostrar in loco as experiências vividas por quatro exploradoras numa zona frondosa alegadamente contaminada, este segundo livro vai mais além ao apresentar-nos Control, o novo diretor da agência que as enviou, e é através dele – tão ingénuo quanto o leitor – que vamos descobrindo, nos escritórios da Extensão Sul, os terríveis segredos que a agência guarda sobre aquela região tenebrosa. Passado 100 anos antes da ação de A Guerra dos Tronos, O Cavaleiro de Westeros (versão conto de George R. R. Martin e BD com adaptação de Ben Avery e ilustrações de Mike S. Miller) narra a ação no Torneio de Vaufreixo durante o reinado de Daenor II. Sor Arlan de Pataqueira morre de uma gripe a caminho do torneio, e o seu escudeiro Dunk resolve disputá-lo. Para isso, terá de contar com a ajuda do pequeno Egg e provar ser um cavaleiro, o que o irá colocar no cerne de várias disputas e provocar uma tempestade no reinado então calmo dos Targaryen. Excelente conto muito bem escrito, enquanto a BD se destaca pelas ilustrações cativantes e coloridas.

sem-titulo-2White Sand é uma graphic novel da Dynamite Entertainment. Com argumento de Rik Hoskin, ilustrações de Julius Gopez e cores de Ross Campbell, trata-se da adaptação de uma obra não publicada de Brandon Sanderson, com base numa revisão do seu primeiro livro, ambientado no universo Cosmere. Na verdade, este volume inaugural corresponde ao primeiro terço do livro. Em Taldain, um planeta inamovível – metade vive de dia e metade de noite – conhecemos Kenton, um jovem Mestre de Areia que desafia o mundo com a sua teimosia e determinação, vendo-se arrastado para uma conspiração terrível que pode acabar com o seu povo. Apesar de ser uma obra pouco convincente a nível de credibilidade, gostei do álbum. E terminei o mês de fevereiro da melhor forma. Vinte anos depois da publicação original, a Saída de Emergência vem publicar uma versão Redux, melhorada e ampliada de Terrarium, considerado por muitos como o melhor romance de Ficção Científica português. João Barreiros e Luís Filipe Silva são os autores. Estamos num futuro não tão distante assim, em que os exóticos, várias espécies de seres extraterrestres, foram atirados para o nosso planeta por entidades superiores. Quem são as Potestades, os IXytil, e esse tal de Mr. Lux? Uma guerra entre espécies dominantes poderá ser resolvida por meros humanos? Carregado de um humor ácido e termos futuristas, Terrarium é um hino à FC, indispensável para todos os fãs do género em Portugal.

sem-tituloMarço teve também um início auspicioso. Príncipe dos Dragões é o primeiro volume de Elric, uma série de fantasia épica publicada em 1972 por Michael Moorcock. Simples em prosa e carregado de dilemas morais, Príncipe dos Dragões apresenta-nos um Império em declínio e um imperador doente, dependente de drogas para se manter forte. Melniboné é o seu domínio, abrigo de dragões e de homens terríveis. A tradição relata os melniboneanos como sádicos e perversos, mas Elric parece uma alma generosa e cortês, o que provoca chispas de ódio no seu primo Yyrkoon, que lhe pretende usurpar o trono. O braço de ferro entre Elric e Yyrkoon arrasta-se até às últimas consequências, com Cymoril, a amada de Elric, no vértice de um triângulo inconstante de amor familiar. Com argumento de Robert Rodi e ilustração de Esad Ribic, a BD Loki mostra uma outra face da história de Thor, focada no seu meio-irmão. De inspiração trágica e enaltecendo a decadência de Asgard através da queda de Odin e dos múltiplos dilemas do personagem-título, foi uma boa leitura que se destaca pelos coloridos e traços fortes.

Sem títuloPrimeiro volume de Harrow County, Assombrações Sem Fim apresenta a história desta povoação isolada no sul dos E.U.A., envolta em superstições e crendices. O povo recorria a Hester para se livrar dos seus problemas domésticos, mas quando a natureza se virou contra eles, depressa atiraram-lhe as culpas e condenaram-na à morte, sob a acusação de bruxaria. A mulher demorou a morrer e jurou regressar. Pouco tempo depois, uma criança surgiu naquele lugar fatídico. Uma brilhante BD de terror, escrita por Cullen Bunn e com arte de Tyler Crook. Brilhante álbum da série Saga, o quinto volume da space opera gráfica de Brian K. Vaughan e Fiona Staples traz uma linguagem crua e brutal, momentos de grande ritmo e ação entremeados por muito humor. A pequena Hazel começa a sua educação numa prisão galática, enquanto os pais procuram desesperadamente por ela. Vontade está de regresso, disposto a vingar a morte da irmã, e nem Gus o consegue parar. Provocante e irreverente, esta série da Image Comics está bem e recomenda-se.

sem-tituloUm Diamante Para o Além é o primeiro volume da série de BD Bouncer de Alejandro Jodorowsky e François Boucq. Publicado pelas Edições ASA em 2007, trata-se de um western subversivo, que narra de forma ficcional os acontecimentos que se sucederam à Guerra da Secessão nos E.U.A. O Capitão Raltan reúne os seus mercenários, que se recusaram a render após o final do conflito militar, espalhando o terror nos ranchos. Mas o que ele procura é um diamante, que roubara anos atrás. Na sua busca, assassina um antigo subordinado, provocando assim a atenção de um familiar daquele. Bouncer é um velho maneta, conhecido por resolver problemas de forma abrupta e imprevisível. Uma BD muito boa, da qual tinha grandes expectativas e não me surpreendeu tanto. E terminei março com O Nome do Vento. Primeiro volume da Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss, esta auto-biografia de um personagem fictício é brilhante. Desde a infância de Kvothe na trupe até aos seus estudos na Universidade, passando por várias privações como espancamentos, fome e dramas familiares, o personagem recorre à ardileza e ao poder da música para sobreviver. Somos apresentados a uma história única que fala sobre superação, música, ciência e amor. O mundo criado é original e misterioso, e os enigmas sobre o Chandrian, uma lenda que se revela real da pior forma, deliciosos. Cativante, fluído e profundo, este foi o livro que apresentou ao mundo a escrita maravilhosa de Patrick Rothfuss.

Depois deste início de ano excelente em leituras, estou a ler Poder e Vingança de Jon Skovron, o primeiro volume do Império das Tormentas, e deverei seguir com Robin Hobb, Mark Lawrence e Bernard Cornwell, pelo que o segundo semestre deve ser também ótimo. Por cá vou continuar a partilhar opiniões, espero que gostem.

White Sand #1

And with that, my father humiliates the one man in the whole of the Diem who might one day stand against him.

O texto seguinte pode conter spoilers do primeiro volume da série White Sand (Formato BD)

White Sand é o título do primeiro romance de alta fantasia escrito pelo norte-americano Brandon Sanderson. O livro nunca foi publicado, mas quando pediram ao autor uma história para ser adaptada como graphic novel, Sanderson foi buscá-lo à gaveta e reescreveu-o, melhorando a trama de modo a que esta fosse publicável.

A Dynamite Entertainment transformou o primeiro terço do livro na primeira de três graphic novels, que compreendem o livro na íntegra. O volume inaugural da trilogia White Sand foi publicado em junho de 2016, com adaptação de Rik Hoskin, ilustrações de Julius Gopez e cores de Ross Campbell. Os restantes dois volumes ainda não foram publicados, e a história só está disponível em inglês e em formato gráfico.

Ainda que o formato seja completamente diferente do que os fãs de Brandon Sanderson estão acostumados, os ingredientes são os mesmos. O planeta em que este livro se passa pertence ao universo partilhado pelas séries Mistborn, Elantris, Warbreaker e The Stormlight Archive, a Cosmere. Existem, porém, diferenças substanciais no ambiente deste shardworld (fragmento de mundo), nomenclatura atribuída aos planetas deste universo.

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Imagem Dynamite

Enquadramento social e geográfico

Taldain é o shardworld de White Sand. Se Mistborn e Warbreaker apresentam planetas mais semelhantes à nossa Terra, esta história apresenta um planeta dividido. Uma vez que ele é inamovível, numa das suas metades é sempre de dia e na outra é sempre de noite. Isso divide este mundo em Dayside e Nightside. Como parece evidente, cada metade conta com as suas características únicas e especiais, e como é apanágio do autor do Nebraska, o mundo conta com um sistema de magia peculiar.

Neste primeiro volume, pouco nos é revelado sobre a História de Taldain. As mais importantes nações do Dayside são Kerzta, Kerla e Lossand. No Dayside há os Mestres de Areia, sujeitos de vestes brancas que vivem em comunidade pelos desertos, onde treinam e melhoram as suas práticas mágicas. Voar, invocar tempestades ou mover objetos com a mente são capacidades que lhes são atribuídas. Estes Mestres de Areia possuem, no entanto, uma sede localizada nas imediações da cidade de Kezare, em Lossand, chamada de Diem. O mesmo nome que é atribuído à guilda dos Mestres de Areia.

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Capa Dynamite

Os Mestres de Areia possuem uma hierarquia, encabeçada pelo mastrell, que possui a faixa dourada, seguido por várias posições inferiores, cada uma com a sua cor, até ao acolent, que possui a faixa branca. As crianças que pretendem iniciar a sua formação para se tornarem Mestres da Areia são obrigadas a passar por exigentes provações e exames, e só os mais talentosos são admitidos. Uma vez que se tornou um acolent, o aprendiz tem um treino de quatro anos até poder alistar-se numa das sete fileiras permanentes, de acordo com a autorização do mastrell.

Por sua vez, o Nightside permanece um grande mistério. A sua estrutura social rege-se por uma espécie de feudos ou ducados, pertencentes ao grandioso Império Dynasty. Os seus habitantes têm pele escura e usam armas de fogo como revólveres ou bacamartes, graças à descoberta da pólvora nessa metade do planeta, o que desmascara uma clara evolução em relação à zona diurna.

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Prancha Dynamite

O sistema de magia e a religião

Num mundo habitado por espécies distintas e inusitadas, cada cultura contém os seus credos e ritos próprios. Os Mestres de Areia veneram o Senhor da Areia, o deus mais influente do Dayside, mas nem todos os povos “diurnos” o adoram e existem mesmo outras interpretações da sua fé. Os kerztianos seguem uma doutrina chamada Filosofia Ker’Reen, na qual o Senhor da Areia manifesta-se através do sol, e qualificam o domínio das areias como heresia, o que provocou uma guerra antiga entre Kerzta e Lossand.

O sistema de magia utilizado em White Sand é exatamente o domínio das areias. Os Mestres de Areia conseguem controlar fitas de areia, para se defender ou atacar, com recurso à água do seu próprio corpo, daí que a água seja um elemento essencial na sua cultura e nutrição. O domínio excessivo da areia pode, porém, conduzi-los à desidratação. Deste modo, a água desempenha o papel de combustível que o metal possui na série Mistborn e o breath em Warbreaker, outras obras de Sanderson.

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Imagem Dynamite

Lossand possui um conselho de guildas chamado Taishin, composto por oito representantes das Profissões de Lossand. O Lord Mastrell, que representa o líder dos Mestres de Areia, e Lady Judge, que representa a Justiça, são os mais importantes. Eles governam a nação de uma forma férrea e conservadora.

No que diz respeito aos kerztianos, eles também possuem um grupo social semelhante às Profissões de Lossand, o grupo DaiKeen, que professa a Filosofia Ker’Reen. Tradicionalmente, são divididos entre sacerdotes, guerreiros e comerciantes. O clero é liderado pelo a’kar – o sumo sacerdote – e os seus membros possuem cicatrizes na testa de forma quadrangular, enquanto os guerreiros exibem cicatrizes em forma de X. Surgem, no entanto, evidências de um quarto “ofício” entre os Daikeen – o sacerdote-guerreiro – , uma vez que alguns kerztianos exibem cicatrizes que misturam o X com o quadrado.

Here on Dayside the sun is king. Ker’Reen Philosophy, the religion of Kerztians, calls the sun the manifestation of the Sand Lord, the source of man’s autonomy and independence.

A história de Kenton

Kenton é o protagonista de White Sand. Ele é o filho mais novo do mastrell Praxton, líder de uma comunidade de Mestres de Areia. É fruto de uma relação deste com uma mulher darksider, como denunciam as feições morenas do rapaz. Nove dos seus irmãos revelaram talento para o domínio da areia e subiram na hierarquia, mas Kenton nunca mostrou controlo sobre as fitas de areia. Ainda assim, sempre foi teimoso e bom em argumentos, e recitando a Lei conseguiu ingressar no Diem como acolent.

Nessa posição, foi influenciado a subir à posição de underfen, o grau acima, mas seria uma posição estática, sem possibilidade de ascender na hierarquia, e Kenton acredita poder revelar-se talentoso como Mestre de Areia. Nesse sentido, compromete-se a seguir o Mastrell’s Path, um caminho tortuoso de grande exigência física e mental, para provar que conseguirá tornar-se um mastrell.

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Exemplar White Sand (pinterest)

Ainda que ninguém acredite que ele consiga concluir o caminho, Kenton não só alcança as esferas, como enfrenta o guardião final, um monstro das areias. Nesse despique, o rapaz mata a criatura, o que se revela uma grande façanha e culmina com o desaparecimento do Mastrell’s Path para sempre.

O evento surpreende toda a comunidade, mas Praxton não parece satisfeito, uma vez que sempre desdenhou daquele filho. Oferece-lhe uma vez mais a posição de underfen, mas é obrigado, pela dimensão da façanha, a atribuir-lhe o título de mastrell, contra a sua vontade. De um momento para o outro, Kenton passa de besta a bestial, mas poucos parecem satisfeitos com isso.

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Ais, Aarik, Kenton, Drile, Khriss e Baon (botanicaxu em pinterest)

A queda dos Mestres

Centenas de Mestres de Areia são convocados para a cerimónia que oficializa Kenton como novo mastrell. Na cerimónia, todos os mastrell seguem o protocolo de beber um cálice de água, mas Drile recusa-se a beber. Drile é um rapaz da mesma idade de Kenton, que já fora mastrell, mas tornou-se o primeiro a retroceder em estatuto, por alegadamente oferecer domínio de areia e homens a troco de pagamento. Durante a celebração, os Mestres de Areia são atacados por um exército de guerreiros kerztianos e o combate é desfavorável aos Mestres de Areia de uma forma assustadora. Mais tarde, Kenton julga que Drile possa ter traído o seu povo, colocando alguma espécie de veneno ou inibidor na água que fora servida, o único argumento que justifica que os kerztianos tenham conseguido vencer os Mestres, conhecidos pela sua perícia no domínio da areia, o que sugere fortemente uma cabala entre Drile e os DaiKeeni.

Naquele momento, porém, Kenton vê o pai morrer, assim como centenas de semelhantes. A hecatombe dos Mestres é esmagadora. Gravemente ferido e desidratado, Kenton perde a consciência. Quando acorda, encontra um grupo de pessoas de pele escura à sua volta. Darksiders. Kenton compreende o seu idioma, mas não o revela de imediato, até perceber que estes não constituem uma ameaça clara. O grupo é liderado por uma mulher chamada Khrissalla, uma duquesa jovem de aspeto refinado e educação académica, acompanhada por um homem de forte constituição chamado Baon, um antropólogo chamado Jon Acron e um linguista de seu nome Cynder. Ao perceberem que ele os compreende, Khriss convida-o para ser o seu guia, ao que ele acede, sem nunca revelar ser um Mestre de Areia.

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Imagem Dynamite

Usando armas de fogo e montados em equídeos coriáceos, os darksiders são misteriosos, mas parecem mais eruditos que ameaçadores. À medida que Kenton lhes apresenta a cultura kerztiana, ele tenta compreender as suas intenções. A duquesa Khriss revela ter vindo de Elis, porque acredita que o príncipe Gevaldin foi morto. Por alguma razão, ela pretende seguir com o seu propósito – encontrar os Mestres de Areia – sem que revele os seus motivos. Kenton, que julga ser um dos últimos, senão o último, continua a esconder a verdade sobre a sua identidade. Ainda assim, um objetivo molda-se na sua mente: rumar a Lossand para reclamar o posto de Lord Mastrell e procurar vingança ao massacre que vitimou o seu povo.

A tarefa, porém, revela-se mais difícil do que poderia supor e várias forças parecem convergir para o embargar. Kenton, porém, sempre se mostrou conhecedor das leis, teimoso e cheio de lábia. As várias surpresas e contrariedades em que tropeça não o impedem de seguir os seus propósitos.

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Kenton e Khriss (17thshard)
SINOPSE:

A brand new saga of magic and adventure by #1 New York Times best-selling author Brandon Sanderson.
On the planet of Taldain, the legendary Sand Masters harness arcane powers to manipulate sand in spectacular ways. But when they are slaughtered in a sinister conspiracy, the weakest of their number, Kenton, believes himself to be the only survivor. With enemies closing in on all sides, Kenton forges an unlikely partnership with Khriss — a mysterious Darksider who hides secrets of her own.
White Sand brings to life a crucial, unpublished part of Brandon Sanderson s sprawling Cosmere universe. The story has been adapted by Rik Hoskin (Mercy Thompson), with art by Julius Gopez and colors by Ross Campbell. Employing powerful imagery and Sanderson s celebrated approach to magical systems, White Sand is a spectacular new saga for lovers of fantasy and adventure.

OPINIÃO:

A Cosmere chegou às graphic novels. Depois de ter conquistado o mundo da fantasia com os seus worldbuildings e sistemas de magia originais, Brandon Sanderson vem agora apresentar-nos Taldain, o primeiro planeta deste universo expandido, nunca antes conhecido pelos leitores. Culturas ricas e variegadas, carregadas de histórias, odores e sensações, magias únicas, chichés invertidos e plot-twists geniais são os ingredientes de sucesso deste autor norte-americano. White Sand não é exceção.

Depois de já ter piscado o olho a este livro na Feira do Livro do Porto e no Fórum Fantástico em Lisboa, acabei por ter acesso a ele numa fase em que Brandon Sanderson ganhou um lugar importante na minha lista de referências. Apesar de achar que as auto-proclamadas Leis de Sanderson já são praticadas há muito por escritores melhores, de lhe faltar mais palpabilidade nos mundos criados e algum lirismo literário, este autor cativa pela inovação constante e pelo ritmo de escrita.

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Prancha Dynamite

White Sand é uma graphic novel bem estruturada, conseguindo intervalar várias informações importantes para o enriquecimento do mundo apresentado com sequências de ação interessantes. Gostei praticamente de tudo o que foi difundido, dos personagens às várias culturas, todo o ambiente é muito “a minha praia” e a própria história bastante promissora. As inovações a nível de mundo são agradáveis. O planeta não se move. Metade vive sempre de dia. Metade sempre de noite. Conhecemos uma criatura das areias que lembra os vermes da saga Duna, “cavalos” esverdeados com protuberâncias ósseas pelo corpo, uma cultura mais erudita com recurso à pólvora, um ataque em massa de monges-guerreiros e uma traição. Motivos mais do que suficientes para me fazer apaixonar pela história.

Este é, no entanto, apenas o primeiro volume de uma trilogia, e compreende apenas o terço inicial do livro escrito por Brandon Sanderson. Por isso, é natural que muito esteja ainda por explorar e terminemos este volume com algumas dúvidas. Espero que algumas incongruências sejam sanadas nos álbuns seguintes. Muito embora a mensagem passada seja elogiável – Kenton nunca desiste dos seus objetivos e tem na teimosia o seu trunfo para conseguir ser o que deseja – foi um pouco displicente a rapidez com que fizeram o personagem passar de um zero à esquerda para o Mestre de Areia mais talentoso. Explicações para isso? Espero pelo próximo volume.

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Prancha Dynamite

Fiquei surpreendido com algumas questões que ficaram por explicar. Não percebo como é que o povo que vive do lado do dia tem a pele branca e os que vivem no lado da noite têm a pele escura, e como é que Kenton, sendo desprezado por todos desde tão novo, tem tantos conhecimentos sobre leis. Dividir a história em três volumes publicados com tanto tempo de distância pareceu-me um erro.

Ficamos a conhecer pouquíssimo sobre uma das protagonistas, Khriss (embora saiba que ela também entra nos livros de Sanderson Mistborn Era 2: The Bands of Mourning e Mistborn: Secret History, onde são reveladas muitas surpresas sobre ela). A duquesa é, ainda assim, uma das personagens que mais gostei. Houve outras, como Ais ou Aarik que tiveram meras aparições, embora parecesse que estavam já a meio de uma história que ficou por contar. Ao contrário de outras obras de Sanderson, mais originais, esta história parece ter sido influenciada largamente, em alguns momentos, por Duna de Frank Herbert, e segundo consta, também a história de Kenton parece um eco de A Roda do Tempo. De qualquer forma, essa questão não me incomodou.

A escrita de Rik Hoskin cumpriu, e embora não conheça o argumento original de Sanderson, pode-se dizer que a informação só falhou nas questões supracitadas. Já no que diz respeito à ilustração, o trabalho de Julius Gopez deixa-me algumas dúvidas. Em várias camadas de cores amareladas, entre o branco e o bege, o lápis de Gopez pareceu algo turvo, mas acabou por deixar os personagens bem reconhecíveis. Foi o casamento com essas mesmas cores, no entanto, que me encheu o olho. As tonalidades quentes coadunaram-se com o ambiente apresentado.

Este é um livro que não tomo como exemplo para o trabalho de Brandon Sanderson, nem recomendo para os virgens no género. Trata-se de uma pequena parcela da adaptação de um trabalho que sofreu alterações durante os últimos vinte anos. Mas que é uma bela adição ao universo Cosmere, lá isso é.

Avaliação: 7/10

Cosmere:

Mistborn Era 1 (Saída de Emergência):

#1 O Império Final

#2 O Poço da Ascensão

#3 O Herói das Eras Parte 1

#4 O Herói das Eras Parte 2

Warbreaker:

#1 Warbreaker

White Sand (Dynamite):

#1 White Sand Volume 1

Elantris (Leya):

#1 Elantris

#* The Emperor’s Soul

Mulheres Perigosas (Saída de Emergência)

#* Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno

(*) conto incluído em antologia

TAG – Carnaval Literário

Boa tarde! Hoje trago-vos uma TAG literária propícia à quadra. É a TAG – Carnaval Literário e e todos estão convidados a fazer a sua. Vamos ver o que me vai calhar. :p

#1 O melhor carro alegórico

Um livro que todos adoraram, tu estavas com medo de ler e acabaste por cair no hype

Sem título

O Império Final é, definitivamente, um livro que eu tinha a certeza que ia odiar antes de ler. Felizmente Brandon Sanderson trocou-me as voltas e embora Mistborn tenha as suas falhas, é uma saga que recomendo a todos os amantes de boa fantasia.

#2 A vida são dois dias, mas o Carnaval são três

Um livro que lias, lias, lias, e parecia nunca mais acabar

Sem título 2

O quarto livro da Saga do Assassino de Robin Hobb, A Vingança do Assassino, foi uma verdadeira indigestão. Sequências lentas repetiram-se umas atrás das outras, e apesar de não ter desgostado do livro no seu todo (e confesso já ter saudades da saga), foi um volume de tamanho médio que demorei muito tempo a ler.

#3 Camarote VIP

Um livro que leste antes de virar moda

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Bem, não posso dizer que fui um pioneiro na leitura de A Guerra dos Tronos (nem pouco mais ou menos), mas li-o mal saiu a primeira temporada da série de televisão e o hype ainda não era nada comparado ao que se tornou.

#4 Atrás da multidão

Um livro que “toda a gente leu” e tu ainda não

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A par das séries de Peter V. Brett e Robert Jordan, Crónicas do Regicida de Patrick Rothfuss é uma das mais famosas que ainda não tive o privilégio de ler. Apesar de já ter lido um conto de Rothfuss que não me convenceu, espero que este seja o ano em que finalmente leia O Nome do Vento.

#5 Loucura Total

Um livro que todos te aconselharam e… não gostaste

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Sandman, de Neil Gaiman, é uma das obras mais consensuais dentro do universo das bandas-desenhadas. Apesar de não ter gostado do primeiro volume, Prelúdios e Nocturnos, insisti na leitura e li toda a série. Não conseguiu agradar-me por aí além em nenhum momento, mas reconheço o seu mérito.

#6 Terça-Feira é o último dia

Um livro que chegou ao fim, mas querias que não acabasse ali

Sem Título

Sem dúvida um dos meus livros preferidos de sempre, República de Ladrões de Scott Lynch não conseguiu atingir o patamar de excelência do primeiro volume da sua série, As Mentiras de Locke Lamora, mas ainda assim deixou-me com aquele gostinho de “quero mais” pela chuva de expectativas que o final deixa para o quarto volume.

#7 Depois do Carnaval, a ressaca

O livro que te deixou com a maior ressaca literária

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O último livro das Crónicas de Gelo e Fogo. Pois é, senhor Martin. Temos muito que falar. Deixar os leitores anos e anos à espera para saber o que aconteceu, quando os protagonistas da saga estavam em situações críticas, é mau demais. Os Reinos do Caos deixou-me de ressaca até hoje.

Sintam-se à vontade para participar e responder à TAG – Carnaval Literário.