Resumo Trimestral de Leituras #9

O primeiro trimestre do ano chegou ao fim e com ele chegou a altura de fazer o habitual balanço trimestral de leituras. De Ken Follett a Neil Gaiman, passando por Brandon Sanderson e George R. R. Martin, revisitei alguns dos meus escritores favoritos e ainda tive o prazer de iniciar a Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss. Vejam a lista de leituras dos meses de janeiro, fevereiro e março:

A Darkness Surrounds Him, Outcast #1 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

The Whisperer War, The Walking Dead #27 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

Inimigos – Anton Tchekov

Um Jogo de Ti, Sandman #5 – Neil Gaiman

Fábulas e Reflexões, Sandman #6 – Neil Gaiman

Um Mundo Sem Fim, Vol. 1 – Ken Follett

Um Mundo Sem Fim Vol. 2 – Ken Follett

Vidas Breves, Sandman #7 – Neil Gaiman

A Estalagem no Fim do Mundo, Sandman #8 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 1, Sandman #9 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 2, Sandman #10 – Neil Gaiman

A Vigília, Sandman #11 – Neil Gaiman

Warbreaker, Warbreaker #1 – Brandon Sanderson

La Dueña – J. A. Alves

Vidas Secretas de Homens Mortos, Velvet #2 – Ed Brubaker, Steve Epting e Elizabeth Breitweiser

Autoridade, Área X #2 – Jeff Vandermeer

O Cavaleiro de Westeros – George R. R. Martin

White Sand #1 – Brandon Sanderson

Terrarium – João Barreiros e Luís Filipe Silva

Príncipe dos Dragões, Elric #1 – Michael Moorcock

Loki – Robert Rodi e Esad Ribic

Assombrações Sem Fim, Harrow County #1 – Cullen Bunn e Tyler Crook

Saga #6 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Um Diamante Para o Além, Bouncer #1 – Alejandro Jodorowsky e François Boucq

O Nome do Vento, Crónica do Regicida #1 – Patrick Rothfuss

sem-tituloO ano iniciou-se com um desafio em mente: começar a série fantástica de Patrick Rothfuss e ler os dois volumes em português do famoso Mundo Sem Fim de Ken Follett. E não é que cumpri? Janeiro foi um mês rico em leitura de bandas-desenhadas. Comecei com o primeiro volume da BD Outcast de Robert Kirkman, o mesmo autor de The Walking Dead. A Darkness Surrounds Him apresenta Kyle Byrnes como protagonista, e uma narrativa sombria prenhe de possessões demoníacas e histórias de vida dramáticas e violentas. Muito diferente da história de mortos-vivos, a mais conhecida de Kirkman, agradou-me acima de tudo pela forma como toda a temática é explorada de forma fluída e misteriosa. Também li o mais recente volume de The Walking Dead, a edição 27. The Whisperer War mostrou ser apenas a primeira batalha entre as comunidades e os Sussurradores. O exército de Rick, liderado por Dwight e com Negan na linha da frente, vence o primeiro round. No entanto, Hilltop é completamente destruída e a muito custo Maggie, Carl, Aaron e Jesus conseguem derrotar os seus inimigos. Mais um volume genial, que tem direito ao “funeral” de Lucille.

sem-tituloAinda nos primeiros dias de janeiro li o conto de Anton Tchekov Inimigos, uma história tão curta que não achei necessidade de escrever uma opinião. Fala sobre Varka, uma jovem criada cuja tarefa de adormecer um bebé faz-lhe crescer uma intensa sensação de sonolência, que é incapaz de dominar. Li ainda, de uma assentada, o que faltava da coleção Sandman (Vol. 5, Vol. 6, Vol. 7, Vol. 8, Vol. 9, Vol. 10, Vol. 11) de Neil Gaiman, publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público. Entremeando histórias soltas com uma linha narrativa central, Gaiman soube tecer toda a narrativa nos últimos volumes, que trouxeram inúmeras reflexões e uma sensação de renovação e esperança ao leitor. Apesar disso, Sandman não me apaixonou em nenhum momento e, por muito mérito que tenha, soou-me muito a “eterna promessa” e a histórias vagas.

sem-tituloDividido em Portugal em dois volumes, o livro Um Mundo Sem Fim (Vol. 1 e Vol. 2) de Ken Follett agarrou-me desde o primeiro momento. Apesar de repetir a receita de Os Pilares da Terra, adorei tanto um como o outro. Histórias dramáticas de amor e superação, sobre religião, política, medicina e sobrevivência. Uma história de época que retrata o drama da Peste Negra e a Guerra dos Cem Anos. Warbreaker é um livro de Brandon Sanderson, o autor do momento no que diz respeito à literatura fantástica. Uma espada falante, cabelos que mudam de cor mediante as emoções, soldados mortos-vivos que são comandados através de palavras de ordem, a capacidade de dar vida a objetos inanimados e, principalmente, um panteão de deuses que está bem vivo e habita entre os demais. Original e muito bem escrita, esta obra de fantasia consegue também acumular bons momentos de humor e imensas reviravoltas.

sem-tituloComecei fevereiro com La Dueña: Devoradora de Homens. Da autoria de J. A. Alves, o autor de Batalha Entre Sistemas, La Dueña mostra todo o esplendor dos llanos venezuelanos e uma história tensa de superstições locais e pactos com o demónio. Chris viaja até à Venezuela com a noiva, Ana Clara, para conhecer a fazenda que herdou do seu tio Miguel, mas quando lá chega encanta-se por Yolanda, a dona da fazenda vizinha. Dizem que essa mulher rouba a alma de todos que por ela se apaixonam. Gostei imenso. Vidas Secretas de Homens Mortos, o segundo volume da graphic novel Velvet traz-nos o melhor da equipa composta por Ed Brubaker (argumento), Steve Epting (ilustração) e Elizabeth Breitweiser (cores). Uma história de espionagem tensa que prende desde o primeiro momento. Velvet é uma antiga espia que se vê atirada para o centro da ação quando o seu superior é assassinado. Neste segundo volume, ela tenta descobrir quem a tramou e porquê, depois de saber que o seu esposo não era quem ela pensava. Entre soltar um prisioneiro, fazer uma viagem de comboio alucinante e fugir a cães-pisteiros, Velvet passa por várias amarguras neste excelente segundo álbum da trilogia.

sem-tituloAutoridade é o segundo volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer. Se esta história que mistura o terror psicológico ao bizarro (o new weird fiction) me fascinou no primeiro volume ao mostrar in loco as experiências vividas por quatro exploradoras numa zona frondosa alegadamente contaminada, este segundo livro vai mais além ao apresentar-nos Control, o novo diretor da agência que as enviou, e é através dele – tão ingénuo quanto o leitor – que vamos descobrindo, nos escritórios da Extensão Sul, os terríveis segredos que a agência guarda sobre aquela região tenebrosa. Passado 100 anos antes da ação de A Guerra dos Tronos, O Cavaleiro de Westeros (versão conto de George R. R. Martin e BD com adaptação de Ben Avery e ilustrações de Mike S. Miller) narra a ação no Torneio de Vaufreixo durante o reinado de Daenor II. Sor Arlan de Pataqueira morre de uma gripe a caminho do torneio, e o seu escudeiro Dunk resolve disputá-lo. Para isso, terá de contar com a ajuda do pequeno Egg e provar ser um cavaleiro, o que o irá colocar no cerne de várias disputas e provocar uma tempestade no reinado então calmo dos Targaryen. Excelente conto muito bem escrito, enquanto a BD se destaca pelas ilustrações cativantes e coloridas.

sem-titulo-2White Sand é uma graphic novel da Dynamite Entertainment. Com argumento de Rik Hoskin, ilustrações de Julius Gopez e cores de Ross Campbell, trata-se da adaptação de uma obra não publicada de Brandon Sanderson, com base numa revisão do seu primeiro livro, ambientado no universo Cosmere. Na verdade, este volume inaugural corresponde ao primeiro terço do livro. Em Taldain, um planeta inamovível – metade vive de dia e metade de noite – conhecemos Kenton, um jovem Mestre de Areia que desafia o mundo com a sua teimosia e determinação, vendo-se arrastado para uma conspiração terrível que pode acabar com o seu povo. Apesar de ser uma obra pouco convincente a nível de credibilidade, gostei do álbum. E terminei o mês de fevereiro da melhor forma. Vinte anos depois da publicação original, a Saída de Emergência vem publicar uma versão Redux, melhorada e ampliada de Terrarium, considerado por muitos como o melhor romance de Ficção Científica português. João Barreiros e Luís Filipe Silva são os autores. Estamos num futuro não tão distante assim, em que os exóticos, várias espécies de seres extraterrestres, foram atirados para o nosso planeta por entidades superiores. Quem são as Potestades, os IXytil, e esse tal de Mr. Lux? Uma guerra entre espécies dominantes poderá ser resolvida por meros humanos? Carregado de um humor ácido e termos futuristas, Terrarium é um hino à FC, indispensável para todos os fãs do género em Portugal.

sem-tituloMarço teve também um início auspicioso. Príncipe dos Dragões é o primeiro volume de Elric, uma série de fantasia épica publicada em 1972 por Michael Moorcock. Simples em prosa e carregado de dilemas morais, Príncipe dos Dragões apresenta-nos um Império em declínio e um imperador doente, dependente de drogas para se manter forte. Melniboné é o seu domínio, abrigo de dragões e de homens terríveis. A tradição relata os melniboneanos como sádicos e perversos, mas Elric parece uma alma generosa e cortês, o que provoca chispas de ódio no seu primo Yyrkoon, que lhe pretende usurpar o trono. O braço de ferro entre Elric e Yyrkoon arrasta-se até às últimas consequências, com Cymoril, a amada de Elric, no vértice de um triângulo inconstante de amor familiar. Com argumento de Robert Rodi e ilustração de Esad Ribic, a BD Loki mostra uma outra face da história de Thor, focada no seu meio-irmão. De inspiração trágica e enaltecendo a decadência de Asgard através da queda de Odin e dos múltiplos dilemas do personagem-título, foi uma boa leitura que se destaca pelos coloridos e traços fortes.

Sem títuloPrimeiro volume de Harrow County, Assombrações Sem Fim apresenta a história desta povoação isolada no sul dos E.U.A., envolta em superstições e crendices. O povo recorria a Hester para se livrar dos seus problemas domésticos, mas quando a natureza se virou contra eles, depressa atiraram-lhe as culpas e condenaram-na à morte, sob a acusação de bruxaria. A mulher demorou a morrer e jurou regressar. Pouco tempo depois, uma criança surgiu naquele lugar fatídico. Uma brilhante BD de terror, escrita por Cullen Bunn e com arte de Tyler Crook. Brilhante álbum da série Saga, o quinto volume da space opera gráfica de Brian K. Vaughan e Fiona Staples traz uma linguagem crua e brutal, momentos de grande ritmo e ação entremeados por muito humor. A pequena Hazel começa a sua educação numa prisão galática, enquanto os pais procuram desesperadamente por ela. Vontade está de regresso, disposto a vingar a morte da irmã, e nem Gus o consegue parar. Provocante e irreverente, esta série da Image Comics está bem e recomenda-se.

sem-tituloUm Diamante Para o Além é o primeiro volume da série de BD Bouncer de Alejandro Jodorowsky e François Boucq. Publicado pelas Edições ASA em 2007, trata-se de um western subversivo, que narra de forma ficcional os acontecimentos que se sucederam à Guerra da Secessão nos E.U.A. O Capitão Raltan reúne os seus mercenários, que se recusaram a render após o final do conflito militar, espalhando o terror nos ranchos. Mas o que ele procura é um diamante, que roubara anos atrás. Na sua busca, assassina um antigo subordinado, provocando assim a atenção de um familiar daquele. Bouncer é um velho maneta, conhecido por resolver problemas de forma abrupta e imprevisível. Uma BD muito boa, da qual tinha grandes expectativas e não me surpreendeu tanto. E terminei março com O Nome do Vento. Primeiro volume da Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss, esta auto-biografia de um personagem fictício é brilhante. Desde a infância de Kvothe na trupe até aos seus estudos na Universidade, passando por várias privações como espancamentos, fome e dramas familiares, o personagem recorre à ardileza e ao poder da música para sobreviver. Somos apresentados a uma história única que fala sobre superação, música, ciência e amor. O mundo criado é original e misterioso, e os enigmas sobre o Chandrian, uma lenda que se revela real da pior forma, deliciosos. Cativante, fluído e profundo, este foi o livro que apresentou ao mundo a escrita maravilhosa de Patrick Rothfuss.

Depois deste início de ano excelente em leituras, estou a ler Poder e Vingança de Jon Skovron, o primeiro volume do Império das Tormentas, e deverei seguir com Robin Hobb, Mark Lawrence e Bernard Cornwell, pelo que o segundo semestre deve ser também ótimo. Por cá vou continuar a partilhar opiniões, espero que gostem.

White Sand #1

And with that, my father humiliates the one man in the whole of the Diem who might one day stand against him.

O texto seguinte pode conter spoilers do primeiro volume da série White Sand (Formato BD)

White Sand é o título do primeiro romance de alta fantasia escrito pelo norte-americano Brandon Sanderson. O livro nunca foi publicado, mas quando pediram ao autor uma história para ser adaptada como graphic novel, Sanderson foi buscá-lo à gaveta e reescreveu-o, melhorando a trama de modo a que esta fosse publicável.

A Dynamite Entertainment transformou o primeiro terço do livro na primeira de três graphic novels, que compreendem o livro na íntegra. O volume inaugural da trilogia White Sand foi publicado em junho de 2016, com adaptação de Rik Hoskin, ilustrações de Julius Gopez e cores de Ross Campbell. Os restantes dois volumes ainda não foram publicados, e a história só está disponível em inglês e em formato gráfico.

Ainda que o formato seja completamente diferente do que os fãs de Brandon Sanderson estão acostumados, os ingredientes são os mesmos. O planeta em que este livro se passa pertence ao universo partilhado pelas séries Mistborn, Elantris, Warbreaker e The Stormlight Archive, a Cosmere. Existem, porém, diferenças substanciais no ambiente deste shardworld (fragmento de mundo), nomenclatura atribuída aos planetas deste universo.

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Imagem Dynamite

Enquadramento social e geográfico

Taldain é o shardworld de White Sand. Se Mistborn e Warbreaker apresentam planetas mais semelhantes à nossa Terra, esta história apresenta um planeta dividido. Uma vez que ele é inamovível, numa das suas metades é sempre de dia e na outra é sempre de noite. Isso divide este mundo em Dayside e Nightside. Como parece evidente, cada metade conta com as suas características únicas e especiais, e como é apanágio do autor do Nebraska, o mundo conta com um sistema de magia peculiar.

Neste primeiro volume, pouco nos é revelado sobre a História de Taldain. As mais importantes nações do Dayside são Kerzta, Kerla e Lossand. No Dayside há os Mestres de Areia, sujeitos de vestes brancas que vivem em comunidade pelos desertos, onde treinam e melhoram as suas práticas mágicas. Voar, invocar tempestades ou mover objetos com a mente são capacidades que lhes são atribuídas. Estes Mestres de Areia possuem, no entanto, uma sede localizada nas imediações da cidade de Kezare, em Lossand, chamada de Diem. O mesmo nome que é atribuído à guilda dos Mestres de Areia.

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Capa Dynamite

Os Mestres de Areia possuem uma hierarquia, encabeçada pelo mastrell, que possui a faixa dourada, seguido por várias posições inferiores, cada uma com a sua cor, até ao acolent, que possui a faixa branca. As crianças que pretendem iniciar a sua formação para se tornarem Mestres da Areia são obrigadas a passar por exigentes provações e exames, e só os mais talentosos são admitidos. Uma vez que se tornou um acolent, o aprendiz tem um treino de quatro anos até poder alistar-se numa das sete fileiras permanentes, de acordo com a autorização do mastrell.

Por sua vez, o Nightside permanece um grande mistério. A sua estrutura social rege-se por uma espécie de feudos ou ducados, pertencentes ao grandioso Império Dynasty. Os seus habitantes têm pele escura e usam armas de fogo como revólveres ou bacamartes, graças à descoberta da pólvora nessa metade do planeta, o que desmascara uma clara evolução em relação à zona diurna.

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Prancha Dynamite

O sistema de magia e a religião

Num mundo habitado por espécies distintas e inusitadas, cada cultura contém os seus credos e ritos próprios. Os Mestres de Areia veneram o Senhor da Areia, o deus mais influente do Dayside, mas nem todos os povos “diurnos” o adoram e existem mesmo outras interpretações da sua fé. Os kerztianos seguem uma doutrina chamada Filosofia Ker’Reen, na qual o Senhor da Areia manifesta-se através do sol, e qualificam o domínio das areias como heresia, o que provocou uma guerra antiga entre Kerzta e Lossand.

O sistema de magia utilizado em White Sand é exatamente o domínio das areias. Os Mestres de Areia conseguem controlar fitas de areia, para se defender ou atacar, com recurso à água do seu próprio corpo, daí que a água seja um elemento essencial na sua cultura e nutrição. O domínio excessivo da areia pode, porém, conduzi-los à desidratação. Deste modo, a água desempenha o papel de combustível que o metal possui na série Mistborn e o breath em Warbreaker, outras obras de Sanderson.

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Imagem Dynamite

Lossand possui um conselho de guildas chamado Taishin, composto por oito representantes das Profissões de Lossand. O Lord Mastrell, que representa o líder dos Mestres de Areia, e Lady Judge, que representa a Justiça, são os mais importantes. Eles governam a nação de uma forma férrea e conservadora.

No que diz respeito aos kerztianos, eles também possuem um grupo social semelhante às Profissões de Lossand, o grupo DaiKeen, que professa a Filosofia Ker’Reen. Tradicionalmente, são divididos entre sacerdotes, guerreiros e comerciantes. O clero é liderado pelo a’kar – o sumo sacerdote – e os seus membros possuem cicatrizes na testa de forma quadrangular, enquanto os guerreiros exibem cicatrizes em forma de X. Surgem, no entanto, evidências de um quarto “ofício” entre os Daikeen – o sacerdote-guerreiro – , uma vez que alguns kerztianos exibem cicatrizes que misturam o X com o quadrado.

Here on Dayside the sun is king. Ker’Reen Philosophy, the religion of Kerztians, calls the sun the manifestation of the Sand Lord, the source of man’s autonomy and independence.

A história de Kenton

Kenton é o protagonista de White Sand. Ele é o filho mais novo do mastrell Praxton, líder de uma comunidade de Mestres de Areia. É fruto de uma relação deste com uma mulher darksider, como denunciam as feições morenas do rapaz. Nove dos seus irmãos revelaram talento para o domínio da areia e subiram na hierarquia, mas Kenton nunca mostrou controlo sobre as fitas de areia. Ainda assim, sempre foi teimoso e bom em argumentos, e recitando a Lei conseguiu ingressar no Diem como acolent.

Nessa posição, foi influenciado a subir à posição de underfen, o grau acima, mas seria uma posição estática, sem possibilidade de ascender na hierarquia, e Kenton acredita poder revelar-se talentoso como Mestre de Areia. Nesse sentido, compromete-se a seguir o Mastrell’s Path, um caminho tortuoso de grande exigência física e mental, para provar que conseguirá tornar-se um mastrell.

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Exemplar White Sand (pinterest)

Ainda que ninguém acredite que ele consiga concluir o caminho, Kenton não só alcança as esferas, como enfrenta o guardião final, um monstro das areias. Nesse despique, o rapaz mata a criatura, o que se revela uma grande façanha e culmina com o desaparecimento do Mastrell’s Path para sempre.

O evento surpreende toda a comunidade, mas Praxton não parece satisfeito, uma vez que sempre desdenhou daquele filho. Oferece-lhe uma vez mais a posição de underfen, mas é obrigado, pela dimensão da façanha, a atribuir-lhe o título de mastrell, contra a sua vontade. De um momento para o outro, Kenton passa de besta a bestial, mas poucos parecem satisfeitos com isso.

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Ais, Aarik, Kenton, Drile, Khriss e Baon (botanicaxu em pinterest)

A queda dos Mestres

Centenas de Mestres de Areia são convocados para a cerimónia que oficializa Kenton como novo mastrell. Na cerimónia, todos os mastrell seguem o protocolo de beber um cálice de água, mas Drile recusa-se a beber. Drile é um rapaz da mesma idade de Kenton, que já fora mastrell, mas tornou-se o primeiro a retroceder em estatuto, por alegadamente oferecer domínio de areia e homens a troco de pagamento. Durante a celebração, os Mestres de Areia são atacados por um exército de guerreiros kerztianos e o combate é desfavorável aos Mestres de Areia de uma forma assustadora. Mais tarde, Kenton julga que Drile possa ter traído o seu povo, colocando alguma espécie de veneno ou inibidor na água que fora servida, o único argumento que justifica que os kerztianos tenham conseguido vencer os Mestres, conhecidos pela sua perícia no domínio da areia, o que sugere fortemente uma cabala entre Drile e os DaiKeeni.

Naquele momento, porém, Kenton vê o pai morrer, assim como centenas de semelhantes. A hecatombe dos Mestres é esmagadora. Gravemente ferido e desidratado, Kenton perde a consciência. Quando acorda, encontra um grupo de pessoas de pele escura à sua volta. Darksiders. Kenton compreende o seu idioma, mas não o revela de imediato, até perceber que estes não constituem uma ameaça clara. O grupo é liderado por uma mulher chamada Khrissalla, uma duquesa jovem de aspeto refinado e educação académica, acompanhada por um homem de forte constituição chamado Baon, um antropólogo chamado Jon Acron e um linguista de seu nome Cynder. Ao perceberem que ele os compreende, Khriss convida-o para ser o seu guia, ao que ele acede, sem nunca revelar ser um Mestre de Areia.

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Imagem Dynamite

Usando armas de fogo e montados em equídeos coriáceos, os darksiders são misteriosos, mas parecem mais eruditos que ameaçadores. À medida que Kenton lhes apresenta a cultura kerztiana, ele tenta compreender as suas intenções. A duquesa Khriss revela ter vindo de Elis, porque acredita que o príncipe Gevaldin foi morto. Por alguma razão, ela pretende seguir com o seu propósito – encontrar os Mestres de Areia – sem que revele os seus motivos. Kenton, que julga ser um dos últimos, senão o último, continua a esconder a verdade sobre a sua identidade. Ainda assim, um objetivo molda-se na sua mente: rumar a Lossand para reclamar o posto de Lord Mastrell e procurar vingança ao massacre que vitimou o seu povo.

A tarefa, porém, revela-se mais difícil do que poderia supor e várias forças parecem convergir para o embargar. Kenton, porém, sempre se mostrou conhecedor das leis, teimoso e cheio de lábia. As várias surpresas e contrariedades em que tropeça não o impedem de seguir os seus propósitos.

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Kenton e Khriss (17thshard)
SINOPSE:

A brand new saga of magic and adventure by #1 New York Times best-selling author Brandon Sanderson.
On the planet of Taldain, the legendary Sand Masters harness arcane powers to manipulate sand in spectacular ways. But when they are slaughtered in a sinister conspiracy, the weakest of their number, Kenton, believes himself to be the only survivor. With enemies closing in on all sides, Kenton forges an unlikely partnership with Khriss — a mysterious Darksider who hides secrets of her own.
White Sand brings to life a crucial, unpublished part of Brandon Sanderson s sprawling Cosmere universe. The story has been adapted by Rik Hoskin (Mercy Thompson), with art by Julius Gopez and colors by Ross Campbell. Employing powerful imagery and Sanderson s celebrated approach to magical systems, White Sand is a spectacular new saga for lovers of fantasy and adventure.

OPINIÃO:

A Cosmere chegou às graphic novels. Depois de ter conquistado o mundo da fantasia com os seus worldbuildings e sistemas de magia originais, Brandon Sanderson vem agora apresentar-nos Taldain, o primeiro planeta deste universo expandido, nunca antes conhecido pelos leitores. Culturas ricas e variegadas, carregadas de histórias, odores e sensações, magias únicas, chichés invertidos e plot-twists geniais são os ingredientes de sucesso deste autor norte-americano. White Sand não é exceção.

Depois de já ter piscado o olho a este livro na Feira do Livro do Porto e no Fórum Fantástico em Lisboa, acabei por ter acesso a ele numa fase em que Brandon Sanderson ganhou um lugar importante na minha lista de referências. Apesar de achar que as auto-proclamadas Leis de Sanderson já são praticadas há muito por escritores melhores, de lhe faltar mais palpabilidade nos mundos criados e algum lirismo literário, este autor cativa pela inovação constante e pelo ritmo de escrita.

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Prancha Dynamite

White Sand é uma graphic novel bem estruturada, conseguindo intervalar várias informações importantes para o enriquecimento do mundo apresentado com sequências de ação interessantes. Gostei praticamente de tudo o que foi difundido, dos personagens às várias culturas, todo o ambiente é muito “a minha praia” e a própria história bastante promissora. As inovações a nível de mundo são agradáveis. O planeta não se move. Metade vive sempre de dia. Metade sempre de noite. Conhecemos uma criatura das areias que lembra os vermes da saga Duna, “cavalos” esverdeados com protuberâncias ósseas pelo corpo, uma cultura mais erudita com recurso à pólvora, um ataque em massa de monges-guerreiros e uma traição. Motivos mais do que suficientes para me fazer apaixonar pela história.

Este é, no entanto, apenas o primeiro volume de uma trilogia, e compreende apenas o terço inicial do livro escrito por Brandon Sanderson. Por isso, é natural que muito esteja ainda por explorar e terminemos este volume com algumas dúvidas. Espero que algumas incongruências sejam sanadas nos álbuns seguintes. Muito embora a mensagem passada seja elogiável – Kenton nunca desiste dos seus objetivos e tem na teimosia o seu trunfo para conseguir ser o que deseja – foi um pouco displicente a rapidez com que fizeram o personagem passar de um zero à esquerda para o Mestre de Areia mais talentoso. Explicações para isso? Espero pelo próximo volume.

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Prancha Dynamite

Fiquei surpreendido com algumas questões que ficaram por explicar. Não percebo como é que o povo que vive do lado do dia tem a pele branca e os que vivem no lado da noite têm a pele escura, e como é que Kenton, sendo desprezado por todos desde tão novo, tem tantos conhecimentos sobre leis. Dividir a história em três volumes publicados com tanto tempo de distância pareceu-me um erro.

Ficamos a conhecer pouquíssimo sobre uma das protagonistas, Khriss (embora saiba que ela também entra nos livros de Sanderson Mistborn Era 2: The Bands of Mourning e Mistborn: Secret History, onde são reveladas muitas surpresas sobre ela). A duquesa é, ainda assim, uma das personagens que mais gostei. Houve outras, como Ais ou Aarik que tiveram meras aparições, embora parecesse que estavam já a meio de uma história que ficou por contar. Ao contrário de outras obras de Sanderson, mais originais, esta história parece ter sido influenciada largamente, em alguns momentos, por Duna de Frank Herbert, e segundo consta, também a história de Kenton parece um eco de A Roda do Tempo. De qualquer forma, essa questão não me incomodou.

A escrita de Rik Hoskin cumpriu, e embora não conheça o argumento original de Sanderson, pode-se dizer que a informação só falhou nas questões supracitadas. Já no que diz respeito à ilustração, o trabalho de Julius Gopez deixa-me algumas dúvidas. Em várias camadas de cores amareladas, entre o branco e o bege, o lápis de Gopez pareceu algo turvo, mas acabou por deixar os personagens bem reconhecíveis. Foi o casamento com essas mesmas cores, no entanto, que me encheu o olho. As tonalidades quentes coadunaram-se com o ambiente apresentado.

Este é um livro que não tomo como exemplo para o trabalho de Brandon Sanderson, nem recomendo para os virgens no género. Trata-se de uma pequena parcela da adaptação de um trabalho que sofreu alterações durante os últimos vinte anos. Mas que é uma bela adição ao universo Cosmere, lá isso é.

Avaliação: 7/10

Cosmere:

Mistborn Era 1 (Saída de Emergência):

#1 O Império Final

#2 O Poço da Ascensão

#3 O Herói das Eras Parte 1

#4 O Herói das Eras Parte 2

Warbreaker:

#1 Warbreaker

White Sand (Dynamite):

#1 White Sand Volume 1

TAG – Carnaval Literário

Boa tarde! Hoje trago-vos uma TAG literária propícia à quadra. É a TAG – Carnaval Literário e e todos estão convidados a fazer a sua. Vamos ver o que me vai calhar. :p

#1 O melhor carro alegórico

Um livro que todos adoraram, tu estavas com medo de ler e acabaste por cair no hype

Sem título

O Império Final é, definitivamente, um livro que eu tinha a certeza que ia odiar antes de ler. Felizmente Brandon Sanderson trocou-me as voltas e embora Mistborn tenha as suas falhas, é uma saga que recomendo a todos os amantes de boa fantasia.

#2 A vida são dois dias, mas o Carnaval são três

Um livro que lias, lias, lias, e parecia nunca mais acabar

Sem título 2

O quarto livro da Saga do Assassino de Robin Hobb, A Vingança do Assassino, foi uma verdadeira indigestão. Sequências lentas repetiram-se umas atrás das outras, e apesar de não ter desgostado do livro no seu todo (e confesso já ter saudades da saga), foi um volume de tamanho médio que demorei muito tempo a ler.

#3 Camarote VIP

Um livro que leste antes de virar moda

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Bem, não posso dizer que fui um pioneiro na leitura de A Guerra dos Tronos (nem pouco mais ou menos), mas li-o mal saiu a primeira temporada da série de televisão e o hype ainda não era nada comparado ao que se tornou.

#4 Atrás da multidão

Um livro que “toda a gente leu” e tu ainda não

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A par das séries de Peter V. Brett e Robert Jordan, Crónicas do Regicida de Patrick Rothfuss é uma das mais famosas que ainda não tive o privilégio de ler. Apesar de já ter lido um conto de Rothfuss que não me convenceu, espero que este seja o ano em que finalmente leia O Nome do Vento.

#5 Loucura Total

Um livro que todos te aconselharam e… não gostaste

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Sandman, de Neil Gaiman, é uma das obras mais consensuais dentro do universo das bandas-desenhadas. Apesar de não ter gostado do primeiro volume, Prelúdios e Nocturnos, insisti na leitura e li toda a série. Não conseguiu agradar-me por aí além em nenhum momento, mas reconheço o seu mérito.

#6 Terça-Feira é o último dia

Um livro que chegou ao fim, mas querias que não acabasse ali

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Sem dúvida um dos meus livros preferidos de sempre, República de Ladrões de Scott Lynch não conseguiu atingir o patamar de excelência do primeiro volume da sua série, As Mentiras de Locke Lamora, mas ainda assim deixou-me com aquele gostinho de “quero mais” pela chuva de expectativas que o final deixa para o quarto volume.

#7 Depois do Carnaval, a ressaca

O livro que te deixou com a maior ressaca literária

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O último livro das Crónicas de Gelo e Fogo. Pois é, senhor Martin. Temos muito que falar. Deixar os leitores anos e anos à espera para saber o que aconteceu, quando os protagonistas da saga estavam em situações críticas, é mau demais. Os Reinos do Caos deixou-me de ressaca até hoje.

Sintam-se à vontade para participar e responder à TAG – Carnaval Literário.

Como Erikson, Sanderson e Companhia Esmagaram os Orcs

Se na primeira metade do século XX um senhor de cachimbo na boca criou aquele que viria a ser o mais badalado worldbuilding de fantasia da era moderna, os seus iguais e seguidores criaram um sem número de mundos tão ou mais ricos que o apresentado em O Hobbit ou na trilogia O Senhor dos Anéis. Estou a falar de J. R. R. Tolkien. Não foi o percursor do género fantástico nem talvez o escritor mais dotado, mas deixou uma marca indelével na História da ficção fantástica. Muitos foram os autores que lhe seguiram os passos, replicando história, características humanas e terrestres. Mas as tendências mudam, e os elfos, orcs e anões foram vítimas de uma extinção em massa, desaparecendo quase por completo. Correndo o risco de parecer um daqueles senhores despenteados do Canal História, vou tentar explicar o porquê.

O mundo é cíclico. Já Robert Jordan propõe uma teoria bastante interessante em A Roda do Tempo, saga de fantasia que – shame on me – ainda não tive a oportunidade de ler. E tudo o que hoje é adorado, amanhã torna-se chato e enfadonho. Foi o que aconteceu aos discípulos de Tolkien. Mas, quem sabe, volte a haver um grande hype em torno de elfos e orcs daqui por muitos anos? Tudo bem, ainda hoje há escritores a repetir a fórmula e muitos fãs dos mundos tradicionais por aí, da mesma forma como eu confesso ser um grande admirador das antigas histórias de espada e feitiçaria de Robert E. Howard, mas parece inevitável admitir que Terry Brooks, Christopher Paolini e companhia já não conseguem surtir o efeito que teriam conseguido páginas da vida atrás, porque, na minha humilde opinião, falta-lhes o essencial em qualquer ofício praticado pelo Homem: a inovação.

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Gimli e Legolas de O Senhor dos Anéis (ghostofdener em deviantart)

O sucesso depende de muitos factores, mas oferecer qualidade não chega. Há que oferecer algo de novo. É isso que define o sucesso, foi isso que fez J. R. R. Tolkien ficar imortalizado nas areias do tempo, e não só ele. Muitos como eu não tiveram o privilégio de ler Fritz Leiber, Jack Vance, Stephen Donaldson ou Glen Cook, entre outros, mas estes nomes – abafados pela hegemonia de outros géneros – influenciaram alguns dos melhores autores da actualidade. Não vou pronunciar-me sobre literatura virada para público juvenil, porque corro o risco de criticar J. K. Rowling, Rick Riordan, T. A. Barron e outros que tais só porque não gosto.

É, em grande parte, a originalidade dos mundos que me fascina. Se Neil Gaiman me encanta pela escrita e pela forma doce e negra com que remexe nos sentimentos humanos, o seu imaginário nunca me conseguiu prender, talvez por seguir uma linha mais subversiva das mitologias urbanas. Seguindo um registo distinto mas numa toada semelhante, Stephen King apresenta em A Torre Negra um diálogo mais aberto e intimista, conseguindo os seus picos de humor de forma mais genuína. O horror presente em King também se coaduna mais com o meu ADN de leitor, mais visceral e preto-no-branco.

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O ka-tet de A Torre Negra (Browsing Tradicional Art em deviantart)

Terror e ficção-científica são dois géneros da ficção especulativa que me cativam, menos que a fantasia, mas que se fundem a ela em grandes obras de referência. No entanto, é a História a verdadeira base do meu culto à fantasia, e são as Histórias criadas de raiz que mais me fascinam. Se foi o Senhor dos Anéis a implementar-me hábitos de leitura, fazendo-me entrar nas espadas e feitiçarias de Robert E. Howard (um dos meus autores preferidos de sempre) e nos livros role-playing Fighting Fantasy de Ian Livingston e semelhantes, a vida literária levara-me para os romances de mistério e espionagem, históricos, policiais e simbologias. Há poucos anos, o advento de uma série de televisão fez-me perceber que um autor conseguira englobar tudo o que havia nos meus géneros preferidos… e quando li os livros, viciei-me nas Crónicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin.

A Tormenta de Espadas/A Glória dos Traidores (interpretemos os dois livros como um só, como o é na versão original) tornou-se de imediato o meu livro preferido de sempre, suplantando A Chave de Rebecca e Ivanhoe, que até ali eram incontestáveis. No entanto, penso que as Crónicas de Gelo e Fogo, inacabadas até hoje, valem pelo todo. O mundo de George R. R. Martin é riquíssimo e vasto, com tantos ingredientes e uma complexidade que o fazem tornar-se real. Um mundo inspirado na nossa Antiguidade, com guerras credíveis e protagonistas que morrem. A magia existe, mas até a forma como é apresentada num mundo tão seco e credível agrada-me. [Martin, leva o tempo que quiseres, mas não morras sem escrever mais qualquer coisinha.]

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Jorah Mormont de Crónicas de Gelo e Fogo (Browsing Fan Art em deviantart)

George R. R. Martin venceu pela ousadia, pela originalidade (que não é assim tanta, mas os autores a quem foi buscar ideias nunca conseguiram algo tão grande e épico), mas sobretudo pela capacidade de aguentar um mundo destes na “carapaça” como a tartaruga que sustenta o nosso, em tantas crenças – e nos livros do Terry Pratchett.  Mas quando parecia impossível superar George R. R. Martin no empreendedorismo fantástico, os últimos anos vieram mostrar que, independentemente do contexto, Nelson Mandela tinha razão:

Só é impossível até acontecer.

Não vou falar de autores que desconheço, como Brian McClellan e o seu mundo que mistura uma espécie de Revolução Francesa com magia, Sam Sykes e os homens-dragões e outras bizarrices, ou Brent Weeks, já publicado no Brasil com aparente boa aceitação. Existem imensos autores emergentes que conseguem reinventar a fantasia a cada dia que passa, com magias originais e mundos complexos. Nenhum destes consegue ainda igualar George R. R. Martin na imponência e complexidade, mas há três autores que lhe fazem sombra.

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A trupe de ladrões de As Mentiras de Locke Lamora (SPN, deviantart)

Scott Lynch é o meu mais-que-tudo (salvo seja). A braços com graves problemas de depressão e ansiedade, poucos livros publicados e nenhum mundo de quebra-cabeças, Scott conseguiu surpreender os fãs do género com o seu livro de estreia. Inspirado na Itália renascentista, o seu mundo sem nome parece ter sido criado por uma espécie alienígena que depois o abandonou. Mas não há nenhuma guerra épica a ser travada. A saga de Scott Lynch fala de ladrões e de tramóias, de redes de espiões, de política e de sobrevivência. Fala de um ladrão sem vergonha de encher os bolsos, e é ele que faz as delícias do leitor.

Scott conquista pela simplicidade e pela astúcia, tanto do seu protagonista lingrinhas, como dele próprio como autor, pelos diálogos hilariantes, pelos plot-twists, pela leveza e brilhantismo literário. Com uma simplicidade inigualável, As Mentiras de Locke Lamora tornou-se o meu livro preferido de todos os tempos. Ele tem toques de steampunk, uma aura do período renascentista, truques sem fim e até combates de tubarões. Os restantes livros já publicados da série The Gentleman Bastards agradaram-me quase tanto como o primeiro e até o conto Um Ano e Um Dia na Velha Theradane encantou-me pela irreverência. [Recupera rápido e escreve mais, Scott.] Não será o melhor autor de fantasia da atualidade, mas é o meu preferido.

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Vin de Mistborn (Evan Montero em writeups)

E depois há Sanderson. Pois é. Brandon Sanderson, este sim considerado por muitos como o melhor autor de fantasia da atualidade. O homem escreve pelo menos um livro por ano, criou um universo – a Cosmere – e várias das suas sagas (sim, sagas!) passam-se em planetas desse mesmo universo. Ao ler a Era 1 de Mistborn (uma trilogia, publicada em 4 livros em Portugal ), não me fascinei. Reconheço-lhe enorme qualidade e é uma das obras mais aclamadas do autor, mas nem a sua escrita me encantou, nem as explicações dadas para a complexidade da sua criação me pareceram sólidas. Fala de um grupo de escravos que se rebela para destronar um deus-rei malvado, e ao fazê-lo, os personagens percebem que meteram o pé na poça. Ainda assim, os personagens são bem profundos e incríveis. Apesar de não ser idêntico a nível narrativo, costumo qualificar em jeito de brincadeira Mistborn como um Crónicas de Riddick feito pela Disney. O final deixou-me com a boca mais aberta do que no Casamento Vermelho de George R. R. Martin.

Foi com Warbreaker, no entanto, que Sanderson me agarrou. Um livro simplesmente brutal onde os papéis dos personagens se distorcem completamente ao longo do livro e as capacidades exploradas são fantásticas. Exércitos de zombies comandados por palavras e uma espada falante, só como exemplo. Homens que regressam à vida e se tornam deuses. Duas princesas a darem-se bem no sítio errado. Cada sistema de magia de Sanderson parece mais original do que o anterior e, como diz um dos chavões de Mistborn: sempre há outro segredo. Plot-twists geniais não lhe faltam. Não fosse o excesso de deus ex-machina e cenas forçadas, Sanderson estaria já no topo dos meus autores preferidos. Para já, quero muito ler Stormlight Archive, a série-chave deste caso sério de sucesso.

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Anomander Rake de Jardins da Lua (malazan wiki)

Bem, Sanderson é o autor do momento, mas sim… é possível haver um autor de fantasia vivo melhor que Sanderson ou até mesmo que Martin. E não estou a falar de Lynch, que apesar de ser o meu preferido ainda é bem subestimado. Estou a falar de Steven Erikson. Com Ian C. Esslemont, criou o universo Malazan, mas nem conheço a escrita de Esslemont nem ouço tantos elogios às suas obras como às de Erikson.

Não posso ainda afiançar que a Saga do Império Malazano é mais complexa (ou melhor) que o mundo de George R. R. Martin, uma vez que só li o primeiro livro, Jardins da Lua, mas seguramente está lá perto. Uma guerra épica, uma imperatriz de pele azul que quer conquistar o mundo, uma montanha voadora, deuses que interferem nos acontecimentos, raças inovadoras, cães tenebrosos, dragões e corvos, conspirações e segredos… mas acima de tudo personagens, muitos e apaixonantes. O que realmente me agarrou neste autor foi a escrita e os diálogos vívidos, especialmente entre os militares. Do mundo, ao que parece imenso, não vi ainda quase nada. E sei que o que me espera no segundo volume será ainda mais empolgante e dramático. Erikson entrou direitinho para a lista dos meus autores prediletos, logo com o primeiro livro.

Para mim, estes são “os tais” da atualidade dentro do género, ainda que mantenha bem presentes as referências mais antigas e tenha ainda um manancial de obras por descobrir. Li muito pouco de Rothfuss (não me convenceu), um único livro de Abercrombie (ipsis verbis) e ainda não me convenci a ler Peter V. Brett nem Robert Jordan (não é o facto de ter sido Sanderson a terminar A Roda do Tempo a fazê-lo, por enquanto). Também Mark Lawrence não me agradou por aí além, com um sem número de recursos forçados na narrativa, e se acho insípida a ficção de Guy Gavriel Kay (Tigana e Leões de Al-Rassan foram bons mas não me “encheram a boca”), a Saga do Assassino de Robin Hobb revelou-se cansativa e repetitiva. Sei, porém, que qualquer um destes tem potencial para vir a surpreender-me.

No fundo, esta avalanche de novos autores com o seu brainstorm imparável foi o meteorito que causou a quase extinção dos elfos, orcs e anões, e de toda essa panóplia de “mais do mesmo” oriunda dos lugares-comuns do nosso passado. Nunca os esqueceremos, mas a estagnação é amiga da morte e nós queremos mais. Mais e melhor, se possível.

Warbreaker, Warbreaker #1

But he’d found that imaginary things were often the only items of real substance in people’s lives.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Warbreaker”, primeiro volume da série Warbreaker

Warbreaker é um livro de alta fantasia publicado pelo autor norte-americano Brandon Sanderson, nome de vulto do género na atualidade. O que difere este livro dos restantes é a forma como foi lançado. Sanderson publicou-o no seu blogue e mostrou, passo a passo, como construiu este mundo fantástico e as várias ideias que tinha para ele.

Publicado no ano de 2008, este primeiro volume faz parte de uma série ou trilogia, da longa lista de planos de Brandon Sanderson para o futuro. Também conhecido pela velocidade com que escreve e lança livros, Sanderson tem em mãos uma série de sagas, sendo The Stormlight Archive a mais ambiciosa e que promete oferecer mais respostas aos seus leitores – Edições Saída de Emergência, esta é obrigatória, está bem? E, já agora, a Era 2 de Mistborn também – ; sim, porque a maior parte das sagas deste autor estão de alguma forma relacionadas.

Apesar de não haver previsão para um segundo volume, Sanderson pretende chamá-lo Nightblood, nome facilmente identificável para quem leu Warbreaker. Como os bons amantes de fantasia devem saber, a maioria das histórias de Brandon Sanderson passam-se num universo chamado Cosmere, em que cada planeta tem as suas características únicas e especiais.

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Vasher e a espada Nightblood (Supahsly em 17th Shard)

O contexto geográfico e histórico

Se a saga Mistborn (cuja primeira “trilogia” já foi comentada aqui no blogue) é passada no planeta Scadrial, Warbreaker ocorre em Nalthis. Aparentemente, Nalthis é o planeta mais semelhante à Terra, se excluirmos a Scadrial antes e depois dos eventos ocorridos na Era 1 de Mistborn. Em Nalthis, as maiores nações são Idris e Hallandren, e não podiam ser mais distintas.

A História de Nalthis é bem confusa e nem os próprios personagens parecem saber bem como tudo aconteceu. No início, Idris era o domínio soberano por natureza. Segundo alguns boatos, a linhagem real originou-se de um homem que morreu e regressou – um Devolvido (o que explica os pormenores mutáveis da sua caraterização, mas isso é história para depois). Idris é uma imensa nação montanhosa, mas perdeu o seu poder. Como em todas as civilizações, sempre emergem outros povos e crenças ao redor de um Império, e assim nasceu Hallandren, como um enclave, num vale entre as montanhas, com acesso à costa marítima.

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Capa oficial de Warbreaker

Um turbilhão de conflitos militares conhecidos como Manywar provocou uma cisão irreversível entre as duas nações, em que as personalidades mais famosas dessa guerra foram Kalad – o rebelde que provocou a guerra – e Peacegiver – o homem que devolveu a paz ao mundo. Ao longo dos tempos, Kalad foi visto como um símbolo de horror. O uso dos Fantasmas de Kalad, um exército de presumíveis monstros às suas ordens, foi tão traumatizante que, na atualidade, o seu nome é usado corriqueiramente como uma praga lançada pelos habitantes de Hallandren, como quem profere um palavrão ou maldição. Já Peacegiver, considerado como o primeiro rei de Hallandren embora nunca tenha governado de facto, mandou edificar imensas estátuas de soldados por toda a nação como um lembrete da pacificação concretizada.

Enquanto Hallandren ganhava poder, outros povos cresceram em seu redor, como Kahn Pahl, um povo com tom de pele acastanhada. Apesar de preservarem a sua própria religião, tornaram-se submissos a Hallandren, sendo comum encontrar servos Kahn Pahl nas casas nobres e templos da poderosa nação.

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V & V, os dois “Despertadores” (kaladintaichou em tumblr)

O sistema de magia e a religião

Warbreaker apresenta-nos, de caras, uma série de originalidades. Brandon Sanderson é conhecido pelos seus sistemas de magia peculiares. Mais uma vez, a religião do mundo apresentado está intimamente ligada à magia, uma nova invenção bastante original. Passo a explicar.

O sistema de magia criado por Sanderson para Warbreaker é apelidado de BioChromatic Breaths. O que é isto? Cada pessoa possui um Breath. Embora a tradução mais fiel seja “Fôlego” ou “Respiração”, o Breath é muito mais do que a palavra acarreta. O Fôlego são os nossos reflexos, que nos fazem guiar no escuro ou ter a sensação que alguém nos está a espiar, mas também parte da nossa vivacidade como pessoa. Neste mundo, os indivíduos podem doar o seu Fôlego a outros, que os podem acumular – obviamente, isso torna-os muito poderosos. Este sistema de magia está também intimamente ligado às cores, porque quanto mais Fôlego a pessoa tem, mais nítidas são as cores à sua volta, e pode usar essas cores, combinadas com palavras mágicas – os comandos – para fazer uma série de ocorrências incríveis. Os que têm Fôlego para exercer esse tipo de “magia” são os chamados “Awakeners”, que podemos traduzir como Despertadores.

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Deusa Blushweaver (axt234 em deviantart)

Na arte do Fôlego, existem quatro níveis a ser utilizados. A forma mais fácil é, através de comandos simples, dar vida a objetos como panos ou cordas, de forma a fazer um tapete voar ou uma corda desamarrar-se, por exemplo. De qualquer forma, é uma situação pouco duradoura, porque mantê-la exigiria gastar grandes quantidades de Fôlego. Apesar de os objetos serem animados, não têm qualquer emoção. Dar vida a pessoas mortas é outro nível desta arte, transformando um cadáver num sem-vida. Não são criaturas esfomeadas de tripas à mostra, como podem pensar, mas homens regressados à vida, com a pele acinzentada e sem emoções. No entanto, o sem-vida guarda as mesmas características físicas e capacidades militares que tinha em vida. Hallandren usa essa técnica para formar os seus exércitos.

“My life to yours. My Breath become yours.”

Os deuses de Hallandren também são um produto desta arte. Assim como os sem-vida, eles são pessoas mortas que regressaram com recurso ao Fôlego, mas ao contrário destes, expressam emoções e mantêm a sua personalidade. Trata-se de um nível mais elevado e exigente da arte. No entanto, estes Devolvidos, como lhes chamam, não se recordam de nada da sua vida anterior. O povo acredita que eles regressaram para os governar e salvar, crença que fundou a religião de Hallandren.

Há ainda um quarto nível que poucos conhecem: dar vida e emoções a objetos inanimados. É algo extremamente difícil e considerado até impossível, mas existe uma poderosíssima espada sensciente (bastante divertida, por sinal) chamada Nightblood, resultado do trabalho conjunto de dois dos Estudiosos ancestrais da arte, que viveram na época do Manywar.

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Deuses Lightsong e Blushweaver (khal em 17th Shard)

A actualidade política

Uma guerra avizinha-se entre Hallandren e Idris. Apesar de Hallandren possuir o controle do comércio e exércitos intermináveis de sem-vida, Idris sabe que representa um perigo para Hallandren, uma vez que a família real de Idris é legítima sobre todo o domínio e a qualquer momento pode reclamar a coroa. O rei Dedelin é o pai de quatro filhos: Vivenna, Ridger, Fafen e Siri.

Em Idris predomina uma religião monoteísta, o austrismo, cujos fiéis reverenciam Austre, o deus das cores. Na família real, todos têm cabelos que mudam de cor, consoante as suas emoções. Os vários tons de vermelho podem significar raiva, embaraço ou paixão, o amarelo a felicidade e o branco o medo. Com esforço, no entanto, eles podem manter a cor que mais desejam. Uma das razões para que este povo tanto odeie Hallandren é o uso desmedido que fazem do Fôlego, até porque é do conhecimento comum que os Devolvidos precisam de sugar o Fôlego a alguém, de quando em quando, para poderem sobreviver. Para os Idrianos, isso é blasfémia.

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Vasher e Vivenna; Susebron e Siri (the o’jays and Short i em pinterest)

Para manter a paz entre ambas as nações e manter o sangue real na linhagem divina de Hallandren, existe um tratado que decreta o seguinte: a filha mais velha do rei deve casar-se com o Deus Rei de Hallandren. No entanto, Dedelin mantém os seus espiões em Hallandren e parece convicto de que, mesmo respeitando o tratado, a guerra será inevitável e ao seu povo não restam grandes hipóteses de vitória. Ainda assim, não lhe resta alternativa a enviar a sua filha predileta, Vivenna, que havia sido treinada desde muito nova para sobreviver na corte do Deus Rei.

Hallandren é uma nação muito mais sofisticada. T’Telir é a capital, com os seus restaurantes abastados, bairros pobres onde os idrianos que para ali emigraram se ocupam em atividades marginais, e a Corte dos Deuses, um complexo colossal onde vivem os deuses – cada um com o seu palácio – e onde fica o Tribunal dos Deuses. Há deuses com cerca de sete metros de altura, um aumento que ocorreu depois de serem devolvidos à vida. Cada deus tem as suas confrarias de sacerdotes, que os reverenciam e pregam em seu nome. Tudo está a postos para receber Vivenna, a princesa de Idrian, e mesmo em T’Telir, muitos são os que temem pela jovem. Afinal, vai casar com o tenebroso Deus Rei de Hallandren.

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Mapa de T’Telir (pinterest)

O jogo muda

Dedelin, o rei de Idris, afinal não é um homem tão venerável como aparenta. Ele gosta tanto da sua filha Vivenna, que em vez de enviá-la para o covil do seu inimigo, opta por enviar a filha mais nova, a pequena Siri. Um verdadeiro bicho-do-mato, rebelde e muitas vezes inconveniente, Siri seria, por ventura, a que menos falta faria ao pai. Com sorte, ninguém perceberia a diferença. A rapariga, que tanto gostava de se aventurar pelas montanhas e achava-se a mais livre dos irmãos, é apanhada de surpresa com a revelação. Será ela, que nunca teve treino específico e nada percebe de política e conspirações, a ser atirada para o ninho dos leões. Para a cama do terrível Deus Rei de Hallandren.

Vivenna aparenta ser um pouco fútil, o fiel retrato de princesa. O que o pai fez à sua irmã, no entanto, não lhe parece justo. Apesar de nunca terem sido próximas, não podia deixar que fosse a irmã a provar tal castigo. Era ela que estava destinada a casar com o Deus Rei. Mentalizara-se desde jovem que o fardo era seu. Assim sendo, em segredo, agarra em Parlin, o jovem amigo da família que todos esperavam que viesse a casar consigo (se o terrível enlace com o Deus Rei pudesse ser evitado), e os dois rumam a Hallandren, para tentar resgatar a sua irmã.

O rumo dos acontecimentos leva-a a Lemex, o velho espião que o pai tinha em T’Telir, mas encontra-o à beira da morte. Nos momentos finais, ele entrega-lhe o seu abastecimento de Fôlego, deixando Vivenna com muito poder e pouca sabedoria para o utilizar. No fundo, uma vez que o abastecimento e a manipulação do Fôlego são considerados pura heresia pelo seu povo, também não expressa muita vontade em dar-lhe uso. É ali que Vivenna se cruza com um divertido e peculiar grupo de mercenários com quem depressa trava amizade. São eles Denth, espadachim, Tonk Fah, gordo e hilariante (com especial aptidão para “perder” os seus animais domésticos), Jewels, mulher rabugenta com um passado triste (foi obrigada a vender o seu Fôlego para a subsistência da família) e Clod, um sem-vida às ordens de Jewels.

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Vasher e Denth (MerozArt)

Com eles, Vivenna usa-se do seu papel de princesa e esforça-se para unir os idrianos que vivem na cidade, preparando-os para atacar o coração da capital, salvar a irmã e prevenir o melhor possível o ataque óbvio de Hallandren a Idris. Em paralelo, percebe que o seu companheiro Parlin, que sempre julgou apaixonado por si, está “apanhadinho” pela insípida Jewels, o que a deixa ligeiramente despeitada. Para piorar o cenário, há também que evitar Vasher, um ex-aliado de Denth que, para além de perigoso, parece querer minar todos os seus passos.

Siri entra no terrível Palácio do Deus Rei. Depressa percebe que existem dois tipos de pessoas ali: os servos, a maioria naturais de Kahn Pahl, e os sacerdotes, enigmáticos e arrogantes. É Bluefingers (assim conhecido por ter os dedos sempre cheios de tinta), um escriba e mordomo natural de Kahn Pahl, quem lhe dá conselhos cruciais para a sua nova vida. Não deve fazer perguntas. Deve mostrar-se submissa. Deve dar um filho ao Deus Rei. Assim, todas as noites, Siri entra na câmara nupcial, despe-se diante daquele homem – alto, pálido e de longos cabelos negros – e ajoelha-se à espera que ele use o seu corpo. Estranhamente, ele limita-se a olhar.

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Capa do Reino Unido

É aqui, quando o leitor parece desenhar na sua mente o rumo da história, que Brandon Sanderson troca todas as voltas. Vivenna foi enganada. Siri foi enganada. O Deus Rei não passa de um homem a quem lhe arrancaram a língua, e conhece tanto do mundo como uma criança. Os deuses – que passam o dia entediados no seu lazer – pouca interferência têm no jogo político, fazendo somente o que os sacerdotes dizem que é suposto fazer. Siri ensina o Deus Rei a escrever, começa a comunicar com ele, e Sanderson inventa a mais improvável e enternecedora história de amor do mundo da fantasia.

A surpresa aumenta quando o grupo divertido de Denth revela-se uma trupe de vilões a atuar, a troco de dinheiro dos seus mandantes, para despoletar a guerra entre Idris e Hallandren. Uma guerra com propósitos macabros, que nenhuma das nações deseja na realidade. Vivenna, Siri e Susebron – o Deus Rei – percebem tardiamente o que está a acontecer à sua volta. Vasher, o homem misterioso com uma espada falante, e Lightsong, o único deus que parece questionar-se, podem ser os únicos capazes de mudar o rumo dos acontecimentos e evitar a guerra iminente. Os verdadeiros motivos para a guerra, o rosto dos principais vilões e a real identidade de Vasher, porém, vou manter em segredo.

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Vivenna, Vasher e Susebron (pinterest)
SINOPSE:

Sisters Vivenna and Siri are princesses of Idris. Susebron is the God King one must marry. Lightsong is the reluctant minor god of bravery. Vasher is an immortal still trying to undo mistakes of centuries before. Magic from individual breath from everyday objects can perform all manner of miracles and mischief.

OPINIÃO:

Warbreaker é um livro de fantasia disponível gratuitamente no site do escritor Brandon Sanderson, o mesmo autor de Mistborn, Stormlight Archive, Elantris… Vamos lá, Sanderson dispensa apresentações. Precisamos falar sobre Warbreaker. Uma espada que fala e deita fumo negro, cabelos que mudam de cor mediante as emoções, soldados mortos-vivos que são utilizados através de comandos (como robôs), a capacidade de dar vida a objetos inanimados e, principalmente, um panteão de deuses que está bem vivo e habita entre os demais. Querem mais originalidade? O enredo em si parece semelhante a outras obras do género, até que o autor despeja o balde de brinquedos sobre a carpete e vira tudo do avesso.

Cativante, compulsivo e viciante, Warbreaker fez-me vibrar da primeira à última página. A narrativa, pejada de plot twists, encheu-me as medidas. A escrita de Sanderson conquistou-me, acima de tudo nos diálogos, melhorando em relação ao que vi em Mistborn. O sistema de magia de Warbreaker é bastante original e agradou-me, embora seja mais fã de magias tangenciais do que de sistemas de magia como parte de uma identidade/sociedade.

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Vivenna e Denth (pinterest)

Somos apresentados a duas princesas que depressa mostram não ser frágeis nem precisar de cavaleiros andantes, mas também a um vasto rol de personagens que são tão empáticos que ficamos de boca aberta ao perceber as suas verdadeiras intenções (que afinal sempre estiveram lá). A nível de personagens, Vivenna e Siri foram muito bem construídas, mas estiveram longe de ser as minhas preferidas. Vasher venceu pela sua aura de mistério e revelações finais, mas como personagem não deu para ver muito – pareceu uma versão mais sofisticada e tristonha do Kelsier de Mistborn. Susebron foi uma boa surpresa e Hoid, o mítico personagem que aparece como figurante na maioria dos livros de Sanderson (o que significa que pode viajar de mundo em mundo), tem aqui uma participação mais explícita que em Mistborn, como um contador de histórias bem informado.

Adorei Jewels e Clod. Apesar de desaparecerem a meio do livro, sei que Brandon pretende trazê-los para a sequência, e percebi a verdade sobre a identidade de um deles. Aliás, todo o bando de Denth e o background do seu passado com Vasher foi excelente. Foram as interações do grupo com Vivenna e os diálogos hilariantes entre Denth e Tonk Fah que me fizeram apaixonar pelo livro. E depois Lightsong. O deus da bravura começou por ter os capítulos mais aborrecidos, e tornou-se qualquer coisa de original e especial. Parece evidente que Sanderson caprichou com este personagem.

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Siri (tumblr)

Por outro lado, Bluefingers pareceu-me uma cópia descarada do Varys de Crónicas de Gelo e Fogo, tanto em descrição física como moral. Dêm-lhe uma tez mais morena e pintem-lhe os dedos de azul. Acabou por ter um papel importante, mas uma vez que os seus diálogos foram deliciosos, gostaria que tivesse sido um personagem mais recorrente. Gostei imenso do final de cada personagem e das promessas para uma sequência (até agora indefinida), só não gostei que, assim como em Mistborn, o autor tenha recorrido em demasia ao divino. [MEGA SPOILER COSMERE, gente] Fazer os personagens aumentarem de tamanho e tornarem-se deuses parece tornar-se habitual no autor para fechar os seus enredos, mas não sou nada fã do uso tão aberto de deus ex-machina. [/MEGA-SPOILER COSMERE, gente]. Talvez por isso, Sanderson não esteja ainda no meu top de autores favoritos. Com Warbreaker, porém, está lá perto.

Avaliação: 9/10

Mistborn Era 1 (Saída de Emergência):

#1 O Império Final

#2 O Poço da Ascensão

#3 O Herói das Eras Parte 1

#4 O Herói das Eras Parte 2

Warbreaker:

#1 Warbreaker

White Sand (Dynamite):

#1 White Sand Volume 1

As Escolhas de 2016

O ano caminha a passos largos para o final. Como tal, é hora de fazer o já tradicional balanço literário que visa escolher as melhores leituras do ano. No Goodreads estabeleci como meta ler 35 livros este ano – e a verdade é que já foram 93, embora a maioria das minhas leituras tenham sido bandas-desenhadas. 61 BD’s, 24 livros e 8 contos, sendo que estou a ler o livro O Terceiro Desejo de Andrzej Sapkowski e ainda deverei ler mais uma BD ou um conto até ao final do ano.

2016 foi um ano cheio de boas surpresas. Conheci autores como Steven Erikson, Mark Lawrence, Joe Abercombie, Jeff Vandermeer, Alan Moore, Robert Kirkman e Brian K. Vaughan, e voltei a ler mais e melhor de autores fantásticos como Stephen King, H. P. Lovecraft, Ken Follett e Bernard Cornwell.

Fantasia continuou a ser o género mais lido, mas o romance histórico e a ficção científica não foram esquecidos. Este ano decidi aumentar o número de categorias, também por ter lido mais formatos. Fiquem com a minha listagem e respetivas justificações:

LIVRO

Melhor Fantasia

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aqui a opinião

Jardins da Lua, de Steven Erikson, foi não só o melhor volume de fantasia, mas também o melhor livro que li este ano. Para além dele, O Herói das Eras de Brandon Sanderson foi dos poucos que me conquistaram, dentro do género. Stephen King encontra-se nesse grupo. Este ano li os volumes 5 e 6 de A Torre Negra, substancialmente melhores que aqueles que li o ano passado. O prémio simpatia vai para A Balada de Antel do brasileiro Eric M. Souza, que me surpreendeu pela positiva.

Os dois primeiros volumes de Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence e o primeiro de A Primeira Lei de Joe Abercrombie não foram más leituras, mas não me convenceram nem cativaram por aí além. Terminei a primeira Saga do Assassino de Robin Hobb, que continuou sem me encantar, muito embora o último volume tenha sido, de longe, o melhor. Li os dois últimos livros do Ciclo da Herança de Christopher Paolini. Apesar de a escrita do autor ter evoluído favoravelmente, a história é o grande handicap de Paolini, parecendo uma manta de retalhos de narrativas como O Senhor dos Anéis ou Star Wars.

Melhor Ficção Científica

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aqui a opinião

Não li muitos livros de ficção científica este ano. Aniquilação de Jeff Vandermeer foi um dos últimos livros que li e acabou por ser o que me marcou mais pela positiva, um volume de ficção weird que me envolveu por toda a sua estranheza e credibilidade. O Messias de Duna de Frank Herbert e As Primeiras Quinze Vidas de Harry August de Claire North foram também ótimas leituras dentro do género. A ficção científica é muito mais do que as space opera empoladas pelos mass media.

Melhor romance histórico

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aqui e aqui a opinião

Dividido em Portugal em dois volumes, o livro Os Pilares da Terra de Ken Follett foi o melhor romance que li este ano. Extremamente envolvente, este romance histórico foi tão emocionante quanto os livros O Último Reino e O Cavaleiro da Morte, primeiros volumes das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, mas o livro de Follett apelou mais às emoções e construiu uma história mais intimista. No entanto, os dois autores, que já eram os meus preferidos no romance histórico, ao lado de Maurice Druon, cultivaram ainda mais a minha preferência.

BANDA-DESENHADA

Melhor BD

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aqui a opinião

Escolhi March To War como melhor BD lida este ano, mas podia escolher muitas outras edições de The Walking Dead. Num ano cheio de excelentes leituras neste formato, The Walking Dead conquistou a minha preferência. A space opera Saga de Brian K. Vaughan e Fiona Staples e o bizarro Tony Chu: Detective Canibal foram também fantásticas leituras, superando clássicos como V de Vingança, Watchmen, 300 e Sandman, a que reconheço mérito, ou o histórico As Águias de Roma, cujos quatro volumes também gostei bastante.

Melhor Clássico

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aqui a opinião

Num ano em que li BD’s de Neil Gaiman, Frank Miller e Alan Moore, foi este último o que mais me surpreendeu pela positiva. Difícil é escolher entre Watchmen e V de Vingança, embora a história de super-heróis “reformados” me tenha marcado mais. 300 e A Cidade do Pecado de Miller foram também boas leituras, enquanto os três primeiros volumes de Sandman (Neil Gaiman) têm oscilado entre o brilhantismo literário e a falta de envolvimento. Livros como Vampirella e X-Men Origins ficaram aquém das expectativas.

Mais Irreverente

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Saga, a space opera de Brian K. Vaughan com ilustrações de Fiona Staples, foi uma das grandes surpresas deste ano. Irreverente e divertida, com grandes debates morais, esta BD cumpre em todos os quesitos, sendo a irreverência a sua maior qualidade. Qualquer um dos cinco volumes já publicados pela G Floy surpreenderam-me ao seu jeito. Nesta categoria, Tony Chu: Detective Canibal foi igualmente surpreendente, mas quero ainda deixar uma menção de honra para os dois volumes de Umbrella Academy, uma grande revelação, o próximo passo no mundo dos super-heróis. Os Contos Inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy foi também uma edição deliciosa, nascida das mãos de Filipe Melo e Juan Cavia. Os dois primeiros volumes de Southern Bastards, não se enquadrando na vertente cómica das anteriores, têm também algo de irreverente no seu drama profundo. Jason Aaron e Jason Latour fazem-no com distinção.

CONTOS

Melhor Conto

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O último conto que tive oportunidade de ler foi também o melhor que li este ano. H. P. Lovecraft tem sido um dos meus autores preferidos neste formato, embora Edgar Allan Poe e Isaac Asimov tenham sido outros autores de destaque. Até mesmo O Defunto de Eça de Queirós foi uma excelente leitura. Invisíveis em Tiro, de Steven Saylor, incluído no livro Histórias de Vigaristas e Canalhas, agradou-me imenso.

Melhor Antologia

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Este ano li apenas duas antologias: a portuguesa Proxy e a conceituada Histórias de Vigaristas e Canalhas, a segunda metade de Rogues. Apesar de a primeira conter apenas seis contos de jovens autores portugueses, não ficou atrás das Histórias escritas por alguns dos mais famosos autores de fantasia, policial e ficção científica. Com alguns contos melhores e outros menos bons, as duas antologias ficaram ao mesmo nível, preferindo por isso dar primazia àqueles cuja responsabilidade era menor e, por isso, mais surpreenderam.

Maior surpresa

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À primeira vista, estou a contradizer a categoria anterior, mas não é disso que se trata. A minha maior surpresa no que a contos diz respeito chama-se Daniel Abraham, cujo conto O Significado do Amor foi um dos que mais gostei na antologia Histórias de Vigaristas e Canalhas. Ambientado num mundo fantástico, Abraham aliou uma escrita excelente a uma história algo hilariante e espero ver mais histórias do autor publicadas em português.

Categoria Extra

Melhor Final

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Não podia deixar de fazer uma menção honrosa a O Herói das Eras. O último volume da trilogia Mistborn de Brandon Sanderson foi dividido em dois em Portugal. Li a primeira parte em dezembro do ano passado e a segunda em março deste ano. Sanderson nunca me encantou, como outros nomes da fantasia como George R. R. Martin e Scott Lynch o fizeram. Este ano, Steven Erikson e Daniel Abraham foram os que estiveram mais próximos disso, do pouco que li deles. Aliando uma escrita demasiado básica a um mundo com muitas lacunas a nível de credibilidade, fiquei sempre de pé atrás com Brandon Sanderson, ainda que lhe reconheça a criatividade e o mérito de escrever grandes histórias e construir grandes mundos de fantasia. Foi assim que li Mistborn, um mundo com uma aura mágica que sempre visualizei como um “Crónicas de Riddick feito pela Disney“. Com muitos altos e baixos, esta trilogia deixou-me boquiaberto com as revelações e acontecimentos finais e gostaria imenso de ver publicada em português a Era 2.

Em jeito de despedida, deixo os votos de um 2017 repleto de boas leituras. 2016 foi para mim um ano cheio delas, com os livros Jardins da Lua e Os Pilares da Terra e as BD’s The Walking Dead e Saga como os grandes destaques. Desejo a todos um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

Passatempo Brandon Sanderson

​A Edições Saída de Emergência está a promover o evento a que não vais querer faltar, a presença de Brandon Sanderson em Portugal, dia 7, no Centro Comercial Colombo. 

O autor irá também ter uma conversa mais próxima com alguns fãs no dia 8, e se queres ter a oportunidade de privar com o autor de Mistborn – Nascida das Brumas, participa no seguinte passatempo a decorrer na página de Facebook da editora.

Sê original, posta uma foto com um dos livros da saga, e não faltes à chamada.

Mistborn – Nascida das Brumas, é uma das séries de fantasia mais elogiadas nos últimos tempos. Já foi toda publicada em Portugal e recentemente saiu a notícia que os direitos do universo Cosmere de Brandon Sanderson, onde Mistborn se inclui, foram adquiridos para uma adaptação cinematográfica. Não percas tempo e junta-te à febre.

Está aí: Brandon Sanderson em Portugal

É verdade! É já dia 7 de Novembro que o famoso autor de Mistborn, Elantris e Stormlight Archive vem a Portugal para estar com os seus fãs. Aponta a data no teu calendário e não deixes de estar com um dos autores de fantasia mais emblemáticos do momento. Às 19:30, na FNAC Colombo, podes assistir a um encontro promovido pela Edições Saída de Emergência, como se pode ver na página de facebook da editora.

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Brandon Sanderson

Aqui ficam os links para as minhas opiniões e as sinopses da editora, aos seus livros já publicados em português (saga Mistborn – Nascida das Brumas):

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O Império Final

Primeiro volume de uma nova série de um dos autores que mais sucesso teve nos últimos anos na fantasia.

Num mundo onde as cinzas caem do céu e as brumas dominam a noite, o povo dos Skaa vive escravizado e na absoluta miséria. Durante mais de mil anos, o Senhor Soberano governou com um poder divino inquestionável e pela força do terror. Mas quando a esperança parecia perdida, um sobrevivente de nome Kelsier escapa do mais terrível cativeiro graças à estranha magia dos metais – a Alomancia – que o transforma num “nascido nas brumas”, alguém capaz de invocar o poder de todos os metais.
Kelsier foi outrora um famoso ladrão e um líder carismático no submundo. A experiência agonizante que atravessou tornou-o obcecado em derrubar o Senhor Soberano com um plano audacioso. Após reunir um grupo de elite, é então que descobre Vin, uma órfã skaa com talento para a magia dos metais e que vive nas ruas. Perante os incríveis poderes latentes de Vin, Kelsier começa a acreditar que talvez consiga cumprir os seus sonhos de transformar para sempre o Império Final…

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O Poço da Ascensão

Uma das sagas de fantasia que mais sucesso teve nos últimos anos. Todos os fãs do género deveriam ler.

Alcançaram o impossível: o mal que governara o mundo pela força do terror foi derrotado. Mas alguns dos heróis que lideraram esse triunfo não sobreviveram, e eis que surge uma nova tarefa de proporções igualmente gigantescas: reconstruir um novo mundo. Vin é agora a mais talentosa na arte e técnica da Alomância e decide reunir forças com os outros membros do bando de Kelsier para ascender das ruínas de um passado vil.
Venerada ou perseguida, Vin sente-se desconfortável com o peso que carrega sobre os ombros. A cidade de Luthadel não se governa sozinha, e Vin e os outros membros do bando de Kelsier aprendem estratégia e diplomacia política enquanto lidam com invasões iminentes à cidade.
Enquanto o cerco a Luthadel se torna cada vez mais apertado, uma lenda antiga parece oferecer um brilho de esperança: o Poço da Ascensão. Mas mesmo que exista, ninguém sabe onde se encontra nem o poder que contém… Resta a Vin e aos seus amigos agarrar esta fonte de esperança e conseguir garantir o seu futuro e futuro de Luthadel, cumprindo os seus sonhos e os sonhos de Kelsier.

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O Herói das Eras Parte 1

Quem é o Herói das Eras?

Para pôr fim ao Império Final e restaurar a harmonia e a liberdade, Vin matou o Senhor Soberano. Mas, infelizmente, isso não significou que o equilíbrio fosse restituído às terras de Luthadel. A sombra simplesmente tomou outras formas, e a Humanidade parece amaldiçoada para sempre.

O poder divino escondido no mítico Poço da Ascensão foi libertado após Elend e Vin terem sido ludibriados. As correntes que aprisionavam essa força destrutiva  foram quebradas e as brumas, agora mais do que nunca, envolvem o mundo, assassinando pessoas na escuridão. Cinzas caem constantemente do céu e terramotos brutais abalam o mundo. O espírito maléfico libertado infiltra-se subtilmente no exército do Imperador Elend e os seus oponentes. Cabe à alomante Vin e a Elend descobrir uma forma de o destruir e assim salvar o mundo. Que escolhas irão ser ambos forçados a tomar para sobreviver?

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O Herói das Eras Parte 2

Quem é o Herói das Eras?

O mundo aproxima-se do fim, esmagado pela força imparável de Ruína. Vin, Elend e os companheiros procuram desesperadamente opor-se-lhe, mas nada do que fazem parece ter algum efeito ou, quando o tem, é o oposto do que pretendem. De que serve a mera alomância contra um deus?
Especialmente quando não parece haver nada além dela, pois até as misteriosas brumas, em tempos aliadas, parecem ter-se tornado malignas. Mas será que desistir é uma opção? Terá chegado o momento de baixar os braços e aceitar o fim de tudo o que se ama?
Num mundo sufocado pela cinza e abalado por erupções contínuas e violentas convulsões sociais que afetam até a sociedade pacífica dos kandra, são estes os dilemas com que os sobreviventes do velho bando de Kelsier vão ser confrontados neste derradeiro volume da saga.

TAG – Os Cavaleiros do Apocalipse

Boa noite, amigos! Trouxe-vos uma tag literária e espero que se divirtam. Os Cavaleiros do Apocalipse? Eu sei que parece estranho, mas depressa vão perceber. Usando pormenores de trechos da Bíblia, mais propriamente do Livro da Revelação, identificarei capas de livros. Vamos a isso?

#1 Peste

E eu vi, e eis um cavalo branco; e o que estava sentado nele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e ele saiu vencendo…

#1.1. Um livro com um cavalo na capa

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A Tormenta de Espadas, de George R. R. Martin

Mais do que um verdadeiro refresh na literatura de fantasia, George R. R. Martin veio dar um novo significado a este género literário, mostrando ao mundo que fantasia não é feita somente de elfos e princesas guerreiras. Tormenta de Espadas é o terceiro livro de Crónicas do Gelo e Fogo, sendo o quinto da edição portuguesa e um dos mais empolgantes da série literária.

# 1.2. Um livro com um arco na capa

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A Manopla de Karasthan, de Filipe Faria

Primeiro volume de Crónicas de Allaryia, A Manopla de Karasthan foi das primeiras obras de fantasia a emergir no panorama nacional no início deste século, à época em que a adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis acrescentava uma legião de fãs para o género. Amado por uns e odiado por outros, Filipe Faria conquistou lugar cativo nas livrarias portuguesas.

#1.3. Um livro com uma coroa na capa

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O Rei de Ferro e a Rainha Estrangulada, de Maurice Druon

Esta edição compreende os dois primeiros volumes da série Os Reis Malditos, na qual Maurice Druon narra a história de Filipe, o Belo, rei de França. Mais do que isso, fala da maldição que o acossou, como à sua prole, após ter queimado vivo o grão-mestre da Ordem dos Templários, condenando a confraria à extinção. Um rigor histórico notável e uma escrita rápida e vibrante.

#2 Guerra

E saiu outro, um cavalo vermelho; e ao que estava sentado nele foi concedido tirar da terra a paz, para que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada.

#2.1. Um livro com capa vermelha

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O Herói das Eras Parte 1, Brandon Sanderson

Mistborn – Nascidos da Bruma é uma das séries literárias de fantasia mais faladas da atualidade. Brandon Sanderson ganhou fama ao terminar a série A Roda do Tempo após a morte de Robert Jordan e desde então não parou. Conhecido por publicar com grande frequência, sempre com sistemas de magia originais, tem em Misborn uma das suas protagonistas mais carismáticas, Vin.

#2.2. Um livro com a palavra “Terra” na capa

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Os Pilares da Terra, de Ken Follett

Com uma prosa elegante e uma capacidade raríssima de fazer o leitor sentir-se na época descrita, Ken Follett apresenta-nos um livro emocionante, que relata um período conturbado da História de Inglaterra, onde a construção de um mosteiro ganha protagonismo num braço de ferro entre a Igreja e a Coroa. Os Pilares da Terra é um dos livros mais emocionantes que já li.

#2.3. Um livro com uma espada na capa

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Histórias de Aventureiros e Patifes, Vários Autores

Com organização de George R. R. Martin e Gardner Dozois, Histórias de Aventureiros e Patifes é a primeira parte da antologia Rogues, uma colectânea de contos sobre patifes, escrita por alguns dos mais conceituados autores de fantasia, ficção científica e romance policial. A segunda metade já foi publicada e também opinada no blogue.

#3 Fome

E eu vi, e eis um cavalo preto; e o que estava sentado nele tinha uma balança na mão. E eu ouvi uma voz como que no meio das quatro criaturas viventes dizer: “Um litro de trigo por um denário, e três litros de cevada por um denário; e não faças dano ao azeite de oliveira e ao vinho.

#3.1. Um livro com capa preta

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Príncipe dos Espinhos, Mark Lawrence

Primeiro volume da Trilogia dos Espinhos, de Mark Lawrence, Príncipe dos Espinhos apresenta o Príncipe Honório Jorg Ancrath, e a sua sede de vingança pela morte da mãe e irmão. Um mundo medieval pós-apocalíptico bem constuído, uma escrita envolvente e elegante, mas um desenvolvimento aquém das expectativas.

#3.2. Um livro com uma mão na capa

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O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

Com uma escrita envolvente, Oscar Wilde fala sobre o egocentrismo e sobre o papel que as aparências ocupam nas nossas vidas. Ao mesmo tempo que as hipocrisias de comportamento são retratadas com grande rigor, a obsessão pela beleza também é um dos principais temas do livro.

#3.3. Um livro com vigaristas na capa

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As Mentiras de Locke Lamora, Scott Lynch

Um dos meus autores de eleição, Scott Lynch revolucionou o mundo da fantasia com uma trama ao mesmo tempo leve e complexa, num mundo inspirado na Itália renascentista. Uma trupe de jovens ladrões protagoniza a história, recorrendo somente à sua matreirice para ludibriar os mais poderosos senhores do submundo camorri. A escrita deliciosa e os diálogos cómicos são os ex-libris deste autor.

#4 Morte

Então ouvi a quarta Criatura:”Venha” e apareceu um cavalo baio, o nome do cavaleiro era Morte e o Inferno o seguia de perto.

#4.1. Um livro com uma Criatura na capa

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Lisboa Triunfante, David Soares

Esta raposa não é somente uma raposa. É uma criatura mitológica, que atravessa as eras e interfere nos seus acontecimentos. Do lado oposto tem um miserável lagarto, e os dois têm medido forças ao longo dos séculos, participando ativamente na construção da Lisboa que hoje conhecemos. Com uma escrita excelente e um conhecimento histórico impressionante, David Soares criou um romance extraordinário de fantasia histórica.

#4.2. Um livro com a palavra “Morte” na capa

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A Morte Persegue-me, Ed Brubaker e Sean Phillips

Este livro de banda-desenhada é o primeiro volume da série Fatale. Uma mulher misteriosa que traz azar a todos aqueles com quem se cruza é a protagonista desta história sinistra que mescla temas como a imortalidade, a corrupção e o ocultismo. O legado de H. P. Lovecraft surge inegavelmente associado às criaturas apresentadas.

#4.3. Um livro com a palavra “Inferno” na capa

Inferno

Inferno, Dan Brown

Com uma estrutura similar a outros livros do autor, como O Código DaVinci ou Anjos e Demónios, Inferno distingue-se pelo tema (a sobrepopulação) e pela originalidade na conceção do vilão. Assustador e extremamente visual, esta aventura de Robert Langdon está entre as minhas favoritas do escritor norte-americano.

Sintam-se à vontade para fazer a vossa tag. Mas, pormenor importante, só conta livros que já tenham lido, mesmo que ainda não tenham comentado. Até à próxima.

TAG – Meio Ano de Leituras

Estamos a chegar ao final do primeiro semestre, como tal é a altura propícia para responder a uma TAG sobre os livros lidos durante os primeiros seis meses do ano. Divirtam-se.

#1 A maior surpresa

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Saga é uma graphic novel repleta de bom humor com elementos sci-fi e fantásticos. Acompanhamos a par e passo a fuga de Alana e Marko, com a sua bebé, a pequena Hazel. Uma lufada de ar fresco a todos os níveis, com argumento de Brian K. Vaughan e ilustrações de Fiona Staples.

#2 O melhor final

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A saga Mistborn nunca me “encheu as medidas”, por assim dizer, mas o último volume veio amarrar pontas soltas. Posso dizer que toda a trilogia de Brandon Sanderson me deixou com um sabor agridoce. Momentos geniais e outros forçados, história super original fustigada por uma escrita banal, um mundo com muitas lacunas salvo por um ambiente bem agradável. No fim, ficam as melhores recordações da série e o final surpreendeu-me muito, o que foi ótimo. Ainda assim, tenho o primeiro volume como o melhor da trilogia.

#3 A melhor saga

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Na lista das minhas séries preferidas consta A Torre Negra de Stephen King (não é por acaso que é esta a saga que tem lugar de honra na minha mesa-de-cabeceira). E com monstros como Scott Lynch e George R. R. Martin nas suas pausas sabáticas, é a saga de King a escolhida para liderar as minhas preferências do primeiro semestre, no que diz respeito a sagas. Lobos de Calla, o quinto volume, não me desapontou.

#4 O melhor livro

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Os Pilares da Terra, de Ken Follett, foi seguramente a melhor leitura até ao momento. Um rol de personagens fascinantes, descrições deliciosas e uma composição de personalidades sublimes. Segredos sobre segredos e a construção de uma catedral servem de motor narrativo para uma história densa e emocionante sobre os problemas entre a Coroa e a Igreja na Inglaterra do século XII.

#5 A melhor BD

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Embora Saga e Tony Chu tenham sido as maiores surpresas neste género, The Walking Dead foi, seguramente, a melhor BD. Li todos os vinte e cinco volumes até agora publicados e, no seu todo, fascinaram-me. Os instintos de sobrevivência e o drama vivido após o apocalipse walker são explorados ao máximo, ao ponto de comportamentos serem discutidos e a dicotomia bem e mal ser posta à prova. Um trabalho genial de Robert Kirkman.

#6 O mais bem humorado

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A par de Saga, as aventuras do cibopata Tony Chu foram as mais divertidas que li este ano. Após uma terrível gripe aviária, o comércio de frango foi proibido e começou a ser traficado como uma droga ilegal. É nesse contexto que uma entidade reguladora de saúde do governo norte-americano contrata Chu, um homem capaz de “ler” o percurso de vida de tudo aquilo que ingere. A série divertiu-me desde o início, mas demorou a deslumbrar-me. Neste momento é uma das minhas BD’s preferidas.

#7 A maior desilusão

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Depois de ler as Histórias de Aventureiros e Patifes e ter ficado fascinado com a escrita de Gillian Flynn, vim para este Em Parte Incerta com as expectativas bem altas. O livro desapontou-me em toda a largura. Desenvolvimento forçado, personagens desinteressantes e escrita cansativa.

#8 A melhor capa

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Gostei imenso da capa do quarto volume de As Águias de Roma, de Enrico Marini. A cena bélica é cativante e a expressão do rosto coaduna-se ao personagem Armínio. Podia escolher as capas dos outros volumes da série, ou até mesmo uma das muitas e excelentes capas da BD The Walking Dead, mas esta acabou por ser mesmo a que achei mais cativante.

#9 A pior capa

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A capa do livro A Balada de Antel, de Eric M. Souza, acabou por me cativar somente pelas cores utilizadas. As expressões faciais têm um aspeto estranho e o livro merecia um trabalho gráfico mais elaborado por parte da editora Saída de Emergência.

#10 A melhor composição gráfica

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Podia referir alguma BD, mas escolhi o livro Príncipe dos Espinhos, de Mark Lawrence. O trabalho gráfico da TopSeller agradou-me imenso. Não só manteve a capa original, como todo o interior foi trabalhado com bom gosto, em tons negros e brancos para sublinhar o carácter dark da obra. Deu-me muito gosto desfolhar este pequeno livro.


Sintam-se à vontade para comentar e responder à TAG do primeiro semestre. 🙂