Resumo Trimestral de Leituras #14

E o primeiro semestre de 2018 chegou ao fim. Isto passa rápido, não é? Se o primeiro trimestre tinha sido rico em excelentes leituras [espreita aqui] não me posso queixar do segundo. O ritmo continua muito bom, já tendo lido mais este ano do que no ano transacto por esta altura. A popularidade do blogue também continua em crescendo, com uma média de 120 visualizações diárias, mas isso são outros quinhentos.

Os meus destaques literários dos meses de abril, maio e junho vão para Brandon Sanderson, Ken Follett e Ray Bradbury, por razões distintas. Sanderson, pela quantidade de livros que dele li durante este trimestre. Não só tive a oportunidade de começar a sua trilogia Executores, como li os três livros já lançados da Segunda Era de Mistborn, que não me desiludiu minimamente. Follett continua a ser uma dos nomes que me vêm à mente quando falo em escritores preferidos, e a leitura de Uma Coluna de Fogo revelou-se a minha predilecta do corrente ano até ao momento. Fahrenheit 451 de Bradbury foi a minha última leitura do mês. Uma grande surpresa. Já te conto o que achei.

Melhor livro: Uma Coluna de Fogo, Ken Follett

Melhor BD: New World Order (The Walking Dead #30), Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

Pior Avaliação: Nove Príncipes de Âmbar (As Crónicas de Âmbar #1), Roger Zelazny

Sem títuloComecei abril com Sonho Febril, livro de vampiros escrito por George R. R. Martin no início dos anos 80, publicado em Portugal pela Saída de Emergência. Não tem uma escrita tão elaborada e uma narrativa tão densa quanto Martin nos presenteia nas Crónicas de Gelo e Fogo, mas é realmente difícil fazê-lo num romance isolado. Ainda assim, o livro é muito bom. De um lado temos a visão histórica que perpassa os anos da escravidão, da guerra e do abolicionismo, oferecendo-nos uma panorâmica única sobre os desfiles de embarcações ao longo do Mississipi e dos seus afluentes, do outro, uma trama de vampiros, protagonizada por Abner Marsh, um homem corajoso e sonhador que, para realizar o sonho de ser capitão de uma grande embarcação fluvial, acaba por forjar um pacto com um ser das trevas. Escrito por Roger Zelazny em 1962, Nove Príncipes de Âmbar é o primeiro volume das famosas Crónicas de Âmbar, que serviram de inspiração a autores como George R. R. Martin, Steven Erikson ou Neil Gaiman. Pessoalmente, não me encantou. É giro ver uma disputa de irmãos por um reino, capazes de se comunicar e transportar através de um baralho de cartas com as suas próprias ilustrações, mas não comprei a ideia, achei amador, tudo muito repentino, sem background e sem qualquer verosimilhança. É um livro pequeno, mas nunca um livro tão pequeno me custou tanto a ler.

Sem TítuloA parceria G Floy Studio com a ComicHeart volta a dar cartas e Dragomante: Fogo de Dragão é a nova BD resultante da colaboração. Manuel Morgado, ilustrador português reconhecido em França, convidou o famoso autor de fantasia Filipe Faria para ilustrar os seus desenhos, e juntos criaram uma história de fantasia medieval que consegue não cair no cliché. Nereila é a primeira mulher Dragomante em séculos, que prossegue o seu treino com o Preceptor Leunaius, mas nem ela nem o seu dragão estão seguros quando um barão odioso planeia vingar-se dos feitos do seu pai. Carbono Alterado é o famoso primeiro romance de Richard Morgan, que recentemente foi adaptado pela Netflix numa série de grande sucesso. O livro foi publicado pela Saída de Emergência em 2008, e embora não tenham publicado mais nenhum livro da trilogia Takeshi Kovacs, voltam a editar este livro 10 anos depois. A trama é futurista, com traços de policial e de noir, enquadrado no sub-género da ficção científica cyberpunk. Aqui, a morte é passageira, porque as pessoas têm um chip que pode ser implantado em outro corpo depois de mortos. Claro está, os ricos têm poder para se clonar a si mesmos e o protagonista é contratado para investigar um homicídio… pela própria vítima. Excelente livro, embora tenha gostado muito mais da escrita do que da ação em si.

Sem TítuloCoração de Aço é o primeiro volume da série Executores de Brandon Sanderson. Trata-se de um YA leve que explora a temática dos super-heróis no nosso mundo, algures no futuro, com a peculiaridade de que aqui, os super-heróis são vilões. David Charleston é um rapaz normal, que aos oito anos viu o pai ser morto por um Épico no interior de um banco, e então dedicou a vida à sua vingança. Ele coleciona uma vasta pesquisa sobre o Épico conhecido como Coração de Aço e o mundo que este erigiu à sua volta, o que o transforma no típico nerd lá do sítio. Mas só arranja armas para perpetrar a sua vingança quando se junta aos Executores, um grupo de humanos que trabalha arduamente para eliminar estes super-heróis. É um livro mediano, bem abaixo do nível a que o autor já nos habituou. Potter’s Field: O Cemitério dos Esquecidos é uma BD publicada no nosso país pela G Floy, com argumento de Mark Waid e arte de Paul Azaceta. Somos apresentados a John Doe, um homem invisível, sem identidade, sem passado e sem qualquer nome nas redes de informação e bases de dados. Doe estabeleceu um objetivo para si mesmo: descobrir quem foram todos os que se encontram enterrados no cemitério de Potter’s Field, em Hart Island, e dar-lhes justiça, fazendo o mundo lembrar-se dos seus nomes. Envolvente e castrador ao mesmo tempo que é simples e intenso, é um álbum que não agradará a todos, mas decerto agradará aos melhores fãs de noir e de policial.

Publicado pela Editorial Presença em 2003, A Mão Esquerda das Trevas é um dos livros mais aclamados da autora de fantasia e ficção científica Ursula K. Le Guin, que nos deixou este ano. É um livro lindíssimo. Não pela narrativa em si, que apresenta um início um tanto ou quanto vago, algumas passagens demasiado rápidas, outras demasiado morosas, mas pelo todo. Genly Ai é enviado para o planeta Gethen por uma federação interestelar chamada de o Ecuménio. Ali conhece uma nação de aparência medieval onde se podem encontrar rádios, telefones e outras tecnologias, e onde enceta uma relação peculiar com um nativo chamado Estraven, conselheiro do rei. Se ao início senti algumas dificuldades em engrenar na leitura, a pouco e pouco fui-me deixando embalar e do meio para a frente já não conseguia largar o livro. A escrita de Ursula é fantástica. O mangá One-Punch Man, com argumento de One e arte de Yusuke Murata, tem sido publicado regularmente em Portugal pela editora Devir. Apesar de não ter desgostado dos primeiros volumes, estes três (volumes 4, 5 e 6) conquistaram-me, sem dúvida, graças à adição de novas personagens e ao papel que o protagonista, Saitama, tem desempenhado. Mais ágil, melhor aproveitado, com várias personagens secundárias a serem exploradas, trazendo ao leitor uma boa dose de humor sem descurar as cenas de ação. Destruição em massa e um sorriso no rosto bem podia ser o slogan para esta série cuja premissa trata de um super-herói capaz de derrotar qualquer monstro com um único murro.

livro ken follett

Comecei maio com Uma Coluna de Fogo de Ken Follett, publicado pela Presença no ano passado. Apesar de as artes deixarem de ter a suma importância do livro, e de a ação já não se centrar em Kingsbridge como nos anteriores volumes do ciclo, gostei ainda mais deste do que de Os Pilares da Terra e Um Mundo Sem Fim. Acompanhamos os golpes políticos da Europa na segunda metade do século XVI, numa luta renhida entre Isabel Tudor e Maria Stuart, que representaram os ideais protestantes e católicos à época. Repleto de personagens deslumbrantes, este livro passa por Inglaterra, França, Espanha e até pela Escócia, com Ned Willard e Margery Fitzgerald como protagonistas. A Levoir e o Jornal Público continuam a sua colaboração. Desta vez, com a publicação de Y: O Último Homem de Brian K. Vaughan e Pia Guerra. O primeiro volume, Um Mundo Sem Homens, não me convenceu. Tinha as expectativas em alta, mas a história de um mundo em que todos os homens morreram, com excepção do protagonista Yorick e do seu macaco Ampersand, revelou pouco mais do que a premissa neste volume inaugural. Sou fã dos argumentos de Vaughan, mas aqui só vemos mesmo a extinção dos homens e o interesse generalizado que as mulheres remanescentes começaram a possuir pelo lugar dos falecidos… e por Yorick, claro está. Paralelamente a isso, a arte de Pia Guerra não me agradou por aí além.

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Embora ainda não haja previsões para ser publicado em Portugal, chegou-me a edição brasileira do box da editora Leya de Mistborn – Segunda Era, de Brandon Sanderson. A Liga da Lei, o primeiro volume, apresenta-nos uma dupla de protagonistas ágil e bem-humorada, Wax e Wayne, que para além de serem os melhores pistoleiros de Elendel, justiceiros por natureza, são duplonatos, unindo as capacidades de alomância e feruquimia devido à sua ascendência terrisana. Esta série é uma fantasia com alma de faroeste, passada numa Era Industrial trezentos anos após os eventos da primeira trilogia. Apesar de ser mais um policial do que uma fantasia épica como a Primeira Era, A Liga da Lei é um livro bem divertido e interessante. Continuei a ler as BDs já publicadas no nosso país pela Levoir em parceria com o jornal Público Y: O Último Homem (volumes 2, 3, 4, 5 e 6). Da obra de Brian K. Vaughan e Pia Guerra apenas faltam publicar os últimos quatro volumes, e apesar de ter melhorado consideravelmente nos últimos álbuns, esperava uma obra menos esparsa e repetitiva, em alguns momentos até mesmo preconceituosa. Ainda assim, a arte de Pia Guerra veio a melhorar bastante, e mesmo as participações de Goran Parlov e Goran Sudzuka conseguiram manter o nível artístico da autora canadiana. O melhor da série são mesmo os diálogos bem-humorados, as várias referências ao longo da obra e as relações interpessoais das várias personagens, principalmente Hero, 355 e Alison Mann, para com o protagonista Yorick, o último homem na Terra.

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Continuei a leitura da Segunda Era de Mistborn, publicada no Brasil pela Leya. A fantástica série de Brandon Sanderson atinge um outro patamar e expande a Cosmere. Se o primeiro volume desta nova era, meio “western”, meio “vitoriana”, já me tinha agradado, estes dois volumes subsequentes foram ainda melhores. As Sombras de Si Mesmo é um dos melhores livros que já li de Sanderson, ao “ressuscitar” o mistério dos kandras e envolver estes comedores de ossos numa intriga política bem amarrada, onde os nossos heróis, Wax e Wayne, têm de mover mundos e fundos para evitar o caos em Elendel e salvar o pescoço ao governador. Mas é Marasi Colms, a nova agente da autoridade, que reclama para si muito do protagonismo deste livro. Em Os Braceletes da Perdição, a trama sai de Elendel para nos mostrar que Scadrial está muito mais evoluído do que pensávamos, e uma aura de ficção científica atinge os protagonistas numa aventura cheia de ritmo em busca das famosas mentes de metal do Senhor Soberano. Shark-Killer é o terceiro volume da trilogia escrita em inglês, e publicada na Amazon, do autor nacional Bruno Martins Soares. É uma ficção científica espacial num mundo bem original e refrescante, com uma terminologia abertamente inspirada na temática militar náutica e uma aura Battlestar Gallactica. Não apreciei tanto este último volume como os antecessores, mas foi o coroar de uma história leve e corajosa cheia de batalhas espaciais, perdas e dramas pessoais. E lê-se num instante.

Sem títuloTerminei maio a ler O Caminho das Mãos, terceiro volume da Saga do Império Malazano de Steven Erikson, publicado pela Saída de Emergência. E entra diretamente para o meu top de livros de eleição. Com uma escrita incrível, Erikson conduz-nos por um mundo fantástico cheio de dragões, mortos-vivos (e até mesmo dragões mortos-vivos), macacos que mudam de forma, labirintos e magia por todo o santo lugar, e ainda assim consegue ser terrivelmente credível. Acompanhamos duas jovens com muito mais em comum do que poderiam ter à primeira vista, Apsalar e Felisin, dois amigos que se tentam proteger um ao outro como podem, Mappo e Icarium, e a tentativa suicida de um exército liderado pelo Punho Coltaine de salvar a vida a 5 mil refugiados, pelos olhos do historiador Duiker. Palpável e terrivelmente desolador, este é um daqueles livros que não deixa ninguém indiferente. E comecei junho a ler outra das minhas sagas preferidas, a Saga Assassino e o Bobo. Faltam-me palavras para tecer mais elogios à autora Robin Hobb, bem como à Saída de Emergência pela aposta tão consistente nesta escritora. A Demanda do Bobo é mais um livro incrível, emocionante, profundo e “terrivelmente” bem escrito. Fitz começa os preparativos para iniciar a busca pela filha sequestrada, mas os seus inimigos estão muito mais perto do que imagina. Este acabou por ser o livro desta nova saga que menos me agradou, especialmente pela morosidade da ação e pela parte final mais fantasiosa, mas ainda assim são raros os livros publicados em Portugal que lhe cheguem aos calcanhares.

MOW

Publicado pela G Floy em 2016, Men of Wrath: Má Raça é mais um dos trabalhos incríveis do autor Jason Aaron, que acompanho nas séries Os Malditos e Southern Bastards. Esta novela gráfica, com arte de Ron Garney, fala de uma família disfuncional e do karma obscuro que a acompanha desde que, muito tempo atrás, ocorreu o primeiro homicídio por causa de umas ovelhas. Os Rath começaram a revelar-se violentos e obscuros e os dias que correm não são exceção. Má Raça fala desta família e dos seus dramas, com saúde, sexo e pancadaria como principais ingredientes. Visualmente arrebatador. Li o incontornável Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Márquez, publicado entre nós pela D. Quixote. Neste livro intemporal, acompanhamos a família Buendía-Iguaran e a povoação fictícia de Macondo, conhecendo José Arcádio e Úrsula, bem como os seus filhos, netos, bisnetos e trisnetos. A maioria têm nomes iguais, como José Arcádio ou Aureliano, e os que partilham do mesmo nome costumam comungar ainda dos mesmos traços de personalidade. No fim, tudo estava escrito nos rascunhos de um velho cigano. Gostei bastante da escrita de Márquez e mesmo a história agradou-me, mas acabei por não conseguir sentir empatia por qualquer personagem e senti falta de profundidade no livro. Foi tudo contado com demasiada distância para me encantar.

Sem títuloQuem Teme a Morte é uma das grandes apostas da Saída de Emergência no segmento fantástico. Trata-se de uma história pós-apocalíptica da autora Nnedi Okorafor, passada numa África futurista. Conhecemos Onyesonwu, fruto da violação de um Nuru a uma Okeke. A sua mãe, única sobrevivente de um assalto Nuru, seguidores do Grande Livro, aprendeu a sobreviver no deserto até chegar a Jwahir. Desde cedo Onyesonwu viu-se vítima do preconceito ligado à sua cor de pele e ao que ela acarreta, mas pouco a pouco veio a descobrir várias peculiaridades sobre si mesma e sobre aquilo a que estava destinada. Leve, despretensioso e envolvente, Quem Teme a Morte consegue ser desolador e cruel, esperançoso e belo. Publicado pela Gradiva em 2015, O Gigante Enterrado é a primeira incursão de Kazuo Ishiguro na área do fantástico. Nobel da Literatura em 2017, Ishiguro apresenta uma bela história de amor e de companheirismo de um casal numa Bretanha que foi vítima de um esquecimento colectivo, provocado pelas névoas. Axl e Beatrice pouco se lembram do passado, apenas de que se amam, e sem se recordarem do rosto do próprio filho ou de onde ele vive, lançam-se numa viagem para a aldeia deste. Repleto de considerações morais lindíssimas sobre a importância das nossas memórias para aquilo que somos e para aquilo que sentimos, O Gigante Enterrado vale muito a pena por aquele último capítulo. As viagens, os encontros com guerreiros do Rei Artur, dragões, fadas e gigantes, não me convenceram. Foram aventuras muito simplistas, rápidas e juvenis, num livro que apela à maturidade.

Li o mais recente número da publicação da Devir, One-Punch Man, publicado em maio. O sétimo álbum mostrou um arco de história com pouquíssimos diálogos, uma batalha que se revelou rápida e fácil que levou à participação da grande maioria das personagens já apresentadas, um painel que vem a revelar-se incrivelmente bem “implantado” nesta série, ainda que pouco desenvolvido. Todavia, a grande mais-valia do livro é mesmo a arte de Murata. As cenas são visualmente extraordinárias. Já A Roda do Tempo de Robert Jordan é uma das sagas obrigatórias para os fãs de literatura fantástica, e era um pouco vergonhoso ainda não ter lido. Depois de alguns meses a pegar e a largar na publicação da Bertrand, acabei por finalizar o primeiro livro, O Olho do Mundo, um livro enorme de uma série igualmente enorme. A história acompanha Rand, Mat e Perrin, três jovens de uma povoação chamada Dois Rios que são os mais sérios candidatos a serem o Dragão Renascido, um herói profetizado das lendas. O mundo não tem início nem fim, mas gira num tempo cíclico, fazendo assim dos heróis do passado os heróis do futuro. Apesar de a história ter várias semelhanças com O Senhor dos Anéis e em alguns momentos ser bastante lenta, com conversas que não vão a lugar nenhum, não desgostei e possivelmente continuarei a segui-la no futuro.

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Li o volume 30 de The Walking Dead, a obra-prima de Robert Kirkman que continua o seu trabalho extraordinário, com arte de Cliff Rathburn, Charlie Adlard e Stefano Gaudiano. Em New World Order, Michonne, Eugene, Siddiq, Magna e Yumiko chegam a uma nova comunidade, de dimensões muito maiores do que qualquer outra que já haviam encontrado. Ali, a civilização parece ter permanecido intacta ao Apocalipse Zombie, com um sistema social bem definido e uma governadora de ideias fixas, Pamela Milton. Mas uma grande surpresa parece estar reservada a Michonne. Em Hilltop, Maggie assusta Sophia enquanto que em Alexandria Rick e Dwight olham com cepticismo para a nova civilização. Com mais ou menos ritmo, The Walking Dead convence a cada edição. A Companhia Negra de Glen Cook foi mais uma bela surpresa neste mês de junho. Uma das maiores influências para o Império Malazano de Steven Erikson, A Companhia Negra apresenta-nos a milícia armada de uma senhora das Trevas, pelos olhos de Chagas, o médico da companhia. Acompanhamos as maquinações de um grupo de vilões que só muito de vez em quando é acometido por rebates de consciência. Conhecemos o lado mais escuro de uma das facções numa guerra de dimensões maiores que a própria história. As restantes não passam de pano de fundo, nem temos que nos preocupar com elas. Com uma escrita bonita e simples, mais focada em diálogos, ao ler este livro não é difícil perceber porque Cook ganhou tanta importância e renome no mundo da fantasia.

Sem TítuloA publicação da G Floy, Laços de Família, é o quarto volume de Harrow County, a BD de terror escrita por Cullen Bunn e ilustrada por Tyler Crook. Uma série de personagens assustadoras fixa-se na povoação, aterrorizando os locais. Emmy precisa fazer algo para os proteger, mas rapidamente começa a questionar se esses “novos” inquilinos de Harrow County serão a sua verdadeira família. Comparativamente ao álbum anterior, Laços de Família manteve os elementos que fazem de Harrow County uma das melhores BDs de terror publicadas em Portugal, acima de tudo por não existirem muitas. Existe mérito no argumento de Bunn, na imprevisibilidade dos acontecimentos e no desenvolvimento de um plot que foge aos lugares-comuns do género, mas pessoalmente, achei um livro mais preguiçoso que o anterior, com uma história fácil e uma conclusão mais fácil ainda. E terminei junho da melhor maneira. Com Fahrenheit 451, o clássico distópico de Ray Bradbury que foi recentemente publicado pela Saída de Emergência. Nunca as minhas expectativas podiam imaginar aquilo que viria a encontrar neste livro. Somos apresentados a Guy Montag, um bombeiro. Mas há muito passou o tempo em que a função dos bombeiros passava por apagar fogos. Agora, as casas estão protegidas contra incêndios. O seu emprego consiste em destruir livros proibidos e as casas onde estão escondidos. Em poucas páginas, Bradbury faz não só uma crítica à sociedade, como transpira uma imensidão de pensamentos e de reflexões sobre nós próprios e sobre o nosso papel no mundo. Se pensarmos que Fahrenheit 451 foi escrito em meados do século passado, podemos considerar este livro como de certo modo profético, e é até assustador como o futuro pensado por Bradbury se encaixa no mundo em que vivemos.

Neste momento, acabei Príncipe das Trevas de Mark Lawrence, cuja opinião só conseguirei lançar no início do próximo mês e comecei a ler O Terror de Dan Simmons.  Continuem por aqui.

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Estive a Ler: Entre Mulheres, Y: O Último Homem #6

É bom que estejamos prestes a bater num icebergue, meninas. Não durmo quatro horas seguidas desde —

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “ENTRE MULHERES”, SEXTO VOLUME DA SÉRIE Y: O ÚLTIMO HOMEM (FORMATO BD)

Chegou a bancas no princípio de abril o álbum Entre Mulheres, o sexto volume da série Y, O Último Homem, da autoria de Brian K. Vaughan e Pia Guerra, que encerra assim a sua segunda fase de publicação pela Levoir, que tinha editado os primeiros 2 volumes em 2017. Fica a faltar à editora publicar os 4 últimos volumes para encerrar a coleção publicada pela Levoir com o jornal Público. Este sexto álbum teve ainda a colaboração de Goran Sudzuka na arte, substituindo a artista principal durante grande parte do mesmo.

Com um total de 128 páginas e formato em capa dura, Y: O Último Homem continua a contar a história de Yorick Brown, o último homem à face do planeta, e do seu macaco Ampersand, os últimos sobreviventes masculinos de uma praga calamitosa que vitimou todos os portadores do cromossoma Y no nosso planeta. Yorick persegue a noiva, desaparecida do outro lado do planeta, na Austrália, enquanto procura respostas para a sua sobrevivência.

Fonte: Levoir

A série de Brian K. Vaughan tem vindo a melhorar significativamente, e não posso dizer que desgostei deste sexto álbum. Os diálogos são bons, as referências cinematográficas e musicais sucedem-se, sempre a mostrar o lado mais irreverente do protagonista, e finalmente deu-se a tão aguardada cena lésbica entre duas das co-protagonistas. A arte de Pia Guerra tem vindo a melhorar e Sudzuka conseguiu manter-se fiel à ilustradora.

“Espero que a Levoir publique em breve os quatro volumes finais para ver o rumo que esta história irá tomar.

Ainda assim, a história continua a derivar num nada insubstancial. As motivações das personagens em seguir em frente são esparsas, não há realmente grandes ganchos e começa a tornar-se repetitivo que em todos os volumes Yorick se envolva com uma mulher diferente e que ela desapareça logo depois. Para além disso, numa história que se queria diferencial na questão da igualdade de géneros, parece-me extremamente sexualizada, e há até preconceitos na questão do amor lésbico. Tipo, se não há ali homens há mais de dois anos, queriam o quê?

Fonte: Levoir

Yorick, 355 e a bioengenheira Mann partem para o Japão num cruzeiro em busca do macaco capuchinho Ampersand, que fora sequestrado por uma japonesa mascarada.  Aparentemente, o macaco é a resposta para a praga que assolou a espécie masculina. Durante a viagem, Yorick é descoberto por uma das tripulantes e é entregue a Kilina, a capitã do navio, acabando por passar a noite na cabine desta. A empatia entre ambos é evidente, transformando-se numa paixão assolapada.

Tudo muda, porém, com o advento de um submarino australiano, que coloca uma espia a bordo do navio. Nas últimas páginas do livro, Beth, a namorada de Yorick, é aprisionada pelo remanescente feminino de uma tribo aborígene, onde é guiada num ritual estranho que a conduz a uma série de flashbacks que se interligam uns aos outros, dando a conhecer mais sobre o seu relacionamento com Yorick e da personalidade de ambos.

Fonte: Levoir

Apesar de ter gostado da aura marítima e dos volte-faces ocorridos a bordo do navio, o arco mais interessante acabou por ser a pequena história que fechou o álbum, protagonizada por Beth. As recordações que dão conta do início da sua relação com Yorick trazem mais conteúdo e uma ideia tátil do que a sua história significa, do que foi e do que poderá vir a ser, bem como traz maior empatia ao leitor para com as duas personagens e para com a demanda de Yorick.

Y: O Último Homem continua a ser uma BD bem escrita e com rasgos de genialidade, afinal estamos a falar de Brian K. Vaughan, um dos melhores guionistas do nosso tempo, mas o descolar de histórias, a falta de cenas impactantes e de personagens mais empáticas tem vindo a torná-la morna, aos meus olhos. Espero que a Levoir publique em breve os quatro volumes finais para ver o rumo que esta história irá tomar.

Avaliação: 6/10

Y: O Último Homem (Levoir / Público)

#1 Um Mundo Sem Homens

#2 Ciclos

#3 Um Pequeno Passo

#4 A Senha

#5 O Anel da Verdade

#6 Entre Mulheres

Estive a Ler: O Anel da Verdade, Y: O Último Homem #5

Se pretendem doações, eu tenho comida! E enlatada, mas… A chave partiu. Se tiverem um abre-latas…

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O ANEL DA VERDADE”, QUINTO VOLUME DA SÉRIE Y: O ÚLTIMO HOMEM (FORMATO BD)

Chegou no final de março às bancas nacionais o quinto volume da coleção da Levoir com o diário Público, Y: O Último Homem, a qual foi escrita por Brian K. Vaughan e desenhada por Pia Guerra. Este quinto volume, intitulado O Anel da Verdade, tem arte-final de José Marzán Jr. e inclui os números #24 a #31 de Y: The Last Man publicados pela Vertigo em 2004.

Vencedor de três Eisner, Y: O Último Homem continua a narrar as aventuras da personagem Yorick e o resultado de uma praga terrível que matou toda a população masculina do planeta, bem como as formas que a sociedade, agora feminina, lidou com a situação. Ao longo da jornada, Yorick encontra várias e diferentes figuras, com intenções bem distintas em relação à sua pessoa. 

Fonte: Levoir

Eis uma BD que tive muita dificuldade em compreender o seu sucesso, numa fase inicial. É uma jornada que releva as dicotomias homem-mulher no seu estado mais primário, apesar de trazer a lume vários debates interessantes e explorar uma situação que tinha tudo para arrebatar o público, o desaparecimento repentino dos homens. Agradável em conteúdo, ainda que pobre em forma, Y: O Último Homem é uma alegoria da mente humana e faz-nos pensar na sociedade em que vivemos.

“Com momentos de bom humor e uma série de perspetivas a serem desenvolvidas em simultâneo, Y: O Último Homem atinge, em O Anel da Verdade, o seu melhor momento até agora.

A trajetória de Yorick continua esparsa, sem um enredo narrativo que me consiga prender ou dizer: bem, que álbum bom! Parece uma história arrancada aos soluços, com momentos mais interessantes do que outros e sem um fio narrativo consistente. Ainda assim, é notória a evolução neste últimos volumes, e O Anel da Verdade é mais um livro repleto de diálogos bem cuidados e frescos, para além de a arte de Pia Guerra ter melhorado significativamente.

Fonte: Levoir

Dois anos passados sobre a catástrofe que arrasou a população masculina do planeta, deixando Yorick Brown e Ampersand, o seu macaco capuchinho, como os únicos sobreviventes portadores do cromossoma Y, a bioengenheira Allison Mann e a Agente especial 355, designada para proteger Yorick, chegam finalmente ao laboratório secreto da Dra. Mann, em São Francisco, onde ela vai tentar desvendar o segredo da sobrevivência de Yorick e de Ampersand.

Depois de longos meses de viagem, o grupo finalmente tem agora um lugar para descansar. Só que isso dá aos seus perseguidores a possibilidade de o apanharem. E embora Yorick, Allison e 355 tenham lidado com sucesso com os algozes que já cruzaram os seus caminhos, talvez não sejam capazes de encarar tão facilmente os inimigos ainda desconhecidos.

Fonte: Levoir

Seitas misteriosas, o passado familiar dos Brown posto em evidência, um anel de noivado peculiar e duas Beths são os ingredientes secretos deste livro onde as fezes do macaco podem trazer respostas para a sobrevivência dos dois machos que protagonizam a série gráfica. Com momentos de bom humor e uma série de perspetivas a serem desenvolvidas em simultâneo, Y: O Último Homem atinge, em O Anel da Verdade, o seu melhor momento até agora.

A estadia em São Francisco e a procura mais palpável para a questão mais importante do comic acaba por trazer mais estabilidade e interesse à série, muito graças à performance de Brian K. Vaughan enquanto guionista. Os diálogos voltam a ser um espetáculo à parte, ainda que me tenha sentido mais aliciado pelas cenas hot do primeiro terço do álbum. Apesar de, para mim, continuar no patamar mínimo do bom, Y: O Último Homem está a melhorar significativamente.

Avaliação: 6/10

Y: O Último Homem (Levoir / Público):

#1 Um Mundo Sem Homens

#2 Ciclos

#3 Um Pequeno Passo

#4 A Senha

#5 O Anel da Verdade

#6 Entre Mulheres

 

Estive a Ler: A Senha, Y: O Último Homem #4

Pá, se encostas a faca a essa égua, eu mato-te e às tuas amigas.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A SENHA”, QUARTO VOLUME DA SÉRIE Y: O ÚLTIMO HOMEM (FORMATO BD)

Da autoria do incontornável Brian K. Vaughan e com arte da promissora Pia Guerra, chegou às bancas nacionais no mês de março o álbum A Senha, quarto volume da série Y: O Último Homem, difundida em Portugal através da coleção da Levoir com o jornal Público. A arte-final é uma vez mais responsabilidade de José Marzán Jr. e inclui os números #18 a #23 de Y: The Last Man, publicados pela Vertigo em 2004.

Como a editora adverte na sinopse, podemos encontrar em A Senha algumas alterações na equipa artística. Em “A Passagem da Viúva”, Pia Guerra, que trabalhou na arte da série desde o início, foi substituída por Goran Parlov, permanecendo José Marzan Jr. na arte-final e Pamela Rambo nas cores, com a intenção de manter a coerência gráfica. Com 144 páginas, este volume marca o regresso da publicação que arrebatou três Prémios Eisner.

Fonte: Levoir

Este quarto álbum é dividido em duas partes, duas histórias distintas que se complementam e marcam o seguimento da viagem dos protagonistas. Apesar de já ter deixado claro que esta ideia não me agrada, a de completar histórias num único volume, vindo a conhecer personagens para logo a seguir deixá-las para trás, devo dizer que as duas narrativas que permeiam A Senha são significativamente melhores que as de primeiro e terceiro volumes.

“Irei continuar a ler Y: O Último Homem, mas confesso que esperava bem mais de uma série tão bem estimada pelo mundo fora.

De facto, o primeiro arco é incrível, não só pela violência de expressão e abertura na exploração da temática sexual, como pelo cuidado nos diálogos. Vaughan supera-se a nível de humor e de interação entre personagens. O segundo arco mantém a toada, leve e bem-humorado, mas deixa a desejar no desenvolvimento da história. Personagens cheias de potencial são apresentadas, mas o desenvolvimento começa e acaba ali, sem deixar ao leitor qualquer âncora para o próximo álbum.

Fonte: Levoir

A agente 355, a Dra. Alison Mann e Yorick, o último homem à face da Terra, continuam a atravessar os Estados Unidos tentando chegar ao laboratório da médica onde esta reúne os materiais necessários à pesquisa que pode ajudar a entender o que aconteceu aos machos do planeta, por que é que Yorick sobreviveu e, talvez descobrir um meio da humanidade não se extinguir por completo. Nessa demanda, Ampersand, o macaco-capuchinho de Yorick, adoece.

Enquanto as suas companheiras de viagem partem para tentar salvar o animal, Yorick fica na cabana da aposentada 711, uma ex-agente amiga de 355. O que ele conhecerá no interior daquela casa vai para além de tudo o que poderia imaginar, numa viagem íntima aos meandros da própria alma. No segundo arco, Yorick conhece uma viúva careca adepta de mecânica, enquanto as suas amigas têm de lidar com um grupo militar pouco amigável.

Fonte: Levoir

Com Yorick a ganhar maior dimensão enquanto personagem, a maior virtude de A Senha é mesmo a desconstrução e reconstrução do protagonista, que vinha a mostrar-se insosso e banal, revelando agora o porquê de algumas das suas atitudes e do seu carisma – ou falta dele. Embora continue a perder claramente em comparação às outras protagonistas, 355 e Dr.ª Mann, as saídas bem-humoradas e os momentos retrospetivos da personagem salvaram o álbum.

Apesar de continuar sem me convencer enquanto história, estrutura e linha narrativa, este álbum conseguiu entusiasmar-me bem mais do que os anteriores, devido ao capricho nos diálogos. Ainda assim, considero que esteja relativamente ao mesmo nível do segundo álbum, porque a primeira metade foi melhor do que a segunda. Irei continuar a ler Y: O Último Homem, mas confesso que esperava bem mais de uma série tão bem estimada pelo mundo fora.

Avaliação: 6/10

Y: O Último Homem (Levoir / Público)

#1 Um Mundo Sem Homens

#2 Ciclos

#3 Um Pequeno Passo

#4 A Senha

#5 O Anel da Verdade

#6 Entre Mulheres

 

Estive a Ler: Um Pequeno Passo, Y: O Último Homem #3

Quer que o vírus me infecte, para você ser o único homem da Terra!

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “UM PEQUENO PASSO”, TERCEIRO VOLUME DA SÉRIE Y: O ÚLTIMO HOMEM (FORMATO BD)

Foi lançado em março o terceiro volume da coleção da Levoir com o diário Público, Y, O Último Homem, escrita por Brian K. Vaughan e desenhada por Pia Guerra. Este terceiro volume, intitulado Um Pequeno Passo, tem arte-final de José Marzán Jr. e inclui os números #11 a #17 de Y: The Last Man publicados pela Vertigo em 2003. Vaughan é um dos nomes mais importantes da ficção científica atual, autor e produtor da série televisiva Lost, bem como da popular série gráfica Saga.

A editora Levoir regressa assim a esta série, estando programado o lançamento de mais quatro volumes, depois de ter editado os dois primeiros volumes em 2017. Após esta segunda fase de lançamentos, ficarão ainda em falta os últimos quatro de um total de dez volumes para a conclusão de Y: O Último Homem, ainda sem data prevista de lançamento. A série foi vencedora do Prémio Eisner, o galardão maior da nona arte.

Fonte: Levoir

Mais habituado à arte de Pia Guerra, que longe de ser má parece ter melhorado imenso do primeiro para o segundo volume, encontrei em Um Pequeno Passo uma nova e prometedora aventura de Y: O Último Homem. Neste volume, Vaughan mostra que a série tem pernas para andar e que as promessas que deixara nos anteriores volumes continuam a valer. Infelizmente, continua a ser uma promessa, e este terceiro volume pouco adiantou à história.

“Um Pequeno Passo é mais uma aventura vazia de um pintas americano sem interesse, que de repente tornou-se a última bolacha do pacote.

Para além de nos apresentar um novo arco, com pequenas ramificações oriundas dos dois primeiros, Um Pequeno Passo é isso mesmo, um pequeno passo adiante na história que não te deixa mais entusiasmado ou curioso. A esse respeito, o segundo álbum foi mais envolvente e emotivo, mostrando um argumento cheio de potencial que devia ter sido bem mais explorado, para agarrar o leitor. O sistema de arcos fechados a cada álbum não prende.

Fonte: Levoir

Yorick Brown, o último homem da Terra, atravessa a América na companhia de uma agente secreta do governo, a 355, de uma cientista especializada em clonagem, Dr.ª Allison Mann, e de Ampersand, o seu macaco e o único outro macho mamífero a ter sobrevivido à praga, em busca da sua noiva, que se encontra na Austrália. Antes, porém, devem chegar ao laboratório da Dr.ª Mann na Califórnia e finalmente tentar realizar estudos genéticos em ambos os sobreviventes.

Neste terceiro volume, o último homem da Terra tem um encontro inesperado: uma espia russa que alega ter um companheiro de equipa no espaço, com mais dois tripulantes, que virá a aterrar no Kansas. Rapidamente descobrem que Yorick não é o único homem vivo da Terra e que dos três astronautas vindos da Estação Espacial Internacional, dois deles são homens. Para além de arriscarem uma doença fatal ao aterrarem, os astronautas têm ainda de competir pelo controlo da situação calamitosa que se vive no planeta.

Fonte: Levoir

Ao mesmo tempo que oferece uma premissa interessantíssima de se explorar: o que aconteceria se os homens desaparecem do planeta, Y: O Último Homem oferece uma série de questões e debates morais. Temas como o preconceito, o feminismo, a xenofobia e outros comportamentos extremistas são levados à prancha pelo trabalho peculiar e interessante de um argumentista com provas dadas, Brian K. Vaughan, e de uma ilustradora com potencial, Pia Guerra.

Este potencial todo, porém, ainda não se materializou aos meus olhos. Vejo um trabalho com bastantes ingredientes e conteúdo, mas que não se desdobra de forma natural ou fluída, nem traz elementos capazes de me ganhar como outros trabalhos gráficos o têm feito. Insípida, sem grande ligação com o leitor, Um Pequeno Passo é mais uma aventura vazia de um pintas americano sem interesse, que de repente tornou-se a última bolacha do pacote. A história extra com que o álbum termina consegue ser mais interessante que a principal.

Avaliação: 4/10

Y: O Último Homem (Levoir / Público)

#1 Um Mundo Sem Homens

#2 Ciclos

#3 Um Pequeno Passo

#4 A Senha

#5 O Anel da Verdade

#6 Entre Mulheres

Estive a Ler: Ciclos, Y: O Último Homem #2

Desculpa. Tu és… És…?

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “CICLOS”, SEGUNDO VOLUME DA SÉRIE Y: O ÚLTIMO HOMEM (FORMATO BD)

Chegou às bancas nacionais a 26 de outubro de 2017 o segundo volume da coleção da Levoir com o diário Público, Y, O Último Homem, o qual foi escrito por Brian K. Vaughan e desenhado por Pia Guerra. Este segundo álbum da afamada BD norte-americana, intitulado Ciclos, tem arte-final de José Marzán Jr. e inclui os números #6 a #10 de Y: The Last Man publicados pela Vertigo em 2003.

Vencedor de três Eisner, Y: O Último Homem segue a jornada de Yorick e a descoberta de como a sociedade lidou com as consequências da praga que vitimou a quase metade da população mundial – a parte masculina. Entretanto, muitas das mulheres que Yorick vai encontrando pelo caminho revelam ter segundas intenções, abordando também o tema da confiança e dos limites que a psique humana conhece.

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Fonte: Levoir

Este segundo volume de Y: O Último Homem continuou sem me convencer, mas mostrou-se ligeiramente melhor que o primeiro álbum. A interação entre Yorick, 355 e Allison mostrou-se mais oleada e o despontar de um grupo antagonista também se mostrou benéfico à narrativa. Se no primeiro volume faltaram mais personagens carismáticos, que denotassem a possibilidade de um desenvolvimento sustentável para a série, elas aqui estão.

“A sensação de que cada álbum será uma história diferente perpassada por outra maior não funciona se não tiver cliffhangers fortes”

Ainda assim, fica a ideia que a jornada de Yorick ainda agora começou e andará muito a saltar aqui e acolá com novos personagens, fechando arcos demasiado rápido sem que consigamos identificar-nos com as personagens. Espero estar errado, mas neste volume, pelo menos, não consegui ter “tempo” para me familiarizar com as personagens e isso é significativamente mau para uma série que se deseja continuar a acompanhar.

Fonte: Levoir

Para garantir a sobrevivência da espécie, Yorick aliou-se a uma agente do governo e à mais importante investigadora de bioengenharia do mundo. Em Ciclos, na sua viagem através de uma América radicalmente transformada, na peugada da noiva de Yorick, são perseguidos pelas Filhas da Amazona, um grupo obcecado pela ideia de um mundo sem homens, composto por uma boa porção de mulheres bem hostis.

Pelo caminho, Yorick faz uma paragem inesperada na aparentemente utópica cidade de Marrisville, onde várias surpresas lhe estão reservadas, questionando tanto os seus sentimentos pela noiva, Beth, como sendo obrigado a um encontro familiar nada agradável com a irmã Hero, que se alistara no grupo Filhas da Amazona. Os momentos finais da trama funcionam como um espelho para Yorick, que conhece aqui um dos momentos mais asfixiantes da sua viagem.

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Fonte: https://365diaslendohqs.wordpress.com/

Vaughan volta a mostrar os seus dotes de argumentista em Ciclos, o segundo volume de Y: O Último Homem. O livro funciona muito bem como volume auto-contido, mas tratando-se de uma série maior, pareceu-me que deveria ser um arco expandido por outros volumes. A sensação de que cada álbum será uma história diferente perpassada por outra maior não funciona se não tiver cliffhangers fortes, o que até aqui não se verificou.

Ainda assim, a melhoria observada em relação ao primeiro volume é notória, abrindo espaço para um terceiro volume ainda melhor. A série está longe de me fascinar, que sou absurdamente fã da série Saga do mesmo autor, mas se o primeiro volume prometeu, este segundo veio efetivamente a melhorar. As personagens continuam a ser o ponto mais negativo do álbum, sem intensidade nem empatia, e a arte de Pia Guerra melhorou bastante, mas não é contributo que justifique uma melhor avaliação.

Avaliação: 6/10

Y: O Último Homem (Levoir / Público)

#1 Um Mundo Sem Homens

#2 Ciclos

#3 Um Pequeno Passo

#4 A Senha

#5 O Anel da Verdade

#6 Entre Mulheres

 

Estive a Ler: Um Mundo Sem Homens, Y: O Último Homem #1

Pelo menos, acho que disse. A ligação caiu, antes que conseguisse ouvir a resposta. É por isso que vou para a Austrália…

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “UM MUNDO SEM HOMENS”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE Y: O ÚLTIMO HOMEM

Escrita por Brian K. Vaughan e desenhada por Pia Guerra, a BD Y: O Último Homem contou com a colaboração de Goran SudžukaPaul Chadwick e arte-final de José Marzán Jr.  Apesar das várias tentativas falhadas para adaptar a obra ao cinema e à televisão, em 2011 a obra teve direito a uma homenagem em Portugal, com a curta-metragem de ficção O Fim do Homem, realizada por Luís Lobo e Bruno Telésforo e produzida pela Universidade Lusófona, que estreou em concurso no festival de cinema Fantasporto.

Publicada pela parceria Levoir com o Jornal Público a 19 de outubro do último ano, Um Mundo Sem Homens é passado em 2002, quando uma terrível calamidade atingiu a raça humana, matando todos os mamíferos com o cromossoma Y, com exceção de um homem e do seu macaquinho de estimação. A história acompanha as aventuras de Yorick Brown, que enfrentará vários desafios ao longo da sua jornada, bem como as mais variadas questões e dúvidas.

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Fonte: http://www.acalopsia.com/y-ultimo-homem-pela-levoir-publico/

Um Mundo Sem Homens não foi um álbum muito fácil de ler. Para além da arte de Pia Guerra não ser muito atrativa, também esperava mais do argumento do Brian K. Vaughan. Não que o argumento de Um Mundo Sem Homens seja fraco. Simplesmente nem chega aos calcanhares do que Brian faz em Saga. É o risco que corre quem nos habitua mal e coloca a bitola bem lá em cima. Ainda assim, a série tem potencial.

“Y: O Último Homem é uma série que, por enquanto, fica pelo potencial

Não gostei nem desgostei. Ficou num meio termo bem insosso, daqueles em que fica a sensação que não ganhamos nada por ter lido aquilo. Y: O Último Homem tem uma premissa bem interessante, diálogos cativantes e personagens com potencial, mas acaba por não acontecer nada de interessante para além do óbvio. Este primeiro volume limitou-se a apresentar aquilo que já sabíamos sobre a série antes de começar a lê-la.

Fonte: Levoir

Quando todas as criaturas com cromossoma Y morreram instantaneamente e sem explicação alguma, o mundo mudou sem hipótese de retrocesso. A sociedade tendencialmente masculina soçobrou e não houve como escapar a isso. O mundo encontra-se à beira do colapso, com o desaparecimento de mais de metade da população. As mulheres tornaram-se dominantes e procuram mostrar o seu talento para o poder, mesmo sabendo que não há salvação qualquer para a vida na Terra.

É a partir desta premissa que conhecemos Yorick e o seu macaco Ampersand, os dois únicos espécimes masculinos que sobreviveram à “praga”. Depois de tentar fugir às soluções pouco pragmáticas da mãe, uma mulher de grande importância na nação, Yorick é acompanhado por uma agente da autoridade, 355, vindo a encontrar ainda mais problemas quando se cruza com uma cientista de etnia chinesa e japonesa chamada Allison.

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Fonte: http://www.centralcomics.com/2017/10/14/y-o-ultimo-homem-nova-coleccao-da-levoir/

Após o “génerocídio” que exterminou 48% da população mundial, Yorick Brown é obrigado a enfrentar perigosas extremistas, enquanto tenta reencontrar a sua namorada que está do outro lado do planeta e descobrir porque foi ele o único homem a sobreviver. Y: O Último Homem é uma série que, por enquanto, fica pelo potencial, acabando por não cumprir minimamente com a ideia de jornada que fazia para este sobrevivente.

Mesmo o humor pareceu-me um tanto ou quanto forçado, sem grandes momentos de leveza. Ainda assim, tem tudo para melhorar nos próximos volumes, até porque não foi por acaso vencedor do Eisner para Melhor Série Continuada em 2008, sendo uma das séries mais consensuais dentro do selo Vertigo. A edição nacional já tem seis dos dez volumes publicados, que pretendo desbravar em breve.

Avaliação: 4/10

Y: O Último Homem (Levoir / Público)

#1 Um Mundo Sem Homens

#2 Ciclos

#3 Um Pequeno Passo

#4 A Senha

#5 O Anel da Verdade

#6 Entre Mulheres

Resumo Trimestral de Leituras #12

O ano de 2017 chegou ao fim com 96 leituras no seu total, entre livros, BDs e contos avulsos. Foram em geral ótimas leituras, cujas opiniões podes consultar na minha lista anual, assim como podes conferir os Prémios NDZ atribuídos em As Escolhas de 2017. Este último trimestre foi maravilhoso, com três ou quatro leituras a destacarem-se em cada mês. Robin Hobb, Neil Gaiman, Brandon Sanderson, Dan Brown, Brent Weeks e Steven Erikson são os autores que merecem o maior relevo. As antologias e coletâneas também tiveram o seu tempo, e participei ainda de um ciclo de leituras em torno dos contos de Robert E. Howard. Fica com o meu balanço do último trimestre do ano:

Mitologia Nórdica – Neil Gaiman

Elantris, Elantris #1 – Brandon Sanderson

Maçãs Podres, Tony Chu: Detective Canibal #7 – John Layman e Rob Guillory

A Espada do Destino, The Witcher #2 – Andrzej Sapkowski

Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe – Edgar Allan Poe

Mulheres Perigosas – Vários Autores

A Torre do Elefante – Robert E. Howard

Origem – Dan Brown

Solomon Kane – Robert E. Howard

Liberdade e Revolução, Império das Tormentas #2 – Jon Skovron

Nocturno – Tony Sandoval

O Deus no Sarcófago – Robert E. Howard

O Assassino do Bobo, Saga Assassino e o Bobo #1 – Robin Hobb

O Acto de Fausto, The Witched + The Divine #1 – Kieron Gillen e Jamie McKelvie

Os Portões da Casa dos Mortos, Saga do Império Malazano #2 Parte 1 – Steven Erikson

Caminho das Sombras, Anjo da Noite #1 – Brent Weeks

Patifes na Casa – Robert E. Howard

Uma Pequena Luz, Outcast #3 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

À Margem das Sombras, Anjo da Noite #2 – Brent Weeks

Saga Vol. 7 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Deuses Americanos – Neil Gaiman

A Filha do Gigante de Gelo – Robert E. Howard

Mission in the Dark, The Dark Sea War Chronicles #2 – Bruno Martins Soares

Lines We Cross, The Walking Dead #29 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

A Rainha da Costa Negra – Robert E. Howard

Sem TítuloComecei outubro com Mitologia Nórdica da Editorial Presença, livro adquirido no Fórum Fantástico deste ano. Uma homenagem de Neil Gaiman à mitologia que tanto inspira as suas obras, o livro é de leitura fácil e conta a versão suave e bem-humorada do autor britânico sobre a história de Thor, Odin, Loki e companhia, desde a criação dos mundos até ao tão temido Ragnarok. Um dos livros que mais gostei de ler do escritor, que prima sobretudo pela simplicidade da composição. O primeiro livro publicado por Brandon Sanderson, Elantris revela algumas deficiências a nível estrutural e, sobretudo, alguma inexperiência na forma como resolveu as situações finais do livro, recorrendo a forças inexplicáveis para “salvar o dia”. Ainda assim, adorei. A forma como Sanderson nos apresenta Raoden, Sarene e Hrathen e os desenvolve é simplesmente genial. Um príncipe que se transforma, da noite para o dia, num morto-vivo, uma princesa prometida que chega ao reino do noivo e descobre que ele morreu e um sacerdote de armadura vermelha destinado a converter um povo à doutrina dos seus superiores são os personagens centrais de uma história envolvente e encantadora com um ritmo cada vez mais entusiasmante a cada virar de página. Foi publicado no Brasil pela Leya.

Sem títuloO sétimo volume de Tony Chu: Detective Canibal, intitulado Maçãs Podres, continua a boa senda da BD publicada em Portugal pela G Floy. Agora que nos adentramos pela segunda metade da série, as aventuras do detective mais irreverente das BDs tendem a dispersar-se, mas vários caminhos entrecruzam-se e a morte da sua irmã gémea é o mote para mais um álbum hilariante, em que tudo (ou nada) pode acontecer. De pessoas que adquirem a expressão facial daquilo que comem a um menage a trois inusitado protagonizado pelo colega ciborgue do protagonista, Maçãs Podres é mais uma prova do talento de John Layman, argumentista que esteve no último fim-de-semana de outubro no Festival de BD da Amadora. Já o segundo volume da saga The Witcher de Andrzej Sapkowski, A Espada do Destino trouxe seis contos passados no mundo de Geralt de Rivia, servindo também de prólogo para a saga que será iniciada no terceiro volume. Alguns contos têm ideias muito boas, como o divertido “O Fogo Eterno”, em que o ananico Biberveldt descobre que um doppler adquiriu a sua forma e anda a fazer negócios em seu nome, ou os últimos dois, que nos apresentam a excelente personagem Ciri, uma menina cujo destino está entrelaçado ao de Geralt. Ainda assim, a prosa de Sapkowski não me convenceu como havia feito no primeiro volume, achei os diálogos excessivos e sem conteúdo, e sobretudo pareceu-me um livro infantil com muitos palavrões para parecer adulto. Tem qualidade, mas foi uma leitura bem mediana a meu ver.

Sem título28 dos melhores contos de Edgar Allan Poe coligidos numa edição maravilhosa em capa dura e ilustrada por 28 artistas nacionais, Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe foram uma prenda da Edições Saída de Emergência para todos os leitores. E se a edição é lindíssima, os contos fazem-lhe justiça. Poe foi um autor único e o precursor de vários géneros, como o policial e o horror e até contribuiu para o ascender da ficção científica, com uma escrita intimista capaz de mexer com os medos mais primários do leitor. Alguns contos são melhores do que outros, mas destaco “Os Crimes da Rua Morgue”, “A Queda da Casa de Usher” e “O Coração Delator” como os meus preferidos. Também publicada pela Saída de Emergência, Mulheres Perigosas foi uma antologia organizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois, incluindo contos de Joe Abercrombie, Brandon Sanderson, Melinda M. Snodgrass e Megan Abbott, entre outros. Muito embora explore vários géneros, o que certamente fará os leitores preferir uns em detrimento de outros, os contos que mais me agradaram foram “Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno”, ambientado no universo Cosmere de Brandon Sanderson, “Dar Nome à Fera” de Sam Sykes e “A Princesa e a Rainha ou Os Negros e os Verdes” de George R. R. Martin, passado no mundo de Westeros.

Sem títuloIniciei um ciclo de leituras em torno de Robert E. Howard, um dos meus autores de eleição. Em A Torre do Elefante, o conquistador Conan entra em litígio com um malfeitor numa taberna, acabando por salvar uma aristocrata da escravidão. O cimério persegue um tesouro escondido na icónica Torre do Elefante, aliando-se a ladrões e enfrentando monstros terríveis para o alcançar. Dono de uma prosa maravilhosa, Howard volta a brilhar neste conto, que já havia lido inicialmente na coletânea A Rainha da Costa Negra da Saída de Emergência. Terminei o mês de outubro a ler o mais recente livro de Dan Brown, mas só consegui escrever a opinião no início de novembro. Origem, publicado em Portugal pela Bertrand, foi o livro de Brown que menos gostei, mas não posso dizer que tenha desiludido. Seguindo os ingredientes clássicos que lhe deram sucesso, Dan Brown coloca Robert Langdon numa corrida pela sobrevivência, desta vez com menos códigos ligados à Antiguidade e mais virado para o futuro e para as tecnologias. Mais fraco que os outros livros da série, valeu sobretudo pela ação dentro da Basílica da Sagrada Família, em Barcelona.

Sem TítuloContinuando a leitura dos velhos clássicos de Robert E. Howard, decidi-me a ler na versão italiana a coletânea de contos, poemas e fragmentos póstumos protagonizados por Solomon Kane, o puritano inglês que enfrenta homens e monstruosidades para fazer justiça com as próprias mãos. Com um sentido de moral muito profundo, as aventuras de Solomon Kane revelam Howard na sua melhor forma e escondem várias peculiaridades do pensamento da época. Publicado pela Saída de Emergência no início do mês, Liberdade e Revolução é o segundo volume da trilogia Império das Tormentas de Jon Skovron. Enquanto Ruivo se encontra confinado à cidade de Pico da Pedra, onde se tornou o melhor amigo do príncipe, Esperança Sombria tornou-se uma temível pirata, tentando ganhar nome e prestígio para, finalmente, enfrentar os biomantes e resgatar o seu amado. A história melhorou em relação ao primeiro volume, parecendo mais madura e mais fluída, com algumas adições deliciosas, como Merivale Hempist, Vassoura ou o Senhor Chapeleira.

Sem TítuloPelas mãos da Kingpin Books chegou-me o livro Nocturno de Tony Sandoval. De tons fortes e negros e desenhos adoráveis, ela traz-nos a história de um cantor rock perseguido pelo fantasma do seu pai que, depois de ser espancado e dado como morto, se transfigura como um justiceiro. Gostei bastante do conteúdo e da forma como foi apresentado, assim como da arte incrível do autor mexicano, mais do que podia adivinhar da premissa. O Deus no Sarcófago é um conto de Robert E. Howard que incluí no ciclo de leituras em redor do escritor norte-americano. Ele conta como Conan se infiltrou num templo nemédio para roubar e acabou sendo acusado do homicídio do conservador do museu, ao mesmo tempo que um mal de outras eras desperta. Policial, thriller, horror e aventura permeiam uma das histórias de Howard que mais me encantaram, um pouco por não esperar ver Conan metido numa aura de Agatha Christie.

Sem títuloPrimeiro volume da terceira trilogia de Robin Hobb focada em FitzCavalaria Visionário, O Assassino do Bobo é uma sequência incrível de acontecimentos surpreendentes. Passado maioritariamente nas propriedades de Floresta Mirrada, pertences a Urtiga e que Fitz e Moli gerem com amor, este novo livro de Hobb mantém a toada lenta e perscrutadora dos anteriores volumes, de uma forma que em vez de entediar, delicia. Constantemente a surpreender-me, este livro de Robin Hobb trouxe momentos de ação, amor, amizade, reencontros, lutas, paixões e mortes e foi, seguramente, o melhor livro que li este ano. Uma das mais recentes surpresas da G Floy Studio, O Acto de Fausto é o primeiro volume de The Wicked + The Divine, mais uma das grandes séries publicadas pela Image Comics a chegar ao nosso país. Escrita por Kieron Gillen e ilustrada por Jamie McKelvie, este volume inaugural apresenta Laura, uma rapariga normal que se envolve com os deuses do Panteão. Trata-se de um grupo de doze pessoas que descobrem ser a reencarnação de deuses. Essa descoberta garante-lhes fama e poderes sobrenaturais, com a condição de que morrerão em dois anos. Apesar de não ser grande apreciador de fantasia urbana, esta é mais uma série a seguir.

Sem TítuloComecei dezembro com Os Portões da Casa dos Mortos de Steven Erikson. Publicado pela Saída de Emergência, o segundo volume da Saga do Império Malazano foi dividido em duas partes. Nesta primeira metade, deixamos a ação em Genabackis e acompanhamos a viagem de Violinista, Kalam, Apsalar e Crokus até ao continente das Sete Cidades, onde uma profecia está no cerne de um movimento rebelde às forças da Imperatriz Laseen. Acompanhamos também a jornada de Duiker, um historiador, Coltaine, um comandante intrépido, e a jovem Felisin, uma exilada. Morte e desolação seguem os passos de todos estes personagens, à medida que nos vamos envolvendo num novelo de conspiração em que a guerra e o sobrenatural se misturam. O mundo é incrível e a escrita de Erikson maravilhosa, mas não senti qualquer empatia pelos personagens, pelo que espero que a segunda parte me prenda mais. Primeiro volume da série Anjo da Noite de Brent Weeks, Caminho das Sombras é um livro de fantasia que segue os passos de um menino órfão chamado Azoth, que vive nas Tocas da cidade de Cenária. Certo dia, ele testemunha um massacre e fica obcecado com a ideia de tornar-se como o assassino, Durzo Blint. Com uma premissa muito interessante e uma escrita boa, achei Caminho das Sombras um livro mediano. As cenas foram expectáveis e o leque imenso de personagens tornou a narrativa um tanto ou quanto confusa. Ainda assim, para quem gosta de livros inebriantes e cheios de ritmo, fica a indicação. O livro foi publicado no Brasil pela Arqueiro.

Sem títuloO ciclo de leituras em torno de Robert E. Howard prossegue, desta feita com o conto Patifes na Casa. Não é dos contos protagonizados por Conan que mais me fascinaram, mas ainda assim proporcionou alguns bons momentos de suspense, ação e aventura, condimentados com uns salpicos de intriga política. A história ocorre numa cidade-estado entre Zamora e Corinthia durante uma aparente luta de poder entre dois líderes poderosos: Murilo, um aristocrata, e Nabonidus, o Sacerdote Vermelho, um clérigo com uma forte base de poder. Depois de o sacerdote o ameaçar com uma orelha cortada, Murilo ouve falar da reputação de Conan como mercenário e decide pedir-lhe ajuda. Pelas mãos da G Floy chegou até nós Uma Pequena Luz, terceiro volume de Outcast. Robert Kirkman volta a surpreender com a história de Kyle Barnes, um homem que desde a infância vê a família ser possuída por demónios. Com a ajuda de um padre, tenta descobrir a razão destas manifestações sobrenaturais e porque aparenta ter poderes especiais sobre elas. Uma Pequena Luz é um volume sólido e expansivo, cada vez mais à altura do seu próprio autor, para quem as provas dadas são “que baste” para o idolatrar. Já a arte de Paul Azaceta tem vindo a melhorar. Confesso que gosto das suas ilustrações desde o primeiro volume, mas está longe de ser dos meus artistas favoritos no género. Ainda assim, grande parte da qualidade do seu trabalho está na pintura.

Sem TítuloContinuando a série Anjo da Noite de Brent Weeks, li À Margem das Sombras, publicado no Brasil pela editora Arqueiro. Se achei o primeiro volume mediano, este segundo foi francamente bom. A escrita fluída e rica é uma das maiores virtudes de Weeks. Os diálogos estão cheios de humor e sarcasmo, as descrições de batalhas, movimentos e ambientes, incríveis. O set é absolutamente apelativo. Os dedos das mãos não chegam para nomear as frases de efeito. Se À Margem das Sombras fosse um filme, seria um blockbuster. Confesso que preferi a primeira metade, mais lenta e verosímil, que a segunda, cheia de volte-faces e ritmo elevado. Mas o que dizer daquele final? O cliffhanger é de deixar qualquer um a babar pelo terceiro volume. Perto de alcançar a publicação norte-americana, o 7.º volume de Saga foi, provavelmente, um dos melhores até agora. Subversivo e original, o argumento de Brian K. Vaughan convence e a arte de Fiona Staples é um espetáculo à parte. Aliando o bom humor às cenas mais chocantes de mortes e sexo, a história é contada por uma criança fruto de uma família disfuncional resultante do choque entre duas culturas distintas. Perdidos num cometa, os protagonistas da space opera vão ter de lidar com os mais diversos problemas.

Sem TítuloUma das obras mais aclamadas de Neil Gaiman, Deuses Americanos foi recentemente adaptado a uma série de TV pela Starz. Publicado em Portugal pela Editorial Presença, a obra fala de uma luta entre os deuses antigos e os novos. Sombra é um homem que sai da prisão após cumprir uma pena, quando sabe que a esposa faleceu. Durante o voo de regresso a casa, cruza-se com um senhor que diz chamar-se Quarta-Feira, e que o conduz numa espiral alucinante de acontecimentos. Gostei do livro, mas pareceu-me bastante superestimado, com uma narrativa em forma de road trip, densa e um pouco entediante, que podia ser contada como um conto. Continuando a revista aos contos de Robert E. Howard, li A Filha do Gigante de Gelo e foi um dos contos de Conan de que menos gostei. O herói cimério encontra-se num cenário de morte após uma batalha e vê uma bela mulher semi-nua, que o ofende e foge. Conan persegue-a para descobrir ser alvo de uma armadilha… sobrenatural. Segundo volume da trilogia de ficção científica The Dark Sea War Chronicles de Bruno Martins Soares, Mission in the Dark está disponível em inglês, na Amazon. Byllard Iddo continua a sua senda de sabotagem aos Barcos Silenciosos da República Axx, ao comando da nave Arrabat. Mas a Guerra do Mar Negro está longe de chegar ao fim, e nem só de vitórias se faz o seu percurso. Gostei mais deste livro que do primeiro, mesmo assim notei tratar-se de um típico volume de transição. Uma trilogia ótima, cheia de cenas de ação e humor militar.

Resultado de imagem para lines we cross the walking dead 29Lines We Cross é o volume 29 da BD The Walking Dead, com argumento de Robert Kirkman e arte de Cliff Rathburn, Charlie Adlard e Stefano Gaudiano. Apesar de ser um volume mais morno, teve várias supresas interessantes, envolvendo Dwight, Negan, uma nova personagem chamada Princesa e até envolvimentos amorosos, com Jesus, Aaron, Magna, Yumiko e Siddiq em destaque. Ao contrário da série de TV, a série em quadradinhos está cada vez melhor. E terminei o ano literário com mais um conto de Robert E. Howard. A Rainha da Costa Negra conta como Conan se lançou a bordo do veleiro Argus, para travar amizade com um capitão chamado Tito e, posteriormente, cruzar-se com a temível pirata Bêlit, também conhecida como A Rainha da Costa Negra. A escrita é maravilhosa e a primeira metade incrível, mas tanto a paixão de Conan por Bêlit me pareceu demasiado brusca, como a parte final do conto foi demasiado fantasiosa para os meus parâmetros. Resta-me deixar os votos de um ano de 2018 repleto de boas leituras e felicidades pessoais para todos os seguidores do NDZ.

As Escolhas de 2017

O ano de 2017 está à beira do fim e chegou a altura dos balanços literários. De modo geral, acabou por ser um ano sensivelmente idêntico ao anterior, com mais de 90 leituras no seu todo, embora este ano tenham sido significativamente mais livros e menos BDs que no ano pretérito, conforme podem conferir na minha listagem de leituras de 2017. 44 livros de bandas desenhadas, 44 livros em prosa e mais alguns contos soltos perfazem um ano cheio de surpresas e boas leituras.

Robin Hobb (6 livros), Neil Gaiman (7 BDs e 2 livros), Brandon Sanderson (2 livros, 1 BD e 1 conto) e Robert Kirkman (5 BDs) foram os autores que mais li este ano, mas vários foram aqueles de que repeti a “dose”. Conheci nomes como Patrick Rothfuss (li tudo o que havia do nosso Kvothe), Michael Moorcock (três volumes de Elric), Jon Skovron (dois volumes de Império das Tormentas), Brent Weeks (dois volumes de Anjo da Noite) e Noelle Stevenson (Nimona) e terminei várias séries que tinha em suspenso, como a Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence, A Primeira Lei de Joe Abercrombie ou A Torre Negra de Stephen King.

Fiquem, então, com as minhas escolhas literárias do ano de 2017.

MELHOR LIVRO

Sem título

O Assassino do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #1), Robin Hobb

aqui a opinião

Praticamente empatado com A Súbita Aparição de Hope Arden de Claire North nas minhas preferências literárias de 2017, O Assassino do Bobo talvez tenha a vantagem de pertencer ao género que mais me agrada, a fantasia épica. Profundo, dramático, bem desenvolvido e até enternecedor, o primeiro volume da terceira trilogia de Robin Hobb foi a minha melhor leitura do presente ano. Na minha escolha, pesou também o facto de ter lido os 5 livros da série anterior este ano, e todos com nota elevada. Hobb merece a medalha de ouro.

MELHOR FANTASIA

Sem título

O Assassino do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #1), Robin Hobb

aqui a opinião

Pensei seriamente que seria mais difícil escolher o melhor livro de fantasia do ano, quando a pouco mais de um mês para o final, Robin Hobb facilitou-me a tarefa. Ainda assim, foi um ano fantástico para mim como amante do género. Deslumbrei-me com Elantris e Warbreaker de Brandon Sanderson, amei os livros da Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss e ainda tive direito à primeira parte de Os Portões da Casa dos Mortos de Steven Erikson.

MELHOR FICÇÃO CIENTÍFICA

Sem título

A Súbita Aparição de Hope Arden, Claire North

aqui a opinião

Quem também me facilitou a tarefa foi Claire North, com algumas ressalvas. Este livro está normalmente catalogado num sub-género de Fantasia, magia urbana, é também um thriller mas, acima de tudo, a trama gira em torno de uma aplicação futurista para smartphones, o que justifica encontrá-lo tantas vezes vinculado à FC, e razão pela qual acabei por incluí-lo nesta categoria. O romance venceu o The World Fantasy Award 2017 com todo o mérito. No entanto, leituras como Terrarium de João Barreiros e Luís Filipe Silva, Autoridade de Jeff VanderMeer, Os Despojados de Ursula K. Le Guin e a space opera Saga (formato BD) de Brian K. Vaughan e Fiona Staples também me ficaram na retina.

MELHOR HORROR

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Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe, Edgar Allan Poe

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Entre alguns contos de Robert E. Howard e BDs como Harrow County e Outcast, acabou por ser esta lindíssima coletânea da Saída de Emergência, com ilustrações de 28 artistas nacionais, o livro que mais me marcou dentro do género Horror em 2017. Os contos que mais me agradaram foram “A Queda da Casa de Usher” e “Os Crimes da Rua Morgue”. Em 2018 espero ler mais histórias dentro deste género especulativo.

MELHOR ROMANCE HISTÓRICO

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Um Mundo Sem Fim, Ken Follett

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Uma vez mais, a minha escolha no género Romance Histórico ficou dividida entre Ken Follett e Bernard Cornwell, acabando por ser o primeiro a vencer. Embora ambos sejam ótimos, a escrita de Follett encanta-me com uma profundidade a que o autor das Crónicas Saxónicas ainda não me conseguiu chegar. Um Mundo Sem Fim, dividido em Portugal em dois volumes, foi publicado pela Editorial Presença, enquanto o terceiro volume das Crónicas de Cornwell, Os Senhores do Norte, chegou até nós pelas mãos da Saída de Emergência.

MELHOR ANTOLOGIA / COLETÂNEA

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Mulheres Perigosas, Organização George R.R. Martin e Gardner Dozois

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Embora tenha lido algumas coletâneas de contos, esta acabou por ser a melhor antologia que li em 2017. Permeada de autores renomeados como Melinda M. Snodgrass, Carrie Vaughn, Brandon Sanderson, Joe Abercrombie e Megan Abbott, a antologia da Saída de Emergência oscilou entre os contos muito bons e outros menos. Sam Sykes foi a grande surpresa do conjunto e George R. R. Martin voltou a mostrar aquilo que vale.

MELHOR CONTO

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Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno, Brandon Sanderson

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Incluído em Mulheres Perigosas, o conto “Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno” foi não só o melhor conto da antologia, como o melhor que li em 2017. Ambientada no universo da Cosmere, a história de uma mulher cheia de recursos que gere uma estalagem numa floresta prenhe de fantasmas cativou-me. Mais um pequeno exemplo de que Brandon Sanderson é um dos autores que deve, urgentemente, voltar a ser publicado em Portugal. Destaque ainda para o ciclo de leituras em que estou a participar, no qual revisito vários dos contos de Robert E. Howard, que merecem as minhas menções de honra.

MELHOR BANDA-DESENHADA

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Saga Volume 7, Brian K. Vaughan e Fiona Staples

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Este ano, Saga conseguiu suplantar The Walking Dead como a minha BD favorita, embora ambas continuem ótimas. Se o volume 6 da space opera já me havia fascinado, no 7.º o enredo só melhora. Resta-me enaltecer o trabalho da G Floy Studio neste segmento. Num ano em que li mais de 40 BDs, entre elas toda a coleção Sandman de Neil Gaiman, livros como A Garagem Hermética e A Louca do Sacré-Coeur de Moebius, acabaram por ser as BDs da Image Comics que a G Floy tem trazido até nós a marcarem-me.

Wytches, The Witched + The Divine, a trilogia Velvet, Southern Bastards, Tony Chu: Detective Canibal e Outcast são alguns dos destaques do ano, e provas de que a G Floy está a crescer a olhos vistos. Quero, porém, deixar ainda um louvor para as excelentes Nocturno de Tony Sandoval (Kingpin), Monstress: Despertar de Marjorie Liu e Sana Takeda (Saída de Emergência), Nimona de Noelle Stevenson (Saída de Emergência) e Como Falar Com Raparigas em Festas de Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá (Bertrand).

MELHOR LANÇAMENTO

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O Assassino do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #1), Robin Hobb

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Não podia deixar de vencer em todas as categorias em que se insere. O Assassino do Bobo foi lançado em maio pela Saída de Emergência, mas só em novembro é que o li, porque ainda me faltava ler a segunda série protagonizada por Fitz antes de mergulhar nesta terceira. Ainda assim, este ano foi fantástico em lançamentos, nomeadamente pela Saída de Emergência no que diz respeito à fantasia e também com a sua nova incursão no mundo das bandas-desenhadas. Outros livros que foram lançados este ano e merecem o meu destaque, mas não só a nível nacional como internacional, foram Origem de Dan Brown (Bertrand) e Mitologia Nórdica de Neil Gaiman (Editorial Presença), que li neste último semestre do ano.

MELHOR NACIONAL

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Terrarium, João Barreiros e Luís Filipe Silva

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2017 foi mais um ano com espaço para a literatura nacional. Li a antologia Os Monstros que nos Habitam (que inclui um conto meu), A Nuvem de Hamburgo de Pedro Cipriano, Anjos de Carlos Silva, Moving, Fighting the Silent e Mission in the Dark de Bruno Martins Soares, La Dueña de José Augusto Alves e Conquista da Liberdade de Jay Luis, mas foi a nova edição de Terrarium, revista e aumentada pelos dois autores, e publicada pela Saída de Emergência, que mais me agradou. João Barreiros e Luís Filipe Silva são os mestres da FC no nosso país e merecem todo o destaque que lhes possa ser dado, para que o seu talento possa chegar a mais e a mais pessoas.

Deixo-vos com os mais sinceros votos de um ano de 2018 cheio de boas surpresas e que para o próximo ano continuem a acompanhar as minhas indicações literárias. Boas leituras para todos.

Estive a Ler: Saga #7

Diz quem? A nossa filha é rija como sei lá o quê! Acho que essas cenas todas que nos ensinaram de defeitos congénitos nos “híbridos” era só para propaganda para manter os nossos povos separados.

O texto seguinte pode conter spoilers do sétimo volume da série Saga (Formato BD)

Com dezassete Harveys e doze Eisner no bolso, que incluem os prémios de Melhor Escritor, Melhor Desenho, Melhor Capa e Melhor Série em Continuação só em 2017, Saga é já uma série de culto do panorama gráfico internacional. A G Floy Portugal traz-nos mais um volume desta premiada série norte-americana, publicada originalmente pela Image Comics.

Em Saga, Brian K. Vaughan conta com a preciosa colaboração de Fiona Staples, ilustradora canadiana responsável por uma boa-parte do sucesso deste comic que chega agora ao volume 7 em terras lusitanas, pelas mãos da G Floy Studio. O volume inclui os números 37 a 42 da edição original, que encontra-se publicada até ao volume 8. Significa, portanto, que a publicação nacional está perto de alcançar a norte-americana.

Fonte: G Floy

Subversiva e original, Saga é uma space opera divertida que brinca com assuntos sérios da vida. Lidar com uma relação, com o crescimento de uma criança, questões como o controlo parental, famílias separadas, violência doméstica, prostituição infantil e racismo são apenas alguns dos temas tratados de forma suave e bem-humorada, obrigando o leitor a bater com a cabeça nas hipocrisias da sociedade.

O autor qualifica Saga como um “Star Wars para pervertidos”, mas as aventuras e desventuras de Marko e Alana com a sua filha Hazel são muito mais do que isso. Diálogos divertidos e refrescantes, perseguições, tiroteios e cenas de sexo, assim como personagens que parecem saídos de fábulas, que comunicam com o leitor não só através das suas falas sui-generis, como também através das expressões peculiares que Staples imprime em cada prancha.

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Fonte: G Floy

Em várias ocasiões, Saga foi também considerada como a Guerra dos Tronos da Ficção Científica no mundo das BD’s, e confesso que este volume deixou-me tentado a concordar com essa comparação. Não que a trama de Saga seja tão complexa e os acontecimentos tão épicos, porque a nota que permeia toda a obra é de uma descontração e boa disposição permanente. Aquilo que mais a aproxima à referida obra é, definitivamente, a casualidade com que as cenas de sexo e de nudez se seguem, assim como a forma como certas mortes ocorrem nos momentos mais inesperados.

“Saga tem um dos argumentos mais fortes e refrescantes que a BD americana tem trazido até nós.”

Convém alertar que estamos a falar de algo diferente, numa toada diferente. Nem mesmo Star Wars consegue ser tão descomprometida quanto Saga. Estamos a falar de uma narrativa leve e sem grandes intenções de ser levada a sério. Há imensos conflitos entre famílias, amores e desamores, guerras entre planetas, estamos a falar de temas sérios da sociedade, mas tudo nos é apresentado de uma forma quase inocente, pelos olhos de uma criança.

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Fonte: G Floy

O que não impede que hajam cenas de fazer corar qualquer um pelo meio. Logo nas primeiras páginas deste volume, encontramos um príncipe cuja cabeça é uma televisão, a masturbar-se. O sétimo álbum de Saga leva os nossos protagonistas para Phang, um cometa em estado de sítio, com vários confrontos armados instaurados entre várias fações. Marko e Alana, a sua filha, Hazel, a ama fantasma, Izabel, o Príncipe Robot e a cornuda Petrichor chegam a Phang e logo tropeçam numa família… peculiar.

Várias espécies e classes de personagens antropomórficas reclamam o controlo do astro através da guerra. O grupo encontra uma família de suricatas falantes, da qual Jabarah é a matriarca. Desde logo, Hazel sente uma grande empatia por um menino suricata chamado Kurti. Tal envolvimento vem, porém, a despoletar a ira da pequena para com a sua ama, a fantasma Izabel.

Fonte: G Floy

A adição de um assassino de duas cabeças, uma masculina e outra feminina, vem trazer um novo fôlego à trama (como se esta precisasse de ainda mais fôlego!!!). Segura e letal, esta nova personagem acompanhada por um porco revoluciona a história, mostrando ao núcleo principal que nem só de brigas familiares e caprichos pessoais é feito o mundo em que vivem. Perseguições e mortes seguem-se em catadupa, numa altura em que a família de Kurti revela grandes reservas em sair da sua toca.

“Expressiva e colorida, a arte continua a ser um espetáculo à parte nesta obra que, volume após volume, continua a maravilhar-me.”

Vontade, por sua vez, inicia uma longa caminhada ao encontro de Gwendolyn, Sophie e da Gata Mentirosa, procurando desesperadamente vingar a morte da sua irmã, Estigma. Mas o seu estado mental não parece notar grandes melhorias desde que saiu do coma. Para além de continuar a ver e a falar com a imagem imaginária da mulher aracnídea Haste, também começou a ver e a falar com a irmã morta. Durante o seu trajeto encontra figuras no mínimo peculiares e submete-se a encontros hilariantes.

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Fonte: https://geeksout.org/blogs/speedsterdave/speedster-dave-new-york-comic-con-2012

Saga tem um dos argumentos mais fortes e refrescantes que a BD americana tem trazido até nós. Brian K. Vaughan trabalhou um universo à parte, todo ele com cabeça, tronco e membros. Neste sétimo volume, tanto a proficiência narrativa de Vaughan continua a fazer-se sentir, como assistimos ao desfile exuberante de personagens riquíssimas e singulares. Trata-se de uma história de ficção científica com bonecos antropomórficos que pode facilmente ser encarada como um desenho para crianças, mas que fala de temas recorrentes do dia-a-dia dos adultos, com cenas para maiores de 18 ostentadas sem sobreaviso. Sempre numa toada humorística, claro está.

Apesar da escrita de Vaughan ser subversiva, audaz e inventiva, nada do que escreveu seria o mesmo sem as ilustrações de Staples, que tão bem se exprime através do seu lápis. Expressiva e colorida, a arte continua a ser um espetáculo à parte nesta obra que, volume após volume, continua a maravilhar-me.

Avaliação: 9/10

Saga (G Floy Studio):

#1 Volume 1

#2 Volume 2

#3 Volume 3

#4 Volume 4

#5 Volume 5

#6 Volume 6

#7 Volume 7