Especial: 10 Motivos Para Ler as Crónicas de Gelo e Fogo

Todos sabemos que as Crónicas de Gelo e Fogo são uma das sagas de fantasia mais conhecidas em todo o mundo, laureada pelos fãs do género. Empolado pela adaptação televisiva, a série Game of Thrones, o trabalho mais conhecido do autor George R. R. Martin é tema de estudos, rico em merchandising e, para além de ter inspirado milhares de escritores, é também utilizado como chamariz para lançar livros de economia, receitas gastronómicas ou documentários históricos. Um mundo fantástico envolvente e apaixonante, credível e real, que trouxe milhões de leitores para a ficção especulativa e devolveu a popularidade às histórias medievais.

Ainda assim, há um vasto público que nunca leu os livros, ora porque julgam que a série da HBO lhes conta toda a história, ora porque se sentem constrangidos pelo estigma erróneo de que a fantasia é um género menor, destinado para crianças e adolescentes, sem qualquer tipo de riqueza literária. É este um dos principais motivos pela falta de público literário no género fantástico. A maioria dos livros de fantasia atualmente são destinados ao público adulto, e este público continua a julgar que eles são para adolescentes.

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Trono de Ferro (Marc Simonetti)

Se queres fugir a este preconceito e descobrir prosas maravilhosas e temas tão envolventes como política, filosofia e relações humanas em mundos ficcionais, tens agora uma boa oportunidade para o fazer. A Edições Saída de Emergência está com uma campanha que não vais querer perder, válida até 9 de abril: 40% de desconto em livros da Coleção Bang!, como podes ver nesta página. Neste catálogo encontram-se livros como O Império Final, O Poço da Ascensão e O Herói das Eras (cujas opiniões podes ver aqui, aqui e aqui) de Brandon Sanderson ou as séries Acácia de David Anthony Durkham e O Mago de Raymond E. Feist. O Castelo de Gormenghast de Mervyn Peake e alguns volumes da obra completa de Lovecraft também estão disponíveis.

De George R. R. Martin, o autor das Crónicas de Gelo e Fogo, estão incluídos na promoção os livros Histórias dos Sete Reinos, A Ironia e Sabedoria de Tyrion Lannister, Windhaven e O Dragão de Inverno e Outras Histórias. No entanto, se queres iniciar a fantástica descoberta dos Sete Reinos, deves iniciar-te com as Crónicas de Gelo e Fogo, publicado em Portugal em 10 volumes até agora.

O NDZ dá-te 10 motivos para leres as Crónicas de Gelo e Fogo:

UM MUNDO QUASE REAL

Estávamos em 2011 quando as primeiras imagens promocionais de Game of Thrones ficaram disponíveis na imprensa e assisti a uma entrevista de George R. R. Martin, com vários separadores alusivos à série da HBO. A envolvente escura e a alusão a corvos e a batalhas aliciou-me de imediato. Um mundo fictício com Sean Bean como protagonista remeteu-me ao Senhor dos Anéis, a única fantasia que até então me havia arrebatado no grande ecrã e a única trilogia literária no género que me tinha apaixonado.

A frase chave de um artigo, que qualificava a série como “o Padrinho na Terra Média” foi o que me conduziu à série, e desde então comecei a segui-la. O caráter fanfarrão do personagem Robert Baratheon de Mark Addy e a crueldade do mundo – que fazia a série parecer ser passada na Idade Média não fossem as estações do ano durarem anos – foram as únicas coisas de que gostei realmente. Só nos últimos episódios da temporada fiquei preso. E isso coincidiu com o início da leitura dos livros.

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Mark Addy é Robert Baratheon (HBO)

É preciso perceber que estamos a falar de coisas bem diferentes. A série apresenta-nos tons cinzentos, desesperança e corrupção. Os livros dão destaque ao passado glorioso das nações, e embora possa dizer que a série é uma boa adaptação e todos esses cenários escuros estejam presentes, os livros trazem mais força, esperança e colorido, tendo nos dourados um poder que pouco se verifica nas temporadas iniciais do produto televisivo. A série literária foca-se na profundidade dos seus personagens e na memória coletiva, nos feitos terríveis e gloriosos dos antepassados, apresentando os conflitos políticos como algo decorrente do mundo extremamente bem criado e não o foco que a série apresenta, na tradição de outros filhos da produtora, como a extraordinária Rome.

Na minha opinião, se ambos são bons, os livros são superiores, porque incluem o que a série apresenta e muito mais. O mundo é extremamente plausível, mas em nenhum momento deixa de ser um mundo fantástico. Westeros e Essos vão revelando sinais claros de fantasia, quer através dos exércitos de mortos-vivos do outro lado da Muralha de Gelo, quer através das feitiçarias dos sacerdotes vermelhos, que podem executar proezas como a ressurreição, seguindo um código muito restrito que torna a magia em si algo raro neste mundo crível.

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Combate com White Walker (Fallonart em gameofthronesfanart)
PERSONAGENS MEMORÁVEIS

Se a adaptação televisiva contribuiu e muito para a popularidade do mundo, o mesmo se pode dizer dos personagens. Mesmo entre aqueles que não seguem a série, poucos são os que não sabem quem é Jon Snow, Daenerys Targaryen ou Tyrion Lannister. A popularidade destes personagens é tanta, que existe uma grande procura por figuras coleccionáveis, produzida por marcas de tradição no ramo.

A índole dos personagens é duvidosa. Se a série de tv nos apresenta pela rama alguns personagens importantes, os livros seguem o percurso de todos eles de forma categórica e profunda, fazendo-nos conhecer os seus medos e segredos, e até conhecer os feitos dos seus antepassados de uma forma apaixonante sem descurar qualquer detalhe.

Outro pormenor curioso, é que personagens apresentados na série como adultos, como Jon, Dany ou Robb, são descritos nos livros como meras crianças de 13, 14 anos, vindo a crescer lentamente no decorrer das aventuras. Daí que o ritual de matrimónio de Daenerys com Khal Drogo na série não pareça tão censurável quanto ele é descrito nas Crónicas. Cão de Caça, Davos Seaworth e Stannis Baratheon são personagens de grande profundidade nos livros, ombreando com Jorah Mormont e Melisandre na minha lista de preferidos. De destacar que vários personagens de relevo na trama foram afastados da série de tv, como Victarion Greyjoy, Arianne Martell ou Belwas, o Forte. Todos eles personagens incríveis.

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Arianne Martell e Arys Oakheart (pinterest)
UMA ESCRITA ENVOLVENTE

George R. R. Martin oferece nos seus livros sensações que a série não pode oferecer. Ímpar em descrição, Martin consegue incluir num só capítulo dezenas de nomes que nunca lemos sem que a leitura fique demasiado cansativa. Os seus capítulos ocorrem sob o ponto de vista de um personagem, fazendo-nos sentir as suas emoções, dúvidas e receios. É uma escrita elegante e apaixonante, crua e madura, dona de um vocabulário rico e de uma capacidade de envolvência rara.

Os diálogos são outro dos pontos fortes do autor. Sendo a maioria dos personagens opulentos em astúcia e arrogância, é comum o recurso ao sarcasmo e à metáfora no decorrer das conversas. Os duplos sentidos são uma constante com este autor, que usa e abusa da inversão e do imprevisível para surtir o efeito surpresa no leitor. Vários segredos encontram-se escondidos nas entrelinhas, o que contribuiu grandemente para todo o hype junto dos leitores. As teorias são muitas, e todas elas provocadas pelo senso subversivo da escrita de Martin, que já ensinou aos seus leitores que nada é colocado ali por acaso.

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Batalha do Tridente (Benden Nett em pinterest)
UMA IMAGINAÇÃO EXTRAORDINÁRIA

O dialeto dothraki, por exemplo, foi uma invenção exclusiva da série por David J. Peterson, embora George R. R. Martin tenha criado várias palavras que serviram de base a essa criação. Termos como khal, vaes dothrak, entre os dothraki, ou valar dohaeris, termo valiriano, são recorrentemente citados nos livros.

A imaginação de George R. R. Martin é de louvar. Ele criou dois continentes: Westeros, inspirado na Inglaterra medieval, e Essos, uma mistura de Ásia com a África da Antiguidade. Num lado sentimos frio com os protagonistas, nos Sete Reinos governados pelos Baratheon no início da saga, no outro calor sob grilhetas, caminhando descalços pelos desertos num regime aberto de escravatura.

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Daenerys Targaryen (team-daenerys em tumblr)

Westeros é um continente cinzento e cruel, cujo modo de vida assenta grandemente na forja de alianças entre casas. Porto Real é a capital, uma cidade portuária de grande envergadura que se estabeleceu como sede do poder nos Sete Reinos desde que os Targaryen ali se estabeleceram. A família real de George R. R. Martin recebeu grande inspiração dos melniboneanos de Michael Moorcock, embora a tradição incestuosa dos Targaryen beba também da nossa História, muito concretamente à Dinastia Ptolomaica que vigorou no Egito.

Uma traição terrível, conjurada entre os Baratheon e os Lannister, veio oferecer o trono aos Baratheon. Os Targaryen reduziram-se assim a duas crianças que foram levadas em segredo até ao outro lado do Mar Estreito, o continente de Essos. Ali, aparte as Cidades Livres, o esclavagismo vigora há muito, seguindo a tradição valiriana. É a remanescente Targaryen, Daenerys, uma adolescente cheia de sonhos e de bondade no coração, quem coleta exércitos à sua volta, alicerçada pelo mito que se criou a seu respeito aquando do milagre que a fez despertar três dragões dos seus ovos, para trazer justiça ao mundo. É, no entanto, como Martin transparece, uma rapariguinha que pouco sabe da vida, indecisa e muitas vezes questionável, ao contrário da mulher segura e badass que a série impõe de forma menos realista.

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Cena de Crónicas de Gelo e Fogo (keywordhut)
UMA CRÍTICA POLÍTICA E SOCIAL

Se há algo que Martin não deixa para outros, é colocar o dedo nas feridas da sociedade. A hipocrisia dos homens é frequentemente posta em discussão, e não são poucas as vezes em que os personagens cedem à facilidade da corrupção, através de propostas que lhe são vantajosas, abrindo as cancelas aos desígnios de outros de forma menos legal, ora através de contrapartidas sujas e alianças vis. O célebre “uma mão lava a outra” é usado por Martin por inúmeras vezes, fazendo destas Crónicas de Gelo e Fogo um grande jogo político mas principalmente um jogo azedo, pejado de injustiças e de crueldades, de interesses pessoais que ultrapassam os interesses do todo e de ações mesquinhas intermináveis.

Com uma mensagem clara no que diz respeito à crítica política e social, George R. R. Martin mostra o sofrimento do povo através dos personagens mais inóquos. Os bons não param de sofrer. Mas os perversos também provam do seu veneno. Um reflexo da realidade, as Crónicas de Gelo e Fogo mostram que ninguém escapa impune às crueldades da vida.

Para a Muralha de Gelo que separa os Sete Reinos das terras geladas, são mandados tanto os criminosos que procuram espiar os seus pecados, como os filhos bastardos, já considerados perjuros à nascença. Ali são “convidados” a representar a Patrulha da Noite, uma força militar que defende o mundo civilizado de hordas selvagens, embora o verdadeiro inimigo, que se tornou meramente lendário com o passar dos tempos, sejam os Outros, um mal muito antigo aparentemente adormecido. O ostracismo nas Crónicas representa claramente o preconceito da sociedade.

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Senhora Coração de Pedra (LynxFelidae em tumblr)
ÁRVORES GENEALÓGICAS INTERMINÁVEIS

A série só revela uma pequena amostra das ramificações imensas existentes no mundo de Gelo e Fogo. Se as árvores genealógicas dos Targaryen e dos Stark são as que mais importância têm na trama, devido aos feitos perpetrados pelos antepassados, determinantes no desenvolvimento da narrativa, existem outras famílias de grande peso histórico. Um dos personagens de grande envolvimento é Jorah Mormont, um westerosi exilado em Essos após um crime denunciado por Ned Stark.

Jorah viria a ser importante na trama por funcionar como conselheiro de Daenerys, por quem é apaixonado, mas se na série de tv não é fácil nem inicial a perceção de que estamos a falar do filho do Senhor Comandante da Patrulha da Noite, nos livros essa associação é mais flagrante, não só pelo apelido compartilhado. E se a linha genealógica Targaryen é a espinha dorsal da história, uma vez que o primeiro Targaryen a reinar Westeros chegou ali pousado num dragão, vindo da Valíria, dando origem a uma nova era e a um novo calendário, também os passados de Stark e Baratheon têm importância por aquilo que os une.

Os Stark reinaram no Norte, construíram monumentos imponentes até se ajoelharem aos Targaryen, enquanto os Baratheon, como uma ramificação bastarda da família real, viriam a entrar em conflito com esta quando Robert, apaixonado pela irmã de Ned, comprou uma guerra a Rhaegar Targaryen, com quem ela vivia um romance digno de canções. Esse conflito viria a despoletar a guerra sangrenta que resultaria na deposição dos Targaryen. Nessa peleja, também é de destacar Ned Stark como um dos lealistas da causa Baratheon, denunciando Jaime Lannister ao encontrá-lo sentado no Trono de Ferro quando matou o rei Aerys, e revelando um papel crucial na invasão das Ilhas de Ferro, onde tomou Theon Greyjoy como seu protegido, uma espécie de refém que garantia controle sobre a Casa que governava as ilhas. Vários comportamentos que incutiram uma opinião negativa sobre Stark, um homem honrado que apostou no cavalo errado.

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Stannis Baratheon como Azor Ahai (Jack Kaiser em tumblr)
ACONTECIMENTOS IMPREVISÍVEIS E PLOT-TWISTS

Pode-se considerar que os livros A Tormenta de Espadas e A Glória dos Traidores (Storm of Swords no original) são os mais cheios de acontecimentos inesperados e reviravoltas. A morte de personagens capitais, personagens principais e vilões, é de grande importância para o desenvolvimento da trama. O Casamento Vermelho é descrito por muitos como o acontecimento mais trágico da saga, e embora as diferenças entre o que acontece nos livros e na série sejam gritantes, ambos constituíram momentos de cortar a respiração para os fãs fervorosos do mundo de Gelo e Fogo.

Tyrion Lannister é um dos personagens fulcrais da história. Para além da sua língua afiada, este anão mordaz com um olho de cada cor, irmão da rainha, sofre os maiores preconceitos ao longo da narrativa. De um homem estigmatizado pelo mundo, ridicularizado pela própria família por conta das deformidades físicas e pelo mundo também pela Casa de tradições cruéis que representa, Tyrion Lannister tranforma-se num herói improvável. Ele é o Monstro que se vê casado com a donzela frágil, mas como esta história não é um conto de fadas, nem eles se amam, nem estão destinados a ficar juntos. Ele é o Corcunda de NotreDamme que se vê impelido a ajudar a menina, mesmo sabendo que ela nunca o amará. Mais do que isso, Tyrion é um génio político, que tem neste volume a sua revanche, mas uma transformação a nível de percurso que o conduzirá para longe de casa, claro está, com rameiras e vinho em mente.

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Os Lannister (Giacobino)
UMA MITOLOGIA SEM FIM

Dragões, mortos-vivos de gelo, troca-peles e afins são ingredientes que colocam as Crónicas de Gelo e Fogo num patamar de excelência dentro do género fantástico. Mas o que os torna realmente incríveis é que eles são raros no mundo em que estão inseridos, um mundo consistente e cruel. Se alguns anciãos, como a Velha Ama, descortinam fragmentos dessas criaturas do passado que podem estar bem vivas e escondidas no presente, a mitologia é apresentada pelas crenças das civilizações construídas de raiz.

Em Westeros, o culto aos Sete Deuses levou à criação de septos (as igrejas dedicadas aos Sete) e de septões (os padres). A Fé dos Sete reverencia o Pai, que representa o julgamento, a Mãe, dedicada à maternidade e à piedade, o Guerreiro, que oferece força em combate, a Donzela, representante da castidade e da inocência, o Ferreiro para os mesteres, a Velha para a sabedoria e o Estranho, que representa a morte e o desconhecido. Esta é a religião em voga nos Sete Reinos, exceto nas Ilhas de Ferro, onde se pratica o culto ao Deus Afogado, e no Norte, onde ainda se reverenciam os deuses antigos.

Em Essos a religião predominante é a que presta culto a R’hllor, o Senhor da Luz, conhecido como Deus Vermelho em Westeros. O seu símbolo é um coração flamejante, e a sua adoção por algumas figuras de poder em Westeros vem dar uma cobertura de guerra santa à Guerra dos Cinco Reis pelo Trono de Ferro.

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Ramsay Bolton (Aldo Katayanagi)
INFLUÊNCIAS LITERÁRIAS DE VULTO

Muito embora as Crónicas de Gelo e Fogo sejam sobejamente elogiadas pela ousadia e originalidade, pode-se dizer que apenas a forma como é abordada é original. A maioria dos personagens e tramas foram inspiradas por outras obras de destaque no género fantástico. Se já referi Moorcock como influência para os Targaryen, principalmente no que diz respeito às características físicas e passado grandioso, também posso estabelecer um paralelismo entre Tyrion Lannister e Elric. São duas figuras de poder, cada uma a seu jeito, que revelam grandes dilemas morais ao longo da sua jornada. São também vítimas da mesquinhez daqueles que os circundam e podemos somar a tudo isso as debilidades físicas. Se Tyrion é um anão feio, Elric de Melniboné é fraco e débil, recorrendo frequentemente a drogas para se manter enérgico. Pelo menos, até encontrar a espada Tormentífera, que pode ter sido também inspiração para a lendária Luminífera das Crónicas.

Os sacrifícios em nome de um Deus Vermelho, a existência de criaturas terríveis no Norte, que supostamente já teriam sido abolidas da face do mundo e a profecia de um inverno cruel, somados a uma menina que se disfarça de rapaz na sua fuga e a uma estrela com cauda nos céus que prenuncia mudanças, são​ elementos que Martin roubou a Tad Williams e à sua obra Memory, Sorrow and Thorn. Já a relação de amizade de Jon Snow com Sam, Pyp e Grenn é muito familiar se nos lembrarmos da obra do excelso senhor Tolkien e dos seus queridos hobbits. Os amigos de Frodo, Samwyse, Pippin e Merry partilham os nomes e a amizade juvenil.

A mitologia lovecraftiana de Ctulhu está também evidente nas crenças em redor do Deus Afogado nas Ilhas de Ferro. Várias Casas são também homenagem a autores dos quais George R. R. Martin é fã. São elas a Casa Vance (Jack Vance), a Casa Rogers (Roger Zelazny), a Casa Peake (Mervyn Peake), a Casa Costayne (Thomas B. Costain) e a Casa Jordayne (Robert Jordan), por exemplo. O Castelo dos Jordayne é o Tor, em homenagem à editora que publicou os livros de Jordan, e o seu senhor é Trebor, a inversão de Robert.

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Khal Drogo (Magali Villeneuve)
INFLUÊNCIAS REAIS

São imensas as influências na nossa História para as Crónicas de Gelo e Fogo. Não me refiro somente às inspirações para dar forma aos continentes e civilizações apresentados. A própria Guerra dos Cinco Reis foi inspirada pela Guerra das Rosas que dividiu o Reino Unido. Cersei Lannister é comummente comparada a Marguerite D’Anjou e a Elizabeth Woodville. Ambas tiveram papéis de destaque na Guerra das Rosas, ao colocarem mãos à obra para chegarem ao poder.

As características marcantes da sua fisionomia e o passado inglório fazem com que Daenerys Targaryen seja comparada a Elizabeth I, embora eu tenha mais tendência em compará-la a Cleópatra VII Philopator. A rainha do Egito era uma força da natureza que governou uma nação com garra, algo difícil de ver numa mulher na Antiguidade, o que estabelece um paralelismo com a heróina de Martin. Stannis Baratheon também é comparado a Constantino, que trouxe uma nova fé para a Europa, e a Antiga Valíria a Roma, um império caído. O triarca Horonno em Volantis é uma clara referência ao célebre romano Júlio César.

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Os Stark (Mathia Arkoniel)

Esta saga, porém, não possui apenas qualidades. O facto de serem muitos livros e de a série ainda não estar terminada – e possivelmente nem vir a ser – pode roubar-lhe público, mas ainda assim parece-me uma leitura obrigatória para os fãs do género. Com este artigo espero ter convencido os indecisos e até levar os que já leram a voltar a revisitar este mundo fantástico e empolgante.

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Especial: 7 Pais Que o Mundo da Fantasia Não Esquecerá

Dia 19 de março é o 78.º dia do calendário gregoriano. O dia em que a dinastia Sung terminou na China, a Suécia assinou a paz com Münster e os irmãos Lumiére filmaram o seu primeiro filme. É também o dia dedicado pela Igreja Católica a São José de Nazaré, esposo de Maria e pai de criação de Jesus Cristo. Por essa razão, foi estipulado como o dia internacional do pai.

Em homenagem a todos os pais, venho fazer um artigo dedicado àqueles que, embora ficcionais, deixaram um sentimento de afeição e calor paternal a todos os que os conheceram, através dos mais diversos livros de fantasia. São 7 pais que o mundo da fantasia não esquecerá. Personagens memoráveis que permanecerão na memória coletiva dos fãs do género. Se ainda não conheceste algum deles, do que estás à espera?

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Denethor (Tiziano Baracchi)
DENETHOR

O pai de Boromir e Faramir, em O Senhor dos Anéis, famigerada trilogia de J. R. R. Tolkien, não é o melhor exemplo de um pai extremoso. Filho de Ecthelion II, foi Mordomo de Gondor, a posição de regência da nação humana nos tempos em que aguardaram pelo Rei prometido. Denethor II casou com Finduilas, a filha de Adrahil de Dol Amroth, e do seu matrimónio nasceram Boromir e Faramir.

A predileção de Denethor pelo primogénito, Boromir, era evidente. Por sua vez, desdenhava do filho mais novo, que era muito próximo de Gandalf. A morte do filho mais velho tornou-o ainda mais céptico em relação a Faramir, que ainda assim viria a substituí-lo como regente de Gondor. Durante algum tempo, Denethor usou a bola Palantír, o que tornou mais frágil e o levou à loucura. Já debilitado mentalmente pela morte de Boromir, e ao julgar que também Faramir estava condenado, este pai viria a falecer ao queimar-se com a Palantír nas mãos durante o Cerco de Gondor.

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Príncipe Cavalaria (Myblack em deviantart)
PRÍNCIPE CAVALARIA

Apesar de a narrativa se iniciar com este personagem morto, a Saga do Assassino de Robin Hobb não seria a mesma se ele não tivesse existido. O Príncipe Cavalaria era o substituto natural do Rei Sagaz no trono dos Seis Ducados, uma vez que era o filho mais velho. Tendo como irmãos os príncipes Veracidade e Majestoso, Cavalaria era respeitado por todos e visto como um homem de valores e princípios. Daí que tenham sido surpreendentes os boatos e a confirmação de uma traição e da existência de um bastardo. Trata-se de Fitz, o protagonista da história.

Cavalaria assumiu a traição e colocou à disposição o seu lugar hereditário, pelo constrangimento que isso conferia ao reinado e à esposa. O príncipe era casado com a Dama Paciência, que nunca lhe havia conseguido dar filhos. Por conseguinte, após o seu desaparecimento, Paciência criou Fitz como o protocolo exigia, ainda que tenha vindo a ser Castro, um bom trabalhador e lealista ao príncipe, a vestir a pele de progenitor.

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Steven Deschain (Towerwikia)
STEVEN DESCHAIN

O pai de Roland, o protagonista da saga A Torre Negra de Stephen King, foi um pistoleiro bastante poderoso na terra de Gilead. Era um descendente de Arthur Eld, o ancestral que fundara aqueles domínios e uma clara alusão ao célebre Rei Artur do Ciclo Bretão. Filho de Deirdre e Alaric Deschain, Steven era um líder entre os pistoleiros.

Casou-se com Gabrielle, de quem viria a ter um filho, Roland. Apesar de tentar formar o filho nas leis dos pistoleiros, Roland revelou-se uma desilusão, acabando por derruir todas as suas expectativas. Na verdade, Roland descobrira que a mãe e um dos seus homens de confiança, Marten Broadcloak, eram amantes. Tentou alertar o pai para a traição, mas este nunca lhe deu ouvidos, o que resultou na sua morte. Roland, porém, regeu-se durante toda a vida pelos seus conselhos, e uma das suas máximas é: não te esqueças do rosto do teu pai.

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James Potter (Michelle Winer)
JAMES POTTER

Criado por J. K. Rowling, James é o pai de Harry Potter na famosa série de fantasia com o mesmo nome. Estudou em Hogwarts com aquela que viria a ser a sua esposa, Lilian, e os seus melhores amigos eram Sirius Black, Remus Lupin e Peter Pettigrew. Sempre fora apaixonado por Lilian, embora ela mostrasse especial predileção pelo seu amigo Severus Snape.

James e Lilian casaram após saírem de Hogwarts, vindo a juntar-se à Ordem da Fénix onde revelaram um papel fundamental no apoio a Dumbledore. Posteriormente, teriam o seu único filho, Harry, que viria a tornar-se uma peça capital para a salvação da Ordem e da própria escola de magia. Tal como a esposa, James viria a ser morto pelo terrível Lorde Voldemort.

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Ned Stark (io9)
NED STARK

Quem gosta de fantasia não esquece Ned Stark, o pai que todos gostariam de ter se vivessem em Westeros. Um dos protagonistas do volume inaugural das Crónicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin, Eddard “Ned” Stark foi sempre um homem íntegro e valoroso, de educação firme e mão de ferro. Apesar disso, ou também por isso, nunca deixou de amar os filhos e tratá-los com afeto e preocupação.

O patriarca dos Stark casou com Catelyn por amor, e ainda que todos julgassem que traíra a esposa e que dessa traição nascera Jon Snow – que viria a criar à sombra dos restantes filhos – Ned escondera um segredo terrível envolvendo a sua irmã Lyanna. Muito provavelmente, Ned manchou a sua honra para proteger a irmã. Ainda assim, a suposta traição foi perdoada por Catelyn, mesmo que esta nunca aceitasse o bastardo. Ned Stark foi vítima de uma armadilha cruel e morreu precocemente, mas todos nos recordamos da sua presença terna e da extrema afeição para com os filhos Robb, Jon, Sansa, Arya, Bran e Rickon.

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Arliden e Laurian (Corade Laurian em deviantart)
ARLIDEN

Arliden, o Bardo, é um personagem importante das Crónicas do Regicida de Patrick Rothfuss. Pai do protagonista, Kvothe, tem destaque no primeiro terço do livro O Nome do Vento, revelando-se um Edema Ruh de renome, famoso pelas suas cantigas de maldizer e por liderar uma trupe que se passeia de terra em terra para entreter os locais.

Esposo de Laurian, a filha de um nobre, é descrito pelo próprio filho como o melhor cantor e ator que este já viu. Dono de um humor mordaz e de feições afáveis, Arliden educou Kvothe com o máximo de subtileza e profundidade, vindo a preocupar-se com o dom inusitado do filho em aprender rapidamente. Em busca de uma nova música, Arliden colige vários relatos sobre o mito do Chandrian, o que vem a despertar atenções e resulta na sua morte, bem de como a da esposa.

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Jaime Lannister (Amok)
JAIME LANNISTER

Sei que já falei nas Crónicas de Gelo e Fogo, mas o Regicida é outro pai de quem nos lembramos facilmente. Ele teve três filhos com a sua irmã Cersei Lannister, ainda que estes tivessem sido criados por outro: o ébrio e fanfarrão rei Robert Baratheon.

Desde muito cedo que Jaime e Cersei estabeleceram uma relação de afinidade a roçar o erótico. Os irmãos sempre foram obcecados um pelo outro, da mesma forma que foram por si mesmos. Viram-se como o espelho um do outro – o espelho da perfeição. Apesar de nunca se preocupar em educar Joffrey, Tommen e Myrcela, Jaime sempre soube que eram seus filhos e, quando a vida levou um revés e o tornou mais humano, o que coincidiu com a perda de uma mão e a morte do filho mais velho, Jaime revelou-se mais preocupado com os outros filhos e com o real significado da palavra pai.

E vocês, têm algum “pai de estimação” no mundo da fantasia?

TAG – Os Cavaleiros do Apocalipse

Boa noite, amigos! Trouxe-vos uma tag literária e espero que se divirtam. Os Cavaleiros do Apocalipse? Eu sei que parece estranho, mas depressa vão perceber. Usando pormenores de trechos da Bíblia, mais propriamente do Livro da Revelação, identificarei capas de livros. Vamos a isso?

#1 Peste

E eu vi, e eis um cavalo branco; e o que estava sentado nele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e ele saiu vencendo…

#1.1. Um livro com um cavalo na capa

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A Tormenta de Espadas, de George R. R. Martin

Mais do que um verdadeiro refresh na literatura de fantasia, George R. R. Martin veio dar um novo significado a este género literário, mostrando ao mundo que fantasia não é feita somente de elfos e princesas guerreiras. Tormenta de Espadas é o terceiro livro de Crónicas do Gelo e Fogo, sendo o quinto da edição portuguesa e um dos mais empolgantes da série literária.

# 1.2. Um livro com um arco na capa

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A Manopla de Karasthan, de Filipe Faria

Primeiro volume de Crónicas de Allaryia, A Manopla de Karasthan foi das primeiras obras de fantasia a emergir no panorama nacional no início deste século, à época em que a adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis acrescentava uma legião de fãs para o género. Amado por uns e odiado por outros, Filipe Faria conquistou lugar cativo nas livrarias portuguesas.

#1.3. Um livro com uma coroa na capa

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O Rei de Ferro e a Rainha Estrangulada, de Maurice Druon

Esta edição compreende os dois primeiros volumes da série Os Reis Malditos, na qual Maurice Druon narra a história de Filipe, o Belo, rei de França. Mais do que isso, fala da maldição que o acossou, como à sua prole, após ter queimado vivo o grão-mestre da Ordem dos Templários, condenando a confraria à extinção. Um rigor histórico notável e uma escrita rápida e vibrante.

#2 Guerra

E saiu outro, um cavalo vermelho; e ao que estava sentado nele foi concedido tirar da terra a paz, para que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada.

#2.1. Um livro com capa vermelha

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O Herói das Eras Parte 1, Brandon Sanderson

Mistborn – Nascidos da Bruma é uma das séries literárias de fantasia mais faladas da atualidade. Brandon Sanderson ganhou fama ao terminar a série A Roda do Tempo após a morte de Robert Jordan e desde então não parou. Conhecido por publicar com grande frequência, sempre com sistemas de magia originais, tem em Misborn uma das suas protagonistas mais carismáticas, Vin.

#2.2. Um livro com a palavra “Terra” na capa

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Os Pilares da Terra, de Ken Follett

Com uma prosa elegante e uma capacidade raríssima de fazer o leitor sentir-se na época descrita, Ken Follett apresenta-nos um livro emocionante, que relata um período conturbado da História de Inglaterra, onde a construção de um mosteiro ganha protagonismo num braço de ferro entre a Igreja e a Coroa. Os Pilares da Terra é um dos livros mais emocionantes que já li.

#2.3. Um livro com uma espada na capa

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Histórias de Aventureiros e Patifes, Vários Autores

Com organização de George R. R. Martin e Gardner Dozois, Histórias de Aventureiros e Patifes é a primeira parte da antologia Rogues, uma colectânea de contos sobre patifes, escrita por alguns dos mais conceituados autores de fantasia, ficção científica e romance policial. A segunda metade já foi publicada e também opinada no blogue.

#3 Fome

E eu vi, e eis um cavalo preto; e o que estava sentado nele tinha uma balança na mão. E eu ouvi uma voz como que no meio das quatro criaturas viventes dizer: “Um litro de trigo por um denário, e três litros de cevada por um denário; e não faças dano ao azeite de oliveira e ao vinho.

#3.1. Um livro com capa preta

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Príncipe dos Espinhos, Mark Lawrence

Primeiro volume da Trilogia dos Espinhos, de Mark Lawrence, Príncipe dos Espinhos apresenta o Príncipe Honório Jorg Ancrath, e a sua sede de vingança pela morte da mãe e irmão. Um mundo medieval pós-apocalíptico bem constuído, uma escrita envolvente e elegante, mas um desenvolvimento aquém das expectativas.

#3.2. Um livro com uma mão na capa

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O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

Com uma escrita envolvente, Oscar Wilde fala sobre o egocentrismo e sobre o papel que as aparências ocupam nas nossas vidas. Ao mesmo tempo que as hipocrisias de comportamento são retratadas com grande rigor, a obsessão pela beleza também é um dos principais temas do livro.

#3.3. Um livro com vigaristas na capa

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As Mentiras de Locke Lamora, Scott Lynch

Um dos meus autores de eleição, Scott Lynch revolucionou o mundo da fantasia com uma trama ao mesmo tempo leve e complexa, num mundo inspirado na Itália renascentista. Uma trupe de jovens ladrões protagoniza a história, recorrendo somente à sua matreirice para ludibriar os mais poderosos senhores do submundo camorri. A escrita deliciosa e os diálogos cómicos são os ex-libris deste autor.

#4 Morte

Então ouvi a quarta Criatura:”Venha” e apareceu um cavalo baio, o nome do cavaleiro era Morte e o Inferno o seguia de perto.

#4.1. Um livro com uma Criatura na capa

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Lisboa Triunfante, David Soares

Esta raposa não é somente uma raposa. É uma criatura mitológica, que atravessa as eras e interfere nos seus acontecimentos. Do lado oposto tem um miserável lagarto, e os dois têm medido forças ao longo dos séculos, participando ativamente na construção da Lisboa que hoje conhecemos. Com uma escrita excelente e um conhecimento histórico impressionante, David Soares criou um romance extraordinário de fantasia histórica.

#4.2. Um livro com a palavra “Morte” na capa

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A Morte Persegue-me, Ed Brubaker e Sean Phillips

Este livro de banda-desenhada é o primeiro volume da série Fatale. Uma mulher misteriosa que traz azar a todos aqueles com quem se cruza é a protagonista desta história sinistra que mescla temas como a imortalidade, a corrupção e o ocultismo. O legado de H. P. Lovecraft surge inegavelmente associado às criaturas apresentadas.

#4.3. Um livro com a palavra “Inferno” na capa

Inferno

Inferno, Dan Brown

Com uma estrutura similar a outros livros do autor, como O Código DaVinci ou Anjos e Demónios, Inferno distingue-se pelo tema (a sobrepopulação) e pela originalidade na conceção do vilão. Assustador e extremamente visual, esta aventura de Robert Langdon está entre as minhas favoritas do escritor norte-americano.

Sintam-se à vontade para fazer a vossa tag. Mas, pormenor importante, só conta livros que já tenham lido, mesmo que ainda não tenham comentado. Até à próxima.

Especial Teorias: O Final das Crónicas de Gelo e Fogo

Muitos se perguntam sobre qual será o final das Crónicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin, e eu não sou exceção. Este artigo serve unicamente para deixar uma opinião pessoal e a teoria que julgo mais aceitável.

Pois é, não passa de uma teoria mas é aquilo que julgo que irá acontecer nesta fantástica saga literária. George R.R. Martin, o autor, é perito em enganar-nos facilmente com as suas mudanças de direção, mortes inesperadas e um modo subtil de nos deixar rendidos ao seu mundo de ironias e contrários. O próprio nome original da série, A Song of Ice and Fire, A Canção de Gelo e Fogo em português, pode dizer-nos muito sobre o final desta saga.

Ora, não é novidade que os livros estão repletos de inversões; eles são o Gelo e o Fogo, o Norte e o Sul, a Vida e a Morte, o Bem e o Mal, o Masculino e o Feminino, o Senhor da Luz e o Senhor da Escuridão, já para não falar nas inúmeras inversões históricas que Martin nos oferece. A Guerra dos Cinco Reis não é mais que uma adaptação da Guerra das Rosas que “incendiou” a Inglaterra do século XV, Cersei Lannister é uma remodelação da célebre Margerite D’Anjou, e a própria Roma Antiga está representada em Game of Thrones.

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Os Outros (business insider)

Stannis Baratheon é o Constantino romano que pega numa nova fé e a espalha por todo o império (Cristinanismo e a crença no deus vermelho Rh’llor, Senhor da Luz que vence a Escuridão), a Antiga Valíria de onde vieram os Targaryen não é mais que uma reprodução da Roma expansionista no seu apogeu, e o triarca Horonno cuja estátua Tyrion e Jorah encontram sem cabeça em Selhorys no livro A Dança dos Dragões é o Júlio César dos volantenos, um triarca que foi renomeado vezes em cima de vezes até se declarar a ele próprio triarca vitalício. Os seus pares não gostaram e trataram de o matar.

Estes são apenas alguns indícios do mundo de contrários que George R. R. Martin nos oferece nas suas crónicas. Por outro lado, o tempo parece ser um ciclo. As estações do ano demoram a passar, mas vão, e vêm, e o que aconteceu séculos atrás parece voltar a repetir-se – uma premissa explorada por outros autores, como Robert Jordan. Daí que se julgue que a Longa Noite está para regressar, com o frio e com os Outros, e que está na hora exata em que as profecias serão cumpridas. Vamos agora ao que eu julgo ser o final desta saga maravilhosa.

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Daenerys Targaryen (concept art world)

A minha teoria sobre o final

Daenerys Targaryen conquista os Sete Reinos. É ela a Azor Ahai renascida, o mítico herói que desempenhou um papel de destaque na Longa Noite. Foi ele quem forjou a Luminífera, a espada de fogo. Trabalhou durante trinta dias e trinta noites na sua forja, mas quando a mergulhou na água, partiu-se. Teimoso, cinquenta dias e cinquenta noites depois, voltou a terminar a forja da espada, e temperou-a com o sangue de um leão. Ainda assim, a espada voltou a partir. Na terceira vez, a morrer por dentro com aquilo que iria fazer, pediu à esposa, Nissa Nissa, que se aproximasse e espetou-lhe a espada no peito. O sangue da sua amada combinou na perfeição com aquela lâmina, e assim nasceu a Luminífera, a espada do herói que afastou os Outros durante milénios para o Norte gelado.

Porque eu acho que Dany é o Azor Ahai? Bem, apesar de os Baratheon terem algum sangue Targaryen, parece-me por demais evidente que Stannis não é este herói. Melisandre já falhou várias vezes na sua interpretação das chamas e essa é uma das suas falhas, embora me pareça que Stannis seja um importante instrumento e um personagem chave para a conclusão desta saga. Porém, uma bruxa do bosque profetizou que o Azor Ahai renascido seria um Targaryen.

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Melisandre de Asshai e Stannis Baratheon (pinterest)

 

Agora eu pergunto: quantos Targaryen temos na saga? Não, não temos apenas Dany, e não é por aí que eu formulo a minha teoria. Há imensas especulações de que Jon Snow seja um Targaryen. Esta teoria não é novidade. Ned Stark tinha uma irmã, Lyanna de seu nome, que era apaixonada pelo príncipe Rhaegar Targaryen. Foi principalmente movido pelos ciúmes que Robert, que também a amava, despoletou a sua Rebelião que o conduziu ao Trono de Ferro, e exilou os Targaryen remanescentes para o outro lado do Mar Estreito.

Ned Stark era um homem honrado, e poucos acreditam que ele tenha tido a desonra de trair Catelyn com uma outra mulher. As últimas palavras de Lyanna (promete-me, Ned), vêm deixar quase evidente que este Jon Snow não é um bastardo de Ned Stark mas sim o filho de Lyanna Stark com Rhaegar Targaryen, embora, aparentemente, ninguém o saiba, após a morte de Ned. Existem ainda outras teorias que apontam Tyrion Lannister como um possível Targaryen. O Rei Louco Aerys era apaixonado por Joanna, a esposa de Tywin, e há indícios de que chegaram a envolver-se, como tal era possível que tivessem gerado um filho. Tywin sempre desprezou o seu filho anão: seria por ele ser apenas anão? Ora, recordemos que Tyrion tem um olho de cada cor, o cabelo loiro (mais nos livros que na série) e uma paixão doentia por dragões desde a infância. Será possível que Tyrion seja um Targaryen? A mim parece-me que sim.

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O Trono de Ferro (Marc Simonetti)

Ora, se se confirmar que Jon Snow e Tyrion Lannister sejam, de facto, do sangue do dragão, por que motivo haveria eu de afirmar que Daenerys Targaryen é ela o Azor Ahai renascido? Vamos então à Casa dos Imortais, em Qarth. “O dragão tem três cabeças” anuncia o príncipe Rhaegar na visão de Dany. “Terá de haver mais um”. Uma dessas cabeças de dragão seria o pequeno Aegon (não acredito que o jovem Aegon de A Dança dos Dragões seja o verdadeiro), o segundo seria Rhaegar? e faltaria ainda uma terceira cabeça. Para mim, a primeira cabeça é Dany, a segunda Jon, a terceira Tyrion. O brasão dos Targaryen (o dragão com três cabeças) é uma ironia do autor e uma pista para o desfecho da saga, assim como a existência de três dragões chocados por Dany, a Mãe de Dragões.

Motivos para ser Dany o Azor Ahoi? Ora, é Dany quem está a formar um exército, a instruir-se para governar, é Dany quem tem os dragões, é Dany quem tem a visão de Rhaegar, e quem é aconselhada pela enigmática figura de máscara chamada Quaithe. Sem mais delongas, vou revelar a minha teoria: Daenerys tornar-se-á Rainha dos Sete Reinos, e terá Tyrion Lannister como sua Mão. De regresso a Westeros, Dany terá um importante papel na Muralha. Irá mostrar a Stannis, a Ramsay Bolton, a quem a quiser enfrentar, quem é a verdadeira rainha westorosi por direito, e começará por conquistar o Norte. Acredito que existirá alguma empatia entre Jon e Dany, talvez se apaixonem. Afinal, os Targaryen tinham um especial dom de se apaixonarem por membros da mesma família.

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Jon Snow e Fantasma (wallup)

Agora, como explico eu que Dany seja esse príncipe prometido, e não Jon, por exemplo? Porque Martin é o mestre das inversões e das ironias. Quando os Outros avançarem para a Muralha, o Azor Ahai precisará da sua espada mágica, a Luminífera. E como a irá forjar? Aqui está a ironia. Lembram-se de Gelo, a espada valiriana de Ned Stark? Sim, era uma espada escura e esfumaçada, e quando Ned morreu, os Lannister forjaram duas espadas a partir do seu aço. A primeira, Lamento de Viúva, foi oferecida a Joffrey como presente de casamento pelo avô, e a segunda, Cumpridora de Promessas, oferecida por Jaime a Brienne para encontrar Sansa Stark. Voltamos ao nome da saga e a resposta parece-me evidente: A Canção de Gelo e Fogo.

Será possível transformar Gelo (a espada) em Fogo? Sim. Apesar de Gelo ser agora duas espadas distintas, ainda será possível transformar ambas, ou uma delas em fogo. Aquando da forja das duas espadas, é de notar que a lâmina enegrecia e o armeiro de Tywin Lannister realçou que não se tratou de um processo nada fácil, parecia que a lâmina tinha vida própria. Lembram-se do lema da casa Targaryen? Fogo e Sangue. Lembram-se de como Azor Ahai forjou a Luminífera? Com o sangue da sua esposa. Ora, a única forma de transformar Gelo em Fogo será com sangue. O sangue da esposa, o sangue de Targaryen – Fogo e Sangue.

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Azor Ahai (jordi gonzalez)

E porque não acho eu que Jon é o Príncipe Prometido, que é ele Azor Ahai? Que será ele a pegar na espada que um dia foi do seu pai, a desferi-la no peito de Dany, derramando o sangue Targaryen, fazendo assim com que Gelo se transforme em Luminífera? Porque George R. R. Martin gosta de ironias e de inversões. O que um dia foi o homem a matar a mulher, hoje pode muito bem ser a mulher a matar o homem. Assim, o sangue Targaryen de Jon Snow combinaria com a espada Gelo e Daenerys Targaryen teria o seu merecido lugar no Trono de Ferro. Antes disso, porém, o Azor Ahai tentaria temperá-la com o sangue de um leão. Será uma analogia aos Lannister, cujo brasão é representado por um leão? Irá Dany matar Tyrion (ou Cersei) antes do ato desesperado de assassinar Jon? Quem sabe.

Nestes moldes, como se desenrolaria a batalha final? Com a morte de Jon, ficaria um dragão sem dono? Poderiam morrer dragões? Como Dany encararia Cersei? Como é que Tyrion reconquistaria Porto Real para a sua Rainha dos Dragões? Será mesmo que os Outros marcharão contra os Sete Reinos? A mim parece-me que sim, mas as respostas a todas estas perguntas só George R. R. Martin poderá dar. Aqui fica apenas o meu palpite sobre a Reconquista Targaryen e o Azor Ahai renascido.