One-Punch Man #1

Raaaiooos! Mais uma luta que acabou com um único golpe.

O texto seguinte pode conter spoilers do primeiro volume da série One-Punch Man (Formato BD)

One-Punch Man é a mais recente coqueluche da Devir no nosso país. Depois de um início auspicioso em 2009, como webcomic, One-Punch Man tornou-se rapidamente um mangá de culto, com adaptação para anime.

Argumentista de Makai no Ossan e Mob Psycho 100, One é o pseudónimo do autor, cuja publicação de One-Punch Man no mundo virtual catapultou-o para o sucesso. Em meados de 2012, a série tinha já mais de dez milhões de visualizações. Dois anos depois, começou a sair em livro. A arte é responsabilidade de Yusuke Murata, famoso pela sua participação em Eyeshield 21. Alcançou o 122º Prémio Hop Step com Partner no ano de 1995 e ficou em segundo lugar com Samui Hanashi, em 1998.

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Capa Devir

Um herói entediado

Somos apresentados a um super-herói com pouco de tradicional. Saitama é um herói por mero desporto. Ele treinou de forma tão intensa e dedicada que ficou super-poderoso. Pelo caminho, perdeu o cabelo. Estamos num mundo futurista, em que monstros de todos os tipos surgiram, destruindo a humanidade povoação atrás de povoação. Foi para os deter que Saitama se treinou, depois de sofrer na pele uma juventude marcada pela violência dos mais velhos (onde travou um primeiro embate com um porquinho-mealheiro gigante) e de se tornar um jovem recém-desempregado, quando salvou um rapaz de queixo protuberante de ser morto por um homem caranguejo.

Saitama habituou-se a resolver com facilidade qualquer despique, trajando um fato amarelo. E essa facilidade tornou-o misantropo. Se, por um lado, ele tornou-se herói para salvar os mais fracos e oprimidos, por outro, os inimigos não pararam de aparecer. Para sua infelicidade, Saitama ficou tão forte que é capaz de derrotar os inimigos com um só murro. Mas isso não lhe traz felicidade. É que por muitos que mate, eles parecem nascer de todos os cantos, impedindo-o de viver com harmonia a sua vida naquele mundo macerado pelo terror.

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Prancha Devir

Uma invasão de mosquitos

A povoação onde vive Saitama, assim como as cidades adjacentes, são violentadas frequentemente por esses ataques de monstros vis de características singulares. Para Saitama, salvar os locais é um divertimento, e salvar o seu quarto, uma necessidade basilar. A sua vida muda, porém, quando uma grande invasão de mosquitos aproxima-se da cidade, atacando todos no seu caminho, mesmo os mais temerosos.

É quando Saitama se decide a enfrentar esse obstáculo que cruza-se com Genos, um jovem rapaz de dezanove anos cheio de estilo e conhecimentos de defesa. Rapidamente Saitama percebe que Genos é um ciborgue, após um terrível incidente que obrigou um cientista a reabilitá-lo através da robótica. Genos vê em Saitama uma inspiração, numa substituição simbólica do homem que lhe salvou a vida. Dessa forma, Saitama aceita formar uma dupla com ele, ainda que não aceite bem ser visto como um professor.

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Prancha Devir
SINOPSE:

Um herói que derrota monstros incríveis com um só murro? Acreditam mesmo que isto é um mangá de lutas infindáveis?
Mesmo quando se pode resolver tudo com um soco, restam tantos outros problemas na vida.

Um fantástico mangá, que começou na internet, sobre um personagem banal, que não quer ser super-herói – a sua força desmesurada é para ele uma fonte de problemas pois não tendo adversários à altura aborrece-se e os combates não o estimulam.

Uma história plena de ironia e reflexão sobre a nossa sociedade atual e os limites práticos do uso da violência.

OPINIÃO:

Depois de ter assistido, o ano passado, ao primeiro episódio do anime desenvolvido da webcomic One-Punch Man, foi com um misto de apreensão e interesse que me aventurei pelo mangá. O argumento de One, um dos autores mais provocadores da nova geração mangá, desconstruiu o estereotipo shounen, marca indelével da cultura japonesa que nos apresenta um protagonista em busca das suas capacidades, e brincou com o conceito de super-herói na criação de Saitama.

A fuga ao cliché não se revelou evidente neste primeiro volume. De facto, somos apresentados a um protagonista divertido com maior interesse em manter intacto o seu quarto do que salvar a Humanidade, embora também o faça de uma forma algo casual. Saitama é, ainda assim, um personagem e tanto, à volta do qual a ação acontece, sempre na forma de ataques de monstros. 

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Prancha Devir

Para quem segue o anime, percebe que as cenas são idênticas, passadas a papel-químico, com um início um pouco repetitivo. Desde a forma como somos confrontados com um herói frustrado, a curiosidade em redor de como ele se tornou aquilo que é e os motivos que o norteiam. A grande virtude de One no argumento é o objetivo – ou falta dele – por parte do protagonista, e a forma como ele o humaniza. Saitama revela-se uma pessoa comum, com os seus defeitos e qualidades, com um quotidiano estabelecido e uma vida bastante comum. De resto, achei que a narrativa melhorou bastante com a aparição de Genos, apresentando um paradigma de vida e de vontades com alguns toques de humor.

Se a narração divertiu q. b., a ilustração não perde em comparação. O desenho de Murata conquista pela irreverência, com uma panóplia de detalhes em cenas de ação, onde o protagonista adquire uma expressão badass, e uma simplicidade de traços suaves e até caricaturais nas cenas mais passivas e de alívio cómico. 

Avaliação: 6/10

One-Punch Man (Devir):

#1 One-Punch Man Vol. 01

Dallas, Umbrella Academy #2

Deixa-te de mariquices e limpa o sebo àqueles dois filhos de uma égua.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Dallas”, segundo volume da série Umbrella Academy (Formato BD)

Depois de o primeiro volume de Umbrella Academy levar o Prémio Eisner e Harvey em 2008, Gerard Way (vocalista da extinta banda My Chemical Romance) e o ilustrador brasileiro Gabriel Bá voltaram a juntar-se para conceber uma nova aventura, completamente bizarra e surreal.

O segundo volume leva os super-heróis da Umbrella Academy às profundezas dos Estados Unidos da América, numa sequência de volte-faces e viagens no tempo. Animais falantes, vampiros e extraterrestres fazem parte deste mundo paralelo, tão parecido com o nosso. Extravagantes, complexos e divertidos, os filhos adoptivos de Reginald Hargreeves voltam a surpreender.

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Prancha de Dallas (Devir)

A “família” está fraturada após o final do primeiro volume, que terminou com a morte de Dr. Pogo, o chimpanzé falante. Violino Branco (que desempenhara o papel de vilã no primeiro livro) está acamada e sem memória. Rumor perdeu a sua arma, a voz. Seance tornou-se vítima do vedetismo. SpaceBoy caiu numa depressão, passando os dias a ver televisão e a engordar. Número 5 está desaparecido. Apenas Kraken se mantém em forma, colaborando com as autoridades na luta contra o crime, mas altamente paranóico. Há ainda a figura que chamam de Mãe, que não é mais que uma boneca com vida.

É em Número 5 que este volume incide. A sua versão original (antes de ficar preso num corpo de dez anos) foi alvo de experiências científicas, agregando o ADN dos maiores assassinos. Viajando pelo tempo e lidando com Carmichael, um peixe numa cabeça de aquário sobre um corpo robótico, mas também com um par de psicopatas apaixonados por açúcar, Hazel e Cha-Cha, Número 5 vai tentar impedir que o seu outro eu cometa um dos homicídios mais famosos da História: o assassinato de John F. Kennedy.

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Carmichael (Dark Horse)

Para isso, vai precisar fugir às perseguições de que é alvo e tentar unir os seus “irmãos”. Rumor é alvo de um ultimato. Seance é morto, mas depara-se com um Deus cowboy, que o manda de volta. SpaceBoy continua deprimido, mas arrasta-se atrás de Kraken, mesmo no Vietname, onde terão de lidar com vampiros vietnamitas. No fim, os irmãos acabam por se unir, sendo diretamente responsáveis pelo atentado que vitimou John F. Kennedy.

Nas sombras, Reginald Hargreeves aparece como um marionetista que não consegue mais controlar aquilo que criou. O livro inclui ainda esboços de alguns personagens e a pequena banda-desenhada Qualquer Lugar Longe Daqui, onde Violino Branco, que estivera adormecida durante todo o volume, finalmente ressurge. A relação entre ela e os seus irmãos de criação é explorada ao longo do pequeno folhetim.

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Capa Devir
SINOPSE:

Após a morte de Pogo, o estimado mentor da Umbrella Academy, o grupo perdeu o ânimo. Todos estão absortos em problemas pessoais muito reais. A Violino Branco está acamada graças a um trágico tiro na cabeça. A Rumor perdeu a voz – a fonte do seu poder. Spaceboy comeu até entrar em estado catatónico… Dallas, a segunda aventura da série Umbrella Academy, é uma epopeia cheia de ação que irá transformar a História numa viagem através do tempo, do Espaço e do Vietname, culminando no assassinato de JFK. Este volume inclui a história “Qualquer Lugar Longe Daqui”, com os irmãos Vanya e Kraken, e um caderno de esboços com arte de Gerard Way e Gabriel Bá. Criado e escrito por Gerard Way, com a arte de Gabriel Bá. Série campeã de vendas do New York Times e vencedora dos prémios Eisner e Harvey de 2008.

OPINIÃO:

Tortas, cowboys e chimpanzés vestidos de Marilyn Monroe. O segundo volume de Umbrella Academy, Dallas, é um hino ao absurdo. Se depois de Suíte do Apocalipse achei difícil que a dupla Gerard Way e Gabriel Bá me voltasse a surpreender, estava enganado. Conseguiram criar um volume cheio de perseguições e viagens no tempo, intenções dúbias e atos dissimulados, e ao mesmo tempo presentear-nos com um um rol de piadas sucessivas. O humor é, cada vez mais, o segredo de sucesso das bandas-desenhadas.

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Prancha de Dallas (Devir)

É difícil apontar quais são os vilões e os heróis nesta carismática série. Todos têm as suas fraquezas e maldades, mesmo quando pensam estar a salvar o mundo. É isso que enriquece a trama e os personagens, as várias camadas de subtilezas que nos podem trazer mais pormenores sobre cada um. Subversivo e espirituoso, Dallas é uma sátira ao olhar que o mundo tem sobre os EUA, aos seus ídolos e maldições, mas também aos seus heróis e vilões. É, acima de tudo, uma sátira aos estereótipos.

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Número 5 (Dark Horse)

Gerard Way prova que não é um mero músico, mas também um argumentista de fôlego. O desenho de Gabriel Bá, virtuoso e expressivo, é outro dos maiores motivos do sucesso. As pranchas são equilibradas e bem definidas, as vinhetas marcantes e os balões espaçados, e acima de tudo o traço é vivo. A arte final de cores diversas imprime uma sensação de movimento, que coroa o bolo com sucesso.

Resta esperar que a dupla volte a publicar mais aventuras desta Umbrella Academy, uma vez que o terceiro volume ainda não tem previsão de lançamento. Uma série que recomendo a todos os que gostem de humor, ação e bizarrices.

Avaliação: 7/10

Umbrella Academy (Devir):

#1 Suíte do Apocalipse

#2 Dallas