A Divulgar: “O Núcleo” pela Edições ASA

A novidade foi comunicada pelo autor Peter V. Brett através da sua página de facebook, sendo rapidamente difundida nas redes sociais da Coleção 1001 Mundos. O Núcleo, quinto e último volume da série Ciclo dos Demónios, será lançado em terras lusitanas a 8 de maio. Recordo que a série tem sido publicada em Portugal poucos meses após a publicação internacional, por isso não é de espantar que The Core chegue ao nosso país tão depressa, uma vez que o livro foi lançado por Brett no final de 2017.

Trata-se de uma série de fantasia protagonizada por Arlen Fardos, Leesha Papel e Rojer Meia-Mão, três jovens que vêm a sobrevivência do mundo recair nos seus ombros quando se mostram resilientes e capazes de travar a ameaça dos nuclitas, demónios que se erguem à noite. As armas para os travar, guardas de ataque, haviam sido esquecidas com o tempo, mas foram recuperadas, fazendo com que os povos finalmente conseguissem erguer-se para caçar este horror. Fica com a minha opinião aos três primeiros volumes da série:

O Homem Pintado;

A Lança do Deserto;

A Guerra Diurna.

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Fonte: http://petervbrett.com
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Especial: A Legislação de Joe Abercrombie

Falar de Joe Abercrombie sem falar de A Primeira Lei é passar ao lado de um dos seus trabalhos mais bem-sucedidos e reconhecidos no mundo inteiro. Por isso, o NDZ vai esmiuçar esta tão bem falada trilogia e catapultar-vos para um mundo de coragem, honra e sacrifício. Para Midderland, onde nada é aquilo que realmente parece. Agora que sabemos que Joe está a trabalhar numa sequela para a série, passada 30 anos depois, parece-me mais do que justo prestar-lhe esta homenagem. A série foi publicada em Portugal pela Edições Asa / 1001 Mundos.

Um dos mais talentosos escritores de fantasia da nova geração, comparado a autores como Justin Cronin, Mark Lawrence, Brandon Sanderson e Peter V. Brett, Joe é autor de vários livros como The Heroes, Best Served Cold, Red Country ou a série YA Shattered Sea. Por aqui, para além da trilogia A Primeira Lei, li os seus contos “Está Difícil Para Todos” e “Completamente Perdida”, publicados nas antologias Histórias de Vigaristas e Canalhas e Mulheres Perigosas, respetivamente.

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Fonte: http://firstlaw.wikia.com/wiki/Joe_Abercrombie

Mas quem é Joe Abercrombie?

Joe Abercrombie nasceu em Lancaster em 1974 e atualmente mora em Bath com a esposa e os filhos. Foi editor freelancer de filmes e trabalhou em vários documentários e eventos musicais, até dedicar-se a corpo inteiro à escrita. A Lâmina (The Blade Itself), o seu primeiro romance, viu os direitos vendidos para 24 países. Em 2008, Abercrombie foi finalista do prémio John W. Campbell na categoria Autor Revelação, graças ao sucesso da trilogia A Primeira Lei.

Foi educado na pretensiosa Lancaster Royal Grammar School, só para rapazes, onde passou muito do seu tempo a jogar computador, dados, e a desenhar mapas de locais que não existiam. Rumou em seguida à Universidade de Manchester, onde estudou Psicologia. Tendo sempre o sonho de, sozinho, redefinir o género fantástico, começou a escrever uma trilogia épica baseada nas desventuras de um bárbaro, Logen Novededos. O resultado não lhe agradou e mudou-se para Londres, onde, segundo ele, viveu numa espelunca com dois homens à beira da loucura.

Com um esforço heróico e o apoio da sua família, terminou The Blade Itself em 2004, sendo publicada junto de um público insuspeito em 2006. Before They Are Hanged e The Last Argument of Kings foram publicados em 2007 e 2008, respetivamente.

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Fonte: http://firstlaw.wikia.com/wiki/First_Law_Wiki

Antes que me esqueça, convém avisar que o texto seguinte contém minor spoilers de cada um dos livros, um resumo das informações que coligi na minha opinião aos mesmos, ainda que me abstenha às revelações mais impactantes.

Porque devemos lê-lo?

TEM PERSONAGENS COMPLEXOS

A Primeira Lei é passado em Midderland. Logen Novededos ganhou fama de sanguinário no norte gelado, onde lutou durante muitos anos ao lado de Bethod, um veterano de guerra que conquistara o norte a pulso. As rixas acentuaram-se e Bethod ganhou uma feiticeira como conselheira. Depois, avançou para o centro, tentando expandir os seus domínios. O centro de Midderland é dominado pela União, com capital em Adua, onde perambulam personagens carismáticos como o major Collem West, o inquisidor Sand dan Glotka e o espadachim Jezal dan Luthar. Já o rei Guslav V não parece muito influente, sendo o Círculo Fechado o verdadeiro cérebro por detrás de todas as ações da União.

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Fonte: https://darey-dawn.deviantart.com/art/The-First-Law-trilogy-483682777

Abercrombie apresenta-nos três cenários distintos no continente de Midderland, qualquer um deles repleto de personagens BEM complexos. Logen Novededos é um bárbaro temível e infame, que deve o seu nome à perda de um dedo em batalha. No norte distante, combate com os shanka, criaturas repugnantes vulgarmente conhecidos como cabeças-chatas. É lá que perde os seus companheiros e julga-os mortos. Logen tem o dom invulgar de conseguir falar com espíritos e é dessa forma que uma mensagem é-lhe enviada. Um mago poderosíssimo procura-o.

Logen encontra Malacus Quai, um jovem aprendiz de magia, e salva-o de morrer à fome. O rapaz leva-o até ao grande Bayaz, o Primeiro dos Magos. É uma figura ríspida e pouco convencional, que regularmente se usa de poderes do Outro Lado. No início, o mundo era habitado por demónios e seres mágicos, mas uma cisão drástica fez com que todas as criaturas fossem atiradas para o Outro Lado. Tocá-lo e recorrer à magia é quebrar a Primeira Lei, mas Bayaz sabe que as leis antigas estão a ser violadas.

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Fonte: https://darey-dawn.deviantart.com/art/The-First-Law-trilogy-483682777

O Primeiro dos Magos vive numa fortaleza nortenha, mas é figura de destaque em todo o mundo, tomando lugar em estátuas e retratos nas cidades mais civilizadas. Junto de Bayaz, Logen enfrenta o próprio Bethod, mas também os dois filhos do veterano, viscerais como o pai, mostram a sua face. Quando fica claro que Bethod não irá poupar ninguém, Bayaz, Malacus e Logen abandonam a fortaleza e dirigem-se ao centro do continente.

“É uma honra para todos os homens de boas famílias representar o Exército”

Ainda no norte, os velhos companheiros de Logen: Cão, Cabeça de Trovão, Dow Negro, Sisudo e o Mais-Fraco sobreviveram, ao contrário do que ele julgara. Por sua vez, também eles pensam que Novededos morreu, e prosseguem a sua campanha contra Bethod, ainda que a liderança do grupo seja motivo de discussões e pequenas rixas, o que deixa clara a lacuna que a ausência de Logen provoca no grupo.

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Fonte: https://thetattooedbookgeek.wordpress.com/2016/04/25/sharp-ends-book-review/
INTRIGAS INCRÍVEIS

No centro do Círculo do Mundo fica Adua, uma cidade populosa onde reside o rei da União, Guslav V, e a família real. A Inquisição e o Exército têm grande preponderância no modo de vida da cidade, e é lá que encontramos alguns dos nossos protagonistas. Sand dan Glotka foi em tempos um guerreiro prodigioso, uma das grandes esperanças da União, mas na guerra contra Gurkhul, um poderoso império sulista, acabou sendo inutilizado de uma perna e foi tomado como prisioneiro, onde foi torturado. Quando regressou a casa, quebrado por dentro e por fora, acabou por tornar-se uma figura mesquinha e espirituosa. Nomeado como inquisidor, aplica aos prisioneiros uma terrível tortura, como se assim vingasse aquela a que foi submetido.

É uma honra para todos os homens de boas famílias representar o Exército, e Jezal dan Luthar vive com esse fardo. Jezal prefere passar os dias a jogar e as noites a embebedar-se com os amigos. Mas não é isso o que esperam de si. O major Collem West foi um grande amigo de Glotka e soldado de grande talento. Vindo de famílias modestas, West ganhou o seu prestígio a pulso, graças a feitos como a quebra de um importante cerco. Por isso não entende como Jezal não aproveita a oportunidade que o seu sangue oferece. West tem uma irmã, Ardee, uma beleza exótica que vem virar o mundo de Jezal do avesso. Já o marechal Varuz, que treinara Glotka e West nos seus tempos áureos, não desiste de Jezal e transforma-o num grande espadachim, de modo a que este consiga vencer a Prova que lhe está destinada.

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Fonte: https://dejan-delic.deviantart.com/art/His-Majesty-s-Inquisition-429415014

Uma série de intrigas são tecidas no seio de Adua, culminando na chegada de Bayaz, Quai e Novededos à cidade. Ninguém acredita que o mago seja quem diga ser, uma vez que a sua figura faz parte da “mitologia” da cidade, e o arquileitor Sult, líder da Inquisição, envia Glotka para provar que Bayaz não é mais do que uma fraude. Algures no centro da cidade há um monumento de tempos imemoriais, que foi feito para ninguém entrar, e Bayaz diz ter a chave desse edifício: A Casa do Criador. Quanto mais Glotka investiga o caso, mais se apercebe que o impostor pode ser, na verdade, o mago lendário.

As peças encaixam-se pouco a pouco, relações antigas desvendam-se e Ferro Maljinn, uma sulista que fugiu da escravidão, chega à cidade, apadrinhada por Yulwei, um mago misterioso. Como um verdadeiro bicho-do-mato, Ferro não controla o seu sentimento de vingança contra a nação de Gurkhul, mas Bayaz garante que os seus adversários, tanto a norte como a sul, servem um mesmo propósito, e que terão de empreender uma grande viagem para os travar.

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Fonte: https://geeklyinc.com/geekly-guide-to-authors-joe-abercrombie/
UMA GUERRA IMINENTE

A União está sob ameaça. A norte, a guerra contra Bethod e os seus carls. A sul, a guerra contra Gurkhul e o impiedoso imperador Uthman-ul-Dosht, discípulo do profeta Khalul. Certo de que os exércitos da União não terão capacidade de os travar a ambos, Bayaz empreende uma jornada para vencer o inimigo através da magia. Para alcançar os seus intentos misteriosos, ele pega em Malacus Quai, Logen e Ferro, no egocêntrico Jezal e num navegador experiente, chamado Pé Longo, e condu-los numa viagem até aos confins do mundo, em busca de uma pedra mágica. Os caminhos que são obrigados a atravessar escondem, porém, todo o tipo de perigos.

“Glotka terá de lidar com várias pontas soltas e só poderá contar com os seus melhores amigos: os instrumentos de tortura.”

Glokta, por sua vez, é enviado pelo arquileitor Sult a Dagoska, o último bastião da União no Sul, localizado numa península. O objetivo, ajudar à defesa da cidade e descobrir o que acontecera ao superior da Inquisição, Davoust, então desaparecido. Para surpresa do conselho administrativo da cidade, composto pelo velho governador Vrums, o seu filho Korsten dan Vurms, o general Vissbruck, a magistrada da guilda dos especieiros Carlot dan Eider e o sacerdote nativo Kahdia, Glotka chega com plenos poderes para as decisões políticas e militares em Dagoska.

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O que ele não esperava era ter de lidar com uma conspiração hedionda, um mercenário volúvel chamado Nicomo Cosca, uma doação imprevisível do banco Valint e Balk, um cerco terrível à cidade… bem como a visita do velho mago Yulwei, que o alerta para um ataque de devoradores, seguidores eleitos por Khalul para violarem a Segunda Lei: a proibição de se comer carne humana. Para o ajudar, Glotka apenas conta com a sua mente astuta e com o poderio físico dos seus práticos: Frost, Severard e Vitari.

Nas terras de Angland, os exércitos da União preparam-se para repelir Bethod. O próprio príncipe herdeiro Ladisla comanda um dos exércitos, ainda que lhe falte tanto experiência como sensatez. O marechal Burr coloca o príncipe sob a supervisão de West, promovendo este a coronel. São surpreendidos com a aliança improvável de um grupo de nortenhos, um grupo formado por Cão, Rudd Três Árvores, Tul Cabeça de Trovão, Dow Negro e Sisudo. Homens lendários no norte, que haviam sido liderados outrora por Logen Novededos.

Enquanto os generais Kroy e Poulder medem forças, os regimentos acabam por separar-se e a West cabe-lhe a tarefa ingrata de vigiar o príncipe, ainda que não compreenda nenhuma das suas diretivas. O frio ameaça abalar as suas forças mais do que a guerra, e é obrigado a recrutar forjadores numa colónia penal. O homem de rosto queimado chamado Pike e a rapariga Cathil transformam as vidas de West, Cão e Ladisla de modo incontornável.

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Fonte: https://dejan-delic.deviantart.com/art/Northmen-519093474
UMA DINASTIA EM PERIGO

O coração da União está dilacerado após a morte dos herdeiros ao trono, e o Conselho Fechado move as suas peças desesperadamente, para impedir que a futura e mais do que certa morte do rei coloque um inimigo no trono. É ao Conselho Aberto que cabe a votação, e votos são comprados, jogadas são dadas, braços medem forças à margem dos olhares comuns. O juiz superior Marovia e o arquileitor Sult parecem ser os mais influentes, defrontando-se em jogos de bastidores que deixam claro que o rei é pouco mais do que um fantoche.

“O mundo em que se passa A Primeira Lei foi, no início dos tempos, palco de demónios e criaturas malignas.”

Sand dan Glotka, o torturador, vê-se entre a espada e a parede quando o seu superior e os seus financiadores secretos, a misteriosa firma bancária Valint e Balk, o empurram em direções opostas. Com o seu lado mais emocional à tona de água quando o assunto é Ardee West, a irmã do seu melhor amigo a quem prometeu que cuidaria, Glotka terá de lidar com várias pontas soltas e só poderá contar com os seus melhores amigos: os instrumentos de tortura.

A norte, a ação concertada entre o exército da União e os nortenhos dissidentes a Bethod não parece dar frutos, com a saúde fragilizada do marechal Burr e os constantes braços-de-ferro entre os generais Kroy e Poulder a não contribuírem para os tão almejados progressos. É em Collem West e no nortenho Cão que as esperanças parecem recair, mas os dois homens sofreram demasiadas perdas para que a responsabilidade pareça, de facto, mais do que uma esperança vaga.

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Fonte: https://www.pinterest.co.uk/chriskslee/first-law/
UMA MITOLOGIA PODEROSA

O mundo em que se passa A Primeira Lei foi, no início dos tempos, palco de demónios e criaturas malignas. Um dia, tanto as criaturas como todo o tipo de magias foram atirados para o Outro Lado, tornando-se proibitivo entrar em contacto com ele: esta era a Primeira Lei. Duas leis foram decretadas, sendo que a segunda tratava de proibir o consumo de carne humana. Kanedias, o Criador, e Juvens, o mago original, defrontaram-se, assim como alguns dos seus discípulos. No fim, sobraram poucos, mas Bayaz, o Primeiro dos Magos, continuou a medir forças com Khalul, que se havia tornado influente em Gurkhul.

No centro de tudo estava a paixão de Bayaz pela filha de Kanedias, Tolomei, que conduziu a uma rixa com o Criador e à consequente morte de pai e filha. Várias perspetivas foram projetadas sobre esta mesma história, enquanto Bayaz digere a desilusão de não ter encontrado a Semente, a pedra que lhe permitiria contactar diretamente o Outro Lado, uma ferramenta para repelir Khalul e os seus devoradores. Mas até que ponto seria essa Semente uma mera fantasia?

Em suma…

Um sistema de magia soft e pouco convicente é utilizado por Joe Abercrombie nesta série, ainda que a descrição de batalhas e o desenvolvimento de personagens seja uma das mais-valias do autor britânico. Os plot-twists são deliciosos. Uma trilogia para os fãs de George R. R. Martin, e para aqueles que adoram bons vilões.

Estive a Ler: A Guerra Diurna, Ciclo dos Demónios #3

Até as plantas podiam guardar segredos.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A GUERRA DIURNA”, TERCEIRO VOLUME DA SÉRIE CICLO DOS DEMÓNIOS

Publicado originalmente em fevereiro de 2013, The Daylight War é o terceiro volume da série Ciclo dos Demónios, editada em Portugal pela Coleção 1001 Mundos das Edições ASA / Gailivro, que pertence ao Grupo Leya. Chamado por cá de A Guerra Diurna, o livro foi publicado pouco depois do lançamento original, continuando as histórias que Brett iniciara com os volumes anteriores, O Homem Pintado e A Lança do Deserto. A versão nacional tem um total de 796 páginas e tradução de Renato Carreira.

Peter V. Brett é reconhecido internacionalmente, não só pelos livros da série Ciclo dos Demónios, cujo último volume, The Core, foi publicado o ano passado, mas também por vários contos passados no mesmo mundo. Escreveu também a novela gráfica Red Sonja: Unchained para a Dynamite Entertainment. Antes de avançarem na leitura, deixo um aviso à navegação: os parágrafos seguintes podem ter revelações e pistas evidentes sobre os dois primeiros livros da série.

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Fonte: http://www.petervbrett.com/2012/12/07/uk-daylight-war-cover-reveal/

A Guerra Diurna traz mais ou menos os mesmos ingredientes que os volumes anteriores. Um ótimo desenvolvimento de personagens e um escrutínio, camada após camada, de figuras com as quais não tínhamos ganhado grande intimidade, para descobrir ali nuances e peculiaridades dignas de verdadeiras laudas. Se A Lança do Deserto nos trouxe o ponto de vista de Jardir e nos levou a conhecer a sua perspectiva, este terceiro volume faz-nos olhar pela visão da sua Jiwah Ka, Inevera.

“Até as personagens mais secundárias como Gared e Wonda vêm, pouco a pouco, a ganhar vida.

Assim como no livro predecessor, achei os pontos de vista destas personagens krasianas interessantíssimos, mas se os flashbacks que elas vivem vêm trazer um novo olhar sobre as mesmas e sobre o enredo presente, fiquei de certo modo entediado em vários momentos. Confesso que aprecio a ideia de panorâmica que Brett trouxe aos seus livros, mas na prática, comigo, não resultou muito bem. É quando a ação se passa no presente que o autor consegue de facto destacar-se.

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Fonte: https://www.fnac.pt/A-Guerra-Diurna-Peter-V-Brett/a720645#

Inevera foi uma das minhas personagens favoritas de A Lança do Deserto, e agora, com os seus pontos de vista, fiquei ainda mais encantado com o misticismo e perseverança desta mulher. A forma como chegou ao poder e como tentou, a qualquer custo, preservá-lo, faz dela uma personagem cheia de carisma que é de certo modo a antítese do khaffit gordo e coxo Abban, o mercador que, também ao seu jeito, tenta influenciar Ahmann Jardir de acordo com os seus interesses.

As personagens krasianas, uma cultura inspirada na Antiga Esparta, no Japão Medieval mas sobretudo no Islamismo do Médio Oriente, vêm ganhando força na trama e os títulos dos livros, só por si, retratam fragmentos dessa cultura e das suas crenças. A ideia do autor foi construir uma civilização aglutinadora, que acredita que só unificando todos os povos através da chamada Guerra Diurna conseguirá a União profetizada pelo seu Criador, capaz de esmagar os demónios da noite.

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Fonte: http://www.petervbrett.com/2013/03/19/how-to-get-a-signed-u-k-daylight-war/

Foi para evitar que o seu povo fosse esmagado que Leesha Papel, a herbanária de Outeiro do Lenhador, que embora jovem revelou-se já uma mãe para o seu povo, decidiu rumar à Fortuna de Everam, como fora apelidado o Forte Rizon após a conquista dos krasianos, para conhecer os seus credos, tradições e costumes. A ideia de Jardir em tomá-la como esposa veio, no entanto, originar uma série de desdobramentos na trama.

“É difícil não gostar de Leesha enquanto personagem e ainda bem, para mim, que está longe de ser uma protagonista tradicional.

Várias personagens cresceram e ganharam ênfase ao longo dos últimos dois livros. Rojer sempre foi uma personagem à parte, que nunca acrescentou muito à narrativa e, no entanto, os seus capítulos sempre foram dos mais gostosos de se ler. A interação com as suas esposas – sim, leram bem! – foi uma das mais interessantes deste livro, com interferência no clima instalado entre os krasianos e os “hortelões”. Até as personagens mais secundárias como Gared e Wonda vêm, pouco a pouco, a ganhar vida.

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Fonte: http://www.petervbrett.com/2017/08/17/unused-covers/

Leesha Papel e Renna Curtidor mostraram-se ser duas protagonistas bem diferentes. Brett fez-nos apaixonar pela Leesha indefesa que aprendeu, face a várias tragédias, a monitorar e manusear os recursos e as pessoas à sua volta. Mas, ao longo dos livros, vem a torná-la também cada vez mais semelhante à sua mãe, Elona, uma mulher hipócrita e manipuladora. É difícil não gostar de Leesha enquanto personagem e ainda bem, para mim, que está longe de ser uma protagonista tradicional.

Já Renna representa um lado mais duro e em simultâneo, meigo. Ela veio humanizar o protagonista, Arlen, e ao mesmo tempo que passou por situações tão ou mais difíceis que Leesha, reagiu às adversidades de outra forma, sobretudo devido ao modo como o Homem Pintado a resgatou ao mundo que a flagelava. A dependência emocional a Arlen e a forma como ambos estão ligados à dimensão sobrenatural dos demónios torna vívida e consistente a relação do casal.

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Fonte: http://www.unboundworlds.com/2017/06/dirt-cheap-ebooks-warded-man-peter-v-brett/

No outro pólo da barricada, encontram-se os dois Libertadores. Tanto o Cânone como o Evejah não deixam dúvidas de que só há espaço para um Libertador, por isso, mais cedo ou mais tarde, o confronto entre Arlen e Jardir teria de ocorrer. Arlen é o Homem Pintado, aquele que inspirou povos e incitou os mais vulgares camponeses a enfrentar os demónios da noite. Jardir, por sua vez, é o autoproclamado Libertador, aquele que está destinado a erguer a Lança de Kaji e a escorraçar de uma vez para sempre os demónios para as profundezas do Núcleo.

“(Peter V. Brett) Deixa-nos, por assim dizer, a babar pelo volume seguinte.

No cômputo geral, este terceiro livro não avançou muito na narrativa. Tivemos vários regressos e reencontros no Outeiro, assim como uma grande batalha, mas não aconteceu realmente uma evolução espaço-tempo significativa. Perdeu por começar com força na história de Inevera, alternando-a com o estado presente de outros personagens, para deixar a Dama’ting de novo no seu papel secundário na segunda parte do livro.

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Fonte: https://www.barnesandnoble.com/blog/sci-fi-fantasy/5-reasons-binge-read-demon-cycle/

Independentemente das opções do autor, foi um livro bastante coeso e bem amarrado, com os acontecimentos no Outeiro a satisfazerem-me bastante. A evolução geográfica da localidade, os planos do duque Rhinebeck de Angiers e do seu filho, o conde Thamos e a forma como eles estão interligados à individualidade das personagens principais foi extremamente bem desenvolvida pelo autor.

Autor este que, para além de nos oferecer alguns momentos de cortar a respiração no último capítulo do livro, deixa-nos com um cliffhanger enorme. Deixa-nos, por assim dizer, a babar pelo volume seguinte. Pessoalmente, é a maturidade literária de Peter V. Brett, a forma como ele trabalha personagens e lhes dá credibilidade, a grande mais-valia desta série que vou, sem dúvida, continuar a seguir.

Avaliação: 7/10

Ciclo dos Demónios (ASA / 1001 Mundos):

#1 O Homem Pintado

#2 A Lança do Deserto

#3 A Guerra Diurna

Estive a Ler: A Forca, A Primeira Lei #2

A neve caía. Pontos brancos rodopiando no ar além do penhasco, transformando os pinheiros verdes, as rochas negras e o rio castanho no fundo em fantasmas cinzentos.

O texto seguinte aborda o livro “A Forca”, segundo volume da série A Primeira Lei 

Natural de Lancaster, Joe Abercrombie é um dos mais famosos autores de Fantasia da atualidade, conhecido sobretudo pela saga A Primeira Lei. Após crescer numa rígida escola britânica, Joe tornou-se acérrimo adepto de jogos de computador, ocupando parte do seu tempo a criar mapas fictícios. Estudou Psicologia na Universidade de Manchester, sempre com a ideia de vir a revolucionar o mundo da Literatura Fantástica. Publicou o primeiro livro, The Blade Itself, em 2004, ao que se seguiu Before They Are Hanged, o segundo volume da série inaugural.

Pelas mãos da Edições ASA / 1001 Mundos, Before They Are Hanged chegou a Portugal em 2012 com o título A Forca. Com tradução de Renato Carreira e 656 páginas, A Forca regressa ao mundo ambicioso de Joe Abercrombie com a frase de Heinrich Heine na capa: «Devemos perdoar os nossos inimigos, mas não antes que sejam enforcados.» O autor vive atualmente em Bath, Inglaterra, com a esposa e as filhas.

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Joe Abercrombie (Fonte: https://www.joeabercrombie.com/author/)

Li Joe Abercrombie pela primeira vez o ano passado. “Está Difícil para Todos”, conto presente na antologia Rogues organizada por George R. R. Martin foi a minha porta de entrada, mas tantos eram os elogios de vozes “especialmente especializadas” que me aventurei nesta série A Primeira Lei, tida como a mais surpreendente do autor. Realmente, o estilo de Joe aproxima-se muito ao meu, tanto em escrita como em ideias, mas tanto o final do conto como o do primeiro volume da trilogia, A Lâmina, não me encheram as medidas.

Ainda assim, não há como negar que Joe Abercrombie é um dos autores mais talentosos da Literatura Fantástica mundial. A leitura de A Forca veio reforçar essa ideia aos meus olhos, apesar de não conseguir ombrear com os meus preferidos no género. Dono de uma escrita elegante e competente e criador de histórias ricas e envolventes, o autor britânico conquista pela irreverência dos seus personagens, mas também me parece demasiado escudado nos velhos clichés.

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Fonte: https://www.fnac.pt/A-Forca-Joe-Abercrombie/a596336

A Primeira Lei é passado em Midderland. Logen Novededos ganhou fama de sanguinário no norte gelado, onde lutou durante muitos anos ao lado de Bethod, um veterano de guerra que conquistara o norte a pulso. As rixas acentuaram-se e Bethod ganhou uma feiticeira como conselheira, avançando para o centro, tentando expandir os seus domínios. O centro de Midderland é dominado pela União, com capital em Adua, onde perambulam personagens carismáticos como o major Collem West, o inquisidor Sand dan Glotka e o espadachim Jezal dan Luthar. O rei Guslav V não parece muito influente, sendo o Círculo Fechado o verdadeiro cérebro por detrás de todas as ações da União.

E a União está sob ameaça. A norte, a guerra contra Bethod e os seus carls. A sul, a guerra contra Gurkhul e o impiedoso imperador Uthman-ul-Dosht, discípulo do profeta Khalul. Certo de que os exércitos da União não terão capacidade de os travar a ambos, o Primeiro dos Magos, Bayaz, empreende uma jornada para vencer o inimigo através da magia. No início, o mundo era habitado por demónios e seres mágicos, mas uma cisão drástica fez com que todas as criaturas fossem atiradas para o Outro Lado. Tocá-lo e recorrer à magia é quebrar a Primeira Lei, mas Bayaz sabe que as leis antigas estão a ser violadas.

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Logen Novededos (Fonte: https://thetattooedbookgeek.wordpress.com/2016/04/25/sharp-ends-book-review/)

Para alcançar os seus intentos misteriosos, ele pega no seu aprendiz Malacus Quai e num navegador experiente, chamado Pé Longo, no guerreiro nortenho Logen Novededos, no egocêntrico Jezal e na antiga escrava sulista Ferro Maljinn, e condu-los numa viagem até aos confins do mundo, em busca de uma pedra. Os caminhos que são obrigados a atravessar escondem, porém, todo o tipo de perigos.

Glokta, por sua vez, é enviado pelo arquileitor Sult a Dagoska, o último bastião da União no Sul, localizado numa península. O objetivo, ajudar à defesa da cidade e descobrir o que acontecera ao superior da Inquisição, Davoust, então desaparecido. Glotka fora um antigo veterano de guerra, que havia capitulado em batalha contra os gurkeses e conhecera de perto os seus métodos. Para surpresa do conselho administrativo da cidade, composto pelo velho governador Vrums, o seu filho Korsten dan Vurms, o general Vissbruck, a magistrada da guilda dos especieiros Carlot dan Eider e o sacerdote nativo Kahdia, Glotka chega com plenos poderes para as decisões políticas e militares de Dagoska.

O que ele não esperava era ter de lidar com uma conspiração hedionda, um mercenário volúvel chamado Nicomo Cosca, uma doação imprevisível do banco Valint e Balk, um cerco terrível à cidade… e a visita de um velho mago chamado Yulwei, que o alerta para um ataque de devoradores, seguidores eleitos por Khalul para violarem a Segunda Lei: a proibição de se comer carne humana. Para o ajudar, Glotka apenas conta com a sua mente astuta e com o poderio físico dos seus práticos: Frost, Severard e Vitari.

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Sand dan Glotka (Fonte: Mat Edwards)

Nas terras de Angland, os exércitos da União preparam-se para repelir Bethod. O próprio príncipe herdeiro Ladisla comanda um dos exércitos, ainda que lhe falte tanto experiência como sensatez. O marechal Burr coloca o príncipe sob a supervisão de West, promovendo este a coronel. São surpreendidos com a aliança improvável de um grupo de nortenhos, um grupo formado por Cão, Rudd Três Árvores, Tul Cabeça de Trovão, Dow Negro e Sisudo. Homens lendários no norte, que se haviam juntado outrora a Logen Novededos, que os liderara.

Enquanto os generais Kroy e Poulder medem forças, os regimentos acabam por separar-se e a West cabe-lhe a tarefa ingrata de vigiar o príncipe, ainda que não compreenda nenhuma das suas diretivas. O frio ameaça abalar as suas forças mais do que a guerra, e é obrigado a recrutar forjadores numa colónia penal. O homem de rosto queimado chamado Pike e a rapariga Cathil viriam a transformar as vidas de West, Cão e Ladisla de modo incontornável.

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The First Law art (Fonte: http://firstlaw.wikia.com/wiki/The_First_Law_Trilogy )

É, para mim, uma pena que Joe Abercrombie tenha criado o núcleo de Bayaz. É ele que move toda a narrativa, é certo, mas tanto os personagens parecem irrelevantes como a própria demanda soa a algo posto ali porque é giro e tal. É por alguns autores insistirem na ideia de uma demanda por um objeto mágico capaz de salvar o mundo, que o estigma que a Literatura Fantástica é coisa para miúdos perdura. Bayaz é um personagem com uma história pouco interessante e algo estereotipada, transformado no velho mago tradicional.

Joe Abercrombie parece ter aprendido com os mestres e as descrições de batalha não devem em nada às de Bernard Cornwell, um dos melhores a fazê-lo.”

Logen Novededos é um personagem cheio de potencial, que foi transformado, da metade do primeiro volume até aqui, de um guerreiro sanguinário num gigante troglodita, que até tem experiência de guerra e inteligência, mas que parece um atrasado mental quando se move ou fala. Ferro Maljinn teve um final completamente irreal no primeiro volume, e neste tornou-se extremamente irritante. Jezal e Malacus Quai acabam por ser os personagens mais agradáveis do núcleo, mas ambos foram bem melhores e mais explorados no primeiro volume.

Sem título
The First Law art (Fonte: https://geeklyinc.com/geekly-guide-to-authors-joe-abercrombie/)

Mas, é importante sublinhar, este núcleo central não ocupa todo o protagonismo do livro. E é isso que faz de A Forca um livro bom. Os imensos capítulos de Glotka, West e Cão salvam a “honra ao convento”. Se no primeiro volume já havia gostado do major West com a sua natureza impulsiva e tons cinzentos, e do antigo aliado de Logen, sempre furtivo e leal, neste livro a sua envolvência nas batalhas de Angland foi excelente. Joe Abercrombie parece ter aprendido com os mestres e as descrições de batalha não devem em nada às de Bernard Cornwell, um dos melhores a fazê-lo. E as intrigas secundárias dentro destes núcleos foram surpreendentes e muito agradáveis de se ler.

“A leitura de A Forca veio reforçar essa ideia aos meus olhos, apesar de não conseguir ombrear com os meus preferidos no género.”

Se os capítulos de West e Cão agradaram-me imenso, os de Glotka foram deliciosos. O personagem é o melhor da saga, parecendo quase um upgrade do Tyrion Lannister de George R. R. Martin. Preferi a sua estadia em Dagoska, repleta de boas surpresas, mas todas as passagens do inquisidor foram brilhantes. Em parte, graças aos seus pensamentos e diálogos cheios de sarcasmo, ideias mirabolantes e toda a sorte de soluções para os mais variados problemas, em parte pelos cenários e personagens excelentes que gravitaram à sua volta.

Resumindo, gostei bastante de A Forca, ainda que o tema central e os supostos protagonistas não me convençam e lamento a forma como Joe os tenha desenvolvido. Espero em breve ler o terceiro e último volume desta trilogia A Primeira Lei, que será certamente surpreendente. Abercrombie faz-nos emergir na leitura e sentir as dores dos personagens como se fossem nossas.

Avaliação: 7/10

A Primeira Lei (1001 Mundos):

#1 A Lâmina

#2 A Forca

#3 A Coroa

Resumo Trimestral de Leituras #10

Chegámos ao meio do ano e como tal chegou a hora de proceder a um novo balanço trimestral de leituras. Neste segundo trimestre, o destaque vai para Robin Hobb, não só porque organizei um desafio relativo à autora californiana, mas também porque li três livros dela que andaram perto de ser os melhores deste trimestre. Melhor que Hobb só Patrick Rothfuss. Li as duas partes de O Medo do Homem Sábio, e embora a primeira tenha sido significativamente melhor, a Crónica do Regicida tornou-se uma das minhas sagas preferidas. As minhas leituras nos meses de abril, maio e junho foram:

One-Punch Man #1 – One e Yusuke Murata

O Diário do Meu Pai – Jiro Taniguchi

Poder e Vingança, Império das Tormentas #1 – Jon Skovron

Terra de Sonhos – Jiro Taniguchi

Presas Fáceis – Miguelanxo Prado

As Águias de Roma Livro V – Enrico Marini

O Regresso do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #1 – Robin Hobb

Como Falar com Raparigas em Festas – Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá

Dejah Thoris #1 – Frank J. Barbiere e Francesco Manna

A Dança das Andorinhas – Zeina Abirached

O Rei Macaco – Silverio Pisu e Milo Manara

Imperador dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #3 – Mark Lawrence

A Fortaleza da Pérola, Elric #2 – Michael Moorcock

A História de um Rato Mau – Bryan Talbot

Bolos Janados, Tony Chu: Detective Canibal #6 – John Layman e Rob Guillory

Os Dilemas do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #2 – Robin Hobb

Os Senhores do Norte, Crónicas Saxónicas #3 – Bernard Cornwell

A Louca do Sacré Coeur – Alejandro Jodorowsky e Moebius

A Garagem Hermética – Moebius

Nimona – Noelle Stevenson

O Medo do Homem Sábio Parte 1, Crónica do Regicida #2 – Patrick Rothfuss

All is Lost, The Walking Dead #28 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

O Medo do Homem Sábio Parte 2, Crónica do Regicida #2 – Patrick Rothfuss

One-Punch Man #2 – One e Yusuke Murata

Uma Ruína Sem Fim, Outcast #2 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

Duas Vezes Contado, Harrow County #2 – Cullen Bunn e Tyler Crook

Sangue do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #3 – Robin Hobb

Sem TítuloComecei o segundo trimestre com a leitura de alguma banda-desenhada. Publicado pela Devir, o primeiro volume da edição em mangá de One-Punch Man apresenta um super-herói entediado com a facilidade com que derrota os adversários. A Humanidade é frequentemente atacada por monstros, que parecem não ter fim. No entanto, este herói parece mais preocupado em manter o seu apartamento inviolado. Uma história provocadora, com argumento de One e arte de Yusuke Murata, que não me fascinou pessoalmente. Depois, li duas novelas gráficas da Levoir, da autoria de Jiro Taniguchi, autor falecido em fevereiro deste ano. Para além de tocante e reflexivo, O Diário do Meu Pai mostra que aquilo que compreendemos nem sempre está próximo da realidade. O outro álbum, Terra de Sonhos, apresenta cinco contos que mesclam a ternura à reflexão. Um casal sem filhos sofre com os últimos dias do seu animal de estimação, e quando ele morre juram não mais adotar nenhum outro. Mas quando uma gata persa, grávida, lhes surge nas vidas, tudo muda.

Sem títuloPoder e Vingança é o primeiro livro de Jon Skovron no registo fantasia adulta, com a marca de qualidade Saída de Emergência. Divertido e cheio de ritmo, o Império das Tormentas é um mundo bem construído que apresenta Esperança Sombria e Ruivo, dois personagens que vêm os seus percursos cruzar-se quando os criminosos que controlam Círculo do Paraíso começam a colaborar com os biomantes, servos místicos do Imperador. A escrita do autor não me convenceu, mas foi uma boa leitura. Piratas e ladrões, coleccionadores de arte e inventores, samurais, mutações humanas e perseguições sem fim. Disfarçado de alegoria, a BD da Levoir Presas Fáceis, da autoria do autor espanhol Miguelanxo Prado, é uma história inquietante sobre os interesses nefastos da banca. A burla é o tema central. Uma série de homicídios de pessoas ligadas à banca e o suicídio de um casal de idosos arrasta a inspetora Olga Tabares para uma investigação que levanta um sério debate moral. Saltei para o livro V da série gráfica As Águias de Roma, que oferece ao leitor um sucedâneo de emoções. Da revelação da paternidade de Tito à denúncia dos planos de Armínio, Enrico Marini desenha com precisão o clima bélico da Roma Antiga e coloca o embate entre Marco e o seu irmão de criação num patamar superior. Excelente álbum das Edições Asa, que prossegue a um ritmo altíssimo.

Sem TítuloComecei a segunda série de Robin Hobb focada em FitzCavalaria Visionário. O primeiro volume de O Regresso do Assassino mostra-nos o protagonista quinze anos mais velho. O mundo pensa que ele morreu, mas a verdade é que estabeleceu-se como camponês ao lado do seu lobo Olhos-de-Noite e acolheu um jovem órfão chamado Zar. A visita do seu amigo Bobo, agora transformado em Dom Dourado, e a revelação que o príncipe Respeitador desapareceu misteriosamente, colocam de novo Fitz na órbita de Torre do Cervo e das suas intricadas intrigas. Um volume que me fascinou do primeiro ao último momento, melhorando substancialmente em relação à primeira série. Depois de já ter lido o conto, há dois anos atrás, na antologia Coisas Frágeis, foi de bom grado que li a adaptação para BD de Como Falar com Raparigas em Festas. Pelas mãos da dupla brasileira Fábio Moon e Gabriel Bá, esta história de Neil Gaiman sobre dois jovens adolescentes nos anos 70 que, dedicados a fazer sucesso numa festa cheia de raparigas, descobrem que elas não são bem aquilo que pensavam, revelou-se uma lufada de ar-fresco. Divertido e despretensioso, é mais um excelente álbum trazido para o nosso país, desta feita pelas mãos da Bertrand.

Sem títuloCom argumento de Frank J. Barbiere e ilustrações de Francesco Manna, a BD Dejah Thoris é o primeiro volume de uma série da Dynamite Entertainment sobre a princesa de Marte da obra de Edgar Rice Burroughs. Casada com o terráqueo John Carter, Dejah vê-se vítima de um complot dentro do palácio para afastar a sua família do poder, fazendo desaparecer o seu pai e culpando-a por isso. Dejah Thoris é assim obrigada a fugir da cidade e mudar de identidade. Apesar de o argumento ser relativamente bom, foi também previsível e ficou um pouco aquém das expetativas. O mesmo para a arte, que valeu pela cor. Publicada na Colecção Novela Gráfica da Levoir com o jornal Público, A Dança das Andorinhas, da libanesa Zeina Abirached, encanta pela forma inocente e quase cómica com que um grupo de pessoas lida com a guerra. Separados do mundo e refugiados num átrio, os personagens são obrigados a encarar a vida como ela lhes é oferecida. Foi uma BD que não me apaixonou, mas fez-me refletir.

Sem título 2Entrei em maio com a BD O Rei Macaco da Arte de Autor. Com arte de Milo Manara e argumento de Silverio Pisu, trata-se de um mergulho nas tradições orientais. É uma releitura da Jornada para o Oeste, para encontrar o Jovem Macaco em busca da eternidade, com o Imperador de Jade disposto a dificultar-lhe a tarefa. Apesar de ser uma obra de referência, muito bem humorada, a nível de arte já vi melhor de Manara, o que se compreende uma vez que este foi um dos seus primeiros trabalhos. O terceiro e último volume da Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence, publicado pela TopSeller, Imperador dos Espinhos veio cimentar a minha opinião sobre a obra. O autor convence com a escrita, mas a história continuou confusa, sem uma proposta clara ou um plot bem definido. Um livro mediano, numa trilogia mediana. A Fortaleza da Pérola, de Michael Moorcock, mostra-nos Elric na cidade de Quarzhasaat, onde é chantageado por um nobre local a dar-lhe uma pérola desaparecida no deserto em troca de um antídoto para a droga que lhe haviam dado. Elric inicia assim uma viagem pelo deserto que o levará a Varadia, uma menina que ficou em estado comatoso desde que viu a sua integridade violentada. Mais uma excelente leitura, como Moorcock já nos habituou.

Sem títuloBaseado na história de vida da autora de livros infantis Beatrix Potter, o autor Bryan Talbot escreveu e desenhou uma BD tocante e metafórica sobre uma jovem que, vítima dos maus tratos dos pais e sentindo-se culpada pelos abusos sexuais que sofreu, acaba nas ruas de Londres, a sobreviver como sem-abrigo. A História de Um Rato Mau foi uma leitura reflexiva, que não me agradou no seu todo pelo peso que tomou, em certo ponto. Das novelas gráficas da Levoir passei para os grandes lançamentos da G Floy. Bolos Janados é mais uma aventura do detective mais louco da BD, Tony Chu, desta feita protagonizada pela sua irmã-gémea, Antonelle. Desde um leilão polémico até a um casamento de final abrupto, passando por uma aliança inusitada entre a NASA, a FDA e a USDA, somos convidados a percorrer uma série de aventuras com a participação sempre especial do galo Poyo. A história não desilude, mantendo-se fresca, colorida, bem-humorada e com muitas, muitas vísceras à mostra. Geniais, John Layman e Rob Guillory mantêm a toada. No seguimento do meu desafio com o apoio da Saída de Emergência li Os Dilemas do Assassino de Robin Hobb. FitzCavalaria continua mais perdido do que nunca, agora que é um homem adulto e tem de lidar com uma série de questões políticas e com a imaturidade dos mais jovens. Este segundo volume tem mais mistérios e alguma magia, relacionada com um rapaz de pele escamada e com a narcheska Eliânia, mas também referências a dragões e a navivivos, que me agradou.

Sem títuloTerceiro volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, Os Senhores do Norte mostra-nos Uthred a caminho do norte, enraivecido com o Rei Alfredo pela ridícula recompensa que lhe deu depois de tudo o que fez para que vencesse a importante Batalha de Ethandun. Disposto a recuperar a Bebbanburg que o viu nascer, Uthred “tropeça” em Guthred, um dinamarquês convertido ao Cristianismo que pretendia reclamar para si o norte. Mais um magnífico livro cheio de passagens belas e inquietantes, com o selo de qualidade Bernard Cornwell e Saída de Emergência. Escrito por dois dinossauros da BD, Alejandro Jodorowsky e Moebius, A Louca do Sacré Coeur conta a história de um professor de filosofia da Sorbonne, tradicionalmente vestido de lilás que, assediado por uma das suas alunas, sucumbe à tradicional crise de meia-idade e vê-se arrastado para uma parafernália de rituais bizarros que mesclam o religioso e o misticismo a práticas sexuais completamente lunáticas. Um livro que me agradou nas ideias e no desenho, mas que achei um pouco mal executado, ou pelo menos sem brilho. Outra grande obra de Moebius pelas mãos da Levoir, A Garagem Hermética é uma história confusa de ficção científica que gira à volta do Major Grubert. O misterioso personagem concebe um asteróide que cabe no seu bolso através de treze geradores. Porém, no interior desse corpo existem três mundos e vida, possivelmente tão real como a nossa. Mas quem será este enigmático Major Grubert? Gostei imenso, mesmo não percebendo muito da história.

Sem TítuloO mês de junho começou com Nimona, da norte-americana Noelle Stevenson, que marca o regresso da Saída de Emergência à publicação de BD’s. Nasceu como um trabalho universitário da autora, mas foi como webcomic que alcançou o sucesso e transformou autora e personagem em celebridades. Dona de um traço único e de um humor aguçado, Stevenson aborda temas como a amizade, a falsidade, o controlo dos media pelas forças de poder e a homossexualidade, de forma simples e divertida, num mundo marcadamente medieval com televisões, computadores e tecnologias futuristas. Em senda de leituras maravilhosas, seguiu-se o segundo volume da Crónica do Regicida (Parte 1 e Parte 2), publicado em português pela ASA/1001 Mundos. O Medo do Homem Sábio traz-nos de volta ao mundo escrito por Patrick Rothfuss. Depois de sobreviver às artimanhas de Ambrose, Kvothe sobrevive na Universidade, pagando as “propinas” com a música que faz em Imre, a cidade vizinha, e com os empréstimos que forja com Devi, a lendária ex-aluna da Universidade. É quando uma acusação antiga lhe bate à porta que surge a oportunidade de arranjar um mecenas, o que o leva para longe, para a distinta Vintas. Enquanto a primeira parte foi, muito possivelmente, dos melhores livros que já li na vida, o segundo perdeu bastante em comparação, ainda que a escrita do autor continue como uma das maravilhas da série.

Sem títuloMais um brilhante volume da BD The Walking Dead, All is Lost prossegue na rota de sucesso do argumentista Robert Kirkman, com a arte sempre consensual de Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano. Hilltop caiu e uma legião de walkers foi canalizada pelos Sussurradores em direção a Alexandria. Negan e Rick defendem a comunidade, mas os portões caem e Rick vê no seu antigo adversário um amigo improvável, o único que consegue ajudá-lo quando tudo parece desmoronar-se à sua volta. Mais um volume excelente e uma morte impactante com repercussões no futuro das BD’s. Li também o segundo volume do mangá One-Punch Man de One e Yusuke Murata, com quem tinha iniciado o trimestre. Uma série de apontamentos divertidos fazem-me olhar com agrado para este álbum, cuja proposta ou mesmo linha narrativa não oferecem nada de original ou interessante. E regressei a Robert Kirkman. Depois de ter lido o primeiro volume no início do ano, eis que chegou às bancas o segundo álbum de Outcast, Uma Ruína Sem Fim, com argumento do autor de The Walking Dead e ilustrações de Paul Azaceta. Argumento e arte casam na perfeição numa história sobre possessões que começa a dar maiores sinais de interesse, e com os mistérios a adensarem-se. Apesar de a história parecer demorar a avançar, notam-se os laivos de genialidade que atiraram Kirkman para as bocas do mundo.

Sem título 2Tal como o álbum de Outcast, Duas Vezes Contado foi um dos mais recentes lançamentos da G Floy no nosso país, lançado no Festival de BD de Beja. O segundo volume da BD de horror Harrow County, com argumento de Cullen Bunn e arte de Tyler Crook, revela um maior amadurecimento por parte do artista, ainda que o argumento não me tenha agradado por aí além. À medida que a protagonista Emmy vem aprendendo a lidar com os seus poderes e com as criaturas sobrenaturais que habitam Harrow County, tem também de proteger a povoação de um novo inimigo: a própria irmã gémea, Kammi. E terminei o trimestre com o terceiro volume da Saga O Regresso do Assassino. Em Sangue do Assassino, Robin Hobb volta a não desiludir. Vemos o protagonista FitzCavalaria arrastado para uma chuva de situações inusitadas, desde a ganância pela magia do seu velho mentor, à preocupação com os filhos, rumores de homossexualidade e principalmente a ameaça dos pigarços à sua integridade e à da família real. A obra, porém, oferece muito mais do que isso. Oferece pessoas reais, com defeitos e virtudes, e problemas que podiam ser partilhados por qualquer um de nós. Uma história enriquecedora.

Neste momento, estou a ler o livro Monge Guerreiro do autor brasileiro Romulo Felippe, e deverei continuar com as BD’s Southern Bastards, Velvet, Monstress e mais alguns livrinhos. Entre os nomes que pretendo ler nos meses de verão estão Ursula K. Le Guin e Joe Abercrombie, mas irei também concluir a Saga O Regresso do Assassino de Robin Hobb.

Estive a Ler: O Medo do Homem Sábio, Crónica do Regicida #2 (2/2)

Ouvi-a conter a respiração, espantada, quando viu o tapete de margaridas alongar-se à sua frente.
– Esperei muito tempo para mostrar a estas flores como és bonita – disse-lhe.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Medo do Homem Sábio Parte 2”, terceiro volume da série Crónica do Regicida

Publicado pela Edições ASA/1001 Mundos, este volume corresponde à segunda parte do original The Wise Man’s Fear do escritor norte-americano Patrick Rothfuss. O livro, dividido em Portugal por conta do volume de páginas, faz regressar o icónico personagem Kvothe e a narração da sua história de vida. Distinguido por alguns dos maiores nomes do género, O Medo do Homem Sábio cimentou a popularidade de Pat Rothfuss e granjeou-lhe um estatuto invulgar entre os escritores de fantasia.

2011 foi o ano que marcou o lançamento do segundo volume da trilogia, muito embora o terceiro pareça tardar em chegar. Conflitos editoriais têm vindo a adiar a publicação de Doors of Stone, o volume final, cujo título só aguça a curiosidade de todos aqueles que leram os primeiros livros da série e alimenta uma série de teorias e constatações do que Pat escreveu nas entrelinhas. No entanto, o protelar da última publicação só faz crescer a apreensão e a especulação entre o fandom sobre os enigmas lançados até aqui.

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Kvothe e Felurian (Fonte: Bruno Del Rey)

A caça aos bandidos

Nesta segunda parte, encontramos Kvothe a desempenhar uma tarefa de difícil execução. O maer Lerand Alveron enviou-o para as florestas de Vintas com um propósito em mente: liderar um grupo capaz de parar os bandidos que, nas estradas, roubavam os impostos coligidos para si. Kvothe teve a sensação de que essa nomeação não fora propriamente um reconhecimento dos seus préstimos. Trabalhara de forma notável na corte de Severon, fosse a impedir que o maer fosse envenenado, fosse a elaborar canções para que ele cortejasse a nobre Meluan Lackless.

No entanto, a sensação com que saiu da cidade foi que Alveron o enviou para que, caso regressasse vitorioso, o seu problema nas estradas acabasse; porém, caso regressasse de mãos vazias, o mais provável, teria falhado aos seus olhos e a dívida de gratidão que tinha para consigo seria seriamente aplacada. Ainda assim, Kvothe não teve como declinar a indicação do seu patrono e avançou para os bosques, sem sequer despedir-se de Denna, a sua amada, com quem se havia zangado seriamente. Quando se lembrou disso, enviou um bilhete para a rapariga.

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Kvothe (Fonte: pinterest.com)

O grupo de Kvothe não era grande. Ele liderava o grupo, mas os seus companheiros olhavam-no como se fosse apenas um rapaz. Dedan era um homem grande e temperamental, secretamente apaixonado por Hespe, uma guerreira de rosto fechado. Marten era um homem mais experiente e de aparência sensata. Por fim, Tempi era um mercenário Adem, com a tradicional roupa vermelha tradicional entre os assassinos do Ademre.

Estranhamente, foi com o misantropo Tempi, calado e estranho, que Kvothe encetou uma relação de maior proximidade. Com ele aprendeu a estranha língua do Ademre, as mais variadas expressões e tipos de sorriso, que aquela estirpe demonstra com gestos manuais. Com ele aprendeu também algo sobre a arte do Ketan, a luta Adem, e da Lethani, uma filosofia intrincada sobre os caminhos do homem. Passaram por várias provações e rixas até, finalmente, encontrarem os ladrões.

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Felurian e Kvothe (Fonte: wilhelmblack.deviantart.com)

A arte do amor

Seguiu-se um momento de grande aflição quando a estratégia que haviam gizado falhou redondamente. Com recurso aos ensinamentos na Universidade sobre simpatias e com muita, muita sorte, Kvothe conseguiu que um relâmpago atingisse uma árvore, o que viria a alimentar a lenda em seu redor e a que o comparassem com o mítico Taborlin, o Grande. O grupo conseguiu vencer os criminosos e recolher os tesouros roubados, se bem que o líder, que Kvothe havia reconhecido sem saber de onde, desaparecera de forma misteriosa, quando esperavam encontrar o seu corpo sob destroços.

Ainda dissecavam a experiência terrível quando, no bosque, avistaram um ícone da cultura popular – Felurian. Ela era uma Fae, um ser que diziam seduzir os homens com a sua beleza etérea, e matá-los com sexo. Kvothe ficou completamente inebriado quando a viu e deixou os companheiros para trás, correndo desalmadamente atrás dela. Ela fugiu, levando-o para a terra dos Fae, de onde raros foram os homens que conseguiram sair.

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Kvothe e o Cthaeh (Fonte: joeslucher.deviantart.com)

Felurian era, de facto, de uma beleza estonteante, e pareceu impressionada com Kvothe. Com ela, o músico descobriu os prazeres do sexo e viu-se enredado numa teia de sedução sem fim. Por pouco, ela não o matou de cansaço. Mas a relação entre Kvothe e Felurian viria a ser muito mais do que sexo. Ao descobrir que ele era um músico, ficou fascinada com os seus dotes e quis que ele cantasse para si. Kvothe era, para além de um bom músico, esperto, e já ouvira muitas histórias sobre Felurian. Desse modo, fez com que ela acedesse a deixá-lo partir do reino dos Fae, para cantar músicas sobre ela, alimentando a sua fama.

A Fae acedeu, excitada com a possibilidade, com a condição de que ele retornasse, um dia, para não mais ir embora. A relação entre os dois cresceu e ainda que ele estivesse atento para com o perigo que ela representava, os momentos de hostilidade entre os dois (num dos quais Kvothe chamou o vento de forma inconsciente) dissiparam-se e os afetos pautaram o que restou da sua estadia naquele mundo. Felurian fez, com recursos naturais e luz, uma Shaed, uma capa de sombras, que ofereceu a Kvothe. Também lhe contou histórias. Na ânsia de descobrir mais sobre os assassinos dos seus pais, Kvothe perguntou-lhe sobre os Chandrian, mas até mesmo Felurian sentiu-se petrificada diante da referência, e nada lhe contou.

Um dia, porém, Kvothe deambulava pelos arredores quando encontrou uma enorme árvore, dentro da qual estava aprisionada uma criatura terrível, chamada Cthaeh. A criatura era um oráculo, com conhecimentos plenos sobre o futuro, mas que o proferia de forma a que ele esmagasse mentalmente quem o procurasse. Graças às suas palavras, Kvothe lembrou-se que o líder dos criminosos que enfrentara era um dos membros do Chandrian que mataram os seus pais, e soube que o mecenas de Denna a maltratava. Devastado, regressou a Felurian, que achou incrível que ele sobrevivesse intacto ao contacto com o Cthaeh.

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Tempi (Fonte: kingkiller.wikia.com)

O Ademre

Depois de se despedir de Felurian, Kvothe reencontrou os seus companheiros numa estalagem, onde se contavam histórias um tanto ou quanto exageradas sobre as suas façanhas. Ainda com as hormonas aos saltos, Kvothe acabou envolvido com uma das raparigas do estabelecimento, antes de se fazerem à estrada. Preparavam-se para regressar a Severen quando Tempi revelou que os seus caminhos se separavam, pois tinha de regressar ao Ademre. Convidou Kvothe para acompanhá-lo, para que ele concluísse o seu treino. Ao recordar-se das palavras do Cthaeh, que indicavam os montes do Ademre como um caminho para o Chandrian, Kvothe colocou a liderança do grupo nas mãos de Dedan e decidiu rumar ao Ademre com Tempi.

A receção foi hostil. Densamente povoado por personagens femininas, a cidade de Haert era, a seu modo, uma espécie de Universidade, mais focada nas artes marciais e na filosofia. Shehyn era a líder da comunidade, uma mulher sábia e forte que recriminava a atitude de Tempi em iniciar um bárbaro como Kvothe nos seus costumes secretos. A Lethani não era para todos. Os primeiros tempos não foram fáceis nem para Kvothe, nem para Tempi. Kvothe foi colocado perante uma série de provas, para que percebecesem se ele teria valor para ser instruído. Caso fosse excluído, Tempi seria também severamente castigado pelo descuido.

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Vashet, uma professora sexy (Fonte: kingkiller.wikia.com)

Carceret era uma das locais que mais queria ver Kvothe morto. A professora Vashet foi colocada por Shehyn como responsável por ele, e parecia tão odiosa e terrível como Carceret. No entanto, revelou-se uma professora exigente e amigável, vindo a forjar com Kvothe uma relação de grande proximidade. Também a pequena Celean e a bonita Penthe revelaram-se importantes durante a estadia de Kvothe em Haert. Os Adem eram um povo estranho, onde o sexo era uma prática completamente casual e a música considerada um ato de extrema intimidade.

O caminho de Kvothe levou-o de volta à Universidade, depois de salvar duas meninas das mãos de um grupo de impostores e contar a verdade sobre a sua identidade ao maer. Em Severen, encontrou a inimizade de Meluan Lackless e um enigma sobre uma caixa sem fechadura, assim como uma familiar curiosidade de Alveron sobre a verdade em redor dos Amyr, uma verdade que Kvothe tanto procurou nos Arquivos e que parecia vedada ao mundo.

 

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Capa ASA / 1001 Mundos
SINOPSE:

Agora em O Medo do Homem Sábio, Dia Dois das Crónicas do Regicida, uma rivalidade crescente com um membro da nobreza força Kvothe a deixar a Universidade e a procurar a fortuna longe. À deriva, sem um tostão e sozinho, viaja para Vintas, onde, rapidamente, se vê enredado nas intrigas políticas da corte. Enquanto tenta cair nas boas graças de um poderoso Nobre, Kvothe descobre uma tentativa de assassínio, entra em confronto com um Arcanista rival e lidera um grupo de mercenários, nas terras selvagens, para tentar descobrir quem ou o quê está a eliminar os viajantes na estrada do Rei.
Ao mesmo tempo, Kvothe procura respostas, na tentativa de descobrir a verdade sobre os misteriosos Amyr, os Chandrian e a morte da sua família. Ao longo do caminho Kvothe é levado a julgamento pelos lendários mercenários Adem, é forçado a defender a honra dos Edema Ruh e viaja até ao reino de Fae. Lá encontra Felurian, a mulher fae a que nenhum homem consegue resistir, e a quem nenhum homem sobreviveu… até aparecer Kvothe.
Em O Medo do Homem Sábio, Kvothe dá os primeiros passos no caminho do herói e aprende o quão difícil a vida pode ser quando um homem se torna uma lenda viva.

OPINIÃO:

Pat Rothfuss, és um miserável! Se este livro fosse um volume isolado, talvez não tivesse as expetativas tão lá em cima. Fiquei tão fascinado com a primeira parte de O Medo do Homem Sábio, que foi extremamente desapontante passar por esta segunda metade e pensar que se trata do mesmo livro, na sua versão original. Senti-me desiludido, muito desiludido durante várias partes do livro. Não me entendam mal, estou a ser um pouco exagerado e aquela frase inicial não é mais que uma brincadeira, mas este livro ficou verdadeiramente aquém do esperado.

E, mesmo assim, foi das melhores coisinhas que já li. Parece contrasenso? Talvez. Vejam a nota que dei a este livro e percebam que a escrita maravilhosa do autor e a personalidade incrível do personagem principal me impediriam de dar nota mais baixa. Quero com isto dizer que a história foi terrível? Dececionante? Horrorosa? Nem tanto. Vou explicar sucintamente tanto o que não gostei como o que adorei.

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Denna e Kvothe (Fonte: gretlusky.tumblr.com)

O que gostei menos foi a linguagem de expressões completamente estúpida dos Adem e o tempo que o autor perdeu a explicá-la. Os treinos de Kvothe na Ketan e na Lethani, tanto na floresta como na cidade de Haert, foram EN-TE-DI-AN-TES. Se a fase inicial de Kvothe no bosque foi terrível, com personagens fracos a acompanhá-lo durante demasiado tempo, as coisas demoraram a melhorar. A descrição de Felurian e das suas peculiaridades foram realmente boas, mas de cada vez que um novo núcleo era apresentado, a ação demorou imenso tempo a engrenar. O mesmo em Ademre. O tempo perdido com pormenores e treinos foi levado ao limite.

“Quero com isto dizer que a história foi terrível? Dececionante? Horrorosa? Nem tanto.”

Em contrapartida, Pat Rothfuss foi engenhoso e mágico na hora de virar a página. Fosse no combate aos criminosos, na despedida de Fae ou de Ademre, a fase final de cada passagem foi descrita de forma rápida, fluída e bem amarrada, deixando até uma certa nostalgia no ar. Só comecei realmente a gostar do livro após o encontro de Kvothe com o Cthaeh – obrigado Pat por ressuscitares a curiosidade e as teorias – e os interlúdios foram sempre pertinentes e ótimos.

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Kvothe e Elodin num momento memorável de O Nome do Vento (Fonte: kkc-art)

Muito embora não tenha gostado da estadia de Kvothe no Ademre, todos os personagens ali apresentados foram ótimos e ricos em nuances, alguns com menos destaque do que seria presumível, como Tempi (que personagenzinho sem sal), o que acabou por ser positivo. Não gostei da vulgarização e ridicularização da sexualidade neste volume, mas Pat compensou na fase final, com diálogos pertinentes e debates francos sobre a relação homem/mulher, questão que acabou por permear todo o volume. Sim, do meio para a frente, o livro melhorou muito em todos os aspetos.

“Em contrapartida, Pat Rothfuss foi engenhoso e mágico na hora de virar a página. Fosse no combate aos criminosos, na despedida de Fae ou de Ademre, a fase final de cada passagem foi descrita de forma rápida, fluída e bem amarrada, deixando até uma certa nostalgia no ar.”

Melhorou é um eufemismo. Desde o encontro de Kvothe com uma trupe de artistas – eu sei, já é quase na reta final do livro – pareceu que estava novamente a ler a história incrível que tinha deixado a meio. E foi uma conclusão magnífica para o livro como um todo. Tivemos um Kvothe assassino, tivemos revelações, tivemos reencontros, tivemos enigmas. Muitos enigmas e mistérios e uma forma extraordinária de nos pôr a pensar e a divagar e a querer ler mais, muito mais deste autor. Pode parecer contraditório, mas este livro teve muitos momentos saturantes e dececionantes, e momentos mágicos, maravilhosos. No cômputo geral, sou incapaz de dizer que não gostei. És um miserável, Pat, mas és um génio.

Avaliação: 8/10

Crónica do Regicida (1001 Mundos):

#1 O Nome do Vento

#2 O Medo do Homem Sábio Vol. 1

#3 O Medo do Homem Sábio Vol. 2

#4 Doors of Stone (não publicado)

Estive a Ler: O Medo do Homem Sábio, Crónica do Regicida #2 (1/2)

Lembre-se de que há três coisas que todo sábio teme: o mar na tormenta, uma noite sem luar e a ira de um homem gentil.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Medo do Homem Sábio Parte 1”, segundo volume da série Crónica do Regicida

Dividido em Portugal em dois livros, pelas mãos da Edições ASA/1001 Mundos, O Medo do Homem Sábio é o segundo volume da aclamada Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss. Saiu por cá em 2011, logo após o seu lançamento, muito por conta da extraordinária repercussão mediática e pela vontade do público aficcionado por ficção fantástica em saber mais sobre Kvothe e as suas façanhas, que já haviam surpreendido meio mundo com o livro inaugural da saga, O Nome do Vento.

Assim que saiu, The Wise Man’s Fear, nome original, saltou para os lugares cimeiros da lista de fantasia do The New York Times. Considerado por muitos como uma gigantesca obra de fantasia em todos os aspetos, o livro foi elogiado pela publicação Publisher’s Weekly como uma “sequela hipnotizante”. Com este livro, Patrick Rothfuss assegurou convictamente o seu lugar entre os monstros do género.

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Kvothe (Fonte: gentaroendo.deviantart.com)

Os espinhos de Kvothe

A estalagem Pedra do Caminho continua a ser um local pouco frequentado, afora as ocasionais entradas e saídas do grupinho de Cob. Kote, o estalajadeiro ruivo, continua assim rodeado de um ambiente profundamente introspetivo, na companhia do seu criado e discípulo Bast, um rapaz com pés de cabra, e do Cronista, um famoso coletor de informações, que após um delicado acidente com “aranhas” ficou retido na estalagem para cuidar dos ferimentos. Foi aí que percebeu que o velho estalajadeiro era, na verdade, o lendário Kvothe. E Kvothe fê-lo adiar os seus compromissos para lhe contar a verdade sobre a sua vida durante três dias. Sim, três dias. O Medo do Homem Sábio compreende o segundo dia de narração.

No primeiro livro, Kvothe narrou a sua infância numa trupe itinerante de Edema Ruh e a morte dos seus pais às mãos de um grupo de sujeitos celebrizados no folclore popular como Chandrian, uma espécie de bicho-papão em que poucos acreditam, mas que afinal é um grupo de sete indivíduos, sendo que um deles é o próprio Haliax, a forma de sombras em que se transformou Lanre, um personagem histórico visto por uns como um herói, por outros como o responsável pelo colapso de um Império.

Kvothe conta também a mendicância e a tortura a que foi submetido nas ruas de Tarbean e a adesão à famigerada Universidade, onde entrou antes de ter idade para isso, para aprender as magias conhecidas como Simpatia e Nomeação. Pelo meio, conheceu a fugidia Denna, uma rapariga misteriosa por quem se apaixonou. O Medo do Homem Sábio traz Kvothe na Universidade, mas a sua vida está longe de parecer confortável. A tocar alaúde para subsidiar os seus estudos, Kvothe tem ali amigos e uma vida, mas os problemas não tardam em aparecer.

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Kvothe (Fonte: artwithcharcoal.artstation.com)

Dívidas pagas e por saldar

Na Universidade, a inimizade entre Kvothe e Ambrose pareceu arrefecer. Os dois já fizeram mal um ao outro que baste, e Kvothe tem a noção que mexer mais na ferida só lhe poderia causar embaraços, uma vez que o seu arquirrival já se mostrara poderoso e influente. Dedicou-se aos estudos e alistou-se nas aulas de nomeação de Mestre Elodin, na tentativa de vir a aprender os nomes das coisas. Porém, as aulas revelaram-se um enigma e nenhum dos alunos pareceu fazer qualquer avanço na matéria. Ainda assim, Kvothe distinguiu-se na oficina de Kilvin e também como simpatista parecia imbatível.

Simmon e Willem revelaram-se amigos inseparáveis e viveram com Kvothe os momentos de maior união e camaradagem. As noites na Eólica, onde Kvothe se tornou uma celebridade, foram quentes e alegres. Apenas Denna continuou a escapar-lhe por entre os dedos. A jovem tanto aparecia como desaparecia, e o maior medo de Kvothe era cair no erro de outros tantos homens, quando tentaram restringir a liberdade da rapariga. É quando a vê de braço dado com Ambrose, que a fúria de Kvothe atinge um novo nível de arrebatamento.

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Devi (Fonte: pinterest.com)

Rapidamente, porém, percebeu que Ambrose era mais uma das companhias ocasionais da sua amada, que tão depressa se deixava acompanhar por um homem como o abandonava. Denna era um espírito selvagem, que vira em Kvothe alguém especial exatamente por não a forçar a nada. Kvothe descobriu também que Ambrose ficara com o anel de Denna para o reparar, mas a falta de vontade da rapariga em voltar a vê-lo fê-la sentir-se constrangida para o pedir de volta.

Kvothe recebeu também uma visita especial. Tratava-se de Nina, uma menina que conhecera em Tarbean. Levou-lhe um pedaço de cerâmica que poderia oferecer-lhe respostas acerca do passado do Império e sobre a terrível ameaça que matara os seus pais. O Chandrian. Readmitido nos Arquivos, de onde fora expulso pelo Mestre Lorren, Kvothe vasculhou tudo em busca de informações, mas nada de válido encontrara naquele imenso acervo. Foi ali, no entanto, que os seus amigos Simmon e Willem o apresentaram a uma curiosa personagem, o Marionetista, que vivia num quarto dentro dos Arquivos.

A par de Denna e dos seus amigos mais próximos, Kvothe tinha alguém especial a quem visitar: Auri, a menina que vivia nos subterrâneos. Teve ainda que lidar com as dívidas a pagar a Devi, a mítica ex-aluna da Universidade que lhe emprestara dinheiro. Após uma série de situações, Kvothe foi alvo de uma espécie de voodoo, quando sentiu o corpo sistematicamente violentado por uma força fantasmagórica. Desde logo as suas suspeitas dançaram entre Ambrose e Devi, uma vez que a agiota possuía o seu sangue e ficara deveras ofendida por ele lhe recusar um segredo.

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Denna (Fonte: kingkiller.wikia.com)

Uma nova oportunidade

Com a ajuda de Feila, Simmon, Willem e Moula, Kvothe elaborou um plano rebuscado para humilhar Ambrose e recuperar o anel de Denna, depois de a rapariga ter desaparecido misteriosamente, uma vez mais. A relação de Kvothe com Elodin estreitou-se, ainda que o professor parecesse cada vez mais enigmático. Foi quando os seus bolsos pareciam mais cheios e a vida a endireitar-se que o azar bateu-lhe novamente à porta. A Lei Férrea é contundente e Kvothe foi levado à justiça por danos provocados no passado. Kvothe usou-se da sua imensa lábia para ser ilibado, mas todos o aconselharam a ausentar-se da Universidade. O julgamento em si traria mau nome à instituição, e com isso ganharia o desdém dos professores, o que iria prejudicar gravemente a sua avaliação.

Encontrava-se a passar umas “férias” nas imediações quando o seu amigo Threipe lhe disse ter encontrado um mecenas. Tratava-se de um homem tão poderoso quanto um rei, o maer de Vintas, uma região longínqua. O maer contactara Threipe para que este lhe arranjasse um rapaz com boas maneiras e facilidade para fazer música, o que o aristocrata julgara assentar como uma luva no perfil de Kvothe. Certo de que nada tinha para fazer ali e sequioso de descobrir mais informações sobre o Chandrian e os Amyr, Kvothe aceitou embarcar nessa aventura distante.

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Kvothe (Fonte: siliceb.deviantart.com)

Vintas revelou-se o lar da aristocracia, uma terra cheia de barões e baronetes, onde a etiqueta era de elevada importância, assim como os modos e o berço. Kvothe sofrera alguns reveses até ali chegar, mas rapidamente usou-se do seu talento como ator para se integrar na sociedade vintasiana. Chegou à mansão do maer Lerand Alveron, na cidade de Severen, sem saber ao que ia. O maer era um homem aparentemente velho e de saúde débil, que o acolheu como um companheiro de conversas, ofereceu-lhe roupas e aposentos dos mais requintados e criou uma relação de fácil empatia consigo. Era um homem solitário, derruído pela doença, que apenas podia confiar no seu camareiro Stapes e no curandeiro, o alquimista Caudicus.

A vida na cidade de Severen pareceu-lhe entediante, até certo ponto. Kvothe tornou-se o alvo da curiosidade aguçada da burguesia, que não sabia efetivamente quem ele era. Mas, aparte os questionários indesejáveis, Kvothe conheceu Bredon, um homem com aspeto de coruja, com quem aprendeu um jogo que o fez não morrer de tédio. Reencontrou também Denna, na cidade, e percebeu que ela estava ali a agir para o seu Mecenas, um sujeito enigmático de quem nem sabia o nome, e o coração do músico oscilava entre a felicidade dos seus encontros e o receio de avançar na relação. A par dos dilemas amorosos, Kvothe teve ainda que desvendar uma série de mistérios e evitar uma tentativa de homicídio.

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Capa 1001 Mundos
SINOPSE:

Agora em O Medo do Homem Sábio, Dia Dois das Crónicas do Regicida, uma rivalidade crescente com um membro da nobreza força Kvothe a deixar a Universidade e a procurar a fortuna longe. À deriva, sem um tostão e sozinho, viaja par Vintas, onde, rapidamente, se vê enredado nas intrigas políticas da corte. Enquanto tenta cair nas boas graças de um poderoso Nobre, Kvothe descobre uma tentativa de assassínio, entra em confronto com um Arcanista rival e lidera um grupo de mercenários, nas terras selvagens, para tentar descobrir quem ou o quê está a eliminar os viajantes na estrada do Rei.
Ao mesmo tempo, Kvothe procura respostas, na tentativa de descobrir a verdade sobre os misteriosos Amyr, os Chandrian e a morte da sua família. Ao longo do caminho Kvothe é levado a julgamento pelos lendários mercenários Adem, é forçado a defender a honra dos Edema Ruh e viaja até ao reino de Fae. Lá encontra Felurian, a mulher fae a que nenhum homem consegue resistir, e a quem nenhum homem sobreviveu… até aparecer Kvothe.
Em O Medo do Homem Sábio, Kvothe dá os primeiros passos no caminho do herói e aprende o quão difícil a vida pode ser quando um homem se torna uma lenda viva.

OPINIÃO:

Este é um livro que adoraria ter sido eu a escrevê-lo. O Medo do Homem Sábio foi dividido no nosso país, e ainda assim esta primeira parte encheu-me as medidas por completo. Se O Nome do Vento já me tinha agradado muito, este segundo volume agarrou-me ainda mais e Patrick Rothfuss tornou-se já um dos meus autores de eleição. Espero que a segunda parte confirme a minha opinião. Não temos batalhas, não temos cenários épicos, não temos uma gama enorme de personagens badass, não temos cenas de sexo, plot-twists de tirar o fôlego ou dragões ou monstros originais. Pois não. Temos intrigas, truques, inteligência, mistérios, um ambiente que oscila entre o medieval e o renascentista, com traços vitorianos, e um protagonista maravilhoso. Sim, estou a falar do Kvothe.

Se já havia referido a forma comovente com que o autor trata a música, no primeiro volume, posso dizer que este livro cuidou desse tema com ainda mais carinho. O personagem principal é um músico exímio, mas o próprio autor parece fazer música com as suas palavras. Dificilmente encontrarás um escritor de ficção com prosa tão maleável e com tanto coração nas palavras. 

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Kvothe (Fonte: deviantart.com)

O ponto fraco do autor é mesmo o curso interminável de deambulações e dilemas por parte do protagonista, o que resulta no volume imenso destes livros. De qualquer forma, falta de acontecimentos não pode ser um defeito apontado a Rothfuss. A história de Kvothe não pára e novas surpresas ocorrem a cada virar de página, sempre com momentos de maior felicidade ou sofrimento, fazendo o leitor seguir com atenção a vida deste personagem tão fascinante. Com o coração nas mãos.

“De qualquer forma, falta de acontecimentos não pode ser um defeito apontado a Rothfuss. A história de Kvothe não pára e novas surpresas ocorrem a cada virar de página, sempre com momentos de maior felicidade ou sofrimento”

A primeira parte do livro foi uma continuação direta dos acontecimentos finais de O Nome do Vento. Os personagens da Universidade foram explorados, e ainda que eu tenha comparado, na recensão ao livro anterior, esse núcleo ao de Harry Potter, o que foi uma crítica, fui agarrado logo de início com este livro. As conversas entre Kvothe e os seus amigos são hilariantes, o clima de paródia na Eólica ombreia bem de perto com as conversas entre Locke Lamora e os seus The Gentleman Bastards e posso dizer que não lhe fica atrás em momento algum.

Elodin foi um personagem que ainda não teve o destaque que talvez se adivinhasse, mas posso dizer que todas as suas aparições foram uma benção. Frases épicas, saídas inesperadas, e todo um mistério à sua volta. Confesso, não consigo descolar este personagem do mítico Dr. House da série de televisão; na minha cabeça eles são um e a mesma pessoa. Loucos, divertidos e bons no que fazem.

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Kvothe (Fonte: Marc Simonetti)

Se não bastasse este núcleo de personagens tão bons como a “terrível” Devi ou a magnífica Auri para eu achar este um livro tão bom quanto os meus preferidos, Patrick Rothfuss ainda tinha que enviar Kvothe para Vintas. Bye bye escolinha. Olá, novo núcleo. O novo núcleo que Rothfuss apresentou foi bem o reflexo dos melhores mundos fantásticos que conheço e em que gosto de me introduzir, seja como leitor ou escritor: o cenário renascentista. Lordes e damas, banquetes e regras de etiqueta, uma panóplia de adereços e de personagens enigmáticos e fascinantes. E mistérios. Ah sim, muitos mistérios.

Se o livro original ficasse por aqui, este seria certamente um dos melhores livros que já li na vida. Assim, vou avançar para a segunda parte com os dedos cruzados para que ele não me desiluda. O Medo do Homem Sábio está a ser uma leitura maravilhosa e Kvothe é um dos personagens mais desafiantes e incríveis que já tive a oportunidade de conhecer. Pena a edição portuguesa ser bem fraquinha a nível de capa e de material.

Avaliação: 9/10

Crónica do Regicida (1001 Mundos):

#1 O Nome do Vento

#2 O Medo do Homem Sábio Vol. 1

#3 O Medo do Homem Sábio Vol. 2

#4 Doors of Stone (não publicado)

Estive a Ler: As Águias de Roma #5

Armínio é o Cavalo de Tróia dos germanos! Está na altura de o perceberem!

O texto seguinte contém spoilers do quinto volume da série As Águias de Roma (formato BD)

Enrico Marini é um autor já bem conhecido pelos portugueses. Depois da publicação de Rapaces, A Estrela do Deserto ou O Escorpião, a Edições ASA apostou na série As Águias de Roma, uma emocionante história de guerra, irmandade e amor situada nos anos conturbados da Roma Antiga. O Livro V foi lançado em dezembro do ano passado.

Marco e Armínio foram criados como irmãos, instruídos na educação romana. Mas Armínio não é o seu nome verdadeiro. Ele é um germânico, adotado e protegido por um senhor romano. Como as runas predisseram, será Ermanamer – nome de nascença de Armínio – quem irá unir as tribos da Germânia e contribuir para a capitulação de Roma. Para isso, tem de desafiar o Império, as suas convicções e as suas promessas. Assim como o seu irmão de criação.

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Capa Edições ASA

O princípio do fim

Depois de várias tentativas de alertar Varo para as intenções de Armínio, todas elas goradas graças à confiança cega do governador no seu sequaz, Marco é confinado a um transporte para cativos, onde é obrigado a tolerar um companheiro de cela provocador. No caminho, encontra Priscilla, a sua amada, e faz o seu segurança prometer que a protege, assim como ao filho de ambos, do pesadelo que está para vir. Lépido, o esposo de Priscilla, enfrenta um Marco enclausurado, e percebe que o seu rival é o verdadeiro pai de Tito, o menino que pensava ser seu.

A tensão emerge nas fileiras romanas com o crescente poderio militar dos germânicos. Armínio move as suas peças e consegue o apoio de Segestes, o pai da sua amada Thusnelda, o que reforça a sua posição. As forças romanas são desbaratadas. Também a formação que acompanha a cela de Marco é atacada, e o romano vê aí uma oportunidade para fugir.

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Prancha Edições ASA

A vitória do lobo

O lobo e a águia digladiam-se mais uma vez, em termos metafóricos, tal como nas visões de Marco. Com bastante perícia, ele combate contra os germânicos e consegue escapar-se-lhes, ainda que a legião romana perca o embate. Marco corre para Varo com o relato do ocorrido.

O general guarda reservas em acreditar que Armínio o traiu, mas o relato de um outro sobrevivente, este sim de confiança, vem-lhe trazer a verdade amarga. Varo liberta Marco e ruge as suas ordens. Tardiamente. Ao descobrir que é filho de Marco, o pequeno Tito reage com horror e foge, mas o pai tudo faz para garantir a sua segurança. A investida de Armínio é letal. Ainda que Marco lute com valentia, o seu irmão de criação é um estratega militar sem igual, esmagando os exércitos romanos com a sua força de armas. As mortes de Varo e Lépido vêm, inevitavelmente, trazer mudanças na trama.

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Prancha Edições ASA
SINOPSE:

Prestes a atacar, o lobo mantêm-se até ao fim ao lado das Águias de Roma…. Quem poderia imaginar que Armínio, em quem o general romano tinha absoluta confiança, se havia tornado chefe de guerra dos Germanos? O que é certo é que a sua traição surtiu efeito: o exército romano é atacado por todos os lados e Marco, prisioneiro, vê-se completamente impotente. Por detrás das grades, ele não consegue nem combater o seu antigo irmão de sangue nem proteger Priscilla e o seu filho…

OPINIÃO:

Dinâmico e intenso, o enredo de As Águias de Roma continua a narrar os feitos inesquecíveis de Armínio, a história de uma traição que embaraçou o Império Romano. Pelas mãos de Enrico Marini, esta série é um marco na BD francófona recente e com razões para isso.

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Edições ASA

A história avança a bom ritmo. Simples e atraente, a narrativa de Marini envolve-nos numa sequência de ações de aparente casualidade que revelam não só uma fluidez de enredo como também a capacidade de contar histórias do autor franco-belga. A história não revela grandes novidades, mas consegue manter o leitor preso na vontade de saber o que se sucederá.

A arte de Marini tem na expressividade o seu maior destaque. Os desenhos são bem definidos e do que tenho visto em BD, poucos são os artistas contemporâneos que se lhe conseguem equiparar. A cor é outra da grande qualidade desta série. Não transmitindo “verdade”, transmite clareza, o que é, a bem dizer, o mais importante para o sucesso de um álbum gráfico.

Avaliação: 8/10

As Águias de Roma (Asa):

#1 Livro I

#2 Livro II

#3 Livro III

#4 Livro IV

#5 Livro V

Resumo Trimestral de Leituras #9

O primeiro trimestre do ano chegou ao fim e com ele chegou a altura de fazer o habitual balanço trimestral de leituras. De Ken Follett a Neil Gaiman, passando por Brandon Sanderson e George R. R. Martin, revisitei alguns dos meus escritores favoritos e ainda tive o prazer de iniciar a Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss. Vejam a lista de leituras dos meses de janeiro, fevereiro e março:

A Darkness Surrounds Him, Outcast #1 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

The Whisperer War, The Walking Dead #27 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

Inimigos – Anton Tchekov

Um Jogo de Ti, Sandman #5 – Neil Gaiman

Fábulas e Reflexões, Sandman #6 – Neil Gaiman

Um Mundo Sem Fim, Vol. 1 – Ken Follett

Um Mundo Sem Fim Vol. 2 – Ken Follett

Vidas Breves, Sandman #7 – Neil Gaiman

A Estalagem no Fim do Mundo, Sandman #8 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 1, Sandman #9 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 2, Sandman #10 – Neil Gaiman

A Vigília, Sandman #11 – Neil Gaiman

Warbreaker, Warbreaker #1 – Brandon Sanderson

La Dueña – J. A. Alves

Vidas Secretas de Homens Mortos, Velvet #2 – Ed Brubaker, Steve Epting e Elizabeth Breitweiser

Autoridade, Área X #2 – Jeff Vandermeer

O Cavaleiro de Westeros – George R. R. Martin

White Sand #1 – Brandon Sanderson

Terrarium – João Barreiros e Luís Filipe Silva

Príncipe dos Dragões, Elric #1 – Michael Moorcock

Loki – Robert Rodi e Esad Ribic

Assombrações Sem Fim, Harrow County #1 – Cullen Bunn e Tyler Crook

Saga #6 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Um Diamante Para o Além, Bouncer #1 – Alejandro Jodorowsky e François Boucq

O Nome do Vento, Crónica do Regicida #1 – Patrick Rothfuss

sem-tituloO ano iniciou-se com um desafio em mente: começar a série fantástica de Patrick Rothfuss e ler os dois volumes em português do famoso Mundo Sem Fim de Ken Follett. E não é que cumpri? Janeiro foi um mês rico em leitura de bandas-desenhadas. Comecei com o primeiro volume da BD Outcast de Robert Kirkman, o mesmo autor de The Walking Dead. A Darkness Surrounds Him apresenta Kyle Byrnes como protagonista, e uma narrativa sombria prenhe de possessões demoníacas e histórias de vida dramáticas e violentas. Muito diferente da história de mortos-vivos, a mais conhecida de Kirkman, agradou-me acima de tudo pela forma como toda a temática é explorada de forma fluída e misteriosa. Também li o mais recente volume de The Walking Dead, a edição 27. The Whisperer War mostrou ser apenas a primeira batalha entre as comunidades e os Sussurradores. O exército de Rick, liderado por Dwight e com Negan na linha da frente, vence o primeiro round. No entanto, Hilltop é completamente destruída e a muito custo Maggie, Carl, Aaron e Jesus conseguem derrotar os seus inimigos. Mais um volume genial, que tem direito ao “funeral” de Lucille.

sem-tituloAinda nos primeiros dias de janeiro li o conto de Anton Tchekov Inimigos, uma história tão curta que não achei necessidade de escrever uma opinião. Fala sobre Varka, uma jovem criada cuja tarefa de adormecer um bebé faz-lhe crescer uma intensa sensação de sonolência, que é incapaz de dominar. Li ainda, de uma assentada, o que faltava da coleção Sandman (Vol. 5, Vol. 6, Vol. 7, Vol. 8, Vol. 9, Vol. 10, Vol. 11) de Neil Gaiman, publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público. Entremeando histórias soltas com uma linha narrativa central, Gaiman soube tecer toda a narrativa nos últimos volumes, que trouxeram inúmeras reflexões e uma sensação de renovação e esperança ao leitor. Apesar disso, Sandman não me apaixonou em nenhum momento e, por muito mérito que tenha, soou-me muito a “eterna promessa” e a histórias vagas.

sem-tituloDividido em Portugal em dois volumes, o livro Um Mundo Sem Fim (Vol. 1 e Vol. 2) de Ken Follett agarrou-me desde o primeiro momento. Apesar de repetir a receita de Os Pilares da Terra, adorei tanto um como o outro. Histórias dramáticas de amor e superação, sobre religião, política, medicina e sobrevivência. Uma história de época que retrata o drama da Peste Negra e a Guerra dos Cem Anos. Warbreaker é um livro de Brandon Sanderson, o autor do momento no que diz respeito à literatura fantástica. Uma espada falante, cabelos que mudam de cor mediante as emoções, soldados mortos-vivos que são comandados através de palavras de ordem, a capacidade de dar vida a objetos inanimados e, principalmente, um panteão de deuses que está bem vivo e habita entre os demais. Original e muito bem escrita, esta obra de fantasia consegue também acumular bons momentos de humor e imensas reviravoltas.

sem-tituloComecei fevereiro com La Dueña: Devoradora de Homens. Da autoria de J. A. Alves, o autor de Batalha Entre Sistemas, La Dueña mostra todo o esplendor dos llanos venezuelanos e uma história tensa de superstições locais e pactos com o demónio. Chris viaja até à Venezuela com a noiva, Ana Clara, para conhecer a fazenda que herdou do seu tio Miguel, mas quando lá chega encanta-se por Yolanda, a dona da fazenda vizinha. Dizem que essa mulher rouba a alma de todos que por ela se apaixonam. Gostei imenso. Vidas Secretas de Homens Mortos, o segundo volume da graphic novel Velvet traz-nos o melhor da equipa composta por Ed Brubaker (argumento), Steve Epting (ilustração) e Elizabeth Breitweiser (cores). Uma história de espionagem tensa que prende desde o primeiro momento. Velvet é uma antiga espia que se vê atirada para o centro da ação quando o seu superior é assassinado. Neste segundo volume, ela tenta descobrir quem a tramou e porquê, depois de saber que o seu esposo não era quem ela pensava. Entre soltar um prisioneiro, fazer uma viagem de comboio alucinante e fugir a cães-pisteiros, Velvet passa por várias amarguras neste excelente segundo álbum da trilogia.

sem-tituloAutoridade é o segundo volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer. Se esta história que mistura o terror psicológico ao bizarro (o new weird fiction) me fascinou no primeiro volume ao mostrar in loco as experiências vividas por quatro exploradoras numa zona frondosa alegadamente contaminada, este segundo livro vai mais além ao apresentar-nos Control, o novo diretor da agência que as enviou, e é através dele – tão ingénuo quanto o leitor – que vamos descobrindo, nos escritórios da Extensão Sul, os terríveis segredos que a agência guarda sobre aquela região tenebrosa. Passado 100 anos antes da ação de A Guerra dos Tronos, O Cavaleiro de Westeros (versão conto de George R. R. Martin e BD com adaptação de Ben Avery e ilustrações de Mike S. Miller) narra a ação no Torneio de Vaufreixo durante o reinado de Daenor II. Sor Arlan de Pataqueira morre de uma gripe a caminho do torneio, e o seu escudeiro Dunk resolve disputá-lo. Para isso, terá de contar com a ajuda do pequeno Egg e provar ser um cavaleiro, o que o irá colocar no cerne de várias disputas e provocar uma tempestade no reinado então calmo dos Targaryen. Excelente conto muito bem escrito, enquanto a BD se destaca pelas ilustrações cativantes e coloridas.

sem-titulo-2White Sand é uma graphic novel da Dynamite Entertainment. Com argumento de Rik Hoskin, ilustrações de Julius Gopez e cores de Ross Campbell, trata-se da adaptação de uma obra não publicada de Brandon Sanderson, com base numa revisão do seu primeiro livro, ambientado no universo Cosmere. Na verdade, este volume inaugural corresponde ao primeiro terço do livro. Em Taldain, um planeta inamovível – metade vive de dia e metade de noite – conhecemos Kenton, um jovem Mestre de Areia que desafia o mundo com a sua teimosia e determinação, vendo-se arrastado para uma conspiração terrível que pode acabar com o seu povo. Apesar de ser uma obra pouco convincente a nível de credibilidade, gostei do álbum. E terminei o mês de fevereiro da melhor forma. Vinte anos depois da publicação original, a Saída de Emergência vem publicar uma versão Redux, melhorada e ampliada de Terrarium, considerado por muitos como o melhor romance de Ficção Científica português. João Barreiros e Luís Filipe Silva são os autores. Estamos num futuro não tão distante assim, em que os exóticos, várias espécies de seres extraterrestres, foram atirados para o nosso planeta por entidades superiores. Quem são as Potestades, os IXytil, e esse tal de Mr. Lux? Uma guerra entre espécies dominantes poderá ser resolvida por meros humanos? Carregado de um humor ácido e termos futuristas, Terrarium é um hino à FC, indispensável para todos os fãs do género em Portugal.

sem-tituloMarço teve também um início auspicioso. Príncipe dos Dragões é o primeiro volume de Elric, uma série de fantasia épica publicada em 1972 por Michael Moorcock. Simples em prosa e carregado de dilemas morais, Príncipe dos Dragões apresenta-nos um Império em declínio e um imperador doente, dependente de drogas para se manter forte. Melniboné é o seu domínio, abrigo de dragões e de homens terríveis. A tradição relata os melniboneanos como sádicos e perversos, mas Elric parece uma alma generosa e cortês, o que provoca chispas de ódio no seu primo Yyrkoon, que lhe pretende usurpar o trono. O braço de ferro entre Elric e Yyrkoon arrasta-se até às últimas consequências, com Cymoril, a amada de Elric, no vértice de um triângulo inconstante de amor familiar. Com argumento de Robert Rodi e ilustração de Esad Ribic, a BD Loki mostra uma outra face da história de Thor, focada no seu meio-irmão. De inspiração trágica e enaltecendo a decadência de Asgard através da queda de Odin e dos múltiplos dilemas do personagem-título, foi uma boa leitura que se destaca pelos coloridos e traços fortes.

Sem títuloPrimeiro volume de Harrow County, Assombrações Sem Fim apresenta a história desta povoação isolada no sul dos E.U.A., envolta em superstições e crendices. O povo recorria a Hester para se livrar dos seus problemas domésticos, mas quando a natureza se virou contra eles, depressa atiraram-lhe as culpas e condenaram-na à morte, sob a acusação de bruxaria. A mulher demorou a morrer e jurou regressar. Pouco tempo depois, uma criança surgiu naquele lugar fatídico. Uma brilhante BD de terror, escrita por Cullen Bunn e com arte de Tyler Crook. Brilhante álbum da série Saga, o quinto volume da space opera gráfica de Brian K. Vaughan e Fiona Staples traz uma linguagem crua e brutal, momentos de grande ritmo e ação entremeados por muito humor. A pequena Hazel começa a sua educação numa prisão galática, enquanto os pais procuram desesperadamente por ela. Vontade está de regresso, disposto a vingar a morte da irmã, e nem Gus o consegue parar. Provocante e irreverente, esta série da Image Comics está bem e recomenda-se.

sem-tituloUm Diamante Para o Além é o primeiro volume da série de BD Bouncer de Alejandro Jodorowsky e François Boucq. Publicado pelas Edições ASA em 2007, trata-se de um western subversivo, que narra de forma ficcional os acontecimentos que se sucederam à Guerra da Secessão nos E.U.A. O Capitão Raltan reúne os seus mercenários, que se recusaram a render após o final do conflito militar, espalhando o terror nos ranchos. Mas o que ele procura é um diamante, que roubara anos atrás. Na sua busca, assassina um antigo subordinado, provocando assim a atenção de um familiar daquele. Bouncer é um velho maneta, conhecido por resolver problemas de forma abrupta e imprevisível. Uma BD muito boa, da qual tinha grandes expectativas e não me surpreendeu tanto. E terminei março com O Nome do Vento. Primeiro volume da Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss, esta auto-biografia de um personagem fictício é brilhante. Desde a infância de Kvothe na trupe até aos seus estudos na Universidade, passando por várias privações como espancamentos, fome e dramas familiares, o personagem recorre à ardileza e ao poder da música para sobreviver. Somos apresentados a uma história única que fala sobre superação, música, ciência e amor. O mundo criado é original e misterioso, e os enigmas sobre o Chandrian, uma lenda que se revela real da pior forma, deliciosos. Cativante, fluído e profundo, este foi o livro que apresentou ao mundo a escrita maravilhosa de Patrick Rothfuss.

Depois deste início de ano excelente em leituras, estou a ler Poder e Vingança de Jon Skovron, o primeiro volume do Império das Tormentas, e deverei seguir com Robin Hobb, Mark Lawrence e Bernard Cornwell, pelo que o segundo semestre deve ser também ótimo. Por cá vou continuar a partilhar opiniões, espero que gostem.

Um Diamante Para o Além, Bouncer #1

Não se inquietem. Meus bravos! A providência dos confederados colocará um rancho no nosso trilho!…

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Um Diamante para o Além”, primeiro volume da série Bouncer (Formato BD)

Alejandro Jodorowsky é um argumentista chileno conhecido pela dureza dos mundos criados e pela crueza e ambiguidade das suas propostas. Temáticas como a violência, o sexo e a religião interligam-se de forma credível e amoral. Em colaboração com o ilustrador François Boucq, conhecido artista francês ligado à caricatura, Jodorowsky assina Bouncer, um western violento e taciturno que desmascara a truculência do Velho Oeste real.

A Edições Asa publicou este volume em 2007, dando assim visibilidade ao trabalho de Jodorowsky e Boucq no nosso país, oferecendo um western nu e cruel de tirar o fôlego ao mais preparado dos leitores.

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Capa Edições ASA

A Guerra da Secessão terminou

Mas o terror não. O Capitão Ralton aterroriza os ranchos, saqueando os “tesouros enterrados” e dando permissão aos seus homens para violentar as mulheres dos rancheiros. Mas ele tem um propósito específico e uma ideia em mente. Recuperar o Olho de Cain, um precioso diamante que roubara dezassete anos antes. Longe das cidades, a lei é imposta pelos mais fortes, não por forças de direito, mas por aqueles que arrancam a ferros o que julgam ser seu.

O grupo de Ralton Van Dorman é um exemplo dessa força. Eles são mercenários que se recusaram a render após o final da Guerra da Secessão. O batalhão espalhou-se, mas viria a reencontrar-se, tal como o capitão previra, numa força terrível que usa a intimidação como arma prioritária.

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Prancha (Norma Editorial – edição brasileira)

 

A justiça tem um nome

É no rancho de Blake, um dos seus antigos subordinados, que Ralton reencontra sinais do diamante perdido. Blake demonstra-se pouco recetivo ao velho capitão, principalmente quando este instiga os seus homens a violentar a sua esposa – uma índia – para que ele lhes diga onde escondeu o diamante. A reserva em revelar a sua localização traduz-se na morte de Blake e da esposa, cena a que assiste o jovem filho do casal, que se encontrava escondido.

O segredo em volta do diamante está relacionado à existência de uns revólveres extraordinários na posse de Blake. Na sua busca de justiça, o jovem filho do rancheiro viaja para a cidade. Ali encontra um familiar, homem de alguma idade, famoso por conseguir manter a ordem na vida de saloon com punho de ferro e métodos pouco ortodoxos. Bouncer é como lhe chamam. Um justiceiro sem um braço, um homem que sabe de coisas e resolve problemas de forma prática e improvável.

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Bouncer (Norma Editorial – edição brasileira)
SINOPSE:

Finda a guerra da Secessão, um punhado de mercenários sulistas recusa-se a aceitar a rendição. Entre eles conta-se Ralton Van Dorman, agora apostado em recuperar o fabuloso diamante – o olho de Caïn – que furtara, dezassete anos antes, em conluio com os irmãos e a mãe, Aunty Lola… Jodorowsky e Boucq, referências lendárias da BD francófona e co- autores de Face de Lua, reencontram-se agora num terreno que até então nunca haviam explorado em parceria: o Western. Dobrados os ciclos clássicos do género no panorama da BD franco-belga – Blueberry, Jonathan Cartland ou MacCoy – o Wild West que serve de décor a Bouncer assume agora contornos bem menos cordatos e joviais. O argumentista de Incal e o criador de Jérôme Moucherot aplicam-se em Bouncer num trepidante tropel narrativo para compor, a estilete e sangue, uma tragédia familiar de fôlego clássico, assombrada por espectros seculares e pulsões universais: a cobiça, a violência, a sede de vingança, a morte. Dinâmico e apurado na ilustração, ferozmente eficaz na fluência do enredo, sombrio e pesado na ambiência, Bouncer – Um Diamante para o Além promete renovar as premissas do género e chancelar a ferro e fogo o regresso da nona arte aos rincões inóspitos do Oeste americano.

OPINIÃO:

Jodorowsky e Boucq são dois nomes controversos e imprevisíveis, cuja união só podia traduzir-se numa obra pouco consensual, dona de um perfume único e de uma roupagem inigualável. Bouncer é um western realista e trágico, e Um Diamante para o Além é a primeira fagulha de uma narrativa intensa passada num cenário sem rei nem roque.

Retratando de forma credível um período histórico conturbado, Alejandro Jodorowsky fez jus à sua fama de contador de histórias polémico. Os personagens são sombrios e viscerais, quase nos convencendo de que existiram realmente. A tragédia que somos convidados a acompanhar realça uma míriade de sentimentos: a sede de justiça, o apelo do sangue, a líbido selvagem e a ambição desmedida.

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Pormenor da capa (Edições ASA)

Somos também apresentados a duas famílias fragmentadas, o que gera uma espécie de efeito de espelho. Uma inversão de vontades e de intenções, mas ainda assim dois seios familiares poderosos. De um lado, a família de Ralton, se intuirmos o grupo militar como tal, forjando uma promessa de reunião que se concretiza em circunstâncias hostis. E mesmo quando se reunem, nem todos comungam das mesmas perspetivas. Blake é o espelho, o ponto onde as duas famílias se tocam. Ele esteve com Ralton na guerra, mas agora tem a sua própria família, e é depois do incidente no rancho que os elementos que sobrevivem a este procuram saldar contas.

A arte de François Boucq é parte integrante da crueza de estilo que o argumento exigia. Real, duro e sem coloridos exagerados, ele oferece um western visual de grande qualidade, respeitando a tradição. O argumento de Jodorowsky não me encantou. Agradou-me a definição alternativa de herói, a fuga ao estereotipo e a promessa adjacente, assim como o timbre shakespeariano da narrativa. Todavia, acabei por achar todo o enredo um pouco expectável e não me surpreendeu tanto quanto gostaria, talvez por ter as expectativas demasiado altas. É, de qualquer forma, um livro ótimo para quem procura uma história realista passada no Velho Oeste.

Avaliação: 6/10

Bouncer (Edições ASA):

#1 Um Diamante para o Além

#2 A Misericórdia dos Algozes

#3 A Justiça das Serpentes

#4 A Vingança do Carrasco

#5 O Fascínio das Lobas

#6 + #7 A Viúva Negra | Coração Dividido