Resumo Trimestral de Leituras #9

O primeiro trimestre do ano chegou ao fim e com ele chegou a altura de fazer o habitual balanço trimestral de leituras. De Ken Follett a Neil Gaiman, passando por Brandon Sanderson e George R. R. Martin, revisitei alguns dos meus escritores favoritos e ainda tive o prazer de iniciar a Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss. Vejam a lista de leituras dos meses de janeiro, fevereiro e março:

A Darkness Surrounds Him, Outcast #1 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

The Whisperer War, The Walking Dead #27 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

Inimigos – Anton Tchekov

Um Jogo de Ti, Sandman #5 – Neil Gaiman

Fábulas e Reflexões, Sandman #6 – Neil Gaiman

Um Mundo Sem Fim, Vol. 1 – Ken Follett

Um Mundo Sem Fim Vol. 2 – Ken Follett

Vidas Breves, Sandman #7 – Neil Gaiman

A Estalagem no Fim do Mundo, Sandman #8 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 1, Sandman #9 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 2, Sandman #10 – Neil Gaiman

A Vigília, Sandman #11 – Neil Gaiman

Warbreaker, Warbreaker #1 – Brandon Sanderson

La Dueña – J. A. Alves

Vidas Secretas de Homens Mortos, Velvet #2 – Ed Brubaker, Steve Epting e Elizabeth Breitweiser

Autoridade, Área X #2 – Jeff Vandermeer

O Cavaleiro de Westeros – George R. R. Martin

White Sand #1 – Brandon Sanderson

Terrarium – João Barreiros e Luís Filipe Silva

Príncipe dos Dragões, Elric #1 – Michael Moorcock

Loki – Robert Rodi e Esad Ribic

Assombrações Sem Fim, Harrow County #1 – Cullen Bunn e Tyler Crook

Saga #6 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Um Diamante Para o Além, Bouncer #1 – Alejandro Jodorowsky e François Boucq

O Nome do Vento, Crónica do Regicida #1 – Patrick Rothfuss

sem-tituloO ano iniciou-se com um desafio em mente: começar a série fantástica de Patrick Rothfuss e ler os dois volumes em português do famoso Mundo Sem Fim de Ken Follett. E não é que cumpri? Janeiro foi um mês rico em leitura de bandas-desenhadas. Comecei com o primeiro volume da BD Outcast de Robert Kirkman, o mesmo autor de The Walking Dead. A Darkness Surrounds Him apresenta Kyle Byrnes como protagonista, e uma narrativa sombria prenhe de possessões demoníacas e histórias de vida dramáticas e violentas. Muito diferente da história de mortos-vivos, a mais conhecida de Kirkman, agradou-me acima de tudo pela forma como toda a temática é explorada de forma fluída e misteriosa. Também li o mais recente volume de The Walking Dead, a edição 27. The Whisperer War mostrou ser apenas a primeira batalha entre as comunidades e os Sussurradores. O exército de Rick, liderado por Dwight e com Negan na linha da frente, vence o primeiro round. No entanto, Hilltop é completamente destruída e a muito custo Maggie, Carl, Aaron e Jesus conseguem derrotar os seus inimigos. Mais um volume genial, que tem direito ao “funeral” de Lucille.

sem-tituloAinda nos primeiros dias de janeiro li o conto de Anton Tchekov Inimigos, uma história tão curta que não achei necessidade de escrever uma opinião. Fala sobre Varka, uma jovem criada cuja tarefa de adormecer um bebé faz-lhe crescer uma intensa sensação de sonolência, que é incapaz de dominar. Li ainda, de uma assentada, o que faltava da coleção Sandman (Vol. 5, Vol. 6, Vol. 7, Vol. 8, Vol. 9, Vol. 10, Vol. 11) de Neil Gaiman, publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público. Entremeando histórias soltas com uma linha narrativa central, Gaiman soube tecer toda a narrativa nos últimos volumes, que trouxeram inúmeras reflexões e uma sensação de renovação e esperança ao leitor. Apesar disso, Sandman não me apaixonou em nenhum momento e, por muito mérito que tenha, soou-me muito a “eterna promessa” e a histórias vagas.

sem-tituloDividido em Portugal em dois volumes, o livro Um Mundo Sem Fim (Vol. 1 e Vol. 2) de Ken Follett agarrou-me desde o primeiro momento. Apesar de repetir a receita de Os Pilares da Terra, adorei tanto um como o outro. Histórias dramáticas de amor e superação, sobre religião, política, medicina e sobrevivência. Uma história de época que retrata o drama da Peste Negra e a Guerra dos Cem Anos. Warbreaker é um livro de Brandon Sanderson, o autor do momento no que diz respeito à literatura fantástica. Uma espada falante, cabelos que mudam de cor mediante as emoções, soldados mortos-vivos que são comandados através de palavras de ordem, a capacidade de dar vida a objetos inanimados e, principalmente, um panteão de deuses que está bem vivo e habita entre os demais. Original e muito bem escrita, esta obra de fantasia consegue também acumular bons momentos de humor e imensas reviravoltas.

sem-tituloComecei fevereiro com La Dueña: Devoradora de Homens. Da autoria de J. A. Alves, o autor de Batalha Entre Sistemas, La Dueña mostra todo o esplendor dos llanos venezuelanos e uma história tensa de superstições locais e pactos com o demónio. Chris viaja até à Venezuela com a noiva, Ana Clara, para conhecer a fazenda que herdou do seu tio Miguel, mas quando lá chega encanta-se por Yolanda, a dona da fazenda vizinha. Dizem que essa mulher rouba a alma de todos que por ela se apaixonam. Gostei imenso. Vidas Secretas de Homens Mortos, o segundo volume da graphic novel Velvet traz-nos o melhor da equipa composta por Ed Brubaker (argumento), Steve Epting (ilustração) e Elizabeth Breitweiser (cores). Uma história de espionagem tensa que prende desde o primeiro momento. Velvet é uma antiga espia que se vê atirada para o centro da ação quando o seu superior é assassinado. Neste segundo volume, ela tenta descobrir quem a tramou e porquê, depois de saber que o seu esposo não era quem ela pensava. Entre soltar um prisioneiro, fazer uma viagem de comboio alucinante e fugir a cães-pisteiros, Velvet passa por várias amarguras neste excelente segundo álbum da trilogia.

sem-tituloAutoridade é o segundo volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer. Se esta história que mistura o terror psicológico ao bizarro (o new weird fiction) me fascinou no primeiro volume ao mostrar in loco as experiências vividas por quatro exploradoras numa zona frondosa alegadamente contaminada, este segundo livro vai mais além ao apresentar-nos Control, o novo diretor da agência que as enviou, e é através dele – tão ingénuo quanto o leitor – que vamos descobrindo, nos escritórios da Extensão Sul, os terríveis segredos que a agência guarda sobre aquela região tenebrosa. Passado 100 anos antes da ação de A Guerra dos Tronos, O Cavaleiro de Westeros (versão conto de George R. R. Martin e BD com adaptação de Ben Avery e ilustrações de Mike S. Miller) narra a ação no Torneio de Vaufreixo durante o reinado de Daenor II. Sor Arlan de Pataqueira morre de uma gripe a caminho do torneio, e o seu escudeiro Dunk resolve disputá-lo. Para isso, terá de contar com a ajuda do pequeno Egg e provar ser um cavaleiro, o que o irá colocar no cerne de várias disputas e provocar uma tempestade no reinado então calmo dos Targaryen. Excelente conto muito bem escrito, enquanto a BD se destaca pelas ilustrações cativantes e coloridas.

sem-titulo-2White Sand é uma graphic novel da Dynamite Entertainment. Com argumento de Rik Hoskin, ilustrações de Julius Gopez e cores de Ross Campbell, trata-se da adaptação de uma obra não publicada de Brandon Sanderson, com base numa revisão do seu primeiro livro, ambientado no universo Cosmere. Na verdade, este volume inaugural corresponde ao primeiro terço do livro. Em Taldain, um planeta inamovível – metade vive de dia e metade de noite – conhecemos Kenton, um jovem Mestre de Areia que desafia o mundo com a sua teimosia e determinação, vendo-se arrastado para uma conspiração terrível que pode acabar com o seu povo. Apesar de ser uma obra pouco convincente a nível de credibilidade, gostei do álbum. E terminei o mês de fevereiro da melhor forma. Vinte anos depois da publicação original, a Saída de Emergência vem publicar uma versão Redux, melhorada e ampliada de Terrarium, considerado por muitos como o melhor romance de Ficção Científica português. João Barreiros e Luís Filipe Silva são os autores. Estamos num futuro não tão distante assim, em que os exóticos, várias espécies de seres extraterrestres, foram atirados para o nosso planeta por entidades superiores. Quem são as Potestades, os IXytil, e esse tal de Mr. Lux? Uma guerra entre espécies dominantes poderá ser resolvida por meros humanos? Carregado de um humor ácido e termos futuristas, Terrarium é um hino à FC, indispensável para todos os fãs do género em Portugal.

sem-tituloMarço teve também um início auspicioso. Príncipe dos Dragões é o primeiro volume de Elric, uma série de fantasia épica publicada em 1972 por Michael Moorcock. Simples em prosa e carregado de dilemas morais, Príncipe dos Dragões apresenta-nos um Império em declínio e um imperador doente, dependente de drogas para se manter forte. Melniboné é o seu domínio, abrigo de dragões e de homens terríveis. A tradição relata os melniboneanos como sádicos e perversos, mas Elric parece uma alma generosa e cortês, o que provoca chispas de ódio no seu primo Yyrkoon, que lhe pretende usurpar o trono. O braço de ferro entre Elric e Yyrkoon arrasta-se até às últimas consequências, com Cymoril, a amada de Elric, no vértice de um triângulo inconstante de amor familiar. Com argumento de Robert Rodi e ilustração de Esad Ribic, a BD Loki mostra uma outra face da história de Thor, focada no seu meio-irmão. De inspiração trágica e enaltecendo a decadência de Asgard através da queda de Odin e dos múltiplos dilemas do personagem-título, foi uma boa leitura que se destaca pelos coloridos e traços fortes.

Sem títuloPrimeiro volume de Harrow County, Assombrações Sem Fim apresenta a história desta povoação isolada no sul dos E.U.A., envolta em superstições e crendices. O povo recorria a Hester para se livrar dos seus problemas domésticos, mas quando a natureza se virou contra eles, depressa atiraram-lhe as culpas e condenaram-na à morte, sob a acusação de bruxaria. A mulher demorou a morrer e jurou regressar. Pouco tempo depois, uma criança surgiu naquele lugar fatídico. Uma brilhante BD de terror, escrita por Cullen Bunn e com arte de Tyler Crook. Brilhante álbum da série Saga, o quinto volume da space opera gráfica de Brian K. Vaughan e Fiona Staples traz uma linguagem crua e brutal, momentos de grande ritmo e ação entremeados por muito humor. A pequena Hazel começa a sua educação numa prisão galática, enquanto os pais procuram desesperadamente por ela. Vontade está de regresso, disposto a vingar a morte da irmã, e nem Gus o consegue parar. Provocante e irreverente, esta série da Image Comics está bem e recomenda-se.

sem-tituloUm Diamante Para o Além é o primeiro volume da série de BD Bouncer de Alejandro Jodorowsky e François Boucq. Publicado pelas Edições ASA em 2007, trata-se de um western subversivo, que narra de forma ficcional os acontecimentos que se sucederam à Guerra da Secessão nos E.U.A. O Capitão Raltan reúne os seus mercenários, que se recusaram a render após o final do conflito militar, espalhando o terror nos ranchos. Mas o que ele procura é um diamante, que roubara anos atrás. Na sua busca, assassina um antigo subordinado, provocando assim a atenção de um familiar daquele. Bouncer é um velho maneta, conhecido por resolver problemas de forma abrupta e imprevisível. Uma BD muito boa, da qual tinha grandes expectativas e não me surpreendeu tanto. E terminei março com O Nome do Vento. Primeiro volume da Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss, esta auto-biografia de um personagem fictício é brilhante. Desde a infância de Kvothe na trupe até aos seus estudos na Universidade, passando por várias privações como espancamentos, fome e dramas familiares, o personagem recorre à ardileza e ao poder da música para sobreviver. Somos apresentados a uma história única que fala sobre superação, música, ciência e amor. O mundo criado é original e misterioso, e os enigmas sobre o Chandrian, uma lenda que se revela real da pior forma, deliciosos. Cativante, fluído e profundo, este foi o livro que apresentou ao mundo a escrita maravilhosa de Patrick Rothfuss.

Depois deste início de ano excelente em leituras, estou a ler Poder e Vingança de Jon Skovron, o primeiro volume do Império das Tormentas, e deverei seguir com Robin Hobb, Mark Lawrence e Bernard Cornwell, pelo que o segundo semestre deve ser também ótimo. Por cá vou continuar a partilhar opiniões, espero que gostem.

Especial: 10 Motivos Para Ler as Crónicas de Gelo e Fogo

Todos sabemos que as Crónicas de Gelo e Fogo são uma das sagas de fantasia mais conhecidas em todo o mundo, laureada pelos fãs do género. Empolado pela adaptação televisiva, a série Game of Thrones, o trabalho mais conhecido do autor George R. R. Martin é tema de estudos, rico em merchandising e, para além de ter inspirado milhares de escritores, é também utilizado como chamariz para lançar livros de economia, receitas gastronómicas ou documentários históricos. Um mundo fantástico envolvente e apaixonante, credível e real, que trouxe milhões de leitores para a ficção especulativa e devolveu a popularidade às histórias medievais.

Ainda assim, há um vasto público que nunca leu os livros, ora porque julgam que a série da HBO lhes conta toda a história, ora porque se sentem constrangidos pelo estigma erróneo de que a fantasia é um género menor, destinado para crianças e adolescentes, sem qualquer tipo de riqueza literária. É este um dos principais motivos pela falta de público literário no género fantástico. A maioria dos livros de fantasia atualmente são destinados ao público adulto, e este público continua a julgar que eles são para adolescentes.

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Trono de Ferro (Marc Simonetti)

Se queres fugir a este preconceito e descobrir prosas maravilhosas e temas tão envolventes como política, filosofia e relações humanas em mundos ficcionais, tens agora uma boa oportunidade para o fazer. A Edições Saída de Emergência está com uma campanha que não vais querer perder, válida até 9 de abril: 40% de desconto em livros da Coleção Bang!, como podes ver nesta página. Neste catálogo encontram-se livros como O Império Final, O Poço da Ascensão e O Herói das Eras (cujas opiniões podes ver aqui, aqui e aqui) de Brandon Sanderson ou as séries Acácia de David Anthony Durkham e O Mago de Raymond E. Feist. O Castelo de Gormenghast de Mervyn Peake e alguns volumes da obra completa de Lovecraft também estão disponíveis.

De George R. R. Martin, o autor das Crónicas de Gelo e Fogo, estão incluídos na promoção os livros Histórias dos Sete Reinos, A Ironia e Sabedoria de Tyrion Lannister, Windhaven e O Dragão de Inverno e Outras Histórias. No entanto, se queres iniciar a fantástica descoberta dos Sete Reinos, deves iniciar-te com as Crónicas de Gelo e Fogo, publicado em Portugal em 10 volumes até agora.

O NDZ dá-te 10 motivos para leres as Crónicas de Gelo e Fogo:

UM MUNDO QUASE REAL

Estávamos em 2011 quando as primeiras imagens promocionais de Game of Thrones ficaram disponíveis na imprensa e assisti a uma entrevista de George R. R. Martin, com vários separadores alusivos à série da HBO. A envolvente escura e a alusão a corvos e a batalhas aliciou-me de imediato. Um mundo fictício com Sean Bean como protagonista remeteu-me ao Senhor dos Anéis, a única fantasia que até então me havia arrebatado no grande ecrã e a única trilogia literária no género que me tinha apaixonado.

A frase chave de um artigo, que qualificava a série como “o Padrinho na Terra Média” foi o que me conduziu à série, e desde então comecei a segui-la. O caráter fanfarrão do personagem Robert Baratheon de Mark Addy e a crueldade do mundo – que fazia a série parecer ser passada na Idade Média não fossem as estações do ano durarem anos – foram as únicas coisas de que gostei realmente. Só nos últimos episódios da temporada fiquei preso. E isso coincidiu com o início da leitura dos livros.

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Mark Addy é Robert Baratheon (HBO)

É preciso perceber que estamos a falar de coisas bem diferentes. A série apresenta-nos tons cinzentos, desesperança e corrupção. Os livros dão destaque ao passado glorioso das nações, e embora possa dizer que a série é uma boa adaptação e todos esses cenários escuros estejam presentes, os livros trazem mais força, esperança e colorido, tendo nos dourados um poder que pouco se verifica nas temporadas iniciais do produto televisivo. A série literária foca-se na profundidade dos seus personagens e na memória coletiva, nos feitos terríveis e gloriosos dos antepassados, apresentando os conflitos políticos como algo decorrente do mundo extremamente bem criado e não o foco que a série apresenta, na tradição de outros filhos da produtora, como a extraordinária Rome.

Na minha opinião, se ambos são bons, os livros são superiores, porque incluem o que a série apresenta e muito mais. O mundo é extremamente plausível, mas em nenhum momento deixa de ser um mundo fantástico. Westeros e Essos vão revelando sinais claros de fantasia, quer através dos exércitos de mortos-vivos do outro lado da Muralha de Gelo, quer através das feitiçarias dos sacerdotes vermelhos, que podem executar proezas como a ressurreição, seguindo um código muito restrito que torna a magia em si algo raro neste mundo crível.

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Combate com White Walker (Fallonart em gameofthronesfanart)
PERSONAGENS MEMORÁVEIS

Se a adaptação televisiva contribuiu e muito para a popularidade do mundo, o mesmo se pode dizer dos personagens. Mesmo entre aqueles que não seguem a série, poucos são os que não sabem quem é Jon Snow, Daenerys Targaryen ou Tyrion Lannister. A popularidade destes personagens é tanta, que existe uma grande procura por figuras coleccionáveis, produzida por marcas de tradição no ramo.

A índole dos personagens é duvidosa. Se a série de tv nos apresenta pela rama alguns personagens importantes, os livros seguem o percurso de todos eles de forma categórica e profunda, fazendo-nos conhecer os seus medos e segredos, e até conhecer os feitos dos seus antepassados de uma forma apaixonante sem descurar qualquer detalhe.

Outro pormenor curioso, é que personagens apresentados na série como adultos, como Jon, Dany ou Robb, são descritos nos livros como meras crianças de 13, 14 anos, vindo a crescer lentamente no decorrer das aventuras. Daí que o ritual de matrimónio de Daenerys com Khal Drogo na série não pareça tão censurável quanto ele é descrito nas Crónicas. Cão de Caça, Davos Seaworth e Stannis Baratheon são personagens de grande profundidade nos livros, ombreando com Jorah Mormont e Melisandre na minha lista de preferidos. De destacar que vários personagens de relevo na trama foram afastados da série de tv, como Victarion Greyjoy, Arianne Martell ou Belwas, o Forte. Todos eles personagens incríveis.

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Arianne Martell e Arys Oakheart (pinterest)
UMA ESCRITA ENVOLVENTE

George R. R. Martin oferece nos seus livros sensações que a série não pode oferecer. Ímpar em descrição, Martin consegue incluir num só capítulo dezenas de nomes que nunca lemos sem que a leitura fique demasiado cansativa. Os seus capítulos ocorrem sob o ponto de vista de um personagem, fazendo-nos sentir as suas emoções, dúvidas e receios. É uma escrita elegante e apaixonante, crua e madura, dona de um vocabulário rico e de uma capacidade de envolvência rara.

Os diálogos são outro dos pontos fortes do autor. Sendo a maioria dos personagens opulentos em astúcia e arrogância, é comum o recurso ao sarcasmo e à metáfora no decorrer das conversas. Os duplos sentidos são uma constante com este autor, que usa e abusa da inversão e do imprevisível para surtir o efeito surpresa no leitor. Vários segredos encontram-se escondidos nas entrelinhas, o que contribuiu grandemente para todo o hype junto dos leitores. As teorias são muitas, e todas elas provocadas pelo senso subversivo da escrita de Martin, que já ensinou aos seus leitores que nada é colocado ali por acaso.

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Batalha do Tridente (Benden Nett em pinterest)
UMA IMAGINAÇÃO EXTRAORDINÁRIA

O dialeto dothraki, por exemplo, foi uma invenção exclusiva da série por David J. Peterson, embora George R. R. Martin tenha criado várias palavras que serviram de base a essa criação. Termos como khal, vaes dothrak, entre os dothraki, ou valar dohaeris, termo valiriano, são recorrentemente citados nos livros.

A imaginação de George R. R. Martin é de louvar. Ele criou dois continentes: Westeros, inspirado na Inglaterra medieval, e Essos, uma mistura de Ásia com a África da Antiguidade. Num lado sentimos frio com os protagonistas, nos Sete Reinos governados pelos Baratheon no início da saga, no outro calor sob grilhetas, caminhando descalços pelos desertos num regime aberto de escravatura.

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Daenerys Targaryen (team-daenerys em tumblr)

Westeros é um continente cinzento e cruel, cujo modo de vida assenta grandemente na forja de alianças entre casas. Porto Real é a capital, uma cidade portuária de grande envergadura que se estabeleceu como sede do poder nos Sete Reinos desde que os Targaryen ali se estabeleceram. A família real de George R. R. Martin recebeu grande inspiração dos melniboneanos de Michael Moorcock, embora a tradição incestuosa dos Targaryen beba também da nossa História, muito concretamente à Dinastia Ptolomaica que vigorou no Egito.

Uma traição terrível, conjurada entre os Baratheon e os Lannister, veio oferecer o trono aos Baratheon. Os Targaryen reduziram-se assim a duas crianças que foram levadas em segredo até ao outro lado do Mar Estreito, o continente de Essos. Ali, aparte as Cidades Livres, o esclavagismo vigora há muito, seguindo a tradição valiriana. É a remanescente Targaryen, Daenerys, uma adolescente cheia de sonhos e de bondade no coração, quem coleta exércitos à sua volta, alicerçada pelo mito que se criou a seu respeito aquando do milagre que a fez despertar três dragões dos seus ovos, para trazer justiça ao mundo. É, no entanto, como Martin transparece, uma rapariguinha que pouco sabe da vida, indecisa e muitas vezes questionável, ao contrário da mulher segura e badass que a série impõe de forma menos realista.

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Cena de Crónicas de Gelo e Fogo (keywordhut)
UMA CRÍTICA POLÍTICA E SOCIAL

Se há algo que Martin não deixa para outros, é colocar o dedo nas feridas da sociedade. A hipocrisia dos homens é frequentemente posta em discussão, e não são poucas as vezes em que os personagens cedem à facilidade da corrupção, através de propostas que lhe são vantajosas, abrindo as cancelas aos desígnios de outros de forma menos legal, ora através de contrapartidas sujas e alianças vis. O célebre “uma mão lava a outra” é usado por Martin por inúmeras vezes, fazendo destas Crónicas de Gelo e Fogo um grande jogo político mas principalmente um jogo azedo, pejado de injustiças e de crueldades, de interesses pessoais que ultrapassam os interesses do todo e de ações mesquinhas intermináveis.

Com uma mensagem clara no que diz respeito à crítica política e social, George R. R. Martin mostra o sofrimento do povo através dos personagens mais inóquos. Os bons não param de sofrer. Mas os perversos também provam do seu veneno. Um reflexo da realidade, as Crónicas de Gelo e Fogo mostram que ninguém escapa impune às crueldades da vida.

Para a Muralha de Gelo que separa os Sete Reinos das terras geladas, são mandados tanto os criminosos que procuram espiar os seus pecados, como os filhos bastardos, já considerados perjuros à nascença. Ali são “convidados” a representar a Patrulha da Noite, uma força militar que defende o mundo civilizado de hordas selvagens, embora o verdadeiro inimigo, que se tornou meramente lendário com o passar dos tempos, sejam os Outros, um mal muito antigo aparentemente adormecido. O ostracismo nas Crónicas representa claramente o preconceito da sociedade.

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Senhora Coração de Pedra (LynxFelidae em tumblr)
ÁRVORES GENEALÓGICAS INTERMINÁVEIS

A série só revela uma pequena amostra das ramificações imensas existentes no mundo de Gelo e Fogo. Se as árvores genealógicas dos Targaryen e dos Stark são as que mais importância têm na trama, devido aos feitos perpetrados pelos antepassados, determinantes no desenvolvimento da narrativa, existem outras famílias de grande peso histórico. Um dos personagens de grande envolvimento é Jorah Mormont, um westerosi exilado em Essos após um crime denunciado por Ned Stark.

Jorah viria a ser importante na trama por funcionar como conselheiro de Daenerys, por quem é apaixonado, mas se na série de tv não é fácil nem inicial a perceção de que estamos a falar do filho do Senhor Comandante da Patrulha da Noite, nos livros essa associação é mais flagrante, não só pelo apelido compartilhado. E se a linha genealógica Targaryen é a espinha dorsal da história, uma vez que o primeiro Targaryen a reinar Westeros chegou ali pousado num dragão, vindo da Valíria, dando origem a uma nova era e a um novo calendário, também os passados de Stark e Baratheon têm importância por aquilo que os une.

Os Stark reinaram no Norte, construíram monumentos imponentes até se ajoelharem aos Targaryen, enquanto os Baratheon, como uma ramificação bastarda da família real, viriam a entrar em conflito com esta quando Robert, apaixonado pela irmã de Ned, comprou uma guerra a Rhaegar Targaryen, com quem ela vivia um romance digno de canções. Esse conflito viria a despoletar a guerra sangrenta que resultaria na deposição dos Targaryen. Nessa peleja, também é de destacar Ned Stark como um dos lealistas da causa Baratheon, denunciando Jaime Lannister ao encontrá-lo sentado no Trono de Ferro quando matou o rei Aerys, e revelando um papel crucial na invasão das Ilhas de Ferro, onde tomou Theon Greyjoy como seu protegido, uma espécie de refém que garantia controle sobre a Casa que governava as ilhas. Vários comportamentos que incutiram uma opinião negativa sobre Stark, um homem honrado que apostou no cavalo errado.

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Stannis Baratheon como Azor Ahai (Jack Kaiser em tumblr)
ACONTECIMENTOS IMPREVISÍVEIS E PLOT-TWISTS

Pode-se considerar que os livros A Tormenta de Espadas e A Glória dos Traidores (Storm of Swords no original) são os mais cheios de acontecimentos inesperados e reviravoltas. A morte de personagens capitais, personagens principais e vilões, é de grande importância para o desenvolvimento da trama. O Casamento Vermelho é descrito por muitos como o acontecimento mais trágico da saga, e embora as diferenças entre o que acontece nos livros e na série sejam gritantes, ambos constituíram momentos de cortar a respiração para os fãs fervorosos do mundo de Gelo e Fogo.

Tyrion Lannister é um dos personagens fulcrais da história. Para além da sua língua afiada, este anão mordaz com um olho de cada cor, irmão da rainha, sofre os maiores preconceitos ao longo da narrativa. De um homem estigmatizado pelo mundo, ridicularizado pela própria família por conta das deformidades físicas e pelo mundo também pela Casa de tradições cruéis que representa, Tyrion Lannister tranforma-se num herói improvável. Ele é o Monstro que se vê casado com a donzela frágil, mas como esta história não é um conto de fadas, nem eles se amam, nem estão destinados a ficar juntos. Ele é o Corcunda de NotreDamme que se vê impelido a ajudar a menina, mesmo sabendo que ela nunca o amará. Mais do que isso, Tyrion é um génio político, que tem neste volume a sua revanche, mas uma transformação a nível de percurso que o conduzirá para longe de casa, claro está, com rameiras e vinho em mente.

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Os Lannister (Giacobino)
UMA MITOLOGIA SEM FIM

Dragões, mortos-vivos de gelo, troca-peles e afins são ingredientes que colocam as Crónicas de Gelo e Fogo num patamar de excelência dentro do género fantástico. Mas o que os torna realmente incríveis é que eles são raros no mundo em que estão inseridos, um mundo consistente e cruel. Se alguns anciãos, como a Velha Ama, descortinam fragmentos dessas criaturas do passado que podem estar bem vivas e escondidas no presente, a mitologia é apresentada pelas crenças das civilizações construídas de raiz.

Em Westeros, o culto aos Sete Deuses levou à criação de septos (as igrejas dedicadas aos Sete) e de septões (os padres). A Fé dos Sete reverencia o Pai, que representa o julgamento, a Mãe, dedicada à maternidade e à piedade, o Guerreiro, que oferece força em combate, a Donzela, representante da castidade e da inocência, o Ferreiro para os mesteres, a Velha para a sabedoria e o Estranho, que representa a morte e o desconhecido. Esta é a religião em voga nos Sete Reinos, exceto nas Ilhas de Ferro, onde se pratica o culto ao Deus Afogado, e no Norte, onde ainda se reverenciam os deuses antigos.

Em Essos a religião predominante é a que presta culto a R’hllor, o Senhor da Luz, conhecido como Deus Vermelho em Westeros. O seu símbolo é um coração flamejante, e a sua adoção por algumas figuras de poder em Westeros vem dar uma cobertura de guerra santa à Guerra dos Cinco Reis pelo Trono de Ferro.

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Ramsay Bolton (Aldo Katayanagi)
INFLUÊNCIAS LITERÁRIAS DE VULTO

Muito embora as Crónicas de Gelo e Fogo sejam sobejamente elogiadas pela ousadia e originalidade, pode-se dizer que apenas a forma como é abordada é original. A maioria dos personagens e tramas foram inspiradas por outras obras de destaque no género fantástico. Se já referi Moorcock como influência para os Targaryen, principalmente no que diz respeito às características físicas e passado grandioso, também posso estabelecer um paralelismo entre Tyrion Lannister e Elric. São duas figuras de poder, cada uma a seu jeito, que revelam grandes dilemas morais ao longo da sua jornada. São também vítimas da mesquinhez daqueles que os circundam e podemos somar a tudo isso as debilidades físicas. Se Tyrion é um anão feio, Elric de Melniboné é fraco e débil, recorrendo frequentemente a drogas para se manter enérgico. Pelo menos, até encontrar a espada Tormentífera, que pode ter sido também inspiração para a lendária Luminífera das Crónicas.

Os sacrifícios em nome de um Deus Vermelho, a existência de criaturas terríveis no Norte, que supostamente já teriam sido abolidas da face do mundo e a profecia de um inverno cruel, somados a uma menina que se disfarça de rapaz na sua fuga e a uma estrela com cauda nos céus que prenuncia mudanças, são​ elementos que Martin roubou a Tad Williams e à sua obra Memory, Sorrow and Thorn. Já a relação de amizade de Jon Snow com Sam, Pyp e Grenn é muito familiar se nos lembrarmos da obra do excelso senhor Tolkien e dos seus queridos hobbits. Os amigos de Frodo, Samwyse, Pippin e Merry partilham os nomes e a amizade juvenil.

A mitologia lovecraftiana de Ctulhu está também evidente nas crenças em redor do Deus Afogado nas Ilhas de Ferro. Várias Casas são também homenagem a autores dos quais George R. R. Martin é fã. São elas a Casa Vance (Jack Vance), a Casa Rogers (Roger Zelazny), a Casa Peake (Mervyn Peake), a Casa Costayne (Thomas B. Costain) e a Casa Jordayne (Robert Jordan), por exemplo. O Castelo dos Jordayne é o Tor, em homenagem à editora que publicou os livros de Jordan, e o seu senhor é Trebor, a inversão de Robert.

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Khal Drogo (Magali Villeneuve)
INFLUÊNCIAS REAIS

São imensas as influências na nossa História para as Crónicas de Gelo e Fogo. Não me refiro somente às inspirações para dar forma aos continentes e civilizações apresentados. A própria Guerra dos Cinco Reis foi inspirada pela Guerra das Rosas que dividiu o Reino Unido. Cersei Lannister é comummente comparada a Marguerite D’Anjou e a Elizabeth Woodville. Ambas tiveram papéis de destaque na Guerra das Rosas, ao colocarem mãos à obra para chegarem ao poder.

As características marcantes da sua fisionomia e o passado inglório fazem com que Daenerys Targaryen seja comparada a Elizabeth I, embora eu tenha mais tendência em compará-la a Cleópatra VII Philopator. A rainha do Egito era uma força da natureza que governou uma nação com garra, algo difícil de ver numa mulher na Antiguidade, o que estabelece um paralelismo com a heróina de Martin. Stannis Baratheon também é comparado a Constantino, que trouxe uma nova fé para a Europa, e a Antiga Valíria a Roma, um império caído. O triarca Horonno em Volantis é uma clara referência ao célebre romano Júlio César.

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Os Stark (Mathia Arkoniel)

Esta saga, porém, não possui apenas qualidades. O facto de serem muitos livros e de a série ainda não estar terminada – e possivelmente nem vir a ser – pode roubar-lhe público, mas ainda assim parece-me uma leitura obrigatória para os fãs do género. Com este artigo espero ter convencido os indecisos e até levar os que já leram a voltar a revisitar este mundo fantástico e empolgante.

TAG – Carnaval Literário

Boa tarde! Hoje trago-vos uma TAG literária propícia à quadra. É a TAG – Carnaval Literário e e todos estão convidados a fazer a sua. Vamos ver o que me vai calhar. :p

#1 O melhor carro alegórico

Um livro que todos adoraram, tu estavas com medo de ler e acabaste por cair no hype

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O Império Final é, definitivamente, um livro que eu tinha a certeza que ia odiar antes de ler. Felizmente Brandon Sanderson trocou-me as voltas e embora Mistborn tenha as suas falhas, é uma saga que recomendo a todos os amantes de boa fantasia.

#2 A vida são dois dias, mas o Carnaval são três

Um livro que lias, lias, lias, e parecia nunca mais acabar

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O quarto livro da Saga do Assassino de Robin Hobb, A Vingança do Assassino, foi uma verdadeira indigestão. Sequências lentas repetiram-se umas atrás das outras, e apesar de não ter desgostado do livro no seu todo (e confesso já ter saudades da saga), foi um volume de tamanho médio que demorei muito tempo a ler.

#3 Camarote VIP

Um livro que leste antes de virar moda

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Bem, não posso dizer que fui um pioneiro na leitura de A Guerra dos Tronos (nem pouco mais ou menos), mas li-o mal saiu a primeira temporada da série de televisão e o hype ainda não era nada comparado ao que se tornou.

#4 Atrás da multidão

Um livro que “toda a gente leu” e tu ainda não

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A par das séries de Peter V. Brett e Robert Jordan, Crónicas do Regicida de Patrick Rothfuss é uma das mais famosas que ainda não tive o privilégio de ler. Apesar de já ter lido um conto de Rothfuss que não me convenceu, espero que este seja o ano em que finalmente leia O Nome do Vento.

#5 Loucura Total

Um livro que todos te aconselharam e… não gostaste

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Sandman, de Neil Gaiman, é uma das obras mais consensuais dentro do universo das bandas-desenhadas. Apesar de não ter gostado do primeiro volume, Prelúdios e Nocturnos, insisti na leitura e li toda a série. Não conseguiu agradar-me por aí além em nenhum momento, mas reconheço o seu mérito.

#6 Terça-Feira é o último dia

Um livro que chegou ao fim, mas querias que não acabasse ali

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Sem dúvida um dos meus livros preferidos de sempre, República de Ladrões de Scott Lynch não conseguiu atingir o patamar de excelência do primeiro volume da sua série, As Mentiras de Locke Lamora, mas ainda assim deixou-me com aquele gostinho de “quero mais” pela chuva de expectativas que o final deixa para o quarto volume.

#7 Depois do Carnaval, a ressaca

O livro que te deixou com a maior ressaca literária

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O último livro das Crónicas de Gelo e Fogo. Pois é, senhor Martin. Temos muito que falar. Deixar os leitores anos e anos à espera para saber o que aconteceu, quando os protagonistas da saga estavam em situações críticas, é mau demais. Os Reinos do Caos deixou-me de ressaca até hoje.

Sintam-se à vontade para participar e responder à TAG – Carnaval Literário.

O Cavaleiro de Westeros

Tinha medo de dragões, porque viu o animal do tio devorar a sua mãe.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Cavaleiro de Westeros” (Formato conto e BD)

George R. R. Martin é um nome que dispensa apresentações. Um dos melhores autores de ficção especulativa da atualidade, o criador das Crónicas de Gelo e Fogo é uma das maiores apostas da Edições Saída de Emergência no segmento literatura fantástica, e não obstante o seu período sabático em termos de publicações, todos os pretextos são bons para ler e reler os seus livros.

Conhecido por matar protagonistas a esmo, George R. R. Martin foi convidado por Robert Silverberg para escrever um conto para a antologia Legends, onde constavam nomes sonantes como Ursula K. Le Guin, Stephen King ou Terry Pratchett. Foi assim que, em 1998, nasceu uma prequela para a sua famosa saga de fantasia, passada cem anos antes da ação fantástica de A Guerra dos Tronos.

The Hedge Knight é o conto de que vos falo, mais conhecido em Portugal como O Cavaleiro de Westeros, publicado na versão original na antologia O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias, mas também na adaptação para banda-desenhada, com o trabalho de argumento a cargo de Ben Avery e arte de Mike S. Miller.

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George R. R. Martin a matar personagens (memecenter)

Dunk e Egg

O famosíssimo Torneio de Vaufreixo reunia as casas nobres mais influentes de Westeros. Eles eram os Baratheon com os seus veados exuberantes esculpidos nos escudos, os leões de Lannister, dourados e sobranceiros, os Tyrell de Jardim de Cima com os seus embutidos florais e toda uma vasta panóplia de famílias poderosas com as respetivas diligências de cavaleiros, todos eles ajuramentados à família real, os Targaryen – os do sangue do dragão. Os dragões haviam sido extintos, mas a família que neles veio montada da Antiga Valíria, característica pelos cabelos prateados e olhos violeta, prosperava em Westeros como família real, tendo em Daeron II o rei à época.

O velho Sor Arlan de Pataqueira, um cavaleiro andante, viajava para o famoso torneio com o seu jovem escudeiro, quando morreu de uma gripe. O rapaz, Dunk, que havia sido resgatado por Arlan do Fundo das Pulgas, em Porto Real, era alto e forte, e mantinha o sonho de tornar-se um cavaleiro. Assim sendo, apropriou-se dos pertences do seu amo – espada, escudo, dinheiro e três cavalos – e logo depois de o enterrar rumou a Vaufreixo, tendo em vista participar do torneio.

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Capa Saída de Emergência/Marvel

Encontrou um menino de cabelo rapado, que reconheceu Dunk como cavaleiro, pelas armas que ostentava, mas troçou da sua aparência simples e puída. No entanto, quis que ele o tornasse seu escudeiro. Dunk enxotou-o como uma mosca e parou numa estalagem, onde gastou parte do seu pecúlio em comida. Um fidalgo ébrio, caído para cima de uma mesa, alegou reconhecê-lo de um sonho, mas Dunk não lhe fez caso.

De volta aos estábulos onde deixara os cavalos, Dunk reencontrou o menino careca a brincar aos cavaleiros, montado num dos seus equídeos, e pensou inicialmente que o rapaz seria filho da estalajadeira, até ele lhe dizer que não tinha mãe. Voltou a livrar-se do rapaz, mas viria a reencontrá-lo mais tarde, a caminho de Vaufreixo. A custo, o rapazinho que dizia chamar-se Egg e ser oriundo de Porto Real (assim como Dunk) convenceu-o a tomá-lo como seu escudeiro.

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Prancha Saída de Emergência/Marvel

Vaufreixo

O jovem cavaleiro começou a pensar numa forma de participar no torneio. Os seus pertences eram demasiado módicos para comprar um equipamento digno da alta cavalaria, mas Sor Arlan contara-lhe as regras do torneio e sabia que, ao vencer um adversário, ficaria com os seus pertences de combate. Restava-lhe esperar um adversário mais vulnerável, num primeiro encontro. Ao chegar a Vaufreixo, Dunk vendeu os equipamentos de Sor Arlan e um dos cavalos, para comprar uma armadura boa o suficiente para lutar, mas acabou por se deparar com um grave problema burocrático.

Ao apresentar-se diante do intendente, Plummer, para se inscrever no torneio, este deixou bem claro que teria de provar ser um cavaleiro para participar. Dunk alegou que Arlan o teria investido antes de morrer, mas nem sequer Sor Arlan era muito conhecido. Dos famosos cavaleiros presentes em Vaufreixo, apenas Manfred Dondarrion conhecera o velho, mas quando Dunk o procurou para que este o comprovasse, disse não se recordar dele. Quando Dunk voltou a Plummer para lhe comunicar a incapacidade de atestar a veracidade das suas alegações, porém, encontrou-o numa conversa algo privada com alguns homens de aspeto poderoso. Depressa percebeu que entre aqueles homens encontravam-se Baelor Quebra-Lanças e o seu irmão Maekar Targaryen, dois dos quatro filhos do Rei Daeron. Surpreendentemente, Baelor lembrava-se de Sor Arlan e das suas façanhas, autorizando Dunk a entrar no torneio.

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Baelor Quebra-Lanças (Mike S. Miller)

Uma série de aventuras sucederam-se, sempre com Dunk e o pequeno Egg como protagonistas. Dunk estabeleceu amizade com dois irmãos Fossoway (ainda que o final da história traga uma cisão que viria a dividir a casa em duas fações) e encantou-se por uma marionetista dornesa chamada Tanselle, que acabou por contratar para desenhar no velho escudo de Arlan o seu novo brasão: uma estrela cadente sobre um ulmeiro, com um pôr-do-sol como fundo. Na verdade, a cena com que Dunk e Egg tinham sido presenteados, uma vez que não havia dinheiro para comprar um pavilhão para pernoitar.

Dunk percebeu que vários principelhos, netos do rei, perambulavam por Vaufreixo, e alguns deles poderiam mesmo frequentar o torneio. No primeiro dia, Dunk viu que um deles, Valarr, seria o melhor adversário para enfrentar, o mais fácil, por assim dizer. Compreendeu também que o príncipe Maekar estava desesperado com o desaparecimento dos seus dois filhos mais novos, Daeron e Aegon, possivelmente assaltados ou capturados na estrada. Para piorar a situação, Aerion, o seu irascível filho mais velho, tornou a vida de Dunk tremendamente difícil, ao atacar a marionetista. Um volte-face que pôs a nu uma série de mentiras e identidades. Maekar, o quarto filho do rei, e os seus quatro filhos. Uma provocação. Um capricho. Um julgamento. Uma ajuda inesperada. Dunk e Egg e um sem-número de possibilidades.

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Prancha Saída de Emergência/ Marvel
SINOPSE:

O continente de Westeros é o cenário onde se desenrola a saga de George R. R. Martin, as Crónicas de Gelo e Fogo. O Cavaleiro de Westeros decorre cerca de cem anos antes do início do primeiro livro das Crónicas, no tempo do rei Daeron, com o reino em paz e a dinastia Targaryen no auge do seu poder.

Quando a vida de um cavaleiro termina, a sua morte pode ser o começo de uma nova vida para o seu escudeiro. Intitulando-se de “Sor Duncan, o Alto”, o jovem Dunk parte em busca de fama e glória no torneio de Vaufreixo, mas também sonha em prestar juramento como cavaleiro dos Sete Reinos. No caminho, encontra um rapaz misterioso que está determinado em ajudá-lo na sua demanda. Infelizmente para Dunk, o mundo pode não estar preparado para um cavaleiro que mantém a sua honra. E os seus métodos cavalheirescos podem vir a ser a sua ruína… Uma história fascinante sobre honra, violência e amizade, pela mão do grande mestre da literatura fantástica: George R. R. Martin.

OPINIÃO:

Apesar de a BD já ter sido publicada por cá em 2012, e o conto em 2013 (incluído na antologia O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias), ainda não tinha tido o privilégio de ler esta história, que acaba por ser apenas a primeira de uma prequela em três atos dedicada a Sor Duncan, o Alto e ao seu escudeiro Egg. Agora, em jeito de remissão, acabei por ler a BD em inglês e, para a compreender melhor, li o conto na íntegra, disponibilizado gratuitamente no site da Edições Saída de Emergência.

Posso dizer que é difícil superar George R. R. Martin… até para ele mesmo. Não atinge o patamar de excelência dos livros da saga-mãe, mas também não desilude. O Cavaleiro de Westeros é um retrato credível do ambiente apaixonante das liças medievais da nossa Idade Média, com a diferença de que estamos em Westeros e todas as Casas e personagens são ficcionais. A ação do conto é corrida e reserva muitas surpresas, mas posso dizer que a leitura foi melhorando gradativamente, à medida que se ia desenrolando, tanto no que concerne à história, como à própria escrita de Martin.

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Imagem Saída de Emergência/ Marvel

É impossível ficar indiferente às intrigas políticas que pautam as relações entre os Targaryen e os seus partidários, e à forma como personagens completamente inócuos se tornam pilares basilares de grandes eventos e promotores de atritos que viriam a tornar-se lendários. Dunk é um personagem de fácil empatia, cuja ambição se mescla com a falta de auto-confiança, em parte pelo passado miserável, em parte pelas alcunhas e ditos trocistas do homem que o tomou como um filho. Porém, até os mais elevados homens de Westeros respeitam-no pela imponência física e pela honra demonstradas. Ainda assim, é o pequeno Egg quem mais me cativou, não só pela irreverência, como pela história do personagem.

Se já realcei que a escrita de Martin foi melhorando (apesar de ser boa de uma ponta à outra do conto), a cena que mais me fascinou foi aquela em que os detalhes viscerais de um determinado príncipe moribundo nos são apresentados, à medida que percebemos a validade terrível do sonho vaticinador de Daeron. No que diz respeito à BD, a adaptação de Ben Avery acaba por ser uma quase transposição de frases-chave do conto, enquanto a ilustração merece os meus melhores elogios. Mike S. Miller exibe um traço vigoroso e claro, mas são os coloridos que enchem o álbum de vivacidade e de alma.

Avaliação : 7/10

Especial: Como Erikson, Sanderson e Companhia Esmagaram os Orcs

Se na primeira metade do século XX um senhor de cachimbo na boca criou aquele que viria a ser o mais badalado worldbuilding de fantasia da era moderna, os seus iguais e seguidores criaram um sem número de mundos tão ou mais ricos que o apresentado em O Hobbit ou na trilogia O Senhor dos Anéis. Estou a falar de J. R. R. Tolkien. Não foi o percursor do género fantástico nem talvez o escritor mais dotado, mas deixou uma marca indelével na História da ficção fantástica. Muitos foram os autores que lhe seguiram os passos, replicando história, características humanas e terrestres. Mas as tendências mudam, e os elfos, orcs e anões foram vítimas de uma extinção em massa, desaparecendo quase por completo. Correndo o risco de parecer um daqueles senhores despenteados do Canal História, vou tentar explicar o porquê.

O mundo é cíclico. Já Robert Jordan propõe uma teoria bastante interessante em A Roda do Tempo, saga de fantasia que – shame on me – ainda não tive a oportunidade de ler. E tudo o que hoje é adorado, amanhã torna-se chato e enfadonho. Foi o que aconteceu aos discípulos de Tolkien. Mas, quem sabe, volte a haver um grande hype em torno de elfos e orcs daqui por muitos anos? Tudo bem, ainda hoje há escritores a repetir a fórmula e muitos fãs dos mundos tradicionais por aí, da mesma forma como eu confesso ser um grande admirador das antigas histórias de espada e feitiçaria de Robert E. Howard, mas parece inevitável admitir que Terry Brooks, Christopher Paolini e companhia já não conseguem surtir o efeito que teriam conseguido páginas da vida atrás, porque, na minha humilde opinião, falta-lhes o essencial em qualquer ofício praticado pelo Homem: a inovação.

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Gimli e Legolas de O Senhor dos Anéis (ghostofdener em deviantart)

O sucesso depende de muitos factores, mas oferecer qualidade não chega. Há que oferecer algo de novo. É isso que define o sucesso, foi isso que fez J. R. R. Tolkien ficar imortalizado nas areias do tempo, e não só ele. Muitos como eu não tiveram o privilégio de ler Fritz Leiber, Jack Vance, Stephen Donaldson ou Glen Cook, entre outros, mas estes nomes – abafados pela hegemonia de outros géneros – influenciaram alguns dos melhores autores da actualidade. Não vou pronunciar-me sobre literatura virada para público juvenil, porque corro o risco de criticar J. K. Rowling, Rick Riordan, T. A. Barron e outros que tais só porque não gosto.

É, em grande parte, a originalidade dos mundos que me fascina. Se Neil Gaiman me encanta pela escrita e pela forma doce e negra com que remexe nos sentimentos humanos, o seu imaginário nunca me conseguiu prender, talvez por seguir uma linha mais subversiva das mitologias urbanas. Seguindo um registo distinto mas numa toada semelhante, Stephen King apresenta em A Torre Negra um diálogo mais aberto e intimista, conseguindo os seus picos de humor de forma mais genuína. O horror presente em King também se coaduna mais com o meu ADN de leitor, mais visceral e preto-no-branco.

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O ka-tet de A Torre Negra (Browsing Tradicional Art em deviantart)

Terror e ficção-científica são dois géneros da ficção especulativa que me cativam, menos que a fantasia, mas que se fundem a ela em grandes obras de referência. No entanto, é a História a verdadeira base do meu culto à fantasia, e são as Histórias criadas de raiz que mais me fascinam. Se foi o Senhor dos Anéis a implementar-me hábitos de leitura, fazendo-me entrar nas espadas e feitiçarias de Robert E. Howard (um dos meus autores preferidos de sempre) e nos livros role-playing Fighting Fantasy de Ian Livingston e semelhantes, a vida literária levara-me para os romances de mistério e espionagem, históricos, policiais e simbologias. Há poucos anos, o advento de uma série de televisão fez-me perceber que um autor conseguira englobar tudo o que havia nos meus géneros preferidos… e quando li os livros, viciei-me nas Crónicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin.

A Tormenta de Espadas/A Glória dos Traidores (interpretemos os dois livros como um só, como o é na versão original) tornou-se de imediato o meu livro preferido de sempre, suplantando A Chave de Rebecca e Ivanhoe, que até ali eram incontestáveis. No entanto, penso que as Crónicas de Gelo e Fogo, inacabadas até hoje, valem pelo todo. O mundo de George R. R. Martin é riquíssimo e vasto, com tantos ingredientes e uma complexidade que o fazem tornar-se real. Um mundo inspirado na nossa Antiguidade, com guerras credíveis e protagonistas que morrem. A magia existe, mas até a forma como é apresentada num mundo tão seco e credível agrada-me. [Martin, leva o tempo que quiseres, mas não morras sem escrever mais qualquer coisinha.]

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Jorah Mormont de Crónicas de Gelo e Fogo (Browsing Fan Art em deviantart)

George R. R. Martin venceu pela ousadia, pela originalidade (que não é assim tanta, mas os autores a quem foi buscar ideias nunca conseguiram algo tão grande e épico), mas sobretudo pela capacidade de aguentar um mundo destes na “carapaça” como a tartaruga que sustenta o nosso, em tantas crenças – e nos livros do Terry Pratchett.  Mas quando parecia impossível superar George R. R. Martin no empreendedorismo fantástico, os últimos anos vieram mostrar que, independentemente do contexto, Nelson Mandela tinha razão:

Só é impossível até acontecer.

Não vou falar de autores que desconheço, como Brian McClellan e o seu mundo que mistura uma espécie de Revolução Francesa com magia, Sam Sykes e os homens-dragões e outras bizarrices, ou Brent Weeks, já publicado no Brasil com aparente boa aceitação. Existem imensos autores emergentes que conseguem reinventar a fantasia a cada dia que passa, com magias originais e mundos complexos. Nenhum destes consegue ainda igualar George R. R. Martin na imponência e complexidade, mas há três autores que lhe fazem sombra.

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A trupe de ladrões de As Mentiras de Locke Lamora (SPN, deviantart)

Scott Lynch é o meu mais-que-tudo (salvo seja). A braços com graves problemas de depressão e ansiedade, poucos livros publicados e nenhum mundo de quebra-cabeças, Scott conseguiu surpreender os fãs do género com o seu livro de estreia. Inspirado na Itália renascentista, o seu mundo sem nome parece ter sido criado por uma espécie alienígena que depois o abandonou. Mas não há nenhuma guerra épica a ser travada. A saga de Scott Lynch fala de ladrões e de tramóias, de redes de espiões, de política e de sobrevivência. Fala de um ladrão sem vergonha de encher os bolsos, e é ele que faz as delícias do leitor.

Scott conquista pela simplicidade e pela astúcia, tanto do seu protagonista lingrinhas, como dele próprio como autor, pelos diálogos hilariantes, pelos plot-twists, pela leveza e brilhantismo literário. Com uma simplicidade inigualável, As Mentiras de Locke Lamora tornou-se o meu livro preferido de todos os tempos. Ele tem toques de steampunk, uma aura do período renascentista, truques sem fim e até combates de tubarões. Os restantes livros já publicados da série The Gentleman Bastards agradaram-me quase tanto como o primeiro e até o conto Um Ano e Um Dia na Velha Theradane encantou-me pela irreverência. [Recupera rápido e escreve mais, Scott.] Não será o melhor autor de fantasia da atualidade, mas é o meu preferido.

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Vin de Mistborn (Evan Montero em writeups)

E depois há Sanderson. Pois é. Brandon Sanderson, este sim considerado por muitos como o melhor autor de fantasia da atualidade. O homem escreve pelo menos um livro por ano, criou um universo – a Cosmere – e várias das suas sagas (sim, sagas!) passam-se em planetas desse mesmo universo. Ao ler a Era 1 de Mistborn (uma trilogia, publicada em 4 livros em Portugal ), não me fascinei. Reconheço-lhe enorme qualidade e é uma das obras mais aclamadas do autor, mas nem a sua escrita me encantou, nem as explicações dadas para a complexidade da sua criação me pareceram sólidas. Fala de um grupo de escravos que se rebela para destronar um deus-rei malvado, e ao fazê-lo, os personagens percebem que meteram o pé na poça. Ainda assim, os personagens são bem profundos e incríveis. Apesar de não ser idêntico a nível narrativo, costumo qualificar em jeito de brincadeira Mistborn como um Crónicas de Riddick feito pela Disney. O final deixou-me com a boca mais aberta do que no Casamento Vermelho de George R. R. Martin.

Foi com Warbreaker, no entanto, que Sanderson me agarrou. Um livro simplesmente brutal onde os papéis dos personagens se distorcem completamente ao longo do livro e as capacidades exploradas são fantásticas. Exércitos de zombies comandados por palavras e uma espada falante, só como exemplo. Homens que regressam à vida e se tornam deuses. Duas princesas a darem-se bem no sítio errado. Cada sistema de magia de Sanderson parece mais original do que o anterior e, como diz um dos chavões de Mistborn: sempre há outro segredo. Plot-twists geniais não lhe faltam. Não fosse o excesso de deus ex-machina e cenas forçadas, Sanderson estaria já no topo dos meus autores preferidos. Para já, quero muito ler Stormlight Archive, a série-chave deste caso sério de sucesso.

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Anomander Rake de Jardins da Lua (malazan wiki)

Bem, Sanderson é o autor do momento, mas sim… é possível haver um autor de fantasia vivo melhor que Sanderson ou até mesmo que Martin. E não estou a falar de Lynch, que apesar de ser o meu preferido ainda é bem subestimado. Estou a falar de Steven Erikson. Com Ian C. Esslemont, criou o universo Malazan, mas nem conheço a escrita de Esslemont nem ouço tantos elogios às suas obras como às de Erikson.

Não posso ainda afiançar que a Saga do Império Malazano é mais complexa (ou melhor) que o mundo de George R. R. Martin, uma vez que só li o primeiro livro, Jardins da Lua, mas seguramente está lá perto. Uma guerra épica, uma imperatriz de pele azul que quer conquistar o mundo, uma montanha voadora, deuses que interferem nos acontecimentos, raças inovadoras, cães tenebrosos, dragões e corvos, conspirações e segredos… mas acima de tudo personagens, muitos e apaixonantes. O que realmente me agarrou neste autor foi a escrita e os diálogos vívidos, especialmente entre os militares. Do mundo, ao que parece imenso, não vi ainda quase nada. E sei que o que me espera no segundo volume será ainda mais empolgante e dramático. Erikson entrou direitinho para a lista dos meus autores prediletos, logo com o primeiro livro.

Para mim, estes são “os tais” da atualidade dentro do género, ainda que mantenha bem presentes as referências mais antigas e tenha ainda um manancial de obras por descobrir. Li muito pouco de Rothfuss (não me convenceu), um único livro de Abercrombie (ipsis verbis) e ainda não me convenci a ler Peter V. Brett nem Robert Jordan (não é o facto de ter sido Sanderson a terminar A Roda do Tempo a fazê-lo, por enquanto). Também Mark Lawrence não me agradou por aí além, com um sem número de recursos forçados na narrativa, e se acho insípida a ficção de Guy Gavriel Kay (Tigana e Leões de Al-Rassan foram bons mas não me “encheram a boca”), a Saga do Assassino de Robin Hobb revelou-se cansativa e repetitiva. Sei, porém, que qualquer um destes tem potencial para vir a surpreender-me.

No fundo, esta avalanche de novos autores com o seu brainstorm imparável foi o meteorito que causou a quase extinção dos elfos, orcs e anões, e de toda essa panóplia de “mais do mesmo” oriunda dos lugares-comuns do nosso passado. Nunca os esqueceremos, mas a estagnação é amiga da morte e nós queremos mais. Mais e melhor, se possível.

TAG – Os Cavaleiros do Apocalipse

Boa noite, amigos! Trouxe-vos uma tag literária e espero que se divirtam. Os Cavaleiros do Apocalipse? Eu sei que parece estranho, mas depressa vão perceber. Usando pormenores de trechos da Bíblia, mais propriamente do Livro da Revelação, identificarei capas de livros. Vamos a isso?

#1 Peste

E eu vi, e eis um cavalo branco; e o que estava sentado nele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e ele saiu vencendo…

#1.1. Um livro com um cavalo na capa

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A Tormenta de Espadas, de George R. R. Martin

Mais do que um verdadeiro refresh na literatura de fantasia, George R. R. Martin veio dar um novo significado a este género literário, mostrando ao mundo que fantasia não é feita somente de elfos e princesas guerreiras. Tormenta de Espadas é o terceiro livro de Crónicas do Gelo e Fogo, sendo o quinto da edição portuguesa e um dos mais empolgantes da série literária.

# 1.2. Um livro com um arco na capa

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A Manopla de Karasthan, de Filipe Faria

Primeiro volume de Crónicas de Allaryia, A Manopla de Karasthan foi das primeiras obras de fantasia a emergir no panorama nacional no início deste século, à época em que a adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis acrescentava uma legião de fãs para o género. Amado por uns e odiado por outros, Filipe Faria conquistou lugar cativo nas livrarias portuguesas.

#1.3. Um livro com uma coroa na capa

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O Rei de Ferro e a Rainha Estrangulada, de Maurice Druon

Esta edição compreende os dois primeiros volumes da série Os Reis Malditos, na qual Maurice Druon narra a história de Filipe, o Belo, rei de França. Mais do que isso, fala da maldição que o acossou, como à sua prole, após ter queimado vivo o grão-mestre da Ordem dos Templários, condenando a confraria à extinção. Um rigor histórico notável e uma escrita rápida e vibrante.

#2 Guerra

E saiu outro, um cavalo vermelho; e ao que estava sentado nele foi concedido tirar da terra a paz, para que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada.

#2.1. Um livro com capa vermelha

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O Herói das Eras Parte 1, Brandon Sanderson

Mistborn – Nascidos da Bruma é uma das séries literárias de fantasia mais faladas da atualidade. Brandon Sanderson ganhou fama ao terminar a série A Roda do Tempo após a morte de Robert Jordan e desde então não parou. Conhecido por publicar com grande frequência, sempre com sistemas de magia originais, tem em Misborn uma das suas protagonistas mais carismáticas, Vin.

#2.2. Um livro com a palavra “Terra” na capa

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Os Pilares da Terra, de Ken Follett

Com uma prosa elegante e uma capacidade raríssima de fazer o leitor sentir-se na época descrita, Ken Follett apresenta-nos um livro emocionante, que relata um período conturbado da História de Inglaterra, onde a construção de um mosteiro ganha protagonismo num braço de ferro entre a Igreja e a Coroa. Os Pilares da Terra é um dos livros mais emocionantes que já li.

#2.3. Um livro com uma espada na capa

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Histórias de Aventureiros e Patifes, Vários Autores

Com organização de George R. R. Martin e Gardner Dozois, Histórias de Aventureiros e Patifes é a primeira parte da antologia Rogues, uma colectânea de contos sobre patifes, escrita por alguns dos mais conceituados autores de fantasia, ficção científica e romance policial. A segunda metade já foi publicada e também opinada no blogue.

#3 Fome

E eu vi, e eis um cavalo preto; e o que estava sentado nele tinha uma balança na mão. E eu ouvi uma voz como que no meio das quatro criaturas viventes dizer: “Um litro de trigo por um denário, e três litros de cevada por um denário; e não faças dano ao azeite de oliveira e ao vinho.

#3.1. Um livro com capa preta

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Príncipe dos Espinhos, Mark Lawrence

Primeiro volume da Trilogia dos Espinhos, de Mark Lawrence, Príncipe dos Espinhos apresenta o Príncipe Honório Jorg Ancrath, e a sua sede de vingança pela morte da mãe e irmão. Um mundo medieval pós-apocalíptico bem constuído, uma escrita envolvente e elegante, mas um desenvolvimento aquém das expectativas.

#3.2. Um livro com uma mão na capa

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O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

Com uma escrita envolvente, Oscar Wilde fala sobre o egocentrismo e sobre o papel que as aparências ocupam nas nossas vidas. Ao mesmo tempo que as hipocrisias de comportamento são retratadas com grande rigor, a obsessão pela beleza também é um dos principais temas do livro.

#3.3. Um livro com vigaristas na capa

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As Mentiras de Locke Lamora, Scott Lynch

Um dos meus autores de eleição, Scott Lynch revolucionou o mundo da fantasia com uma trama ao mesmo tempo leve e complexa, num mundo inspirado na Itália renascentista. Uma trupe de jovens ladrões protagoniza a história, recorrendo somente à sua matreirice para ludibriar os mais poderosos senhores do submundo camorri. A escrita deliciosa e os diálogos cómicos são os ex-libris deste autor.

#4 Morte

Então ouvi a quarta Criatura:”Venha” e apareceu um cavalo baio, o nome do cavaleiro era Morte e o Inferno o seguia de perto.

#4.1. Um livro com uma Criatura na capa

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Lisboa Triunfante, David Soares

Esta raposa não é somente uma raposa. É uma criatura mitológica, que atravessa as eras e interfere nos seus acontecimentos. Do lado oposto tem um miserável lagarto, e os dois têm medido forças ao longo dos séculos, participando ativamente na construção da Lisboa que hoje conhecemos. Com uma escrita excelente e um conhecimento histórico impressionante, David Soares criou um romance extraordinário de fantasia histórica.

#4.2. Um livro com a palavra “Morte” na capa

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A Morte Persegue-me, Ed Brubaker e Sean Phillips

Este livro de banda-desenhada é o primeiro volume da série Fatale. Uma mulher misteriosa que traz azar a todos aqueles com quem se cruza é a protagonista desta história sinistra que mescla temas como a imortalidade, a corrupção e o ocultismo. O legado de H. P. Lovecraft surge inegavelmente associado às criaturas apresentadas.

#4.3. Um livro com a palavra “Inferno” na capa

Inferno

Inferno, Dan Brown

Com uma estrutura similar a outros livros do autor, como O Código DaVinci ou Anjos e Demónios, Inferno distingue-se pelo tema (a sobrepopulação) e pela originalidade na conceção do vilão. Assustador e extremamente visual, esta aventura de Robert Langdon está entre as minhas favoritas do escritor norte-americano.

Sintam-se à vontade para fazer a vossa tag. Mas, pormenor importante, só conta livros que já tenham lido, mesmo que ainda não tenham comentado. Até à próxima.

Resumo Trimestral de Leituras #7

Por norma, o trimestre de verão acaba por ser mais parco em leituras, mas acabei por conseguir compôr a coisa neste último mês. Ainda assim, não deixa de ser um registo abaixo do habitual, o que é norma em época estival. Aqui fica a listagem do que andei a ler nos meses de julho, agosto e setembro:

A Vingança do Assassino, A Saga do Assassino #4 – Robin Hobb

Call To Arms, The Walking Dead #26 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Stefano Gaudiano e Cliff Rathburn

Mão Crua – Sílvia Gil

A Demanda do Visionário, A Saga do Assassino #5 – Robin Hobb

Histórias de Vigaristas e Canalhas – Org. George R. R. Martin e Gardner Dozois

Aqui Jaz Um Homem, Southern Bastards #1 – Jason Aaron e Jason Latour

Herança, Ciclo da Herança #4 – Christopher Paolini

Antes do Crepúsculo, Velvet #1 – Ed Brubaker, Steve Epting e Elizabeth Breitweiser

Sangue e Suor, Southern Bastards #2 – Jason Aaron e Jason Latour

Watchmen – Alan Moore e Dave Gibbons

O Último Reino, Crónicas Saxónicas #1 – Bernard Cornwell

Sem título 2O mês de julho foi dedicado à conclusão da primeira série do Assassino de Robin Hobb. O quarto volume, A Vingança do Assassino, não me fascinou. Tanto o mundo quanto as personagens foram bem construídos e desenvolvidos, mas as cenas pareceram-me repetitivas, os dilemas idem e os acontecimentos descritos ad nauseam. Apesar da série, no seu todo, ser bastante maçuda e repetitiva, A Demanda do Visionário, o quinto volume, conseguiu satisfazer-me mais, com muito mais ação e revelações sobre os personagens. Voltarei para a segunda série um dia. O volume 26 da minha comic favorita foi impressionante. Robert Kirkman não pára de surpreender. Com ilustrações de Charlie Adlard, Stefano Gaudiano e Cliff Rathburn, The Walking Dead apresenta o mais recente volume dos quadradinhos mais sangrentos da atualidade. Negan consolida-se como um personagem fantástico, e é difícil perceber, neste momento, de que lado ele está.

Sem título 2A pedido da autora, li Mão Crua, de Sílvia Gil. A história é aliciante e desenvolve-se rápido, sem tempos mortos. É necessário ter uma mente aberta, porque o livro foca-se num lado mais fetichista e sádico dos prazeres da carne. Esse aspeto não me impressionou, mas achei um livro muito pobre a nível de escrita. E posso dizer que o mês de agosto foi praticamente todo dedicado ao excelente Histórias de Vigaristas e Canalhas. O livro é de leitura rápida, mas as férias não me deixaram ler mais. Trata-se da segunda parte da antologia Rogues organizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois. Um conjunto de contos bastante diversificado, com policial, fantasia e ficção científica. Achei este volume mais equilibrado que o primeiro, mas alguns contos desagradaram-me. O meu destaque vai para os contos de Steven Saylor, Joe Abercrombie e Daniel Abraham, que se evidenciaram dos restantes.

sem-titulo-3O mês de setembro marcou o meu regresso às BD’s. Descobri a fantástica série Southern Bastards (Vol. 1 e Vol. 2), com argumento de Jason Aaron e ilustração de Jason Latour. Os dois criadores são originários do sul dos EUA, e trouxeram para o comic o pior do que lá existe. No primeiro volume, Earl Tubb, ex-capitão da equipa de futebol local, regressa a casa para lidar com um ninho de gente corrupta e mal-formada. Filho do antigo xerife, que foi morto pela população local, terá de engolir ódios antigos e tentar pôr fim ao cinismo daquele povo, mas pode estar demasiado velho para isso. No segundo volume conhecemos o homem por detrás de todas as injustiças. Através de reflexões, visualizamos o passado de Euless Boss, o treinador, e compreendemos como se transformou neste miserável vilão. Concluí a série de literatura fantástica Ciclo da Herança, de Christopher Paolini. Em Herança, o último volume, é notória a evolução na escrita do autor, mas a história continuou amarrada às referências do mesmo, o que o prejudicou em muito. O final foi esparso e pouco consistente, sendo também exaustivo. A falta de originalidade do autor é uma das suas grandes lacunas. Ainda assim, é melhor do que a maioria das fantasias juvenis que já me aventurei a ler.

sem-tituloLi o primeiro volume da comic Velvet, Antes do Crepúsculo. Pelas mãos da G Floy chega mais uma obra de Ed Brubaker (autor de Fatale), com desenho de Steve Epting e cores de Elizabeth Breitweiser. Velvet Templeton é secretária do diretor de uma agência secreta, muito embora tenha sido uma agente no terreno, nos seus tempos áureos. Quando X-14 é morto, no entanto, é obrigada a voltar a vestir o “fato macaco”, para desvendar uma conspiração que, ao que parece, gira à sua volta. Sem fugir aos clichés da literatura de espionagem, esta BD apresenta um volume inaugural de grande nível. Ainda melhor é a icónica Watchmen. Há muito que queria ler esta novela gráfica de renome, e não fiquei minimamente arrependido. A obra prima de Alan Moore, com desenho de Dave Gibbons, apresenta-nos um grupo de super-heróis envelhecido, num mundo estranhamente real em que os EUA venceram a Guerra do Vietname e Nixon foi reeleito. Os vilões foram exterminados há muito e as pessoas começaram a olhar de lado para os vigilantes. A própria polícia realiza manifestações contra os super-heróis, e as comics que se vendem são sobre piratas. É neste contexto que o super-herói Comediante é morto, Ozymandias sofre um atentado e Dr. Manhattan é desacreditado na imprensa, acusado de provocar cancro àqueles com quem interage. Certo que os super-heróis estão a ser alvos de uma conspiração, Rorschach lança a escada para que, junto dos seus velhos companheiros, se inicie uma longa escalada em busca da verdade. Original, complexo e delicioso, Watchmen lança uma série de questões pertinentes sobre política, física e humanidade. Imperdível.

sem-titulo-3Primeiro volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, O Último Reino convida-nos a conhecer o jovem Uthred, um rapaz saxão de dez anos que é feito prisioneiro pelos vikings na batalha em que o pai morre. Desde logo torna-se protegido de Ragnar, o Destemido, que o vê como um filho. Mas os anos passam-se e Uthred percebe que nem todos os dinamarqueses são tão benévolos como Ragnar e a sua família, e o apelo do sangue volta a fervilhar dentro de si. A quem será Uthred fiel? Aos dinamarqueses ou aos saxões? Excelente relato de vida de um jovem que vai sendo talhado como um herói, quando assim podia não ser. Cornwell é exímio em contar histórias e em descrever ambientes de batalha, e O Último Reino empolga-nos da primeira à última página. Este livro foi gentilmente cedido pela Edições Saída de Emergência no âmbito da parceria existente.

De momento estou a ler a antologia Proxy, da Editorial Divergência, mas tenho já uma fila de livros em espera. Stephen King, Joe Abercrombie e Bernard Cornwell são os nomes que se seguem, e espero continuar a acompanhar algumas BD’s de grande qualidade. E vocês, já leram algum destes livros?

Histórias de Vigaristas e Canalhas, Rogues #2

Certas frases assombram-me. Continuo a ouvir a voz doce e suave de Alcinda a dizer «não posso culpá-lo» e «ele não podia fazer nada», mas também recordo um polícia que resmungou: «O veneno é uma arma feminina.»

O TEXTO SEGUINTE PODE CONTER SPOILERS DO LIVRO “HISTÓRIAS DE VIGARISTAS E CANALHAS”, SEGUNDO VOLUME DA ANTOLOGIA ROGUES

George R. R. Martin e Gardner Dozois reuniram alguns dos melhores criadores de patifes literários para dar “voz” a esta fantástica antologia sobre grandes vigaristas. Se, no primeiro volume, pudemos ler contos de Neil Gaiman, Scott Lynch, Patrick Rothfuss ou até do mesmo George R. R. Martin, o segundo volume conta com autores igualmente talentosos.

Joe Abercrombie abriu as honras com um conto sobre uma cidadezinha de ladrões, onde todos parecem andar atrás de um estranho pacote – o que não significa que saibam qual é o seu conteúdo. Nem nós chegámos a saber qual é. Cherie Priest leva-nos ao encontro de um cadáver de mineiro “possuído” por um demónio, enquanto Carrie Vaughn nos apresenta um thriller paranormal, onde um clube bem frequentado de vampiros, zombies e outras criaturas da noite se torna palco de mais um dos truques de Madame M. e Pauline, ainda que tenham de enfrentar a astúcia da poderosa Gigi.

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Vampiro (asusta2)

Bradley Denton apresenta um conto irónico sobre um professor que se divide entre descobrir as tramóias de um grupo de adolescentes envolvidos no roubo de uma peça de música (tentando lucrar com isso) e lidar com o novo relacionamento da sua ex-mulher. Transformar Diamantes em Tequila parece ser a fórmula secreta de Walter Jon Williams, num conto em que Sean Makin, estrela de cinema em ascensão, se vê arrastado para o homicídio da sua suposta parceira. No entanto, Sean tem pouco de vítima e arranja forma de ganhar vantagem com os eventos que se seguiram ao terrível “acidente”.

Sir Hereward, um cavaleiro errante, e Mister Fitz, um mago transformado em marioneta, são os protagonistas do conto de Garth Nix, escritor australiano. Nele, a inusitada dupla enfrenta uma tarefa perigosíssima: destruir catorze estatuetas, onde se encontra aprisionada uma colectânea de deuses antigos. No entanto, uma ladra surge para lhes atrapalhar os planos, e apenas podem contar com uma besta trombuda chamada Rosie para os ajudar.

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Sir Hereward e Mr. Fitz (capa Amazon)

Matthew Hughes apresenta-nos um ladrão, chamado Raffalon, que tenta escapar das garras de uma raça de sujeitos terríveis, chamados vandaayo, quando encontra uma estatueta. Nela está presa uma divindade caída em esquecimento, que entra na mente de Raffalon e o convence a libertar um homem que se encontra capturado pelos canibais. Raffalon acaba por aceder, mediante certas contrapartidas, e liberta não só o religioso como uma mulher que também lá se encontrava. Nem tudo, porém, é como parece, e apenas uma conjugação de vários factores levam Raffalon a dar-se bem na sua tarefa. Diga-se, até, bastante bem.

Steven Saylor presta uma bela homenagem ao escritor Fritz Leiber em mais uma aventura do seu célebre personagem Gordiano. O jovem Gordiano encontra-se com o seu tutor, Antípatro, na cidade portuária de Tiro, onde conhece várias lendas relacionadas com os personagens de Leiber, Fafhrd e Rateiro Cinzento. No entanto, quando Antípatro compra uma poção da invisibilidade, nenhum dos dois podia imaginar que estavam a ser alvos de um grande embuste.

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Fafhrd e Rateiro Cinzento (comic vine)

O autor de ficção científica Michael Swanwick convida-nos a conhecer melhor os seus personagens Darger e Surplus, dois grandes trapaceiros num mundo pós-apocalíptico onde humanos convivem com mastodontes, serpentes marinhas e uma infinidade de zombies. Podem, no entanto, dar-se mal, quando utilizam uma beldade raríssima para tentar enganar pessoas muito poderosas. Lisa Tuttle apresenta-nos um conto enigmático sobre um estranho caso ao melhor género Sherlock Holmes. Uma menina dirige-se ao gabinete de detetives secretos para contar o ocorrido com a sua meia-irmã Alcina. A jovem morreu, mas a irmã garante tê-la visto, bem viva, num cemitério, junto de um homem estranhíssimo. Um mistério que leva o casal de detetives a investigar o mistério guardado a sete-chaves pelo dono de uma funerária.

O último conto, de Daniel Abraham, apresenta-nos Steppan e Asa. O primeiro é um príncipe exilado, escondido numa região sem jurisdição, próspera em contrabando, e o segundo o seu protector e amigo. Quando Steppan se apaixona perdidamente por uma jovem prestes a ser vendida como escrava, envia Asa para a comprar, mas nem tudo corre bem. É que Asa está apaixonado pelo amigo e não vê qualquer vantagem na aquisição, mas quando um grupo de caçadores de recompensas procura um antigo chanceler para o julgar por genocídio, Asa envolve a jovem escrava numa teia complexa que acaba por o colocar nos braços da rapariga.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Recomendamos cautela ao ler estes contos: Há muitos vigaristas e canalhas à solta.

Se gostou de ler Histórias de Aventureiros e Patifes, então não vai querer perder novas histórias com alguns dos maiores vigaristas e canalhas. São personagens infames que se recusam a agir preto no branco, e escolhem trilhar os seus próprios caminhos, à margem das leis dos homens. Personagens carismáticas, eloquentes, sem escrúpulos, que chegam até nós através de um formidável elenco de autores.  

Com organização de George R. R. Martin, um nome que já dispensa apresentações, e Gardner Dozois, tem nas mãos uma antologia de géneros multifacetados e que reúne algumas das mentes mais perversas da literatura fantástica.

Ao ler este livro, estará à assinar um pacto de comunhão com os seguintes autores:
Joe Abercrombie – autor da trilogia A Primeira Lei

Garth Nix – autor da trilogia Sabriel
Lisa Tuttle – co-autora de Windhaven
Daniel Abraham – autor da série The Expanse
OPINIÃO:

Histórias de Vigaristas e Canalhas é a segunda e última parte da célebre antologia Rogues, organizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois, dividida em Portugal em dois livros. O primeiro, Histórias de Aventureiros e Patifes, foi uma das últimas leituras do ano anterior, e apesar de me ter agradado, não me surpreendeu no seu todo. Este segundo volume manteve o mesmo nível.

Está Difícil para Todos, de Joe Abercrombie, foi um extraordinário conto de fantasia sobre um pacote que passa de mão em mão e todos tentam roubar. Apesar da escrita excelente, o ritmo alucinante e os personagens incríveis o terem feito um dos meus contos preferidos, faltou um final mais esclarecedor e surpreendente. Heavy Metal, de Cherie Priest, foi uma leitura completamente dispensável. Minutos desperdiçados de leitura. Uma história completamente descabida, um mistério que até podia ter potencial com um final incrivelmente decepcionante.

Carrie Vaughn brindou-nos com Loucos Anos Vinte, um conto muito bem escrito e com tudo para ser muito bom, mas que acabou por não dar em nada de novo ou relevante. Os dois contos seguintes, Cara de Metal de Bradley Denton e Diamantes de Tequila, de Walter Jon Williams, seguiram a mesma lógica. Dois “quase” policiais interessantes, mas uma escrita murcha e poucos aspetos de interesse.

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Capa da versão ilustrada norte-americana (subterraneanpress)

Garth Nix fez a antologia melhorar muito, com Um Carregamento de Marfins. A aventura de Sir Hereward e Mister Fitz aliou um ritmo alucinante a uma história bem contada, com uma escrita competente. A Estalagem das Sete Dádivas foi um conto interessante de Matthew Hughes, ainda que tenha sido aborrecido na maior parte, ganhando mais valor na reta final. Steven Saylor escreveu o meu conto preferido desta antologia. Invisíveis em Tiro alia romance histórico e fantasia numa grande homenagem a Fritz Leiber. Toda a história foi bem escrita, credível e com um desfecho agradável.

Tawny Petticoats foi também um bom conto de ficção científica, irónico e divertido, passado num mundo já escrito por Michael Swanwick em outras obras. Lisa Tuttle apresentou O Curioso Caso das Esposas Mortas, um grande conto de policial obscuro, que não só nos leva a pensar que nem tudo o que parece é, como nos deixa uma série de dúvidas no fim. A par da investigação, a autora aproveita para debater também a questão de género e o papel das mulheres na sociedade. Por fim, O Significado do Amor é um divertido conto de fantasia escrito por Daniel Abraham, autor de The Expanse. Personagens muito bem construídos, uma conspiração bem tecida, um mundo credível e uma escrita de grande qualidade.

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As histórias de Joe Abercrombie e Daniel Abraham poderiam passar-se neste cenário (pinterest)

Tirando três ou quatro contos, foi uma antologia muito agradável de ler, mais equilibrada que a primeira parte. O conto de Steven Saylor foi o meu conto preferido, com Daniel Abraham e Joe Abercrombie na segunda e terceira posições. Recomendo a todos os que gostaram da primeira parte. Mesmo podendo não ter nomes tão sonantes, não lhe fica atrás.

Avaliação: 7/10

Rogues (Saída de Emergência):

#1 Histórias de Aventureiros e Patifes

#2 Histórias de Vigaristas e Canalhas

Fala-se de… Game of Thrones T6

A sexta temporada de Game of Thrones chegou ao fim e a vontade de continuar a ver esta grande produção só aumentou. Se no ano passado ficamos todos com a ânsia de perceber se Jon Snow tinha, de facto, morrido, esta season finale deixou um cheiro a desfecho, com a convergência de vários núcleos e personagens. Abaixo deixo a minha opinião, COM SPOILERS, ao sexto ano de produção.

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D&D não são George R. R. Martin.

O facto de a série alcançar e ultrapassar os livros só a prejudicou. Embora alguns elementos (como o mistério em volta de Hodor) tenham sido indicados por George R. R. Martin, a trama original é bem sinuosa e com muitos amargos de boca para os protagonistas. Como bons fãs, David Benioff e D. B. Weiss criaram uma temporada “previsível“, com todos os personagens “bons” a saírem-se bem e a vingarem-se de tragédias passadas. Puro fanservice, que embora tenha agradado a muitos, mostrou que não era obra de Martin. A asfixia, a agonia, os volte-faces inesperados não pautaram nesta temporada, e todos sabemos porquê. D&D não são George R. R. Martin.

Nem é suposto sê-lo.

Ainda assim, demonstraram ser guionistas muito competentes, enchendo dez episódios de uma forma equilibrada com acontecimentos para todos os gostos. Nesse quesito, esta temporada foi superior à anterior, em que o único episódio de destaque para além do season finale teria sido o fantástico Hardhome. O destino dado ao núcleo de Dorne não agradou a todos, mas tendo em conta a péssima adaptação desse núcleo, a opção agradou-me. A ressurreição de Jon Snow era expectável, assim como o regresso de Dany a Meereen à frente dos dothraki, mas apesar da previsibilidade, foram sequências positivas que vieram desenrolar o novelo que Martin, nos seus livros, apenas tende a enrolar mais e mais e mais.

O fim de Ramsay Bolton e a adição de uma personagem inexistente no material canónico, a “grande” Lyanna Mormont, foram importantes para o sucesso da temporada, e apesar de assistirmos a um Tyrion Lannister mais discreto, fomos recompensados com um Varys cada vez mais badass, uma Cersei devastadora e uma Sansa mais adulta, finalmente junto ao seu irmão. Arya Stark também mereceu um ótimo desenvolvimento e os Homens de Ferro tiveram o destaque há muito merecido (embora o Euron da série ainda não me tenha convencido e o Victarion dos livros faça muita falta).

As visões de Bran e a adição de Mãos Frias como Benjen Stark foram ótimas. A revelação da paternidade de Jon Snow deveria ser mais explícita, porque muitos dos que não acompanham a saga literária e desconhecem a teoria R+L = J não perceberam que a cena visionada por Bran na Torre da Alegria revelou Jon Snow como filho de Rhaegar Targaryen, ou seja, sobrinho de Daenerys por parte do pai e sobrinho de Ned Stark por parte da mãe.

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Concluindo, esta temporada desagradou-me em muitos aspetos, nomeadamente a previsibilidade dos acontecimentos, a mudança estranha de personalidades como a de Jaime e a falta de personagens basilares dos livros (Arianne, Jovem Aegon, Victarion, Moqorro), mas continua ótima e a desenvolver a narrativa como as séries são obrigadas a fazer para manter o público fiel, algo que já não se exige com os livros de Martin (todos sabemos a sua complexidade e lenta evolução desde o início, o que só lhe confere credibilidade). Fico a aguardar pela próxima temporada, quando só faltam 15 episódios para o final da série.

Nota: 8/10

Resumo Trimestral de Leituras #4

Chegamos ao fim do ano e, mais do que o habitual resumo trimestral de leituras, exige-se um breve resumo de tudo o que li este ano. Foi um ano excelente, em que consegui ler mais do que imaginava e livros que tinha vontade de conhecer há muito tempo.

Aqui vai a “listinha” :p :

Lisboa no ano 2000 – Org. João Barreiros
O Espião que Saiu do Frio – John le Carré
O Coração é um Predador Solitário – João Barreiros
O Saque de Lampedusa – João Barreiros
A Cativa, Wulfric #1 – Manuel Alves
Mares de Sangue, The Gentleman Bastards #2 – Scott Lynch
Exhalation – Ted Chiang
Suspeito – Robert Crais
Os Anjos Não Têm Asas – Ruy de Carvalho
A Lenda do Vento, A Torre Negra #4,5 – Stephen King
As Raparigas Cintilantes – Lauren Beukes
Operação Tolerância Zero, X-Men #65 – Scott Lobdell
Os Anos Perdidos, Merlin #1 – T. A. Barron
Coisas Frágeis – Neil Gaiman
The New Atlantis – Ursula K. Le Guin
Bons Augúrios – Neil Gaiman e Terry Pratchett
Operação Tolerância Zero, Wolverine #13 – Scott Lobdell
Voo Nocturno – Antoine de Saint-Exupery
O Miniaturista – Jessie Burton
As Terras Devastadas, A Torre Negra #3 – Stephen King
As Cidades Invisíveis – Italo Calvino
O Monarca – Vassilis Vassilikos
Alice in Wonderland – Lewis Carroll
O Punhal do Soberano, Saga do Assassino #2 – Robin Hobb
Duna, Crónicas de Duna #1 – Frank Herbert
A Grande Matança, Sin City – Frank Miller
República de Ladrões, The Gentleman Bastards #3 – Scott Lynch
Cardiga: De Comenda a Quinta da Ordem de Cristo (1529 – 1630) – Luís Batista
Os Leões de Al-Rassan – Guy Gavriel Kay
A Rapariga no Comboio – Paula Hawkins
A Voz da Vingança, Tigana #2 – Guy Gavriel Kay
O Império Final, Mistborn #1 – Brandon Sanderson
A Sombra Sobre Lisboa – Org. Rogério Ribeiro
Lisboa Triunfante – David Soares
O Feiticeiro e a Bola de Cristal, A Torre Negra #4 – Stephen King
A Tumba – H. P. Lovecraft
A Corte dos Traidores, Saga do Assassino #3 – Robin Hobb
O Poço da Ascensão, Mistborn #2 – Brandon Sanderson
O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
Histórias de Aventureiros e Patifes – Org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
A Celebração – H. P. Lovecraft
O Herói das Eras, Mistborn #3 Parte 1 – Brandon Sanderson
Tis The Season – China Miéville

Sem títuloEste último trimestre começou com a leitura de dois livros comprados a 5 euros na Feira do Livro do Porto. A Sombra Sobre Lisboa é uma antologia muito interessante, de vários autores portugueses e um ou outro internacional, que formaram contos inspirados na obra de H.P. Lovecraft passados na nossa Lisboa. Para mim os melhores contos foram as criações de João Seixas, João Barreiros e David Soares. Desde um Eça de Queirós a lutar contra zombies e um arroz de polvo feito do mítico Cthulhu, podemos encontrar de tudo. Logo depois li Lisboa Triunfante, de David Soares, e adorei. É um livro que atravessa Lisboa em todos os espaços temporais, começa a contar a história de um menino no neolítico, apresenta-nos vários personagens ao longo da história de Lisboa, como Aquilino Ribeiro, Sá de Miranda, Frei Gil Valadares, com papéis muito importantes na narrativa, e não como simples figurantes. Mas é um livro de fantasia, de imaginação, carregado de simbolismos, desde a Pré-História ao futuro, passando pelos templários. É uma amálgama de tantas histórias quase verídicas, nas quais não saímos alheios à pesquisa notável do autor, utilizadas para o seu proveito narrativo, que se interligam numa história rocambolesca. É que tudo gira à volta de uma raposa e de um lagarto, que interferem no destino do mundo desde a sua génese. Como podem ver neste post, elegi-o como o melhor romance que li este ano.

Sem títuloContinuei então a saga A Torre Negra de Stephen King com o quarto volume, O Feiticeiro e a Bola de Cristal.  É um livro que me deixa excelentes recordações e me dá vontade de continuar a saga, apesar de ter sido uma leitura cansativa, porque a história podia ter sido contada em metade das páginas. Pois, são 840 páginas, e a maioria é a contar uma história do passado do protagonista, uma história de amor no faroeste do Mundo Médio. No entanto, vamos percebendo que aqueles enredos tiveram uma razão de ser e o final deixou-me de água na boca. Também notei bastante que o autor estava um pouco perdido na narrativa por esta altura do campeonato. A Tumba é um conto de terror de H. P. Lovecraft. É extremamente envolvente e negro, mas em momento nenhum cheguei a sentir-me perturbado. Conta a história de um homem internado num asilo psiquiátrico, que em jeito de autobiografia fala da sua infância e com normalidade aponta as coisas “não vivas” que lhe despertavam interesse, em especial uma sepultura de família que ele venerava com uma obsessão doentia. Gostei bastante dos acontecimentos em torno dessa sepultura, mas fica no ar a incerteza sobre se o homem era louco ou se aquilo foi real. A Corte dos Traidores é o terceiro volume da Saga do Assassino da Robin Hobb. É uma saga passada num ambiente medieval, com personagens de nomes estranhamente pitorescos. A escrita de Robin Hobb é fluente e as relações humanas são extremamente bem retratadas, não é à toa que Hobb é chamada a Primeira Dama da Fantasia. Ainda assim, e apesar de este volume ter bem mais ritmo e acontecimentos de destaque em volta do protagonista Fitz, não consigo gostar muito da série.

Sem título 4Terminei Novembro com O Poço da Ascensão, segundo volume da saga Mistborn. Se O Império Final foi uma agradável surpresa para mim, O Poço da Ascensão já não gostei tanto, e os poderes “mágicos” da protagonista contribuíram para perder a credibilidade do mundo apresentado. Ainda assim, foi um livro muito interessante, com vários dilemas morais. Brandon Sanderson fez-me refletir bastante sobre relações humanas, de amor e amizade, mas acima de tudo os debates em volta da honestidade de um rei e no papel que ele deve ter fez-me lembrar o Príncipe de Maquiavel. A questão religiosa e a forma como a fé interfere no nosso modo de vida foi muito pertinente. Uma surpresa muito agradável foi O Retrato de Dorian Gray. Nunca vi o filme, mas adorei o livro. A história de um jovem aristocrata britânico idolatrado por todos graças à sua beleza, que o torna obcecado pelo superficial da vida e pelo prazer momentâneo. Uma experiência enriquecedora, porque tanto a escrita de Oscar Wilde como todas as críticas que ele apresentou de forma discreta fizeram imenso sentido para mim. Seguiu-se Histórias de Aventureiros e Patifes. Já queria ter esta antologia desde que foi publicada no Brasil. Organizada por George R. R. Martin, o autor de A Guerra dos Tronos, e com contos de autores como Neil Gaiman, Patrick Rothfuss e Scott Lynch, só podia ser um brilhante livro de contos. De facto, não foi tão brilhante como eu presumia, mas não deixou de ser uma leitura muito agradável. No conjunto, o conto de Lynch foi o meu preferido. Não conhecia o trabalho de Gillian Flynn, nem de Connie Willis, mas fiquei deliciado com as duas escritoras.

Sem títuloA Celebração (The Festival) é um ótimo conto de H. P. Lovecraft. Um sujeito encontra-se a revolver o passado da sua família e encontra um livro, o maligno Necronomicon, que o coloca numa espécie de transe que o conduz às catacumbas sob uma igreja, onde vive um mal muito antigo. É arrepiante a descrição pormenorizada dos rituais, das criaturas, da procissão. Adorei. Voltei a Brandon Sanderson para ler a primeira parte do terceiro volume original de Mistborn. Em O Herói das Eras, Vin e Elend estão mais unidos do que nunca, agora que ele finalmente revela todo o seu potencial. Os cenários mudam e o casal tenta manter o Império unido, ao mesmo tempo que precisam lutar contra o mal incorpóreo que libertaram no Poço da Ascensão. Nota-se um excelente desenvolvimento de personagens, as pontas estão a ser bem amarradas, mas ainda assim algumas explicações dadas pelo autor pareceram forçadas e as espécies criadas pelo Senhor Soberano desagradaram-me.  Tis The Season é um conto natalício do autor de ficção científica China Miéville. É passado num futuro em que tudo o que está relacionado ao Natal tornou-se marca registada de uma empresa. Ao mesmo tempo crítico e cómico, o conto fala-nos sobre um pai divorciado que, ao procurar uma prenda para a filha, ganha bilhetes para comemorar o Natal no centro de Londres. É aí que estala a confusão. Gostei bastante, este é um autor que só oiço falar muito bem e tenho pena de ainda não estar publicado em português. E assim termina o meu 2015 em termos literários. Um excelente 2016 para todos vós que seguem o meu blogue. 😀