TAG – Carnaval Literário

Boa tarde! Hoje trago-vos uma TAG literária propícia à quadra. É a TAG – Carnaval Literário e e todos estão convidados a fazer a sua. Vamos ver o que me vai calhar. :p

#1 O melhor carro alegórico

Um livro que todos adoraram, tu estavas com medo de ler e acabaste por cair no hype

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O Império Final é, definitivamente, um livro que eu tinha a certeza que ia odiar antes de ler. Felizmente Brandon Sanderson trocou-me as voltas e embora Mistborn tenha as suas falhas, é uma saga que recomendo a todos os amantes de boa fantasia.

#2 A vida são dois dias, mas o Carnaval são três

Um livro que lias, lias, lias, e parecia nunca mais acabar

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O quarto livro da Saga do Assassino de Robin Hobb, A Vingança do Assassino, foi uma verdadeira indigestão. Sequências lentas repetiram-se umas atrás das outras, e apesar de não ter desgostado do livro no seu todo (e confesso já ter saudades da saga), foi um volume de tamanho médio que demorei muito tempo a ler.

#3 Camarote VIP

Um livro que leste antes de virar moda

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Bem, não posso dizer que fui um pioneiro na leitura de A Guerra dos Tronos (nem pouco mais ou menos), mas li-o mal saiu a primeira temporada da série de televisão e o hype ainda não era nada comparado ao que se tornou.

#4 Atrás da multidão

Um livro que “toda a gente leu” e tu ainda não

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A par das séries de Peter V. Brett e Robert Jordan, Crónicas do Regicida de Patrick Rothfuss é uma das mais famosas que ainda não tive o privilégio de ler. Apesar de já ter lido um conto de Rothfuss que não me convenceu, espero que este seja o ano em que finalmente leia O Nome do Vento.

#5 Loucura Total

Um livro que todos te aconselharam e… não gostaste

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Sandman, de Neil Gaiman, é uma das obras mais consensuais dentro do universo das bandas-desenhadas. Apesar de não ter gostado do primeiro volume, Prelúdios e Nocturnos, insisti na leitura e li toda a série. Não conseguiu agradar-me por aí além em nenhum momento, mas reconheço o seu mérito.

#6 Terça-Feira é o último dia

Um livro que chegou ao fim, mas querias que não acabasse ali

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Sem dúvida um dos meus livros preferidos de sempre, República de Ladrões de Scott Lynch não conseguiu atingir o patamar de excelência do primeiro volume da sua série, As Mentiras de Locke Lamora, mas ainda assim deixou-me com aquele gostinho de “quero mais” pela chuva de expectativas que o final deixa para o quarto volume.

#7 Depois do Carnaval, a ressaca

O livro que te deixou com a maior ressaca literária

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O último livro das Crónicas de Gelo e Fogo. Pois é, senhor Martin. Temos muito que falar. Deixar os leitores anos e anos à espera para saber o que aconteceu, quando os protagonistas da saga estavam em situações críticas, é mau demais. Os Reinos do Caos deixou-me de ressaca até hoje.

Sintam-se à vontade para participar e responder à TAG – Carnaval Literário.

O Cavaleiro de Westeros

Tinha medo de dragões, porque viu o animal do tio devorar a sua mãe.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Cavaleiro de Westeros” (Formato conto e BD)

George R. R. Martin é um nome que dispensa apresentações. Um dos melhores autores de ficção especulativa da atualidade, o criador das Crónicas de Gelo e Fogo é uma das maiores apostas da Edições Saída de Emergência no segmento literatura fantástica, e não obstante o seu período sabático em termos de publicações, todos os pretextos são bons para ler e reler os seus livros.

Conhecido por matar protagonistas a esmo, George R. R. Martin foi convidado por Robert Silverberg para escrever um conto para a antologia Legends, onde constavam nomes sonantes como Ursula K. Le Guin, Stephen King ou Terry Pratchett. Foi assim que, em 1998, nasceu uma prequela para a sua famosa saga de fantasia, passada cem anos antes da ação fantástica de A Guerra dos Tronos.

The Hedge Knight é o conto de que vos falo, mais conhecido em Portugal como O Cavaleiro de Westeros, publicado na versão original na antologia O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias, mas também na adaptação para banda-desenhada, com o trabalho de argumento a cargo de Ben Avery e arte de Mike S. Miller.

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George R. R. Martin a matar personagens (memecenter)

Dunk e Egg

O famosíssimo Torneio de Vaufreixo reunia as casas nobres mais influentes de Westeros. Eles eram os Baratheon com os seus veados exuberantes esculpidos nos escudos, os leões de Lannister, dourados e sobranceiros, os Tyrell de Jardim de Cima com os seus embutidos florais e toda uma vasta panóplia de famílias poderosas com as respetivas diligências de cavaleiros, todos eles ajuramentados à família real, os Targaryen – os do sangue do dragão. Os dragões haviam sido extintos, mas a família que neles veio montada da Antiga Valíria, característica pelos cabelos prateados e olhos violeta, prosperava em Westeros como família real, tendo em Daeron II o rei à época.

O velho Sor Arlan de Pataqueira, um cavaleiro andante, viajava para o famoso torneio com o seu jovem escudeiro, quando morreu de uma gripe. O rapaz, Dunk, que havia sido resgatado por Arlan do Fundo das Pulgas, em Porto Real, era alto e forte, e mantinha o sonho de tornar-se um cavaleiro. Assim sendo, apropriou-se dos pertences do seu amo – espada, escudo, dinheiro e três cavalos – e logo depois de o enterrar rumou a Vaufreixo, tendo em vista participar do torneio.

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Capa Saída de Emergência/Marvel

Encontrou um menino de cabelo rapado, que reconheceu Dunk como cavaleiro, pelas armas que ostentava, mas troçou da sua aparência simples e puída. No entanto, quis que ele o tornasse seu escudeiro. Dunk enxotou-o como uma mosca e parou numa estalagem, onde gastou parte do seu pecúlio em comida. Um fidalgo ébrio, caído para cima de uma mesa, alegou reconhecê-lo de um sonho, mas Dunk não lhe fez caso.

De volta aos estábulos onde deixara os cavalos, Dunk reencontrou o menino careca a brincar aos cavaleiros, montado num dos seus equídeos, e pensou inicialmente que o rapaz seria filho da estalajadeira, até ele lhe dizer que não tinha mãe. Voltou a livrar-se do rapaz, mas viria a reencontrá-lo mais tarde, a caminho de Vaufreixo. A custo, o rapazinho que dizia chamar-se Egg e ser oriundo de Porto Real (assim como Dunk) convenceu-o a tomá-lo como seu escudeiro.

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Prancha Saída de Emergência/Marvel

Vaufreixo

O jovem cavaleiro começou a pensar numa forma de participar no torneio. Os seus pertences eram demasiado módicos para comprar um equipamento digno da alta cavalaria, mas Sor Arlan contara-lhe as regras do torneio e sabia que, ao vencer um adversário, ficaria com os seus pertences de combate. Restava-lhe esperar um adversário mais vulnerável, num primeiro encontro. Ao chegar a Vaufreixo, Dunk vendeu os equipamentos de Sor Arlan e um dos cavalos, para comprar uma armadura boa o suficiente para lutar, mas acabou por se deparar com um grave problema burocrático.

Ao apresentar-se diante do intendente, Plummer, para se inscrever no torneio, este deixou bem claro que teria de provar ser um cavaleiro para participar. Dunk alegou que Arlan o teria investido antes de morrer, mas nem sequer Sor Arlan era muito conhecido. Dos famosos cavaleiros presentes em Vaufreixo, apenas Manfred Dondarrion conhecera o velho, mas quando Dunk o procurou para que este o comprovasse, disse não se recordar dele. Quando Dunk voltou a Plummer para lhe comunicar a incapacidade de atestar a veracidade das suas alegações, porém, encontrou-o numa conversa algo privada com alguns homens de aspeto poderoso. Depressa percebeu que entre aqueles homens encontravam-se Baelor Quebra-Lanças e o seu irmão Maekar Targaryen, dois dos quatro filhos do Rei Daeron. Surpreendentemente, Baelor lembrava-se de Sor Arlan e das suas façanhas, autorizando Dunk a entrar no torneio.

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Baelor Quebra-Lanças (Mike S. Miller)

Uma série de aventuras sucederam-se, sempre com Dunk e o pequeno Egg como protagonistas. Dunk estabeleceu amizade com dois irmãos Fossoway (ainda que o final da história traga uma cisão que viria a dividir a casa em duas fações) e encantou-se por uma marionetista dornesa chamada Tanselle, que acabou por contratar para desenhar no velho escudo de Arlan o seu novo brasão: uma estrela cadente sobre um ulmeiro, com um pôr-do-sol como fundo. Na verdade, a cena com que Dunk e Egg tinham sido presenteados, uma vez que não havia dinheiro para comprar um pavilhão para pernoitar.

Dunk percebeu que vários principelhos, netos do rei, perambulavam por Vaufreixo, e alguns deles poderiam mesmo frequentar o torneio. No primeiro dia, Dunk viu que um deles, Valarr, seria o melhor adversário para enfrentar, o mais fácil, por assim dizer. Compreendeu também que o príncipe Maekar estava desesperado com o desaparecimento dos seus dois filhos mais novos, Daeron e Aegon, possivelmente assaltados ou capturados na estrada. Para piorar a situação, Aerion, o seu irascível filho mais velho, tornou a vida de Dunk tremendamente difícil, ao atacar a marionetista. Um volte-face que pôs a nu uma série de mentiras e identidades. Maekar, o quarto filho do rei, e os seus quatro filhos. Uma provocação. Um capricho. Um julgamento. Uma ajuda inesperada. Dunk e Egg e um sem-número de possibilidades.

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Prancha Saída de Emergência/ Marvel
SINOPSE:

O continente de Westeros é o cenário onde se desenrola a saga de George R. R. Martin, as Crónicas de Gelo e Fogo. O Cavaleiro de Westeros decorre cerca de cem anos antes do início do primeiro livro das Crónicas, no tempo do rei Daeron, com o reino em paz e a dinastia Targaryen no auge do seu poder.

Quando a vida de um cavaleiro termina, a sua morte pode ser o começo de uma nova vida para o seu escudeiro. Intitulando-se de “Sor Duncan, o Alto”, o jovem Dunk parte em busca de fama e glória no torneio de Vaufreixo, mas também sonha em prestar juramento como cavaleiro dos Sete Reinos. No caminho, encontra um rapaz misterioso que está determinado em ajudá-lo na sua demanda. Infelizmente para Dunk, o mundo pode não estar preparado para um cavaleiro que mantém a sua honra. E os seus métodos cavalheirescos podem vir a ser a sua ruína… Uma história fascinante sobre honra, violência e amizade, pela mão do grande mestre da literatura fantástica: George R. R. Martin.

OPINIÃO:

Apesar de a BD já ter sido publicada por cá em 2012, e o conto em 2013 (incluído na antologia O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias), ainda não tinha tido o privilégio de ler esta história, que acaba por ser apenas a primeira de uma prequela em três atos dedicada a Sor Duncan, o Alto e ao seu escudeiro Egg. Agora, em jeito de remissão, acabei por ler a BD em inglês e, para a compreender melhor, li o conto na íntegra, disponibilizado gratuitamente no site da Edições Saída de Emergência.

Posso dizer que é difícil superar George R. R. Martin… até para ele mesmo. Não atinge o patamar de excelência dos livros da saga-mãe, mas também não desilude. O Cavaleiro de Westeros é um retrato credível do ambiente apaixonante das liças medievais da nossa Idade Média, com a diferença de que estamos em Westeros e todas as Casas e personagens são ficcionais. A ação do conto é corrida e reserva muitas surpresas, mas posso dizer que a leitura foi melhorando gradativamente, à medida que se ia desenrolando, tanto no que concerne à história, como à própria escrita de Martin.

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Imagem Saída de Emergência/ Marvel

É impossível ficar indiferente às intrigas políticas que pautam as relações entre os Targaryen e os seus partidários, e à forma como personagens completamente inócuos se tornam pilares basilares de grandes eventos e promotores de atritos que viriam a tornar-se lendários. Dunk é um personagem de fácil empatia, cuja ambição se mescla com a falta de auto-confiança, em parte pelo passado miserável, em parte pelas alcunhas e ditos trocistas do homem que o tomou como um filho. Porém, até os mais elevados homens de Westeros respeitam-no pela imponência física e pela honra demonstradas. Ainda assim, é o pequeno Egg quem mais me cativou, não só pela irreverência, como pela história do personagem.

Se já realcei que a escrita de Martin foi melhorando (apesar de ser boa de uma ponta à outra do conto), a cena que mais me fascinou foi aquela em que os detalhes viscerais de um determinado príncipe moribundo nos são apresentados, à medida que percebemos a validade terrível do sonho vaticinador de Daeron. No que diz respeito à BD, a adaptação de Ben Avery acaba por ser uma quase transposição de frases-chave do conto, enquanto a ilustração merece os meus melhores elogios. Mike S. Miller exibe um traço vigoroso e claro, mas são os coloridos que enchem o álbum de vivacidade e de alma.

Avaliação : 7/10