Estive a Ler: Uma Coluna de Fogo

Sentíamo-nos felizes porque não sabíamos os enormes problemas que estávamos a causar. Não se tratava apenas de mim, claro; eu era o sócio mais novo de outros, muito mais velhos e bastante mais sábios. Nenhum de nós, porém, via o futuro.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO UMA COLUNA DE FOGO

Ken Follett é sinónimo de sucesso literário. Não é à toa que, saltando entre o thriller de espionagem e o romance histórico, o autor britânico seja um dos mais requisitados escritores do nosso tempo. Após os êxitos de Os Pilares da Terra e Um Mundo Sem Fim, Follett regressa a Kingsbridge, agora em pleno século XVI, numa luta renhida entre Isabel Tudor e Maria Stuart, que representaram os ideais protestantes e católicos que esgrimiram à época.

Uma Coluna de Fogo saiu o ano passado, em setembro, num lançamento internacional simultâneo a que a Editorial Presença não faltou, num golpe de marketing que incluiu a vinda a Portugal do autor britânico. Com um total de 768 páginas e tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral, o livro continua o ciclo de livros passados em Kingsbridge, embora esteja muito mais voltado para as crises políticas e para a diplomacia internacional. 

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Fonte: http://tvline.com/2017/04/20/reign-series-finale-date-june-2017/

Adorei Os Pilares da Terra e Um Mundo Sem Fim e de cada vez que me cruzava com este livrinho nas livrarias só dizia para mim mesmo: será que vale o preço? A crítica era favorável ao livro, mas com uma tendência para o julgar inferior aos outros. O preço não é para qualquer carteira, mas a verdade é que não foi dividido, ao contrário dos anteriores. Por tudo isso, procrastinei na aquisição do livro até a minha namorada decidir comprar-mo.

“Há toda a segunda metade do século XVI a ser desbravada sem cortesias históricas.”

Afinal, gostei tanto deste como dos anteriores livros do chamado ciclo de Kingsbridge, o que achava não ser possível. Construída por personagens fictícias que se tornaram lenda, Kingsbridge é a terra natal dos protagonistas deste volume, mas pouco mais. As conspirações e guerras religiosas já não têm o povoado como eixo central, ele é um mero cenário como tantos outros. Ainda assim, a intriga política que perpassa toda a Europa agradou-me imenso.

livro ken follett
Fonte: https://www.presenca.pt/editorial/uma-coluna-de-fogo/?bc_oid=13361149

Ken Folett utiliza a mesma fórmula dos romances anteriores, mas consegue reinventar-se. Os dons artísticos das personagens deixaram de ser a manufatura e a construção e passaram a tratar de oratória e estratégia política. Se ao princípio tudo parecia encaminhado para que Uma Coluna de Fogo seguisse o mesmo trajeto de amor que ultrapassa todas as barreiras que perpassou os anteriores volumes, ele toma as decisões narrativas acertadas e com realismo coloca duas mulheres admiráveis, com defeitos e virtudes, a amar o mesmo homem.

Mas nem só de amor se vive Uma Coluna de Fogo. Há guerras, intrigas políticas, traições, espiões, motins, preconceitos, ódios figadais, encontros e desencontros. Há batalhas navais, execuções e violações. Há prisões e sexo. Há terra, há mar e há lama. Livros proibidos a ser vendidos. Mortes inesperadas. Há toda a segunda metade do século XVI a ser desbravada sem cortesias históricas.

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Fonte: https://www.panmacmillan.com/blogs/fiction/ken-follett-column-of-fire-kingsbridge-cathedral

E depois há William Cecil e Francis Walshingham, duas figuras que sempre me fascinaram, leais diplomatas e espiões da coroa britânica, no caso, de Isabel Tudor. Entre eles, Follett colocou o seu protagonista fictício, o matreiro e combativo Ned Willard. Que personagem! Adoro protagonistas que passam regularmente a perna aos inimigos e este Ned é incrivelmente bom, tendo inclusive uma participação capital na célebre Conspiração da Pólvora que notabilizou o incontornável Guy Fawkes.

Filho de Alice Willard, uma mulher com muito jeito para o negócio que é vítima da ganância e da corrupção que se vive em Kingsbridge no período católico, representada pelo bispo Julius, Ned é admitido por Cecil como diplomata, tendo de deixar para trás não só Kingsbridge, como a mulher que ama, prometida pelos pais dela a Bart, filho do odioso Swithin, conde de Shiring.

Margery Fitzgerald não é uma protagonista tão forte ou charmosa como Aliena ou Caris, personagens maiores dos romances anteriores de Kingsbridge, e em alguns momentos cheguei mesmo a censurar o seu comportamento, embora seja difícil odiá-la com tanto que sofreu. Esta falta de pujança, de uma personagem que ao início prometia muito, porém, ofereceu ao autor uma série de liberdades literárias que deu uma boa credibilidade à trama, embora na fase final acabe por conquistar o protagonismo que havia prometido.

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Fonte: https://shirleywhiteside.com/2017/09/18/a-column-of-fire-by-ken-follet/

Margery é filha de Reginald Fitzgerald e irmã do traiçoeiro Rollo (não consegui parar de imaginar o Rollo da série Vikings na minha cabeça), uma família católica, sendo descendente do visceral Ralph Fitzgerald de Um Mundo Sem Fim. Por sua vez, os Willard descendem de Merthin, irmão de Ralph. Uma das figuras mais fascinantes desta família é Barney, irmão de Ned e mais uma personagem forte e muito bem explorada, partilhando com o irmão o charme e a boa índole. As suas aventuras em Espanha são incríveis.

“Ken Follett une uma prosa riquíssima a uma história de contexto real que nos faz devorar página após página

Mas as personagens são tantas e tão boas que é difícil referirmo-nos a todas. Em Espanha temos Carlos Cruz, um ferreiro de talento e o seu escravo Ebrima, que reclama para si o protagonismo das cenas ao longo do livro. Em Inglaterra temos Alison McKay, a astuta melhor amiga de Maria Stuart, capaz do melhor e do pior. Em França temos a corajosa Sylvie Palot, que segue a tradição de uma família protestante, sendo obrigada a passar pelas maiores privações e desilusões pelo caminho.

E há Pierre Aumande, o alpinista social. Vilão de mão cheia, o filho bastardo de um filho bastardo da poderosa família Guise, não olha a meios para atingir o reconhecimento que o seu coração vê como premente. Retorcido e vingativo, tudo faz para conquistar as boas graças do bispo Charles de Guise e do seu irmão, o terrível Cicatriz, mas as suas ações, mais do que o poderem colocar no poder, podem também fomentar um atrito cada vez mais contundente entre católicos e protestantes.

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Fonte: https://www.rogerebert.com/reviews/elizabeth

Credível e empolgante, Ken Follett une uma prosa riquíssima a uma história de contexto real que nos faz devorar página após página para satisfazer o desejo de saber o que vai acontecer às personagens. O último terço do volume perdeu alguma qualidade muito por conta dos sucessivos saltos temporais, para além de várias personagens desaparecerem simplesmente da trama sem lhes conhecermos um fim, mas não podia terminar o livro mais satisfeito com tudo o que aprendi e o que li sobre este período histórico.

O romance perpassa uma época que me diz mais, pessoalmente, do que os períodos mais medievais em que os volumes anteriores foram narrados, e os jogos de poder, o tal xadrez diplomático que me apaixona, é aqui jogado por mentes brilhantes. Ao mesmo tempo, sou emocionalmente roubado pelos dissabores e paixões dos protagonistas. Uma Coluna de Fogo é isto tudo, e só posso louvar a Presença pela coragem de o publicar num único volume.

Avaliação: 10/10

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As Escolhas de 2017

O ano de 2017 está à beira do fim e chegou a altura dos balanços literários. De modo geral, acabou por ser um ano sensivelmente idêntico ao anterior, com mais de 90 leituras no seu todo, embora este ano tenham sido significativamente mais livros e menos BDs que no ano pretérito, conforme podem conferir na minha listagem de leituras de 2017. 44 livros de bandas desenhadas, 44 livros em prosa e mais alguns contos soltos perfazem um ano cheio de surpresas e boas leituras.

Robin Hobb (6 livros), Neil Gaiman (7 BDs e 2 livros), Brandon Sanderson (2 livros, 1 BD e 1 conto) e Robert Kirkman (5 BDs) foram os autores que mais li este ano, mas vários foram aqueles de que repeti a “dose”. Conheci nomes como Patrick Rothfuss (li tudo o que havia do nosso Kvothe), Michael Moorcock (três volumes de Elric), Jon Skovron (dois volumes de Império das Tormentas), Brent Weeks (dois volumes de Anjo da Noite) e Noelle Stevenson (Nimona) e terminei várias séries que tinha em suspenso, como a Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence, A Primeira Lei de Joe Abercrombie ou A Torre Negra de Stephen King.

Fiquem, então, com as minhas escolhas literárias do ano de 2017.

MELHOR LIVRO

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O Assassino do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #1), Robin Hobb

aqui a opinião

Praticamente empatado com A Súbita Aparição de Hope Arden de Claire North nas minhas preferências literárias de 2017, O Assassino do Bobo talvez tenha a vantagem de pertencer ao género que mais me agrada, a fantasia épica. Profundo, dramático, bem desenvolvido e até enternecedor, o primeiro volume da terceira trilogia de Robin Hobb foi a minha melhor leitura do presente ano. Na minha escolha, pesou também o facto de ter lido os 5 livros da série anterior este ano, e todos com nota elevada. Hobb merece a medalha de ouro.

MELHOR FANTASIA

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O Assassino do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #1), Robin Hobb

aqui a opinião

Pensei seriamente que seria mais difícil escolher o melhor livro de fantasia do ano, quando a pouco mais de um mês para o final, Robin Hobb facilitou-me a tarefa. Ainda assim, foi um ano fantástico para mim como amante do género. Deslumbrei-me com Elantris e Warbreaker de Brandon Sanderson, amei os livros da Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss e ainda tive direito à primeira parte de Os Portões da Casa dos Mortos de Steven Erikson.

MELHOR FICÇÃO CIENTÍFICA

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A Súbita Aparição de Hope Arden, Claire North

aqui a opinião

Quem também me facilitou a tarefa foi Claire North, com algumas ressalvas. Este livro está normalmente catalogado num sub-género de Fantasia, magia urbana, é também um thriller mas, acima de tudo, a trama gira em torno de uma aplicação futurista para smartphones, o que justifica encontrá-lo tantas vezes vinculado à FC, e razão pela qual acabei por incluí-lo nesta categoria. O romance venceu o The World Fantasy Award 2017 com todo o mérito. No entanto, leituras como Terrarium de João Barreiros e Luís Filipe Silva, Autoridade de Jeff VanderMeer, Os Despojados de Ursula K. Le Guin e a space opera Saga (formato BD) de Brian K. Vaughan e Fiona Staples também me ficaram na retina.

MELHOR HORROR

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Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe, Edgar Allan Poe

aqui a opinião

Entre alguns contos de Robert E. Howard e BDs como Harrow County e Outcast, acabou por ser esta lindíssima coletânea da Saída de Emergência, com ilustrações de 28 artistas nacionais, o livro que mais me marcou dentro do género Horror em 2017. Os contos que mais me agradaram foram “A Queda da Casa de Usher” e “Os Crimes da Rua Morgue”. Em 2018 espero ler mais histórias dentro deste género especulativo.

MELHOR ROMANCE HISTÓRICO

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Um Mundo Sem Fim, Ken Follett

aqui e aqui a opinião

Uma vez mais, a minha escolha no género Romance Histórico ficou dividida entre Ken Follett e Bernard Cornwell, acabando por ser o primeiro a vencer. Embora ambos sejam ótimos, a escrita de Follett encanta-me com uma profundidade a que o autor das Crónicas Saxónicas ainda não me conseguiu chegar. Um Mundo Sem Fim, dividido em Portugal em dois volumes, foi publicado pela Editorial Presença, enquanto o terceiro volume das Crónicas de Cornwell, Os Senhores do Norte, chegou até nós pelas mãos da Saída de Emergência.

MELHOR ANTOLOGIA / COLETÂNEA

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Mulheres Perigosas, Organização George R.R. Martin e Gardner Dozois

aqui a opinião

Embora tenha lido algumas coletâneas de contos, esta acabou por ser a melhor antologia que li em 2017. Permeada de autores renomeados como Melinda M. Snodgrass, Carrie Vaughn, Brandon Sanderson, Joe Abercrombie e Megan Abbott, a antologia da Saída de Emergência oscilou entre os contos muito bons e outros menos. Sam Sykes foi a grande surpresa do conjunto e George R. R. Martin voltou a mostrar aquilo que vale.

MELHOR CONTO

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Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno, Brandon Sanderson

aqui a opinião

Incluído em Mulheres Perigosas, o conto “Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno” foi não só o melhor conto da antologia, como o melhor que li em 2017. Ambientada no universo da Cosmere, a história de uma mulher cheia de recursos que gere uma estalagem numa floresta prenhe de fantasmas cativou-me. Mais um pequeno exemplo de que Brandon Sanderson é um dos autores que deve, urgentemente, voltar a ser publicado em Portugal. Destaque ainda para o ciclo de leituras em que estou a participar, no qual revisito vários dos contos de Robert E. Howard, que merecem as minhas menções de honra.

MELHOR BANDA-DESENHADA

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Saga Volume 7, Brian K. Vaughan e Fiona Staples

aqui a opinião

Este ano, Saga conseguiu suplantar The Walking Dead como a minha BD favorita, embora ambas continuem ótimas. Se o volume 6 da space opera já me havia fascinado, no 7.º o enredo só melhora. Resta-me enaltecer o trabalho da G Floy Studio neste segmento. Num ano em que li mais de 40 BDs, entre elas toda a coleção Sandman de Neil Gaiman, livros como A Garagem Hermética e A Louca do Sacré-Coeur de Moebius, acabaram por ser as BDs da Image Comics que a G Floy tem trazido até nós a marcarem-me.

Wytches, The Witched + The Divine, a trilogia Velvet, Southern Bastards, Tony Chu: Detective Canibal e Outcast são alguns dos destaques do ano, e provas de que a G Floy está a crescer a olhos vistos. Quero, porém, deixar ainda um louvor para as excelentes Nocturno de Tony Sandoval (Kingpin), Monstress: Despertar de Marjorie Liu e Sana Takeda (Saída de Emergência), Nimona de Noelle Stevenson (Saída de Emergência) e Como Falar Com Raparigas em Festas de Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá (Bertrand).

MELHOR LANÇAMENTO

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O Assassino do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #1), Robin Hobb

aqui a opinião

Não podia deixar de vencer em todas as categorias em que se insere. O Assassino do Bobo foi lançado em maio pela Saída de Emergência, mas só em novembro é que o li, porque ainda me faltava ler a segunda série protagonizada por Fitz antes de mergulhar nesta terceira. Ainda assim, este ano foi fantástico em lançamentos, nomeadamente pela Saída de Emergência no que diz respeito à fantasia e também com a sua nova incursão no mundo das bandas-desenhadas. Outros livros que foram lançados este ano e merecem o meu destaque, mas não só a nível nacional como internacional, foram Origem de Dan Brown (Bertrand) e Mitologia Nórdica de Neil Gaiman (Editorial Presença), que li neste último semestre do ano.

MELHOR NACIONAL

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Terrarium, João Barreiros e Luís Filipe Silva

aqui a opinião

2017 foi mais um ano com espaço para a literatura nacional. Li a antologia Os Monstros que nos Habitam (que inclui um conto meu), A Nuvem de Hamburgo de Pedro Cipriano, Anjos de Carlos Silva, Moving, Fighting the Silent e Mission in the Dark de Bruno Martins Soares, La Dueña de José Augusto Alves e Conquista da Liberdade de Jay Luis, mas foi a nova edição de Terrarium, revista e aumentada pelos dois autores, e publicada pela Saída de Emergência, que mais me agradou. João Barreiros e Luís Filipe Silva são os mestres da FC no nosso país e merecem todo o destaque que lhes possa ser dado, para que o seu talento possa chegar a mais e a mais pessoas.

Deixo-vos com os mais sinceros votos de um ano de 2018 cheio de boas surpresas e que para o próximo ano continuem a acompanhar as minhas indicações literárias. Boas leituras para todos.

A Divulgar: Ken Follett e Dan Brown em Portugal

O Grupo Bertrand parece, definitivamente, apostar todas as fichas nesta rentrée literária, e não é para menos. Após a revelação das novas apostas da editora, como Nada de Janne Teller, uma obra que chegou a ser proibida na Dinamarca, ou Creta 1941 de Anthony Beevor, a Bertrand Editora anunciou a presença em Portugal de Dan Brown para apresentar a sua mais recente e tão aguardada obra, Origem. Também a Editorial Presença convidou Ken Follett a estar no nosso país no âmbito do lançamento da sua mais recente publicação.

Ken Follett estará em Portugal já no próximo dia 24 de setembro, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, para apresentar o seu novo romance, Uma Coluna de Fogo, passado no mesmo cenário – o priorado de Kingsbrigde – que os seus grandes sucessos Os Pilares da Terra e Um Mundo Sem Fim (podes ler as minhas opiniões aos livros aqui, aqui, aqui e aqui). O novo livro já se encontra nas bancas, lançado no passado dia 12 de setembro. Para estar com o autor britânico pessoalmente, é só ir ao CCB no dia 24. O evento é de entrada gratuita.

Quatro anos depois de Inferno (lê a minha opinião aqui), o autor norte-americano Dan Brown regressa às estantes nacionais com um novo thriller repleto de enigmas e simbologias protagonizado pelo já habitual Robert Landgon. Desta vez, Langdon irá procurar respostas para as origens do Homem. Origem será lançado em Portugal a 4 de outubro, e o autor estará também no Centro Cultural de Belém para apresentar o livro no dia 15, um domingo. Será um evento aberto ao público e com entrada gratuita que promete uma forte aderência, graças ao imenso sucesso de Dan Brown no nosso país. Dois dos mais populares autores mundiais, dois eventos literários que ninguém vai querer perder.

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Fonte: Editorial Presença

 

Resumo Trimestral de Leituras #9

O primeiro trimestre do ano chegou ao fim e com ele chegou a altura de fazer o habitual balanço trimestral de leituras. De Ken Follett a Neil Gaiman, passando por Brandon Sanderson e George R. R. Martin, revisitei alguns dos meus escritores favoritos e ainda tive o prazer de iniciar a Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss. Vejam a lista de leituras dos meses de janeiro, fevereiro e março:

A Darkness Surrounds Him, Outcast #1 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

The Whisperer War, The Walking Dead #27 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

Inimigos – Anton Tchekov

Um Jogo de Ti, Sandman #5 – Neil Gaiman

Fábulas e Reflexões, Sandman #6 – Neil Gaiman

Um Mundo Sem Fim, Vol. 1 – Ken Follett

Um Mundo Sem Fim Vol. 2 – Ken Follett

Vidas Breves, Sandman #7 – Neil Gaiman

A Estalagem no Fim do Mundo, Sandman #8 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 1, Sandman #9 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 2, Sandman #10 – Neil Gaiman

A Vigília, Sandman #11 – Neil Gaiman

Warbreaker, Warbreaker #1 – Brandon Sanderson

La Dueña – J. A. Alves

Vidas Secretas de Homens Mortos, Velvet #2 – Ed Brubaker, Steve Epting e Elizabeth Breitweiser

Autoridade, Área X #2 – Jeff Vandermeer

O Cavaleiro de Westeros – George R. R. Martin

White Sand #1 – Brandon Sanderson

Terrarium – João Barreiros e Luís Filipe Silva

Príncipe dos Dragões, Elric #1 – Michael Moorcock

Loki – Robert Rodi e Esad Ribic

Assombrações Sem Fim, Harrow County #1 – Cullen Bunn e Tyler Crook

Saga #6 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Um Diamante Para o Além, Bouncer #1 – Alejandro Jodorowsky e François Boucq

O Nome do Vento, Crónica do Regicida #1 – Patrick Rothfuss

sem-tituloO ano iniciou-se com um desafio em mente: começar a série fantástica de Patrick Rothfuss e ler os dois volumes em português do famoso Mundo Sem Fim de Ken Follett. E não é que cumpri? Janeiro foi um mês rico em leitura de bandas-desenhadas. Comecei com o primeiro volume da BD Outcast de Robert Kirkman, o mesmo autor de The Walking Dead. A Darkness Surrounds Him apresenta Kyle Byrnes como protagonista, e uma narrativa sombria prenhe de possessões demoníacas e histórias de vida dramáticas e violentas. Muito diferente da história de mortos-vivos, a mais conhecida de Kirkman, agradou-me acima de tudo pela forma como toda a temática é explorada de forma fluída e misteriosa. Também li o mais recente volume de The Walking Dead, a edição 27. The Whisperer War mostrou ser apenas a primeira batalha entre as comunidades e os Sussurradores. O exército de Rick, liderado por Dwight e com Negan na linha da frente, vence o primeiro round. No entanto, Hilltop é completamente destruída e a muito custo Maggie, Carl, Aaron e Jesus conseguem derrotar os seus inimigos. Mais um volume genial, que tem direito ao “funeral” de Lucille.

sem-tituloAinda nos primeiros dias de janeiro li o conto de Anton Tchekov Inimigos, uma história tão curta que não achei necessidade de escrever uma opinião. Fala sobre Varka, uma jovem criada cuja tarefa de adormecer um bebé faz-lhe crescer uma intensa sensação de sonolência, que é incapaz de dominar. Li ainda, de uma assentada, o que faltava da coleção Sandman (Vol. 5, Vol. 6, Vol. 7, Vol. 8, Vol. 9, Vol. 10, Vol. 11) de Neil Gaiman, publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público. Entremeando histórias soltas com uma linha narrativa central, Gaiman soube tecer toda a narrativa nos últimos volumes, que trouxeram inúmeras reflexões e uma sensação de renovação e esperança ao leitor. Apesar disso, Sandman não me apaixonou em nenhum momento e, por muito mérito que tenha, soou-me muito a “eterna promessa” e a histórias vagas.

sem-tituloDividido em Portugal em dois volumes, o livro Um Mundo Sem Fim (Vol. 1 e Vol. 2) de Ken Follett agarrou-me desde o primeiro momento. Apesar de repetir a receita de Os Pilares da Terra, adorei tanto um como o outro. Histórias dramáticas de amor e superação, sobre religião, política, medicina e sobrevivência. Uma história de época que retrata o drama da Peste Negra e a Guerra dos Cem Anos. Warbreaker é um livro de Brandon Sanderson, o autor do momento no que diz respeito à literatura fantástica. Uma espada falante, cabelos que mudam de cor mediante as emoções, soldados mortos-vivos que são comandados através de palavras de ordem, a capacidade de dar vida a objetos inanimados e, principalmente, um panteão de deuses que está bem vivo e habita entre os demais. Original e muito bem escrita, esta obra de fantasia consegue também acumular bons momentos de humor e imensas reviravoltas.

sem-tituloComecei fevereiro com La Dueña: Devoradora de Homens. Da autoria de J. A. Alves, o autor de Batalha Entre Sistemas, La Dueña mostra todo o esplendor dos llanos venezuelanos e uma história tensa de superstições locais e pactos com o demónio. Chris viaja até à Venezuela com a noiva, Ana Clara, para conhecer a fazenda que herdou do seu tio Miguel, mas quando lá chega encanta-se por Yolanda, a dona da fazenda vizinha. Dizem que essa mulher rouba a alma de todos que por ela se apaixonam. Gostei imenso. Vidas Secretas de Homens Mortos, o segundo volume da graphic novel Velvet traz-nos o melhor da equipa composta por Ed Brubaker (argumento), Steve Epting (ilustração) e Elizabeth Breitweiser (cores). Uma história de espionagem tensa que prende desde o primeiro momento. Velvet é uma antiga espia que se vê atirada para o centro da ação quando o seu superior é assassinado. Neste segundo volume, ela tenta descobrir quem a tramou e porquê, depois de saber que o seu esposo não era quem ela pensava. Entre soltar um prisioneiro, fazer uma viagem de comboio alucinante e fugir a cães-pisteiros, Velvet passa por várias amarguras neste excelente segundo álbum da trilogia.

sem-tituloAutoridade é o segundo volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer. Se esta história que mistura o terror psicológico ao bizarro (o new weird fiction) me fascinou no primeiro volume ao mostrar in loco as experiências vividas por quatro exploradoras numa zona frondosa alegadamente contaminada, este segundo livro vai mais além ao apresentar-nos Control, o novo diretor da agência que as enviou, e é através dele – tão ingénuo quanto o leitor – que vamos descobrindo, nos escritórios da Extensão Sul, os terríveis segredos que a agência guarda sobre aquela região tenebrosa. Passado 100 anos antes da ação de A Guerra dos Tronos, O Cavaleiro de Westeros (versão conto de George R. R. Martin e BD com adaptação de Ben Avery e ilustrações de Mike S. Miller) narra a ação no Torneio de Vaufreixo durante o reinado de Daenor II. Sor Arlan de Pataqueira morre de uma gripe a caminho do torneio, e o seu escudeiro Dunk resolve disputá-lo. Para isso, terá de contar com a ajuda do pequeno Egg e provar ser um cavaleiro, o que o irá colocar no cerne de várias disputas e provocar uma tempestade no reinado então calmo dos Targaryen. Excelente conto muito bem escrito, enquanto a BD se destaca pelas ilustrações cativantes e coloridas.

sem-titulo-2White Sand é uma graphic novel da Dynamite Entertainment. Com argumento de Rik Hoskin, ilustrações de Julius Gopez e cores de Ross Campbell, trata-se da adaptação de uma obra não publicada de Brandon Sanderson, com base numa revisão do seu primeiro livro, ambientado no universo Cosmere. Na verdade, este volume inaugural corresponde ao primeiro terço do livro. Em Taldain, um planeta inamovível – metade vive de dia e metade de noite – conhecemos Kenton, um jovem Mestre de Areia que desafia o mundo com a sua teimosia e determinação, vendo-se arrastado para uma conspiração terrível que pode acabar com o seu povo. Apesar de ser uma obra pouco convincente a nível de credibilidade, gostei do álbum. E terminei o mês de fevereiro da melhor forma. Vinte anos depois da publicação original, a Saída de Emergência vem publicar uma versão Redux, melhorada e ampliada de Terrarium, considerado por muitos como o melhor romance de Ficção Científica português. João Barreiros e Luís Filipe Silva são os autores. Estamos num futuro não tão distante assim, em que os exóticos, várias espécies de seres extraterrestres, foram atirados para o nosso planeta por entidades superiores. Quem são as Potestades, os IXytil, e esse tal de Mr. Lux? Uma guerra entre espécies dominantes poderá ser resolvida por meros humanos? Carregado de um humor ácido e termos futuristas, Terrarium é um hino à FC, indispensável para todos os fãs do género em Portugal.

sem-tituloMarço teve também um início auspicioso. Príncipe dos Dragões é o primeiro volume de Elric, uma série de fantasia épica publicada em 1972 por Michael Moorcock. Simples em prosa e carregado de dilemas morais, Príncipe dos Dragões apresenta-nos um Império em declínio e um imperador doente, dependente de drogas para se manter forte. Melniboné é o seu domínio, abrigo de dragões e de homens terríveis. A tradição relata os melniboneanos como sádicos e perversos, mas Elric parece uma alma generosa e cortês, o que provoca chispas de ódio no seu primo Yyrkoon, que lhe pretende usurpar o trono. O braço de ferro entre Elric e Yyrkoon arrasta-se até às últimas consequências, com Cymoril, a amada de Elric, no vértice de um triângulo inconstante de amor familiar. Com argumento de Robert Rodi e ilustração de Esad Ribic, a BD Loki mostra uma outra face da história de Thor, focada no seu meio-irmão. De inspiração trágica e enaltecendo a decadência de Asgard através da queda de Odin e dos múltiplos dilemas do personagem-título, foi uma boa leitura que se destaca pelos coloridos e traços fortes.

Sem títuloPrimeiro volume de Harrow County, Assombrações Sem Fim apresenta a história desta povoação isolada no sul dos E.U.A., envolta em superstições e crendices. O povo recorria a Hester para se livrar dos seus problemas domésticos, mas quando a natureza se virou contra eles, depressa atiraram-lhe as culpas e condenaram-na à morte, sob a acusação de bruxaria. A mulher demorou a morrer e jurou regressar. Pouco tempo depois, uma criança surgiu naquele lugar fatídico. Uma brilhante BD de terror, escrita por Cullen Bunn e com arte de Tyler Crook. Brilhante álbum da série Saga, o quinto volume da space opera gráfica de Brian K. Vaughan e Fiona Staples traz uma linguagem crua e brutal, momentos de grande ritmo e ação entremeados por muito humor. A pequena Hazel começa a sua educação numa prisão galática, enquanto os pais procuram desesperadamente por ela. Vontade está de regresso, disposto a vingar a morte da irmã, e nem Gus o consegue parar. Provocante e irreverente, esta série da Image Comics está bem e recomenda-se.

sem-tituloUm Diamante Para o Além é o primeiro volume da série de BD Bouncer de Alejandro Jodorowsky e François Boucq. Publicado pelas Edições ASA em 2007, trata-se de um western subversivo, que narra de forma ficcional os acontecimentos que se sucederam à Guerra da Secessão nos E.U.A. O Capitão Raltan reúne os seus mercenários, que se recusaram a render após o final do conflito militar, espalhando o terror nos ranchos. Mas o que ele procura é um diamante, que roubara anos atrás. Na sua busca, assassina um antigo subordinado, provocando assim a atenção de um familiar daquele. Bouncer é um velho maneta, conhecido por resolver problemas de forma abrupta e imprevisível. Uma BD muito boa, da qual tinha grandes expectativas e não me surpreendeu tanto. E terminei março com O Nome do Vento. Primeiro volume da Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss, esta auto-biografia de um personagem fictício é brilhante. Desde a infância de Kvothe na trupe até aos seus estudos na Universidade, passando por várias privações como espancamentos, fome e dramas familiares, o personagem recorre à ardileza e ao poder da música para sobreviver. Somos apresentados a uma história única que fala sobre superação, música, ciência e amor. O mundo criado é original e misterioso, e os enigmas sobre o Chandrian, uma lenda que se revela real da pior forma, deliciosos. Cativante, fluído e profundo, este foi o livro que apresentou ao mundo a escrita maravilhosa de Patrick Rothfuss.

Depois deste início de ano excelente em leituras, estou a ler Poder e Vingança de Jon Skovron, o primeiro volume do Império das Tormentas, e deverei seguir com Robin Hobb, Mark Lawrence e Bernard Cornwell, pelo que o segundo semestre deve ser também ótimo. Por cá vou continuar a partilhar opiniões, espero que gostem.

Um Mundo Sem Fim #2

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Um Mundo Sem Fim”, volume dois

Um Mundo Sem Fim, de Ken Follett, é o retorno ao maravilhoso priorado de Kingsbrigde, cenário apresentado pelo autor galês no best-seller Os Pilares da Terra. Atravessando os anos turbulentos do século XIV, Follett envolve-se mais uma vez no género romance histórico, num livro dividido em Portugal, pela Editorial Presença, em dois volumes.

Este segundo volume perpassa dois acontecimentos fulcrais da História europeia: A Guerra dos Cem Anos e a Peste Negra. Caris Wooler, a protagonista, tornou-se freira. Acusada de bruxaria – e com uma verruga nas zonas íntimas para o comprovar – viu como única escapatória a ingressão na Igreja, abandonando Merthin e o seu amor. Desolado, o jovem construtor rumou a Florença, onde casou com uma bela italiana e teve uma filha, Lolla. Em Itália, Merthin tornou-se um construtor célebre, rico e influente. Por sua vez, nas terras de Wigleigh, Gwenda luta com todas as armas para sustentar a família e dar justiça à causa do seu esposo Wulfric, que perdera tudo o que mais amava.

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Logo (Série de TV)

A última metade de Um Mundo Sem Fim traz três grandes vilões e, surpreendentemente, nenhum deles é Godwyn. Desde o início, o primo de Caris foi um dos protagonistas da história. Através dos seus pontos de vista, Ken Follett fez o leitor vestir a pele do vilão, conhecer os seus propósitos e receios; viu-o tornar-se prior e trair as expectativas do povo. Este segundo volume traz Godwyn como o grande vilão da história, capaz de tudo em seu próprio benefício. Mas a morte da mãe funciona como um corte de asas no personagem, condenando-o rapidamente à desgraça.

O maior vilão da história não é um personagem, mas sim uma epidemia: a Peste Negra. Leva inúmeros personagens e reinventa todo o mundo que nos havia sido apresentado antes. Conduz Merthin de encontro a Caris e fá-los enfrentar, unidos, os seus maiores inimigos. Dois personagens dividiram também o papel de vilão. Um deles é Ralph Fitzgerald, o irmão de Merthin. Perdoado pela violação de Annet, Ralph ingressa no exército do rei Edward III, marchando ao seu lado para enfrentar os franceses. O outro é Philemon. O irmão de Gwenda trilhou um caminho inusitado. Se em todo o primeiro volume foi um apêndice de Godwyn, rapidamente percebemos que se tornou mais intuitivo e astuto que o prior.

A Guerra dos Cem Anos é narrada de forma veemente e precisa, sem roubar muitos capítulos ao livro, através do olhar de Ralph e Caris, em França. Depois dela, a ação é completamente focada na Peste e no destino dos personagens. Ralph consegue recuperar o posto de cavaleiro, e depois obtém a posição de conde de Shiring, após assassinar a sua jovem esposa no convento de Kingsbridge, para poder contrair matrimónio com Lady Phillipa, que o odeia.

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Mercado de Kingsbrigde (Aurora Wienhold)

Sem se preocupar com dignidade e polvilhando o mundo à sua volta com mentiras piedosas e usando-se de todos os recursos para fazer o marido feliz, Gwenda deixa que Ralph a possua, numa tentativa desesperada de obter o favor de Wulfric. Dessa emenda resulta um filho, mas nunca permite que o marido descubra a sua traição. Esse filho é Sam, um jovem brutal, como o pai de sangue. Depois dele veio Davey, filho de Wulfric, um rapaz imaginativo e inteligente, que se apaixona por Amabel, para desgosto da mãe. A chantagem do conde sobre Gwenda, determinado em prolongar os seus momentos de prazer com a camponesa, resultam numa descoberta chocante e num final violento.

A morte de Cecília faz de Caris a prioresa de Kingsbridge. A bela mulher tornou-se popular entre os habitantes, graças aos seus métodos únicos de lutar contra a peste, o que fez com que muitos a vissem como uma santa. Ainda assim, não se coibiu a partilhar a vida e a cama com Merthin, o homem que sempre amou. Tudo se complica para ambos com o regresso a Kingsbridge de Philemon, que consegue influenciar o bispo e tornar-se prior. Mas Merthin guarda um trunfo que usa, quando Philemon está prestes a conseguir o domínio absoluto sobre Kingsbridge. Uma carta que o monge Thomas enterrou, muitos anos antes.

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Gwenda (série de TV)
SINOPSE:

Depois do enorme êxito de Os Pilares da Terra, Ken Follett regressa à cidade de Kingsbridge, mas desta vez cerca de dois séculos após os acontecimentos do primeiro livro. No dia 1 de Novembro de 1327, quatro crianças presenciam a morte de dois homens por um cavaleiro. O sucedido irá para sempre assombrar as suas vidas, mas Merthin, Ralph, Caris e Gwenda ficarão também marcados pelo próprio tempo em que vivem, e em particular pela maior tragédia que assolou a Europa no século XIV, a Peste Negra. Um Mundo sem Fim, que a Presença publica em dois volumes, é um épico medieval que está a conquistar os leitores de todo o mundo, tendo registado um total de 26 semanas de permanência entre os mais vendidos do The New York Times.

OPINIÃO:

A leitura de Um Mundo Sem Fim foi viciante, da primeira à última página. Este segundo volume surpreendeu-me, principalmente pela falta de destaque de alguns personagens, e pelo protagonismo de outros. A receita revelou-se, uma vez mais, muito semelhante à usada por Ken Follett em Os Pilares da Terra. Ralph revelou-se uma mistura de William e Alfred do primeiro livro, Godwyn e Philemon adquiriram traços de Waleran, enquanto a própria sequência de ação não se mostrou muito diferente, com uma grande batalha descrita no segundo volume e o escorrer dos anos a trazer filhos aos protagonistas. Esta pode ser uma das poucas críticas a tecer.

Também a ação em torno de Gwenda não me agradou. A personagem levou uma vida de sacrifícios e de mentiras, só recompensada em alguns momentos. No seu todo, o percurso de Gwenda acabou por tornar-se previsível e cansativo.

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Merthin e Caris (série de TV)

A Peste Negra trouxe grande vivacidade à trama, com a morte de muitos personagens – ainda que os protagonistas tenham escapado quase incólumes à maleita. Merthin e Caris foram, para mim, o melhor do livro. Mais do que uma história de amor, os dois personagens mostraram-se vívidos e enérgicos, não cruzando os braços às adversidades, mas conseguindo encontrar soluções para todos os obstáculos. A visão à frente do seu tempo tornou a jovem numa heroína, mas ainda assim Ken Follett não criou uma personagem imune ao erro.

Caris é uma mulher prática e precisa, capaz de erguer a voz num mundo de homens e de incorrer no que seria descrito como pecado sem qualquer espécie de remorso. É uma pessoa que sabe distinguir o bem do mal através do que a sua consciência lhe dita e uma das personagens literárias femininas que mais prazer me deu em ler. Ao seu lado, Merthin foi o personagem com quem mais me identifiquei. De caráter nobre e uma visão tridimensional que lhe confere sucesso como construtor, Merthin vive dilemas morais e indecisões que o aproximam do leitor em todas as situações.

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Caris (Aurora Wienhold)

Ralph começou como um personagem leve e ganhou contornos de vilão odioso, tornando-se um dos mais irritantes da história – mérito do autor. Philemon ombreou consigo em maldade, mas não teve tanto protagonismo quanto, por exemplo, Godwyn, e talvez merecesse. A meu ver, faltaram cenas e diálogos entre Gwenda e Philemon ao longo do livro, uma vez que eram irmãos. Thomas foi uma promessa constante. Não passou disso, mesmo que as suas aparições tenham sido dos melhores momentos deste segundo volume. O desenterro do tesouro, em Saint-John-in-the-forest e o assalto dos homens de Ralph ao convento de Kingsbridge foram as melhores cenas do livro, na minha opinião.

É difícil argumentar qual dos dois volumes foi o melhor. Não posso dizer que estiveram ao mesmo nível, mas os dois tiveram pontos altos e baixos. Prefiro ver Um Mundo Sem Fim como o todo que é: por vezes, surpreendeu-me com a falta de ênfase em alguns personagens, por vezes surpreendeu-me com acontecimentos que nunca me passariam pela cabeça e com o final abrupto e precoce de personagens fulcrais. Se, no final, fica a ideia que o livro foi muito parecido com Os Pilares da Terra, sinto que os dois são bastante diferentes e que Follett melhorou a “receita” com este Um Mundo Sem Fim. Apesar de ser difícil superar a “magia” de Jack, Tom, Ellen e Aliena, os personagen Caris e Merthin irão ficar também na minha lista de favoritos.

Avaliação: 9/10

Um Mundo Sem Fim (Editorial Presença):

#1 Volume Um

#2 Volume Dois

Um Mundo Sem Fim #1

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Um Mundo Sem Fim”, volume um

Ken Follett é sinónimo de sucesso literário. Obras como O Homem de São Petersburgo, O Vale de Cinco Leões, a trilogia O Século ou o fenómeno Os Pilares da Terra tornaram-se alguns dos livros mais lidos em todo o mundo, sempre com temáticas diferentes e nem por isso menos controversas.

Publicado em 9 de outubro de 2007, Um Mundo Sem Fim é uma consequência natural desse mesmo sucesso. Autor acostumado a escrever célebres romances de espionagem, Follett brilhou ao aventurar-se nas conspirações religiosas do século XII e o público reinvindicou um regresso a esse mesmo mundo. Um Mundo Sem Fim é a sequela, passando-se duzentos anos após os eventos do primeiro livro. Em Portugal, foi dividido em dois volumes pela Editorial Presença.

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Capa Editorial Presença

A história passa-se no mesmo cenário de Os Pilares da Terrao priorado de Kingsbridge. Somos apresentados a quatro crianças, descendentes de Jack e Tom Construtor, protagonistas do primeiro livro. São eles as meninas Caris e Gwenda e os irmãos Merthin e Ralph. Os quatro aventuravam-se pelo bosque quando viram dois soldados a perseguirem e a ser mortos por um cavaleiro, depois de lhe lacerarem um braço. Três deles foram-se embora, mas Merthin ficou mais um pouco, meio petrificado. O cavaleiro encontrou-o e fê-lo prestar-lhe um juramento de silêncio, depois de enterrar uma carta de aparente importância. Esse cavaleiro era Thomas que, para se salvaguardar e à sua família da perseguição de que era alvo, tornou-se monge no priorado de Kingsbridge.

Os anos passaram-se. Ao longo de todo este volume, Thomas permaneceu como um personagem secundário, embora seja evidente que guarda segredos e sempre demonstre grande nobreza de caráter. Quanto às quatro crianças que testemunharam a cena, elas tornam-se os grandes protagonistas do livro. Merthin e Caris são apaixonados um pelo outro desde crianças. O rapaz nunca revelou grande jeito para lutar, apesar de ser filho de um cavaleiro caído em desgraça, mas herdou o talento natural do seu antepassado Jack. Começou como aprendiz do construtor Elfric, mas tornou-se mais talentoso que o seu mestre, assim como de todos os outros construtores da região, o que despertou muitas inimizades.

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Logo (série de TV)

Caris é filha do regedor e uma jovem à frente do seu tempo. Intuitiva e excelente comunicadora, Caris é uma líder natural, renegando absolutamente a ideia de ser subordinada a um homem e duvidando permanentemente da fé que as pessoas colocam em Deus. São essas dúvidas que, ao longo do livro, a afastam de Merthin. A ideia de casar e servir um homem é estranha para ela, mas o amor que sente acaba por ser mais forte. Ainda em criança, queria ser médica, sem saber que essa atividade era estritamente reservada ao sexo masculino. Uma longa série de reveses amorosos e profissionais encontram-na ao longo destas páginas, ainda que a sua astúcia venha a contornar… quase todos.

Gwenda é pobre e feia. Em criança, o pai usava-a para roubar. Quando cresceu, quis vendê-la a troco de uma vaca. Gwenda escapou, mas os seus problemas tinham apenas começado. Apaixonada por um homem que nunca a quis, Gwenda repeliu o pai e fez de tudo pelo homem que amava, até conseguir que ele ficasse consigo. Apesar de ter um filho de Wulfric, sabe que ele ama Annet, e que só não casou com ela por ter perdido a sua fortuna. Ainda assim, Wulfric respeita a lealdade e o amor de Gwenda, de uma forma apática e conformada.

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Merthin e Caris (lfcwonderwoman em deviantart)

Por sua vez, Ralph cresceu com a vontade de ser um cavaleiro como o pai. Ao contrário do irmão Merthin, sempre revelou o dom da cavalaria, aliado a uma ambição desmedida. Por portas e travessas, cativou o conde Roland e tornou-se cavaleiro, mas a forma como governou as suas terras condenou-o a uma vida devassa e à margem da lei.

É a queda de uma ponte que vai catapultar a vida destes personagens. Gwenda escapa a um malfeitor, Wulfric perde a família e a fortuna, Ralph salva a vida ao conde, o prior Anthony morre e é Godwyn, o primo de Caris que, usando os meios menos lícitos, se torna prior de Kingsbridge. Merthin consegue ser eleito para construir uma nova ponte, mais resistente, e Caris perspetiva um futuro mais próspero para Kingsbrigde com essa nova construção, nomeadamente para a Feira do Velo. O que ninguém esperava era que Godwyn se tornasse uma montanha de obstáculos, prejudicando Kingsbridge com as suas proibições e impostos descabidos, pensando unicamente na sua riqueza e interesses pessoais.

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Separador (Série de TV)
SINOPSE:

Depois do enorme êxito de Os Pilares da Terra, Ken Follett regressa à cidade de Kingsbridge, mas desta vez cerca de dois séculos após os acontecimentos do primeiro livro. No dia 1 de Novembro de 1327, quatro crianças presenciam a morte de dois homens por um cavaleiro, e uma delas assiste ainda quando este esconde uma carta na floresta, explicando que contém informação secreta e obrigando-a a fazer uma promessa. O sucedido irá para sempre assombrar as vidas das quatro personagens, que acompanhamos ao longo de vários anos. Não será, contudo, a única força a influenciar os seus destinos. Para além das teias de amor, ódio, ambição e vingança que os vão unir e afastar, Merthin, Ralph, Caris e Gwenda ficarão também marcados pelo próprio tempo em que vivem, e em particular pela maior tragédia que assolou a Europa no século XIV, a Peste Negra. Com um enredo ricamente detalhado e um ritmo exuberante, Um Mundo sem Fim, que a Presença publica em dois volumes, é um épico medieval com que Ken Follett deslumbrará tanto habituais como novos leitores.

OPINIÃO:

Um Mundo Sem Fim é um livro maravilhoso. Comecei este volume com a certeza que seria difícil chegar aos calcanhares de Os Pilares da Terra. De facto, como se diz na gíria, “não há amor como o primeiro”, mas Ken Follett conseguiu envolver-me e apaixonar-me tanto ou mais do que conseguiu com a história inaugural.

O que dizer de personagens tão ricos e maleáveis quanto Merthin, Caris ou Godwyn, a dedicada Gwenda ou o misterioso Thomas? Uma exuberância de personagens riquíssimos que vai de Edmund, o bondoso pai de Caris, a Philemon, o irmão de Gwenda que tem um dos desenvolvimentos mais determinantes da trama. Elfric, Alice, Elizabeth, Petronilla, Lady Phillippa, Annet, Mark Webber, Irmã Cecília são apenas alguns dos personagens secundários que dão uma realidade e dinamismo incríveis a este livro.

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Edição original

Ken Follett prende-nos desde o primeiro segundo. Apesar das descrições variadas e de alguns momentos de menos vigor, quando são explicados alguns ofícios como a construção de pontes ou o tingimento de lã, todos eles são necessários para a riqueza do livro. E a ação é permanente. Fui surpreendido com mudanças de ritmo repentinas e com volte-faces inesperados.

Em boa verdade, a narrativa cativa pela oscilação entre tragédias e milagres. Somos levados a torcer pelos nossos personagens preferidos e a desejar o pior aos muitos e desprezíveis vilões. Quando tudo parece confluir para um “Felizes para Sempre”, algo trágico acontece. Quando tudo parece perdido, sucede-se alguma felicidade. Ninguém escapa incólume. Todos os personagens provam a vitória e a derrota ao longo destas páginas. Depois do final amargo do primeiro volume, irei partir desde já para a segunda parte deste romance histórico notável.

Avaliação: 9/10

Um Mundo Sem Fim (Editorial Presença):

#1 Volume Um

#2 Volume Dois

As Escolhas de 2016

O ano caminha a passos largos para o final. Como tal, é hora de fazer o já tradicional balanço literário que visa escolher as melhores leituras do ano. No Goodreads estabeleci como meta ler 35 livros este ano – e a verdade é que já foram 93, embora a maioria das minhas leituras tenham sido bandas-desenhadas. 61 BD’s, 24 livros e 8 contos, sendo que estou a ler o livro O Terceiro Desejo de Andrzej Sapkowski e ainda deverei ler mais uma BD ou um conto até ao final do ano.

2016 foi um ano cheio de boas surpresas. Conheci autores como Steven Erikson, Mark Lawrence, Joe Abercombie, Jeff Vandermeer, Alan Moore, Robert Kirkman e Brian K. Vaughan, e voltei a ler mais e melhor de autores fantásticos como Stephen King, H. P. Lovecraft, Ken Follett e Bernard Cornwell.

Fantasia continuou a ser o género mais lido, mas o romance histórico e a ficção científica não foram esquecidos. Este ano decidi aumentar o número de categorias, também por ter lido mais formatos. Fiquem com a minha listagem e respetivas justificações:

LIVRO

Melhor Fantasia

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aqui a opinião

Jardins da Lua, de Steven Erikson, foi não só o melhor volume de fantasia, mas também o melhor livro que li este ano. Para além dele, O Herói das Eras de Brandon Sanderson foi dos poucos que me conquistaram, dentro do género. Stephen King encontra-se nesse grupo. Este ano li os volumes 5 e 6 de A Torre Negra, substancialmente melhores que aqueles que li o ano passado. O prémio simpatia vai para A Balada de Antel do brasileiro Eric M. Souza, que me surpreendeu pela positiva.

Os dois primeiros volumes de Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence e o primeiro de A Primeira Lei de Joe Abercrombie não foram más leituras, mas não me convenceram nem cativaram por aí além. Terminei a primeira Saga do Assassino de Robin Hobb, que continuou sem me encantar, muito embora o último volume tenha sido, de longe, o melhor. Li os dois últimos livros do Ciclo da Herança de Christopher Paolini. Apesar de a escrita do autor ter evoluído favoravelmente, a história é o grande handicap de Paolini, parecendo uma manta de retalhos de narrativas como O Senhor dos Anéis ou Star Wars.

Melhor Ficção Científica

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aqui a opinião

Não li muitos livros de ficção científica este ano. Aniquilação de Jeff Vandermeer foi um dos últimos livros que li e acabou por ser o que me marcou mais pela positiva, um volume de ficção weird que me envolveu por toda a sua estranheza e credibilidade. O Messias de Duna de Frank Herbert e As Primeiras Quinze Vidas de Harry August de Claire North foram também ótimas leituras dentro do género. A ficção científica é muito mais do que as space opera empoladas pelos mass media.

Melhor romance histórico

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aqui e aqui a opinião

Dividido em Portugal em dois volumes, o livro Os Pilares da Terra de Ken Follett foi o melhor romance que li este ano. Extremamente envolvente, este romance histórico foi tão emocionante quanto os livros O Último Reino e O Cavaleiro da Morte, primeiros volumes das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, mas o livro de Follett apelou mais às emoções e construiu uma história mais intimista. No entanto, os dois autores, que já eram os meus preferidos no romance histórico, ao lado de Maurice Druon, cultivaram ainda mais a minha preferência.

BANDA-DESENHADA

Melhor BD

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aqui a opinião

Escolhi March To War como melhor BD lida este ano, mas podia escolher muitas outras edições de The Walking Dead. Num ano cheio de excelentes leituras neste formato, The Walking Dead conquistou a minha preferência. A space opera Saga de Brian K. Vaughan e Fiona Staples e o bizarro Tony Chu: Detective Canibal foram também fantásticas leituras, superando clássicos como V de Vingança, Watchmen, 300 e Sandman, a que reconheço mérito, ou o histórico As Águias de Roma, cujos quatro volumes também gostei bastante.

Melhor Clássico

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aqui a opinião

Num ano em que li BD’s de Neil Gaiman, Frank Miller e Alan Moore, foi este último o que mais me surpreendeu pela positiva. Difícil é escolher entre Watchmen e V de Vingança, embora a história de super-heróis “reformados” me tenha marcado mais. 300 e A Cidade do Pecado de Miller foram também boas leituras, enquanto os três primeiros volumes de Sandman (Neil Gaiman) têm oscilado entre o brilhantismo literário e a falta de envolvimento. Livros como Vampirella e X-Men Origins ficaram aquém das expectativas.

Mais Irreverente

Sem título 2

aqui a opinião

Saga, a space opera de Brian K. Vaughan com ilustrações de Fiona Staples, foi uma das grandes surpresas deste ano. Irreverente e divertida, com grandes debates morais, esta BD cumpre em todos os quesitos, sendo a irreverência a sua maior qualidade. Qualquer um dos cinco volumes já publicados pela G Floy surpreenderam-me ao seu jeito. Nesta categoria, Tony Chu: Detective Canibal foi igualmente surpreendente, mas quero ainda deixar uma menção de honra para os dois volumes de Umbrella Academy, uma grande revelação, o próximo passo no mundo dos super-heróis. Os Contos Inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy foi também uma edição deliciosa, nascida das mãos de Filipe Melo e Juan Cavia. Os dois primeiros volumes de Southern Bastards, não se enquadrando na vertente cómica das anteriores, têm também algo de irreverente no seu drama profundo. Jason Aaron e Jason Latour fazem-no com distinção.

CONTOS

Melhor Conto

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aqui a opinião

O último conto que tive oportunidade de ler foi também o melhor que li este ano. H. P. Lovecraft tem sido um dos meus autores preferidos neste formato, embora Edgar Allan Poe e Isaac Asimov tenham sido outros autores de destaque. Até mesmo O Defunto de Eça de Queirós foi uma excelente leitura. Invisíveis em Tiro, de Steven Saylor, incluído no livro Histórias de Vigaristas e Canalhas, agradou-me imenso.

Melhor Antologia

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aqui a opinião

Este ano li apenas duas antologias: a portuguesa Proxy e a conceituada Histórias de Vigaristas e Canalhas, a segunda metade de Rogues. Apesar de a primeira conter apenas seis contos de jovens autores portugueses, não ficou atrás das Histórias escritas por alguns dos mais famosos autores de fantasia, policial e ficção científica. Com alguns contos melhores e outros menos bons, as duas antologias ficaram ao mesmo nível, preferindo por isso dar primazia àqueles cuja responsabilidade era menor e, por isso, mais surpreenderam.

Maior surpresa

Sem título 2

aqui a opinião

À primeira vista, estou a contradizer a categoria anterior, mas não é disso que se trata. A minha maior surpresa no que a contos diz respeito chama-se Daniel Abraham, cujo conto O Significado do Amor foi um dos que mais gostei na antologia Histórias de Vigaristas e Canalhas. Ambientado num mundo fantástico, Abraham aliou uma escrita excelente a uma história algo hilariante e espero ver mais histórias do autor publicadas em português.

Categoria Extra

Melhor Final

Sem título 2

aqui a opinião

Não podia deixar de fazer uma menção honrosa a O Herói das Eras. O último volume da trilogia Mistborn de Brandon Sanderson foi dividido em dois em Portugal. Li a primeira parte em dezembro do ano passado e a segunda em março deste ano. Sanderson nunca me encantou, como outros nomes da fantasia como George R. R. Martin e Scott Lynch o fizeram. Este ano, Steven Erikson e Daniel Abraham foram os que estiveram mais próximos disso, do pouco que li deles. Aliando uma escrita demasiado básica a um mundo com muitas lacunas a nível de credibilidade, fiquei sempre de pé atrás com Brandon Sanderson, ainda que lhe reconheça a criatividade e o mérito de escrever grandes histórias e construir grandes mundos de fantasia. Foi assim que li Mistborn, um mundo com uma aura mágica que sempre visualizei como um “Crónicas de Riddick feito pela Disney“. Com muitos altos e baixos, esta trilogia deixou-me boquiaberto com as revelações e acontecimentos finais e gostaria imenso de ver publicada em português a Era 2.

Em jeito de despedida, deixo os votos de um 2017 repleto de boas leituras. 2016 foi para mim um ano cheio delas, com os livros Jardins da Lua e Os Pilares da Terra e as BD’s The Walking Dead e Saga como os grandes destaques. Desejo a todos um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

TAG – Os Cavaleiros do Apocalipse

Boa noite, amigos! Trouxe-vos uma tag literária e espero que se divirtam. Os Cavaleiros do Apocalipse? Eu sei que parece estranho, mas depressa vão perceber. Usando pormenores de trechos da Bíblia, mais propriamente do Livro da Revelação, identificarei capas de livros. Vamos a isso?

#1 Peste

E eu vi, e eis um cavalo branco; e o que estava sentado nele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e ele saiu vencendo…

#1.1. Um livro com um cavalo na capa

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A Tormenta de Espadas, de George R. R. Martin

Mais do que um verdadeiro refresh na literatura de fantasia, George R. R. Martin veio dar um novo significado a este género literário, mostrando ao mundo que fantasia não é feita somente de elfos e princesas guerreiras. Tormenta de Espadas é o terceiro livro de Crónicas do Gelo e Fogo, sendo o quinto da edição portuguesa e um dos mais empolgantes da série literária.

# 1.2. Um livro com um arco na capa

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A Manopla de Karasthan, de Filipe Faria

Primeiro volume de Crónicas de Allaryia, A Manopla de Karasthan foi das primeiras obras de fantasia a emergir no panorama nacional no início deste século, à época em que a adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis acrescentava uma legião de fãs para o género. Amado por uns e odiado por outros, Filipe Faria conquistou lugar cativo nas livrarias portuguesas.

#1.3. Um livro com uma coroa na capa

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O Rei de Ferro e a Rainha Estrangulada, de Maurice Druon

Esta edição compreende os dois primeiros volumes da série Os Reis Malditos, na qual Maurice Druon narra a história de Filipe, o Belo, rei de França. Mais do que isso, fala da maldição que o acossou, como à sua prole, após ter queimado vivo o grão-mestre da Ordem dos Templários, condenando a confraria à extinção. Um rigor histórico notável e uma escrita rápida e vibrante.

#2 Guerra

E saiu outro, um cavalo vermelho; e ao que estava sentado nele foi concedido tirar da terra a paz, para que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada.

#2.1. Um livro com capa vermelha

Sem título

O Herói das Eras Parte 1, Brandon Sanderson

Mistborn – Nascidos da Bruma é uma das séries literárias de fantasia mais faladas da atualidade. Brandon Sanderson ganhou fama ao terminar a série A Roda do Tempo após a morte de Robert Jordan e desde então não parou. Conhecido por publicar com grande frequência, sempre com sistemas de magia originais, tem em Misborn uma das suas protagonistas mais carismáticas, Vin.

#2.2. Um livro com a palavra “Terra” na capa

Sem título

Os Pilares da Terra, de Ken Follett

Com uma prosa elegante e uma capacidade raríssima de fazer o leitor sentir-se na época descrita, Ken Follett apresenta-nos um livro emocionante, que relata um período conturbado da História de Inglaterra, onde a construção de um mosteiro ganha protagonismo num braço de ferro entre a Igreja e a Coroa. Os Pilares da Terra é um dos livros mais emocionantes que já li.

#2.3. Um livro com uma espada na capa

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Histórias de Aventureiros e Patifes, Vários Autores

Com organização de George R. R. Martin e Gardner Dozois, Histórias de Aventureiros e Patifes é a primeira parte da antologia Rogues, uma colectânea de contos sobre patifes, escrita por alguns dos mais conceituados autores de fantasia, ficção científica e romance policial. A segunda metade já foi publicada e também opinada no blogue.

#3 Fome

E eu vi, e eis um cavalo preto; e o que estava sentado nele tinha uma balança na mão. E eu ouvi uma voz como que no meio das quatro criaturas viventes dizer: “Um litro de trigo por um denário, e três litros de cevada por um denário; e não faças dano ao azeite de oliveira e ao vinho.

#3.1. Um livro com capa preta

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Príncipe dos Espinhos, Mark Lawrence

Primeiro volume da Trilogia dos Espinhos, de Mark Lawrence, Príncipe dos Espinhos apresenta o Príncipe Honório Jorg Ancrath, e a sua sede de vingança pela morte da mãe e irmão. Um mundo medieval pós-apocalíptico bem constuído, uma escrita envolvente e elegante, mas um desenvolvimento aquém das expectativas.

#3.2. Um livro com uma mão na capa

Sem título 4

O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

Com uma escrita envolvente, Oscar Wilde fala sobre o egocentrismo e sobre o papel que as aparências ocupam nas nossas vidas. Ao mesmo tempo que as hipocrisias de comportamento são retratadas com grande rigor, a obsessão pela beleza também é um dos principais temas do livro.

#3.3. Um livro com vigaristas na capa

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As Mentiras de Locke Lamora, Scott Lynch

Um dos meus autores de eleição, Scott Lynch revolucionou o mundo da fantasia com uma trama ao mesmo tempo leve e complexa, num mundo inspirado na Itália renascentista. Uma trupe de jovens ladrões protagoniza a história, recorrendo somente à sua matreirice para ludibriar os mais poderosos senhores do submundo camorri. A escrita deliciosa e os diálogos cómicos são os ex-libris deste autor.

#4 Morte

Então ouvi a quarta Criatura:”Venha” e apareceu um cavalo baio, o nome do cavaleiro era Morte e o Inferno o seguia de perto.

#4.1. Um livro com uma Criatura na capa

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Lisboa Triunfante, David Soares

Esta raposa não é somente uma raposa. É uma criatura mitológica, que atravessa as eras e interfere nos seus acontecimentos. Do lado oposto tem um miserável lagarto, e os dois têm medido forças ao longo dos séculos, participando ativamente na construção da Lisboa que hoje conhecemos. Com uma escrita excelente e um conhecimento histórico impressionante, David Soares criou um romance extraordinário de fantasia histórica.

#4.2. Um livro com a palavra “Morte” na capa

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A Morte Persegue-me, Ed Brubaker e Sean Phillips

Este livro de banda-desenhada é o primeiro volume da série Fatale. Uma mulher misteriosa que traz azar a todos aqueles com quem se cruza é a protagonista desta história sinistra que mescla temas como a imortalidade, a corrupção e o ocultismo. O legado de H. P. Lovecraft surge inegavelmente associado às criaturas apresentadas.

#4.3. Um livro com a palavra “Inferno” na capa

Inferno

Inferno, Dan Brown

Com uma estrutura similar a outros livros do autor, como O Código DaVinci ou Anjos e Demónios, Inferno distingue-se pelo tema (a sobrepopulação) e pela originalidade na conceção do vilão. Assustador e extremamente visual, esta aventura de Robert Langdon está entre as minhas favoritas do escritor norte-americano.

Sintam-se à vontade para fazer a vossa tag. Mas, pormenor importante, só conta livros que já tenham lido, mesmo que ainda não tenham comentado. Até à próxima.

TAG – A Seleção

Viva! Chegamos ao novo semestre e antes de sair a primeira review, nada melhor do que responder a mais uma TAG. Aqui vai:

#1 Qual o livro que mais queres ler?

Sem Título

Tenho muita vontade de ler Lâmina de Joe Abercrombie este ano, mas só depois de terminar algumas séries que estão pendentes.

#2 O melhor livro que leste nos últimos anos

Sem título

Esta nem se questiona. O primeiro volume de Cavalheiros Bastardos de Scott Lynch foi uma surpresa enorme, e os volumes seguintes não me desiludiram.

#3 O livro que mais te desiludiu

Sem título

Podia falar de Pedro Chagas Freitas, mas se fosse por aí tinha muito que falar. Zafón foi um autor que ouvi falar muito bem, de tal modo que fiquei extremamente desiludido quando peguei em O Palácio da Meia-Noite e encontrei uma escrita extremamente juvenil, assim como uma história completamente banal e fantasiosa.

#4 Qual é o teu personagem preferido

Sem Título

Alguns personagens ficam gravados na nossa memória e, por nenhuma razão em especial, lembro-me de Gimli de O Senhor dos Anéis quando me perguntam qual o personagem preferido. Esse personagem marcou uma fase da minha adolescência. Ainda assim, personagens como a incrível Miss Marple dos livros de Agatha Christie, Leigh Teabing de O Código DaVinci, Locke Lamora de Cavalheiros Bastardos e Jean Valjean de Os Miseráveis merecem a minha menção de honra.

#5 Qual a história mais marcante?

Feast

Poderia enumerar uma série de histórias. Os Pilares da Terra, Ivanhoe, Os Miseráveis, O Senhor dos Anéis. Cada história teve o seu sabor especial, em cada altura da minha vida, mas As Crónicas de Gelo e Fogo foram talvez aquelas que mais fomentaram o meu amor pela escrita e pelo género fantástico, uma história mais dramática e emocionante.

#6 Que história gostarias de viver?

Sem título

A saga A Torre Negra leva-nos até ao Mundo Médio, um lugar onde os descendentes do Rei Artur tornaram-se cowboys. Seria muito interessante acompanhar Roland nas suas aventuras em busca da profética Torre Negra, lutando contra demónios, vampiros e outras criaturas bizarras.

#7 A capa mais bonita da tua estante

Sem título

Apesar de os dois últimos volumes de Mistborn terem ficado um pouco diferentes dos primeiros, a coleção é das mais bonitas da minha estante em termos de lombada, e o primeiro volume, O Império Final, tem a capa que visualmente mais me agrada.

#8 A capa mais feia da tua estante

Sem Título

O Amigo Fritz. Não preciso de explicar porquê, ou preciso? É dos livros mais antigos que tenho em casa, apesar de ser muito bem estimado.

#9 O teu livro preferido de sempre

Rebecca

Não é nenhum fenómeno literário, nem sequer dos mais aclamados do autor, mas encantei-me com este livro de Ken Follett da primeira à última página. A história não é o seu maior atrativo. O clima de espionagem, a tensão sexual, o calor do Egito e a envolvente nazi conquistaram-me de tal modo, que A Chave para Rebecca é o livro que vem à minha memória quando penso em livro favorito.

# 10 O livro que estás a ler

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A Vingança do Assassino, quarto volume da Saga do Assassino de Robin Hobb. Está a ser uma leitura um tanto ou quanto demorada, mas espero terminá-lo em breve.

Sintam-se à vontade para comentar e responder à TAG – Seleção.

 

 

 

TAG – Meio Ano de Leituras

Estamos a chegar ao final do primeiro semestre, como tal é a altura propícia para responder a uma TAG sobre os livros lidos durante os primeiros seis meses do ano. Divirtam-se.

#1 A maior surpresa

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Saga é uma graphic novel repleta de bom humor com elementos sci-fi e fantásticos. Acompanhamos a par e passo a fuga de Alana e Marko, com a sua bebé, a pequena Hazel. Uma lufada de ar fresco a todos os níveis, com argumento de Brian K. Vaughan e ilustrações de Fiona Staples.

#2 O melhor final

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A saga Mistborn nunca me “encheu as medidas”, por assim dizer, mas o último volume veio amarrar pontas soltas. Posso dizer que toda a trilogia de Brandon Sanderson me deixou com um sabor agridoce. Momentos geniais e outros forçados, história super original fustigada por uma escrita banal, um mundo com muitas lacunas salvo por um ambiente bem agradável. No fim, ficam as melhores recordações da série e o final surpreendeu-me muito, o que foi ótimo. Ainda assim, tenho o primeiro volume como o melhor da trilogia.

#3 A melhor saga

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Na lista das minhas séries preferidas consta A Torre Negra de Stephen King (não é por acaso que é esta a saga que tem lugar de honra na minha mesa-de-cabeceira). E com monstros como Scott Lynch e George R. R. Martin nas suas pausas sabáticas, é a saga de King a escolhida para liderar as minhas preferências do primeiro semestre, no que diz respeito a sagas. Lobos de Calla, o quinto volume, não me desapontou.

#4 O melhor livro

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Os Pilares da Terra, de Ken Follett, foi seguramente a melhor leitura até ao momento. Um rol de personagens fascinantes, descrições deliciosas e uma composição de personalidades sublimes. Segredos sobre segredos e a construção de uma catedral servem de motor narrativo para uma história densa e emocionante sobre os problemas entre a Coroa e a Igreja na Inglaterra do século XII.

#5 A melhor BD

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Embora Saga e Tony Chu tenham sido as maiores surpresas neste género, The Walking Dead foi, seguramente, a melhor BD. Li todos os vinte e cinco volumes até agora publicados e, no seu todo, fascinaram-me. Os instintos de sobrevivência e o drama vivido após o apocalipse walker são explorados ao máximo, ao ponto de comportamentos serem discutidos e a dicotomia bem e mal ser posta à prova. Um trabalho genial de Robert Kirkman.

#6 O mais bem humorado

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A par de Saga, as aventuras do cibopata Tony Chu foram as mais divertidas que li este ano. Após uma terrível gripe aviária, o comércio de frango foi proibido e começou a ser traficado como uma droga ilegal. É nesse contexto que uma entidade reguladora de saúde do governo norte-americano contrata Chu, um homem capaz de “ler” o percurso de vida de tudo aquilo que ingere. A série divertiu-me desde o início, mas demorou a deslumbrar-me. Neste momento é uma das minhas BD’s preferidas.

#7 A maior desilusão

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Depois de ler as Histórias de Aventureiros e Patifes e ter ficado fascinado com a escrita de Gillian Flynn, vim para este Em Parte Incerta com as expectativas bem altas. O livro desapontou-me em toda a largura. Desenvolvimento forçado, personagens desinteressantes e escrita cansativa.

#8 A melhor capa

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Gostei imenso da capa do quarto volume de As Águias de Roma, de Enrico Marini. A cena bélica é cativante e a expressão do rosto coaduna-se ao personagem Armínio. Podia escolher as capas dos outros volumes da série, ou até mesmo uma das muitas e excelentes capas da BD The Walking Dead, mas esta acabou por ser mesmo a que achei mais cativante.

#9 A pior capa

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A capa do livro A Balada de Antel, de Eric M. Souza, acabou por me cativar somente pelas cores utilizadas. As expressões faciais têm um aspeto estranho e o livro merecia um trabalho gráfico mais elaborado por parte da editora Saída de Emergência.

#10 A melhor composição gráfica

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Podia referir alguma BD, mas escolhi o livro Príncipe dos Espinhos, de Mark Lawrence. O trabalho gráfico da TopSeller agradou-me imenso. Não só manteve a capa original, como todo o interior foi trabalhado com bom gosto, em tons negros e brancos para sublinhar o carácter dark da obra. Deu-me muito gosto desfolhar este pequeno livro.


Sintam-se à vontade para comentar e responder à TAG do primeiro semestre. 🙂