Um Mundo Sem Fim #2

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Um Mundo Sem Fim”, volume dois

Um Mundo Sem Fim, de Ken Follett, é o retorno ao maravilhoso priorado de Kingsbrigde, cenário apresentado pelo autor galês no best-seller Os Pilares da Terra. Atravessando os anos turbulentos do século XIV, Follett envolve-se mais uma vez no género romance histórico, num livro dividido em Portugal, pela Editorial Presença, em dois volumes.

Este segundo volume perpassa dois acontecimentos fulcrais da História europeia: A Guerra dos Cem Anos e a Peste Negra. Caris Wooler, a protagonista, tornou-se freira. Acusada de bruxaria – e com uma verruga nas zonas íntimas para o comprovar – viu como única escapatória a ingressão na Igreja, abandonando Merthin e o seu amor. Desolado, o jovem construtor rumou a Florença, onde casou com uma bela italiana e teve uma filha, Lolla. Em Itália, Merthin tornou-se um construtor célebre, rico e influente. Por sua vez, nas terras de Wigleigh, Gwenda luta com todas as armas para sustentar a família e dar justiça à causa do seu esposo Wulfric, que perdera tudo o que mais amava.

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Logo (Série de TV)

A última metade de Um Mundo Sem Fim traz três grandes vilões e, surpreendentemente, nenhum deles é Godwyn. Desde o início, o primo de Caris foi um dos protagonistas da história. Através dos seus pontos de vista, Ken Follett fez o leitor vestir a pele do vilão, conhecer os seus propósitos e receios; viu-o tornar-se prior e trair as expectativas do povo. Este segundo volume traz Godwyn como o grande vilão da história, capaz de tudo em seu próprio benefício. Mas a morte da mãe funciona como um corte de asas no personagem, condenando-o rapidamente à desgraça.

O maior vilão da história não é um personagem, mas sim uma epidemia: a Peste Negra. Leva inúmeros personagens e reinventa todo o mundo que nos havia sido apresentado antes. Conduz Merthin de encontro a Caris e fá-los enfrentar, unidos, os seus maiores inimigos. Dois personagens dividiram também o papel de vilão. Um deles é Ralph Fitzgerald, o irmão de Merthin. Perdoado pela violação de Annet, Ralph ingressa no exército do rei Edward III, marchando ao seu lado para enfrentar os franceses. O outro é Philemon. O irmão de Gwenda trilhou um caminho inusitado. Se em todo o primeiro volume foi um apêndice de Godwyn, rapidamente percebemos que se tornou mais intuitivo e astuto que o prior.

A Guerra dos Cem Anos é narrada de forma veemente e precisa, sem roubar muitos capítulos ao livro, através do olhar de Ralph e Caris, em França. Depois dela, a ação é completamente focada na Peste e no destino dos personagens. Ralph consegue recuperar o posto de cavaleiro, e depois obtém a posição de conde de Shiring, após assassinar a sua jovem esposa no convento de Kingsbridge, para poder contrair matrimónio com Lady Phillipa, que o odeia.

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Mercado de Kingsbrigde (Aurora Wienhold)

Sem se preocupar com dignidade e polvilhando o mundo à sua volta com mentiras piedosas e usando-se de todos os recursos para fazer o marido feliz, Gwenda deixa que Ralph a possua, numa tentativa desesperada de obter o favor de Wulfric. Dessa emenda resulta um filho, mas nunca permite que o marido descubra a sua traição. Esse filho é Sam, um jovem brutal, como o pai de sangue. Depois dele veio Davey, filho de Wulfric, um rapaz imaginativo e inteligente, que se apaixona por Amabel, para desgosto da mãe. A chantagem do conde sobre Gwenda, determinado em prolongar os seus momentos de prazer com a camponesa, resultam numa descoberta chocante e num final violento.

A morte de Cecília faz de Caris a prioresa de Kingsbridge. A bela mulher tornou-se popular entre os habitantes, graças aos seus métodos únicos de lutar contra a peste, o que fez com que muitos a vissem como uma santa. Ainda assim, não se coibiu a partilhar a vida e a cama com Merthin, o homem que sempre amou. Tudo se complica para ambos com o regresso a Kingsbridge de Philemon, que consegue influenciar o bispo e tornar-se prior. Mas Merthin guarda um trunfo que usa, quando Philemon está prestes a conseguir o domínio absoluto sobre Kingsbridge. Uma carta que o monge Thomas enterrou, muitos anos antes.

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Gwenda (série de TV)
SINOPSE:

Depois do enorme êxito de Os Pilares da Terra, Ken Follett regressa à cidade de Kingsbridge, mas desta vez cerca de dois séculos após os acontecimentos do primeiro livro. No dia 1 de Novembro de 1327, quatro crianças presenciam a morte de dois homens por um cavaleiro. O sucedido irá para sempre assombrar as suas vidas, mas Merthin, Ralph, Caris e Gwenda ficarão também marcados pelo próprio tempo em que vivem, e em particular pela maior tragédia que assolou a Europa no século XIV, a Peste Negra. Um Mundo sem Fim, que a Presença publica em dois volumes, é um épico medieval que está a conquistar os leitores de todo o mundo, tendo registado um total de 26 semanas de permanência entre os mais vendidos do The New York Times.

OPINIÃO:

A leitura de Um Mundo Sem Fim foi viciante, da primeira à última página. Este segundo volume surpreendeu-me, principalmente pela falta de destaque de alguns personagens, e pelo protagonismo de outros. A receita revelou-se, uma vez mais, muito semelhante à usada por Ken Follett em Os Pilares da Terra. Ralph revelou-se uma mistura de William e Alfred do primeiro livro, Godwyn e Philemon adquiriram traços de Waleran, enquanto a própria sequência de ação não se mostrou muito diferente, com uma grande batalha descrita no segundo volume e o escorrer dos anos a trazer filhos aos protagonistas. Esta pode ser uma das poucas críticas a tecer.

Também a ação em torno de Gwenda não me agradou. A personagem levou uma vida de sacrifícios e de mentiras, só recompensada em alguns momentos. No seu todo, o percurso de Gwenda acabou por tornar-se previsível e cansativo.

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Merthin e Caris (série de TV)

A Peste Negra trouxe grande vivacidade à trama, com a morte de muitos personagens – ainda que os protagonistas tenham escapado quase incólumes à maleita. Merthin e Caris foram, para mim, o melhor do livro. Mais do que uma história de amor, os dois personagens mostraram-se vívidos e enérgicos, não cruzando os braços às adversidades, mas conseguindo encontrar soluções para todos os obstáculos. A visão à frente do seu tempo tornou a jovem numa heroína, mas ainda assim Ken Follett não criou uma personagem imune ao erro.

Caris é uma mulher prática e precisa, capaz de erguer a voz num mundo de homens e de incorrer no que seria descrito como pecado sem qualquer espécie de remorso. É uma pessoa que sabe distinguir o bem do mal através do que a sua consciência lhe dita e uma das personagens literárias femininas que mais prazer me deu em ler. Ao seu lado, Merthin foi o personagem com quem mais me identifiquei. De caráter nobre e uma visão tridimensional que lhe confere sucesso como construtor, Merthin vive dilemas morais e indecisões que o aproximam do leitor em todas as situações.

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Caris (Aurora Wienhold)

Ralph começou como um personagem leve e ganhou contornos de vilão odioso, tornando-se um dos mais irritantes da história – mérito do autor. Philemon ombreou consigo em maldade, mas não teve tanto protagonismo quanto, por exemplo, Godwyn, e talvez merecesse. A meu ver, faltaram cenas e diálogos entre Gwenda e Philemon ao longo do livro, uma vez que eram irmãos. Thomas foi uma promessa constante. Não passou disso, mesmo que as suas aparições tenham sido dos melhores momentos deste segundo volume. O desenterro do tesouro, em Saint-John-in-the-forest e o assalto dos homens de Ralph ao convento de Kingsbridge foram as melhores cenas do livro, na minha opinião.

É difícil argumentar qual dos dois volumes foi o melhor. Não posso dizer que estiveram ao mesmo nível, mas os dois tiveram pontos altos e baixos. Prefiro ver Um Mundo Sem Fim como o todo que é: por vezes, surpreendeu-me com a falta de ênfase em alguns personagens, por vezes surpreendeu-me com acontecimentos que nunca me passariam pela cabeça e com o final abrupto e precoce de personagens fulcrais. Se, no final, fica a ideia que o livro foi muito parecido com Os Pilares da Terra, sinto que os dois são bastante diferentes e que Follett melhorou a “receita” com este Um Mundo Sem Fim. Apesar de ser difícil superar a “magia” de Jack, Tom, Ellen e Aliena, os personagen Caris e Merthin irão ficar também na minha lista de favoritos.

Avaliação: 9/10

Um Mundo Sem Fim (Editorial Presença):

#1 Volume Um

#2 Volume Dois

Um Mundo Sem Fim #1

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Um Mundo Sem Fim”, volume um

Ken Follett é sinónimo de sucesso literário. Obras como O Homem de São Petersburgo, O Vale de Cinco Leões, a trilogia O Século ou o fenómeno Os Pilares da Terra tornaram-se alguns dos livros mais lidos em todo o mundo, sempre com temáticas diferentes e nem por isso menos controversas.

Publicado em 9 de outubro de 2007, Um Mundo Sem Fim é uma consequência natural desse mesmo sucesso. Autor acostumado a escrever célebres romances de espionagem, Follett brilhou ao aventurar-se nas conspirações religiosas do século XII e o público reinvindicou um regresso a esse mesmo mundo. Um Mundo Sem Fim é a sequela, passando-se duzentos anos após os eventos do primeiro livro. Em Portugal, foi dividido em dois volumes pela Editorial Presença.

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Capa Editorial Presença

A história passa-se no mesmo cenário de Os Pilares da Terrao priorado de Kingsbridge. Somos apresentados a quatro crianças, descendentes de Jack e Tom Construtor, protagonistas do primeiro livro. São eles as meninas Caris e Gwenda e os irmãos Merthin e Ralph. Os quatro aventuravam-se pelo bosque quando viram dois soldados a perseguirem e a ser mortos por um cavaleiro, depois de lhe lacerarem um braço. Três deles foram-se embora, mas Merthin ficou mais um pouco, meio petrificado. O cavaleiro encontrou-o e fê-lo prestar-lhe um juramento de silêncio, depois de enterrar uma carta de aparente importância. Esse cavaleiro era Thomas que, para se salvaguardar e à sua família da perseguição de que era alvo, tornou-se monge no priorado de Kingsbridge.

Os anos passaram-se. Ao longo de todo este volume, Thomas permaneceu como um personagem secundário, embora seja evidente que guarda segredos e sempre demonstre grande nobreza de caráter. Quanto às quatro crianças que testemunharam a cena, elas tornam-se os grandes protagonistas do livro. Merthin e Caris são apaixonados um pelo outro desde crianças. O rapaz nunca revelou grande jeito para lutar, apesar de ser filho de um cavaleiro caído em desgraça, mas herdou o talento natural do seu antepassado Jack. Começou como aprendiz do construtor Elfric, mas tornou-se mais talentoso que o seu mestre, assim como de todos os outros construtores da região, o que despertou muitas inimizades.

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Logo (série de TV)

Caris é filha do regedor e uma jovem à frente do seu tempo. Intuitiva e excelente comunicadora, Caris é uma líder natural, renegando absolutamente a ideia de ser subordinada a um homem e duvidando permanentemente da fé que as pessoas colocam em Deus. São essas dúvidas que, ao longo do livro, a afastam de Merthin. A ideia de casar e servir um homem é estranha para ela, mas o amor que sente acaba por ser mais forte. Ainda em criança, queria ser médica, sem saber que essa atividade era estritamente reservada ao sexo masculino. Uma longa série de reveses amorosos e profissionais encontram-na ao longo destas páginas, ainda que a sua astúcia venha a contornar… quase todos.

Gwenda é pobre e feia. Em criança, o pai usava-a para roubar. Quando cresceu, quis vendê-la a troco de uma vaca. Gwenda escapou, mas os seus problemas tinham apenas começado. Apaixonada por um homem que nunca a quis, Gwenda repeliu o pai e fez de tudo pelo homem que amava, até conseguir que ele ficasse consigo. Apesar de ter um filho de Wulfric, sabe que ele ama Annet, e que só não casou com ela por ter perdido a sua fortuna. Ainda assim, Wulfric respeita a lealdade e o amor de Gwenda, de uma forma apática e conformada.

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Merthin e Caris (lfcwonderwoman em deviantart)

Por sua vez, Ralph cresceu com a vontade de ser um cavaleiro como o pai. Ao contrário do irmão Merthin, sempre revelou o dom da cavalaria, aliado a uma ambição desmedida. Por portas e travessas, cativou o conde Roland e tornou-se cavaleiro, mas a forma como governou as suas terras condenou-o a uma vida devassa e à margem da lei.

É a queda de uma ponte que vai catapultar a vida destes personagens. Gwenda escapa a um malfeitor, Wulfric perde a família e a fortuna, Ralph salva a vida ao conde, o prior Anthony morre e é Godwyn, o primo de Caris que, usando os meios menos lícitos, se torna prior de Kingsbridge. Merthin consegue ser eleito para construir uma nova ponte, mais resistente, e Caris perspetiva um futuro mais próspero para Kingsbrigde com essa nova construção, nomeadamente para a Feira do Velo. O que ninguém esperava era que Godwyn se tornasse uma montanha de obstáculos, prejudicando Kingsbridge com as suas proibições e impostos descabidos, pensando unicamente na sua riqueza e interesses pessoais.

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Separador (Série de TV)
SINOPSE:

Depois do enorme êxito de Os Pilares da Terra, Ken Follett regressa à cidade de Kingsbridge, mas desta vez cerca de dois séculos após os acontecimentos do primeiro livro. No dia 1 de Novembro de 1327, quatro crianças presenciam a morte de dois homens por um cavaleiro, e uma delas assiste ainda quando este esconde uma carta na floresta, explicando que contém informação secreta e obrigando-a a fazer uma promessa. O sucedido irá para sempre assombrar as vidas das quatro personagens, que acompanhamos ao longo de vários anos. Não será, contudo, a única força a influenciar os seus destinos. Para além das teias de amor, ódio, ambição e vingança que os vão unir e afastar, Merthin, Ralph, Caris e Gwenda ficarão também marcados pelo próprio tempo em que vivem, e em particular pela maior tragédia que assolou a Europa no século XIV, a Peste Negra. Com um enredo ricamente detalhado e um ritmo exuberante, Um Mundo sem Fim, que a Presença publica em dois volumes, é um épico medieval com que Ken Follett deslumbrará tanto habituais como novos leitores.

OPINIÃO:

Um Mundo Sem Fim é um livro maravilhoso. Comecei este volume com a certeza que seria difícil chegar aos calcanhares de Os Pilares da Terra. De facto, como se diz na gíria, “não há amor como o primeiro”, mas Ken Follett conseguiu envolver-me e apaixonar-me tanto ou mais do que conseguiu com a história inaugural.

O que dizer de personagens tão ricos e maleáveis quanto Merthin, Caris ou Godwyn, a dedicada Gwenda ou o misterioso Thomas? Uma exuberância de personagens riquíssimos que vai de Edmund, o bondoso pai de Caris, a Philemon, o irmão de Gwenda que tem um dos desenvolvimentos mais determinantes da trama. Elfric, Alice, Elizabeth, Petronilla, Lady Phillippa, Annet, Mark Webber, Irmã Cecília são apenas alguns dos personagens secundários que dão uma realidade e dinamismo incríveis a este livro.

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Edição original

Ken Follett prende-nos desde o primeiro segundo. Apesar das descrições variadas e de alguns momentos de menos vigor, quando são explicados alguns ofícios como a construção de pontes ou o tingimento de lã, todos eles são necessários para a riqueza do livro. E a ação é permanente. Fui surpreendido com mudanças de ritmo repentinas e com volte-faces inesperados.

Em boa verdade, a narrativa cativa pela oscilação entre tragédias e milagres. Somos levados a torcer pelos nossos personagens preferidos e a desejar o pior aos muitos e desprezíveis vilões. Quando tudo parece confluir para um “Felizes para Sempre”, algo trágico acontece. Quando tudo parece perdido, sucede-se alguma felicidade. Ninguém escapa incólume. Todos os personagens provam a vitória e a derrota ao longo destas páginas. Depois do final amargo do primeiro volume, irei partir desde já para a segunda parte deste romance histórico notável.

Avaliação: 9/10

Um Mundo Sem Fim (Editorial Presença):

#1 Volume Um

#2 Volume Dois