Estive a Ler: A Garagem Hermética

– Conte-me mais sobre esse curioso Major Grubert.

– Bom, na qualidade de arqueiro, estou certamente muito bem informado sobre ele!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Garagem Hermética” (Formato BD)

Conhecido essencialmente pela incontornável carreira na BD, mas também pelos trabalhos de arte conceptual para cinema, como foi o caso do ilustre Alien, Jean Giraud foi um dos melhores ilustradores do século XX, tendo um papel de relevo na disseminação da Nona Arte. Mais famoso pelo pseudónimo Moebius, faleceu em 2012, deixando um incontornável legado que contribuiu para o patamar de reconhecimento que a BD europeia vive nos dias de hoje.

A Garagem Hermética, que publicou entre 1976 e 1980 para a revista Metal Hurlant, tornou-se uma das suas obras de maior notoriedade. Apesar dos inúmeros derivados e reimpressões, é a versão mais definitiva e consensual a que Moebius publicou para a revista pelas mãos da Les Humanoides Associés, editora fundada pelo próprio artista francês, incluído num grupo de outros empreendedores da arte à época. Por cá, foi publicada inicialmente pela Meribérica (1990) e pelo Jornal Correio da Manhã na Colecção Os Clássicos de Banda-Desenhada (2014).  A mais recente versão foi publicada na Colecção Novela Gráfica em julho de 2016, resgatando o preto e branco da versão original.

Sem título
Capa Levoir / Público

O Major Grubert

A história gravita à volta do Major Grubert. O denominado Major Fatal concebe um asteróide que cabe no seu bolso através de treze geradores; porém, no interior desse corpo existem três mundos… e vida, possivelmente tão real como a nossa. Mas quem será este enigmático Major Grubert? Um cientista, um deus, um explorador?

Houm Jakin é o senhor do Carn Finehac, nas zonas de Onix. Um cowboy preocupado com a decadência do seu povo e com as inusitadas bruxarias de uma espécie denominada bakalitas. É quando um sujeito estranho de óculos chamado Boaz o aborda de revólver em punho que a demanda de Jakin à cidade abandonada se transforma numa jornada pela sobrevivência.

Sem título
Prancha Levoir / Público

A Garagem Hermética… de Jerry Cornelius

Na tundra, um homem chamado Jerry Cornelius tem de lidar com a deserção do engenheiro Barnier, depois de este ver o seu veículo estorricar. Mas este Cornelius é mais do que parece e está ligado de forma visceral a Grubert e às suas secretas intenções. À escala global.

Entre Bakalites, Tar’Haï, Begnandes, Trichlo e Targrowns, os desígnios de Grubert, o “mago de ouro”, moldam as formas dos universos e dos seus atores, fazendo-os caminhar em círculos, respondendo às necessidades mais prementes de cada cultura, escapando às malevolências naturais do ser humano e à sua vontade de alcançar o que lhe está vedado.

Sem título
Prancha Levoir / Público
SINOPSE:

Moebius foi um dos maiores autores de BD de todos os tempos, conhecido também dos fãs pelo seu nome verdadeiro de Jean Giraud (com que assinou, por exemplo, a série Blueberry). Nos anos 70, foi um dos protagonistas principais de uma revolução na banda desenhada francesa, de que A Garagem Hermética foi o primeiro passo, que iria levar à sua obra maior, o Incal.

Inicialmente publicada em episódios na revista Métal Hurlant, de que Moebius foi um dos fundadores, este volume de A Garagem Hermética é a primeira edição no nosso país da versão a preto e branco no formato original. O universo de bolso que o Major Grubert criou no interior do seu asteróide contém três mundos sobrepostos, cada um com os seus povos e civilizações. Três mundos que ignoram tudo das suas origens, mas de cuja verdade alguns habitantes começam a suspeitar. Os episódios de A Garagem Hermética foram inventados à medida que eram publicados mensalmente, e o resultado é uma história surreal, um universo de ideias incríveis e delirantes, misturadas umas com as outras.

OPINIÃO:

Completamente aleatório e insano, A Garagem Hermética de Moebius é um álbum de ficção científica pura e dura, cheia de termos técnicos e futurismos alucinantes, com traços de guerra, de faroeste, de super-heróis e de misticismos. O autor foi escrevendo a história de forma fortuita, sem um enredo com pés e cabeça ou uma linha a seguir. O resultado foi uma história que achei confusa e de difícil interpretação, mas cheia de um significado secreto que me satisfez. Logo de caras, sorri ao perceber que os nomes dos personagens inaugurais da trama eram os das colunas que sustentavam as portas do Templo de Salomão.

“O autor foi escrevendo a história de forma fortuita, sem um enredo com pés e cabeça ou uma linha a seguir. O resultado foi uma história que achei confusa e de difícil interpretação, mas cheia de um significado secreto que me satisfez.”

Grubert é a chave do livro. Ele é o criador dos mundos e governa-os com menos controlo do que um empresário gere uma organização. As ideias sucedem-se e são sempre surpreendentes e cheias de potencial, acabando por não ser exploradas. Moebius fez as regras do jogo e brincou a seu bel-prazer, deixando para trás as tramas que menos lhe interessavam e criando novos focos e diretivas.

Sem título
Prancha Levoir / Público

A narrativa é erudita e cheia de significados, ainda que a falta deles também imponha um mistério vazio que não me desiludiu. Se Moebius parece um autor louco e deixa os leitores completamente “What the fuck!” com as histórias apresentadas, é acima de tudo um artista brilhante, que soube casar o desenho à história de forma igualmente desconcertante e fluída. A própria imagem de Grubert sofre várias mudanças ao longo da obra.

Por fim, um destaque para a escrita bem-humorada do autor. Moebius apresenta uma história sem pés nem cabeça, mas cheia de sumo e de coerências. Aqui e ali, as tramas cruzam-se e o insondável ganha sentido. Foi acima de tudo o humor e a irreverência do autor que me cativaram, mais do que uma história que nem tão bem compreendi e que mesmo assim recomendo.

Avaliação: 8/10

Estive a Ler: A Louca do Sacré-Coeur

Quando há oito anos puseste em prática uma das tuas geniais “teorias”… passaste a ser um “monge universitário”… deixaste de fazer amor para te vestires de violeta!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Louca do Sacré-Coeur” (Formato BD)

Alejandro Jodorowsky e Moebius, dois dinossauros da Nona Arte, uniram-se para conceber A Louca do Sacré-Coeur. Os autores dispensam apresentações. Vanguardista e conhecido pela polémica dos seus escritos, seja na banda-desenhada, no teatro ou no cinema, Jodorowsky ganhou amores e ódios com a peculiaridade e sordidez da sua obra. Já Moebius, pseudónimo do artista Jean Giroud, foi um dos mais notáveis ilustradores franceses do último século.

Dividido em três partes, uma vez que o álbum foi publicado originalmente em três volumes, entre 1992 e 1998, A Louca do Sacré-Coeur saiu por cá em 2015, incluído na Colecção Novela Gráfica da Levoir em parceria com o Jornal Público. Com tradução de José de Freitas e Pedro Cleto, trata-se de uma crítica religiosa e social mirabolante e tresloucada.

Sem título
Capa Levoir / Público

Um professor violeta

A Louca do Sacré-Coeur apresenta-nos Alain Mangel, um professor de filosofia na Sorbonne que parece um homem cheio de valores. É um daqueles professores intelectuais que atraem os alunos com tanta facilidade que quase se tornam uma super-estrela na Universidade. Aquele professor que todos os alunos gostariam de ter. Todas as certezas e seguranças deste selecto professor vestido de roxo parecem desaparecer quando é seduzido por uma jovem aluna e é enredado numa aventura alucinante.

Mangel parece sofrer uma daquelas crises de meia-idade, o que compromete definitivamente o seu casamento. Elizabeth é a aluna que lhe vai dar a volta à cabeça, arrastando-o para uma loucura de contornos místicos e sexuais. Ela leva-o para um mundo iniciático que utiliza a religião em cerimónias lascivas de pura loucura e blasfémia, com recurso a drogas.

Sem título
Prancha Levoir / Público

Uma rapariga louca

Tendo como objetivo gerar o novo Messias, a seita onde Mangel se inicia leva-o a pactuar com uma loucura desenfreada, a um baptismo sui-generis, a uma gravidez desejada, ou nem tanto, mas também aos caminhos perversos do crime. Mas o que parece uma brincadeira sórdida pode comprometer não só a sua reputação, como pôr em risco a própria vida e convicções.

A atração física por raparigas bem mais jovens desvirtua este professor catedrático de tal forma, que nem mesmo as suas ideologias religiosas escapam impunes. Drogas, sexo e brincadeiras blasfemas transformam-se numa reflexão sobre a natureza humana e numa corrida pela própria integridade numa história inquietante que mistura dramas pessoais, xamãs, guerrilheiros da América Latina e a conservadora religião estanque no Sagrado Coração de Paris.

Sem título
Prancha Levoir / Público
SINOPSE:

Moebius, pseudónimo usado por Jean Giraud, foi um dos mais inovadores artistas de banda desenhada, e encontrou no escritor chileno Alejandro Jodorowsky o parceiro perfeito para desenvolver um estilo muito variado, marcado pelo sentido do real aliado a uma componente onírica e surrealista muito fortes. Juntos, assinaram uma das mais revolucionárias obras de banda desenhada de sempre, a série do “Incal”. Nos inícios da década de 1990 voltariam a reunir-se para este livro, talvez o mais singular da obra destes dois autores.

Alain Mangel, professor de filosofia na Sorbonne, é seduzido por uma das suas alunas, Elizabeth. Possuída por verdadeiros delírios místicos, ela arrastará o professor para um furacão de acontecimentos inesperados e delirantes que irão pôr à prova a racionalidade de Mangel. Um misto de paródia mítica, farsa sagrada, caminho iniciático e exorcismo, o percurso do protagonista vai levá-lo a abrir os seus olhos para outra realidade.

OPINIÃO:

Uma sátira à espiritualidade, à religião e à natureza humana, A Louca do Sacré-Coeur de Moebius e Jodorowsky é também uma espécie de reflexão pessoal do Homem enquanto ser que erra e se deixa influenciar pelo pensamento coletivo. De certa forma autobiográfico, o que se percebe quando Moebius desenha o protagonista do álbum como o próprio Jodorowsky, este livro deixa claramente uma mensagem de que todos pagam o preço pelas próprias escolhas e todos somos falhos enquanto seres humanos. É a partir daqui que se desenvolve uma narrativa louca, que promete alguma diversão e crítica moral.

Não gostei muito deste álbum. Jodorowsky não encanta na escrita. Muito embora tenha adorado o seu trabalho em Os Bórgia, em colaboração com Milo Manara, o autor chileno já não me havia conquistado com Bouncer, e este livro não trouxe melhorias a esse respeito. O que mais me apraz neste autor é mesmo a ousadia e a forma com que escancara a podridão da mente humana. A arte de Moebius é boa, revelando nos traços fortes e cores densas a identidade inconfundível do melhor estilo franco-belga. Confesso que nunca vi mais nada deste célebre artista francês para comparar, mas a fama que o precede não me desapontou.

Sem título
Prancha Levoir / Público

Esperava mais deste A Louca do Sacré-Coeur, mesmo tratando-se de uma aventura de bom ritmo com momentos marcantes e cenas bem-humoradas. A forma disparatada com que os temas religiosos foram tratados não me chocou, mas em nenhum momento senti uma justificativa ou um “oh yes” de uma cena mais genial. As várias histórias a que somos apresentados entrelaçam-se mas acabam por não trazer nada de relevante para o plano principal.

“A forma disparatada com que os temas religiosos foram tratados não me chocou, mas em nenhum momento senti uma justificativa ou um “oh yes” de uma cena mais genial.”

Em alguns momentos frívolo, em outros pertinente, o álbum A Louca do Sacré-Coeur não foi, porém, uma leitura má. Tanto a proposta como as imagens agradaram-me, a concretização das ideias e a frugalidade dos diálogos e das histórias, porém, comprometeram as minhas expectativas.

Avaliação: 5/10

Estive a Ler: A História de um Rato Mau

Estou zangada! Tenho direito de estar zangada! Recuso-me a sentir-me culpada!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A História de Um Rato Mau” (Formato BD)

Um dos mais conhecidos argumentistas e ilustradores britânicos, Bryan Talbot é o criador de The Adventures of Luther Arkwright, Heart of Empire e Grandville. Natural do Wigan, começou a trabalhar no mercado underground de bandas-desenhadas, nos anos 60, mas foi com os seus trabalhos para a Dark Horse e para a DC que viria a destacar-se, colaborando em obras de grande sucesso como Sandman (vê a minha opinião ao trabalho dele aqui e aqui), Fables, Batman ou Hellblazer. Também foi ilustrador das cartas colecionáveis do jogo Magic: The Gathering.

A História de um Rato Mau foi publicado pela Dark Horse Comics em 1994, vindo a ganhar o Prémio Eisner para Melhor Novela Gráfica em 1996, na sua primeira reedição. O livro chegou ao nosso país em julho de 2016, incluído na Colecção Novela Gráfica da Levoir em colaboração com o jornal Público. Uma alegoria sobre sobrevivência que convida a uma reflexão sobre a passividade da sociedade perante situações tão complexas como o abuso sexual de menores.

Sem título
Prancha Levoir / Público

Helen Potter

O livro, dividido em três capítulos, seria inicialmente focado no Lake District, mas acabou por ser inspirado na vida da escritora de livros infantis Beatrix Potter. Uma sem-abrigo de dezasseis anos chamada Helen Potter sobrevive nas ruas de Londres, apenas com um rato de estimação e os seus livros. Aliciada pela ideia de suicídio, a jovem Helen revê o seu percurso através de flashbacks, onde conhecemos uma infância prenhe de abusos sexuais por parte do pai e marcada também pela indiferença da mãe. 

Helen foi vítima da própria família, acabando por sentir-se culpada pelos abusos e pela sua infelicidade. Mas Helen também é uma jovem artista cheia de talento. Nas suas movimentações no mundo dos sem-abrigo, ela é vítima da perseguição de um polícia que a tenta assediar, e quando regressa para o grupo que antes a tinha acolhido, encontra o seu rato morto pelo gato de um dos ocupantes.

Sem título
Prancha Levoir / Público

Um rato gigante

Decide fazer-se à estrada, rumo ao Lake District, acompanhada pela história de Beatrix Potter e pelas visões fugazes do seu rato, numa dimensão estranhamente gigante. É também acompanhada pelas lembranças do passado, onde pouco a pouco se sabe mais sobre a ruptura que a levou a abandonar o seu lar.

Desde o encontro desagradável com um motorista, até à sua passagem por um bar, onde trabalhou, acompanhamos o percurso íngreme e duro de Helen, socorrendo-se de livros de auto-ajuda para tentar colar os estilhaços da sua vida. É quando ela encontra a casa de Beatrix Potter que procura encontrar um livro perdido – A História de um Rato Mau – e que se revela um espelho da sua própria história. Ali decide criar o final para a sua e dar-lhe um final feliz. Afinal, o futuro está nas suas mãos.

Sem título
Capa Levoir / Público
SINOPSE:

A História de um Rato Mau é considerado o seu melhor livro. Helen Potter, uma jovem vítima de abuso sexual, empreende uma viagem de descoberta pela Inglaterra, seguindo os passos da célebre autora de livros infantis, Beatrix Potter, na esperança de reencontrar a paz…neste diálogo entre duas épocas e duas Potter, Helen irá descobrir a verdadeira força interior com que confrontará os seus demónios pessoais, numa história de heroísmo e coragem.

Bryan Talbot é um dos grandes autores britânicos. Iniciou a sua carreira nos comics underground, quando ainda estudava no liceu. Depois de colaborar em várias revistas inglesas de BD, tem trabalhado também para o mercado americano, ilustrando histórias para as mais emblemáticas séries de comics, como The Sandman, Hellblazer ou Fables. É igualmente um argumentista conceituado e criador de duas grandes séries, Luther Arkwright e Grandville.

OPINIÃO:

Ainda que possa causar alguma estranheza ver um tema tão forte como o abuso sexual de menores representado de forma tão direta numa banda-desenhada, Bryan Talbot fê-lo com distinção. Utilizando artifícios tão legítimos como a metáfora, a deambulação de Helen Potter e a companhia do rato gigante caiu como uma luva no retrato social a que o autor britânico se propôs.

Da relação doentia com os pais, à familiaridade com a escritora Beatrix Potter, acompanhamos o rumo de uma jovem desnorteada, definhada e partida em pedaços, até finalmente se encontrar consigo mesma. A forma cadenciada e calculista com que Talbot desvenda a trama da sua protagonista veio acicatar-me a curiosidade e revelar tons negros e cinzas na vida de uma criatura que tudo tinha para ser orlada de luz.

Sem título
Prancha Levoir / Público

Desde o primeiro momento somos convidados a compreender esta mente abstrata com cuidado e exatidão, não porque estejamos a caminhar em terreno pantanoso mas porque a personagem é feita de retalhos e complexidades, derivadas do seu passado melindroso. Não só vemos Helen Potter como uma vítima da própria família, como uma vítima da sociedade, a que ela não se conseguiu adaptar muito por conta da sua fragilidade psicológica.

“Não só vemos Helen Potter como uma vítima da própria família, como uma vítima da sociedade, a que ela não se conseguiu adaptar muito por conta da sua fragilidade psicológica.”

Se esta personagem nos surpreende pela verosimilhança e brilhantismo, o argumento não pode ser censurado. É com uma certa leveza que olhamos para este livro, mas à medida que passamos página após página, elas parecem tornar-se mais pesadas, quando nos apelam a pensar e a sentir na pele o drama da personagem. O desenho não impressiona, mas é o colorido que alimenta a esperança do leitor, recompensada de certa forma no final do álbum.

Avaliação: 7/10

Estive a Ler: A Dança das Andorinhas

Não te devias ter preocupado, sabias que estávamos no escritório!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Dança das Andorinhas” (Formato BD)

Seguindo o estilo definido e elogiado de Marjane Satrapi, em Persépolis, a autora libanesa Zeina Abirached surpreendeu o mundo com este A Dança das Andorinhas – Morrer, Partir, Regressar. Galardoada com o Prémio Face/Vozes de França do Pen American Center, a autora foi nomeada com este livro para os prémios de Angoûleme em 2008, que viu tornar-se um sucesso em França e editado em mais de 10 países. A Dança das Andorinhas foi publicada pela Cambourakis em 2007 e chegou ao nosso país o ano passado, incluída na Colecção Novela Gráfica, pelas mãos da parceria Levoir/Público, que pela primeira vez publicaria uma mulher. A tradução é de Carlos Xavier.

Natural de Beirute, onde nasceu em 1981, a autora estudou na Academia Libanesa das Belas Artes, onde viria a desenvolver o seu gosto pelo desenho gráfico e pelo trabalho em preto e branco, que a caracteriza. Em 2002 ganhou o prémio do International Comic Book Festival de Beirute com a sua primeira novela gráfica, Beyrouth- Catharsis. Mudou-se para Paris em 2004 e dois anos depois lançou duas novelas gráficas e uma curta-metragem, Moutons, que foi nomeada no Festival Internacional de Teerão. Foi quando se mudou para Paris, onde a cultura da BD está profundamente enraizada, que deu maior ênfase à sua vocação.

Sem título
Prancha Levoir/Público

Uma noite em Beirute

A guerra civil estalou no Líbano. O país conseguira manter a paz durante vários anos entre as facções xiitas, sunitas e cristãs após a independência, mas a guerra viria quando as tropas palestinianas da OLP no sul do Líbano foram exiladas no seguimento do Setembro Negro. Foi neste cenário que Zeina Abirached nasceu, em 1981. A Dança das Andorinhas é um relato auto-biográfico de uma noite da sua infância. A cidade de Beirute estava a ferro e fogo, sob bombardeamentos contínuos. Fraturada. Dividida entre muçulmanos e cristãos. Os bens básicos, o saneamento e a comida tornaram-se tesouros, pela sua escassez.

E é o medo pelos que não estão presentes o que acompanha os protagonistas deste livro. Uma noite de bombardeamentos, como tantas outras. Uma menina a pensar nos pais. Uma tentativa de seguir em frente, com o mundo a desabar à sua volta. A esperança a permear a incredulidade e o medo. Um relato de uma vida em 1984, como tantas outras poderiam testemunhar, na atualidade.

Sem título
Prancha Levoir / Público

Zeina é a protagonista do seu livro. Uma menina escondida na sua casa,  num átrio à entrada do apartamento, com um grupo de vizinhos e conhecidos. Aquele lugar transformou-se no seu bunker, o único em que se sentem em segurança, capazes de sobreviver aos movimentos bélicos que chovem à volta da residência. A singeleza e frugalidade de tarefas do quotidiano tornam-se complexas, tragando a liberdade que julgavam conhecer. É na vida, nos pequenos gestos, que esta gente encontra esperança.

A autora tinha 10 anos quando a guerra terminou. Um muro dividia a sua rua em duas, mantendo o seu “lado” completamente exilado do remanescente da cidade. Até ao fim da guerra, guerra foi a única coisa que Zeina conheceu.

Sem título
Prancha Levoir / Público
SINOPSE:

A libanesa Zeina Abirached, nascida em Beirute, em 1981, viveu os primeiros dez anos da sua vida numa cidade debaixo de fogo, destruída por uma sangrenta guerra civil que provocou mais de centena e meia de milhar de mortos, mas no seu livro, A Dança das Andorinhas, sobressai uma obra fascinante, de grande ternura e humanismo, que, centrada numa noite de bombardeamentos no auge da guerra, em 1984, retrata com grande sensibilidade e humor a dicotomia entre a realidade exterior hostil de uma cidade destruída pela guerra, e a intimidade protectora do espaço familiar. Mesmo que esse espaço esteja confinado ao átrio de um apartamento fustigado pelas bombas.

“Em Outubro de 2006, no site na Internet do Instituto Nacional do Audiovisual encontrei uma reportagem gravada em Beirute em 1984. Os jornalistas entrevistavam os habitantes de uma rua situada na proximidade da linha de demarcação, que cortava a cidade em dois. Uma mulher, bloqueada pelos bombardeamentos na entrada do seu apartamento, disse uma frase que me perturbou: “Sabem, acho que, mesmo assim, se calhar estamos mais ou menos em segurança, aqui”. Essa mulher era a minha avó”. – Zeina Abirached

OPINIÃO:

Tocante, subtil e ternurento, A Dança das Andorinhas é um hino à sobrevivência e à vida de muitos, que a cultura ocidental muitas vezes só conhece através destes testemunhos – reais e palpáveis, mas longínquos. Zeina Abirached é uma autora libanesa que começa a implementar o seu cunho na BD francófona, através de testemunhos emocionantes de situações complexas e cenários de guerra, contextos que conheceu de perto.

Se os seus relatos são fragmentos de histórias reais, que nos deviam incomodar a todos e que espelham situações que ainda hoje se vivem em muitos países do Médio Oriente, a sua narrativa é embalada por uma certa inocência e visão singular dos acontecimentos. Zeina consegue transmitir o clima de confinamento e exclusão, a segurança débil e uma estabilidade “fingida”, trazida por muros e paredes que muitas vezes nada significam.

Sem título
Prancha Levoir / Público

A autora faz também um jogo interessante a nível gráfico, permeando o álbum com uma simbiose de estilos que variam do muçulmano ao chinês, moldando com perfeição o traço a preto e branco às sombras e expressões que nos fazem olhar para estas personagens quase como se de um jogo de fantoches se tratasse. Paralelamente a isso, a situação calamitosa em que a situação se encontra permite o uso de um humor característico, que torna toda a narrativa mais adocicada. Quase uma história para crianças, o que de facto não é.

Não sendo uma novela gráfica que me cativasse, A Dança das Andorinhas proporcionou-me momentos de reflexão e de humanismo, trazendo de forma suave um assunto melindroso e sobre o qual toda a Humanidade devia refletir, num momento em que a guerra está mais presente do que nunca. Um volume fascinante pela simplicidade com que os temas são tratados.

Avaliação: 6/10

Presas Fáceis

Manda um polícia à paisana, a ver se alguém reparou no puto das pizzas ou viu alguém a abrir a caixa da moto…

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Presas Fáceis” (Formato BD)

Conhecido pelos trabalhos de notória crítica social, Miguelanxo Prado é um argumentista e ilustrador galego que usa o absurdo e o bizarro para caricaturar situações problemáticas do mundo moderno. Com trabalhos por todo o mundo, foi com naturalidade que a sua participação em Sandman de Neil Gaiman e no design da animação Men in Black se tornaram nos maiores destaques, pela repercussão mediática dos mesmos.

Ainda assim, são obras como O Manancial da Noite, Fragmentos da Enciclopédia Délfica e Tangências que definiram o estilo de Miguelanxo Prado. E com Traços de Giz arrebatou vários prémios em 1994, como o prémio de Melhor Álbum Estrangeiro no famoso Festival de Angoulême, que já havia ganho em 1991 com Manuel Montano. A sua obra Presas Fáceis foi publicada no nosso país o ano passado, na Colecção Novela Gráfica da Levoir em colaboração com o Jornal Público.

Sem Título
Capa Levoir / Público

Presas Fáceis

A burla é o tema central de Presas Fáceis. Se o gestor bancário é uma figura de confiança para a faixa etária mais elevada, principalmente em zonas mais isoladas, este pode também tornar-se perigoso pelo poder a que tem acesso. A manietação das classes menos escolarizadas para benefício de grupos financeiros torna-se um problema difícil de resolver.

A narrativa acompanha a investigação policial dos inspetores Olga Tabares e Carlos Sotillo, na peugada da verdade sobre os homicídios suspeitos de várias pessoas ligadas à banca galega. Tal perseguição vem, no entanto, trazer um embaraçoso conflito moral. E isso porque o contrato social que deriva da Revolução Francesa veio restringir a defesa dos cidadãos quando isso prejudica os grandes centros financeiros. Assim, a paz social é colocada em cheque e o debate em torno dos direitos e deveres de cada um toma proporções gigantescas. Por vezes, a lei não pode agir. Por vezes, a única solução é fazer justiça pelas próprias mãos.

Sem Título
Prancha Levoir / Público

Após o suicídio de um casal de idosos, sucede-se uma sequência de homicídios e a dupla de inspetores procura juntar as peças do puzzle, percebendo que as descobertas decorrentes das suas investigações revelam os conflitos amargos do dever profissional e dos próprios interesses pessoais das vítimas. A pergunta que se impõe é: quem tem razão? Quem é o detentor da moral? As vítimas ou aqueles que viram no crime a sua desesperada alternativa para fazer justiça?

Uma inspetora resoluta a desempenhar o seu papel de forma isenta depara-se com um cenário de contundente crise social, atolada em debates morais e com um sentido prático determinado em chegar a uma resolução minimamente justa. O seu lado pessoal entra em conflito com o profissional. Latente está a sensação de que o verdadeiro interruptor de todas as tragédias foi a crise financeira de 2008.

Sem Título
Prancha Levoir / Público
SINOPSE:

Nascido na Galiza, Miguelanxo Prado é um dos maiores autores de banda desenhada espanhola. Começa a sua carreira em fanzines galegos em 1979, quando ainda estudava para ser arquitecto. Depois do sucesso dos seus primeiros álbuns em Espanha, Prado atingiria a consagração em 1994, ano em que Traços de Giz, uma das suas obras mais conhecidas, vence vários prémios em França, incluindo o de Angoulême. Detentor de um traço notável, Prado é também considerado como um dos mais originais argumentistas actuais.

Tendo como pano de fundo a crise actual, por entre as indemnizações milionárias a gestores e políticos que levaram um país à falência e o desespero dos cidadãos comuns que sofrem as consequências da fraude bancária, uma sucessão de homicídios de banqueiros lança dois polícias numa investigação que se tornará num verdadeiro thriller. Uma história de vingança que gira à volta dos temas mais recentes: os despejos, a corrupção e a impunidade.

OPINIÃO:

Imbuído de uma carga crítica contundente e dilacerante, Miguelanxo Prado justifica, neste álbum, o porquê de ser considerado um dos mais influentes autores de BD vivos, no que diz respeito às matérias sociais. Sem uma pontada de humor, Presas Fáceis revela a ironia da situação no próprio contexto apresentado, levando uma dupla de polícias a vasculhar a fundo a vida de idosos para descobrir uma série de crimes. Prado invoca o estado social como a verdadeira ironia do livro.

Com um texto profundamente reflexivo e catalisador de debates, o autor galego maravilha com vários jogos de sentidos profundamente encastrados na sua obra, desnudando-a como uma alegoria sobre o ser moderno, sobre a maturidade apreendida, sobre a falta de parcialidade ou de justiça nas mais variadas circunstâncias da vida. Em jeito de denúncia, somos apresentados a um relato tão absurdo como as situações mais corriqueiras da nossa realidade. A verdade está ao virar da esquina.

Sem Título
Prancha Levoir / Público

Mais que uma crítica social, Presas Fáceis é também um policial, protagonizado por uma mulher de personalidade forte e insurgente. O ritmo narrativo começa lento, vindo a aumentar de intensidade à medida que os acontecimentos se sucedem. As revelações surgem nas entrelinhas, sem necessitarem de explicações ou de relatos minuciosos. De uma forma coesa e fluída.

Se os exageros ou as minúcias foram claramente dispensáveis na narrativa, fazendo com que ela funcione na perfeição pela realidade e claridade que enceta, o tom sombrio e cinzento dos desenhos, acompanhado pelo traço forte e percetível do autor, vêm oferecer um álbum rico a todos os níveis. Mais uma excelente aposta da Levoir e da sua Colecção Novela Gráfica.

Avaliação: 8/10

Terra de Sonhos

E foi assim que o Tam se tornou verdadeiramente num amigo inseparável de nós os dois.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Terra de Sonhos” (Formato BD)

Depois de V de Vingança, o segundo álbum da Colecção Novela Gráfica 2016 da Levoir em colaboração com o Jornal Público foi o livro Terra de Sonhos de Jiro Taniguchi, autor que já tinha sido publicado pela coleção de 2015 com O Diário do Meu Pai. Trata-se de uma banda-desenhada de contornos ternos que enaltece o amor pelos animais de estimação e por aqueles que nos rodeiam.

Falecido este ano, Taniguchi foi o único autor japonês a ganhar dois prémios, primeiro em 2003, como melhor argumentista, e em 2005, como melhor desenhador, no maior Festival de BD europeu, o de Angoulême, o que lhe valeu uma homenagem em 2015. Por cá, e também em 2015, venceu o Prémio Clássicos da Nona Arte do Festival AMADORA BD pelo álbum O Diário do meu Pai, edição da Levoir/Público.

Sem Título
Capa Levoir/Público

Ter um cão

Terra de Sonho apresenta, sob a forma de cinco histórias curtas que se interligam, a história de um casal nipónico de classe média que lida com o declínio natural do seu animal de estimação, um cão que os acompanhava há quinze anos. Sem filhos, os dois transportaram todo o afeto para o seu velho amigo, sendo também obrigados a lidar com a velhice do mesmo e a trabalhar para atenuar as dores do fim.

Divididos entre ajudá-lo a morrer sem sofrimento e em prolongar a dor do fim para o manter vivo, este casal é obrigado a enfrentar a truculência da doença e a aceitar os limites fisiológicos do animal. Assim sendo, têm de lidar com o seu próprio sofrimento e com a dor da perda, que se revela bastante cruel.

Sem Título
Prancha Levoir/Público

Uma nova oportunidade

O momento de luto é doloroso e o casal jura não voltar a apegar-se a nenhum animal, mas essa convicção é ultrapassada quando encontram uma gata persa sem dono, que ainda por cima se encontra grávida. Eles aceitam ficar com uma cria, mas sentem um novo debate moral e não são capazes de separar a mãe dos rebentos, acabando por ficar com os três gatos.

A nova família revela-se a companhia perfeita para a sua sobrinha, que vem passar com eles o verão. Akiko é uma menina que se refugia em casa dos tios para fugir à revolução na sua casa. O pai morreu e a mãe encontrou um novo amor, que a menina não vê com bons olhos. É ali que ela encontra conforto e ternura, partilhando o gosto pelo basebol e pelos animais.

O último conto, A Terra Prometida, desvincula-se da história desta família, apresentando Kawamura Keisuke, um alpinista que fez uma promessa à esposa, de quem espera um bebé. Preocupada com o perigo das montanhas, fê-lo prometer que abandonava o desporto. Kawamura cumpre o prometido, mas é-lhe difícil esquecer a adrenalina do alpinismo. Uma história de caráter espiritual e alegórico, sobre o ultrapassar de obstáculos e a necessidade do homem em definir objetivos.

Sem Título
Prancha Levoir/Público
SINOPSE:

Jiro Taniguchi começou a sua vida profissional como empregado de escritório, até descobrir que o que queria realmente fazer era desenhar. No início dos anos 70 irá descobrir a BD europeia, que o influenciará durante o resto da sua carreira, cada vez mais orientada para temas quotidianos. Taniguchi foi o único autor japonês a ganhar dois prémios em Angoulême – em 2003 como melhor argumentista e em 2005 como melhor desenhador -, o maior Festival de BD europeu, que lhe dedicou uma grande exposição em 2015.

Em 2015, este autor foi galardoado no Festival AMADORA BD pela edição da Levoir e do Público do livro, “Diário do meu Pai” com o Prémio Clássicos da Nona Arte.

Ao longo de histórias impregnadas da observação do quotidiano, Terra de Sonhos mergulha-nos na realidade das emoções humanas: a morte de um cão e a tristeza que ela provoca, o nascimento de uma ninhada de gatos, a chegada de uma jovem sobrinha que fugiu de casa, os sonhos que um alpinista abandonou a troco de uma família… Relatos da felicidade e da melancolia simples da vida como ela é.

OPINIÃO:

Belo como muito do que é triste, Terra de Sonhos é um relato profundo e intenso dos paradoxos inerentes à natureza humana, dos seus sentimentos e emoções. A ternura e a melancolia permeiam a narrativa com suavidade, enquanto os debates morais e as vicissitudes da maturidade dão voz às interrogações do Homem enquanto ser errante, enquanto aprendiz da vida. 

Jiro Taniguchi leva-nos a pensar. A pensar na efemeridade dos que nos são próximos, a pensar que nem sempre estamos certos, nem devemos estar, que o certo e o errado são por vezes uma ilusão, que todos estamos sujeitos à encruzilhada, onde o tato é determinante mas nem ele nos permite escolher uma alternativa livre de sofrimento. Todas as escolhas carregam consigo um preço, e ser adulto é perceber que não se pode fugir a ele.

Sem Título
Prancha Levoir/Público

Profunda, fascinante e simples, a narrativa de Taniguchi conquista pela maturidade dos dilemas apresentados, pela maciez da forma como os apresenta, pelo perfume nipónico dos seus personagens e pela complexidade disfarçada de temas quotidianos que ondulam ao sabor das ações.

O traço é vigoroso e simples, ao mesmo tempo que espelha na perfeição o perfil dos personagens, a ternura de gestos singelos que podem, aqui e ali, erradamente, ser tomados por frugais. É na arte que Taniguchi revela o esplendor da sua obra e o cadenciado de um relato introspetivo que, muitas vezes, torna-se uma conversa do leitor consigo mesmo. Gostei mais de O Diário do Meu Pai, mas este é mais um álbum recomendadíssimo.

Avaliação: 8/10

O Diário do Meu Pai

E quanto ao meu pai… Hoje só me lembro da sua silhueta, de costas, a trabalhar em silêncio.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Diário do Meu Pai” (Formato BD)

O Diário do Meu Pai é uma banda-desenhada publicada pela Levoir em colaboração com o Jornal Público na famigerada Colecção Novela Gráfica, em 2015. Da autoria do renomeado autor Jiro Taniguchi, falecido em fevereiro deste ano, o livro é um hino ao saudosimo e ao amadurecimento.

Jiro Taniguchi foi um dos mais célebres autores de banda-desenhada japonesa. Depois de um início de vida profissional como empregado de escritório, começou a coligir os primeiros desenhos, influenciado pela cultura francesa no género. A partir do trabalho de Jean Girou (Moebius), Taniguchi criou a série Ícaro, com que viria a chamar a atenção. Foi o vencedor dos prémios Osamu Tezuka em 1997, Shogakukan em 2003 e do prestigiado Festival de Angoulême por duas vezes, em 2003 e em 2005.

Sem título
Prancha Levoir / Público

O regresso a casa

A morte do pai leva Yoichi Yamashita, um designer a residir em Tóquio, a regressar à terra natal, francamente empurrado pela esposa. Imbuído de sentimentos antagónicos, Yoichi vai revelando, pouco a pouco, os pormenores complexos da sua infância e da relação difícil com o progenitor. As primeiras memórias são escassas, mas a distância do pai é uma constante. Obstinadamente dedicado ao trabalho na barbearia, o seu pai parece uma figura fria e censurável, mas à medida que Yoichi vai falando com outras pessoas e registando as homenagens durante o funeral, vai tirando outras ilações.

O regresso a Tottori transforma-se numa avalanche de recordações. A mãe era a figura afetuosa na vida de Yoichi, mas o casamento idílico modificou-se e ela acabou por abandoná-los. Se, numa fase preambular, a sua felicidade era mantida pela alegria constante da mãe, as atitudes egoístas da mesma vieram a dar outros contornos à visão que tinha da vida conjugal dos progenitores. E quando a mãe os deixa, a mente de Yoichi é levada a culpabilizar o pai e a sua personalidade pelo ocorrido.

Sem título
Prancha Levoir / Público

A mudança ocorre

Vários pormenores são revividos pela mente nostálgica de Yoichi. Um grande incêndio que os deixou na penúria, a afeição ternurenta por um cão, a austeridade do pai sempre presente, mesmo quando uma nova relação amorosa nasce entre o progenitor e outra mulher, até ao consequente distanciamento de Yoichi. Da infância à idade adulta, o protagonista da história vai-se indignando com o comportamento do pai, até à cisão total.

Sem manter contacto há vários anos, Yoichi é assim assoberbado por uma tempestade de informações que o levam a construir uma nova visão sobre o pai. Afinal, tudo o que testemunhara foram fragmentos soltos de uma vida, de um propósito, de uma personalidade que, descobre agora, não conhecer nem um pouco. O regresso a Tottori muda assim, por completo, a sua vida.

Sem título
Prancha Levoir / Público
SINOPSE:

Nascido em 1947 em Tottori, no Japão, Jiro Taniguchi começou a sua vida profissional como empregado de escritório, até descobrir que aquilo que queria realmente fazer era desenhar. Nos inícios dos anos 70, começou a publicar os seus trabalhos em diversas revistas japonesas, dando início a uma carreira sólida e prestigiada. Grande conhecedor da BD franco-belga e admirador confesso de autores como Moebius, Schuiten e Tito, Taniguchi, que já desenhou um argumento de Moebius, colaborou com Boilet e Peeters em Tokio est mon Jardin, foi o único autor japonês a ganhar dois prémios em Angoulême, o maior Festival de BD europeu, que lhe dedicou uma grande exposição em 2015.
Em O Diário do meu Pai, Taniguchi conta-nos a história de Yoichi Yamashita um designer que vive em Tóquio e regressa a Tottori, a sua terra natal, depois de uma longa ausência, para o funeral do seu pai. Um regresso às suas raízes, que o leva a evocar a infância e a perceber finalmente o verdadeiro motivo por que o pai abandonou a família.


Taniguchi queria contar uma história que tivesse a sua terra natal, Tottori, como cenário, mas, como refere numa entrevista a Benoit Peeters: “quando me pus a reflectir na história, apercebi-me que, de facto, não sabia quase nada sobre o meu pai. Imaginei então uma personagem que regressa à sua terra natal para descobrir quem era verdadeiramente o seu pai. Comecei a fazer as pesquisas, voltei a Tottori para recolher documentação e aos poucos, a história nasceu (…) A história é inventada, mas os sentimentos e o espírito da história resultam da minha experiência pessoal. Tinha em relação ao meu pai o mesmo tipo de sentimentos que estão descritos no livro. No fundo, durante a minha juventude, tinha a ideia que não queria ser como ele. Achava que a vida do meu pai não era uma vida interessante. Mas depois, descobri que afinal não era bem assim, e é isso mesmo que tento transmitir neste livro”.
Não sendo a primeira vez que os leitores portugueses têm oportunidade de descobrir o trabalho de Taniguchi, pois O Homem que Caminha foi editado em 2005 na Série Ouro da Colecção Clássicos da Banda Desenhada, foi preciso esperar 10 anos para o poder voltar a ler novamente em português, mas desta vez numa edição em capa dura, traduzida directamente do japonês. Também por isso, valeu a pena a espera!

OPINIÃO:

Cativante, nostálgico e introspetivo, O Diário do Meu Pai de Jiro Taniguchi é uma mais valia em qualquer estante. Cheio de referências sentimentais, este livro pode ser visto como autobiográfico, conforme o autor confirmou, ainda que os personagens sejam ficcionais.

De forma lenta e de digestão demorada, Taniguchi apresenta uma narrativa cadenciada de belo efeito, não só estrutural mas acima de tudo emocional. De facto, O Diário do Meu Pai evoca a infância e a forma como todos nós mudamos a capacidade de compreender as situações à medida que crescemos. Não é uma leitura doce ou benevolente, mas um relato cru e austero sobre a ingratidão da vida, as dificuldades porque cada um de nós é obrigado a passar e acima de tudo um aprendizado sobre o ser humano e a frugalidade das idiossincrasias.

Sem título
Prancha Levoir / Público

O estilo próprio de Taniguchi revela neste seu regresso às origens a inspiração francesa que pautou o seu trabalho. Embora o enalteça por ser um dado adquirido do autor e não por ser um expert em BD, conheço o suficiente dos estilos franceses e japoneses para avalizar a identidade imprimida no trabalho de Taniguchi. Somos apresentados a um Japão nostálgico que podia ser o berço de qualquer um de nós.

A simplicidade do desenho é outro dos motivos de destaque. É a singeleza de traço e a expressividade do trabalho a carvão que enriquecem o álbum. Sem grandes enquadramentos, O Diário do Meu Pai vale acima de tudo pela mensagem e pelo emocional, assim como pelo tom lúgubre que acompanha, página a página, a operação de entendimento do protagonista.

Avaliação: 8/10

Resumo Trimestral de Leituras #9

O primeiro trimestre do ano chegou ao fim e com ele chegou a altura de fazer o habitual balanço trimestral de leituras. De Ken Follett a Neil Gaiman, passando por Brandon Sanderson e George R. R. Martin, revisitei alguns dos meus escritores favoritos e ainda tive o prazer de iniciar a Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss. Vejam a lista de leituras dos meses de janeiro, fevereiro e março:

A Darkness Surrounds Him, Outcast #1 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

The Whisperer War, The Walking Dead #27 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

Inimigos – Anton Tchekov

Um Jogo de Ti, Sandman #5 – Neil Gaiman

Fábulas e Reflexões, Sandman #6 – Neil Gaiman

Um Mundo Sem Fim, Vol. 1 – Ken Follett

Um Mundo Sem Fim Vol. 2 – Ken Follett

Vidas Breves, Sandman #7 – Neil Gaiman

A Estalagem no Fim do Mundo, Sandman #8 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 1, Sandman #9 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 2, Sandman #10 – Neil Gaiman

A Vigília, Sandman #11 – Neil Gaiman

Warbreaker, Warbreaker #1 – Brandon Sanderson

La Dueña – J. A. Alves

Vidas Secretas de Homens Mortos, Velvet #2 – Ed Brubaker, Steve Epting e Elizabeth Breitweiser

Autoridade, Área X #2 – Jeff Vandermeer

O Cavaleiro de Westeros – George R. R. Martin

White Sand #1 – Brandon Sanderson

Terrarium – João Barreiros e Luís Filipe Silva

Príncipe dos Dragões, Elric #1 – Michael Moorcock

Loki – Robert Rodi e Esad Ribic

Assombrações Sem Fim, Harrow County #1 – Cullen Bunn e Tyler Crook

Saga #6 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Um Diamante Para o Além, Bouncer #1 – Alejandro Jodorowsky e François Boucq

O Nome do Vento, Crónica do Regicida #1 – Patrick Rothfuss

sem-tituloO ano iniciou-se com um desafio em mente: começar a série fantástica de Patrick Rothfuss e ler os dois volumes em português do famoso Mundo Sem Fim de Ken Follett. E não é que cumpri? Janeiro foi um mês rico em leitura de bandas-desenhadas. Comecei com o primeiro volume da BD Outcast de Robert Kirkman, o mesmo autor de The Walking Dead. A Darkness Surrounds Him apresenta Kyle Byrnes como protagonista, e uma narrativa sombria prenhe de possessões demoníacas e histórias de vida dramáticas e violentas. Muito diferente da história de mortos-vivos, a mais conhecida de Kirkman, agradou-me acima de tudo pela forma como toda a temática é explorada de forma fluída e misteriosa. Também li o mais recente volume de The Walking Dead, a edição 27. The Whisperer War mostrou ser apenas a primeira batalha entre as comunidades e os Sussurradores. O exército de Rick, liderado por Dwight e com Negan na linha da frente, vence o primeiro round. No entanto, Hilltop é completamente destruída e a muito custo Maggie, Carl, Aaron e Jesus conseguem derrotar os seus inimigos. Mais um volume genial, que tem direito ao “funeral” de Lucille.

sem-tituloAinda nos primeiros dias de janeiro li o conto de Anton Tchekov Inimigos, uma história tão curta que não achei necessidade de escrever uma opinião. Fala sobre Varka, uma jovem criada cuja tarefa de adormecer um bebé faz-lhe crescer uma intensa sensação de sonolência, que é incapaz de dominar. Li ainda, de uma assentada, o que faltava da coleção Sandman (Vol. 5, Vol. 6, Vol. 7, Vol. 8, Vol. 9, Vol. 10, Vol. 11) de Neil Gaiman, publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público. Entremeando histórias soltas com uma linha narrativa central, Gaiman soube tecer toda a narrativa nos últimos volumes, que trouxeram inúmeras reflexões e uma sensação de renovação e esperança ao leitor. Apesar disso, Sandman não me apaixonou em nenhum momento e, por muito mérito que tenha, soou-me muito a “eterna promessa” e a histórias vagas.

sem-tituloDividido em Portugal em dois volumes, o livro Um Mundo Sem Fim (Vol. 1 e Vol. 2) de Ken Follett agarrou-me desde o primeiro momento. Apesar de repetir a receita de Os Pilares da Terra, adorei tanto um como o outro. Histórias dramáticas de amor e superação, sobre religião, política, medicina e sobrevivência. Uma história de época que retrata o drama da Peste Negra e a Guerra dos Cem Anos. Warbreaker é um livro de Brandon Sanderson, o autor do momento no que diz respeito à literatura fantástica. Uma espada falante, cabelos que mudam de cor mediante as emoções, soldados mortos-vivos que são comandados através de palavras de ordem, a capacidade de dar vida a objetos inanimados e, principalmente, um panteão de deuses que está bem vivo e habita entre os demais. Original e muito bem escrita, esta obra de fantasia consegue também acumular bons momentos de humor e imensas reviravoltas.

sem-tituloComecei fevereiro com La Dueña: Devoradora de Homens. Da autoria de J. A. Alves, o autor de Batalha Entre Sistemas, La Dueña mostra todo o esplendor dos llanos venezuelanos e uma história tensa de superstições locais e pactos com o demónio. Chris viaja até à Venezuela com a noiva, Ana Clara, para conhecer a fazenda que herdou do seu tio Miguel, mas quando lá chega encanta-se por Yolanda, a dona da fazenda vizinha. Dizem que essa mulher rouba a alma de todos que por ela se apaixonam. Gostei imenso. Vidas Secretas de Homens Mortos, o segundo volume da graphic novel Velvet traz-nos o melhor da equipa composta por Ed Brubaker (argumento), Steve Epting (ilustração) e Elizabeth Breitweiser (cores). Uma história de espionagem tensa que prende desde o primeiro momento. Velvet é uma antiga espia que se vê atirada para o centro da ação quando o seu superior é assassinado. Neste segundo volume, ela tenta descobrir quem a tramou e porquê, depois de saber que o seu esposo não era quem ela pensava. Entre soltar um prisioneiro, fazer uma viagem de comboio alucinante e fugir a cães-pisteiros, Velvet passa por várias amarguras neste excelente segundo álbum da trilogia.

sem-tituloAutoridade é o segundo volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer. Se esta história que mistura o terror psicológico ao bizarro (o new weird fiction) me fascinou no primeiro volume ao mostrar in loco as experiências vividas por quatro exploradoras numa zona frondosa alegadamente contaminada, este segundo livro vai mais além ao apresentar-nos Control, o novo diretor da agência que as enviou, e é através dele – tão ingénuo quanto o leitor – que vamos descobrindo, nos escritórios da Extensão Sul, os terríveis segredos que a agência guarda sobre aquela região tenebrosa. Passado 100 anos antes da ação de A Guerra dos Tronos, O Cavaleiro de Westeros (versão conto de George R. R. Martin e BD com adaptação de Ben Avery e ilustrações de Mike S. Miller) narra a ação no Torneio de Vaufreixo durante o reinado de Daenor II. Sor Arlan de Pataqueira morre de uma gripe a caminho do torneio, e o seu escudeiro Dunk resolve disputá-lo. Para isso, terá de contar com a ajuda do pequeno Egg e provar ser um cavaleiro, o que o irá colocar no cerne de várias disputas e provocar uma tempestade no reinado então calmo dos Targaryen. Excelente conto muito bem escrito, enquanto a BD se destaca pelas ilustrações cativantes e coloridas.

sem-titulo-2White Sand é uma graphic novel da Dynamite Entertainment. Com argumento de Rik Hoskin, ilustrações de Julius Gopez e cores de Ross Campbell, trata-se da adaptação de uma obra não publicada de Brandon Sanderson, com base numa revisão do seu primeiro livro, ambientado no universo Cosmere. Na verdade, este volume inaugural corresponde ao primeiro terço do livro. Em Taldain, um planeta inamovível – metade vive de dia e metade de noite – conhecemos Kenton, um jovem Mestre de Areia que desafia o mundo com a sua teimosia e determinação, vendo-se arrastado para uma conspiração terrível que pode acabar com o seu povo. Apesar de ser uma obra pouco convincente a nível de credibilidade, gostei do álbum. E terminei o mês de fevereiro da melhor forma. Vinte anos depois da publicação original, a Saída de Emergência vem publicar uma versão Redux, melhorada e ampliada de Terrarium, considerado por muitos como o melhor romance de Ficção Científica português. João Barreiros e Luís Filipe Silva são os autores. Estamos num futuro não tão distante assim, em que os exóticos, várias espécies de seres extraterrestres, foram atirados para o nosso planeta por entidades superiores. Quem são as Potestades, os IXytil, e esse tal de Mr. Lux? Uma guerra entre espécies dominantes poderá ser resolvida por meros humanos? Carregado de um humor ácido e termos futuristas, Terrarium é um hino à FC, indispensável para todos os fãs do género em Portugal.

sem-tituloMarço teve também um início auspicioso. Príncipe dos Dragões é o primeiro volume de Elric, uma série de fantasia épica publicada em 1972 por Michael Moorcock. Simples em prosa e carregado de dilemas morais, Príncipe dos Dragões apresenta-nos um Império em declínio e um imperador doente, dependente de drogas para se manter forte. Melniboné é o seu domínio, abrigo de dragões e de homens terríveis. A tradição relata os melniboneanos como sádicos e perversos, mas Elric parece uma alma generosa e cortês, o que provoca chispas de ódio no seu primo Yyrkoon, que lhe pretende usurpar o trono. O braço de ferro entre Elric e Yyrkoon arrasta-se até às últimas consequências, com Cymoril, a amada de Elric, no vértice de um triângulo inconstante de amor familiar. Com argumento de Robert Rodi e ilustração de Esad Ribic, a BD Loki mostra uma outra face da história de Thor, focada no seu meio-irmão. De inspiração trágica e enaltecendo a decadência de Asgard através da queda de Odin e dos múltiplos dilemas do personagem-título, foi uma boa leitura que se destaca pelos coloridos e traços fortes.

Sem títuloPrimeiro volume de Harrow County, Assombrações Sem Fim apresenta a história desta povoação isolada no sul dos E.U.A., envolta em superstições e crendices. O povo recorria a Hester para se livrar dos seus problemas domésticos, mas quando a natureza se virou contra eles, depressa atiraram-lhe as culpas e condenaram-na à morte, sob a acusação de bruxaria. A mulher demorou a morrer e jurou regressar. Pouco tempo depois, uma criança surgiu naquele lugar fatídico. Uma brilhante BD de terror, escrita por Cullen Bunn e com arte de Tyler Crook. Brilhante álbum da série Saga, o quinto volume da space opera gráfica de Brian K. Vaughan e Fiona Staples traz uma linguagem crua e brutal, momentos de grande ritmo e ação entremeados por muito humor. A pequena Hazel começa a sua educação numa prisão galática, enquanto os pais procuram desesperadamente por ela. Vontade está de regresso, disposto a vingar a morte da irmã, e nem Gus o consegue parar. Provocante e irreverente, esta série da Image Comics está bem e recomenda-se.

sem-tituloUm Diamante Para o Além é o primeiro volume da série de BD Bouncer de Alejandro Jodorowsky e François Boucq. Publicado pelas Edições ASA em 2007, trata-se de um western subversivo, que narra de forma ficcional os acontecimentos que se sucederam à Guerra da Secessão nos E.U.A. O Capitão Raltan reúne os seus mercenários, que se recusaram a render após o final do conflito militar, espalhando o terror nos ranchos. Mas o que ele procura é um diamante, que roubara anos atrás. Na sua busca, assassina um antigo subordinado, provocando assim a atenção de um familiar daquele. Bouncer é um velho maneta, conhecido por resolver problemas de forma abrupta e imprevisível. Uma BD muito boa, da qual tinha grandes expectativas e não me surpreendeu tanto. E terminei março com O Nome do Vento. Primeiro volume da Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss, esta auto-biografia de um personagem fictício é brilhante. Desde a infância de Kvothe na trupe até aos seus estudos na Universidade, passando por várias privações como espancamentos, fome e dramas familiares, o personagem recorre à ardileza e ao poder da música para sobreviver. Somos apresentados a uma história única que fala sobre superação, música, ciência e amor. O mundo criado é original e misterioso, e os enigmas sobre o Chandrian, uma lenda que se revela real da pior forma, deliciosos. Cativante, fluído e profundo, este foi o livro que apresentou ao mundo a escrita maravilhosa de Patrick Rothfuss.

Depois deste início de ano excelente em leituras, estou a ler Poder e Vingança de Jon Skovron, o primeiro volume do Império das Tormentas, e deverei seguir com Robin Hobb, Mark Lawrence e Bernard Cornwell, pelo que o segundo semestre deve ser também ótimo. Por cá vou continuar a partilhar opiniões, espero que gostem.

A Vigília, Sandman #11

A família não mandou perguntar quem tinha enviado o mensageiro; afinal, não era a primeira vez que recebiam a visita de mensageiros.
E há certos poderes que ninguém, nem mesmo os Eternos, prefere investigar muito a fundo.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Vigília”, décimo primeiro volume da série Sandman (Formato BD)

O último volume de Sandman: Mestre dos Sonhos inclui as edições 70 a 75, publicadas originalmente entre 1995 e 1996. Michael Zulli, John J. Muth e Charles Vess são os ilustradores do capítulo final da obra de Neil Gaiman.

A Vigília acompanha o velório e o funeral de Morfeu, povoado pela maioria dos personagens apresentados ao longo dos onze volumes. Antes, Daniel torna-se o novo Mestre dos Sonhos, ressuscitando os membros do palácio que haviam sido assassinados pelas Benevolentes; apenas Gilbert se recusa a regressar ao mundo dos vivos. Por sua vez, o corvo Matthew recusa a aceitar a morte de Morfeu e culpabiliza-se. Então, os Eternos conectam-se aos homens da Necrópole (da história de A Estalagem no Fim do Mundo) para preparar o ritual fúnebre.

sem-titulo
Prancha Levoir/Público

Lyta volta à sua vida normal. Rose sonha. Alexander Burgess dorme. Robert planeia viajar e não regressar. Mas sonha. A Rainha Titânia ruma ao Mundo do Sonho. O anjo Duma viaja ao Mundo do Sonho. Madame Bast também. São inúmeros os amigos e conhecidos de Sonho que se unem para comemorar a vida do Mestre. Todos prestam as devidas homenagens, cada um à sua maneira. Os destaques vão para os comportamentos de cada um: da roupa colorida de Morte (em oposição ao seu habitual negro), às revelações de Abel e Lucien sobre a morte de Sonho enquanto ser vivente, às histórias que cada um conta sobre ele.

O novo Sonho permanece no Palácio sozinho com os seus guardiões. Ali recebe uma visita, que o motiva no desempenho da sua tarefa. Depressa se percebe que Daniel é também ele o antigo Sonho, uma nova perspetiva do mesmo homem. De forma semelhante à recriação de Coríntio, que guarda certas memórias e a mesma essência, também o Mestre persiste no corpo de Daniel, agora também chamado de Sonho ou Oneiros, mas não de Morfeu. Ele procura Lyta, acusando-a do seu conluio com as Benevolentes e revelando-lhe não ser mais Daniel, porque o filho que ela gerou foi queimado por Loki no mundo terreno. No entanto, o novo Sonho mostra-se diferente do antigo, mais cordial, mais dócil, e talvez uma versão melhor de si mesmo.

O volume prossegue com vários fechares de portas. Conhecemos o destino de Gadling e a sua namorada escura; um interessante conto oriental com participação ativa de Sonho, que nos faz recordar o velho adágio de Lavoiser: “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” e ainda o último tributo de William Shakespeare a Sonho – a promessa em falta – que resulta na peça A Tempestade, que viria a ser a última do autor. Neste conto final vemos referências ao ato rebelde de Guy Fawkes e conhecemos de perto a essência do célebre dramaturgo, correlacionando ficticiamente a vida do autor à interferência de Morfeu.

sem-titulo
Capa Levoir/Público
SINOPSE:

Quando o sonho termina, chega o momento da vigília. No último volume da série, os amigos e a família de Morfeu reúnem-se para lhe prestar uma última homenagem, enquanto o seu sucessor, Daniel, revela uma abordagem bastante mais flexível ao papel de Mestre dos Sonhos. E a série termina com Shakespeare a cumprir a sua promessa a Morfeu e entregar a última das peças que tinha prometido ao Senhor dos Sonhos: A Tempestade.

OPINIÃO:

Sandman – Mestre dos Sonhos chega ao fim e com ele somos brindados por uma enxurrada de emoções. Em primeiro lugar, vamos falar do personagem-título e da aura que envolve este volume. Embora o último álbum tenha sido permeado por uma sensação de despedida e o início do novo volume nos leve a comungar do mesmo toque fúnebre, rapidamente nos deixamos ultrapassar por essa tristeza e percebemos a mensagem subliminar de Neil Gaiman. Sonho não morreu. Os sonhos nunca morrem, apenas se podem transformar. E o personagem Sonho é como uma cobra, que somente muda de pele.

A Vigília é ambientada num cenário de velório e funeral, mas é de renovação e de esperança que ele fala. A renovação de Sonho, a esperança do amanhã no retorno de Mervyn, na gravidez de Rose ou na escolha de Matthew. Um dos melhores álbuns de Sandman, A Vigília consegue fechar com sucesso o puzzle, embora tenha ficado a ideia que a maioria dos volumes foram aleatórios e pouco substanciais. Os volumes Casa de Bonecas, Estação das Brumas, Vidas Breves, As Benevolentes e A Vigília fariam de Sandman uma banda desenhada excelente, sem mais adições. Alguns dos outros álbuns trouxeram contos muito bons e histórias fechadas geniais, no entanto, existiu uma sobrecarga de histórias paralelas contadas aos bocados, muitos solavancos, histórias esparsas e recurso a referências em excesso.

sem-titulo
Prancha Levoir/Público

Resumindo, Sandman – Mestre dos Sonhos, é uma excelente obra gráfica que fala sobre a vida e a morte, mas sobretudo sobre o poder de sonhar. Infelizmente, se posso enaltecer o valor simbólico da narrativa – e a excelente escrita de Neil Gaiman – não posso elogiar a própria narrativa. Aos poucos, familiarizei-me com os personagens e gostei deles, mas mesmo quando me afeiçoei, senti que o curso dos acontecimentos só “engatou” nos últimos álbuns.

A arte mostrou-se coerente ao longo dos livros, bastante competente para os dias em que foi organizada. Ainda assim, revelou alguma perda de qualidade ao longo dos volumes, apenas recuperada por Hempel em As Benevolentes, e neste último volume por Michael Zulli, que já havia registado algumas das melhores ilustrações da obra em encadernações passadas. O trabalho preservado a lápis de Zulli, nos momentos fúnebres deste A Vigília, transmitiu a sensação de perda e desenlace de uma forma bastante adequada e funcional.

Avaliação: 7/10

Sandman: Mestre dos Sonhos (Levoir/Público):

#1 Prelúdios e Nocturnos

#2 Casa de Bonecas

#3 Terra do Sonho

#4 Estação das Brumas

#5 Um Jogo de Ti

#6 Fábulas e Reflexões

#7 Vidas Breves

#8 A Estalagem no Fim do Mundo

#9 As Benevolentes 1

#10 As Benevolentes 2

#11 A Vigília

As Benevolentes (Parte 2), Sandman #10

O Rei dos Sonhos apenas provou um pouco de um prato de vegetais, e um arroz branco, e satisfez-se com a perfeição de ambos.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “As Benevolentes – Parte 2”, décimo volume da série Sandman (Formato BD)

Sandman – Mestre dos Sonhos chega ao penúltimo volume. Publicado originalmente entre 1993 e 1995, o capítulo As Benevolentes foi dividido em dois álbuns na versão portuguesa da Levoir, disponível nas bancas portuguesas com o Jornal Público a 2 de dezembro do ano pretérito. A obra de Neil Gaiman caminha a passos largos para o final, juntando nesta edição, à arte de Marc Hempel, os nomes de Teddy Kristiansen e Richard Case.

Nesta segunda parte de As Benevolentes, Odin visita o Mundo do Sonho, “pedindo contas” a Morfeu pelo destino que este reservou ao seu filho Loki, uma vez que o capturou e libertou no mundo real. Delírio procura o irmão Destino, pedindo-lhe ajuda para procurar o cão falante que Destruição lhe tinha deixado.

sem-titulo
Prancha Levoir/Público

O Mestre dos Sonhos viaja pelo mundo real, encontrando pouco mais que desapontamento nas suas deambulações. Ao regressar ao Mundo do Sonho, recebe a visita de Delírio, que suplica que a ajude a encontrar o cão desaparecido. A depressão está estampada no rosto monocromático de Sonho, que limita-se a enviar um pesadelo para a ajudar na busca. Recebe a visita de Lyta Hall, que mata um dos guardiões do palácio, para que Sonho permita a sua entrada. Quando Morfeu a recebe, depressa percebe que são as Benevolentes a usar-se do corpo de Lyta; as três Fúrias enfrentam Sonho e deixam-lhe uma ameaça bastante séria.

Após uma decepção amorosa, Rose Walker regressa à mansão da sua avó, onde encontra uma biblioteca maravilhosa com referências a Roderick Burgess, e, inconscientemente, abre uma passagem secreta, que a conduz a uma revelação sobre o seu passado.

sem-titulo
Prancha Levoir/Público

No mundo real, Matthew e Coríntio descobrem o corpo calcinado da amiga de Lyta Hall. Mais que isso, descobrem que foi Loki o responsável pelo ocorrido e pulam para outra realidade, procurando pelo pequeno Daniel. Ao encontrarem Loki, são sujeitos a várias ilusões. Embora Coríntio consiga dominar Loki e encontrar o pequeno Daniel, é tarde demais…

As Benevolentes começaram a matar. Gilbert. Mervyn. Abel. Sonho remete-se ao seu palácio, onde não o podem matar… até que o Puck de Sonho de Uma Noite de Verão regressa ao Reino das Fadas, após uma longa ausência, e influencia o rumo dos acontecimentos. Delírio também entra no Reino das Fadas, procurando pelo seu cãozinho desaparecido, e acaba por fazer com que Nuala use o pingente que Sonho lhe ofereceu para o chamar. Morfeu chega a ela rapidamente, mas uma vez que saiu do Mundo do Sonho tornou-se vulnerável. A fada Nuala confessa o seu amor ao Senhor dos Sonhos, e sofre com a sua indiferença. Morfeu regressa ao palácio, mas as Benevolentes já fizeram o seu trabalho e o Mestre dos Sonhos é obrigado a enfrentar as consequências, encontrar um sucessor e chamar a irmã: a própria Morte.

sem-titulo
Capa Levoir/Público
SINOPSE:

Tendo pago inevitavelmente com a vida o preço do seu orgulho e irresponsabilidade, Morfeu, sai de cena. Mas o Domínio do Sonho necessita de um novo Mestre dos Sonhos, que ocupe o trono deixado vago por Morfeu. O novo Oneiromante é Daniel, o filho de Lyta Hall, gerado enquanto a sua mãe estava presa no Mundo do Sonho e criado para suceder a Morfeu.

OPINIÃO:

Uma teia de acontecimentos que se interligam, Sandman: Mestre dos Sonhos vê em As Benevolentes a sua aventura mais empolgante e definitiva. Obrigado a enfrentar a curva mais acentuada do percurso, Neil Gaiman revelou mérito na forma como conduziu o seu automóvel e convocou a maioria dos personagens que já havia criado na sequência, oferecendo propósitos e conclusões a todas elas.

Esta segunda parte de As Benevolentes revelou-se bem melhor que a primeira, com cenas de ação e explicações mais contundentes. Não me irei repetir em críticas, porque as que teci na opinião ao volume anterior mantêm-se. Personagens como Rose Walker ficaram aquém das expectativas; por sua vez, o declínio de Morfeu revela-se bem planeado. Desde o momento em que ele tinha pegado o pequeno Daniel ao colo, num dos primeiros volumes da série, havia ficado a sensação do que viria a suceder, um dia mais tarde. Mais significativo do que isso, é a forma como o Mestre dos Sonhos se afunda na depressão sem, de algum modo, parecer querer fugir ao seu destino. Em boa verdade, pode-se dizer que o personagem morreu desde que foi obrigado a aceder ao pedido do filho Orfeu.

sem-titulo
Prancha Levoir/Público

Uma maravilha de detalhes simbólicos e um jogo de mitologias, Sandman: Mestre dos Sonhos continua a ser um bom passatempo, uma obra interessante e bem escrita. Ainda assim, não oferece um desenvolvimento aliciante ou um enredo que me cative. A arte, não revelando significativas melhorias, acaba por casar bem com a história, um ponto a favor de Marc Hempel.

Avaliação: 8/10

Sandman: Mestre dos Sonhos (Levoir/Público):

#1 Prelúdios e Nocturnos

#2 Casa de Bonecas

#3 Terra do Sonho

#4 Estação das Brumas

#5 Um Jogo de Ti

#6 Fábulas e Reflexões

#7 Vidas Breves

#8 A Estalagem no Fim do Mundo

#9 As Benevolentes 1

#10 As Benevolentes 2

#11 A Vigília