Sci-Fi Lx 2017

Boas! E que tal começar as férias com uma ida ao Sci-Fi Lx? Foi o que eu fiz. A Editorial Divergência havia-me convidado para estar a representar Os Monstros que nos Habitam na sessão de autógrafos de dia 15, mas por motivos profissionais e falta de preparativos, acabei por não conseguir comparecer. Ainda assim, não podia faltar ao evento e fiz a minha appearence hoje, no Pavilhão Central do Instituto Superior Técnico de Lisboa.

Entre vários eventos dedicados à Ficção Científica, o destaque vai para a palestra “Por Favor, Senhor Escritor, Não Faça Isto!” levada a cabo pelo distinto Luís Filipe Silva, no Auditório 1. Num debate cheio de boas dicas e caminhos a “não seguir”, fiquei com a sensação de que a preleção merecia um maior número de público. Estimados autores nacionais, não sabem aquilo que perderam. A conversa foi pertinente e bem construtiva.

Logo de seguida, assisti à apresentação do livro As Nuvens de Hamburgo do sempre inventivo Pedro Cipriano. A apresentação foi muito agradável e, quanto ao livro publicado pela Flybooks, irei escrever sobre ele muito, muito em breve. Para além de privar com o Pedro e com o Luís Filipe Silva, que só conheci no dia em que lhe “saquei” um autógrafo no Fórum Fantástico de 2014, ainda tive a oportunidade de adquirir o mais recente livro da Editorial Divergência, o Anjos do Carlos Silva, outro grande entusiasta da Ficção Especulativa que é sempre agradável encontrar. Claro está, tive direito a dedicatórias. Fiquem com as fotos:

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Flyer do evento
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Apresentação “As Nuvens de Hamburgo”
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“Por favor, Senhor Escritor, Não Faça Isto!” com Luís Filipe Silva

 

Resumo Trimestral de Leituras #9

O primeiro trimestre do ano chegou ao fim e com ele chegou a altura de fazer o habitual balanço trimestral de leituras. De Ken Follett a Neil Gaiman, passando por Brandon Sanderson e George R. R. Martin, revisitei alguns dos meus escritores favoritos e ainda tive o prazer de iniciar a Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss. Vejam a lista de leituras dos meses de janeiro, fevereiro e março:

A Darkness Surrounds Him, Outcast #1 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

The Whisperer War, The Walking Dead #27 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

Inimigos – Anton Tchekov

Um Jogo de Ti, Sandman #5 – Neil Gaiman

Fábulas e Reflexões, Sandman #6 – Neil Gaiman

Um Mundo Sem Fim, Vol. 1 – Ken Follett

Um Mundo Sem Fim Vol. 2 – Ken Follett

Vidas Breves, Sandman #7 – Neil Gaiman

A Estalagem no Fim do Mundo, Sandman #8 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 1, Sandman #9 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 2, Sandman #10 – Neil Gaiman

A Vigília, Sandman #11 – Neil Gaiman

Warbreaker, Warbreaker #1 – Brandon Sanderson

La Dueña – J. A. Alves

Vidas Secretas de Homens Mortos, Velvet #2 – Ed Brubaker, Steve Epting e Elizabeth Breitweiser

Autoridade, Área X #2 – Jeff Vandermeer

O Cavaleiro de Westeros – George R. R. Martin

White Sand #1 – Brandon Sanderson

Terrarium – João Barreiros e Luís Filipe Silva

Príncipe dos Dragões, Elric #1 – Michael Moorcock

Loki – Robert Rodi e Esad Ribic

Assombrações Sem Fim, Harrow County #1 – Cullen Bunn e Tyler Crook

Saga #6 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Um Diamante Para o Além, Bouncer #1 – Alejandro Jodorowsky e François Boucq

O Nome do Vento, Crónica do Regicida #1 – Patrick Rothfuss

sem-tituloO ano iniciou-se com um desafio em mente: começar a série fantástica de Patrick Rothfuss e ler os dois volumes em português do famoso Mundo Sem Fim de Ken Follett. E não é que cumpri? Janeiro foi um mês rico em leitura de bandas-desenhadas. Comecei com o primeiro volume da BD Outcast de Robert Kirkman, o mesmo autor de The Walking Dead. A Darkness Surrounds Him apresenta Kyle Byrnes como protagonista, e uma narrativa sombria prenhe de possessões demoníacas e histórias de vida dramáticas e violentas. Muito diferente da história de mortos-vivos, a mais conhecida de Kirkman, agradou-me acima de tudo pela forma como toda a temática é explorada de forma fluída e misteriosa. Também li o mais recente volume de The Walking Dead, a edição 27. The Whisperer War mostrou ser apenas a primeira batalha entre as comunidades e os Sussurradores. O exército de Rick, liderado por Dwight e com Negan na linha da frente, vence o primeiro round. No entanto, Hilltop é completamente destruída e a muito custo Maggie, Carl, Aaron e Jesus conseguem derrotar os seus inimigos. Mais um volume genial, que tem direito ao “funeral” de Lucille.

sem-tituloAinda nos primeiros dias de janeiro li o conto de Anton Tchekov Inimigos, uma história tão curta que não achei necessidade de escrever uma opinião. Fala sobre Varka, uma jovem criada cuja tarefa de adormecer um bebé faz-lhe crescer uma intensa sensação de sonolência, que é incapaz de dominar. Li ainda, de uma assentada, o que faltava da coleção Sandman (Vol. 5, Vol. 6, Vol. 7, Vol. 8, Vol. 9, Vol. 10, Vol. 11) de Neil Gaiman, publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público. Entremeando histórias soltas com uma linha narrativa central, Gaiman soube tecer toda a narrativa nos últimos volumes, que trouxeram inúmeras reflexões e uma sensação de renovação e esperança ao leitor. Apesar disso, Sandman não me apaixonou em nenhum momento e, por muito mérito que tenha, soou-me muito a “eterna promessa” e a histórias vagas.

sem-tituloDividido em Portugal em dois volumes, o livro Um Mundo Sem Fim (Vol. 1 e Vol. 2) de Ken Follett agarrou-me desde o primeiro momento. Apesar de repetir a receita de Os Pilares da Terra, adorei tanto um como o outro. Histórias dramáticas de amor e superação, sobre religião, política, medicina e sobrevivência. Uma história de época que retrata o drama da Peste Negra e a Guerra dos Cem Anos. Warbreaker é um livro de Brandon Sanderson, o autor do momento no que diz respeito à literatura fantástica. Uma espada falante, cabelos que mudam de cor mediante as emoções, soldados mortos-vivos que são comandados através de palavras de ordem, a capacidade de dar vida a objetos inanimados e, principalmente, um panteão de deuses que está bem vivo e habita entre os demais. Original e muito bem escrita, esta obra de fantasia consegue também acumular bons momentos de humor e imensas reviravoltas.

sem-tituloComecei fevereiro com La Dueña: Devoradora de Homens. Da autoria de J. A. Alves, o autor de Batalha Entre Sistemas, La Dueña mostra todo o esplendor dos llanos venezuelanos e uma história tensa de superstições locais e pactos com o demónio. Chris viaja até à Venezuela com a noiva, Ana Clara, para conhecer a fazenda que herdou do seu tio Miguel, mas quando lá chega encanta-se por Yolanda, a dona da fazenda vizinha. Dizem que essa mulher rouba a alma de todos que por ela se apaixonam. Gostei imenso. Vidas Secretas de Homens Mortos, o segundo volume da graphic novel Velvet traz-nos o melhor da equipa composta por Ed Brubaker (argumento), Steve Epting (ilustração) e Elizabeth Breitweiser (cores). Uma história de espionagem tensa que prende desde o primeiro momento. Velvet é uma antiga espia que se vê atirada para o centro da ação quando o seu superior é assassinado. Neste segundo volume, ela tenta descobrir quem a tramou e porquê, depois de saber que o seu esposo não era quem ela pensava. Entre soltar um prisioneiro, fazer uma viagem de comboio alucinante e fugir a cães-pisteiros, Velvet passa por várias amarguras neste excelente segundo álbum da trilogia.

sem-tituloAutoridade é o segundo volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer. Se esta história que mistura o terror psicológico ao bizarro (o new weird fiction) me fascinou no primeiro volume ao mostrar in loco as experiências vividas por quatro exploradoras numa zona frondosa alegadamente contaminada, este segundo livro vai mais além ao apresentar-nos Control, o novo diretor da agência que as enviou, e é através dele – tão ingénuo quanto o leitor – que vamos descobrindo, nos escritórios da Extensão Sul, os terríveis segredos que a agência guarda sobre aquela região tenebrosa. Passado 100 anos antes da ação de A Guerra dos Tronos, O Cavaleiro de Westeros (versão conto de George R. R. Martin e BD com adaptação de Ben Avery e ilustrações de Mike S. Miller) narra a ação no Torneio de Vaufreixo durante o reinado de Daenor II. Sor Arlan de Pataqueira morre de uma gripe a caminho do torneio, e o seu escudeiro Dunk resolve disputá-lo. Para isso, terá de contar com a ajuda do pequeno Egg e provar ser um cavaleiro, o que o irá colocar no cerne de várias disputas e provocar uma tempestade no reinado então calmo dos Targaryen. Excelente conto muito bem escrito, enquanto a BD se destaca pelas ilustrações cativantes e coloridas.

sem-titulo-2White Sand é uma graphic novel da Dynamite Entertainment. Com argumento de Rik Hoskin, ilustrações de Julius Gopez e cores de Ross Campbell, trata-se da adaptação de uma obra não publicada de Brandon Sanderson, com base numa revisão do seu primeiro livro, ambientado no universo Cosmere. Na verdade, este volume inaugural corresponde ao primeiro terço do livro. Em Taldain, um planeta inamovível – metade vive de dia e metade de noite – conhecemos Kenton, um jovem Mestre de Areia que desafia o mundo com a sua teimosia e determinação, vendo-se arrastado para uma conspiração terrível que pode acabar com o seu povo. Apesar de ser uma obra pouco convincente a nível de credibilidade, gostei do álbum. E terminei o mês de fevereiro da melhor forma. Vinte anos depois da publicação original, a Saída de Emergência vem publicar uma versão Redux, melhorada e ampliada de Terrarium, considerado por muitos como o melhor romance de Ficção Científica português. João Barreiros e Luís Filipe Silva são os autores. Estamos num futuro não tão distante assim, em que os exóticos, várias espécies de seres extraterrestres, foram atirados para o nosso planeta por entidades superiores. Quem são as Potestades, os IXytil, e esse tal de Mr. Lux? Uma guerra entre espécies dominantes poderá ser resolvida por meros humanos? Carregado de um humor ácido e termos futuristas, Terrarium é um hino à FC, indispensável para todos os fãs do género em Portugal.

sem-tituloMarço teve também um início auspicioso. Príncipe dos Dragões é o primeiro volume de Elric, uma série de fantasia épica publicada em 1972 por Michael Moorcock. Simples em prosa e carregado de dilemas morais, Príncipe dos Dragões apresenta-nos um Império em declínio e um imperador doente, dependente de drogas para se manter forte. Melniboné é o seu domínio, abrigo de dragões e de homens terríveis. A tradição relata os melniboneanos como sádicos e perversos, mas Elric parece uma alma generosa e cortês, o que provoca chispas de ódio no seu primo Yyrkoon, que lhe pretende usurpar o trono. O braço de ferro entre Elric e Yyrkoon arrasta-se até às últimas consequências, com Cymoril, a amada de Elric, no vértice de um triângulo inconstante de amor familiar. Com argumento de Robert Rodi e ilustração de Esad Ribic, a BD Loki mostra uma outra face da história de Thor, focada no seu meio-irmão. De inspiração trágica e enaltecendo a decadência de Asgard através da queda de Odin e dos múltiplos dilemas do personagem-título, foi uma boa leitura que se destaca pelos coloridos e traços fortes.

Sem títuloPrimeiro volume de Harrow County, Assombrações Sem Fim apresenta a história desta povoação isolada no sul dos E.U.A., envolta em superstições e crendices. O povo recorria a Hester para se livrar dos seus problemas domésticos, mas quando a natureza se virou contra eles, depressa atiraram-lhe as culpas e condenaram-na à morte, sob a acusação de bruxaria. A mulher demorou a morrer e jurou regressar. Pouco tempo depois, uma criança surgiu naquele lugar fatídico. Uma brilhante BD de terror, escrita por Cullen Bunn e com arte de Tyler Crook. Brilhante álbum da série Saga, o quinto volume da space opera gráfica de Brian K. Vaughan e Fiona Staples traz uma linguagem crua e brutal, momentos de grande ritmo e ação entremeados por muito humor. A pequena Hazel começa a sua educação numa prisão galática, enquanto os pais procuram desesperadamente por ela. Vontade está de regresso, disposto a vingar a morte da irmã, e nem Gus o consegue parar. Provocante e irreverente, esta série da Image Comics está bem e recomenda-se.

sem-tituloUm Diamante Para o Além é o primeiro volume da série de BD Bouncer de Alejandro Jodorowsky e François Boucq. Publicado pelas Edições ASA em 2007, trata-se de um western subversivo, que narra de forma ficcional os acontecimentos que se sucederam à Guerra da Secessão nos E.U.A. O Capitão Raltan reúne os seus mercenários, que se recusaram a render após o final do conflito militar, espalhando o terror nos ranchos. Mas o que ele procura é um diamante, que roubara anos atrás. Na sua busca, assassina um antigo subordinado, provocando assim a atenção de um familiar daquele. Bouncer é um velho maneta, conhecido por resolver problemas de forma abrupta e imprevisível. Uma BD muito boa, da qual tinha grandes expectativas e não me surpreendeu tanto. E terminei março com O Nome do Vento. Primeiro volume da Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss, esta auto-biografia de um personagem fictício é brilhante. Desde a infância de Kvothe na trupe até aos seus estudos na Universidade, passando por várias privações como espancamentos, fome e dramas familiares, o personagem recorre à ardileza e ao poder da música para sobreviver. Somos apresentados a uma história única que fala sobre superação, música, ciência e amor. O mundo criado é original e misterioso, e os enigmas sobre o Chandrian, uma lenda que se revela real da pior forma, deliciosos. Cativante, fluído e profundo, este foi o livro que apresentou ao mundo a escrita maravilhosa de Patrick Rothfuss.

Depois deste início de ano excelente em leituras, estou a ler Poder e Vingança de Jon Skovron, o primeiro volume do Império das Tormentas, e deverei seguir com Robin Hobb, Mark Lawrence e Bernard Cornwell, pelo que o segundo semestre deve ser também ótimo. Por cá vou continuar a partilhar opiniões, espero que gostem.

Terrarium

– Olá… – murmura Triste Judite com uma expressão tão triste, que os amigos e colegas de Clara certamente achariam muito divertida. – Estou grávida, sabem? Uma micro-singularidade emprenhou-me. Gravidezes destas dispenso-as! Gente como vocês também eu dispenso. Acho que vou lá dentro num instante matar-me… Fiquem aqui à espera. Isto não demora nada.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Terrarium”

1996. João Barreiros e Luís Filipe Silva lançavam aquele que viria a ser conhecido por muitos como o melhor romance português de Ficção Científica de sempre – Terrarium: Um Romance em Mosaicos. O livro fazia parte de uma coleção de FC da Editorial Caminho que, não obstante a qualidade reconhecida à obra, viria a desaparecer fulgurantemente do mercado. Terrarium tornou-se, em pouco tempo, um tesouro de alfarrabista.

Eis que, vinte anos depois, a Edições Saída de Emergência ressuscita o clássico, lançando uma versão melhorada de Terrarium, numa edição Redux, revista e aumentada pelos autores. O livro inclui ilustrações de Tiago Pimentel e termina com uma BD da autoria de Diniz Conefrey.

João Barreiros é hoje um autor icónico da FC nacional e uma das vozes mais ativas do género, organizador de antologias, envolvido em atividades e eventos literários. A obra A Bondade dos Estranhos, a colectânea Se Acordar Antes de Morrer e a antologia Lisboa no Ano 2000 são alguns dos seus trabalhos mais reconhecidos no passado recente. Luís Filipe Silva é o outro nome de destaque dentro do género. Paralelamente a Terrarium, Galxmente e O Futuro à Janela são as suas obras de maior dimensão, tendo organizado as antologias Vaporpunk e Os Anos de Ouro da Pulp-Fiction Portuguesa.

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Capa Saída de Emergência

Um braço de ferro

O planeta Terra foi vítima de uma verdadeira invasão extraterrestre. Várias espécies provenientes de outros planetas coabitam connosco. Eles são os vulpis, humanóides com aparência de raposa; os kreepo, uma espécie de insetos de estatura humana, compostos por pinças, um cefalotórax, um abdómen e uma tromba; ou as simulatrix, que não são mais que reproduções fake de antigas estrelas de cinema e personalidades famosas do passado. Todas essas espécies são apelidadas pelos humanos de exóticos.

Vários tremores político/sociais subverteram o nosso planeta. Vivemos em aparente harmonia com os exóticos, mas muito mudou desde que Bruxelas foi destruída como revanche política por entidades superiores. Inúmeras carcaças de naves espaciais formam um anel nos céus, como um parque de estacionamento gigante – ou talvez mesmo um ferro-velho. Mas estes exóticos não estão na orla da Terra por livre e espontânea vontade. Eles foram confinados ao nosso planeta, isolados do resto do Universo. Os exóticos foram postos em cativeiro e o planeta Terra transformado num Terrarium.

TERRARIUM: Terreno isolado onde são mantidos em cativeiro animais de vida terrestre.

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Flyer Saída de Emergência

Mas que entidade seria essa capaz de subjugar desta forma tantas espécies e culturas? Não uma, mas várias. As Potestades são seres poderosos, autoridades no cosmos que escolhem imagens referenciais da cultura humana – por norma anjos – para se revelarem ao mundo. Avatares. Essas aparições podem ser mortas, mas voltarão a surgir, uma vez que uma Potestade só pode ser eliminada se se eliminar a sua matrix. O sangue destas Potestades é sagrado e dourado, chamado de Sacramento, e existe uma força cósmica que parece garantir o curso pré-determinado dos acontecimentos – o Fragmento.

No entanto, por detrás do poder apresentado pelas Potestades, existe uma força suprema, invisível, ultra-secreta. Um vírus ou uma legião de deuses? Salvadores ou suicidas? Eles são os IXytil, entidades criadoras que através dos seus agentes yurulan movem as peças no tabuleiro restrito que é o Sistema Solar. As Potestades são suas criações, mas tudo indica que é com eles que o braço de ferro será travado. O próprio Sol está em risco. A vida na Terra parece um mero dano colateral. É Mr. Lux, o Inimigo dissidente, quem poderá influenciar as contas deste despique. Mr. Lux… e não só.

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Mr. Lux (Tiago Pimentel)

O Terrarium

Cada conto apresenta uma perspetiva dentro deste contexto. Queda e Ascensão do Império Krill é um Prólogo em dois atos, apresentando-nos Mr. Lux, um senhor de aparência simpática que é apenas e só uma das criaturas mais poderosas do Universo. Nele, assistimos à tentativa de assalto de “Sete Anões” a três artefactos sagrados: uma caixa de Pandora, a estatueta negra de um falcão e uma revista pulp chamada Amazing Stories. Três objetos que conduzem os seus portadores à desgraça eminente. Através dos olhos de Pastor, vemos as movimentações de Mr. Lux e como ele se usa de todos os recursos à sua volta de forma exímia e genial.

A Arder Caíram os Anjos é o conto de João Barreiros premiado no Brasil com o Prêmio Nova 1994 na categoria Melhor Ficção Curta Estrangeira, como nos revela o Prefácio de Gerson Lodi-Ribeiro. Passado em Londres, apresenta-nos Roy Bakker, um jovem vendedor na loja Fantasy Inn, e o seu colega de trabalho, um kreepo chamado Mr. K cuja voz reproduz o som da atriz Mae West. Depois de Pastor, é a vez de Roy ser escolhido por Mr. Lux como peão no seu joguinho, mas quando uma inteligência artificial dos IXytil – uma SANA – se aloja na mente de Roy, tudo pode acontecer. No meio da confusão instalada, uma Postestade chamada Ariel com a fisionomia de um arcanjo bastante viril parece tornar-se um vértice do conflito.

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Clara de Sousa (Tiago Pimentel)

Logo depois somos apresentados a uma história mais longa. Somewhere Under the Rainbow apresenta-nos Clara de Sousa, uma senhora de elite, sediada em Luna, toda coquete, e o seu furão Filofax chamado João, um bichinho de estimação bastante falador. Clara e João são influenciados pelos yurulan a viajar com um propósito bem específico e fulcral para o rumo dos acontecimentos. Ao lado de um Bonecreiro (yurulan), de uma simulatrix que imita a atriz Shirley Temple, de uma mulher-bomba deprimida chamada Triste Judite, de alguns vulpis e kreepos, Clara encontra uma nave simulatrix cheia de cadáveres… e isso é apenas o início.

A Agonia da Arte Reprimida leva-nos para VilleCiel, no Canadá, onde o jovem Joel Renaud não parece muito agradado com as restrições que os pais lhe impõem para agradar ao seu hóspede. Trata-se de um volpex – uma criatura com cabeça em forma de funil – chamado Mestre Gra, um Visitante que parece ter mudado os hábitos da sua família. Apesar de desconfiado, Joel vê-se filiado a um vulpis chamado Ka-lir, que vem a descobrir ser filho do Embaixador vulpis na Terra. A Madrugada dos Deuses complementa a história deste conto. Nele, Joel e Ka-lir vêm-se na posse de uma mala multi-usos e descobrem a existência de uma droga especial, à medida que entram na Colômbia e descobrem segredos terríveis sobre o destino da Humanidade. Os cartéis de droga quillé são o menor dos seus problemas, quando entidades superiores pretendem usá-los no seu joguinho.

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Joel e o vulpis (Tiago Pimentel)

No Coração da Luz tem a forma de um pequeno romance. Nele, conhecemos Todd Rod, um rapaz tímido que vive numa cidade chamada Normalville, atacada frequentemente por terríveis vilões. Mas, graças-a-todos-os-deuses, existe o Superjovem para os salvar a todos, com a ajuda do seu mentor, o Professor Ford. Todd é um adolescente frustrado, vive uma vida entediante e refugia-se nas revistas pulp para esquecer as discussões permanentes entre os pais, para esquecer que a rapariga que ele gosta é louca pelo Superjovem, e que esse super-herói deve mesmo ser o rapaz mais popular da escola. Mas um dia, quando um dos supostos vilões lhe pede ajuda, Todd descobre que pode estar a viver uma grande farsa.

A trama de Todd interfere indiretamente no contexto global da obra. Todas as outras tramas entrelaçam-se nesta história, com Mr. Lux, Roy, Joel, Ka-lir, Clara de Sousa, João e até mesmo o Pastor a cruzarem-se num confronto épico entre forças superiores cujo resultado final é decidido pelos mais frágeis. Com a Amazónia como palco, uma das forças vence e a outra é derrotada. Um disparo leva a três finais alternativos – O Mundo Sem Homens, O Mundo Sem Potestades e O Mundo Sem YXytil.

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Um Kreepo (Tiago Pimentel)
SINOPSE:

BEM-VINDOS AO FUTURO E AO COLAPSO DE TODAS AS UTOPIAS POR NÓS SONHADAS.

Estamos a meio do novo milénio e a Fortaleza Europa acabou de vez. Bruxelas não é mais do que uma cratera radioactiva, as zonas costeiras foram alagadas pela subida das águas e a temperatura ambiente aqueceu até o clima ser quase tropical. Quem olhar para o alto, nos raros dias onde ainda se podem ver as estrelas, vai descobrir um anel gigantesco composto pelas carcaças das naves de exóticos migrantes.
Mas isso não é o pior. A verdade é que entre esses exóticos que nos vieram pedir guarida, existem criaturas ainda mais monstruosas que resolveram transformar o planeta num lugar de consumo: num TERRARIUM, a bem dizer…
Preparem-se para viver num mundo prestes a ser assimilado, para o bem ou para o mal, numa nova e efémera Utopia… Agora só nos resta resistir.

OPINIÃO:

O romance em mosaicos de João Barreiros e Luís Filipe Silva, rotulado como o melhor livro português de Ficção Científica, é um exemplo claro de que temos escritores nacionais de qualidade elevada, subestimados pelo seu próprio mercado. Rico em vocabulário, extremamente visual e com um ritmo invulgarmente veloz para um tomo deste tamanho, Terrarium deixou de ser um tesouro de alfarrabista. Não li a versão original, mas esta edição da Saída de Emergência é um verdadeiro tesouro no mercado. Quase 600 páginas e três semanas depois, chego ao fim deste livro maravilhoso.

Imprescindível a quem gostar de FC, Terrarium apresenta-nos dois escritores com estilos distintos que conseguiram encaixar na perfeição. O que não seria tarefa fácil. João Barreiros é um escritor único, dono de um estilo inconfundível, enérgico, mordaz, usando o humor como motor e o ridículo como artifício. Luís Filipe Silva é senhor de uma prosa mais temperada, assaz competente, mas sem margem para dúvidas bem mais calma que a do seu companheiro de escrita. Aqui e ali, é possível distinguir na perfeição qual deles escreveu o quê. Quem emerge na leitura, porém, acaba por ver essas paredes diluídas no entrosamento geral da obra. Se, porventura, só um deles tivesse escrito Terrarium, o resultado não teria sido tão bom. Quando um agitou as águas, o outro moderou-as. O casamento resultou na perfeição.

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Terrarium (Tiago Pimentel)

A história é digna de uma graphic novel. Quando lia o livro, pensei mais do que uma vez que Terrarium merecia também uma versão em quadradinhos (e quanto gostei que o livro terminasse com uma pequena BD dedicada à Triste Judite), mas desde logo verifiquei que a magia de ler Terrarium está também na sua escrita. O vocabulário é riquíssimo e a escrita nunca perdeu o ritmo. Deliciei-me com os personagens, de Roy Bakker à Triste Judite, passando pela Clara de Sousa e o seu furão. E maravilhei-me também com as referências a nomes do cinema, da literatura, às pulps – que têm um significado imenso dentro da história. Terrarium é muito mais do que a batalha campal e a história cheia de sumo e protagonistas que Silva e Barreiros nos ofereceram. A magia de Terrarium passa muito pelo imaginário construído que nos remete aos “Flash Gordon da nossa infância”, pela ironia constante e pela desconstrução de clichés e de heróis tradicionais.

Não é, porém, um livro para todos. Bem, para já, é um livro enorme e com letras pequenas. E os termos. Ah… os termos. Quem lê João Barreiros já tem de estar precavido para a chuva de termos técnicos, científicos e futuristas que se confundem numa amálgama provavelmente ininteligível para os virgens na matéria. Provavelmente ininteligível, mas ainda assim apaixonante. Todos os fãs de FC têm de ler Terrarium. E se são novatos nisto, é para investigar, conhecer, mastigar e deglutinar todas as informações que lhes são oferecidas.

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Edição original (Caminho)

As revelações sobre Mr. Lux, as Potestades e os IXytil pareceram-me permanentes, umas por cima das outras, como se o que um diz, o outro desdiz, até que as peças encaixem e cheguemos ao final apoteótico. Tudo o que supostamente seria o contexto inicial – quem é quem neste Universo enxameado de espécies – acaba por tornar-se a grande interrogação do livro. Somos atirados para o centro da ação com ela em movimento, e os autores espicaçam o leitor ao negar-nos a informação, fazendo finca-pé e gritando-nos aos ouvidos que, quem quiser compreender alguma coisa da história, tem de ler até ao fim. Pouco a pouco, todas as peças são disponibilizadas para que completemos o puzzle.

Estamos perante um romance em mosaicos, mosaicos esses que são pequenos contos com histórias isoladas que podem ser lidos em separado, mas quando avançamos para o coração da narrativa, elas complementam-se, respostas são fornecidas e a leitura de tudo o que ficou para trás é essencial para compreender o todo. Quando terminei a leitura, forcei-me a reler o Prólogo, e informações que me tinham entrado por um olho e saído pelo outro fizeram muito sentido. Terrarium não é somente um livro para ler. É para ler e reler. E tem um bónus: a edição é lindíssima.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

A Divulgar: “Autoridade” e “Terrarium” pela Saída de Emergência

Estão já em pré-venda duas das maiores novidades da Edições Saída de Emergência para este início de ano. Trata-se de Autoridade, o segundo volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer, e Terrarium, a célebre obra-prima da FC nacional, numa versão revista e aumentada pelos dois autores, João Barreiros e Luís Filipe Silva. Não deixem de ler.

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Chancela: Saida de Emergência
Coleção: BANG
Data 1ª Edição: 27/01/2017
ISBN: 9789897730184
Nº de Páginas: 304
Dimensões: [160×230]mm
Encadernação: Capa Mole
SINOPSE:

Após 30 anos, os únicos traços humanos detetados na Área X – uma estranha zona contaminada cercada de uma fronteira invisível e sem traços de civilização – são os que foram deixados por expedições sucessivas sob autoridade de uma agência tão secreta que quase foi esquecida.
Face à tumultuosa 12.ª expedição narrada em Aniquilação, a agência tem um novo diretor nomeado, John Rodrigues, também conhecido por Control. A braços com uma equipa desesperada e frustrada por uma série de incidentes e vídeos perturbantes, Control começa a desvendar lentamente os segredos da Área X e dos mistérios narrados no primeiro volume, mas a cada descoberta que faz, é forçado a confrontar verdades sobre ele próprio e a agência que jurou servir.

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Chancela: Saida de Emergência
Data 1ª Edição: 27/01/2017
ISBN: 9789896378578
Nº de Páginas: 568
Dimensões: [160×230]mm
Encadernação: Capa Mole
SINOPSE:

BEM-VINDOS AO FUTURO E AO COLAPSO DE TODAS AS UTOPIAS POR NÓS SONHADAS.

Estamos a meio do novo milénio e a Fortaleza Europa acabou de vez. Bruxelas não é mais do que uma cratera radioactiva, as zonas costeiras foram alagadas pela subida das águas e a temperatura ambiente aqueceu até o clima ser quase tropical. Quem olhar para o alto, nos raros dias onde ainda se podem ver as estrelas, vai descobrir um anel gigantesco composto pelas carcaças das naves de exóticos migrantes.
Mas isso não é o pior. A verdade é que entre esses exóticos que nos vieram pedir guarida, existem criaturas ainda mais monstruosas que resolveram transformar o planeta num lugar de consumo: num TERRARIUM, a bem dizer…
Preparem-se para viver num mundo prestes a ser assimilado, para o bem ou para o mal, numa nova e efémera Utopia… Agora só nos resta resistir.

A Sombra Sobre Lisboa

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Sombra Sobre Lisboa”

Cthulhu libertou o caos sobre Lisboa e os seus tentáculos injetaram nas mentes de escritores, editores e até músicos uma espiral de memórias de um tempo perdido, encoberto ou por descobrir, que nos liga inefavelmente ao mundo vaticinado por Howard Phillips Lovecraft. Esta míriade de escribas esmerou-se: o inconformado João Barreiros, o macabro David Soares e o mordaz Rhys-Hughes uniram-se a figuras das Edições Saída de Emergência, como Rogério Ribeiro e Safaa Dib, ao dínamo da ficção científica Luís Filipe Silva, ao ensaísta e editor João Seixas, ao cineasta António de Macedo, ao vocalista dos Moonspell Fernando Ribeiro, e a outros talentos em potência como Yves Robert, João Ventura, João Manuel Lopes, Vasco Curado ou João Henrique Pinto. Juntos, conceberam uma antologia arrepiante, A Sombra Sobre Lisboa.

H. P. Lovecraft (1890 – 1937) abanou o mundo do terror literário ao introduzir-lhe elementos fantásticos e científicos, tornando-se lenda no género. Criou raças e criaturas horripilantes, imaginou um panteão de morte e pesadelo, e inventou um livro sagrado, o Necronomicon, imbuído de palavras oriundas de tempos muito remotos, através dos quais os humanos conseguiriam invocar e despertar as criaturas e divindades mais perversas. Foi para homenagear o trabalho elaborado deste escritor norte-americano, que as Edições Saída de Emergência lançaram o repto: elaborar uma antologia sobre o mundo imaginário de Howard Phillips Lovecraft, passado na nossa Lisboa. A Sombra Sobre Lisboa é um conjunto de contos lovecraftianos passados na cidade das sete colinas.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:
Contos Lovecraftianos na cidade das sete colinas.
O que aconteceria se o fabuloso imaginário de Howard Phillips Lovecraft, considerado o maior escritor de terror fantástico de sempre fosse aplicado à cidade de Lisboa, às suas colinas inclinadas, becos escuros e prédios seculares? Guiados pela imaginação de autores tão diferentes como Rhys Hughes, António de Macedo, David Soares, João Barreiros ou José Manuel Lopes, entre outros, somos convidados para um passeio ao longo da história milenar de Lisboa e dos seus segredos mais obscuros. Entrelaçando artefactos, criaturas e intrigas lovecraftianas com factos e personagens históricas da nossa capital, o resultado é uma obra original, simultaneamente divertida e perturbadora, verdadeiro tributo não só a Lovecraft mas também à cidade de Lisboa. Prepare-se para descobrir que horrores presenciaram os fenícios na foz do Tejo… O que levou a que os mouros invadissem a península… Que monstros encontraram as caravelas durante os descobrimentos… Qual a verdadeira razão para o terramoto de 1755… Que estranhos cultos combateu Eça de Queiroz… Qual a verdadeira razão para a interrupção das obras do metro da Baixa… E muito mais!
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OPINIÃO:
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Goulas, bruxas, espíritos malignos e zombies foram a companhia perfeita para esta passeata sobre uma Lisboa lovecraftiana. É verdade que nunca li nada de H. P. Lovecraft mas o seu trabalho não me é estranho. Muito já li sobre ele e os ecos da sua criação sussurram em muito do que pode ser encontrado no terror moderno. Este livro, lançado em 2007, chamou-me a atenção, mais do que pela temática, pelos autores que nele escrevem. Os que conhecia não me desiludiram, um ou outro surpreendeu-me.
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A antologia não é superior a outras da editora, como Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa ou Lisboa no Ano 2000, mas o contraste é aqui mais evidente ao nível da qualidade dos contos apresentados. A Sombra Sobre Lisboa tem contos muito bons, que me fazem ter gostado do livro, não foi de maneira nenhuma tempo perdido, mas fiquei com a sensação que vários foram escritos sem paixão, quase diria em cima do joelho, para encher o volume. Não é uma acusação, apenas a sensação com que fiquei.
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H.P. Lovecraft (pinterest)
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Antes de passar para a análise aos contos, permitam-me elogiar o grafismo desta edição. Apesar de o meu livro se ter danificado com a passagem das folhas, a capa é lindíssima, assim como as ilustrações carregadas de negrume incluídas em cada conto, a perspetiva do ilustrador Miguel Vieira sobre cada uma das histórias apresentadas. Em contraponto, nos contos iniciais notou-se a falta de uma última revisão; nada de especial, mas não esperava encontrar os erros que encontrei num livro de aspeto tão cuidado e em contos de editores.
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No que diz respeito ao conteúdo, os três primeiros contos têm muito em comum. Uma escrita esmerada, histórias com potencial, mas que mereciam muito, muito melhor tratamento. Rogério Ribeiro apresenta-nos O Primogénito, um conto que me agradou pela alusão ao período fenício na nossa Lisboa. É aqui que se dá a primeira aparição de monstros, gostei da figura Nyarlathotep e do concílio de deuses, mas a história terminou demasiado rápido e revelou-se muito indefinida e confusa. Pedia-se maior objetividade. O segundo conto, de Safaa Dib, Vale de Sombras, conta a história da nossa Lisboa no Período Visigótico. Mas só conseguiu mostrar que a autora tem bons conhecimentos e uma escrita atrativa. Houve momentos de tensão e de terror, mas aquela história terminou de uma forma muito apressada, muito vaga, denotou-se pouca consistência narrativa e alguma confusão na importância a ser dada aos personagens. O terceiro conto, Aquele que repousa na eternidade, de Luís Filipe Silva, foi sem dúvida o mais bem conseguido dos três. Gostei do facto do próprio Lovecraft ser um personagem da história, dos paralelismos entre a nossa História e a mitologia lovecraftiana, a escrita mostrou-se irrepreensível e os desfechos foram dignos. Mas as mudanças de ponto de vista tornaram-se confusas, assim como as mudanças de forma de diálogo. Ora começavam por aspas, ora por travessões. O conto foi extenso e a narrativa demorou a arrancar, trinta páginas a mais teriam beneficiado o conto.
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O meu exemplar

Entramos então no quarto conto da antologia, desmarcando-se dos três anteriores e não pelas melhores razões. Um dia no cárcere, de João Henrique Pinto, começa bem, com uma escrita de qualidade a descrever uma sala de tortura, mas perde-se completamente em divagações e parágrafos com zero conteúdo, um fim pobre e fastidioso. É então que conhecemos O Elefante e o Cavalo, de David Soares. E é este o primeiro conto que me encheu as medidas. Primeiro, porque a escrita de David Soares, ao contrário das anteriores, não é competente, ela simplesmente é deliciosa. Depois, porque a abordagem ao imaginário lovecraftiano torna-o credível, assustadoramente credível. Uma sátira aos homens e às suas crendices, um olhar sobre o período em que Sebastião José de Carvalho e Melo se tornava o Marquês de Pombal. E a forma como ele encaixa o terramoto de Lisboa e a estátua pombalina na visão lovecraftiana é genial.
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Logo em seguida, começo a entusiasmar-me. Depois do fantástico conto de David Soares, As sombras sobre Lisboa de João Seixas, vem revelar-se ainda melhor. Não só a história é cativante, tendo o famoso Eça de Queirós como protagonista, lutando contra cultos inomináveis, vudu, zombies, goulas e humanos que querem fazer despertar Cthulhu, como a escrita do autor me apaixonou. Se ao início os seus artifícios pareceram-me exagerados, pouco a pouco deixei-me maravilhar pela forma como a escrita se tornou fluída com tanta mestria. E as reviravoltas foram muitas e agradáveis de se ler.
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António de Macedo apresentou-nos A dama do espelho negro. A escrita é simples e o conto pequeno, não me maravilhou mas posso dizer que foi o conto que mais me arrepiou. Um espelho que mostra os rostos de pessoas mortas e as suas mensagens, personagens credíveis numa época da nossa História, espiritismo e histórias familiares que fazem estremecer de uma forma muito mais incisiva do que o aparecimento de monstros e criaturas nojentas. Para compensar, Arroz de Abominação, do galês Rhys Hughes, é uma lufada de ar fresco. Uma verdadeira comédia que engloba espiões nazis e um plano secreto do português famoso pela sua gastronomia, de apanhar o mostrengo Cthulhu para fazer arroz de polvo. O conto é de leitura rápida e de fácil digestão. As Confissões de Walter Reis, de José Manuel Lopes, não me agradou minimamente. Apesar de ele transpirar a Lovecraft por todos os seus poros, ele é uma simples exposição da vida de um sujeito que se transforma num anómalo aquariano, uma escrita exaustiva, parca em desenvolvimento. Sem muito interesse, para mim.
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Imagem lovecraftiana (johncoulhtart)
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O músico Fernando Ribeiro apresenta Mastodon, que mais do que um conto, é uma canção. Não temos uma narrativa, mas uma brincadeira de palavras, que se derramam umas atrás das outras de um modo mágico que me deliciou em vários momentos, mas chegado ao fim, fica a sensação que isto não é um conto. No entanto, passou a mensagem. A ameaça rastejante, de Yves Robert, leu-se bem e conseguiu transmitir um verdadeiro clima de horror através das memórias tenebrosas de um português que vão renascendo como o prenúncio de um apocalipse. Pecou por uma maior falta de construção no que diz respeito às personagens, e a escrita não é muito atraente. A hora, de Vasco Curado, fala-nos de ratos, eles que trazem consigo uma missão horripilante. Gostei da escrita, é-nos passado um verdadeiro ambiente de “algo de mal está aqui”, em forma de sugestão, que consegue ser mais aterrorizador que uma apresentação do mal. Ainda assim, senti que foi um conto extremamente pobre em curso narrativo.
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Logo depois, João Ventura apresenta-nos um conto de qualidade em Num túnel em Lisboa. Qualidade a nível de escrita, de consistência, de credibilidade. Mas não me ficou na retina, nada nele se tornou marcante. Para terminar, Por detrás da Luz foi um hino ao absurdo e ao ridículo da esperança humana. E quem o podia escrever se não João Barreiros? Num futuro longíquo, o homem ainda é traído pelas suas próprias fraquezas, pelas manhas do corpo, pelas promiscuidades da carne e pelas vendas do coração. É com esta visão apalermada do que é o homem que nos é traçada uma narrativa que combina o folclore lovecraftiano ao mundo de ficção científica característico do autor. Mais do que a história mais entusiasmante da antologia, talvez a menos credível a nível de horror por se passar num futuro com maquinarias, escafandros e viagens no tempo, ela traz o humor sardónico tão reconhecido em João Barreiros, que sempre nos surpreende na forma como ridiculariza os seus próprios heróis.
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No fim, fica a sensação que alguns contos destacaram-se dos outros. João Seixas foi o autor que mais me surpreendeu, e o seu conto As sombras sobre Lisboa ganha o ouro como o meu preferido da antologia. Por detrás da Luz de João Barreiros fica em segundo lugar e O elefante e o cavalo de David Soares conquista a terceira posição nas minhas preferências. Estes três contos destacaram-se imenso dos outros, embora os de António de Macedo e Rhys Hughes também tenham-me proporcionado momentos de grande envolvimento. Os restantes ficaram muito aquém, mas atrevo-me a dizer que não por seu próprio demérito, aqueles que destaquei fizeram verdadeiramente a diferença.
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Recomendo a quem gostar de Lovecraft, a quem gostar de terror ou simplesmente, a quem quiser passar um bocado com contos de autores, na maioria portugueses.
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Avaliação: 6/10
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