Estive a Ler: Mitologia Nórdica

Era de madrugada, mas ainda não nascera o dia, quando Thor, ainda com mais fome, mais irritação e mais sono, resolveu desferir um golpe final que silenciaria os roncos do gigante para sempre.

O texto seguinte aborda o livro Mitologia Nórdica

Neil Gaiman é um dos autores mais conhecidos em todo o mundo, pelo que apresentações são mais do que desnecessárias. Nasceu em Portchester, um subúrbio no condado de Hampshire, ao sul da Inglaterra, a 10 de novembro de 1960. Foi educado em escolas anglicanas, onde constam a Fonthill School em East Grinstead, a Ardingly College e a Whitgift School em Croydon. Natural de uma família crente na Cientologia, desde cedo deixou claro que não comungava por inteiro da religião da família. O emprego do seu pai como relações públicas na Igreja da Cientologia fez com que ele, aos sete anos de idade, visse o seu ingresso numa escola privada rejeitado.

O autor viveu em East Grinstead entre 1965 e 1980 e entre 1984 e 1987 e foi aí que conheceu a sua primeira mulher, Mary McGrath, quando ela estudava Cientologia. Casaram-se em 1985, depois de ela dar à luz o seu primeiro filho, Michael. Mitologia Nórdica, a sua mais recente homenagem ao folclore nórdico, lançado este ano, foi publicado em Portugal pela Editorial Presença, num volume de 248 páginas com tradução de Maria de Almeida.

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Fonte: https://www.theverge.com/2017/2/15/14490692/neil-gaiman-norse-mythology-fantasy-book-review

Apesar de Neil Gaiman estar longe de ser um dos meus autores preferidos, continua a ser um dos que tenho lido com mais regularidade nos últimos anos. Só este ano, li a maior parte dos volumes de Sandman – Mestre dos Sonhos e a adaptação do seu conto Como Falar com Raparigas em Festas para BD. Este livro, Mitologia Nórdica, porém, li-o num só dia, e isso deve-se tanto ao tamanho reduzido do mesmo como à facilidade na leitura.

Mitologia Nórdica pode não ser nenhuma maravilha das letras nem virá a ser uma das obras mais emblemáticas do autor. Ele limita-se a contar, pela rama, a sua versão dos acontecimentos com os deuses nórdicos, focando-se, pois claro, em Odin, Thor e Loki. Fá-lo em jeito de contos, de forma frugal e descomplicada. Diz o que tem a dizer sem grandes floreados nem complexidade. Ainda assim, posso dizer que foi um dos livros de Gaiman que mais gostei até hoje.

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Fonte: https://www.presenca.pt/livro/mitologia-nordica/

Esta simplicidade mascara todo um trabalho de interpretação de um mundo riquíssimo e já tantas vezes reescrito, sem cair na repetição. Ele traduz, através dos seus próprios olhos, a própria Edda e fá-lo com convicção e ligeireza, sem dar espaço para dúvidas ou hesitações. Os próprios personagens estão muito bem caracterizados, sem que Gaiman perca tempo com descrições ou qualquer tipo de minúcias. A escrita dele é crua e direta, envolvente e credível.

“Os próprios personagens estão muito bem caracterizados, sem que Gaiman perca tempo com descrições ou qualquer tipo de minúcias.”

A história inicia-se com a criação do mundo, contando a origem da vida na terra, o porquê de existirmos, como fomos feitos, e gradualmente vai-nos revelando como apareceram várias peculiaridades do nosso mundo, desde os terramotos aos poetas. De forma ordenada, os Nove Mundos são apresentados e uma sequência de acontecimentos importantes é narrada, no caminho para o decisivo (ou talvez não) Ragnarok. Os contos seguem uma linha cronológica, deixando no entanto claro que seguir essa linha não é, de todo, o mais importante.

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Fonte: http://www.fumettologica.it/2016/06/norse-mythology-libro-neil-gaiman/

Thor revela-se, como seria de esperar, um personagem incrível e cheio de poderes, deixando aterrados todos com quem se cruza, mesmo que venha a manchar a sua reputação ao vestir-se de noiva. Mjolnir, o seu terrível martelo, garante no entanto um percentagem significativa do temor que rodeia o seu nome. Loki, o mestre das trapaças, revela-se isso mesmo. É um deus tão inventivo e esperto, que para impedir que o responsabilizem por uma tragédia, chega a transformar-se em égua para seduzir um cavalo e levá-lo para longe. E o mais engraçado é que chega a engravidar e a dar à luz um potro com umas quantas patas a mais.

Os filhos de Loki são mesmo a grande surpresa do livro. Nunca pensei que ele tivesse tantos e tão diferentes, sendo aqueles que teve com uma giganta os que trarão o fim aos deuses. O lobo Fenrir é aquele que mais destaco. Odin tentou detê-lo, infrutiferamente. O Ragnarok chegará a todos, mais cedo ou mais tarde. Odin é um personagem interessantíssimo, mas muitos são os que permeiam esta obra. Heimdall, os irmãos Freya e Frey ou Beldor, o belo, são outros personagens que, embora não apareçam tanto, têm um papel decisivo nas histórias.

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Fonte: https://comicvine.gamespot.com/forums/battles-7/thor-norse-mythology-vs-poseidon-greek-mythology-1877447/

Pode-se qualificar este livro como uma abordagem gentil ao tema nórdico. Neil Gaiman traz-nos uma história bonita e envolvente, mas talvez lhe falte alguma brutalidade na forma de contar a história, um tom mais cinza ou negro. Pessoalmente, a narração adocicada de Gaiman facilitou-me a leitura, não que seja um especial adepto do género, mas senti muita fluidez e muito Gaiman ao ler esta versão da história. Envolvimento total e flexibilidade narrativa.

“Pode-se qualificar este livro como uma abordagem gentil ao tema nórdico.”

Acima de tudo, foi como comer algo que sabemos à partida ser ácido e amargo, e senti-lo doce à medida que o mastigamos. Sou fã da escrita de Neil Gaiman, que consegue ser intimista e arrebatadora sem grandes efeitos ou recursos de vocabulário, só não me conseguindo conquistar com as suas histórias, que recorrentemente caem no excesso de referências, para além de que a fantasia urbana está longe de me ser querida. Por isso, foi bom ver Gaiman totalmente entregue a uma das suas grandes inspirações, sem que esta fosse um mero subterfúgio narrativo.

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Fonte: https://www.pinterest.com/explore/norse-jobs/

Mitologia Nórdica foi uma boa surpresa. Não esperem nada de muito entusiástico, nada de original, nada de boom! Peguem no livro com descompromisso e com a mera expectativa de passar alguns momentos tranquilos, a revisitar velhos conhecidos e velhas histórias, com o toque de humor apurado que é característico do autor britânico. O livro é pequeno e lê-se muito bem, e consegue surpreender em vários momentos.

“Acima de tudo, foi como comer algo que sabemos à partida ser ácido e amargo, e senti-lo doce à medida que o mastigamos.”

De Midgard a Asgard, a viagem será turbulenta e com vários solavancos, por isso aconselho veementemente que mergulhem de cabeça e sem quaisquer preconceitos numa aventura bem conseguida, cheia de gigantes e gigantas e anões e serpentes e corvos e muitos, muitos deuses, pelas mãos de um renomeado autor, tido por muitos como o expoente máximo do género. Por tudo isto, só vos posso desejar uma ótima e desenganadora viagem até aos confins do mundo.

Avaliação: 7/10

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A Divulgar: “Miracleman: A Idade de Ouro” pela G Floy Studio

A G Floy Studio Portugal irá lançar nos próximos dias o álbum Miracleman: A Idade do Ouro, de Neil Gaiman e Mark Buckingham. O livro já chegou a algumas livrarias especializadas e deverá chegar às bancas na segunda quinzena de setembro, incluindo todos os extras da edição americana. Miracleman (originalmente Marvelman) foi um dos comics mais influentes dos anos 80, segundo o press release da editora. Desconstrução ambiciosa dos super-heróis, o género dominante na altura no mercado americano, teve um impacto tremendo sobre leitores e criadores, juntando-se a uma mão-cheia de outros títulos que mudaram a face da BD americana.

Juntamente com Watchmen, fez parte de duas obras que o escritor original escreveu praticamente como “teses” auto-contidas sobre os super-heróis. Mas onde Watchmen desembocava num apocalipse, um dos finais inevitáveis da história de super-heróis (que impedia que se contassem mais histórias), Miracleman, de modo mais subtil, levava a história de super-heróis a outro final igualmente inescapável: uma Utopia dominada por super-heróis. E que histórias se podem contar numa utopia? Num mundo sem conflito, crime, sem escassez, sem as próprias neuroses a eles ligados?

O escritor original tinha-se decidido a não contar mais histórias nesse universo, mas depois do sucesso crítico e comercial da obra, depois da insistência da editora em continuar a série, Neil Gaiman, na altura um jovem argumentista britânico em ascensão, propôs-se continuar Miracleman. E o escritor original autorizou-o a isso, cedendo-lhe os direitos da série. Gaiman delineou então três arcos de história de seis comics cada. A IDADE DE OURO contaria histórias passadas nessas utopia, enquanto A Idade de Prata mostraria o regresso de Young Miracleman e as primeiras rachas naquele mundo perfeito. E A Idade das Trevas…

A IDADE DE OURO era sem dúvida o mais difícil dos três arcos narrativos, por se passar num mundo teoricamente sem conflitos. Mas Gaiman resolveu com grande elegância o desafio, secundado pelo trabalho maravilhoso de um Mark Buckingham que não era na altura tão conhecido como hoje, e que conseguiu adoptar registos diferentes para cada uma das histórias incluídas neste volume. Basta citar o estilo pop art que usou na história dos clones de Andy Warhol, usando as técnicas de repetição em massa, ou o estilo misterioso e negro da História de Espiões, ou o estilo meio cartunesco de Modas.

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Capa G Floy Studio

Formato comic (17 x 26), cores, capa dura, 192 pgs.

ISBN 978-84-16510-42-9

PVP: 15,99€

SINOPSE:

“A descrição intemporal que Gaiman e Buckingham fazem de um mundo governado por seres super-humanos continua tão interessante, desafiadora e de leitura necessária, como há duas décadas.” – James Witbrook, io9

Depois da destruição de Londres, e da derrota do seu adversário Kid Miracleman, Miracleman implementou mudanças tremendas à escala global. Das cinzas de Londres ergueu-se a sua imensa pirâmide, o Olimpo, e um mundo novo. Um mundo livre de guerra, de fome, de pobreza. Um mundo de maravilhas incontáveis. Um mundo em que peregrinos escalam o pico do Olimpo para implorar favores ao seu deus vivo, enquanto, muito lá em baixo, os mortos regressam em fantásticos corpos andróides. Hoje estamos numa IDADE DE OURO. E estas são as histórias dos seus habitantes… mas estará a humanidade pronta para a Utopia? Qual o lugar da humanidade num mundo de deuses?

Neil Gaiman (Sandman, 1602, American Gods) e Mark Buckingham (Fables) exploram as vidas de idealistas solitários, estudantes rebeldes e famílias fracturadas, em busca das constantes humanas num mundo de deuses e milagres sempre em mudança.

Resumo Trimestral de Leituras #10

Chegámos ao meio do ano e como tal chegou a hora de proceder a um novo balanço trimestral de leituras. Neste segundo trimestre, o destaque vai para Robin Hobb, não só porque organizei um desafio relativo à autora californiana, mas também porque li três livros dela que andaram perto de ser os melhores deste trimestre. Melhor que Hobb só Patrick Rothfuss. Li as duas partes de O Medo do Homem Sábio, e embora a primeira tenha sido significativamente melhor, a Crónica do Regicida tornou-se uma das minhas sagas preferidas. As minhas leituras nos meses de abril, maio e junho foram:

One-Punch Man #1 – One e Yusuke Murata

O Diário do Meu Pai – Jiro Taniguchi

Poder e Vingança, Império das Tormentas #1 – Jon Skovron

Terra de Sonhos – Jiro Taniguchi

Presas Fáceis – Miguelanxo Prado

As Águias de Roma Livro V – Enrico Marini

O Regresso do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #1 – Robin Hobb

Como Falar com Raparigas em Festas – Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá

Dejah Thoris #1 – Frank J. Barbiere e Francesco Manna

A Dança das Andorinhas – Zeina Abirached

O Rei Macaco – Silverio Pisu e Milo Manara

Imperador dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #3 – Mark Lawrence

A Fortaleza da Pérola, Elric #2 – Michael Moorcock

A História de um Rato Mau – Bryan Talbot

Bolos Janados, Tony Chu: Detective Canibal #6 – John Layman e Rob Guillory

Os Dilemas do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #2 – Robin Hobb

Os Senhores do Norte, Crónicas Saxónicas #3 – Bernard Cornwell

A Louca do Sacré Coeur – Alejandro Jodorowsky e Moebius

A Garagem Hermética – Moebius

Nimona – Noelle Stevenson

O Medo do Homem Sábio Parte 1, Crónica do Regicida #2 – Patrick Rothfuss

All is Lost, The Walking Dead #28 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

O Medo do Homem Sábio Parte 2, Crónica do Regicida #2 – Patrick Rothfuss

One-Punch Man #2 – One e Yusuke Murata

Uma Ruína Sem Fim, Outcast #2 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

Duas Vezes Contado, Harrow County #2 – Cullen Bunn e Tyler Crook

Sangue do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #3 – Robin Hobb

Sem TítuloComecei o segundo trimestre com a leitura de alguma banda-desenhada. Publicado pela Devir, o primeiro volume da edição em mangá de One-Punch Man apresenta um super-herói entediado com a facilidade com que derrota os adversários. A Humanidade é frequentemente atacada por monstros, que parecem não ter fim. No entanto, este herói parece mais preocupado em manter o seu apartamento inviolado. Uma história provocadora, com argumento de One e arte de Yusuke Murata, que não me fascinou pessoalmente. Depois, li duas novelas gráficas da Levoir, da autoria de Jiro Taniguchi, autor falecido em fevereiro deste ano. Para além de tocante e reflexivo, O Diário do Meu Pai mostra que aquilo que compreendemos nem sempre está próximo da realidade. O outro álbum, Terra de Sonhos, apresenta cinco contos que mesclam a ternura à reflexão. Um casal sem filhos sofre com os últimos dias do seu animal de estimação, e quando ele morre juram não mais adotar nenhum outro. Mas quando uma gata persa, grávida, lhes surge nas vidas, tudo muda.

Sem títuloPoder e Vingança é o primeiro livro de Jon Skovron no registo fantasia adulta, com a marca de qualidade Saída de Emergência. Divertido e cheio de ritmo, o Império das Tormentas é um mundo bem construído que apresenta Esperança Sombria e Ruivo, dois personagens que vêm os seus percursos cruzar-se quando os criminosos que controlam Círculo do Paraíso começam a colaborar com os biomantes, servos místicos do Imperador. A escrita do autor não me convenceu, mas foi uma boa leitura. Piratas e ladrões, coleccionadores de arte e inventores, samurais, mutações humanas e perseguições sem fim. Disfarçado de alegoria, a BD da Levoir Presas Fáceis, da autoria do autor espanhol Miguelanxo Prado, é uma história inquietante sobre os interesses nefastos da banca. A burla é o tema central. Uma série de homicídios de pessoas ligadas à banca e o suicídio de um casal de idosos arrasta a inspetora Olga Tabares para uma investigação que levanta um sério debate moral. Saltei para o livro V da série gráfica As Águias de Roma, que oferece ao leitor um sucedâneo de emoções. Da revelação da paternidade de Tito à denúncia dos planos de Armínio, Enrico Marini desenha com precisão o clima bélico da Roma Antiga e coloca o embate entre Marco e o seu irmão de criação num patamar superior. Excelente álbum das Edições Asa, que prossegue a um ritmo altíssimo.

Sem TítuloComecei a segunda série de Robin Hobb focada em FitzCavalaria Visionário. O primeiro volume de O Regresso do Assassino mostra-nos o protagonista quinze anos mais velho. O mundo pensa que ele morreu, mas a verdade é que estabeleceu-se como camponês ao lado do seu lobo Olhos-de-Noite e acolheu um jovem órfão chamado Zar. A visita do seu amigo Bobo, agora transformado em Dom Dourado, e a revelação que o príncipe Respeitador desapareceu misteriosamente, colocam de novo Fitz na órbita de Torre do Cervo e das suas intricadas intrigas. Um volume que me fascinou do primeiro ao último momento, melhorando substancialmente em relação à primeira série. Depois de já ter lido o conto, há dois anos atrás, na antologia Coisas Frágeis, foi de bom grado que li a adaptação para BD de Como Falar com Raparigas em Festas. Pelas mãos da dupla brasileira Fábio Moon e Gabriel Bá, esta história de Neil Gaiman sobre dois jovens adolescentes nos anos 70 que, dedicados a fazer sucesso numa festa cheia de raparigas, descobrem que elas não são bem aquilo que pensavam, revelou-se uma lufada de ar-fresco. Divertido e despretensioso, é mais um excelente álbum trazido para o nosso país, desta feita pelas mãos da Bertrand.

Sem títuloCom argumento de Frank J. Barbiere e ilustrações de Francesco Manna, a BD Dejah Thoris é o primeiro volume de uma série da Dynamite Entertainment sobre a princesa de Marte da obra de Edgar Rice Burroughs. Casada com o terráqueo John Carter, Dejah vê-se vítima de um complot dentro do palácio para afastar a sua família do poder, fazendo desaparecer o seu pai e culpando-a por isso. Dejah Thoris é assim obrigada a fugir da cidade e mudar de identidade. Apesar de o argumento ser relativamente bom, foi também previsível e ficou um pouco aquém das expetativas. O mesmo para a arte, que valeu pela cor. Publicada na Colecção Novela Gráfica da Levoir com o jornal Público, A Dança das Andorinhas, da libanesa Zeina Abirached, encanta pela forma inocente e quase cómica com que um grupo de pessoas lida com a guerra. Separados do mundo e refugiados num átrio, os personagens são obrigados a encarar a vida como ela lhes é oferecida. Foi uma BD que não me apaixonou, mas fez-me refletir.

Sem título 2Entrei em maio com a BD O Rei Macaco da Arte de Autor. Com arte de Milo Manara e argumento de Silverio Pisu, trata-se de um mergulho nas tradições orientais. É uma releitura da Jornada para o Oeste, para encontrar o Jovem Macaco em busca da eternidade, com o Imperador de Jade disposto a dificultar-lhe a tarefa. Apesar de ser uma obra de referência, muito bem humorada, a nível de arte já vi melhor de Manara, o que se compreende uma vez que este foi um dos seus primeiros trabalhos. O terceiro e último volume da Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence, publicado pela TopSeller, Imperador dos Espinhos veio cimentar a minha opinião sobre a obra. O autor convence com a escrita, mas a história continuou confusa, sem uma proposta clara ou um plot bem definido. Um livro mediano, numa trilogia mediana. A Fortaleza da Pérola, de Michael Moorcock, mostra-nos Elric na cidade de Quarzhasaat, onde é chantageado por um nobre local a dar-lhe uma pérola desaparecida no deserto em troca de um antídoto para a droga que lhe haviam dado. Elric inicia assim uma viagem pelo deserto que o levará a Varadia, uma menina que ficou em estado comatoso desde que viu a sua integridade violentada. Mais uma excelente leitura, como Moorcock já nos habituou.

Sem títuloBaseado na história de vida da autora de livros infantis Beatrix Potter, o autor Bryan Talbot escreveu e desenhou uma BD tocante e metafórica sobre uma jovem que, vítima dos maus tratos dos pais e sentindo-se culpada pelos abusos sexuais que sofreu, acaba nas ruas de Londres, a sobreviver como sem-abrigo. A História de Um Rato Mau foi uma leitura reflexiva, que não me agradou no seu todo pelo peso que tomou, em certo ponto. Das novelas gráficas da Levoir passei para os grandes lançamentos da G Floy. Bolos Janados é mais uma aventura do detective mais louco da BD, Tony Chu, desta feita protagonizada pela sua irmã-gémea, Antonelle. Desde um leilão polémico até a um casamento de final abrupto, passando por uma aliança inusitada entre a NASA, a FDA e a USDA, somos convidados a percorrer uma série de aventuras com a participação sempre especial do galo Poyo. A história não desilude, mantendo-se fresca, colorida, bem-humorada e com muitas, muitas vísceras à mostra. Geniais, John Layman e Rob Guillory mantêm a toada. No seguimento do meu desafio com o apoio da Saída de Emergência li Os Dilemas do Assassino de Robin Hobb. FitzCavalaria continua mais perdido do que nunca, agora que é um homem adulto e tem de lidar com uma série de questões políticas e com a imaturidade dos mais jovens. Este segundo volume tem mais mistérios e alguma magia, relacionada com um rapaz de pele escamada e com a narcheska Eliânia, mas também referências a dragões e a navivivos, que me agradou.

Sem títuloTerceiro volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, Os Senhores do Norte mostra-nos Uthred a caminho do norte, enraivecido com o Rei Alfredo pela ridícula recompensa que lhe deu depois de tudo o que fez para que vencesse a importante Batalha de Ethandun. Disposto a recuperar a Bebbanburg que o viu nascer, Uthred “tropeça” em Guthred, um dinamarquês convertido ao Cristianismo que pretendia reclamar para si o norte. Mais um magnífico livro cheio de passagens belas e inquietantes, com o selo de qualidade Bernard Cornwell e Saída de Emergência. Escrito por dois dinossauros da BD, Alejandro Jodorowsky e Moebius, A Louca do Sacré Coeur conta a história de um professor de filosofia da Sorbonne, tradicionalmente vestido de lilás que, assediado por uma das suas alunas, sucumbe à tradicional crise de meia-idade e vê-se arrastado para uma parafernália de rituais bizarros que mesclam o religioso e o misticismo a práticas sexuais completamente lunáticas. Um livro que me agradou nas ideias e no desenho, mas que achei um pouco mal executado, ou pelo menos sem brilho. Outra grande obra de Moebius pelas mãos da Levoir, A Garagem Hermética é uma história confusa de ficção científica que gira à volta do Major Grubert. O misterioso personagem concebe um asteróide que cabe no seu bolso através de treze geradores. Porém, no interior desse corpo existem três mundos e vida, possivelmente tão real como a nossa. Mas quem será este enigmático Major Grubert? Gostei imenso, mesmo não percebendo muito da história.

Sem TítuloO mês de junho começou com Nimona, da norte-americana Noelle Stevenson, que marca o regresso da Saída de Emergência à publicação de BD’s. Nasceu como um trabalho universitário da autora, mas foi como webcomic que alcançou o sucesso e transformou autora e personagem em celebridades. Dona de um traço único e de um humor aguçado, Stevenson aborda temas como a amizade, a falsidade, o controlo dos media pelas forças de poder e a homossexualidade, de forma simples e divertida, num mundo marcadamente medieval com televisões, computadores e tecnologias futuristas. Em senda de leituras maravilhosas, seguiu-se o segundo volume da Crónica do Regicida (Parte 1 e Parte 2), publicado em português pela ASA/1001 Mundos. O Medo do Homem Sábio traz-nos de volta ao mundo escrito por Patrick Rothfuss. Depois de sobreviver às artimanhas de Ambrose, Kvothe sobrevive na Universidade, pagando as “propinas” com a música que faz em Imre, a cidade vizinha, e com os empréstimos que forja com Devi, a lendária ex-aluna da Universidade. É quando uma acusação antiga lhe bate à porta que surge a oportunidade de arranjar um mecenas, o que o leva para longe, para a distinta Vintas. Enquanto a primeira parte foi, muito possivelmente, dos melhores livros que já li na vida, o segundo perdeu bastante em comparação, ainda que a escrita do autor continue como uma das maravilhas da série.

Sem títuloMais um brilhante volume da BD The Walking Dead, All is Lost prossegue na rota de sucesso do argumentista Robert Kirkman, com a arte sempre consensual de Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano. Hilltop caiu e uma legião de walkers foi canalizada pelos Sussurradores em direção a Alexandria. Negan e Rick defendem a comunidade, mas os portões caem e Rick vê no seu antigo adversário um amigo improvável, o único que consegue ajudá-lo quando tudo parece desmoronar-se à sua volta. Mais um volume excelente e uma morte impactante com repercussões no futuro das BD’s. Li também o segundo volume do mangá One-Punch Man de One e Yusuke Murata, com quem tinha iniciado o trimestre. Uma série de apontamentos divertidos fazem-me olhar com agrado para este álbum, cuja proposta ou mesmo linha narrativa não oferecem nada de original ou interessante. E regressei a Robert Kirkman. Depois de ter lido o primeiro volume no início do ano, eis que chegou às bancas o segundo álbum de Outcast, Uma Ruína Sem Fim, com argumento do autor de The Walking Dead e ilustrações de Paul Azaceta. Argumento e arte casam na perfeição numa história sobre possessões que começa a dar maiores sinais de interesse, e com os mistérios a adensarem-se. Apesar de a história parecer demorar a avançar, notam-se os laivos de genialidade que atiraram Kirkman para as bocas do mundo.

Sem título 2Tal como o álbum de Outcast, Duas Vezes Contado foi um dos mais recentes lançamentos da G Floy no nosso país, lançado no Festival de BD de Beja. O segundo volume da BD de horror Harrow County, com argumento de Cullen Bunn e arte de Tyler Crook, revela um maior amadurecimento por parte do artista, ainda que o argumento não me tenha agradado por aí além. À medida que a protagonista Emmy vem aprendendo a lidar com os seus poderes e com as criaturas sobrenaturais que habitam Harrow County, tem também de proteger a povoação de um novo inimigo: a própria irmã gémea, Kammi. E terminei o trimestre com o terceiro volume da Saga O Regresso do Assassino. Em Sangue do Assassino, Robin Hobb volta a não desiludir. Vemos o protagonista FitzCavalaria arrastado para uma chuva de situações inusitadas, desde a ganância pela magia do seu velho mentor, à preocupação com os filhos, rumores de homossexualidade e principalmente a ameaça dos pigarços à sua integridade e à da família real. A obra, porém, oferece muito mais do que isso. Oferece pessoas reais, com defeitos e virtudes, e problemas que podiam ser partilhados por qualquer um de nós. Uma história enriquecedora.

Neste momento, estou a ler o livro Monge Guerreiro do autor brasileiro Romulo Felippe, e deverei continuar com as BD’s Southern Bastards, Velvet, Monstress e mais alguns livrinhos. Entre os nomes que pretendo ler nos meses de verão estão Ursula K. Le Guin e Joe Abercrombie, mas irei também concluir a Saga O Regresso do Assassino de Robin Hobb.

Estive a Ler: Como Falar com Raparigas em Festas

Nas festas das outras pessoas, ouvíamos Elo ou 10CC, Roxy Music até. Talvez Bowie, se tivéssemos sorte.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Como Falar com Raparigas em Festas” (Formato BD)

Como Falar com Raparigas em Festas é um conto do autor britânico Neil Gaiman, publicado originalmente em 2006. Dez anos volvidos, o conto foi adaptado para banda-desenhada, pelas mãos da dupla brasileira Fábio Moon e Gabriel Bá, irmãos-gémeos conhecidos pelos seus inúmeros trabalhos de sucesso, em que se destacam 10 pãezinhos, Daytripper e Dois Irmãos.

Se o autor de Sandman e Deuses Americanos dispensa apresentações, sendo um dos mais conhecidos no género fantástico e também um dos mais comentados aqui no blogue, a dupla brasileira também não é totalmente virgem por estas bandas. Gabriel Bá é o ilustrador da série Umbrella Academy, cuja resenha podes ler aqui e aqui. Também o conto que serviu de inspiração à BD foi já aqui comentado, na versão em pt-br da antologia Coisas Frágeis de Neil Gaiman, um dos trabalhos que mais gostei do autor.

Pelas mãos da Bertrand Editora, Como Falar com Raparigas em Festas saiu no passado dia 13 de abril no nosso país, com tradução de Pedro Carvalho e Guerra. Com ideia e produção pela Dark Horse Comics, a escolha dos ilustradores partiu do próprio Neil Gaiman. “Têm uma estética narrativa na qual a linguagem corporal é tudo. A história passa muito pelo que os narradores pensam e isso pode ser muito difícil de traduzir em banda-desenhada. É incrivelmente agradável escrever uma história e vê-los a torná-la real” disse o autor britânico ao Publishers Weekly.

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Capa Bertrand Editora

A adolescência

Passado nos anos 70, Como Falar com Raparigas em Festas tinha tudo para ser um guia de sobrevivência para jovens adolescentes… mas não é. Vic é um rapaz desenrascado que parece saber nadar como ninguém entre raparigas. Ele sabe o que dizer, como agir, e revela relativa facilidade em engrenar conversas com as jovens mais vistosas; ao passo que o seu amigo Enn é exatamente o oposto. Ele treme como varas verdes perante uma rapariga, não sabe o que dizer, onde pôr as mãos, como alimentar o interesse, e por aí vai.

Na verdade, o jovem Enn mostra as dúvidas comuns num rapaz imberbe de 16 anos. Para além de não saber o que fazer, ele não conhece nada do universo feminino e a sua complexidade parece-lhe um enigma completamente… alienígena. É o seu amigo Vic quem o leva para mais uma festa, mas Enn já está plenamente convencido do resultado final. Vic agarrará a rapariga mais bonita da festa, enquanto Enn acabará por ouvir as conversas aborrecidas de uma mãe nos fundos de uma cozinha.

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Neil Gaiman (omelete)

Uma festa… diferente

Vic tenta ensinar a Enn a melhor forma de engatar uma rapariga, induzindo-o a conversar. Seguindo as indicações de uma rapariga chamada Allison, chegam à casa onde se espera uma bela festa. De facto, a casa está cheia de raparigas. Vic acalma-o, garantindo-lhe que são só raparigas, não extraterrestres. Mas será que ele não estará enganado?

Enquanto Vic se entretém com uma jovem exuberante chamada Stella, Enn explora a casa e encontra uma jovem na sala de música, com quem experimenta meter conversa. A rapariga diz chamar-se Wain da Wain, revela ser uma segunda e que talvez não procrie. A estranheza da rapariga, porém, não parece ser muito diferente daquela que Enn espera de todas as jovens, e prossegue na sua conversa. A rapariga mostra-lhe, porém, uma mão cujo dedo mindinho estava dividido em dois. Uma deficiência física, nada de mais.

A conversa é interrompida quando Enn vai à cozinha buscar-lhe água, mas quando regressa ela já lá não está. Encontra, porém, ao longo da casa, outras raparigas, tão estranhas como a primeira. A casa está cheia de jovens extraterrestres, uma experiência que tanto Enn como Vic não esquecerão com facilidade.

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Raparigas (Fábio Moon e Gabriel Bá)
SINOPSE:

Como Falar com Raparigas em Festas, conto premiado com o Hugo Award e Locus Award, de Neil Gaiman, um dos autores mais célebres do nosso tempo, foi adaptado a banda desenhada com ilustrações vibrantes pela dupla brasileira Gabriel Bá e Fábio Moon. Apesar da história se desenrolar na década de 70, o conto de Neil Gaiman retrata ainda hoje um momento da puberdade comum aos jovens. A obra está prevista chegar ainda este ano às salas de cinema com os atores Alex Sharp e Abraham Lewis nos papéis de Enn e Vic respetivamente. Elle Fanning , Ruth Wilson e Nicole Kidman também integram o elenco. A realização é de John Cameron Mitchell.

Enn tem 16 anos e não compreende as raparigas, ao passo que o seu amigo Vic parece já ter tudo na ponta da língua. Mas ambos apanham o choque da sua vida ao depararem com uma festa em que as raparigas são muito mais do que aquilo que aparentam…

OPINIÃO:

Se, há dois anos atrás, achei o conto um pouco aborrecido, não podia ter opinião contrária em relação à BD. Talvez o meu próprio gosto tenha mudado, mas este Como Falar com Raparigas em Festas propiciou-me um bom bocado. Despretensiosa e divertida, esta história mostra Neil Gaiman na sua melhor forma, misturando dúvidas e medos e hormonas juvenis com toques de ficção científica bem superficiais, sem deixarem de ser claros.

Talvez por isso, reli o conto, e gostei mais do que da primeira vez. Foi, talvez, a leveza do todo e a superficialidade dos temas apresentados, o que mais me agradou. Usando a ironia e o humor, Gaiman contou uma história com princípio, meio e fim, curta e sem exageros. Os personagens foram bem apresentados e construídos, os temas, pouco debatidos, mostraram-se pertinentes.

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Esquisso (Getty Images)

A arte foi outro dos pontos fortes da obra. Vejo grande importância nos coloridos, e este livro tem na cor forte e impactante um espelho daquilo que a obra quis imprimir – uma caricatura da juventude. Também os traços de Bá e Moon revelam algo de caricatural nos personagens, sem deixarem de ser realistas q.b. O propósito do álbum não foi ser realista, mas usar a realidade como cenário.

É uma BD bastante leve, que se lê rapidamente. Uma lufada de ar fresco. Gostei sobretudo do tom despretensioso da obra, sem demasiadas complexidades e com uma conclusão a assentar como uma luva no seu todo. Original e divertido, Como Falar como Uma Rapariga em Festas está super recomendado.

Avaliação: 8/10

Resumo Trimestral de Leituras #9

O primeiro trimestre do ano chegou ao fim e com ele chegou a altura de fazer o habitual balanço trimestral de leituras. De Ken Follett a Neil Gaiman, passando por Brandon Sanderson e George R. R. Martin, revisitei alguns dos meus escritores favoritos e ainda tive o prazer de iniciar a Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss. Vejam a lista de leituras dos meses de janeiro, fevereiro e março:

A Darkness Surrounds Him, Outcast #1 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

The Whisperer War, The Walking Dead #27 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

Inimigos – Anton Tchekov

Um Jogo de Ti, Sandman #5 – Neil Gaiman

Fábulas e Reflexões, Sandman #6 – Neil Gaiman

Um Mundo Sem Fim, Vol. 1 – Ken Follett

Um Mundo Sem Fim Vol. 2 – Ken Follett

Vidas Breves, Sandman #7 – Neil Gaiman

A Estalagem no Fim do Mundo, Sandman #8 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 1, Sandman #9 – Neil Gaiman

As Benevolentes – Parte 2, Sandman #10 – Neil Gaiman

A Vigília, Sandman #11 – Neil Gaiman

Warbreaker, Warbreaker #1 – Brandon Sanderson

La Dueña – J. A. Alves

Vidas Secretas de Homens Mortos, Velvet #2 – Ed Brubaker, Steve Epting e Elizabeth Breitweiser

Autoridade, Área X #2 – Jeff Vandermeer

O Cavaleiro de Westeros – George R. R. Martin

White Sand #1 – Brandon Sanderson

Terrarium – João Barreiros e Luís Filipe Silva

Príncipe dos Dragões, Elric #1 – Michael Moorcock

Loki – Robert Rodi e Esad Ribic

Assombrações Sem Fim, Harrow County #1 – Cullen Bunn e Tyler Crook

Saga #6 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Um Diamante Para o Além, Bouncer #1 – Alejandro Jodorowsky e François Boucq

O Nome do Vento, Crónica do Regicida #1 – Patrick Rothfuss

sem-tituloO ano iniciou-se com um desafio em mente: começar a série fantástica de Patrick Rothfuss e ler os dois volumes em português do famoso Mundo Sem Fim de Ken Follett. E não é que cumpri? Janeiro foi um mês rico em leitura de bandas-desenhadas. Comecei com o primeiro volume da BD Outcast de Robert Kirkman, o mesmo autor de The Walking Dead. A Darkness Surrounds Him apresenta Kyle Byrnes como protagonista, e uma narrativa sombria prenhe de possessões demoníacas e histórias de vida dramáticas e violentas. Muito diferente da história de mortos-vivos, a mais conhecida de Kirkman, agradou-me acima de tudo pela forma como toda a temática é explorada de forma fluída e misteriosa. Também li o mais recente volume de The Walking Dead, a edição 27. The Whisperer War mostrou ser apenas a primeira batalha entre as comunidades e os Sussurradores. O exército de Rick, liderado por Dwight e com Negan na linha da frente, vence o primeiro round. No entanto, Hilltop é completamente destruída e a muito custo Maggie, Carl, Aaron e Jesus conseguem derrotar os seus inimigos. Mais um volume genial, que tem direito ao “funeral” de Lucille.

sem-tituloAinda nos primeiros dias de janeiro li o conto de Anton Tchekov Inimigos, uma história tão curta que não achei necessidade de escrever uma opinião. Fala sobre Varka, uma jovem criada cuja tarefa de adormecer um bebé faz-lhe crescer uma intensa sensação de sonolência, que é incapaz de dominar. Li ainda, de uma assentada, o que faltava da coleção Sandman (Vol. 5, Vol. 6, Vol. 7, Vol. 8, Vol. 9, Vol. 10, Vol. 11) de Neil Gaiman, publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público. Entremeando histórias soltas com uma linha narrativa central, Gaiman soube tecer toda a narrativa nos últimos volumes, que trouxeram inúmeras reflexões e uma sensação de renovação e esperança ao leitor. Apesar disso, Sandman não me apaixonou em nenhum momento e, por muito mérito que tenha, soou-me muito a “eterna promessa” e a histórias vagas.

sem-tituloDividido em Portugal em dois volumes, o livro Um Mundo Sem Fim (Vol. 1 e Vol. 2) de Ken Follett agarrou-me desde o primeiro momento. Apesar de repetir a receita de Os Pilares da Terra, adorei tanto um como o outro. Histórias dramáticas de amor e superação, sobre religião, política, medicina e sobrevivência. Uma história de época que retrata o drama da Peste Negra e a Guerra dos Cem Anos. Warbreaker é um livro de Brandon Sanderson, o autor do momento no que diz respeito à literatura fantástica. Uma espada falante, cabelos que mudam de cor mediante as emoções, soldados mortos-vivos que são comandados através de palavras de ordem, a capacidade de dar vida a objetos inanimados e, principalmente, um panteão de deuses que está bem vivo e habita entre os demais. Original e muito bem escrita, esta obra de fantasia consegue também acumular bons momentos de humor e imensas reviravoltas.

sem-tituloComecei fevereiro com La Dueña: Devoradora de Homens. Da autoria de J. A. Alves, o autor de Batalha Entre Sistemas, La Dueña mostra todo o esplendor dos llanos venezuelanos e uma história tensa de superstições locais e pactos com o demónio. Chris viaja até à Venezuela com a noiva, Ana Clara, para conhecer a fazenda que herdou do seu tio Miguel, mas quando lá chega encanta-se por Yolanda, a dona da fazenda vizinha. Dizem que essa mulher rouba a alma de todos que por ela se apaixonam. Gostei imenso. Vidas Secretas de Homens Mortos, o segundo volume da graphic novel Velvet traz-nos o melhor da equipa composta por Ed Brubaker (argumento), Steve Epting (ilustração) e Elizabeth Breitweiser (cores). Uma história de espionagem tensa que prende desde o primeiro momento. Velvet é uma antiga espia que se vê atirada para o centro da ação quando o seu superior é assassinado. Neste segundo volume, ela tenta descobrir quem a tramou e porquê, depois de saber que o seu esposo não era quem ela pensava. Entre soltar um prisioneiro, fazer uma viagem de comboio alucinante e fugir a cães-pisteiros, Velvet passa por várias amarguras neste excelente segundo álbum da trilogia.

sem-tituloAutoridade é o segundo volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer. Se esta história que mistura o terror psicológico ao bizarro (o new weird fiction) me fascinou no primeiro volume ao mostrar in loco as experiências vividas por quatro exploradoras numa zona frondosa alegadamente contaminada, este segundo livro vai mais além ao apresentar-nos Control, o novo diretor da agência que as enviou, e é através dele – tão ingénuo quanto o leitor – que vamos descobrindo, nos escritórios da Extensão Sul, os terríveis segredos que a agência guarda sobre aquela região tenebrosa. Passado 100 anos antes da ação de A Guerra dos Tronos, O Cavaleiro de Westeros (versão conto de George R. R. Martin e BD com adaptação de Ben Avery e ilustrações de Mike S. Miller) narra a ação no Torneio de Vaufreixo durante o reinado de Daenor II. Sor Arlan de Pataqueira morre de uma gripe a caminho do torneio, e o seu escudeiro Dunk resolve disputá-lo. Para isso, terá de contar com a ajuda do pequeno Egg e provar ser um cavaleiro, o que o irá colocar no cerne de várias disputas e provocar uma tempestade no reinado então calmo dos Targaryen. Excelente conto muito bem escrito, enquanto a BD se destaca pelas ilustrações cativantes e coloridas.

sem-titulo-2White Sand é uma graphic novel da Dynamite Entertainment. Com argumento de Rik Hoskin, ilustrações de Julius Gopez e cores de Ross Campbell, trata-se da adaptação de uma obra não publicada de Brandon Sanderson, com base numa revisão do seu primeiro livro, ambientado no universo Cosmere. Na verdade, este volume inaugural corresponde ao primeiro terço do livro. Em Taldain, um planeta inamovível – metade vive de dia e metade de noite – conhecemos Kenton, um jovem Mestre de Areia que desafia o mundo com a sua teimosia e determinação, vendo-se arrastado para uma conspiração terrível que pode acabar com o seu povo. Apesar de ser uma obra pouco convincente a nível de credibilidade, gostei do álbum. E terminei o mês de fevereiro da melhor forma. Vinte anos depois da publicação original, a Saída de Emergência vem publicar uma versão Redux, melhorada e ampliada de Terrarium, considerado por muitos como o melhor romance de Ficção Científica português. João Barreiros e Luís Filipe Silva são os autores. Estamos num futuro não tão distante assim, em que os exóticos, várias espécies de seres extraterrestres, foram atirados para o nosso planeta por entidades superiores. Quem são as Potestades, os IXytil, e esse tal de Mr. Lux? Uma guerra entre espécies dominantes poderá ser resolvida por meros humanos? Carregado de um humor ácido e termos futuristas, Terrarium é um hino à FC, indispensável para todos os fãs do género em Portugal.

sem-tituloMarço teve também um início auspicioso. Príncipe dos Dragões é o primeiro volume de Elric, uma série de fantasia épica publicada em 1972 por Michael Moorcock. Simples em prosa e carregado de dilemas morais, Príncipe dos Dragões apresenta-nos um Império em declínio e um imperador doente, dependente de drogas para se manter forte. Melniboné é o seu domínio, abrigo de dragões e de homens terríveis. A tradição relata os melniboneanos como sádicos e perversos, mas Elric parece uma alma generosa e cortês, o que provoca chispas de ódio no seu primo Yyrkoon, que lhe pretende usurpar o trono. O braço de ferro entre Elric e Yyrkoon arrasta-se até às últimas consequências, com Cymoril, a amada de Elric, no vértice de um triângulo inconstante de amor familiar. Com argumento de Robert Rodi e ilustração de Esad Ribic, a BD Loki mostra uma outra face da história de Thor, focada no seu meio-irmão. De inspiração trágica e enaltecendo a decadência de Asgard através da queda de Odin e dos múltiplos dilemas do personagem-título, foi uma boa leitura que se destaca pelos coloridos e traços fortes.

Sem títuloPrimeiro volume de Harrow County, Assombrações Sem Fim apresenta a história desta povoação isolada no sul dos E.U.A., envolta em superstições e crendices. O povo recorria a Hester para se livrar dos seus problemas domésticos, mas quando a natureza se virou contra eles, depressa atiraram-lhe as culpas e condenaram-na à morte, sob a acusação de bruxaria. A mulher demorou a morrer e jurou regressar. Pouco tempo depois, uma criança surgiu naquele lugar fatídico. Uma brilhante BD de terror, escrita por Cullen Bunn e com arte de Tyler Crook. Brilhante álbum da série Saga, o quinto volume da space opera gráfica de Brian K. Vaughan e Fiona Staples traz uma linguagem crua e brutal, momentos de grande ritmo e ação entremeados por muito humor. A pequena Hazel começa a sua educação numa prisão galática, enquanto os pais procuram desesperadamente por ela. Vontade está de regresso, disposto a vingar a morte da irmã, e nem Gus o consegue parar. Provocante e irreverente, esta série da Image Comics está bem e recomenda-se.

sem-tituloUm Diamante Para o Além é o primeiro volume da série de BD Bouncer de Alejandro Jodorowsky e François Boucq. Publicado pelas Edições ASA em 2007, trata-se de um western subversivo, que narra de forma ficcional os acontecimentos que se sucederam à Guerra da Secessão nos E.U.A. O Capitão Raltan reúne os seus mercenários, que se recusaram a render após o final do conflito militar, espalhando o terror nos ranchos. Mas o que ele procura é um diamante, que roubara anos atrás. Na sua busca, assassina um antigo subordinado, provocando assim a atenção de um familiar daquele. Bouncer é um velho maneta, conhecido por resolver problemas de forma abrupta e imprevisível. Uma BD muito boa, da qual tinha grandes expectativas e não me surpreendeu tanto. E terminei março com O Nome do Vento. Primeiro volume da Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss, esta auto-biografia de um personagem fictício é brilhante. Desde a infância de Kvothe na trupe até aos seus estudos na Universidade, passando por várias privações como espancamentos, fome e dramas familiares, o personagem recorre à ardileza e ao poder da música para sobreviver. Somos apresentados a uma história única que fala sobre superação, música, ciência e amor. O mundo criado é original e misterioso, e os enigmas sobre o Chandrian, uma lenda que se revela real da pior forma, deliciosos. Cativante, fluído e profundo, este foi o livro que apresentou ao mundo a escrita maravilhosa de Patrick Rothfuss.

Depois deste início de ano excelente em leituras, estou a ler Poder e Vingança de Jon Skovron, o primeiro volume do Império das Tormentas, e deverei seguir com Robin Hobb, Mark Lawrence e Bernard Cornwell, pelo que o segundo semestre deve ser também ótimo. Por cá vou continuar a partilhar opiniões, espero que gostem.

TAG – Carnaval Literário

Boa tarde! Hoje trago-vos uma TAG literária propícia à quadra. É a TAG – Carnaval Literário e e todos estão convidados a fazer a sua. Vamos ver o que me vai calhar. :p

#1 O melhor carro alegórico

Um livro que todos adoraram, tu estavas com medo de ler e acabaste por cair no hype

Sem título

O Império Final é, definitivamente, um livro que eu tinha a certeza que ia odiar antes de ler. Felizmente Brandon Sanderson trocou-me as voltas e embora Mistborn tenha as suas falhas, é uma saga que recomendo a todos os amantes de boa fantasia.

#2 A vida são dois dias, mas o Carnaval são três

Um livro que lias, lias, lias, e parecia nunca mais acabar

Sem título 2

O quarto livro da Saga do Assassino de Robin Hobb, A Vingança do Assassino, foi uma verdadeira indigestão. Sequências lentas repetiram-se umas atrás das outras, e apesar de não ter desgostado do livro no seu todo (e confesso já ter saudades da saga), foi um volume de tamanho médio que demorei muito tempo a ler.

#3 Camarote VIP

Um livro que leste antes de virar moda

sem-titulo

Bem, não posso dizer que fui um pioneiro na leitura de A Guerra dos Tronos (nem pouco mais ou menos), mas li-o mal saiu a primeira temporada da série de televisão e o hype ainda não era nada comparado ao que se tornou.

#4 Atrás da multidão

Um livro que “toda a gente leu” e tu ainda não

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A par das séries de Peter V. Brett e Robert Jordan, Crónicas do Regicida de Patrick Rothfuss é uma das mais famosas que ainda não tive o privilégio de ler. Apesar de já ter lido um conto de Rothfuss que não me convenceu, espero que este seja o ano em que finalmente leia O Nome do Vento.

#5 Loucura Total

Um livro que todos te aconselharam e… não gostaste

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Sandman, de Neil Gaiman, é uma das obras mais consensuais dentro do universo das bandas-desenhadas. Apesar de não ter gostado do primeiro volume, Prelúdios e Nocturnos, insisti na leitura e li toda a série. Não conseguiu agradar-me por aí além em nenhum momento, mas reconheço o seu mérito.

#6 Terça-Feira é o último dia

Um livro que chegou ao fim, mas querias que não acabasse ali

Sem Título

Sem dúvida um dos meus livros preferidos de sempre, República de Ladrões de Scott Lynch não conseguiu atingir o patamar de excelência do primeiro volume da sua série, As Mentiras de Locke Lamora, mas ainda assim deixou-me com aquele gostinho de “quero mais” pela chuva de expectativas que o final deixa para o quarto volume.

#7 Depois do Carnaval, a ressaca

O livro que te deixou com a maior ressaca literária

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O último livro das Crónicas de Gelo e Fogo. Pois é, senhor Martin. Temos muito que falar. Deixar os leitores anos e anos à espera para saber o que aconteceu, quando os protagonistas da saga estavam em situações críticas, é mau demais. Os Reinos do Caos deixou-me de ressaca até hoje.

Sintam-se à vontade para participar e responder à TAG – Carnaval Literário.

A Vigília, Sandman #11

A família não mandou perguntar quem tinha enviado o mensageiro; afinal, não era a primeira vez que recebiam a visita de mensageiros.
E há certos poderes que ninguém, nem mesmo os Eternos, prefere investigar muito a fundo.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Vigília”, décimo primeiro volume da série Sandman (Formato BD)

O último volume de Sandman: Mestre dos Sonhos inclui as edições 70 a 75, publicadas originalmente entre 1995 e 1996. Michael Zulli, John J. Muth e Charles Vess são os ilustradores do capítulo final da obra de Neil Gaiman.

A Vigília acompanha o velório e o funeral de Morfeu, povoado pela maioria dos personagens apresentados ao longo dos onze volumes. Antes, Daniel torna-se o novo Mestre dos Sonhos, ressuscitando os membros do palácio que haviam sido assassinados pelas Benevolentes; apenas Gilbert se recusa a regressar ao mundo dos vivos. Por sua vez, o corvo Matthew recusa a aceitar a morte de Morfeu e culpabiliza-se. Então, os Eternos conectam-se aos homens da Necrópole (da história de A Estalagem no Fim do Mundo) para preparar o ritual fúnebre.

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Prancha Levoir/Público

Lyta volta à sua vida normal. Rose sonha. Alexander Burgess dorme. Robert planeia viajar e não regressar. Mas sonha. A Rainha Titânia ruma ao Mundo do Sonho. O anjo Duma viaja ao Mundo do Sonho. Madame Bast também. São inúmeros os amigos e conhecidos de Sonho que se unem para comemorar a vida do Mestre. Todos prestam as devidas homenagens, cada um à sua maneira. Os destaques vão para os comportamentos de cada um: da roupa colorida de Morte (em oposição ao seu habitual negro), às revelações de Abel e Lucien sobre a morte de Sonho enquanto ser vivente, às histórias que cada um conta sobre ele.

O novo Sonho permanece no Palácio sozinho com os seus guardiões. Ali recebe uma visita, que o motiva no desempenho da sua tarefa. Depressa se percebe que Daniel é também ele o antigo Sonho, uma nova perspetiva do mesmo homem. De forma semelhante à recriação de Coríntio, que guarda certas memórias e a mesma essência, também o Mestre persiste no corpo de Daniel, agora também chamado de Sonho ou Oneiros, mas não de Morfeu. Ele procura Lyta, acusando-a do seu conluio com as Benevolentes e revelando-lhe não ser mais Daniel, porque o filho que ela gerou foi queimado por Loki no mundo terreno. No entanto, o novo Sonho mostra-se diferente do antigo, mais cordial, mais dócil, e talvez uma versão melhor de si mesmo.

O volume prossegue com vários fechares de portas. Conhecemos o destino de Gadling e a sua namorada escura; um interessante conto oriental com participação ativa de Sonho, que nos faz recordar o velho adágio de Lavoiser: “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” e ainda o último tributo de William Shakespeare a Sonho – a promessa em falta – que resulta na peça A Tempestade, que viria a ser a última do autor. Neste conto final vemos referências ao ato rebelde de Guy Fawkes e conhecemos de perto a essência do célebre dramaturgo, correlacionando ficticiamente a vida do autor à interferência de Morfeu.

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Capa Levoir/Público
SINOPSE:

Quando o sonho termina, chega o momento da vigília. No último volume da série, os amigos e a família de Morfeu reúnem-se para lhe prestar uma última homenagem, enquanto o seu sucessor, Daniel, revela uma abordagem bastante mais flexível ao papel de Mestre dos Sonhos. E a série termina com Shakespeare a cumprir a sua promessa a Morfeu e entregar a última das peças que tinha prometido ao Senhor dos Sonhos: A Tempestade.

OPINIÃO:

Sandman – Mestre dos Sonhos chega ao fim e com ele somos brindados por uma enxurrada de emoções. Em primeiro lugar, vamos falar do personagem-título e da aura que envolve este volume. Embora o último álbum tenha sido permeado por uma sensação de despedida e o início do novo volume nos leve a comungar do mesmo toque fúnebre, rapidamente nos deixamos ultrapassar por essa tristeza e percebemos a mensagem subliminar de Neil Gaiman. Sonho não morreu. Os sonhos nunca morrem, apenas se podem transformar. E o personagem Sonho é como uma cobra, que somente muda de pele.

A Vigília é ambientada num cenário de velório e funeral, mas é de renovação e de esperança que ele fala. A renovação de Sonho, a esperança do amanhã no retorno de Mervyn, na gravidez de Rose ou na escolha de Matthew. Um dos melhores álbuns de Sandman, A Vigília consegue fechar com sucesso o puzzle, embora tenha ficado a ideia que a maioria dos volumes foram aleatórios e pouco substanciais. Os volumes Casa de Bonecas, Estação das Brumas, Vidas Breves, As Benevolentes e A Vigília fariam de Sandman uma banda desenhada excelente, sem mais adições. Alguns dos outros álbuns trouxeram contos muito bons e histórias fechadas geniais, no entanto, existiu uma sobrecarga de histórias paralelas contadas aos bocados, muitos solavancos, histórias esparsas e recurso a referências em excesso.

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Prancha Levoir/Público

Resumindo, Sandman – Mestre dos Sonhos, é uma excelente obra gráfica que fala sobre a vida e a morte, mas sobretudo sobre o poder de sonhar. Infelizmente, se posso enaltecer o valor simbólico da narrativa – e a excelente escrita de Neil Gaiman – não posso elogiar a própria narrativa. Aos poucos, familiarizei-me com os personagens e gostei deles, mas mesmo quando me afeiçoei, senti que o curso dos acontecimentos só “engatou” nos últimos álbuns.

A arte mostrou-se coerente ao longo dos livros, bastante competente para os dias em que foi organizada. Ainda assim, revelou alguma perda de qualidade ao longo dos volumes, apenas recuperada por Hempel em As Benevolentes, e neste último volume por Michael Zulli, que já havia registado algumas das melhores ilustrações da obra em encadernações passadas. O trabalho preservado a lápis de Zulli, nos momentos fúnebres deste A Vigília, transmitiu a sensação de perda e desenlace de uma forma bastante adequada e funcional.

Avaliação: 7/10

Sandman: Mestre dos Sonhos (Levoir/Público):

#1 Prelúdios e Nocturnos

#2 Casa de Bonecas

#3 Terra do Sonho

#4 Estação das Brumas

#5 Um Jogo de Ti

#6 Fábulas e Reflexões

#7 Vidas Breves

#8 A Estalagem no Fim do Mundo

#9 As Benevolentes 1

#10 As Benevolentes 2

#11 A Vigília

As Benevolentes (Parte 2), Sandman #10

O Rei dos Sonhos apenas provou um pouco de um prato de vegetais, e um arroz branco, e satisfez-se com a perfeição de ambos.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “As Benevolentes – Parte 2”, décimo volume da série Sandman (Formato BD)

Sandman – Mestre dos Sonhos chega ao penúltimo volume. Publicado originalmente entre 1993 e 1995, o capítulo As Benevolentes foi dividido em dois álbuns na versão portuguesa da Levoir, disponível nas bancas portuguesas com o Jornal Público a 2 de dezembro do ano pretérito. A obra de Neil Gaiman caminha a passos largos para o final, juntando nesta edição, à arte de Marc Hempel, os nomes de Teddy Kristiansen e Richard Case.

Nesta segunda parte de As Benevolentes, Odin visita o Mundo do Sonho, “pedindo contas” a Morfeu pelo destino que este reservou ao seu filho Loki, uma vez que o capturou e libertou no mundo real. Delírio procura o irmão Destino, pedindo-lhe ajuda para procurar o cão falante que Destruição lhe tinha deixado.

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Prancha Levoir/Público

O Mestre dos Sonhos viaja pelo mundo real, encontrando pouco mais que desapontamento nas suas deambulações. Ao regressar ao Mundo do Sonho, recebe a visita de Delírio, que suplica que a ajude a encontrar o cão desaparecido. A depressão está estampada no rosto monocromático de Sonho, que limita-se a enviar um pesadelo para a ajudar na busca. Recebe a visita de Lyta Hall, que mata um dos guardiões do palácio, para que Sonho permita a sua entrada. Quando Morfeu a recebe, depressa percebe que são as Benevolentes a usar-se do corpo de Lyta; as três Fúrias enfrentam Sonho e deixam-lhe uma ameaça bastante séria.

Após uma decepção amorosa, Rose Walker regressa à mansão da sua avó, onde encontra uma biblioteca maravilhosa com referências a Roderick Burgess, e, inconscientemente, abre uma passagem secreta, que a conduz a uma revelação sobre o seu passado.

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Prancha Levoir/Público

No mundo real, Matthew e Coríntio descobrem o corpo calcinado da amiga de Lyta Hall. Mais que isso, descobrem que foi Loki o responsável pelo ocorrido e pulam para outra realidade, procurando pelo pequeno Daniel. Ao encontrarem Loki, são sujeitos a várias ilusões. Embora Coríntio consiga dominar Loki e encontrar o pequeno Daniel, é tarde demais…

As Benevolentes começaram a matar. Gilbert. Mervyn. Abel. Sonho remete-se ao seu palácio, onde não o podem matar… até que o Puck de Sonho de Uma Noite de Verão regressa ao Reino das Fadas, após uma longa ausência, e influencia o rumo dos acontecimentos. Delírio também entra no Reino das Fadas, procurando pelo seu cãozinho desaparecido, e acaba por fazer com que Nuala use o pingente que Sonho lhe ofereceu para o chamar. Morfeu chega a ela rapidamente, mas uma vez que saiu do Mundo do Sonho tornou-se vulnerável. A fada Nuala confessa o seu amor ao Senhor dos Sonhos, e sofre com a sua indiferença. Morfeu regressa ao palácio, mas as Benevolentes já fizeram o seu trabalho e o Mestre dos Sonhos é obrigado a enfrentar as consequências, encontrar um sucessor e chamar a irmã: a própria Morte.

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Capa Levoir/Público
SINOPSE:

Tendo pago inevitavelmente com a vida o preço do seu orgulho e irresponsabilidade, Morfeu, sai de cena. Mas o Domínio do Sonho necessita de um novo Mestre dos Sonhos, que ocupe o trono deixado vago por Morfeu. O novo Oneiromante é Daniel, o filho de Lyta Hall, gerado enquanto a sua mãe estava presa no Mundo do Sonho e criado para suceder a Morfeu.

OPINIÃO:

Uma teia de acontecimentos que se interligam, Sandman: Mestre dos Sonhos vê em As Benevolentes a sua aventura mais empolgante e definitiva. Obrigado a enfrentar a curva mais acentuada do percurso, Neil Gaiman revelou mérito na forma como conduziu o seu automóvel e convocou a maioria dos personagens que já havia criado na sequência, oferecendo propósitos e conclusões a todas elas.

Esta segunda parte de As Benevolentes revelou-se bem melhor que a primeira, com cenas de ação e explicações mais contundentes. Não me irei repetir em críticas, porque as que teci na opinião ao volume anterior mantêm-se. Personagens como Rose Walker ficaram aquém das expectativas; por sua vez, o declínio de Morfeu revela-se bem planeado. Desde o momento em que ele tinha pegado o pequeno Daniel ao colo, num dos primeiros volumes da série, havia ficado a sensação do que viria a suceder, um dia mais tarde. Mais significativo do que isso, é a forma como o Mestre dos Sonhos se afunda na depressão sem, de algum modo, parecer querer fugir ao seu destino. Em boa verdade, pode-se dizer que o personagem morreu desde que foi obrigado a aceder ao pedido do filho Orfeu.

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Prancha Levoir/Público

Uma maravilha de detalhes simbólicos e um jogo de mitologias, Sandman: Mestre dos Sonhos continua a ser um bom passatempo, uma obra interessante e bem escrita. Ainda assim, não oferece um desenvolvimento aliciante ou um enredo que me cative. A arte, não revelando significativas melhorias, acaba por casar bem com a história, um ponto a favor de Marc Hempel.

Avaliação: 8/10

Sandman: Mestre dos Sonhos (Levoir/Público):

#1 Prelúdios e Nocturnos

#2 Casa de Bonecas

#3 Terra do Sonho

#4 Estação das Brumas

#5 Um Jogo de Ti

#6 Fábulas e Reflexões

#7 Vidas Breves

#8 A Estalagem no Fim do Mundo

#9 As Benevolentes 1

#10 As Benevolentes 2

#11 A Vigília

As Benevolentes (Parte 1), Sandman #9

Às vezes… Quando está a dormir… Fico ali a observá-lo, a ouvi-lo a respirar.

Oooh. Daniel.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “As Benevolentes – Parte 1”, nono volume da série Sandman (Formato BD)

O nono volume de Sandman: Mestre dos Sonhos, publicado pela Levoir em colaboração com o jornal Público, é a primeira metade do arco mais decadente da série, publicado originalmente em 1993. O argumento de Neil Gaiman é agora ilustrado pelas mãos do expressionista Marc Hempel, em colaboração com Dean Ormston, D’Israeli, Glyn Dillon e Charles Vess.

A vida no Mundo do Sonho permanece aparentemente tranquila, embora muitas dúvidas e dilemas pairem nas mentes dos seus habitantes. Mathew procura saber mais sobre corvos, uma vez que anteriormente foi um homem. Encontra Morfeu a criar pesadelos, mais propriamente a refazer Coríntio, o pesadelo que havia sido obrigado a destruir para parar a perturbação causada em Casa de Bonecas.

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Prancha Levoir/Público

Cluracan viaja do Reino das Fadas e visita o Reino do Sonho para resgatar a sua irmã Nuala, que trabalha agora para Sonho – um vínculo que resultou da ajuda que o Senhor dos Sonhos prestou a Cluracan numa das histórias contadas em A Estalagem no Fim dos Mundos. Ele pretende levá-la de volta, mas Nuala, embora não pareça nada feliz no Mundo do Sonho, sabe que não poderá simplesmente ir embora. Ainda assim, quando Cluracan solicita a Morfeu que a leve consigo, ele não “parece” criar nenhum obstáculo, embora ofereça um pendente a Nuala e fique implícito que uma história antiga o une à Rainha Titânia do Mundo das Fadas.

As consequências de atos passados perseguem todos os personagens ao longo do capítulo. Morfeu reencontra o seu velho amigo imortal, Hob Gadling, à saída do cemitério, onde finalmente ele mostra os horrores por que um homem imortal é obrigado a passar – nomeadamente a perda de entes queridos.

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Prancha Levoir/Público

O pequeno Daniel, o filho de Lyta Hall, é raptado. A polícia investiga o desaparecimento de Daniel, embora todos pareçam mais preocupados com perturbação da mãe. Absorta nos seus sonhos insanos, Lyta sonha que desce à cave e encontra as Fúrias, as três irmãs bruxas que vivem “no lugar inferior que existe em todas as pessoas”. Elas desejam fazer Sonho pagar por este ter morto o seu próprio filho, e convencem Lyta a ajudá-las, levando-a a acreditar que o desaparecimento de Daniel tem dedo do Mestre dos Sonhos. Na verdade, a desgraça do menino Daniel – já várias vezes pressentida por Morfeu – é da responsabilidade de Loki. Apenas com uma pequena participação até então, Loki já havia mostrado ser traiçoeiro, e neste volume consegue mostrar toda a sua “qualidade”: mais do que trapaceiro, Loki revela-se um horrível homicida. Desesperada, Lyta deambula por locais imaginários e reais, tentando voltar a encontrar as Fúrias, que preferem ser chamadas amorosamente de: As Benevolentes.

Procurando respostas, Rose Walker, protagonista do volume Casa de Bonecas viaja ao lar que acolheu a avó Unity, também conhecida como A Bela Adormecida, mas o que encontra tem mais paralelismos com o passado do que poderia suspeitar.

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Prancha Levoir/Público
SINOPSE:

Morfeu descobre que os erros que cometeu no passado lhe vão custar muito caro. E as Benevolentes, as três Parcas, que tecem e cortam o fio da vida, estão no Mundo do Sonho para garantir que esse preço é pago. E o preço a pagar é a vida de Morfeu, o que prova que, até para os Eternos, a morte sempre acaba por chegar.

OPINIÃO:

As peças do puzzle finalmente começam a encaixar. Em As Benevolentes – Parte 1, Neil Gaiman coloca quase todas as peças no tabuleiro e as ações passadas começam a fazer sentido. O efeito borboleta está bastante presente neste volume de Sandman: Mestre dos Sonhos, que poderia talvez ser o meu álbum preferido da coleção, se não fosse tão arrastado e abstrato.

Ainda que os apreciadores deste tipo de enredo possam adorar todos os diálogos pejados de significados, sinto que eles apenas fazem dar corpo aos personagens e enriquecem a densidade narrativa. Os diálogos banais – que vimos a descobrir ser essenciais para dar sentido aos remates finais e fazer-nos suspirar “que génio”, acabam por parecer um pouco forçados e, até chegarmos a essas conclusões onde a lâmpada se acende e estremece toda na nossa cabeça, sofremos durante o processo. Pessoalmente, acho sofrível ter de engolir personagens e histórias novas em todos os volumes só para que eles se interliguem uma vez ou outra. Não tiro mérito a Neil Gaiman, mas fica realmente a sensação que a obra no seu todo não teve um esqueleto, e que as ligações estabelecidas são rasgos pontuais, “feitos a martelo”. Muito provavelmente, implicação minha.

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Prancha Levoir/Público

As lições de moral, as simbologias, o fazer pensar na brevidade da vida e nas consequências das nossas atitudes, assim como toda a abordagem social, são pontos muito positivos na obra. Aliás, não consigo ver muito mais do que isso de positivo. A forma como Gaiman brinca com as mitologias é algo banal e sem humor, embora sinta que fazer rir seja, em alguns momentos, o propósito do autor. Falando em humor, o cabeça de abóbora Mervyn e o imprevisível Loki acabaram por ser os mais engraçados neste volume. A arte de Hempel foi, em geral, melhor que a dos seus antecessores, mas a nível de expressões faciais deixou muito a desejar.

Avaliação: 6/10

Sandman: Mestre dos Sonhos (Levoir/Público):

#1 Prelúdios e Nocturnos

#2 Casa de Bonecas

#3 Terra do Sonho

#4 Estação das Brumas

#5 Um Jogo de Ti

#6 Fábulas e Reflexões

#7 Vidas Breves

#8 A Estalagem no Fim do Mundo

#9 As Benevolentes 1

#10 As Benevolentes 2

#11 A Vigília

A Estalagem no Fim do Mundo, Sandman #8

Diamantes e rubis, esmeraldas e safiras,
Ametistas e pérolas amontoavam-se.
Incontadas. Em promíscuas pilhas;
Talvez até incontáveis.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Vidas Breves”, oitavo volume da série Sandman (Formato BD)

A coleção Sandman – Mestre dos Sonhos da colaboração Levoir/Público regressa para o oitavo volume. A Estalagem no Fim do Mundo inclui as edições 51 a 56 num álbum escrito por Neil Gaiman, com ilustrações de Michael Allred, Gary Amaro, Mark Buckingham, Steve Leialoha, Vince Locke, Bryan Talbot e Michael Zulli.

Originalmente publicado em 1993, este volume inclui a história Ramadão, que na edição americana fora incluída no volume Fábulas e Reflexões, surgindo nesta edição apenas por questões de paginação e por fazer mais sentido cronologicamente.

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Prancha Levoir/ Público

Ramadão exibe uma prosa envolvente, apresentando a cidade de Bagdad no ambiente das Mil e Uma Noites. O califa Haroun Al-Rashid atravessa portas secretas atrás de portas secretas, até chegar a um esplendor etéreo onde convoca o Mestre dos Sonhos e lhe mostra, num tapete voador, a situação na cidade. Ali, ele apresenta todas as maravilhas a Sonho e oferece-lhe a cidade em troca da vida eterna.

A Estalagem do Fim do Mundo começa quando Brant Tucker vai a conduzir um automóvel na neve, ao lado de Charlene, a sua acompanhante adormecida. Um monstro cornudo surge-lhe no caminho e têm um acidente. Brant não vê mais nada, a não ser a neve à sua volta. Leva a amiga ferida pela neve fria até uma estalagem aberta. Mas os fregueses da estalagem não parecem normais. Entre eles está um centauro, pessoas aparentemente mortas e fadas, por exemplo. Um dos clientes diz que não é uma tempestade de neve, mas uma tempestade de realidade. Ali, para passarem o tempo, vão contando histórias uns aos outros. A maioria das histórias têm a participação dos Eternos.

Um Conto de Duas Cidades é a primeira dessas histórias. Fala sobre um homem, Robert, que vivia para o trabalho e nunca havia saído daquela cidade. No entanto, revelava também uma estranha obsessão pela cidade em que vivia. Quando apanhou o comboio para conhecer uma povoação vizinha, porém, o comboio rumou às profundezas da cidade, onde se deparou com Sonho. Logo fugiu, mas a cidade para onde regressou não era mais a mesma.

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Levoir/Público

A história passada no reinos das fadas mostra a Rainha Titânia a enviar Cluracan como embaixador para resolver um problema em Aurélia das Planícies, onde o seu passado foi esquecido e um governador coloca um imposto para – supostamente – salvar as almas dos populares no além-mundo. Mudando regras e tratados, Mairon pretende unir dois postos de prestígio, para conseguir o poder absoluto na região. O que Cluracan não previa era que enfrentar esse homem seria perigoso para a sua própria integridade, restando-lhe pedir ajuda através do mundo do Sonho.

Em O Leviatã de Hob, uma menina apaixonada pelo mar concretiza o sonho de viajar num navio que parte de Bombaim, disfarçada de rapaz, e ali ouve várias histórias relacionadas com a vida no mar. É quando todos vêm uma gigantesca serpente do mar que a emoção fica ao rubro, e rapidamente o senhor Hob Gadling, um velho amigo de Sonho, mostra à menina a sabedoria de manter a boca fechada.

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Prancha Levoir/Público

Menino de Ouro mostra Prez Rickard, que desde criança sabia que o seu destino estava ligado ao destino dos Estados Unidos da América. Na adolescência, um sujeito sorridente diz-lhe que ele poderá ser o próximo Presidente. De facto, torna-se Presidente dos E.U.A. ainda em adolescente, e muito popular em todo o seu percurso político. Personagem já conhecido da DC Comics, o mais importante deste conto acontece depois de Prez estar morto.

Em A Necrópole, conhecemos várias histórias pelas bocas dos estudiosos de Necrópole. Na história de Petrefax, aprendiz de Klaproth, descobrimos que os ritos funerários são para os vivos. Aos mortos, não importa o que é feito com os seus corpos ou até com as suas memórias.

No fim, discute-se a realidade do local em que estão e Charlene percebe que nenhuma das histórias é focada numa mulher. No fim, a tempestade termina e Brant regressa à sua realidade, enquanto Charlene opta por ficar na estalagem. Na realidade de Brant, este conta tudo o que viveu a uma empregada de bar.

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Capa Levoir/Público

SINOPSE:

Verdadeiro conto de fadas para adultos, A Estalagem é uma versão moderna dos Contos de Canterbury, em que, depois de um acidente de carro durante uma tempestade, Brant Tucker, o protagonista desta história, vai parar a uma estalagem onde encontra pessoas de todas as eras, reinos e dimensões. Na verdade, a estalagem serve de abrigo a pessoas perdidas durante “tempestades de realidade”. E, enquanto esperam que a tempestade termine, contam histórias umas às outras, histórias extraordinárias, como a do conto sobre o sonho de uma metrópole, ou o encontro com uma gigantesca serpente marinha. E contos encaixados dentro de contos, e dentro das quais outras personagens contam outras histórias, como em A necrópole.

Foi também incluída neste volume uma das mais belas e populares histórias deste universo, Ramadão, que na versão original dos volumes está incluída no vol. 6, outra recolha de histórias curtas sem relação directa com a história central.

Neil Gaiman construiu em  “A Estalagem no fim do Mundo” uma fabulosa mitologia contemporânea, capaz de unir num mesmo universo, histórias de super-heróis, contos de terror, literatura clássica, cinema, rock and roll e artes plásticas. Nunca até então uma série de banda desenhada tinha alcançado junto do público e da crítica tanto sucesso.

OPINIÃO:

Um rol de narrativas que se interligam, A Estalagem no Fim do Mundo é uma nova escapadinha à história principal, ainda que Sonho esteja sempre presente ao longo da maioria das narrações.

Ao contrário do último volume, esta edição de Sandman – Mestre dos Sonhos alia bom entretenimento ao polvilhar de significados. Ramadão, caído aqui de pára-quedas, assenta como uma luva como preâmbulo a uma reunião de personagens bem construídos que contam as suas histórias enquanto escapam a uma tempestade de realidade. Porque mundos há muitos, e nenhum pode ser mais real que o mundo dos sonhos.

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Prancha Levoir/Público

O imaginário de Neil Gaiman continua sem me impressionar, mas revela-se mais bem sucedido nas pequenas histórias do que na narrativa principal, ainda que as aparições de Sonho sejam sempre momentos de destaque. A ilustração – aqui alternada por vários autores – mostra melhorias em relação ao último volume.

Avaliação: 7/10

Sandman: Mestre dos Sonhos (Levoir/Público):

#1 Prelúdios e Nocturnos

#2 Casa de Bonecas

#3 Terra do Sonho

#4 Estação das Brumas

#5 Um Jogo de Ti

#6 Fábulas e Reflexões

#7 Vidas Breves

#8 A Estalagem no Fim do Mundo

#9 As Benevolentes 1

#10 As Benevolentes 2

#11 A Vigília