Estive a Ler: Entre Mulheres, Y: O Último Homem #6

É bom que estejamos prestes a bater num icebergue, meninas. Não durmo quatro horas seguidas desde —

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “ENTRE MULHERES”, SEXTO VOLUME DA SÉRIE Y: O ÚLTIMO HOMEM (FORMATO BD)

Chegou a bancas no princípio de abril o álbum Entre Mulheres, o sexto volume da série Y, O Último Homem, da autoria de Brian K. Vaughan e Pia Guerra, que encerra assim a sua segunda fase de publicação pela Levoir, que tinha editado os primeiros 2 volumes em 2017. Fica a faltar à editora publicar os 4 últimos volumes para encerrar a coleção publicada pela Levoir com o jornal Público. Este sexto álbum teve ainda a colaboração de Goran Sudzuka na arte, substituindo a artista principal durante grande parte do mesmo.

Com um total de 128 páginas e formato em capa dura, Y: O Último Homem continua a contar a história de Yorick Brown, o último homem à face do planeta, e do seu macaco Ampersand, os últimos sobreviventes masculinos de uma praga calamitosa que vitimou todos os portadores do cromossoma Y no nosso planeta. Yorick persegue a noiva, desaparecida do outro lado do planeta, na Austrália, enquanto procura respostas para a sua sobrevivência.

Fonte: Levoir

A série de Brian K. Vaughan tem vindo a melhorar significativamente, e não posso dizer que desgostei deste sexto álbum. Os diálogos são bons, as referências cinematográficas e musicais sucedem-se, sempre a mostrar o lado mais irreverente do protagonista, e finalmente deu-se a tão aguardada cena lésbica entre duas das co-protagonistas. A arte de Pia Guerra tem vindo a melhorar e Sudzuka conseguiu manter-se fiel à ilustradora.

“Espero que a Levoir publique em breve os quatro volumes finais para ver o rumo que esta história irá tomar.

Ainda assim, a história continua a derivar num nada insubstancial. As motivações das personagens em seguir em frente são esparsas, não há realmente grandes ganchos e começa a tornar-se repetitivo que em todos os volumes Yorick se envolva com uma mulher diferente e que ela desapareça logo depois. Para além disso, numa história que se queria diferencial na questão da igualdade de géneros, parece-me extremamente sexualizada, e há até preconceitos na questão do amor lésbico. Tipo, se não há ali homens há mais de dois anos, queriam o quê?

Fonte: Levoir

Yorick, 355 e a bioengenheira Mann partem para o Japão num cruzeiro em busca do macaco capuchinho Ampersand, que fora sequestrado por uma japonesa mascarada.  Aparentemente, o macaco é a resposta para a praga que assolou a espécie masculina. Durante a viagem, Yorick é descoberto por uma das tripulantes e é entregue a Kilina, a capitã do navio, acabando por passar a noite na cabine desta. A empatia entre ambos é evidente, transformando-se numa paixão assolapada.

Tudo muda, porém, com o advento de um submarino australiano, que coloca uma espia a bordo do navio. Nas últimas páginas do livro, Beth, a namorada de Yorick, é aprisionada pelo remanescente feminino de uma tribo aborígene, onde é guiada num ritual estranho que a conduz a uma série de flashbacks que se interligam uns aos outros, dando a conhecer mais sobre o seu relacionamento com Yorick e da personalidade de ambos.

Fonte: Levoir

Apesar de ter gostado da aura marítima e dos volte-faces ocorridos a bordo do navio, o arco mais interessante acabou por ser a pequena história que fechou o álbum, protagonizada por Beth. As recordações que dão conta do início da sua relação com Yorick trazem mais conteúdo e uma ideia tátil do que a sua história significa, do que foi e do que poderá vir a ser, bem como traz maior empatia ao leitor para com as duas personagens e para com a demanda de Yorick.

Y: O Último Homem continua a ser uma BD bem escrita e com rasgos de genialidade, afinal estamos a falar de Brian K. Vaughan, um dos melhores guionistas do nosso tempo, mas o descolar de histórias, a falta de cenas impactantes e de personagens mais empáticas tem vindo a torná-la morna, aos meus olhos. Espero que a Levoir publique em breve os quatro volumes finais para ver o rumo que esta história irá tomar.

Avaliação: 6/10

Y: O Último Homem (Levoir / Público)

#1 Um Mundo Sem Homens

#2 Ciclos

#3 Um Pequeno Passo

#4 A Senha

#5 O Anel da Verdade

#6 Entre Mulheres

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Estive a Ler: O Anel da Verdade, Y: O Último Homem #5

Se pretendem doações, eu tenho comida! E enlatada, mas… A chave partiu. Se tiverem um abre-latas…

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O ANEL DA VERDADE”, QUINTO VOLUME DA SÉRIE Y: O ÚLTIMO HOMEM (FORMATO BD)

Chegou no final de março às bancas nacionais o quinto volume da coleção da Levoir com o diário Público, Y: O Último Homem, a qual foi escrita por Brian K. Vaughan e desenhada por Pia Guerra. Este quinto volume, intitulado O Anel da Verdade, tem arte-final de José Marzán Jr. e inclui os números #24 a #31 de Y: The Last Man publicados pela Vertigo em 2004.

Vencedor de três Eisner, Y: O Último Homem continua a narrar as aventuras da personagem Yorick e o resultado de uma praga terrível que matou toda a população masculina do planeta, bem como as formas que a sociedade, agora feminina, lidou com a situação. Ao longo da jornada, Yorick encontra várias e diferentes figuras, com intenções bem distintas em relação à sua pessoa. 

Fonte: Levoir

Eis uma BD que tive muita dificuldade em compreender o seu sucesso, numa fase inicial. É uma jornada que releva as dicotomias homem-mulher no seu estado mais primário, apesar de trazer a lume vários debates interessantes e explorar uma situação que tinha tudo para arrebatar o público, o desaparecimento repentino dos homens. Agradável em conteúdo, ainda que pobre em forma, Y: O Último Homem é uma alegoria da mente humana e faz-nos pensar na sociedade em que vivemos.

“Com momentos de bom humor e uma série de perspetivas a serem desenvolvidas em simultâneo, Y: O Último Homem atinge, em O Anel da Verdade, o seu melhor momento até agora.

A trajetória de Yorick continua esparsa, sem um enredo narrativo que me consiga prender ou dizer: bem, que álbum bom! Parece uma história arrancada aos soluços, com momentos mais interessantes do que outros e sem um fio narrativo consistente. Ainda assim, é notória a evolução neste últimos volumes, e O Anel da Verdade é mais um livro repleto de diálogos bem cuidados e frescos, para além de a arte de Pia Guerra ter melhorado significativamente.

Fonte: Levoir

Dois anos passados sobre a catástrofe que arrasou a população masculina do planeta, deixando Yorick Brown e Ampersand, o seu macaco capuchinho, como os únicos sobreviventes portadores do cromossoma Y, a bioengenheira Allison Mann e a Agente especial 355, designada para proteger Yorick, chegam finalmente ao laboratório secreto da Dra. Mann, em São Francisco, onde ela vai tentar desvendar o segredo da sobrevivência de Yorick e de Ampersand.

Depois de longos meses de viagem, o grupo finalmente tem agora um lugar para descansar. Só que isso dá aos seus perseguidores a possibilidade de o apanharem. E embora Yorick, Allison e 355 tenham lidado com sucesso com os algozes que já cruzaram os seus caminhos, talvez não sejam capazes de encarar tão facilmente os inimigos ainda desconhecidos.

Fonte: Levoir

Seitas misteriosas, o passado familiar dos Brown posto em evidência, um anel de noivado peculiar e duas Beths são os ingredientes secretos deste livro onde as fezes do macaco podem trazer respostas para a sobrevivência dos dois machos que protagonizam a série gráfica. Com momentos de bom humor e uma série de perspetivas a serem desenvolvidas em simultâneo, Y: O Último Homem atinge, em O Anel da Verdade, o seu melhor momento até agora.

A estadia em São Francisco e a procura mais palpável para a questão mais importante do comic acaba por trazer mais estabilidade e interesse à série, muito graças à performance de Brian K. Vaughan enquanto guionista. Os diálogos voltam a ser um espetáculo à parte, ainda que me tenha sentido mais aliciado pelas cenas hot do primeiro terço do álbum. Apesar de, para mim, continuar no patamar mínimo do bom, Y: O Último Homem está a melhorar significativamente.

Avaliação: 6/10

Y: O Último Homem (Levoir / Público):

#1 Um Mundo Sem Homens

#2 Ciclos

#3 Um Pequeno Passo

#4 A Senha

#5 O Anel da Verdade

#6 Entre Mulheres

 

Estive a Ler: A Senha, Y: O Último Homem #4

Pá, se encostas a faca a essa égua, eu mato-te e às tuas amigas.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A SENHA”, QUARTO VOLUME DA SÉRIE Y: O ÚLTIMO HOMEM (FORMATO BD)

Da autoria do incontornável Brian K. Vaughan e com arte da promissora Pia Guerra, chegou às bancas nacionais no mês de março o álbum A Senha, quarto volume da série Y: O Último Homem, difundida em Portugal através da coleção da Levoir com o jornal Público. A arte-final é uma vez mais responsabilidade de José Marzán Jr. e inclui os números #18 a #23 de Y: The Last Man, publicados pela Vertigo em 2004.

Como a editora adverte na sinopse, podemos encontrar em A Senha algumas alterações na equipa artística. Em “A Passagem da Viúva”, Pia Guerra, que trabalhou na arte da série desde o início, foi substituída por Goran Parlov, permanecendo José Marzan Jr. na arte-final e Pamela Rambo nas cores, com a intenção de manter a coerência gráfica. Com 144 páginas, este volume marca o regresso da publicação que arrebatou três Prémios Eisner.

Fonte: Levoir

Este quarto álbum é dividido em duas partes, duas histórias distintas que se complementam e marcam o seguimento da viagem dos protagonistas. Apesar de já ter deixado claro que esta ideia não me agrada, a de completar histórias num único volume, vindo a conhecer personagens para logo a seguir deixá-las para trás, devo dizer que as duas narrativas que permeiam A Senha são significativamente melhores que as de primeiro e terceiro volumes.

“Irei continuar a ler Y: O Último Homem, mas confesso que esperava bem mais de uma série tão bem estimada pelo mundo fora.

De facto, o primeiro arco é incrível, não só pela violência de expressão e abertura na exploração da temática sexual, como pelo cuidado nos diálogos. Vaughan supera-se a nível de humor e de interação entre personagens. O segundo arco mantém a toada, leve e bem-humorado, mas deixa a desejar no desenvolvimento da história. Personagens cheias de potencial são apresentadas, mas o desenvolvimento começa e acaba ali, sem deixar ao leitor qualquer âncora para o próximo álbum.

Fonte: Levoir

A agente 355, a Dra. Alison Mann e Yorick, o último homem à face da Terra, continuam a atravessar os Estados Unidos tentando chegar ao laboratório da médica onde esta reúne os materiais necessários à pesquisa que pode ajudar a entender o que aconteceu aos machos do planeta, por que é que Yorick sobreviveu e, talvez descobrir um meio da humanidade não se extinguir por completo. Nessa demanda, Ampersand, o macaco-capuchinho de Yorick, adoece.

Enquanto as suas companheiras de viagem partem para tentar salvar o animal, Yorick fica na cabana da aposentada 711, uma ex-agente amiga de 355. O que ele conhecerá no interior daquela casa vai para além de tudo o que poderia imaginar, numa viagem íntima aos meandros da própria alma. No segundo arco, Yorick conhece uma viúva careca adepta de mecânica, enquanto as suas amigas têm de lidar com um grupo militar pouco amigável.

Fonte: Levoir

Com Yorick a ganhar maior dimensão enquanto personagem, a maior virtude de A Senha é mesmo a desconstrução e reconstrução do protagonista, que vinha a mostrar-se insosso e banal, revelando agora o porquê de algumas das suas atitudes e do seu carisma – ou falta dele. Embora continue a perder claramente em comparação às outras protagonistas, 355 e Dr.ª Mann, as saídas bem-humoradas e os momentos retrospetivos da personagem salvaram o álbum.

Apesar de continuar sem me convencer enquanto história, estrutura e linha narrativa, este álbum conseguiu entusiasmar-me bem mais do que os anteriores, devido ao capricho nos diálogos. Ainda assim, considero que esteja relativamente ao mesmo nível do segundo álbum, porque a primeira metade foi melhor do que a segunda. Irei continuar a ler Y: O Último Homem, mas confesso que esperava bem mais de uma série tão bem estimada pelo mundo fora.

Avaliação: 6/10

Y: O Último Homem (Levoir / Público)

#1 Um Mundo Sem Homens

#2 Ciclos

#3 Um Pequeno Passo

#4 A Senha

#5 O Anel da Verdade

#6 Entre Mulheres

 

Estive a Ler: Um Pequeno Passo, Y: O Último Homem #3

Quer que o vírus me infecte, para você ser o único homem da Terra!

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “UM PEQUENO PASSO”, TERCEIRO VOLUME DA SÉRIE Y: O ÚLTIMO HOMEM (FORMATO BD)

Foi lançado em março o terceiro volume da coleção da Levoir com o diário Público, Y, O Último Homem, escrita por Brian K. Vaughan e desenhada por Pia Guerra. Este terceiro volume, intitulado Um Pequeno Passo, tem arte-final de José Marzán Jr. e inclui os números #11 a #17 de Y: The Last Man publicados pela Vertigo em 2003. Vaughan é um dos nomes mais importantes da ficção científica atual, autor e produtor da série televisiva Lost, bem como da popular série gráfica Saga.

A editora Levoir regressa assim a esta série, estando programado o lançamento de mais quatro volumes, depois de ter editado os dois primeiros volumes em 2017. Após esta segunda fase de lançamentos, ficarão ainda em falta os últimos quatro de um total de dez volumes para a conclusão de Y: O Último Homem, ainda sem data prevista de lançamento. A série foi vencedora do Prémio Eisner, o galardão maior da nona arte.

Fonte: Levoir

Mais habituado à arte de Pia Guerra, que longe de ser má parece ter melhorado imenso do primeiro para o segundo volume, encontrei em Um Pequeno Passo uma nova e prometedora aventura de Y: O Último Homem. Neste volume, Vaughan mostra que a série tem pernas para andar e que as promessas que deixara nos anteriores volumes continuam a valer. Infelizmente, continua a ser uma promessa, e este terceiro volume pouco adiantou à história.

“Um Pequeno Passo é mais uma aventura vazia de um pintas americano sem interesse, que de repente tornou-se a última bolacha do pacote.

Para além de nos apresentar um novo arco, com pequenas ramificações oriundas dos dois primeiros, Um Pequeno Passo é isso mesmo, um pequeno passo adiante na história que não te deixa mais entusiasmado ou curioso. A esse respeito, o segundo álbum foi mais envolvente e emotivo, mostrando um argumento cheio de potencial que devia ter sido bem mais explorado, para agarrar o leitor. O sistema de arcos fechados a cada álbum não prende.

Fonte: Levoir

Yorick Brown, o último homem da Terra, atravessa a América na companhia de uma agente secreta do governo, a 355, de uma cientista especializada em clonagem, Dr.ª Allison Mann, e de Ampersand, o seu macaco e o único outro macho mamífero a ter sobrevivido à praga, em busca da sua noiva, que se encontra na Austrália. Antes, porém, devem chegar ao laboratório da Dr.ª Mann na Califórnia e finalmente tentar realizar estudos genéticos em ambos os sobreviventes.

Neste terceiro volume, o último homem da Terra tem um encontro inesperado: uma espia russa que alega ter um companheiro de equipa no espaço, com mais dois tripulantes, que virá a aterrar no Kansas. Rapidamente descobrem que Yorick não é o único homem vivo da Terra e que dos três astronautas vindos da Estação Espacial Internacional, dois deles são homens. Para além de arriscarem uma doença fatal ao aterrarem, os astronautas têm ainda de competir pelo controlo da situação calamitosa que se vive no planeta.

Fonte: Levoir

Ao mesmo tempo que oferece uma premissa interessantíssima de se explorar: o que aconteceria se os homens desaparecem do planeta, Y: O Último Homem oferece uma série de questões e debates morais. Temas como o preconceito, o feminismo, a xenofobia e outros comportamentos extremistas são levados à prancha pelo trabalho peculiar e interessante de um argumentista com provas dadas, Brian K. Vaughan, e de uma ilustradora com potencial, Pia Guerra.

Este potencial todo, porém, ainda não se materializou aos meus olhos. Vejo um trabalho com bastantes ingredientes e conteúdo, mas que não se desdobra de forma natural ou fluída, nem traz elementos capazes de me ganhar como outros trabalhos gráficos o têm feito. Insípida, sem grande ligação com o leitor, Um Pequeno Passo é mais uma aventura vazia de um pintas americano sem interesse, que de repente tornou-se a última bolacha do pacote. A história extra com que o álbum termina consegue ser mais interessante que a principal.

Avaliação: 4/10

Y: O Último Homem (Levoir / Público)

#1 Um Mundo Sem Homens

#2 Ciclos

#3 Um Pequeno Passo

#4 A Senha

#5 O Anel da Verdade

#6 Entre Mulheres

Estive a Ler: Ciclos, Y: O Último Homem #2

Desculpa. Tu és… És…?

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “CICLOS”, SEGUNDO VOLUME DA SÉRIE Y: O ÚLTIMO HOMEM (FORMATO BD)

Chegou às bancas nacionais a 26 de outubro de 2017 o segundo volume da coleção da Levoir com o diário Público, Y, O Último Homem, o qual foi escrito por Brian K. Vaughan e desenhado por Pia Guerra. Este segundo álbum da afamada BD norte-americana, intitulado Ciclos, tem arte-final de José Marzán Jr. e inclui os números #6 a #10 de Y: The Last Man publicados pela Vertigo em 2003.

Vencedor de três Eisner, Y: O Último Homem segue a jornada de Yorick e a descoberta de como a sociedade lidou com as consequências da praga que vitimou a quase metade da população mundial – a parte masculina. Entretanto, muitas das mulheres que Yorick vai encontrando pelo caminho revelam ter segundas intenções, abordando também o tema da confiança e dos limites que a psique humana conhece.

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Fonte: Levoir

Este segundo volume de Y: O Último Homem continuou sem me convencer, mas mostrou-se ligeiramente melhor que o primeiro álbum. A interação entre Yorick, 355 e Allison mostrou-se mais oleada e o despontar de um grupo antagonista também se mostrou benéfico à narrativa. Se no primeiro volume faltaram mais personagens carismáticos, que denotassem a possibilidade de um desenvolvimento sustentável para a série, elas aqui estão.

“A sensação de que cada álbum será uma história diferente perpassada por outra maior não funciona se não tiver cliffhangers fortes”

Ainda assim, fica a ideia que a jornada de Yorick ainda agora começou e andará muito a saltar aqui e acolá com novos personagens, fechando arcos demasiado rápido sem que consigamos identificar-nos com as personagens. Espero estar errado, mas neste volume, pelo menos, não consegui ter “tempo” para me familiarizar com as personagens e isso é significativamente mau para uma série que se deseja continuar a acompanhar.

Fonte: Levoir

Para garantir a sobrevivência da espécie, Yorick aliou-se a uma agente do governo e à mais importante investigadora de bioengenharia do mundo. Em Ciclos, na sua viagem através de uma América radicalmente transformada, na peugada da noiva de Yorick, são perseguidos pelas Filhas da Amazona, um grupo obcecado pela ideia de um mundo sem homens, composto por uma boa porção de mulheres bem hostis.

Pelo caminho, Yorick faz uma paragem inesperada na aparentemente utópica cidade de Marrisville, onde várias surpresas lhe estão reservadas, questionando tanto os seus sentimentos pela noiva, Beth, como sendo obrigado a um encontro familiar nada agradável com a irmã Hero, que se alistara no grupo Filhas da Amazona. Os momentos finais da trama funcionam como um espelho para Yorick, que conhece aqui um dos momentos mais asfixiantes da sua viagem.

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Fonte: https://365diaslendohqs.wordpress.com/

Vaughan volta a mostrar os seus dotes de argumentista em Ciclos, o segundo volume de Y: O Último Homem. O livro funciona muito bem como volume auto-contido, mas tratando-se de uma série maior, pareceu-me que deveria ser um arco expandido por outros volumes. A sensação de que cada álbum será uma história diferente perpassada por outra maior não funciona se não tiver cliffhangers fortes, o que até aqui não se verificou.

Ainda assim, a melhoria observada em relação ao primeiro volume é notória, abrindo espaço para um terceiro volume ainda melhor. A série está longe de me fascinar, que sou absurdamente fã da série Saga do mesmo autor, mas se o primeiro volume prometeu, este segundo veio efetivamente a melhorar. As personagens continuam a ser o ponto mais negativo do álbum, sem intensidade nem empatia, e a arte de Pia Guerra melhorou bastante, mas não é contributo que justifique uma melhor avaliação.

Avaliação: 6/10

Y: O Último Homem (Levoir / Público)

#1 Um Mundo Sem Homens

#2 Ciclos

#3 Um Pequeno Passo

#4 A Senha

#5 O Anel da Verdade

#6 Entre Mulheres

 

Estive a Ler: Um Mundo Sem Homens, Y: O Último Homem #1

Pelo menos, acho que disse. A ligação caiu, antes que conseguisse ouvir a resposta. É por isso que vou para a Austrália…

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “UM MUNDO SEM HOMENS”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE Y: O ÚLTIMO HOMEM

Escrita por Brian K. Vaughan e desenhada por Pia Guerra, a BD Y: O Último Homem contou com a colaboração de Goran SudžukaPaul Chadwick e arte-final de José Marzán Jr.  Apesar das várias tentativas falhadas para adaptar a obra ao cinema e à televisão, em 2011 a obra teve direito a uma homenagem em Portugal, com a curta-metragem de ficção O Fim do Homem, realizada por Luís Lobo e Bruno Telésforo e produzida pela Universidade Lusófona, que estreou em concurso no festival de cinema Fantasporto.

Publicada pela parceria Levoir com o Jornal Público a 19 de outubro do último ano, Um Mundo Sem Homens é passado em 2002, quando uma terrível calamidade atingiu a raça humana, matando todos os mamíferos com o cromossoma Y, com exceção de um homem e do seu macaquinho de estimação. A história acompanha as aventuras de Yorick Brown, que enfrentará vários desafios ao longo da sua jornada, bem como as mais variadas questões e dúvidas.

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Fonte: http://www.acalopsia.com/y-ultimo-homem-pela-levoir-publico/

Um Mundo Sem Homens não foi um álbum muito fácil de ler. Para além da arte de Pia Guerra não ser muito atrativa, também esperava mais do argumento do Brian K. Vaughan. Não que o argumento de Um Mundo Sem Homens seja fraco. Simplesmente nem chega aos calcanhares do que Brian faz em Saga. É o risco que corre quem nos habitua mal e coloca a bitola bem lá em cima. Ainda assim, a série tem potencial.

“Y: O Último Homem é uma série que, por enquanto, fica pelo potencial

Não gostei nem desgostei. Ficou num meio termo bem insosso, daqueles em que fica a sensação que não ganhamos nada por ter lido aquilo. Y: O Último Homem tem uma premissa bem interessante, diálogos cativantes e personagens com potencial, mas acaba por não acontecer nada de interessante para além do óbvio. Este primeiro volume limitou-se a apresentar aquilo que já sabíamos sobre a série antes de começar a lê-la.

Fonte: Levoir

Quando todas as criaturas com cromossoma Y morreram instantaneamente e sem explicação alguma, o mundo mudou sem hipótese de retrocesso. A sociedade tendencialmente masculina soçobrou e não houve como escapar a isso. O mundo encontra-se à beira do colapso, com o desaparecimento de mais de metade da população. As mulheres tornaram-se dominantes e procuram mostrar o seu talento para o poder, mesmo sabendo que não há salvação qualquer para a vida na Terra.

É a partir desta premissa que conhecemos Yorick e o seu macaco Ampersand, os dois únicos espécimes masculinos que sobreviveram à “praga”. Depois de tentar fugir às soluções pouco pragmáticas da mãe, uma mulher de grande importância na nação, Yorick é acompanhado por uma agente da autoridade, 355, vindo a encontrar ainda mais problemas quando se cruza com uma cientista de etnia chinesa e japonesa chamada Allison.

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Fonte: http://www.centralcomics.com/2017/10/14/y-o-ultimo-homem-nova-coleccao-da-levoir/

Após o “génerocídio” que exterminou 48% da população mundial, Yorick Brown é obrigado a enfrentar perigosas extremistas, enquanto tenta reencontrar a sua namorada que está do outro lado do planeta e descobrir porque foi ele o único homem a sobreviver. Y: O Último Homem é uma série que, por enquanto, fica pelo potencial, acabando por não cumprir minimamente com a ideia de jornada que fazia para este sobrevivente.

Mesmo o humor pareceu-me um tanto ou quanto forçado, sem grandes momentos de leveza. Ainda assim, tem tudo para melhorar nos próximos volumes, até porque não foi por acaso vencedor do Eisner para Melhor Série Continuada em 2008, sendo uma das séries mais consensuais dentro do selo Vertigo. A edição nacional já tem seis dos dez volumes publicados, que pretendo desbravar em breve.

Avaliação: 4/10

Y: O Último Homem (Levoir / Público)

#1 Um Mundo Sem Homens

#2 Ciclos

#3 Um Pequeno Passo

#4 A Senha

#5 O Anel da Verdade

#6 Entre Mulheres

Resumo Trimestral de Leituras #10

Chegámos ao meio do ano e como tal chegou a hora de proceder a um novo balanço trimestral de leituras. Neste segundo trimestre, o destaque vai para Robin Hobb, não só porque organizei um desafio relativo à autora californiana, mas também porque li três livros dela que andaram perto de ser os melhores deste trimestre. Melhor que Hobb só Patrick Rothfuss. Li as duas partes de O Medo do Homem Sábio, e embora a primeira tenha sido significativamente melhor, a Crónica do Regicida tornou-se uma das minhas sagas preferidas. As minhas leituras nos meses de abril, maio e junho foram:

One-Punch Man #1 – One e Yusuke Murata

O Diário do Meu Pai – Jiro Taniguchi

Poder e Vingança, Império das Tormentas #1 – Jon Skovron

Terra de Sonhos – Jiro Taniguchi

Presas Fáceis – Miguelanxo Prado

As Águias de Roma Livro V – Enrico Marini

O Regresso do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #1 – Robin Hobb

Como Falar com Raparigas em Festas – Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá

Dejah Thoris #1 – Frank J. Barbiere e Francesco Manna

A Dança das Andorinhas – Zeina Abirached

O Rei Macaco – Silverio Pisu e Milo Manara

Imperador dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #3 – Mark Lawrence

A Fortaleza da Pérola, Elric #2 – Michael Moorcock

A História de um Rato Mau – Bryan Talbot

Bolos Janados, Tony Chu: Detective Canibal #6 – John Layman e Rob Guillory

Os Dilemas do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #2 – Robin Hobb

Os Senhores do Norte, Crónicas Saxónicas #3 – Bernard Cornwell

A Louca do Sacré Coeur – Alejandro Jodorowsky e Moebius

A Garagem Hermética – Moebius

Nimona – Noelle Stevenson

O Medo do Homem Sábio Parte 1, Crónica do Regicida #2 – Patrick Rothfuss

All is Lost, The Walking Dead #28 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

O Medo do Homem Sábio Parte 2, Crónica do Regicida #2 – Patrick Rothfuss

One-Punch Man #2 – One e Yusuke Murata

Uma Ruína Sem Fim, Outcast #2 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

Duas Vezes Contado, Harrow County #2 – Cullen Bunn e Tyler Crook

Sangue do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #3 – Robin Hobb

Sem TítuloComecei o segundo trimestre com a leitura de alguma banda-desenhada. Publicado pela Devir, o primeiro volume da edição em mangá de One-Punch Man apresenta um super-herói entediado com a facilidade com que derrota os adversários. A Humanidade é frequentemente atacada por monstros, que parecem não ter fim. No entanto, este herói parece mais preocupado em manter o seu apartamento inviolado. Uma história provocadora, com argumento de One e arte de Yusuke Murata, que não me fascinou pessoalmente. Depois, li duas novelas gráficas da Levoir, da autoria de Jiro Taniguchi, autor falecido em fevereiro deste ano. Para além de tocante e reflexivo, O Diário do Meu Pai mostra que aquilo que compreendemos nem sempre está próximo da realidade. O outro álbum, Terra de Sonhos, apresenta cinco contos que mesclam a ternura à reflexão. Um casal sem filhos sofre com os últimos dias do seu animal de estimação, e quando ele morre juram não mais adotar nenhum outro. Mas quando uma gata persa, grávida, lhes surge nas vidas, tudo muda.

Sem títuloPoder e Vingança é o primeiro livro de Jon Skovron no registo fantasia adulta, com a marca de qualidade Saída de Emergência. Divertido e cheio de ritmo, o Império das Tormentas é um mundo bem construído que apresenta Esperança Sombria e Ruivo, dois personagens que vêm os seus percursos cruzar-se quando os criminosos que controlam Círculo do Paraíso começam a colaborar com os biomantes, servos místicos do Imperador. A escrita do autor não me convenceu, mas foi uma boa leitura. Piratas e ladrões, coleccionadores de arte e inventores, samurais, mutações humanas e perseguições sem fim. Disfarçado de alegoria, a BD da Levoir Presas Fáceis, da autoria do autor espanhol Miguelanxo Prado, é uma história inquietante sobre os interesses nefastos da banca. A burla é o tema central. Uma série de homicídios de pessoas ligadas à banca e o suicídio de um casal de idosos arrasta a inspetora Olga Tabares para uma investigação que levanta um sério debate moral. Saltei para o livro V da série gráfica As Águias de Roma, que oferece ao leitor um sucedâneo de emoções. Da revelação da paternidade de Tito à denúncia dos planos de Armínio, Enrico Marini desenha com precisão o clima bélico da Roma Antiga e coloca o embate entre Marco e o seu irmão de criação num patamar superior. Excelente álbum das Edições Asa, que prossegue a um ritmo altíssimo.

Sem TítuloComecei a segunda série de Robin Hobb focada em FitzCavalaria Visionário. O primeiro volume de O Regresso do Assassino mostra-nos o protagonista quinze anos mais velho. O mundo pensa que ele morreu, mas a verdade é que estabeleceu-se como camponês ao lado do seu lobo Olhos-de-Noite e acolheu um jovem órfão chamado Zar. A visita do seu amigo Bobo, agora transformado em Dom Dourado, e a revelação que o príncipe Respeitador desapareceu misteriosamente, colocam de novo Fitz na órbita de Torre do Cervo e das suas intricadas intrigas. Um volume que me fascinou do primeiro ao último momento, melhorando substancialmente em relação à primeira série. Depois de já ter lido o conto, há dois anos atrás, na antologia Coisas Frágeis, foi de bom grado que li a adaptação para BD de Como Falar com Raparigas em Festas. Pelas mãos da dupla brasileira Fábio Moon e Gabriel Bá, esta história de Neil Gaiman sobre dois jovens adolescentes nos anos 70 que, dedicados a fazer sucesso numa festa cheia de raparigas, descobrem que elas não são bem aquilo que pensavam, revelou-se uma lufada de ar-fresco. Divertido e despretensioso, é mais um excelente álbum trazido para o nosso país, desta feita pelas mãos da Bertrand.

Sem títuloCom argumento de Frank J. Barbiere e ilustrações de Francesco Manna, a BD Dejah Thoris é o primeiro volume de uma série da Dynamite Entertainment sobre a princesa de Marte da obra de Edgar Rice Burroughs. Casada com o terráqueo John Carter, Dejah vê-se vítima de um complot dentro do palácio para afastar a sua família do poder, fazendo desaparecer o seu pai e culpando-a por isso. Dejah Thoris é assim obrigada a fugir da cidade e mudar de identidade. Apesar de o argumento ser relativamente bom, foi também previsível e ficou um pouco aquém das expetativas. O mesmo para a arte, que valeu pela cor. Publicada na Colecção Novela Gráfica da Levoir com o jornal Público, A Dança das Andorinhas, da libanesa Zeina Abirached, encanta pela forma inocente e quase cómica com que um grupo de pessoas lida com a guerra. Separados do mundo e refugiados num átrio, os personagens são obrigados a encarar a vida como ela lhes é oferecida. Foi uma BD que não me apaixonou, mas fez-me refletir.

Sem título 2Entrei em maio com a BD O Rei Macaco da Arte de Autor. Com arte de Milo Manara e argumento de Silverio Pisu, trata-se de um mergulho nas tradições orientais. É uma releitura da Jornada para o Oeste, para encontrar o Jovem Macaco em busca da eternidade, com o Imperador de Jade disposto a dificultar-lhe a tarefa. Apesar de ser uma obra de referência, muito bem humorada, a nível de arte já vi melhor de Manara, o que se compreende uma vez que este foi um dos seus primeiros trabalhos. O terceiro e último volume da Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence, publicado pela TopSeller, Imperador dos Espinhos veio cimentar a minha opinião sobre a obra. O autor convence com a escrita, mas a história continuou confusa, sem uma proposta clara ou um plot bem definido. Um livro mediano, numa trilogia mediana. A Fortaleza da Pérola, de Michael Moorcock, mostra-nos Elric na cidade de Quarzhasaat, onde é chantageado por um nobre local a dar-lhe uma pérola desaparecida no deserto em troca de um antídoto para a droga que lhe haviam dado. Elric inicia assim uma viagem pelo deserto que o levará a Varadia, uma menina que ficou em estado comatoso desde que viu a sua integridade violentada. Mais uma excelente leitura, como Moorcock já nos habituou.

Sem títuloBaseado na história de vida da autora de livros infantis Beatrix Potter, o autor Bryan Talbot escreveu e desenhou uma BD tocante e metafórica sobre uma jovem que, vítima dos maus tratos dos pais e sentindo-se culpada pelos abusos sexuais que sofreu, acaba nas ruas de Londres, a sobreviver como sem-abrigo. A História de Um Rato Mau foi uma leitura reflexiva, que não me agradou no seu todo pelo peso que tomou, em certo ponto. Das novelas gráficas da Levoir passei para os grandes lançamentos da G Floy. Bolos Janados é mais uma aventura do detective mais louco da BD, Tony Chu, desta feita protagonizada pela sua irmã-gémea, Antonelle. Desde um leilão polémico até a um casamento de final abrupto, passando por uma aliança inusitada entre a NASA, a FDA e a USDA, somos convidados a percorrer uma série de aventuras com a participação sempre especial do galo Poyo. A história não desilude, mantendo-se fresca, colorida, bem-humorada e com muitas, muitas vísceras à mostra. Geniais, John Layman e Rob Guillory mantêm a toada. No seguimento do meu desafio com o apoio da Saída de Emergência li Os Dilemas do Assassino de Robin Hobb. FitzCavalaria continua mais perdido do que nunca, agora que é um homem adulto e tem de lidar com uma série de questões políticas e com a imaturidade dos mais jovens. Este segundo volume tem mais mistérios e alguma magia, relacionada com um rapaz de pele escamada e com a narcheska Eliânia, mas também referências a dragões e a navivivos, que me agradou.

Sem títuloTerceiro volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, Os Senhores do Norte mostra-nos Uthred a caminho do norte, enraivecido com o Rei Alfredo pela ridícula recompensa que lhe deu depois de tudo o que fez para que vencesse a importante Batalha de Ethandun. Disposto a recuperar a Bebbanburg que o viu nascer, Uthred “tropeça” em Guthred, um dinamarquês convertido ao Cristianismo que pretendia reclamar para si o norte. Mais um magnífico livro cheio de passagens belas e inquietantes, com o selo de qualidade Bernard Cornwell e Saída de Emergência. Escrito por dois dinossauros da BD, Alejandro Jodorowsky e Moebius, A Louca do Sacré Coeur conta a história de um professor de filosofia da Sorbonne, tradicionalmente vestido de lilás que, assediado por uma das suas alunas, sucumbe à tradicional crise de meia-idade e vê-se arrastado para uma parafernália de rituais bizarros que mesclam o religioso e o misticismo a práticas sexuais completamente lunáticas. Um livro que me agradou nas ideias e no desenho, mas que achei um pouco mal executado, ou pelo menos sem brilho. Outra grande obra de Moebius pelas mãos da Levoir, A Garagem Hermética é uma história confusa de ficção científica que gira à volta do Major Grubert. O misterioso personagem concebe um asteróide que cabe no seu bolso através de treze geradores. Porém, no interior desse corpo existem três mundos e vida, possivelmente tão real como a nossa. Mas quem será este enigmático Major Grubert? Gostei imenso, mesmo não percebendo muito da história.

Sem TítuloO mês de junho começou com Nimona, da norte-americana Noelle Stevenson, que marca o regresso da Saída de Emergência à publicação de BD’s. Nasceu como um trabalho universitário da autora, mas foi como webcomic que alcançou o sucesso e transformou autora e personagem em celebridades. Dona de um traço único e de um humor aguçado, Stevenson aborda temas como a amizade, a falsidade, o controlo dos media pelas forças de poder e a homossexualidade, de forma simples e divertida, num mundo marcadamente medieval com televisões, computadores e tecnologias futuristas. Em senda de leituras maravilhosas, seguiu-se o segundo volume da Crónica do Regicida (Parte 1 e Parte 2), publicado em português pela ASA/1001 Mundos. O Medo do Homem Sábio traz-nos de volta ao mundo escrito por Patrick Rothfuss. Depois de sobreviver às artimanhas de Ambrose, Kvothe sobrevive na Universidade, pagando as “propinas” com a música que faz em Imre, a cidade vizinha, e com os empréstimos que forja com Devi, a lendária ex-aluna da Universidade. É quando uma acusação antiga lhe bate à porta que surge a oportunidade de arranjar um mecenas, o que o leva para longe, para a distinta Vintas. Enquanto a primeira parte foi, muito possivelmente, dos melhores livros que já li na vida, o segundo perdeu bastante em comparação, ainda que a escrita do autor continue como uma das maravilhas da série.

Sem títuloMais um brilhante volume da BD The Walking Dead, All is Lost prossegue na rota de sucesso do argumentista Robert Kirkman, com a arte sempre consensual de Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano. Hilltop caiu e uma legião de walkers foi canalizada pelos Sussurradores em direção a Alexandria. Negan e Rick defendem a comunidade, mas os portões caem e Rick vê no seu antigo adversário um amigo improvável, o único que consegue ajudá-lo quando tudo parece desmoronar-se à sua volta. Mais um volume excelente e uma morte impactante com repercussões no futuro das BD’s. Li também o segundo volume do mangá One-Punch Man de One e Yusuke Murata, com quem tinha iniciado o trimestre. Uma série de apontamentos divertidos fazem-me olhar com agrado para este álbum, cuja proposta ou mesmo linha narrativa não oferecem nada de original ou interessante. E regressei a Robert Kirkman. Depois de ter lido o primeiro volume no início do ano, eis que chegou às bancas o segundo álbum de Outcast, Uma Ruína Sem Fim, com argumento do autor de The Walking Dead e ilustrações de Paul Azaceta. Argumento e arte casam na perfeição numa história sobre possessões que começa a dar maiores sinais de interesse, e com os mistérios a adensarem-se. Apesar de a história parecer demorar a avançar, notam-se os laivos de genialidade que atiraram Kirkman para as bocas do mundo.

Sem título 2Tal como o álbum de Outcast, Duas Vezes Contado foi um dos mais recentes lançamentos da G Floy no nosso país, lançado no Festival de BD de Beja. O segundo volume da BD de horror Harrow County, com argumento de Cullen Bunn e arte de Tyler Crook, revela um maior amadurecimento por parte do artista, ainda que o argumento não me tenha agradado por aí além. À medida que a protagonista Emmy vem aprendendo a lidar com os seus poderes e com as criaturas sobrenaturais que habitam Harrow County, tem também de proteger a povoação de um novo inimigo: a própria irmã gémea, Kammi. E terminei o trimestre com o terceiro volume da Saga O Regresso do Assassino. Em Sangue do Assassino, Robin Hobb volta a não desiludir. Vemos o protagonista FitzCavalaria arrastado para uma chuva de situações inusitadas, desde a ganância pela magia do seu velho mentor, à preocupação com os filhos, rumores de homossexualidade e principalmente a ameaça dos pigarços à sua integridade e à da família real. A obra, porém, oferece muito mais do que isso. Oferece pessoas reais, com defeitos e virtudes, e problemas que podiam ser partilhados por qualquer um de nós. Uma história enriquecedora.

Neste momento, estou a ler o livro Monge Guerreiro do autor brasileiro Romulo Felippe, e deverei continuar com as BD’s Southern Bastards, Velvet, Monstress e mais alguns livrinhos. Entre os nomes que pretendo ler nos meses de verão estão Ursula K. Le Guin e Joe Abercrombie, mas irei também concluir a Saga O Regresso do Assassino de Robin Hobb.

Estive a Ler: A Garagem Hermética

– Conte-me mais sobre esse curioso Major Grubert.

– Bom, na qualidade de arqueiro, estou certamente muito bem informado sobre ele!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Garagem Hermética” (Formato BD)

Conhecido essencialmente pela incontornável carreira na BD, mas também pelos trabalhos de arte conceptual para cinema, como foi o caso do ilustre Alien, Jean Giraud foi um dos melhores ilustradores do século XX, tendo um papel de relevo na disseminação da Nona Arte. Mais famoso pelo pseudónimo Moebius, faleceu em 2012, deixando um incontornável legado que contribuiu para o patamar de reconhecimento que a BD europeia vive nos dias de hoje.

A Garagem Hermética, que publicou entre 1976 e 1980 para a revista Metal Hurlant, tornou-se uma das suas obras de maior notoriedade. Apesar dos inúmeros derivados e reimpressões, é a versão mais definitiva e consensual a que Moebius publicou para a revista pelas mãos da Les Humanoides Associés, editora fundada pelo próprio artista francês, incluído num grupo de outros empreendedores da arte à época. Por cá, foi publicada inicialmente pela Meribérica (1990) e pelo Jornal Correio da Manhã na Colecção Os Clássicos de Banda-Desenhada (2014).  A mais recente versão foi publicada na Colecção Novela Gráfica em julho de 2016, resgatando o preto e branco da versão original.

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O Major Grubert

A história gravita à volta do Major Grubert. O denominado Major Fatal concebe um asteróide que cabe no seu bolso através de treze geradores; porém, no interior desse corpo existem três mundos… e vida, possivelmente tão real como a nossa. Mas quem será este enigmático Major Grubert? Um cientista, um deus, um explorador?

Houm Jakin é o senhor do Carn Finehac, nas zonas de Onix. Um cowboy preocupado com a decadência do seu povo e com as inusitadas bruxarias de uma espécie denominada bakalitas. É quando um sujeito estranho de óculos chamado Boaz o aborda de revólver em punho que a demanda de Jakin à cidade abandonada se transforma numa jornada pela sobrevivência.

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A Garagem Hermética… de Jerry Cornelius

Na tundra, um homem chamado Jerry Cornelius tem de lidar com a deserção do engenheiro Barnier, depois de este ver o seu veículo estorricar. Mas este Cornelius é mais do que parece e está ligado de forma visceral a Grubert e às suas secretas intenções. À escala global.

Entre Bakalites, Tar’Haï, Begnandes, Trichlo e Targrowns, os desígnios de Grubert, o “mago de ouro”, moldam as formas dos universos e dos seus atores, fazendo-os caminhar em círculos, respondendo às necessidades mais prementes de cada cultura, escapando às malevolências naturais do ser humano e à sua vontade de alcançar o que lhe está vedado.

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Prancha Levoir / Público
SINOPSE:

Moebius foi um dos maiores autores de BD de todos os tempos, conhecido também dos fãs pelo seu nome verdadeiro de Jean Giraud (com que assinou, por exemplo, a série Blueberry). Nos anos 70, foi um dos protagonistas principais de uma revolução na banda desenhada francesa, de que A Garagem Hermética foi o primeiro passo, que iria levar à sua obra maior, o Incal.

Inicialmente publicada em episódios na revista Métal Hurlant, de que Moebius foi um dos fundadores, este volume de A Garagem Hermética é a primeira edição no nosso país da versão a preto e branco no formato original. O universo de bolso que o Major Grubert criou no interior do seu asteróide contém três mundos sobrepostos, cada um com os seus povos e civilizações. Três mundos que ignoram tudo das suas origens, mas de cuja verdade alguns habitantes começam a suspeitar. Os episódios de A Garagem Hermética foram inventados à medida que eram publicados mensalmente, e o resultado é uma história surreal, um universo de ideias incríveis e delirantes, misturadas umas com as outras.

OPINIÃO:

Completamente aleatório e insano, A Garagem Hermética de Moebius é um álbum de ficção científica pura e dura, cheia de termos técnicos e futurismos alucinantes, com traços de guerra, de faroeste, de super-heróis e de misticismos. O autor foi escrevendo a história de forma fortuita, sem um enredo com pés e cabeça ou uma linha a seguir. O resultado foi uma história que achei confusa e de difícil interpretação, mas cheia de um significado secreto que me satisfez. Logo de caras, sorri ao perceber que os nomes dos personagens inaugurais da trama eram os das colunas que sustentavam as portas do Templo de Salomão.

“O autor foi escrevendo a história de forma fortuita, sem um enredo com pés e cabeça ou uma linha a seguir. O resultado foi uma história que achei confusa e de difícil interpretação, mas cheia de um significado secreto que me satisfez.”

Grubert é a chave do livro. Ele é o criador dos mundos e governa-os com menos controlo do que um empresário gere uma organização. As ideias sucedem-se e são sempre surpreendentes e cheias de potencial, acabando por não ser exploradas. Moebius fez as regras do jogo e brincou a seu bel-prazer, deixando para trás as tramas que menos lhe interessavam e criando novos focos e diretivas.

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A narrativa é erudita e cheia de significados, ainda que a falta deles também imponha um mistério vazio que não me desiludiu. Se Moebius parece um autor louco e deixa os leitores completamente “What the fuck!” com as histórias apresentadas, é acima de tudo um artista brilhante, que soube casar o desenho à história de forma igualmente desconcertante e fluída. A própria imagem de Grubert sofre várias mudanças ao longo da obra.

Por fim, um destaque para a escrita bem-humorada do autor. Moebius apresenta uma história sem pés nem cabeça, mas cheia de sumo e de coerências. Aqui e ali, as tramas cruzam-se e o insondável ganha sentido. Foi acima de tudo o humor e a irreverência do autor que me cativaram, mais do que uma história que nem tão bem compreendi e que mesmo assim recomendo.

Avaliação: 8/10

Estive a Ler: A Louca do Sacré-Coeur

Quando há oito anos puseste em prática uma das tuas geniais “teorias”… passaste a ser um “monge universitário”… deixaste de fazer amor para te vestires de violeta!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Louca do Sacré-Coeur” (Formato BD)

Alejandro Jodorowsky e Moebius, dois dinossauros da Nona Arte, uniram-se para conceber A Louca do Sacré-Coeur. Os autores dispensam apresentações. Vanguardista e conhecido pela polémica dos seus escritos, seja na banda-desenhada, no teatro ou no cinema, Jodorowsky ganhou amores e ódios com a peculiaridade e sordidez da sua obra. Já Moebius, pseudónimo do artista Jean Giroud, foi um dos mais notáveis ilustradores franceses do último século.

Dividido em três partes, uma vez que o álbum foi publicado originalmente em três volumes, entre 1992 e 1998, A Louca do Sacré-Coeur saiu por cá em 2015, incluído na Colecção Novela Gráfica da Levoir em parceria com o Jornal Público. Com tradução de José de Freitas e Pedro Cleto, trata-se de uma crítica religiosa e social mirabolante e tresloucada.

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Um professor violeta

A Louca do Sacré-Coeur apresenta-nos Alain Mangel, um professor de filosofia na Sorbonne que parece um homem cheio de valores. É um daqueles professores intelectuais que atraem os alunos com tanta facilidade que quase se tornam uma super-estrela na Universidade. Aquele professor que todos os alunos gostariam de ter. Todas as certezas e seguranças deste selecto professor vestido de roxo parecem desaparecer quando é seduzido por uma jovem aluna e é enredado numa aventura alucinante.

Mangel parece sofrer uma daquelas crises de meia-idade, o que compromete definitivamente o seu casamento. Elizabeth é a aluna que lhe vai dar a volta à cabeça, arrastando-o para uma loucura de contornos místicos e sexuais. Ela leva-o para um mundo iniciático que utiliza a religião em cerimónias lascivas de pura loucura e blasfémia, com recurso a drogas.

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Uma rapariga louca

Tendo como objetivo gerar o novo Messias, a seita onde Mangel se inicia leva-o a pactuar com uma loucura desenfreada, a um baptismo sui-generis, a uma gravidez desejada, ou nem tanto, mas também aos caminhos perversos do crime. Mas o que parece uma brincadeira sórdida pode comprometer não só a sua reputação, como pôr em risco a própria vida e convicções.

A atração física por raparigas bem mais jovens desvirtua este professor catedrático de tal forma, que nem mesmo as suas ideologias religiosas escapam impunes. Drogas, sexo e brincadeiras blasfemas transformam-se numa reflexão sobre a natureza humana e numa corrida pela própria integridade numa história inquietante que mistura dramas pessoais, xamãs, guerrilheiros da América Latina e a conservadora religião estanque no Sagrado Coração de Paris.

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Prancha Levoir / Público
SINOPSE:

Moebius, pseudónimo usado por Jean Giraud, foi um dos mais inovadores artistas de banda desenhada, e encontrou no escritor chileno Alejandro Jodorowsky o parceiro perfeito para desenvolver um estilo muito variado, marcado pelo sentido do real aliado a uma componente onírica e surrealista muito fortes. Juntos, assinaram uma das mais revolucionárias obras de banda desenhada de sempre, a série do “Incal”. Nos inícios da década de 1990 voltariam a reunir-se para este livro, talvez o mais singular da obra destes dois autores.

Alain Mangel, professor de filosofia na Sorbonne, é seduzido por uma das suas alunas, Elizabeth. Possuída por verdadeiros delírios místicos, ela arrastará o professor para um furacão de acontecimentos inesperados e delirantes que irão pôr à prova a racionalidade de Mangel. Um misto de paródia mítica, farsa sagrada, caminho iniciático e exorcismo, o percurso do protagonista vai levá-lo a abrir os seus olhos para outra realidade.

OPINIÃO:

Uma sátira à espiritualidade, à religião e à natureza humana, A Louca do Sacré-Coeur de Moebius e Jodorowsky é também uma espécie de reflexão pessoal do Homem enquanto ser que erra e se deixa influenciar pelo pensamento coletivo. De certa forma autobiográfico, o que se percebe quando Moebius desenha o protagonista do álbum como o próprio Jodorowsky, este livro deixa claramente uma mensagem de que todos pagam o preço pelas próprias escolhas e todos somos falhos enquanto seres humanos. É a partir daqui que se desenvolve uma narrativa louca, que promete alguma diversão e crítica moral.

Não gostei muito deste álbum. Jodorowsky não encanta na escrita. Muito embora tenha adorado o seu trabalho em Os Bórgia, em colaboração com Milo Manara, o autor chileno já não me havia conquistado com Bouncer, e este livro não trouxe melhorias a esse respeito. O que mais me apraz neste autor é mesmo a ousadia e a forma com que escancara a podridão da mente humana. A arte de Moebius é boa, revelando nos traços fortes e cores densas a identidade inconfundível do melhor estilo franco-belga. Confesso que nunca vi mais nada deste célebre artista francês para comparar, mas a fama que o precede não me desapontou.

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Prancha Levoir / Público

Esperava mais deste A Louca do Sacré-Coeur, mesmo tratando-se de uma aventura de bom ritmo com momentos marcantes e cenas bem-humoradas. A forma disparatada com que os temas religiosos foram tratados não me chocou, mas em nenhum momento senti uma justificativa ou um “oh yes” de uma cena mais genial. As várias histórias a que somos apresentados entrelaçam-se mas acabam por não trazer nada de relevante para o plano principal.

“A forma disparatada com que os temas religiosos foram tratados não me chocou, mas em nenhum momento senti uma justificativa ou um “oh yes” de uma cena mais genial.”

Em alguns momentos frívolo, em outros pertinente, o álbum A Louca do Sacré-Coeur não foi, porém, uma leitura má. Tanto a proposta como as imagens agradaram-me, a concretização das ideias e a frugalidade dos diálogos e das histórias, porém, comprometeram as minhas expectativas.

Avaliação: 5/10

Estive a Ler: A História de um Rato Mau

Estou zangada! Tenho direito de estar zangada! Recuso-me a sentir-me culpada!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A História de Um Rato Mau” (Formato BD)

Um dos mais conhecidos argumentistas e ilustradores britânicos, Bryan Talbot é o criador de The Adventures of Luther Arkwright, Heart of Empire e Grandville. Natural do Wigan, começou a trabalhar no mercado underground de bandas-desenhadas, nos anos 60, mas foi com os seus trabalhos para a Dark Horse e para a DC que viria a destacar-se, colaborando em obras de grande sucesso como Sandman (vê a minha opinião ao trabalho dele aqui e aqui), Fables, Batman ou Hellblazer. Também foi ilustrador das cartas colecionáveis do jogo Magic: The Gathering.

A História de um Rato Mau foi publicado pela Dark Horse Comics em 1994, vindo a ganhar o Prémio Eisner para Melhor Novela Gráfica em 1996, na sua primeira reedição. O livro chegou ao nosso país em julho de 2016, incluído na Colecção Novela Gráfica da Levoir em colaboração com o jornal Público. Uma alegoria sobre sobrevivência que convida a uma reflexão sobre a passividade da sociedade perante situações tão complexas como o abuso sexual de menores.

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Helen Potter

O livro, dividido em três capítulos, seria inicialmente focado no Lake District, mas acabou por ser inspirado na vida da escritora de livros infantis Beatrix Potter. Uma sem-abrigo de dezasseis anos chamada Helen Potter sobrevive nas ruas de Londres, apenas com um rato de estimação e os seus livros. Aliciada pela ideia de suicídio, a jovem Helen revê o seu percurso através de flashbacks, onde conhecemos uma infância prenhe de abusos sexuais por parte do pai e marcada também pela indiferença da mãe. 

Helen foi vítima da própria família, acabando por sentir-se culpada pelos abusos e pela sua infelicidade. Mas Helen também é uma jovem artista cheia de talento. Nas suas movimentações no mundo dos sem-abrigo, ela é vítima da perseguição de um polícia que a tenta assediar, e quando regressa para o grupo que antes a tinha acolhido, encontra o seu rato morto pelo gato de um dos ocupantes.

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Prancha Levoir / Público

Um rato gigante

Decide fazer-se à estrada, rumo ao Lake District, acompanhada pela história de Beatrix Potter e pelas visões fugazes do seu rato, numa dimensão estranhamente gigante. É também acompanhada pelas lembranças do passado, onde pouco a pouco se sabe mais sobre a ruptura que a levou a abandonar o seu lar.

Desde o encontro desagradável com um motorista, até à sua passagem por um bar, onde trabalhou, acompanhamos o percurso íngreme e duro de Helen, socorrendo-se de livros de auto-ajuda para tentar colar os estilhaços da sua vida. É quando ela encontra a casa de Beatrix Potter que procura encontrar um livro perdido – A História de um Rato Mau – e que se revela um espelho da sua própria história. Ali decide criar o final para a sua e dar-lhe um final feliz. Afinal, o futuro está nas suas mãos.

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Capa Levoir / Público
SINOPSE:

A História de um Rato Mau é considerado o seu melhor livro. Helen Potter, uma jovem vítima de abuso sexual, empreende uma viagem de descoberta pela Inglaterra, seguindo os passos da célebre autora de livros infantis, Beatrix Potter, na esperança de reencontrar a paz…neste diálogo entre duas épocas e duas Potter, Helen irá descobrir a verdadeira força interior com que confrontará os seus demónios pessoais, numa história de heroísmo e coragem.

Bryan Talbot é um dos grandes autores britânicos. Iniciou a sua carreira nos comics underground, quando ainda estudava no liceu. Depois de colaborar em várias revistas inglesas de BD, tem trabalhado também para o mercado americano, ilustrando histórias para as mais emblemáticas séries de comics, como The Sandman, Hellblazer ou Fables. É igualmente um argumentista conceituado e criador de duas grandes séries, Luther Arkwright e Grandville.

OPINIÃO:

Ainda que possa causar alguma estranheza ver um tema tão forte como o abuso sexual de menores representado de forma tão direta numa banda-desenhada, Bryan Talbot fê-lo com distinção. Utilizando artifícios tão legítimos como a metáfora, a deambulação de Helen Potter e a companhia do rato gigante caiu como uma luva no retrato social a que o autor britânico se propôs.

Da relação doentia com os pais, à familiaridade com a escritora Beatrix Potter, acompanhamos o rumo de uma jovem desnorteada, definhada e partida em pedaços, até finalmente se encontrar consigo mesma. A forma cadenciada e calculista com que Talbot desvenda a trama da sua protagonista veio acicatar-me a curiosidade e revelar tons negros e cinzas na vida de uma criatura que tudo tinha para ser orlada de luz.

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Prancha Levoir / Público

Desde o primeiro momento somos convidados a compreender esta mente abstrata com cuidado e exatidão, não porque estejamos a caminhar em terreno pantanoso mas porque a personagem é feita de retalhos e complexidades, derivadas do seu passado melindroso. Não só vemos Helen Potter como uma vítima da própria família, como uma vítima da sociedade, a que ela não se conseguiu adaptar muito por conta da sua fragilidade psicológica.

“Não só vemos Helen Potter como uma vítima da própria família, como uma vítima da sociedade, a que ela não se conseguiu adaptar muito por conta da sua fragilidade psicológica.”

Se esta personagem nos surpreende pela verosimilhança e brilhantismo, o argumento não pode ser censurado. É com uma certa leveza que olhamos para este livro, mas à medida que passamos página após página, elas parecem tornar-se mais pesadas, quando nos apelam a pensar e a sentir na pele o drama da personagem. O desenho não impressiona, mas é o colorido que alimenta a esperança do leitor, recompensada de certa forma no final do álbum.

Avaliação: 7/10