Estive a Ler: O Assassino do Bobo, Saga Assassino e o Bobo #1

Com toda a honestidade, não existe forma de matar alguém misericordiosamente. Há aqueles que não consideram crime afogar um recém-nascido imperfeito em água aquecida, como se o bebé não lutasse desesperadamente por encher os pulmões de ar.

O texto seguinte aborda o livro “O Assassino do Bobo”, primeiro volume da série Saga Assassino e o Bobo

Margaret Lindholm Ogden, também conhecida pelos pseudónimos Megan Lindholm e sobretudo Robin Hobb, é considerada como uma das autoras que definiu a fantasia épica como é vista nos dias de hoje. O Reino dos Antigos é a macro-série que começou a publicar em 1995, que inclui, para além de duas séries anexas sem a participação de FitzCavalaria Visionário, as três trilogias protagonizadas pelo famoso assassino que dá título a este livro.

Em Portugal, a Saga do Assassino e a Saga O Regresso do Assassino catapultaram o nome Robin Hobb para os píncaros da fantasia atual, e esta Saga Assassino e o Bobo vem apenas cimentar essa condição. Com tradução de Jorge Candeias e um total de 624 páginas, a edição nacional do primeiro volume, O Assassino do Bobo foi lançado pelas mãos da Saída de Emergência, que anunciou, inclusive, a vinda da autora a Portugal para o Festival Bang! de 2018.

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Fonte: https://robinhobb.deviantart.com/gallery/50931509/Fitz-and-the-Fool

Pergunto-me várias vezes o que mudou na narrativa de Robin Hobb para eu ter torcido o nariz à primeira série e começar a amar a história de FitzCavalaria e do Reino dos Antigos a partir da segunda. Muito possivelmente deveu-se à forma como Hobb desenvolveu o seu mundo. A primeira saga começa com um mundo marcadamente medieval, em que o jovem bastardo de um rei torna-se aprendiz de um velho assassino. A premissa não marcou pela originalidade.

No entanto, Robin Hobb apenas usou-se dos clichés como ponto de partida. O final abrupto e talvez exageradamente fantasioso da primeira série desagradou a muitos, mas a mim particularmente marcou-me como um ponto de viragem, depois da lentidão cansativa a que havia sido sujeito. As personagens foram desenvolvidas de forma absurdamente credível, com especial foco nas relações humanas. E é esse foco de desenvolvimento individual e coletivo que diferencia Robin Hobb dos restantes autores.

É a escrita, porém, que a coloca no meu top de autores prediletos. Envolvente, suave, elegante e charmosa, a prosa de Hobb cativa pela forma fluída e detalhada com que descreve cenários e emoções com igual ritmo. Lento, é certo, mas não um lento maçante. Antes um lento que nos delicia e faz saborear a história como ela deve ser saboreada. Como um chocolate quente e cheio de natas numa noite gelada de inverno. Neste quesito, dedico um louvor particular ao trabalho de tradução; como vem sendo hábito, o trabalho de Jorge Candeias faz jus às qualidades da autora.

“Robin Hobb consegue fazer-nos sofrer, vibrar e conhecer um homem, personagem fictício, como poucas vezes conhecemos pessoas que vivem connosco no dia-a-dia.”

O Assassino do Bobo tem todos estes ingredientes e mais alguns. Um livro com mais de 600 páginas, praticamente todo ele passado na mesma casa / propriedade e com um lote restrito de personagens, e mesmo assim consegue maravilhar com dezenas de acontecimentos, de assaltos a mortes e nascimentos, mas acima de tudo com as dúvidas e inseguranças de um homem que nós, leitores, conhecemos desde a infância.

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Fonte: http://www.robinhobb.com/2013/10/the-fools-assassin/

FitzCavalaria conseguiu finalmente voltar para Moli, reconquistá-la depois de anos entregue aos braços de Castro. Fixos em Floresta Mirrada com os filhos dela e com a velha Paciência, o casal parece mais feliz do que nunca, muito embora tenham que enfrentar uma dura realidade. Os anos passaram por eles. Especialmente por Moli, uma vez que uma cura da magia hereditária chamada Talento mitigou a dureza dos anos no corpo de Fitz.

A vida parece correr de feição para o casal, mas o espetro de Torre do Cervo e das redes de espiões do Trono Visionário ainda paira sobre eles, principalmente agora que Urtiga, a única filha de Fitz e Moli e legítima proprietária de Floresta Mirrada, se tornou Mestra do Talento no Castelo de Torre do Cervo. Paralelamente a isso, o antigo assassino tem ainda de lidar com as idiossincrasias dos seus muitos empregados, e a forma como eles o encaram e respeitam, agora que todos o conhecem como Depositário Tomé Texugo.
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De um repente, todas as tramas parecem voltar a conduzi-lo para lá. Um aprendiz de assassino chamado Lante é visto como pouco qualificado para essa tarefa por Breu, e cabe a Fitz vir a protegê-lo e arranjar-lhe utilidade. Urtiga continua a tratar Fitz com mais frieza do que a relação de um pai e de uma filha devia impor, enquanto Enigma se estabelece cada vez mais como o grande amor da jovem e um verdadeiro amigo para o pai desta, conquanto as decisões deste não a embaracem.

É nas relações humanas que Hobb expande o seu mundo, deixando-nos curiosos com os povos e acontecimentos que são apenas abordados para nos fazer morder o anzol, porque sabemos que mais tarde ou mais cedo eles irão emergir na trama para virar o mundo de Fitz novamente ao contrário e arrancá-lo da realidade para mais uma demanda impossível em que será, queira ou não, o protagonista. A autora californiana conhece o seu Fitz como ninguém, e também parece não cansar-se de fazê-lo sofrer.

Todo um espetro do passado de Fitz volta à tona, quando personagens morrem, quando outras que não davam sinais de vida há décadas surgem num roldão de novas tramas, perspetivas e tarefas. Até personagens que haviam morrido ressurgem nas recordações, nos sonhos e nos sentidos. Cheiros, sensações e detalhes saltam de cada página com uma intensidade e verosimilhança notáveis.

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Fonte: https://www.pinterest.com/twayhatch/robin-hobb/

Robin Hobb consegue fazer-nos sofrer, vibrar e conhecer um homem, personagem fictício, como poucas vezes conhecemos pessoas que vivem connosco no dia-a-dia. Cada tonalidade de personalidade, cada reserva, cada vertente emocional, cada detalhe da sua pessoa. Arrisco-me, no entanto, a dizer que FitzCavalaria está longe de ser a única razão por que esta saga é incrível. Abelha, Moli, Urtiga, Breu, Enigma, Esquiva, Lante, Kettricken, assim como o enigmático Bobo, são todas elas bem construídas, que encantam pela credibilidade com que são pinceladas.

“A relação entre estes dois protagonistas transcende o amor romântico ou fraternal, porque o Profeta Branco e o Catalisador completam-se como um só.”

Olharmos para a história deste personagem, que vivemos na pele através da leitura dos livros anteriores, faz arrepiar. Faz-nos considerar as nossas próprias histórias e a dos nossos pais e avós, e pensar que a panorâmica com que as olhamos hoje pode não estar nem perto daquela que eles vivenciaram. A forma como os filhos de Moli e de Fitz encaram Castro, por exemplo, aquela personagem que deu tanto a esta trama, pode ser tão confusa para eles como incrível para nós.

A forma como Hobb escreveu este livro também foi especial. Ao contrário de um salto de tempo abrupto, ela ofereceu-nos a passagem do tempo por Fitz como gradual, um pouco à imagem do que havia feito no primeiro volume de O Regresso do Assassino. De uma mensageira misteriosa num Festival de Inverno, até ao crescimento de uma criança que vem a ganhar tanto destaque como pontos de vista. Pela primeira vez, a trama não foi exclusivamente contada pelo protagonista, ainda que ele continue sempre atolado em problemas para resolver em simultâneo.

Desenganem-se, porém, se pensam que a alusão ao Bobo no título é um logro. Visível ou não, sentimo-lo presente ao longo de toda a narrativa, sobretudo nos momentos em que Fitz mais parece sentir a sua ausência. A relação entre estes dois protagonistas transcende o amor romântico ou fraternal, porque o Profeta Branco e o Catalisador completam-se como um só. Especialmente estes dois.

Mas poderão as profecias do Bobo terem sido erradas? A questão do Filho Inesperado é abordada neste livro, questionando a exatidão das previsões do Profeta Branco e, mais especialmente, a sua interpretação. Mas, na verdade, tanto a filosofia do Bobo como a sua participação acabam por estar num segundo patamar neste livro, ganhando apenas destaque no final. O livro foca-se em Fitz e na sua família, assim como nas suas capacidades para lidar com ela e com pequenas trivialidades do dia-a-dia.

“O final de O Assassino do Bobo foi qualquer coisa que me surpreendeu.”

As relações com personagens do passado também se alteraram, conforme elas amadureceram ou se separaram. Podemos não ver Esporana ou Eliânia, ter breves vislumbres de Respeitador e Obtuso, e ver a relação filial de mentor e aprendiz entre Fitz e Breu a tornar-se uma quase inimizade quando o instinto protetor que há no assassino o vê como ameaça, mas os laços que os ligam a todos estão lá e movem-se subtilmente, fazendo-se sentir nos momentos mais determinantes. Abelha, a maior adição à trama, é uma lufada de ar fresco por que, penso, ninguém podia estar à espera.
O final de O Assassino do Bobo foi qualquer coisa que me surpreendeu. E deixou-me de água na boca, tantos foram os mistérios que ficaram por resolver. Ficou não só a vontade de descodificar todos os mistérios, como de ver o discorrer daqueles acontecimentos a materializar-se. A interpretação dos Servos sobre Abelha, a génese de Esquiva e Lante e a verdade sobre o Bobo são questões pendentes que me fazem querer o segundo volume, A Revelação do Bobo, o quanto antes.
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Abstenho-me a revelar pormenores sobre a trama porque acredito que a experiência de leitura deste livro pode ser tremendamente afetada por eles. A grande magia deste volume em particular, para além de tudo o supracitado, é irmos sendo surpreendidos com as mais incríveis mudanças que vão acontecendo no transcorrer do livro. E sim, apesar do ritmo aparentemente lento, elas estão sempre a acontecer. Estamos a falar de um livro lindíssimo, e tudo o que ele me inspira é ternura.
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Avaliação: 10/10
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O Reino dos Antigos:
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Saga do Assassino (Saída de Emergência):#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Saga Assassino e o Bobo (Saída de Emergência):

#1 O Assassino do Bobo

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A Divulgar: Robin Hobb em Portugal em 2018

Foi no passado sábado, dia 28 de outubro, que a Edições Saída de Emergência divulgou, em pleno Festival Bang!, que a convidada do próximo ano será Robin Hobb, uma das autoras de fantasia mais aclamadas em todo o mundo. A autora californiana, divulgou num vídeo a vontade de estar com os fãs portugueses, numa data ainda a definir.

Depois de, no passado fim de semana, a autora Anne Bishop ter feito sucesso no Pavilhão Carlos Lopes, naquela que foi a primeira edição do Festival Bang!, resta esperar por mais informações sobre a edição de 2018, que trará até nós a autora das séries Saga do Assassino, Saga O Regresso do Assassino e Saga O Assassino e O Bobo, publicadas no nosso país pela Edições Saída de Emergência.

Resumo Trimestral de Leituras #11

O verão costuma ser uma estação menos dada a leituras, mas em 2017 acabei por conseguir ler mais do que nos anos anteriores durante este período. Se julho foi o mês em que li mais, com as bandas-desenhadas a conhecerem alguma predominância, agosto trouxe-me boas surpresas como Os Despojados de Ursula K. Le Guin ou Anjos de Carlos Silva. Já o mês de setembro ficou marcado pela conclusão de várias sagas que vinha a seguir, como é o caso da Saga O Regresso do Assassino de Robin Hobb, A Torre Negra de Stephen King e A Primeira Lei de Joe Abercrombie. Destaque ainda para a leitura de vários autores nacionais, como Carlos Silva, Pedro Cipriano, Jay Luís ou Bruno Martins Soares. Foi A Súbita Aparição de Hope Arden, de Claire North, porém, o livro que mais me arrebatou, tornando-se a melhor leitura do ano até ao momento.

Regressos, Southern Bastards #3 – Jason Aaron e Jason Latour

O Homem Que Roubou o Mundo, Velvet #3 – Ed Brubaker, Steve Epting e Elizabeth Breitweiser

Monge Guerreiro – Romulo Felippe

Despertar, Monstress #1 – Marjorie Liu e Sana Takeda

Conquista da Liberdade, Rebeldes Europeus #1 – Jay Luís

As Nuvens de Hamburgo – Pedro Cipriano

A Jornada do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #4 – Robin Hobb

Os Despojados – Ursula K. Le Guin

Anjos – Carlos Silva

Os Mares do Destino, Elric #3 – Michael Moorcock

Bruxas | Wytches – Scott Snyder e Jock

A Forca, A Primeira Lei #2 – Joe Abercrombie

Os Dragões do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #5 – Robin Hobb

A Súbita Aparição de Hope Arden – Claire North

One-Punch Man #3 – One e Yusuke Murata

A Torre Negra, A Torre Negra #7 – Stephen King

Moving – Bruno Martins Soares

A Coroa, A Primeira Lei #3 – Joe Abercrombie

Fighting The Silent, The Dark Sea War Chronicles #1 – Bruno Martins Soares

Sem TítuloComecei julho com o terceiro volume de Southern Bastards, Regressos. É mais um capítulo da violenta saga sobre as gentes do Alabama criada por Jason Aaron e Jason Latour, autor e ilustrador norte-americanos. Focado em seis personagens, Regressos é ambientado no período do Homecoming, em que a equipa dos Reb’s prepara-se para receber os Warriors, um jogo ensombrado pelo suicídio de Big, que se sentira esmagado pela atitude conspiratória da população em torno da morte de Earl Tubb. Os dois autores conseguiram enriquecer a série e abrir novas perspectivas para a mesma, ao mesmo tempo em que submergiram o leitor num ritmo crescente. O Homem que Roubou o Mundo é o terceiro volume de Velvet, com argumento de Ed Brubaker, arte de Steve Epting e cores de Elizabeth Breitweiser. A um ritmo alucinante, o leitor segue a espia Velvet Templeton na peugada de respostas sobre a cabala que a fez matar o homem que amava. Uma conspiração que a leva aos meandros do Caso Watergate e ao rapto do presidente Nixon. Uma conclusão de trilogia fantástica, cheia de ação, perseguições e tiroteios. Duas fantásticas BD’s trazidas até nós pelas mãos da G Floy Studio Portugal.

Sem títuloDo autor brasileiro Romulo Felippe, Monge Guerreiro é um ótimo livro histórico pincelado de fantasia. Vemos um templário montado num unicórnio, um dragão a perseguir o papa pelas cidades italianas e uma missão lançada por Luís IX de França para proteger duas relíquias sagradas: a Lança de Longinus e a Coroa de Espinhos. Com uma melhor revisão e um maior equilíbrio entre a primeira e a segunda metade, o livro seria fantástico. Com argumento de Marjorie Liu e arte de Sana Takeda, duas artistas ligadas à Marvel, Despertar é o primeiro volume de Monstress, a nova aposta das Edições Saída de Emergência. Num mundo de inspiração asiática, uma rapariga arcânica vê-se no cerne de uma disputa de anos entre humanos e arcânicos. Muito embora pareça inofensiva, Maika Meiolobo tem dentro de si um poder imensurável, o resquício de um mal muito antigo que tem permanecido adormecido. Brilhante na arte e com um argumento maravilhoso, Monstress atira-nos para um mundo que levamos tempo a compreender, no qual a liderança matriarcal e a linguagem crua e direta nos absorvem de forma natural desde o primeiro momento.

Sem títuloPrimeiro volume da série Rebeldes Europeus da autora nacional Jay Luís, publicada pela Pastel de Nata Edições, Conquista da Liberdade é uma distopia interessante sobre um grupo rebelde que tenta resgatar famílias para colónias espaciais quando o nosso mundo foi dominado por um tirano de origens islâmicas. Duas irmãs que fazem parte desse sistema lutam contra a tirania, ao mesmo tempo que tentam proteger a sua própria família. Um livro algo fraco a nível de escrita, com muito a ser melhorado num próximo volume. Num outro patamar de qualidade está o livro de Pedro Cipriano, As Nuvens de Hamburgo, publicado pela Flybooks. O autor faz-nos vestir a pele de Marta, uma estudante de Erasmus em Hamburgo que começa a ter visões de acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo que tenta descobrir o que se passa consigo, procura usar o dom para fazer algo de importante. Um livro de leitura rápida e vocabulário simples que funcionou muito bem e agradou-me. O quarto volume da Saga O Regresso do Assassino de Robin Hobb, A Jornada do Assassino, não tem nada de muito original ou rasgos de génio, mas as ligações entre os personagens e entre os personagens e o leitor são incríveis e a escrita de Hobb é simplesmente maravilhosa. Respeitador avança na sua jornada para as Ilhas Externas acompanhado de Fitz, Breu, Obtuso e companhia, mas tanto o reencontro com a narcheska Eliânia como a procura do dragão não são exatamente como esperavam. Uma fantástica série publicada pela Edições Saída de Emergência.

Sem TítuloAgosto começou com ficção científica, também publicada pela Saída de Emergência. Escrito por Ursula K. Le Guin, Os Despojados narra a estadia de um físico natural de Anarres no seu planeta gémeo, Urras, de modo a conhecer melhor aquela civilização e a ajudá-los com os seus estudos. Rapidamente, porém, Shevek percebe o alcance da manipulação de que é alvo. Um livro bastante filosófico e político, acima de tudo uma dura crítica social aos regimes capitalistas, mas que acaba por mostrar que nenhuma civilização é perfeita e nenhum estado social consegue estar imune a vários e sérios problemas. Um livro que me deliciou, em parte graças à escrita envolvente de Ursula, mas que demorei a ler, por em determinados momentos ser algo confuso e aborrecido. Vencedor do Prémio Divergência em 2015, Anjos é o romance de estreia de Carlos Silva e o primeiro livro de solar punk em Portugal. Num futuro longínquo, o nosso país foi vítima de um terramoto. Seguiu-se um período de várias mudanças a nível social e tecnológico, que se traduziu num novo modo de vida. O Portugal que conhecíamos transformou-se. É um livro pequeno e por vezes pouco equilibrado na chuva de pontos de vista que nos quer mostrar, ainda assim de uma qualidade acima da média dentro da literatura nacional.

Sem títuloOs Mares do Destino é o terceiro volume da saga Elric de Michael Moorcock, e o último publicado em Portugal pela Saída de Emergência. Nesta aventura do imperador albino, acompanhamo-lo através do Multiverso, conhecendo países e culturas que julgava impossíveis. Dos mares revoltos, onde conhece uma jovem predestinada, ao navio de um capitão onde encontra três facetas de si próprio, Elric percorre um gólgota de devastação onde a sua vida encontra-se sempre em risco. É quando conhece um duque careca e enfrenta um antepassado que a jornada ganha finalmente sentido, no encontro das suas origens e das origens do seu povo. Um volume de que gostei bastante, porque apesar de não acrescentar nada de novo à trama conseguiu envolver-me. Uma prova de que as velhas histórias de espada e feitiçaria continuam a fascinar-me. Lançado pela G Floy Studio Portugal, Bruxas | Wytches é um produto de sucesso de um dos principais argumentistas de Batman, Scott Snyder. Com ilustração de Jock, Wytches é uma história tensa e incrível sobre uma família que tenta ultrapassar uma tragédia que os marcou a todos e unir os fragmentos do que tinham. A jovem Sailor não se consegue adaptar à nova escola nem à nova vida, e nessa espiral depressiva descobre que a floresta à volta da casa nova está pejada de bruxas. Para piorar, ela está marcada para morrer. Estas bruxas de Snyder são, no entanto, bem mais monstruosas do que a visão comum das mesmas. Não me maravilhou, mas gostei bastante e a arte está brutal.

Sem títuloA minha última leitura de agosto foi A Forca, o segundo volume da série A Primeira Lei de Joe Abercrombie. Enquanto Bayaz conduz Logen Novededos, Jezal dan Luthar, Ferro Maljinn, Malacus Quai e Pé-Longo até aos confins do mundo para encontrar um artefacto mágico capaz de salvar o mundo, o major West é obrigado a enfrentar os exércitos de Bethod e resistir à futilidade das ordens do príncipe Ladisla, a quem foi confiado. No sul, os exércitos gurkeses montam cerco a Dagoska, o último bastião da União naquelas paragens, e o inquisidor Glotka é enviado para lá não só para resistir ao cerco como para descobrir o que aconteceu ao seu antecessor. Arruinar uma conspiração torna-se, no entanto, o menor dos seus problemas. Foi um volume que melhorou em relação ao anterior, mas continuo sem gostar do núcleo principal. Os capítulos de Glotka, West e Cão foram, sem dúvida, o que salvou o livro. Uma edição 1001 Mundos. Pela Saída de Emergência, iniciei setembro com Os Dragões do Assassino. Numa toada semelhante à dos volumes anteriores, Robin Hobb desdobra a capa que encerrava todos os segredos no quinto e último volume da Saga O Regresso do Assassino. Os mistérios na Ilha de Aslevjal são finalmente descobertos, o dragão Fogojelo é arrancado da sua clausura sob o gelo e personagens como Castro, Fitz, Moli, Breu, Respeitador e Eliânia conhecem fins de maior ou menor felicidade. Um ciclo que foi encerrado com grande perícia e mestria por parte da autora canadiana, ainda assim houve algo que me fez não gostar tanto deste como dos anteriores.

Sem títuloO novo livro da autora Claire North, que já o ano passado havia surpreendido com As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, foi só a minha melhor leitura deste ano até ao momento. Envolvente, rico em pormenores e extremamente ambicioso, A Súbita Aparição de Hope Arden foca-se numa rapariga que desde os 16 anos viu toda a gente esquecer-se dela. Quando as pessoas deixam de a ver por segundos, esquecem-se do seu rosto e de quem ela é ou o que fez. Hope transformou-se numa rapariga esquecível, o que a obrigou a sobreviver por sua própria conta e risco e, à margem da sociedade, caiu no mundo do crime. A história é excelente mas foi sobretudo a escrita da autora que me encantou. Com argumento de One e ilustrações de Yusuke Murata, o terceiro volume de One-Punch Man, recentemente publicado pela Devir, leva os heróis Saitama e Genos a uma prova para determinarem a classe de super-heróis a que pertencem e verem os seus nomes registados na lista oficial. Depois, terão de lidar ainda com um motim de super-heróis e com monstros aborrecidos. Apesar de ter vários pormenores interessantes, a história vale sobretudo pelo braço-de-ferro entre Saitama e Genos e a insistência do ciborgue em ser ensinado por um homem que não está nem aí, nem sabe o que lhe haveria de ensinar. Parece-me, no entanto, um mangá que está longe de justificar o sucesso que obteve.

Sem títuloCheguei finalmente ao fim da saga A Torre Negra de Stephen King, publicado no nosso país pela Bertrand Editora. O último volume, com o mesmo nome, mostra Roland, Jake, Eddie, Susannah, Oi e o padre Callahan numa corrida contra o tempo para impedirem grandes males, mas a reta final da caminhada para a Torre Negra pertence exclusivamente a Roland de Gilead. Um livro que deixou a claro toda a simbologia criada pelo autor, foi uma história que me agradou imenso, os finais foram excelentes e as cenas de mortes incríveis. O pecado do livro, tal como havia verificado em livros anteriores da série, é o volume ostensivo de páginas, quando muitos capítulos são absurdamente dispensáveis. Já o conto do autor português Bruno Martins Soares disponível na Amazon, Moving, fala sobre livros (teimosos) e sobre Paulo, um homem averso a mudanças que é obrigado a aceitá-las. A escrita do Bruno é inteligente e fluída, mas também intimista, deixando-nos vestir a pele do personagem principal e nunca abandona a toada humorística durante a narração.

Sem TítuloTerceiro e último volume da série A Primeira Lei de Joe Abercrombie, A Coroa é um desenrolar de acontecimentos frenéticos e plot-twists de cortar a respiração. Bayaz e Ferro foram os personagens de que gostei menos e toda a magia envolvida soou-me forçada e anti-natural, quebrando a fluidez narrativa que Joe demonstrou ao desenvolver personagens como Glotka, Collem West ou Cão. Ainda assim, os personagens Jezal e Logen melhoraram bastante e, ainda que não tenha “comprado” a história nem gostado muito do final, fica claro que é uma trilogia a não deixar de ler. Primeiro volume da série The Dark Sea War Chronicles, Fighting The Silent do autor nacional Bruno Martins Soares estará disponível já dia 1 de outubro na Amazon. Trata-se de uma série de ficção científica protagonizada por Byllard Iddo, onde a ação acontece num sistema solar longínquo. Ali, uma guerra é travada entre o reino de Torrance e a temida República Axx. Após o fatídico incidente, Byl juntou-se à Marinha Espacial, onde se tornou tenente na poderosa armada de Webbur, a nação aliada a Torrance que estará na linha da frente para receber o embate de uma incursão inimiga. É um livro pequeno, muito bem escrito e original.

Neste momento estou a ler Elantris de Brandon Sanderson, e autores como Steven Erikson, George R. R. Martin, Edgar Allan Poe e Andrzej Sapkowski serão seguramente comentados por mim aqui no NDZ no próximo trimestre. Também as BD’s não serão esquecidas e os novos volumes de Saga e Tony Chu não me escaparão. Fiquem atentos.

Estive a Ler: Os Dragões do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #5

Castro ergueu a cabeça. Virou-se. Ainda hoje me lembro de cada instante daquele momento. Vi-o encher os pulmões de ar e ouvi, através do ressoar que tinha nos ouvidos, o profundo rugido do seu ultraje por alguma coisa ter o desplante de ameaçar o seu filho.

O texto seguinte aborda o livro “Os Dragões do Assassino”, quinto volume da série Saga O Regresso do Assassino

Os Dragões do Assassino compreende a segunda metade do livro Fool’s Fate, terceiro e último volume da trilogia The Tawny Man da autora californiana Robin Hobb, dividida em português em cinco volumes. Publicado originalmente em 2004, a versão portuguesa chegou às livrarias em 2012, pelas mãos das Edições Saída de Emergência, com tradução de Jorge Candeias.

«Os fãs de Hobb não ficarão desapontados com esta nova série.» é a recomendação utilizada pela editora na contracapa, pegando nas palavras do Monroe News-Star, uma publicação popular no Louisiana. De facto, com esta segunda trilogia passada no mundo de FitzCavalaria Visionário, Robin Hobb cimentou o seu papel como primeira-dama do mundo da Fantasia, e as 448 páginas deste volume são evidência da sua inegável qualidade.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/506795764291048011/

Li os 5 volumes da Saga O Regresso do Assassino este ano e ainda me pergunto como o fiz com tanta facilidade e entrega, depois de ter lido a primeira saga de forma tão morosa e amargurada. A verdade é que a Saga do Assassino não é má, nunca o cataloguei como tal, mas a beleza do seu mundo e o alcance de tudo o que ocorreu nesses primeiros livros só são compreendidos e deglutinados nesta segunda sequência. O mundo de The Realm of Elderlings não me maravilhou pela simples razão que pouco de traz de novo ao universo da Fantasia, mas aquilo que Robin Hobb faz nesse mundo tão corriqueiro acabou por encantar-me.

A escrita de Hobb é, sem a menor dúvida, o ingrediente secreto. Sem a forma elegante com que escreve, os estados de alma que consegue transmitir, os dilemas e aceitações do protagonista, esta série dir-me-ia muito pouco. Mas ela transforma personagens triviais em criaturas de carne e osso, cujos desgostos e vibrações conseguimos sentir como se fossem nossos. É a maturidade com que a autora californiana põe a descoberto uma trama simples que a transforma numa série complexa, sentimental, poderosa. Dificilmente encontrarei um autor de fantasia que me faça sentir com tanta profundidade a dureza da vida real e as consequências das escolhas.

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Fonte: http://saidademergencia.com

Neste quinto volume, encontramo-nos na ilha de Aslevjal, onde o príncipe Respeitador está destinado a cortar a cabeça a um dragão e colocá-lo na lareira da narcheska Eliânia das Ilhas Externas, se pretende consumar o casamento que salvará os Seis Ducados de uma nova guerra. No entanto, a tarefa não se adivinha fácil. Não só existe o Hetgurd, o conselho de clãs das Ilhas Externas que não parece muito determinado em permitir que o dragão seja morto, como o próprio dragão de que falam as lendas, Fogojelo, está enterrado debaixo do gelo, e a tarefa de desenterrá-lo pode demorar muito mais tempo do que seria desejável.

“É a maturidade com que a autora californiana põe a descoberto uma trama simples que a transforma numa série complexa, sentimental, poderosa.”

Complicando a situação, o Círculo de Manha do príncipe sente a presença do dragão, o que não só deixa claro que ele está vivo, como também os leva a sentir relutância em matá-lo. As emoções tomam conta de todos e depressa o contingente do príncipe sente-se dividido em relação ao que deve fazer. Também Respeitador partilha das suas dúvidas e descrenças, sendo a mão sempre obstinada de Breu, o conselheiro real, a lembrá-lo dos seus deveres e das consequências que podem advir de uma mudança de planos.

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Fonte: http://www.unboundworlds.com/2016/03/cage-match-2016-round-1-fitzchivalry-farseer-and-nighteyes-vs-prince-caspian-and-reepicheep/

FitzCavalaria Visionário, conhecido pela maioria dos presentes como Tomé Texugo, um mero criado, também sente as suas próprias mágoas e considerações. Mas, acima de tudo o resto, cansaço. Toda a viagem até à ilha foi o responsável por Obtuso, o simplório criado de Breu que, não só se revelou o mais poderoso de entre os presentes na magia do Talento, como revelou-se também intratável durante a travessia dos mares. A sua aversão a barcos e os contínuos enjoos exigiram a intervenção de Urtiga, a filha de Fitz que revelara um especial dom para a arte do Talento através dos sonhos, como de Teio, o Mestre da Manha que possui uma experiência e sensatez difícil de igualar.

No entanto, comer um bolo que Peotre Águapreta, o tio de Eliânia, lhe ofereceu, foi o que realmente o deixou de rastos. O bolo continha casco-de-elfo, uma substância que aplaca o uso de Talento, mas que, naquelas circunstâncias, o deixou completamente inutilizado no uso da magia, mas também com uma especial apetência para falar. Das suas desilusões. Das suas amarguras. Do seu fado inglório.

O seu amigo Bobo, aquele que todos conhecem agora como Dom Dourado, apareceu misteriosamente na ilha, depois dos esforços concertados entre Fitz e Breu para impedirem a sua saída de Torre do Cervo, uma vez que este previra que encontraria em Aslevjal a própria morte. A relação entre Fitz e o Bobo encontra-se, então, num impasse, uma vez que Fitz traíra o seu amigo na tentativa de salvar-lhe a vida. Pouco a pouco, porém, a leitura do seu próprio ponto de vista e o transcorrer dos acontecimentos vem derreter o gelo que se implantara entre ambos.

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Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/30688013-assassin-s-fate

O Homem Negro é um dos mistérios daquela ilha. É visto como uma figura lendária, que aparece esporadicamente e só para aceitar as oferendas que lhe são deixadas. Quando ele não as faz desaparecer, é visto como um sinal de mau agouro. Mas mais terríveis dos que os assomos inesperados dessa figura escura, são as lendas que falam da Mulher Pálida, a profeta que acompanhou Quebal Pancru na liderança das Ilhas Externas durante a Guerra dos Navios Vermelhos, uma figura marginal frequentemente ligada ao ato do Forjamento, a captura emocional de um ser humano que transformara milhares de ilhéus e povos dos Seis Ducados em pouco mais do que criaturas sem valores nem consciência deles, exércitos despojados de qualquer tipo de comiseração durante os anos terríveis da guerra.

Quando Ordem e Enigma desaparecem, cabe a Fitz, ao Bobo e a Obtuso seguirem o seu rasto, mas esse rasto pode conduzi-los às profecias tecidas pelo Bobo e às mais terríveis profundezas de Aslevjal. Como sempre, cabe a Fitz, o Catalisador, operar as mudanças que revolucionarão os destinos do mundo. Mas, paralelamente a isso, há um dragão para ser desenterrado, e um outro, Tintaglia, a fêmea de Vilamonte, tem ainda uma palavra a dizer num despique que, de uma forma ou de outra, terminará em tragédia para todos.

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Fonte: https://vlac.deviantart.com/art/Fool-s-Fate-126177501

Robin Hobb deixou para este volume as maiores emoções da saga, mas, no entanto, acabou por não ser o meu volume preferido. Os Dragões do Assassino oferece-nos uma imensidão de acontecimentos, apresentou-nos vilões, dragões, batalhas, mortes importantes, revelações, reencontros e finais dignos e fidedignos para os personagens que vínhamos a acompanhar, demorei uma única semana para o devorar e, no entanto, coloco este livro um furinho abaixo dos anteriores. E, para ser sincero, não sei explicar bem porquê.

“Talvez aquilo que me fez não gostar tanto deste volume como dos anteriores foram as passagens com a Mulher Pálida.”

Adorei toda a intervenção de Castro neste volume. O homem que criara Fitz veio a ter um papel de grande importância nesta trama, e foi, ao longo das duas sagas, um dos meus personagens preferidos. Do início ao fim, apreciei tudo o que a autora lhe reservou. Deliciei-me ao ler as passagens de Paciência e Renda, e pouco me recordava delas da primeira saga; de qualquer jeito, nunca me pareceram tão maravilhosas. Breu continuou a ser Breu, com todas as tonalidades entre a sensatez de um velho conselheiro e a rebeldia de um velho senil. Respeitador e Eliânia, que belo casal. Que personagens.

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Fonte: https://vlac.deviantart.com/art/The-Narcheska-and-the-Prince-138334852

Sempre preferi que Fitz ficasse com Kettricken do que com Moli, a quem nunca achei a menor graça. Ainda assim, toda a forma como a história foi contada e o final que Hobb delineou, o modo como o contou, foi de mestre. Adorei tudo, desde os acontecimentos com os dragões, com Castro, com o Bobo, o regresso a Cervo, aos finais determinados pela autora. Gostei de Enigma, de Veloz, de Teio, dos filhos de Moli, dos dragões… Perguntem-me então por que não gostei tanto deste volume como dos anteriores?

Talvez aquilo que me fez não gostar tanto deste volume como dos anteriores foram as passagens com a Mulher Pálida. Achei uma personagem bastante cliché, como grande vilã, com propósitos algo óbvios e um tom algo decadente. Sinceramente não imagino outra forma de a qualificar, mas esperava algum volte-face em relação à sua identidade ou uma passagem menos materializada na trama. De qualquer forma, gostei da velocidade com que os acontecimentos em volta dela ocorreram e da forma como foram ultrapassados.

“Robin Hobb tornou-se uma das minhas autoras preferidas e a sua escrita maravilhou-me em toda sua extensão.”

Em jeito de balanço de saga, só posso tecer os mais rasgados elogios. Robin Hobb tornou-se uma das minhas autoras preferidas e a sua escrita maravilhou-me em toda sua extensão. Hobb ofereceu-nos uma história cheia de dilemas e debates morais, dúvidas e escolhas, mas acima de tudo ofereceu-nos um personagem plausível, atolado em problemas, que mostrou estar bem mais maduro e sensato do que o havíamos conhecido na primeira série. Nunca esperei que tivesse de passar por duas perdas tão duras durante esta saga, mas ambas fizeram-no crescer e resolver algumas das suas indecisões. Porque por vezes, quando demoramos muito tempo a escolher, a vida escolhe por nós.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Estive a Ler: A Jornada do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #4

Perguntei brevemente a mim próprio se os súbitos planos para a partida teriam alguma coisa a ver com a cena noturna que presenciara, mas depois vi a libertação de uma ave que levava a notícia da nossa partida e decidi que as novas nos teriam sem dúvida sido trazidas pelas mesmas asas.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Jornada do Assassino”, quarto volume da série Saga O Regresso do Assassino

O livro Fool’s Fate é o último da trilogia The Tawny Man, da autora de fantasia Robin Hobb. Em Portugal foi dividido em dois volumes, tratando-se este livro da sua primeira metade. Lançado em 2012 pela Edições Saída de Emergência, com tradução de Jorge Candeias, A Jornada do Assassino é o quarto volume da versão em português da saga intitulada O Regresso do Assassino.

Licenciada em Comunicação pela Universidade de Denver, a autora californiana Margaret Ogden é autora de diversos livros de fantasia contemporânea sob o pseudónimo Megan Lindholm, dedicando-se à fantasia épica com o nome Robin Hobb. Após alguns anos a viver no Alasca, reside atualmente em Tacoma, Washington.

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Fogojelo (Fonte: lollo.deviantart.com)

Os preparativos para a viagem

Para bem dos Seis Ducados, o Príncipe Respeitador deve contrair matrimónio com a princesa Eliânia, a narcheska das Ilhas Externas. Um falhanço no enlace pode conduzir os povos a uma guerra tão letal quanto foi a Guerra dos Navios Vermelhos. Todavia, uma ofensa do príncipe levou a narcheska e erguer-lhe um desafio. Para se casar com ela, deve entregar-lhe a cabeça de uma figura lendária, o dragão Fogojelo, enterrado na ilha de Aslevjal. A Jornada do Assassino começa com os preparativos para a viagem.

FitzCavalaria, sob o disfarce de Tomé Texugo, prossegue a sua função como Mestre do Talento do Príncipe. Claro está, tanto ele como o seu mentor Breu ou o atrasado Obtuso irão participar na jornada do príncipe, uma vez que são o seu Círculo de Talento, peça provavelmente fundamental na tarefa de matar o dragão. Quem também irá acompanhá-los é o Círculo de Manha de Respeitador. Para além de dotado na magia da nobreza, o Talento, o Príncipe Respeitador é também Manhoso, precisando exercitar-se na magia dos animais.

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(Fonte: starvingdesigner.blogspot.com)

O que preocupa Fitz é, acima de tudo, a profecia do Bobo. O seu velho amigo, que dá agora pelo nome de Dom Dourado, parece gastar fortunas ao jogo, apenas para se ver livre de todo o seu pecúlio. Afinal, ele profetizou que iria morrer na demanda para Aslevjal, de modo a conservar o dragão vivo e proporcionar o encontro entre Fogojelo e Tintaglia, o dragão fêmea dos Ermos Chuvosos, e garantir a sua prole. Enquanto Fitz parece bastante preocupado com a ideia de ver o amigo morrer, Breu está incomodado com a ideia do Bobo em salvar o dragão, podendo com isso arruinar os planos da Rainha.

Os temores de Breu e Fitz unem-se numa concordância: o Bobo não deve partir de Torre do Cervo. Enquanto ganha coragem para resolver velhas querelas e deixar o destino do filho adoptivo, Zar, entregue a ele mesmo, Fitz tem ainda um problema a resolver. Ele descobre que Veloz, o filho de Castro, o homem que o criou, com Moli, a mulher que sempre amou, está em Torre do Cervo para servir a Rainha e treinar a Manha, não com o aval dos pais, mas por sua própria conta e risco.

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Bobo (vlac.deviantar.com)

Aterrorizado com o desassossego dos pais para com o desaparecimento de Veloz, Fitz contacta Urtiga, a sua filha, criada por Castro como dele, dando-lhe conta de que o irmão está em segurança e que em breve estará de regresso a casa. De facto, Fitz manda-o embora, quase ao mesmo tempo que descobre algo inquietante: Teio, o Mestre da Manha, vinculado a uma gaivota chamada Risca, sabe quem ele é. FitzCavalaria Visionário, o herdeiro bastardo de Cavalaria. O lendário Bastardo Manhoso.

Breu consegue impedir que o Bobo viaje com o grupo para as Ilhas Externas. Através das suas influências, o conselheiro da Rainha faz com que o Bobo seja feito prisioneiro, pelo menos o tempo suficiente até zarparem e estarem longe e em segurança. Apesar de saber que não podia deixá-lo viajar consigo, sabendo que ele iria morrer, Fitz não se sente confortável com aquilo, pesando-lhe a consciência. A viagem para as Ilhas Externas é morosa e terrível, muito por culpa de Obtuso. Fitz é destacado para o acompanhar, o que se revela uma tarefa árdua. O jovem está sempre enjoado e a vomitar, e só quer voltar para casa.

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Fitz e o Bobo (Fonte: foolsbeloved.tumblr.com)

Apenas a ajuda de Teio socorre Fitz do seu calvário. O homem parece dotado na arte de acalmar e a forma como lida com as pessoas fá-lo lembrar do modo como Castro lidava com os animais, na sua infância. Também Urtiga, através dos sonhos, consegue acalmar Obtuso e minimizar o seu sofrimento. E é nos sonhos que Fitz é surpreendido pelo dragão Tintaglia, que tenta desesperadamente saber informações sobre Fogojelo e se é mesmo verdade haver outro dragão, um dragão vivo e capaz de lhe servir como parceiro.

Fitz descobre que Veloz desobedeceu à sua instrução e não voltou para os pais, integrando a frota e o Círculo de Manha do príncipe. Através de Urtiga, informa Castro de que o seu filho está com ele e em segurança, sabendo que, ao fazê-lo, o informa também de quem é e que está vivo. As repercussões de tal revelação podem fazer colapsar a relação de Castro com Moli, mas Fitz desconfia que essa relação está há muito puída.

A instabilidade de Obtuso é uma constante e Fitz martiriza-se por obrigá-lo a continuar, mesmo sabendo que ele é o mais poderoso de entre eles na arte do Talento. Vítimas de comentários trocistas e da volatilidade dos homens, chegam às Ilhas Externas, onde o Hetgurd, um concílio de clãs, deixa claro que, qualquer que seja o resultado da caça ao dragão, poderão haver conflitos prejudiciais para todos. Peotre Águapreta, o tio de Eliânia, rouba-os ao concílio para os levar até à narcheska. Fitz percebe que ela está mais adulta do que a conheceram em Torre do Cervo, como também percebe que o desprezo entre ela e o príncipe se transformou em algo, que pode muito bem resultar em amor.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Os poderes do Assassino tornaram-no uma lenda.
Mas quando ensinar o herdeiro a usá-los, ficará o reino mais seguro ou irremediavelmente perdido?
Depois do desafio lançado ao Príncipe Respeitador pela narcheska das Ilhas Externas, só lhe resta embarcar para o país de Eliânia em busca do dragão de Aslejval que tanto pode existir como não passar de uma lenda antiga.
Fitz, o mais famoso e temido assassino do reino, irá com ele. Mas a partida do herdeiro ao trono dos Seis Ducados para uma atribulada viagem marítima até uma terra de antepassados e inimigos não é algo que se faça de ânimo leve.
Que desafios irão ter de enfrentar os nossos heróis? As magias que ambos manejam imperfeitamente, serão uma ajuda ou um empecilho?
E o que acontecerá aos Seis Ducados se o herdeiro desaparecer
para sempre nessa terra misteriosa e distante?

OPINIÃO:

A leitura deste livro foi deliciosa. Atrevo-me a dizer que foi “só” o melhor que já li este ano. Robin Hobb supera-se, livro após livro, e só não dou este A Jornada do Assassino como o melhor livro que já li graças a um obstáculo chamado precedentes. Falta-lhe a excentricidade de Scott Lynch e a paixão visceral de George R. R. Martin, mas ainda assim a escrita dela é de uma candura, de uma maleabilidade, de um encanto, de me deixar com o queixo caído. Robin Hobb conseguiu, nesta segunda série dedicada a FitzCavalaria, tornar-se uma das minhas autoras favoritas.

O que dizer das relações que ela cria? Cada personagem é de um maravilhamento fantástico, estejamos a falar de Fitz, Bobo, Obtuso, Breu, Respeitador ou Eliânia. Até mesmo a personagens muito mais secundários como Enigma ou Berbigão a autora consegue dar uma humanidade palpável. Fitz é o cúmulo de toda a sua grandiosidade como contadora de histórias. Sentimos cada desilusão, cada nó no estômago, cada linha de relacionamento daquele personagem. E é impossível não adorá-lo, mesmo quando ele erra, mesmo quando ele se escuda de um orgulho desnecessário. É uma personagem admirável.

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Cenas de Fool’s Fate (Fonte: ginger-snuffkin.deviantar.com)

A história ganhou mais fôlego e mais potencial com a saída para as Ilhas Externas. Esta jornada é uma brisa de ar fresco na narrativa e fica a sensação de que tudo pode acontecer para os nossos protagonistas. Eles estão todos ali. E mesmo com os personagens que não vemos, como Moli, Castro ou Kettricken, sentimos o que está a acontecer com eles, através das informações que chegam ao narrador. Desde que li As Crónicas de Gelo e Fogo que não me sentia tão viciado numa série literária. Acabo este livro com vontade de devorar o próximo.

“Fitz é o cúmulo de toda a sua grandiosidade como contadora de histórias. Sentimos cada desilusão, cada nó no estômago, cada linha de relacionamento daquele personagem.”

Robin Hobb não se reserva a plot-twists. Não lhe basta fazer variações de rumo narrativo, coser linhas de relacionamentos genuínas e maravilhosas, e fazer evoluir as personalidades dos personagens. Ela também cria surpresas. E quantas. A autora consegue a proeza de contar uma história dedinho a dedinho, correndo o risco de incorrer numa narração lenta, e fazer-nos sempre tropeçar em surpresas quando menos esperamos. Até as imensas páginas de enjoos marítimos de Obtuso conseguiram agradar-me. Senti vontade que o livro não acabasse, o que é muito raro de acontecer.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Vamos Viajar com Robin Hobb: Menções de Honra

Olá, olá! Espero encontrá-los bem desse lado. Como sabem, ou deviam saber, hoje é o último dia do desafio Vamos Viajar com Robin Hobb, um passatempo que tive muito gosto em organizar e que me proporcionou muitos e bons momentos nos últimos dois meses. Este desafio consistiu em ler livros da autora Robin Hobb, de 8 de maio a 8 de julho, no âmbito do lançamento nacional do livro O Assassino do Bobo. Como estive mais atrasado na leitura, acabei por ler os livros Os Dilemas do Assassino e Sangue do Assassino, da série anterior, durante este período.

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Breu Tombastrela (Fonte: moriadat.deviantart.com)

Quero agradecer a todos os que se disponibilizaram a colaborar comigo neste passatempo, nomeadamente à Edições Saída de Emergência, pelos livros cedidos, e a todos os que participaram. Organizei uma ida à Feira do Livro de Lisboa, onde estive com o Ruben Lopes (blogue Enjoy Story), o Paulo Dores (blogue Fiacha O Corvo Negro) e a São Bernardes (blogue Folhas do Mundo), um sorteio do livro O Assassino do Bobo, que foi feito em direto na minha página de facebook e que ditou a Helena Isabel Bracieira (blogue As Horas… que me Preenchem de Prazer) como vencedora, e chegou por fim a hora de encerrar este desafio com as respetivas menções de honra.

Desde o primeiro momento, o objetivo deste desafio passou por ler livros de Robin Hobb durante o período supracitado, resenhando-os em seguida. Os comentários deveriam ser-me entregues para a devida publicação neste post final. Comecei o desafio com quatro “voluntários”, número que ascendeu aos seis e que acabou pela metade, ou porque não terminaram os livros a tempo, ou porque tiveram “preguiça” para escrever uma opinião. De qualquer forma, agradeço a todos por terem participado, em especial à Mirtila Pratz, ao Paulo Dores e ao José Voller de Barros, por terem concluído os comentários a tempo (desconfio que o fariam mesmo sem o desafio 😀 ).

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Capa Saída de Emergência

Os Dilemas do Assassino (por Nuno Ferreira):

“Um mar de conflitos e de intrigas, Os Dilemas do Assassino é mais uma prova de que Robin Hobb é muito mais do que apresentou na primeira trilogia. Elegante, fluída e cheia de ritmo, esta leitura revelou-se bem mais célere e estimulante do que eu a imaginava. A promoção de reflexões interiores e a discussão sobre temas comuns a todos nós como a juventude, a honestidade e o bem-estar emocional foram maravilhosamente decompostos pela autora californiana, que em nenhum momento deixou cair o gume da sua “pena”.

Hobb apresenta-nos a um mundo fantástico e torna-o credível e isso é, sinceramente, o que mais me apraz em ler um livro. Ela relata com beleza cada cenário, sem excluir as ervas daninhas que, irrefutavelmente, povoam cada realidade. Se os momentos de introspeção, em outros momentos, me deixaram entediado com as aventuras de Fitz, aquelas que tenho agora oportunidade de ler surgem como um intervalo após cada acontecimento, levando-me a pensar sobre o mesmo, a maturar as questões e a respirar fundo. Cada introspeção revela-se tão ou mais deliciosa que os eventos em si.”

O Assassino do Bobo (por Miss Lamora):

“É com imenso gosto que escrevo esta opinião. Robin Hobb é uma das minhas autoras favoritas e desde que a Saída de Emergência começou a editar cá os seus livros que os tenho lido. Ora, depois de duas sagas maravilhosas, é uma delícia poder voltar a entrar neste reino e a visitar os Seis Ducados, Torre do Cervo e, principalmente, a encontrar FitzCavalaria Visionário, a minha personagem literária favorita. Ao começar este livro foi como se voltasse atrás no tempo ou como se voltasse a uma memória ou acontecimento muito querido. Deu-me uma sensação e emoção únicas e foi com grande alegria que me deixei levar pelas páginas desta brilhante aventura.

Robin Hobb é única. Mais uma vez dá-nos uma história que só ela podia ter escrito. As personagens continuam iguais, cheias de força e carisma, os locais também continuam a transmitir a mesma serenidade emocionante. A escrita continua a ser como que uma viagem serena, pacifica. É como um maravilhoso conto de antigamente, contado oralmente, no princípio dos tempos. Tudo neste livro faz lembrar os anteriores, tudo e nada. ”

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Vamos Viajar com Robin Hobb (Mapa Oficial dos Seis Ducados)
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Sangue do Assassino (por Nuno Ferreira):
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“Se a ação deste livro não se desenvolveu rapidamente ou de forma apaixonante, posso dizer que dificilmente seria um livro melhor se tal tivesse sucedido. A maravilha desta história não é a narrativa em si, mas sim a forma como é contada. A Saga Regresso do Assassino não se foca em magias, em sede de poder ou em batalhas, mas sim na natureza humana. Temas como o estigma e o preconceito são bastante debatidos, através das várias nuances de personagens. Fez-me rir que um personagem como Fitz, estigmatizado e até “arrancado ao mundo” primeiro por ser bastardo e depois por ser manhoso, se tenha mostrado tão desconcertado com suspeitas de homossexualidade.
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Ainda assim, a evolução do herói é digna de registo. Em alguns momentos, Fitz consegue ser mais maduro que o próprio Breu e, muito embora revele algum amadorismo na educação de Zar, os seus conselhos e advertências revelam muito do seu amadurecimento. A grande mais-valia de ler Robin Hobb é conhecer personagens credíveis e imperfeitos como Gina, a bruxa ambulante, que consegue ser uma pessoa tão palpável, real, que impressiona.”
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O Assassino do Bobo (por José Voller de Barros):
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“Robin Hobb desafia o «Viveram Felizes para Sempre” neste novo livro da Saída de Emergência. O último livro da autora já o li há alguns anos, mas mantenho presente a forma clássica com que Hobb provoca a empatia entre leitor e personagem principal, seja ainda exactamente a frustração do personagem que dê interesse ao livro. Robin Hobb joga com algo intrinsecamente humano que é a vontade de seguir a desgraça alheia, e reproduz com alguma destreza as amarguras de um personagem e as guinadas que ele tenta dar à vida, geralmente infrutíferas, para as ultrapassar.
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O Assassino do Bobo é uma sequela aliciante, partindo de um “Viveram Felizes para Sempre” para mais um carrosel vertiginoso de desgraça e cabeçada. É fidedigno o cenário psicológico montado por Hobb para o personagem-chave. Ela define o que significa acreditar numa coisa e perceber que perdeu tudo o que devia ser seu por causa disso. Fitz é um instrumento dos Visionário e a vida dele uma brincadeira de deuses. Eda e El num novelo. É preciso esperar para conhecer desenvolvimentos de relevo mas o sprint final é brilhante e a perda de um personagem surpreendeu. Desejam registar um nome? Fixem Abelha.”
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Robin Hobb (Fonte: Agnes Meszaros)
O Assassino do Bobo (por Paulo Dores):
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“Torna-se fácil considerar Robin Hobb a minha escritora favorita a nível de fantasia e sinceramente nunca esperei sentir-me tão maravilhado por regressar a Torre do Cervo e rever muitas das personagens por quem tanto sofri e adorei e ainda assim a escritora consegue surpreender-me deixando-me em muitos momentos comovido e com os sentimentos à flor da pele.
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As personagens são todas elas cativantes, a grande maioria já as conhecemos e mantém-se bem construídas, carismáticas, cheias de mistérios. Ainda assim a escritora consegue acrescentar algo deixando o leitor a suspirar por saber mais sobre as mesmas. Gostei do rumo que deu a várias e teve a coragem de nos dar um valente KO com uma que nos é bastante querida, mas que acaba por dar um grande volte face ao enredo que até ai estava a ser cativante mas sem avançar muito.
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Sério candidato a livro do ano, pelo menos na rubrica da Fantasia já não deve haver outro que me cative tanto.”
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Obrigado a todos por lerem, comentarem, ou simplesmente passarem por cá. Espero que tenham gostado de participar deste desafio (quem sabe em breve organize outro). Por cá, o desafio acabou, mas ler Robin Hobb está para durar. De momento, estou a ler A Jornada do Assassino. Fiquem atentos!

Resumo Trimestral de Leituras #10

Chegámos ao meio do ano e como tal chegou a hora de proceder a um novo balanço trimestral de leituras. Neste segundo trimestre, o destaque vai para Robin Hobb, não só porque organizei um desafio relativo à autora californiana, mas também porque li três livros dela que andaram perto de ser os melhores deste trimestre. Melhor que Hobb só Patrick Rothfuss. Li as duas partes de O Medo do Homem Sábio, e embora a primeira tenha sido significativamente melhor, a Crónica do Regicida tornou-se uma das minhas sagas preferidas. As minhas leituras nos meses de abril, maio e junho foram:

One-Punch Man #1 – One e Yusuke Murata

O Diário do Meu Pai – Jiro Taniguchi

Poder e Vingança, Império das Tormentas #1 – Jon Skovron

Terra de Sonhos – Jiro Taniguchi

Presas Fáceis – Miguelanxo Prado

As Águias de Roma Livro V – Enrico Marini

O Regresso do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #1 – Robin Hobb

Como Falar com Raparigas em Festas – Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá

Dejah Thoris #1 – Frank J. Barbiere e Francesco Manna

A Dança das Andorinhas – Zeina Abirached

O Rei Macaco – Silverio Pisu e Milo Manara

Imperador dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #3 – Mark Lawrence

A Fortaleza da Pérola, Elric #2 – Michael Moorcock

A História de um Rato Mau – Bryan Talbot

Bolos Janados, Tony Chu: Detective Canibal #6 – John Layman e Rob Guillory

Os Dilemas do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #2 – Robin Hobb

Os Senhores do Norte, Crónicas Saxónicas #3 – Bernard Cornwell

A Louca do Sacré Coeur – Alejandro Jodorowsky e Moebius

A Garagem Hermética – Moebius

Nimona – Noelle Stevenson

O Medo do Homem Sábio Parte 1, Crónica do Regicida #2 – Patrick Rothfuss

All is Lost, The Walking Dead #28 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

O Medo do Homem Sábio Parte 2, Crónica do Regicida #2 – Patrick Rothfuss

One-Punch Man #2 – One e Yusuke Murata

Uma Ruína Sem Fim, Outcast #2 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

Duas Vezes Contado, Harrow County #2 – Cullen Bunn e Tyler Crook

Sangue do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #3 – Robin Hobb

Sem TítuloComecei o segundo trimestre com a leitura de alguma banda-desenhada. Publicado pela Devir, o primeiro volume da edição em mangá de One-Punch Man apresenta um super-herói entediado com a facilidade com que derrota os adversários. A Humanidade é frequentemente atacada por monstros, que parecem não ter fim. No entanto, este herói parece mais preocupado em manter o seu apartamento inviolado. Uma história provocadora, com argumento de One e arte de Yusuke Murata, que não me fascinou pessoalmente. Depois, li duas novelas gráficas da Levoir, da autoria de Jiro Taniguchi, autor falecido em fevereiro deste ano. Para além de tocante e reflexivo, O Diário do Meu Pai mostra que aquilo que compreendemos nem sempre está próximo da realidade. O outro álbum, Terra de Sonhos, apresenta cinco contos que mesclam a ternura à reflexão. Um casal sem filhos sofre com os últimos dias do seu animal de estimação, e quando ele morre juram não mais adotar nenhum outro. Mas quando uma gata persa, grávida, lhes surge nas vidas, tudo muda.

Sem títuloPoder e Vingança é o primeiro livro de Jon Skovron no registo fantasia adulta, com a marca de qualidade Saída de Emergência. Divertido e cheio de ritmo, o Império das Tormentas é um mundo bem construído que apresenta Esperança Sombria e Ruivo, dois personagens que vêm os seus percursos cruzar-se quando os criminosos que controlam Círculo do Paraíso começam a colaborar com os biomantes, servos místicos do Imperador. A escrita do autor não me convenceu, mas foi uma boa leitura. Piratas e ladrões, coleccionadores de arte e inventores, samurais, mutações humanas e perseguições sem fim. Disfarçado de alegoria, a BD da Levoir Presas Fáceis, da autoria do autor espanhol Miguelanxo Prado, é uma história inquietante sobre os interesses nefastos da banca. A burla é o tema central. Uma série de homicídios de pessoas ligadas à banca e o suicídio de um casal de idosos arrasta a inspetora Olga Tabares para uma investigação que levanta um sério debate moral. Saltei para o livro V da série gráfica As Águias de Roma, que oferece ao leitor um sucedâneo de emoções. Da revelação da paternidade de Tito à denúncia dos planos de Armínio, Enrico Marini desenha com precisão o clima bélico da Roma Antiga e coloca o embate entre Marco e o seu irmão de criação num patamar superior. Excelente álbum das Edições Asa, que prossegue a um ritmo altíssimo.

Sem TítuloComecei a segunda série de Robin Hobb focada em FitzCavalaria Visionário. O primeiro volume de O Regresso do Assassino mostra-nos o protagonista quinze anos mais velho. O mundo pensa que ele morreu, mas a verdade é que estabeleceu-se como camponês ao lado do seu lobo Olhos-de-Noite e acolheu um jovem órfão chamado Zar. A visita do seu amigo Bobo, agora transformado em Dom Dourado, e a revelação que o príncipe Respeitador desapareceu misteriosamente, colocam de novo Fitz na órbita de Torre do Cervo e das suas intricadas intrigas. Um volume que me fascinou do primeiro ao último momento, melhorando substancialmente em relação à primeira série. Depois de já ter lido o conto, há dois anos atrás, na antologia Coisas Frágeis, foi de bom grado que li a adaptação para BD de Como Falar com Raparigas em Festas. Pelas mãos da dupla brasileira Fábio Moon e Gabriel Bá, esta história de Neil Gaiman sobre dois jovens adolescentes nos anos 70 que, dedicados a fazer sucesso numa festa cheia de raparigas, descobrem que elas não são bem aquilo que pensavam, revelou-se uma lufada de ar-fresco. Divertido e despretensioso, é mais um excelente álbum trazido para o nosso país, desta feita pelas mãos da Bertrand.

Sem títuloCom argumento de Frank J. Barbiere e ilustrações de Francesco Manna, a BD Dejah Thoris é o primeiro volume de uma série da Dynamite Entertainment sobre a princesa de Marte da obra de Edgar Rice Burroughs. Casada com o terráqueo John Carter, Dejah vê-se vítima de um complot dentro do palácio para afastar a sua família do poder, fazendo desaparecer o seu pai e culpando-a por isso. Dejah Thoris é assim obrigada a fugir da cidade e mudar de identidade. Apesar de o argumento ser relativamente bom, foi também previsível e ficou um pouco aquém das expetativas. O mesmo para a arte, que valeu pela cor. Publicada na Colecção Novela Gráfica da Levoir com o jornal Público, A Dança das Andorinhas, da libanesa Zeina Abirached, encanta pela forma inocente e quase cómica com que um grupo de pessoas lida com a guerra. Separados do mundo e refugiados num átrio, os personagens são obrigados a encarar a vida como ela lhes é oferecida. Foi uma BD que não me apaixonou, mas fez-me refletir.

Sem título 2Entrei em maio com a BD O Rei Macaco da Arte de Autor. Com arte de Milo Manara e argumento de Silverio Pisu, trata-se de um mergulho nas tradições orientais. É uma releitura da Jornada para o Oeste, para encontrar o Jovem Macaco em busca da eternidade, com o Imperador de Jade disposto a dificultar-lhe a tarefa. Apesar de ser uma obra de referência, muito bem humorada, a nível de arte já vi melhor de Manara, o que se compreende uma vez que este foi um dos seus primeiros trabalhos. O terceiro e último volume da Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence, publicado pela TopSeller, Imperador dos Espinhos veio cimentar a minha opinião sobre a obra. O autor convence com a escrita, mas a história continuou confusa, sem uma proposta clara ou um plot bem definido. Um livro mediano, numa trilogia mediana. A Fortaleza da Pérola, de Michael Moorcock, mostra-nos Elric na cidade de Quarzhasaat, onde é chantageado por um nobre local a dar-lhe uma pérola desaparecida no deserto em troca de um antídoto para a droga que lhe haviam dado. Elric inicia assim uma viagem pelo deserto que o levará a Varadia, uma menina que ficou em estado comatoso desde que viu a sua integridade violentada. Mais uma excelente leitura, como Moorcock já nos habituou.

Sem títuloBaseado na história de vida da autora de livros infantis Beatrix Potter, o autor Bryan Talbot escreveu e desenhou uma BD tocante e metafórica sobre uma jovem que, vítima dos maus tratos dos pais e sentindo-se culpada pelos abusos sexuais que sofreu, acaba nas ruas de Londres, a sobreviver como sem-abrigo. A História de Um Rato Mau foi uma leitura reflexiva, que não me agradou no seu todo pelo peso que tomou, em certo ponto. Das novelas gráficas da Levoir passei para os grandes lançamentos da G Floy. Bolos Janados é mais uma aventura do detective mais louco da BD, Tony Chu, desta feita protagonizada pela sua irmã-gémea, Antonelle. Desde um leilão polémico até a um casamento de final abrupto, passando por uma aliança inusitada entre a NASA, a FDA e a USDA, somos convidados a percorrer uma série de aventuras com a participação sempre especial do galo Poyo. A história não desilude, mantendo-se fresca, colorida, bem-humorada e com muitas, muitas vísceras à mostra. Geniais, John Layman e Rob Guillory mantêm a toada. No seguimento do meu desafio com o apoio da Saída de Emergência li Os Dilemas do Assassino de Robin Hobb. FitzCavalaria continua mais perdido do que nunca, agora que é um homem adulto e tem de lidar com uma série de questões políticas e com a imaturidade dos mais jovens. Este segundo volume tem mais mistérios e alguma magia, relacionada com um rapaz de pele escamada e com a narcheska Eliânia, mas também referências a dragões e a navivivos, que me agradou.

Sem títuloTerceiro volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, Os Senhores do Norte mostra-nos Uthred a caminho do norte, enraivecido com o Rei Alfredo pela ridícula recompensa que lhe deu depois de tudo o que fez para que vencesse a importante Batalha de Ethandun. Disposto a recuperar a Bebbanburg que o viu nascer, Uthred “tropeça” em Guthred, um dinamarquês convertido ao Cristianismo que pretendia reclamar para si o norte. Mais um magnífico livro cheio de passagens belas e inquietantes, com o selo de qualidade Bernard Cornwell e Saída de Emergência. Escrito por dois dinossauros da BD, Alejandro Jodorowsky e Moebius, A Louca do Sacré Coeur conta a história de um professor de filosofia da Sorbonne, tradicionalmente vestido de lilás que, assediado por uma das suas alunas, sucumbe à tradicional crise de meia-idade e vê-se arrastado para uma parafernália de rituais bizarros que mesclam o religioso e o misticismo a práticas sexuais completamente lunáticas. Um livro que me agradou nas ideias e no desenho, mas que achei um pouco mal executado, ou pelo menos sem brilho. Outra grande obra de Moebius pelas mãos da Levoir, A Garagem Hermética é uma história confusa de ficção científica que gira à volta do Major Grubert. O misterioso personagem concebe um asteróide que cabe no seu bolso através de treze geradores. Porém, no interior desse corpo existem três mundos e vida, possivelmente tão real como a nossa. Mas quem será este enigmático Major Grubert? Gostei imenso, mesmo não percebendo muito da história.

Sem TítuloO mês de junho começou com Nimona, da norte-americana Noelle Stevenson, que marca o regresso da Saída de Emergência à publicação de BD’s. Nasceu como um trabalho universitário da autora, mas foi como webcomic que alcançou o sucesso e transformou autora e personagem em celebridades. Dona de um traço único e de um humor aguçado, Stevenson aborda temas como a amizade, a falsidade, o controlo dos media pelas forças de poder e a homossexualidade, de forma simples e divertida, num mundo marcadamente medieval com televisões, computadores e tecnologias futuristas. Em senda de leituras maravilhosas, seguiu-se o segundo volume da Crónica do Regicida (Parte 1 e Parte 2), publicado em português pela ASA/1001 Mundos. O Medo do Homem Sábio traz-nos de volta ao mundo escrito por Patrick Rothfuss. Depois de sobreviver às artimanhas de Ambrose, Kvothe sobrevive na Universidade, pagando as “propinas” com a música que faz em Imre, a cidade vizinha, e com os empréstimos que forja com Devi, a lendária ex-aluna da Universidade. É quando uma acusação antiga lhe bate à porta que surge a oportunidade de arranjar um mecenas, o que o leva para longe, para a distinta Vintas. Enquanto a primeira parte foi, muito possivelmente, dos melhores livros que já li na vida, o segundo perdeu bastante em comparação, ainda que a escrita do autor continue como uma das maravilhas da série.

Sem títuloMais um brilhante volume da BD The Walking Dead, All is Lost prossegue na rota de sucesso do argumentista Robert Kirkman, com a arte sempre consensual de Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano. Hilltop caiu e uma legião de walkers foi canalizada pelos Sussurradores em direção a Alexandria. Negan e Rick defendem a comunidade, mas os portões caem e Rick vê no seu antigo adversário um amigo improvável, o único que consegue ajudá-lo quando tudo parece desmoronar-se à sua volta. Mais um volume excelente e uma morte impactante com repercussões no futuro das BD’s. Li também o segundo volume do mangá One-Punch Man de One e Yusuke Murata, com quem tinha iniciado o trimestre. Uma série de apontamentos divertidos fazem-me olhar com agrado para este álbum, cuja proposta ou mesmo linha narrativa não oferecem nada de original ou interessante. E regressei a Robert Kirkman. Depois de ter lido o primeiro volume no início do ano, eis que chegou às bancas o segundo álbum de Outcast, Uma Ruína Sem Fim, com argumento do autor de The Walking Dead e ilustrações de Paul Azaceta. Argumento e arte casam na perfeição numa história sobre possessões que começa a dar maiores sinais de interesse, e com os mistérios a adensarem-se. Apesar de a história parecer demorar a avançar, notam-se os laivos de genialidade que atiraram Kirkman para as bocas do mundo.

Sem título 2Tal como o álbum de Outcast, Duas Vezes Contado foi um dos mais recentes lançamentos da G Floy no nosso país, lançado no Festival de BD de Beja. O segundo volume da BD de horror Harrow County, com argumento de Cullen Bunn e arte de Tyler Crook, revela um maior amadurecimento por parte do artista, ainda que o argumento não me tenha agradado por aí além. À medida que a protagonista Emmy vem aprendendo a lidar com os seus poderes e com as criaturas sobrenaturais que habitam Harrow County, tem também de proteger a povoação de um novo inimigo: a própria irmã gémea, Kammi. E terminei o trimestre com o terceiro volume da Saga O Regresso do Assassino. Em Sangue do Assassino, Robin Hobb volta a não desiludir. Vemos o protagonista FitzCavalaria arrastado para uma chuva de situações inusitadas, desde a ganância pela magia do seu velho mentor, à preocupação com os filhos, rumores de homossexualidade e principalmente a ameaça dos pigarços à sua integridade e à da família real. A obra, porém, oferece muito mais do que isso. Oferece pessoas reais, com defeitos e virtudes, e problemas que podiam ser partilhados por qualquer um de nós. Uma história enriquecedora.

Neste momento, estou a ler o livro Monge Guerreiro do autor brasileiro Romulo Felippe, e deverei continuar com as BD’s Southern Bastards, Velvet, Monstress e mais alguns livrinhos. Entre os nomes que pretendo ler nos meses de verão estão Ursula K. Le Guin e Joe Abercrombie, mas irei também concluir a Saga O Regresso do Assassino de Robin Hobb.

Estive a Ler: Sangue do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #3

Respirar o ar frio fez-me doer as costelas sovadas. Não havia muito a fazer quanto a isso. Havia uma doentia familiaridade na dor dos meus nós dos dedos inchados. Perguntei a mim próprio, com apatia, quando seria suficientemente velho e sensato para parar de me meter em lutas físicas.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Sangue do Assassino”, terceiro volume da série Saga O Regresso do Assassino

Sangue do Assassino é o terceiro volume da série O Regresso do Assassino, segunda série da autora Margaret Ogden sob o pseudónimo Robin Hobb, publicada em português pela Edições Saída de Emergência. Corresponde, na verdade, à segunda metade do livro Golden Fool, iniciado em Portugal com o volume Os Dilemas do Assassino. Foi lançado em 2011 por terras lusitanas, com tradução de Jorge Candeias.

A leitura deste livro está incluído no desafio Vamos Viajar com Robin Hobb, por mim concebido o mês passado no âmbito do lançamento nacional do livro O Assassino do Bobo, em parceria com a Edições Saída de Emergência. Este desafio consiste na leitura de um ou mais livros desta autora. Se ainda quiserem participar, podem enviar-me até dia 8 de julho uma opinião a um dos livros de Robin Hobb que leram durante este período.

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A autora com o nosso “avô sonecas” Martin (Fonte: youtube.com)

Uma amizade quebrada

A ação continua em torno de FitzCavalaria Visionário e as suas tentativas de preservar Torre do Cervo e a família real à qual pertence. O último livro terminou com a chegada da delegação de Vilamonte, exigindo apoio numa guerra aparentemente inevitável contra Calcede, o que coincidiu com o grito de revolta de Eliânia, a narcheska das Ilhas Externas prometida ao príncipe Respeitador. Ferida pelo desinteresse do noivo, a narcheska exigiu que apenas se casaria com ele caso o príncipe cortasse a cabeça a um dragão. Fogojelo, uma lenda das Ilhas Externas. Surpreendentemente, o príncipe aceitou o repto.

As gentes de Vilamonte abandonaram Torre do Cervo, assim como o séquito de Eliânia. À medida que os preparativos para a viagem do príncipe avançavam, FitzCavalaria, sob o disfarce do criado Tomé Texugo, via vários problemas a serem resolvidos. O Bobo parecia agora irreconhecível. A aparição de Jeque, mulher da delegação de Vilamonte, veio mostrar a Fitz uma nova perspetiva sobre o seu amigo de sempre, que se exibia agora como o nobre jamailiano Dom Dourado. Em Vilamonte, o Bobo fora visto como uma mulher de nome Âmbar, e havia esculpido a proa de um navio com o rosto de Fitz.

Os inúmeros rumores sobre a sexualidade de Dom Dourado e a relação entre ambos levaram Fitz a confrontá-lo, temendo que tais comentários chegassem aos ouvidos do seu filho adotivo, Zar. O Bobo revelou então a Fitz o seu amor por si, como sublinhou também nunca lhe ter pedido nada que não lhe quisesse dar. Um fosso de amargura ergueu-se entre os dois, e desde então o Bobo começara a lidar com Fitz como se fossem Dom Dourado e o seu criado Tomé, mesmo sem testemunhas à sua volta.

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Fitz e o Bobo fan art (Fonte: foolsbeloved.tumblr.com)

O círculo de Talento

A viagem do príncipe tornou também imperial que ele aprendesse as artes do Talento, o que se tornou de difícil realização depois de ele perceber que fora constrangido mentalmente por Fitz, com uma ordem de Talento. Ultrapassada a “birra” do rapaz, Breu conseguiu instar Fitz a tornar-se Mestre do Talento, pois tornou-se necessária a existência de um círculo capaz de proteger o príncipe durante a sua aventura. Obstinado em não deixar que envolvessem a filha Urtiga nesse projeto, Fitz aceitou forjar esse núcleo. O único possuidor de Talento à vista, no entanto, era Obtuso, o criado de Breu que, embora mentalmente retardado, revelou um dom incontrolável para a magia.

Apesar de Obtuso não gostar de Fitz, a quem chamou correntemente de “fedor de cão”, o Bastardo Manhoso conseguiu suborná-lo com um apito, um cachecol e muitos doces, levando-o a confiar em si. Através dessa confiança ténue, Fitz descobriu que Obtuso era um espião dos pigarços dentro da torre, levando-lhes informações confidenciais, mesmo que não as compreendesse. Ao descobrir que Louvovinho, o líder dos pigarços, encontrava-se na cidade, e exortado por Respeitador, que acreditava ter o seu amigo Cortês Bresinga em perigo, Fitz desceu à cidade.

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Bobo e Fitz (Fonte: goodreads.com)

Os Bresinga tinham sido utilizados pelos pigarços como isco para atrair Respeitador, e continuavam a ser manietados por eles, sob a ameaça de verem exposta ao mundo a sua natureza manhosa. Fitz encontrou Cortês à beira de ser estrangulado pelos homens de Louvovinho, e entrou em campo para o salvar. A intervenção de Fitz eliminou os pigarços em questão e um cavalo, animal de manha de Louvovinho, mas apesar de ter salvo a vida a Cortês, ficou gravemente ferido e sob a acusação de homicídio.

A ação concertada de Breu e de Dom Dourado transformou o criado num herói, através da história encenada de que os pigarços haviam roubado as penas coloridas de Dom Dourado, e que o seu criado os enfrentara para recuperar tais pertences. Porém, o resgate de Fitz e o regresso a Torre do Cervo não lhe curaria as feridas. Entre a vida e a morte, viu os seus amigos mais próximos a realizar uma tarefa inusitada. Os conhecimentos anatómicos de Breu, o imenso Talento de Obtuso, o controlo de Talento de Respeitador e a ligação que unia Fitz ao Bobo conseguiram-lhe reparar a terrível ferida.

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Breu (Fonte: moriadat.deviantart.com)

A preparação para a viagem

A recuperação, porém, foi lenta. À medida que ia compreendendo que encontrara, finalmente, o Círculo de Talento de Respeitador, testemunhou também o descontrolo e sede de Talento de Breu, a quem a arte fora vedada desde sempre, por ser um bastardo. Tal preocupação enublou a relação entre ambos, e mesmo a quase morte de Fitz não restaurou a amizade entre este e o Bobo, que acreditava veementemente que a viagem com o príncipe tinha um propósito: não matar o dragão, mas encaminhá-lo, de modo a garantir a sua descendência.

FitzCavalaria mostrou-se preocupado com a viagem, com o Círculo de Talento e com os seus amigos e família, mas também com o futuro. Com a visão de Hênia, a aia da narcheska, após a morte de Louvovinho, tornou-se provável a influência da chamada Mulher Pálida, a suposta Profeta Branca que influenciou a Guerra dos Navios Vermelhos, na ameaça pigarça.

Um elo foi finalmente forjado entre a rainha Kettricken e os Manhosos, deixando que vários se tornassem seus serviçais, tentando afastar o estigma que assombrava os que se proclamavam de Sangue Antigo. Entre os novos servos estava Veloz, filho de Castro e Moli, o que atraiu novamente Fitz para o seu passado e para os seus terrores, quando, ao contactar a filha Urtiga através do Talento, foi sondado por uma voz terrível e enigmática.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:
Os poderes do Assassino tornaram-no uma lenda. Mas quando ensinar o herdeiro a usá-los, ficará o reino mais seguro ou irremediavelmente perdido? Apesar de profundamente enredado nos seus conflitos pessoais, o Assassino tem de preparar uma expedição infalível às Ilhas Externas. Para isso há que ensinar ao príncipe dos Seis Ducados tudo o que conseguir sobre as duas magias – duas misteriosas e temidas magias inerentes ao sangue que ambos partilham. Mas na vida de Fitz nada é fácil, e o seu próprio desconhecimento de muito do que diz respeito a essas magias pode ter consequências catastróficas, tanto para si como para o herdeiro… e, em última instância, para o próprio reino. Mas as ameaças não se ficam por aí: quem são realmente aqueles estranhos vilamonteses que apareceram inesperadamente em Torre do Cervo? E os manhosos, que resultará dos seus conflitos internos e que atitude tomará a respeito deles a coroa dos Seis Ducados?
OPINIÃO:

Se a ação deste livro não se desenvolveu rapidamente ou de forma apaixonante, posso dizer que dificilmente seria um livro melhor se tal tivesse sucedido. A maravilha desta história não é a narrativa em si, mas sim a forma como é contada. A Saga Regresso do Assassino não se foca em magias, em sede de poder ou em batalhas, mas sim na natureza humana. Temas como o estigma e o preconceito são bastante debatidos, através das várias nuances de personagens. Fez-me rir que um personagem como Fitz, estigmatizado e até “arrancado ao mundo” primeiro por ser bastardo e depois por ser manhoso, se tenha mostrado tão desconcertado com suspeitas de homossexualidade.

Ainda assim, a evolução do herói é digna de registo. Em alguns momentos, Fitz consegue ser mais maduro que o próprio Breu e, muito embora revele algum amadorismo na educação de Zar, os seus conselhos e advertências revelam muito do seu amadurecimento. A grande mais-valia de ler Robin Hobb é conhecer personagens credíveis e imperfeitos como Gina, a bruxa ambulante, que consegue ser uma pessoa tão palpável, real, que impressiona.

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Capas originais da trilogia

Também a relação entre Fitz e o Bobo é digna de destaque. Com tanta fantasia e irrealidade, vemos ali uma ligação extremamente humana, a prova visível como uma amizade pode levar anos a forjar-se e que basta um ato irrefletido para provocar danos irreversíveis. Tudo isto demonstra uma grande maturidade por parte da autora. Robin Hobb é maravilhosa a descrever relações, seja entre pessoas ou com animais, e é esse grande parte do seu mérito.

“A grande mais-valia de ler Robin Hobb é conhecer personagens credíveis e imperfeitos como Gina, a bruxa ambulante, que consegue ser uma pessoa tão palpável, real, que impressiona.”

Esta série tem um ligeiro problema que é, passo a redundância, o excesso de problemas com que o protagonista se depara em simultâneo. Ele tem de manter uma fachada, lidar com pessoas e as suas idiossincrasias, resolver atritos pessoais e as expectativas dos outros, preocupar-se com os filhos e com o uso desmesurado do Talento por parte dos seus alunos. Para além disso, tem uma viagem para preparar, a ameaça pigarça e o fantasma daquilo que os espera, a pairar no horizonte, quando for obrigado a lutar com mais inimigos e talvez dragões nas Ilhas Externas. Um rol de problemas que, ao mesmo tempo que se tornam cansativos, também acrescentam ritmo e uma sequência corrente de ações à narrativa.

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WTF (Fonte: knowyourmeme.com)

A inclusão do contingente das Ilhas Externas e a promessa de criaturas sobrenaturais é um sopro de ar fresco nesta história de traço tão marcadamente medieval e credível. É, também, a expectativa em torno dessa demanda que me leva a desejar ter o próximo livro na mão o quanto antes. A temática da Manha tem sido até aqui muito bem explorada, mas – matem-me! – dei por mim a sentir também um certo preconceito para com os manhosos e para com as coisas que são capazes de fazer.

Resumindo, Sangue do Assassino resolve grande parte das questões levantadas em Os Dilemas do Assassino (trata-se do mesmo livro na versão original) e desenvolve de forma contínua e dinâmica as relações humanas entre os vários personagens. E, ainda que não esteja entre as personagens mais desenvolvidas, Kettricken continua a ser uma das minhas preferidas. Como é possível não a adorar? Tudo se encaminha para um final de série em grande, com os dois volumes finais.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Vamos Viajar com Robin Hobb: E a Vencedora É…

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Livro em sorteio (Saída de Emergência)

Foi pelas 13 horas que se deu, em direto na página de facebook do NDZ, o sorteio do livro O Assassino do Bobo de Robin Hobb.

E a vencedora é…

Helena Isabel Bracieira

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Foto: página de facebook

… do blogue “As Horas… que me preenchem de prazer”. A blogger, natural de Beja, receberá em breve o seu exemplar, que será enviado pela editora. Quero agradecer à Edições Saída de Emergência pela colaboração neste passatempo. Quanto à feliz contemplada, os meus parabéns. Depois quero o feedback do livro.

Para aqueles que ainda quiserem participar do desafio e ver o seu nome mencionado no post final, podem enviar-me até à data limite, através do formulário de contacto na barra lateral ou por mensagem no facebook, uma mensagem com a opinião a um livro da autora Robin Hobb, lido entre 8 de maio e 8 de julho. Até lá.

 

Vamos Viajar com Robin Hobb: Sorteio no Facebook

Viva, pessoal!

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Pois é, o sorteio que eu organizei aqui no blogue não teve muita recetividade e – confesso – assim como alguns participantes se sentiram confusos ao pensar que era necessário inscreverem-se no desafio e fazerem algo para participar, também eu senti-me algo confuso na forma de o colocar em prática. Daí que tenha optado por sortear o livro em questão na página de facebook do NDZ. Uma solução de contingência que me pareceu mais funcional e prática.

Trata-se do livro O Assassino do Bobo, primeiro volume da série O Assassino e o Bobo da autora californiana Robin Hobb, um sorteio que faz parte do desafio “Vamos Viajar com Robin Hobb“, em colaboração com a editora Saída de Emergência, sorteio este no qual todos podem participar.

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Se inicialmente precisavam escrever uma frase para participar no sorteio, agora tal não é necessário, e tão pouco precisam de ler o livro até dia 8 de julho e escrever uma opinião sobre o mesmo. Existem várias pessoas que estão a participar no desafio que termina nesse dia e irão escrever uma opinião que será por mim publicada aqui no blogue, mas este sorteio, apesar de estar incluído no desafio, não obriga a que os participantes no sorteio também participem do desafio, até porque muito possivelmente só terão o livro em mãos após o termo do mesmo.

Apenas uma pessoa irá ganhar o livro, através de um sorteio em direto que irei realizar na minha página do facebook, no próximo dia 27 de junho. Para te habilitares, basta colocares gosto na publicação (aqui) e escreveres o nome de dois amigos teus, amantes de literatura, nos comentários. Logo que todos saibamos o nome do vencedor, entrarei em contacto com ele para proceder ao envio do livro. Nada mais simples.

Boa sorte a todos!