Estive a Ler: A Revelação do Bobo, Saga Assassino e o Bobo #2

Pus-me à deriva pela multidão, como um tufo de algas apanhado numa mudança de maré. Decidi que Breu tinha razão. Havia naquela noite uma subcorrente de excitação, um tempero de curiosidade no ar.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A REVELAÇÃO DO BOBO”, SEGUNDO VOLUME DA SÉRIE SAGA ASSASSINO E O BOBO

2018 trará a Portugal Robin Hobb e não será novidade para vós que, nos últimos tempos, falar do Reino dos Antigos aqui no NDZ traz elogios pela certa. A autora californiana passou de um quase “ódio de estimação” para uma das minhas autoras preferidas em questão de meses, graças à minha Perseverança. Perceberam o trocadilho? Não? [Perseverança é o nome de uma personagem desta nova série.]

Deixemo-nos de humor, que como já viram não tenho Talento [ups] para ele, e falemos deste A Revelação do Bobo. Trata-se do segundo volume da série Fitz and The Fool, publicada em Portugal pela Saída de Emergência como Saga Assassino e o Bobo, a terceira protagonizada pelo personagem FitzCavalaria Visionário. Este livro corresponde à primeira metade do segundo original, Fool’s Quest, traduzido por Jorge Candeias e com um total de 368 páginas.

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Fonte: https://mimi-evelyn.deviantart.com/art/FOOL-S-ASSASSIN-SPOILERS-The-Unexpected-Son-478254675

Não é segredo que o primeiro volume, O Assassino do Bobo, foi a minha melhor leitura de 2017 e aquele final deixou-me em pulgas para ler a continuação. Ainda assim, fui obrigado a moderar as expectativas com o conhecimento de que este segundo volume seria apenas metade do livro original, que por si só, como segundo da série, seria obviamente um livro de transição. As expectativas não foram defraudadas, apesar de haver uns ques por aí.

“Pouquíssimo foi o avanço geográfico das personagens principais deste livro.”

Ler Robin Hobb é sempre uma experiência abençoada para quem gosta de uma escrita intimista, elegante e rica em expressividade e em vocabulário, sem deixar de ser fluída. Não será tão maravilhosa para quem prefira histórias com um ritmo galopante e desenvolvimentos corridos, em detrimento de uma narrativa viva, credível e bem contada, como Hobb faz de um jeito sublime. Neste aspeto, não me canso de elogiar o excelente trabalho de Jorge Candeias na tradução dos livros.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/a-revelacao-do-bobo/

Este A Revelação do Bobo não foi tão bom como o primeiro, mas como poderia ser, se corresponde apenas à primeira metade do segundo livro? Os ques de que falei em cima estão mesmo relacionados com isto. A Abelhinha quase não deu cor de si neste volume, e a nível de desenvolvimento narrativo, podemos dizer que estamos praticamente na mesma posição em que estávamos no final do livro anterior. Pouquíssimo foi o avanço geográfico das personagens principais deste livro.

Mas podemos dizer que não aconteceu nada em A Revelação do Bobo? Oh sim, se aconteceu. Aconteceu muito e bom. Se a narrativa do primeiro volume foi focada em Floresta Mirrada, aqui podemos dizer que é passada quase toda no Castelo de Torre do Cervo, onde temos a possibilidade de explorar mais amiúde velhos conhecidos como Respeitador, Eliânia, Kettricken, Obtuso, Enigma e principalmente Breu, o velho mentor de Fitz que se revela uma das maiores surpresas do livro. É também aqui que várias revelações se sucedem.

O mistério do Filho Inesperado é finalmente posto a descoberto, assim como as intenções dos malévolos Servos. Outras revelações, bem mais triviais mas não menos impressionantes, são-nos oferecidas, pondo mais uma vez em evidência o brilhantismo tático da autora californiana.

“O livro foi uma catadupa de revelações”

O título do livro bem que poderia ser As Revelações e não só do Bobo. Testemunhamos momentos icónicos que aguardávamos há n livros atrás, protagonizados por Fitz, quer pública ou mais intimamente, relacionados com os Visionário e também com a filha Urtiga, momentos de desgosto, de glória auto-contida, de pânico, de amizade genuína, de descrédito, de inveja e de perdão.

Assistimos ao envelhecer de uma personagem que conhecemos desde criança, e que parece debater-se sempre, em todos os momentos da sua vida, com os mais diversos dilemas morais. Neste livro, ele volta a ser obrigado a esgrimi-los e a aceitar o gosto amargo das consequências.

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Em A Revelação do Bobo também conhecemos novas personagens. São elas Cinza, o novo e bem-sucedido aprendiz de Breu nas artes da espionagem, Diligente, a mãe de Perseverança, Valente e Astuto, dois muito diferentes membros de um afamado corpo militar conhecido como os Remexidos, e Matizada, um corvo estigmatizado por possuir algumas penas brancas, que estabelece uma relação bem peculiar com Fitz e o Bobo.

“Sabem o que vos digo? Que venham mais livros como este.”

Conhecemos também um pouco melhor os Servos. Vindeliar é o rapaz-nevoeiro, um homem com rosto de rapaz que consegue usar magia para “enevoar” mentes, fazendo-as entrar em negação e trabalhar para esquecer certos eventos. Dwalia é uma mulher rechonchuda, cujos modos afáveis inspiram confiança e uma vontade inequívoca de lhe agradar. E há ainda militares calcedinos a colaborar com estes profetas para levar o Filho Inesperado a Clerres, com interesses bem maliciosos em mente.

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Fonte: https://thereseofthenorth.deviantart.com/art/Bee-489050739

A ação principal pode não ter evoluído praticamente nada, e sim, terminei o livro um pouco irritado por isso, mas gostei imenso da forma como Hobb esmiuçou emoções e eventos, ao mesmo tempo que pôs a nu subtilezas, fragilidades e podres que não desconfiávamos (pelo menos eu), de algumas personagens que nos são há muito conhecidas. O livro foi uma catadupa de revelações, mas mesmo assim houve momentos para cenas de ação, corridas a cavalo, traições e engodos.

A magia da Manha voltou a ser um tema explorado e que, tudo me leva a crer, deverá sofrer mais incidências nos livros consequentes, no que diz respeito a Fitz, a Abelha e a Teio, pelo que me parece. Não é uma revelação sobre o enredo, mas uma mera suposição da minha parte.

A Revelação do Bobo foi mais um livro lindíssimo da autora, magistralmente bem escrito, que deixou claro o quanto ela consegue ser cruel, tanto para as personagens como para os leitores, ao enredar a narrativa numa série de eventos paralelos, prorrogando um momento dramático para uma das protagonistas. Sabem o que vos digo? Que venham mais livros como este.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

O Reino dos Antigos:

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Saga Assassino e o Bobo (Saída de Emergência):

#1 O Assassino do Bobo

#2 A Revelação do Bobo

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Especial: “O Reino dos Antigos” de Robin Hobb

Há artigo especial dedicado à rainha da fantasia épica? Há sim. Sentem-se nas cadeiras, amarrem os cintos e encomendem as pipocas, porque vamos ter muito do que falar. Publicada em Portugal pela Edições Saída de Emergência, a série Realm of the Enderlings tem encantado leitores em todo o mundo, e o NDZ está disposto a escrutinar o mundo que levou Robin Hobb a ser considerada essa coca-cola toda. FitzCavalaria Visionário, um dos protagonistas, carrega aos ombros uma coleção literária a que nenhum fã de literatura fantástica consegue ficar indiferente.

O Reino dos Antigos divide-se em 5 trilogias, sendo que em Portugal só conhecemos a 1.ª, a 3.ª e a 5.ª (a ser publicada atualmente). Nomeadamente, as séries protagonizadas por FitzCavalaria. A Saída de Emergência tem publicado cada uma das trilogias em 5 livros, mantendo o primeiro volume de cada igual ao original e dividindo os restantes dois volumes. Vamos saber mais sobre este reino e sobre aquilo que o diferencia dos demais.

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Fonte: http://www.telegraph.co.uk/culture/books/bookreviews/11048552/Fools-Assassin-by-Robin-Hobb-review-high-art.html

Quem é Robin Hobb?

Nascida Margaret Astrid Lindholm Ogden, na cidade de Berkeley, na Califórnia, Hobb começou por escrever para publicações infantis, mas foi com o pseudónimo Megan Lindholm que publicou vários romances de fantasia contemporânea, de 1983 a 1992. A notoriedade, porém, chegou com o pseudónimo Robin Hobb e a sua incursão na fantasia épica. Atualmente, vive em Tacoma, no Washington, e é uma das mais famosas autoras de literatura fantástica mundial.

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Fonte: http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Creator/RobinHobb?from=Creator.MeganLindholm
O Reino dos Antigos

Muitas vezes criticada pela lentidão narrativa dos seus livros, Robin Hobb acumula fãs em todo o mundo tanto pela beleza da sua prosa, como pela profundidade com que caracteriza os seus personagens, oferecendo-lhes toda a sorte de dilemas, incertezas e dramas que uma pessoa pode sentir na pele.

É esse factor emocional o que mais agarra os leitores aos seus livros, muito mais do que cenas de batalha ou assassínios que, esporadicamente, acontecem. Vamos então analisar cada uma das sagas publicadas. Ocultarei algumas mortes e acontecimentos importantes para não prejudicar a experiência de leitura a quem não leu, mas se considerarmos que o plot de cada livro já entrega algumas revelações, então sim, podes contar com vários spoilers.

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Fonte: https://chazillah.deviantart.com/art/fitzchivalry-farseer-687746838

Saga do Assassino

É aqui que tudo começa. Os Seis Ducados vivem a chamada Guerra dos Navios Vermelhos contra os piratas das Ilhas Externas que sondam as suas costas. Quebal Pancru é o líder desse movimento estratégico que planeia dominar os Seis Ducados através da arte da Forja, uma espécie de magia que rouba o discernimento às vítimas e os deixa escravos dos seus apetites mais primários.

A sede dos Seis Ducados é Torre do Cervo, em cujo castelo vive a família real, composta pelo Rei Sagaz Visionário e os seus filhos. São eles Cavalaria, Veracidade e Majestoso, este último fruto da relação do rei com a segunda mulher, Desejo. A ação começa quando se descobre que Cavalaria, esposo de Paciência, teve um filho bastardo com uma plebeia do Reino da Montanha. Como ele é o Rei Expectante, ou seja, o primeiro na linha de sucessão ao trono, tal mancha na sua honra obriga-o a renunciar, e essa renúncia resulta no seu exílio e morte.

“Através da magia da Manha, Robin Hobb elabora uma crítica social contra o preconceito, que atravessa grande parte da sua obra.”

O filho bastardo, Fitz, é levado então para Torre do Cervo e colocado sob a proteção de Castro, mestre cavalariço que, para além de sentir uma ligação de lealdade genuína para com Cavalaria, viveu em tempos um romance com Paciência, a esposa deste. Castro acolhe Fitz com todo o carinho e dedica-se inteiramente à sua educação. Aquilo que os separa chama-se Manha.

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Fonte: https://www.tumblr.com/search/elderling%20fan%20art

A Manha é uma magia congénita que fundamentalmente passa pela ligação fraternal entre pessoa e animal, levando ambas as partes a unir-se de uma forma que conseguem partilhar pensamentos e sentirem-se como um só. Acontece que os portadores da Manha são vistos como aberrações, e quando Castro suspeita do dom do pequeno bastardo, decide cortar o mal pela raiz. Através da magia da Manha, Robin Hobb elabora uma crítica social contra o preconceito, que atravessa grande parte da sua obra.

A dureza de Castro molda a personalidade do jovem Fitz, que acaba por ser aceite no castelo e conhecer os meandros da corte, das fragilidades e subtilezas do velho rei à mesquinhez do príncipe Majestoso. Fitz é treinado na arte do Talento, uma magia hereditária entre os Visionário que recende aos Antigos, uma civilização primordial que fora versada na magia. O Talento permite a quem o dominar o contacto mental com outras pessoas, curar ferimentos físicos ou até influenciar sonhos.

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Fonte: https://www.pinterest.com/fallingleaves24/fitz-and-the-fool/

Todavia, o Mestre de Talento, Galeno, tudo faz para que Fitz seja um desastre, acabando por feri-lo gravemente. É Veracidade, que se torna Rei Expectante, quem acaba por passar algumas das noções teóricas do Talento para o jovem bastardo, usando-o como fonte de força, enquanto o velho Breu, meio-irmão do rei e chefe da equipa de espionagem e assassinos do Trono Visionário, visita Fitz durante a noite e o treina… nas artes do assassínio.

Entre todas as intrigas palacianas e maquinações de Majestoso, que planeia tomar o trono, Fitz acaba por afeiçoar-se ao Bobo do Rei Sagaz, um rapaz muito pálido e de formas esquálidas, por Olhos-de-Noite, um lobo com quem se vincula na Manha, e ainda por Kettricken, a princesa do Reino da Montanha. Por dever político, Kettricken acaba por casar-se com Veracidade, e a pouco e pouco começa a amá-lo.

Acusado de Manha, esconjurado e dado como morto, FitzCavalaria só pode contar com o amor dos que o viram crescer e com as suas capacidades inatas para ajudar Veracidade a libertar os Seis Ducados, seja contra os piratas dos Navios Vermelhos, seja contra o seu próprio irmão. Descobre ainda que o Bobo é, na verdade, um Profeta Branco, destinado a prenunciar os acontecimentos do mundo, e que ele, Fitz, é o seu Catalisador, aquele que está destinado a alterá-los.

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Fonte: http://www.john-howe.com/portfolio/gallery/details.php?image_id=770

Os Mercadores de Navivivos

Um Navivivo é feito de Madeira de Feiticeiro, uma substância antiga com propriedades mágicas. Quando três gerações de proprietários de um navio morrem a bordo, um navio desperta e torna-se um ser sensível, agarrado às lembranças dos seus antepassados. A avó do capitão Vestrit ordenou dar vida a Vivácia, e a família Vestrit ainda está em dívida para com os comerciantes de Ermos Chuvosos, a quem compraram a madeira.

Pai de Althea, o capitão Ephron Vestrit encontra-se gravemente doente. A filha está preocupada com a saúde do pai, mas também com a ideia de que, após sua morte, Vivácia irá despertar e ela tornar-se-á a capitã do navio, posição que deve disputar com o calcediano Kyle Porto, esposo da sua irmã mais velha, Keffria.

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Com a morte de Ephron, a família Vestrit desmorona, atolada em dívidas. Malta, filha de Keffria, segue as pisadas do pai, pisando quem quer que se coloque no seu caminho. Desesperada e incapaz de se afirmar digna de Vivácia, Althea afasta-se, procurando uma forma de provar que é uma marinheira competente. Entretanto, Kyle descobre que é incapaz de controlar Vivácia sem alguém de sangue Vestrit a bordo.

Sem Althea, a sua única alternativa é forçar o seu filho Wintrow, que quer ser sacerdote, a juntar-se-lhes a bordo do navio. Wintrow tem dificuldade em adaptar-se à vida no navio, mas apesar de se sentir amargurado por ser arrancado ao mosteiro, nele cresce um vínculo fortíssimo com Vivácia.

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Fonte: https://doctorpiper.deviantart.com/art/Althea-Vestrit-599832010

Em simultâneo, o ambicioso pirata Kennit deseja tornar-se mais do que um pirata: deseja ser rei entre eles. Ele persegue os navios escravos para libertá-los. Os escravos libertos tripulam então os navios capturados como uma frota de piratas sob o comando de Kennit. Dirige-se a Vivácia, que se tornou um navio de escravos sob o controlo de Kyle, consegue capturá-lo e tornar-se seu capitão.

Enquanto Kennit estabelece uma relação com Vivácia e com Wintrow, que realmente acreditam que Kennit tem motivos válidos e boas intenções em tornar-se Rei dos Piratas, Althea tenta recuperar o navio da sua família, navegando contra o pirata a bordo de um Navio Louco. Uma sequência de revelações desvendam uma horrível crueldade nos Ermos Chuvosos, onde fora abortada pelas mãos dos homens aquilo que poderia ser uma nova linhagem de dragões, através de um sistema de evolução das serpentes marinhas.

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Fonte: https://sephinka.deviantart.com/art/Fitz-Nighteyes-and-Fool-479136188

Saga O Regresso do Assassino

Quinze anos passaram-se desde o final da Saga do Assassino. O mundo pensa que FitzCavalaria morreu, e este está escondido do mundo, com o seu lobo, Olhos-de-Noite, e o filho adoptivo, Zar, com quem vive humildemente. De quando em quando, Fitz é alvo da visita da menestrel Esporana, sua amante. Mas quando o velho Breu o visita e lhe pede para regressar a Torre do Cervo, este recusa determinantemente. Um dos plot-twists mais deliciosos de toda a série é que a rapariga que ama, Moli, caiu nos braços do homem que o criou, e com ele teve os seus filhos.

Na forma de um lobo, Fitz contacta em sonhos com a filha que tiveram juntos, Urtiga, mas esta não sabe que ele é seu pai e olha para Castro como se o fosse. Se soubessem que Fitz estava vivo, Moli e Castro nunca se perdoariam. No entanto, o entusiasmo de Zar para com a cidade, onde deseja aprender um ofício, e a visita do seu velho amigo Bobo, agora um excêntrico homem dourado que se diz proveniente da Jamaília, fazem-no mudar de ideias.

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Fitz ruma a Torre do Cervo como Tomé Texugo, criado de Dom Dourado, a nova identidade do Bobo. Ali, Fitz torna-se mais uma vez peça da rede de espionagem de Breu, mas também constata como tudo mudou na sua ausência. Com a morte de Sagaz, Veracidade e Majestoso, a cidade evoluiu. Kettricken é agora a Rainha por direito, ao lado do seu filho com Veracidade, o príncipe Respeitador.

“Muito mais fluído e surpreendente que a primeira série, a Saga Regresso do Assassino marca uma fuga aos clichés e a questão do preconceito volta a assumir um lugar de destaque”

Respeitador está prometido em noivado à narcheska Eliânia das Ilhas Externas, um negócio muito importante para manter a paz que se conseguiu com aquele povo após o final da Guerra dos Navios Vermelhos. No entanto, o príncipe desapareceu. Segundo todas as pistas de Breu, Respeitador pode ter a magia da Manha, e ter seguido uma gatinha que lhe fora oferecida até às mãos dos Pigarços, um perigoso grupo de manhosos que se envergonha dos que renegam sê-lo e atentam a várias personalidades famosas denunciando serem portadores do mesmo dom.

Após uma tortuosa perseguição, Fitz e o Bobo conseguem recuperar o príncipe e desbaratar as forças pigarças, pagando um preço alto por isso, com a morte de um ente-querido. Pouco a pouco, os problemas de Fitz centram-se nos desaires amorosos do filho adoptivo Zar com a oportunista Esvânia, e com a falta de motivação de Respeitador para com a narcheska Eliânia. Quando uma comitiva de Vilamonte alerta Kettricken dos problemas em Ermos Chuvosos e para a existência do dragão Tintaglia, os problemas adensam-se.

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Fonte: https://www.deviantart.com/tag/fitzchivalry

Ao ofender a narcheska, o príncipe é desafiado por ela e esta só aceita casar-se consigo se este cortar a cabeça a um dragão, Fogojelo, alegadamente enterrado na ilha de Aslevjal. Respeitador ruma às Ilhas Externas à frente de uma imensa comitiva, onde se destaca o Círculo de Talento do príncipe, que inclui Fitz, Breu e Obtuso, um simplório criado de Breu que forja uma relação de amor-ódio para com Fitz.  Em Aslevjal, Fitz encontra pessoas do seu passado, e também a temível Mulher Pálida, uma das principais responsáveis pela Guerra dos Navios Vermelhos.

Muito mais fluído e surpreendente que a primeira série, a Saga Regresso do Assassino marca uma fuga aos clichés e a questão do preconceito volta a assumir um lugar de destaque, tanto na apreensão dos comuns para com a Manha, como para com a sexualidade do Bobo, cuja nuvem de dúvida que se produz à sua volta cria uma cisão entre este e o protagonista.

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As Crónicas dos Ermos Chuvosos

O ano chegou ao fim e o último dragão conhecido, Tintaglia, supervisiona mais uma tentativa de trazer os dragões ao mundo através das velhas serpentes. O Conselho dos Ermos Chuvosos concorda em ajudá-la, com a contrapartida que ela os auxilie na guerra contra Calcede. Sisarqua, uma rainha-serpente, luta para terminar o seu processo de evolução.

O capitão do barco Tarman, Leftrin, encontra o embrião de um dragão que foi levado pelo rio. No início, ele pensa em vendê-lo para obter lucro, mas depois decide levá-lo para o navio tendo em vista a sua própria proteção futura.

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Fonte: https://daria-ts.deviantart.com/art/Thymara-566178187

Thymara, uma menina de 11 anos, acompanha o pai para assistir à incubação dos dragões, mas fica chocada ao descobrir que as novas crias são fracas e deformadas. Entra em contacto com uma quando o seu pai é quase comido vivo. Sisarqua transformou-se num dragão, agora chamado de Sintara, e mostra-se preocupada em perceber que as suas proporções estão erradas e que não é o que deveria ser. Infelizmente, é muito provável que nunca voe.

Alise Kincarrion, por sua vez, é uma jovem solteirona que ocupa a maior parte do seu tempo a estudar dragões e a história dos Antigos. Sente-se alvo de um comerciante local bem parecido, de seu nome Hest Finbok, mas quando o aborda acerca das suas intenções, ele garante-lhe que, embora não esteja apaixonado, deseja casar-se com ela por conveniência. Finbok deseja um herdeiro, em troca oferece-lhe o financiamento para os seus estudos.

A jovem fica inicialmente entusiasmada com a ideia, mas depressa percebe que ela veio da cabeça da sua amiga de infância, Sedric. Quando a relação revela-se de um total e terrível embaraço, Finbok acusa-a de infertilidade, mas depressa Alise descobre que o marido e a sua amiga Sedric são amantes. Quando ameaça espalhar boatos sobre a sua virilidade, ele decide enviá-la em viagem, e uma vez que Sedric toma o partido da amiga, decide mandá-la com ela.

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Fonte: https://thereseofthenorth.deviantart.com/art/Sintara-and-Alise-324608770

Por sua vez, o capitão Leftrin quer dar um contrato vitalício a todos os seus trabalhadores para proteger o segredo do uso ilegal da Madeira de Feiticeiro, então proibida. O único homem com reservas para assinar é Swarge, que admite estar noivo e não querer separar-se da sua futura esposa. Leftrin admite então a esposa de Swarge a bordo do navio, de modo a que, dessa forma, eles possam estar juntos e Swarge assine o contrato.

Entretanto, os dragões estão fracos e incapazes de se alimentar, dependendo de caçadores para fornecer-lhes alimentos. À medida que os dragões mais fracos morrem, os mais fortes comem-nos para obter as suas memórias. Tintaglia encontra-se em parte incerta, havendo rumores de que finalmente encontrou um parceiro, e ninguém acredita que regresse. Os dragões começam a trabalhar para encontrar o caminho secreto para a cidade perdida de Kelsingra, que pertencera aos Antigos. Mercor elabora um plano para convencer o Conselho dos Ermos Chuvosos de que é sua a ideia de transportar os dragões para a cidade perdida, usando as suas memórias ancestrais como guia.

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Fonte: https://9gag.com/gag/adjpyAj/fitzchivalry-farseer-from-the-realm-of-the-elderlings-series-by-robin-hobb-any-fans

Saga Assassino e o Bobo

A série Assassino e o Bobo é o coroar da obra de Robin Hobb. Após o desaparecimento de Castro, Fitz reconquistou o seu lugar ao lado de Moli e da filha Urtiga. É para as terras que esta herdou de Paciência, Floresta Mirrada, que o casal vai viver, com os filhos que Moli gerara com Castro. Muitos anos passaram-se, e Fitz nunca mais voltou a ver o Bobo, depois de um incidente com um Portal de Talento que os levou a desencontrarem-se no dia em que se iriam despedir para sempre.

“Refrescante, emocionante, coeso e incrivelmente bem escrito, o primeiro volume, O Assassino do Bobo, foi a minha melhor leitura de 2017.”

Entretanto, uma mensageira chega a Floresta Mirrada no Festival de Primavera para falar urgentemente com Fitz. Só que não passa pela cabeça dele deixar Moli à sua espera para dançar. A visita que espere um pouco, na biblioteca. Quando, ao final da noite, vai ao encontro da mensageira, tudo o que encontra é um rasto de sangue. Os seus esforços por resolverem o incidente, porém, morrem sem resultados. E os anos continuam a passar, e eles a envelhecer. E nada de Bobo.

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Fonte: http://www.laespadaenlatinta.com/2016/11/assassins-fate-robin-hobb-vatidico.html

Devido à cura de Talento, Fitz parece mais jovem que Moli, e acaba por achar que a sua mulher está a ficar senil, quando esta lhe diz que está grávida, porque há muito passou a idade que o permitiria. Com a ajuda do mordomo Pândego, da sua filha Urtiga e do seu amigo Enigma, Fitz tenta manter a ordem em Floresta Mirrada, mas nada daquilo é fácil para ele. Urtiga tornou-se Mestra do Talento em Torre do Cervo, e parece nunca ter conseguido totalmente aceitá-lo como pai.

Um Filho Inesperado, várias mensagens que dificilmente chegam ao destino, e mortes, chocantes e imprevisíveis, culminam com o retorno tão aguardado do Bobo, no local onde menos seria expectável encontrá-lo. Dois filhos bastardos, FitzVigilante e Esquiva, são enviados por Breu para que Fitz lhes encontre utilidade, mas tornam-se mais obstáculos do que prestáveis, e as suas origens permanecem misteriosas.

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Fonte: https://www.pinterest.co.uk/torilou81/realm-of-the-elderlings/

É uma menina, Abelha de seu nome, quem carrega as responsabilidades aos ombros e quem tem de ajudar Fitz a ser o homem que precisa ser. Mas quando um grupo de Profetas Brancos chamados Servos lhe põem as mãos em cima, o que poderá fazer Fitz para a salvar?

Dar-lhes caça, juntando velhos amigos e conhecendo novos, requerendo a ajuda dos dragões de Ermos Chuvosos e dos Vestrit de Vilamonte, unindo os personagens das histórias anteriores de Robin Hobb e completando assim o intrincado puzzle que é este Reino dos Antigos. Refrescante, emocionante, coeso e incrivelmente bem escrito, o primeiro volume, O Assassino do Bobo, foi a minha melhor leitura de 2017.

Enquanto que no Brasil foi publicada a 1.ª trilogia e já saiu o primeiro volume da 2.ª, O Navio Arcano, em Portugal serão lançados, no primeiro semestre de 2018, o segundo e terceiro volume da 5.ª série. Claro está, pelas mãos da Saída de Emergência, que trará a autora a Portugal para o Festival Bang! deste ano. Ansiosos? Eu estou.

A Divulgar: “Monstress: O Sangue” e “A Revelação do Bobo” pela Saída de Emergência

É já a 19 de janeiro que sairá o segundo volume de uma das novas sensações da Saída de Emergência. Falo da banda desenhada Monstress, da argumentista Marjorie Liu e da ilustradora Sana Takeda. Depois de ser publicado o primeiro volume em julho, a editora assegurou a continuação da série, trazendo O Sangue já neste início de 2018. Lê aqui a minha opinião ao primeiro volume, uma das melhores bandas desenhadas que tive a oportunidade de ler no ano que agora terminou.

E a 9 de fevereiro, o mesmo dia em que serão também lançados Aceitação de Jeff VanderMeer e Um Estranho numa Terra Estranha de Robert Heinlein, sairá A Revelação do Bobo, o segundo volume da Saga Assassino e o Bobo de Robin Hobb. Continuam assim as aventuras de FitzCavalaria e companhia, depois de o primeiro volume, O Assassino do Bobo, ter sido a minha melhor leitura de 2017, como podes ler na opinião ao mesmo, assim como no artigo que premiou as melhores leituras do ano. Quem comprar A Revelação do Bobo através do site, terá como bónus o livro Windhaven, de George R. R. Martin e Lisa Tuttle.

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SINOPSE:

Num mundo alternativo de beleza art déco inspirado na Ásia oriental, criaturas demoníacas e poderosas ameaçam o mundo.

Maika Meiolobo está a ser perseguida por uma coligação de forças determinada a controlar e a destruir a poderosa criatura demoníaca que habita dentro de si. Mas Maika não descansará enquanto não cumprir a sua missão: descobrir os segredos da sua falecida mãe, Moriko.

Nesta sequela, a jornada de Maika irá levá-la à cidade de Thyria, controlada por piratas, e através dos mares à misteriosa Ilha dos Ossos. Será uma viagem que irá forçar Maika a reavaliar o seu passado, presente e futuro e onde irá aprender que não pode confiar em ninguém, incluindo no seu próprio corpo…

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Chancela: Saida de Emergência

Coleção:BANG

Saga/Série:Monstress Nº: 2

Data 1ª Edição: 19/01/2018

ISBN: 9789897730900

Nº de Páginas: 160

Dimensões: [160×230]mm

Encadernação: Capa Mole

Sem título

SINOPSE:

Após os acontecimentos de O Assassino do Bobo, cresce a intriga que atinge a vida e o coração de Fitz.

Depois de garantir que nunca mais a deixaria só ou negligenciada, Fitz abandonou a sua filha Abelha para correr para Torre do Cervo a fim de tentar salvar a vida do velho amigo Bobo. A consequência foi a mais terrível: um ataque à sua casa e o rapto da pequena, que desaparece sem deixar rasto.

Encontramo-lo neste volume dilacerado entre as obrigações para com o Bobo e o que a consciência lhe exige que faça para tentar recuperar a filha. Mesmo o regresso a Torre do Cervo traz grandes perigos, pois no local onde nasceu e viveu durante muitos anos ainda perdura a sua má fama de Bastardo Manhoso e assassino. O que poderá Fitz fazer para trazer a paz de novo ao seu mundo?

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Chancela: Saida de Emergência

Coleção:BANG

Saga/Série:Assassino e o Bobo Nº: 2

Data 1ª Edição: 09/02/2018

ISBN: REVELACAOWIND

Nº de Páginas: 368

Dimensões: [160×230]mm

Encadernação: Capa Mole

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Nota: As imagens apresentadas foram reproduzidas do site da editora

Resumo Trimestral de Leituras #12

O ano de 2017 chegou ao fim com 96 leituras no seu total, entre livros, BDs e contos avulsos. Foram em geral ótimas leituras, cujas opiniões podes consultar na minha lista anual, assim como podes conferir os Prémios NDZ atribuídos em As Escolhas de 2017. Este último trimestre foi maravilhoso, com três ou quatro leituras a destacarem-se em cada mês. Robin Hobb, Neil Gaiman, Brandon Sanderson, Dan Brown, Brent Weeks e Steven Erikson são os autores que merecem o maior relevo. As antologias e coletâneas também tiveram o seu tempo, e participei ainda de um ciclo de leituras em torno dos contos de Robert E. Howard. Fica com o meu balanço do último trimestre do ano:

Mitologia Nórdica – Neil Gaiman

Elantris, Elantris #1 – Brandon Sanderson

Maçãs Podres, Tony Chu: Detective Canibal #7 – John Layman e Rob Guillory

A Espada do Destino, The Witcher #2 – Andrzej Sapkowski

Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe – Edgar Allan Poe

Mulheres Perigosas – Vários Autores

A Torre do Elefante – Robert E. Howard

Origem – Dan Brown

Solomon Kane – Robert E. Howard

Liberdade e Revolução, Império das Tormentas #2 – Jon Skovron

Nocturno – Tony Sandoval

O Deus no Sarcófago – Robert E. Howard

O Assassino do Bobo, Saga Assassino e o Bobo #1 – Robin Hobb

O Acto de Fausto, The Witched + The Divine #1 – Kieron Gillen e Jamie McKelvie

Os Portões da Casa dos Mortos, Saga do Império Malazano #2 Parte 1 – Steven Erikson

Caminho das Sombras, Anjo da Noite #1 – Brent Weeks

Patifes na Casa – Robert E. Howard

Uma Pequena Luz, Outcast #3 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

À Margem das Sombras, Anjo da Noite #2 – Brent Weeks

Saga Vol. 7 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

Deuses Americanos – Neil Gaiman

A Filha do Gigante de Gelo – Robert E. Howard

Mission in the Dark, The Dark Sea War Chronicles #2 – Bruno Martins Soares

Lines We Cross, The Walking Dead #29 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

A Rainha da Costa Negra – Robert E. Howard

Sem TítuloComecei outubro com Mitologia Nórdica da Editorial Presença, livro adquirido no Fórum Fantástico deste ano. Uma homenagem de Neil Gaiman à mitologia que tanto inspira as suas obras, o livro é de leitura fácil e conta a versão suave e bem-humorada do autor britânico sobre a história de Thor, Odin, Loki e companhia, desde a criação dos mundos até ao tão temido Ragnarok. Um dos livros que mais gostei de ler do escritor, que prima sobretudo pela simplicidade da composição. O primeiro livro publicado por Brandon Sanderson, Elantris revela algumas deficiências a nível estrutural e, sobretudo, alguma inexperiência na forma como resolveu as situações finais do livro, recorrendo a forças inexplicáveis para “salvar o dia”. Ainda assim, adorei. A forma como Sanderson nos apresenta Raoden, Sarene e Hrathen e os desenvolve é simplesmente genial. Um príncipe que se transforma, da noite para o dia, num morto-vivo, uma princesa prometida que chega ao reino do noivo e descobre que ele morreu e um sacerdote de armadura vermelha destinado a converter um povo à doutrina dos seus superiores são os personagens centrais de uma história envolvente e encantadora com um ritmo cada vez mais entusiasmante a cada virar de página. Foi publicado no Brasil pela Leya.

Sem títuloO sétimo volume de Tony Chu: Detective Canibal, intitulado Maçãs Podres, continua a boa senda da BD publicada em Portugal pela G Floy. Agora que nos adentramos pela segunda metade da série, as aventuras do detective mais irreverente das BDs tendem a dispersar-se, mas vários caminhos entrecruzam-se e a morte da sua irmã gémea é o mote para mais um álbum hilariante, em que tudo (ou nada) pode acontecer. De pessoas que adquirem a expressão facial daquilo que comem a um menage a trois inusitado protagonizado pelo colega ciborgue do protagonista, Maçãs Podres é mais uma prova do talento de John Layman, argumentista que esteve no último fim-de-semana de outubro no Festival de BD da Amadora. Já o segundo volume da saga The Witcher de Andrzej Sapkowski, A Espada do Destino trouxe seis contos passados no mundo de Geralt de Rivia, servindo também de prólogo para a saga que será iniciada no terceiro volume. Alguns contos têm ideias muito boas, como o divertido “O Fogo Eterno”, em que o ananico Biberveldt descobre que um doppler adquiriu a sua forma e anda a fazer negócios em seu nome, ou os últimos dois, que nos apresentam a excelente personagem Ciri, uma menina cujo destino está entrelaçado ao de Geralt. Ainda assim, a prosa de Sapkowski não me convenceu como havia feito no primeiro volume, achei os diálogos excessivos e sem conteúdo, e sobretudo pareceu-me um livro infantil com muitos palavrões para parecer adulto. Tem qualidade, mas foi uma leitura bem mediana a meu ver.

Sem título28 dos melhores contos de Edgar Allan Poe coligidos numa edição maravilhosa em capa dura e ilustrada por 28 artistas nacionais, Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe foram uma prenda da Edições Saída de Emergência para todos os leitores. E se a edição é lindíssima, os contos fazem-lhe justiça. Poe foi um autor único e o precursor de vários géneros, como o policial e o horror e até contribuiu para o ascender da ficção científica, com uma escrita intimista capaz de mexer com os medos mais primários do leitor. Alguns contos são melhores do que outros, mas destaco “Os Crimes da Rua Morgue”, “A Queda da Casa de Usher” e “O Coração Delator” como os meus preferidos. Também publicada pela Saída de Emergência, Mulheres Perigosas foi uma antologia organizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois, incluindo contos de Joe Abercrombie, Brandon Sanderson, Melinda M. Snodgrass e Megan Abbott, entre outros. Muito embora explore vários géneros, o que certamente fará os leitores preferir uns em detrimento de outros, os contos que mais me agradaram foram “Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno”, ambientado no universo Cosmere de Brandon Sanderson, “Dar Nome à Fera” de Sam Sykes e “A Princesa e a Rainha ou Os Negros e os Verdes” de George R. R. Martin, passado no mundo de Westeros.

Sem títuloIniciei um ciclo de leituras em torno de Robert E. Howard, um dos meus autores de eleição. Em A Torre do Elefante, o conquistador Conan entra em litígio com um malfeitor numa taberna, acabando por salvar uma aristocrata da escravidão. O cimério persegue um tesouro escondido na icónica Torre do Elefante, aliando-se a ladrões e enfrentando monstros terríveis para o alcançar. Dono de uma prosa maravilhosa, Howard volta a brilhar neste conto, que já havia lido inicialmente na coletânea A Rainha da Costa Negra da Saída de Emergência. Terminei o mês de outubro a ler o mais recente livro de Dan Brown, mas só consegui escrever a opinião no início de novembro. Origem, publicado em Portugal pela Bertrand, foi o livro de Brown que menos gostei, mas não posso dizer que tenha desiludido. Seguindo os ingredientes clássicos que lhe deram sucesso, Dan Brown coloca Robert Langdon numa corrida pela sobrevivência, desta vez com menos códigos ligados à Antiguidade e mais virado para o futuro e para as tecnologias. Mais fraco que os outros livros da série, valeu sobretudo pela ação dentro da Basílica da Sagrada Família, em Barcelona.

Sem TítuloContinuando a leitura dos velhos clássicos de Robert E. Howard, decidi-me a ler na versão italiana a coletânea de contos, poemas e fragmentos póstumos protagonizados por Solomon Kane, o puritano inglês que enfrenta homens e monstruosidades para fazer justiça com as próprias mãos. Com um sentido de moral muito profundo, as aventuras de Solomon Kane revelam Howard na sua melhor forma e escondem várias peculiaridades do pensamento da época. Publicado pela Saída de Emergência no início do mês, Liberdade e Revolução é o segundo volume da trilogia Império das Tormentas de Jon Skovron. Enquanto Ruivo se encontra confinado à cidade de Pico da Pedra, onde se tornou o melhor amigo do príncipe, Esperança Sombria tornou-se uma temível pirata, tentando ganhar nome e prestígio para, finalmente, enfrentar os biomantes e resgatar o seu amado. A história melhorou em relação ao primeiro volume, parecendo mais madura e mais fluída, com algumas adições deliciosas, como Merivale Hempist, Vassoura ou o Senhor Chapeleira.

Sem TítuloPelas mãos da Kingpin Books chegou-me o livro Nocturno de Tony Sandoval. De tons fortes e negros e desenhos adoráveis, ela traz-nos a história de um cantor rock perseguido pelo fantasma do seu pai que, depois de ser espancado e dado como morto, se transfigura como um justiceiro. Gostei bastante do conteúdo e da forma como foi apresentado, assim como da arte incrível do autor mexicano, mais do que podia adivinhar da premissa. O Deus no Sarcófago é um conto de Robert E. Howard que incluí no ciclo de leituras em redor do escritor norte-americano. Ele conta como Conan se infiltrou num templo nemédio para roubar e acabou sendo acusado do homicídio do conservador do museu, ao mesmo tempo que um mal de outras eras desperta. Policial, thriller, horror e aventura permeiam uma das histórias de Howard que mais me encantaram, um pouco por não esperar ver Conan metido numa aura de Agatha Christie.

Sem títuloPrimeiro volume da terceira trilogia de Robin Hobb focada em FitzCavalaria Visionário, O Assassino do Bobo é uma sequência incrível de acontecimentos surpreendentes. Passado maioritariamente nas propriedades de Floresta Mirrada, pertences a Urtiga e que Fitz e Moli gerem com amor, este novo livro de Hobb mantém a toada lenta e perscrutadora dos anteriores volumes, de uma forma que em vez de entediar, delicia. Constantemente a surpreender-me, este livro de Robin Hobb trouxe momentos de ação, amor, amizade, reencontros, lutas, paixões e mortes e foi, seguramente, o melhor livro que li este ano. Uma das mais recentes surpresas da G Floy Studio, O Acto de Fausto é o primeiro volume de The Wicked + The Divine, mais uma das grandes séries publicadas pela Image Comics a chegar ao nosso país. Escrita por Kieron Gillen e ilustrada por Jamie McKelvie, este volume inaugural apresenta Laura, uma rapariga normal que se envolve com os deuses do Panteão. Trata-se de um grupo de doze pessoas que descobrem ser a reencarnação de deuses. Essa descoberta garante-lhes fama e poderes sobrenaturais, com a condição de que morrerão em dois anos. Apesar de não ser grande apreciador de fantasia urbana, esta é mais uma série a seguir.

Sem TítuloComecei dezembro com Os Portões da Casa dos Mortos de Steven Erikson. Publicado pela Saída de Emergência, o segundo volume da Saga do Império Malazano foi dividido em duas partes. Nesta primeira metade, deixamos a ação em Genabackis e acompanhamos a viagem de Violinista, Kalam, Apsalar e Crokus até ao continente das Sete Cidades, onde uma profecia está no cerne de um movimento rebelde às forças da Imperatriz Laseen. Acompanhamos também a jornada de Duiker, um historiador, Coltaine, um comandante intrépido, e a jovem Felisin, uma exilada. Morte e desolação seguem os passos de todos estes personagens, à medida que nos vamos envolvendo num novelo de conspiração em que a guerra e o sobrenatural se misturam. O mundo é incrível e a escrita de Erikson maravilhosa, mas não senti qualquer empatia pelos personagens, pelo que espero que a segunda parte me prenda mais. Primeiro volume da série Anjo da Noite de Brent Weeks, Caminho das Sombras é um livro de fantasia que segue os passos de um menino órfão chamado Azoth, que vive nas Tocas da cidade de Cenária. Certo dia, ele testemunha um massacre e fica obcecado com a ideia de tornar-se como o assassino, Durzo Blint. Com uma premissa muito interessante e uma escrita boa, achei Caminho das Sombras um livro mediano. As cenas foram expectáveis e o leque imenso de personagens tornou a narrativa um tanto ou quanto confusa. Ainda assim, para quem gosta de livros inebriantes e cheios de ritmo, fica a indicação. O livro foi publicado no Brasil pela Arqueiro.

Sem títuloO ciclo de leituras em torno de Robert E. Howard prossegue, desta feita com o conto Patifes na Casa. Não é dos contos protagonizados por Conan que mais me fascinaram, mas ainda assim proporcionou alguns bons momentos de suspense, ação e aventura, condimentados com uns salpicos de intriga política. A história ocorre numa cidade-estado entre Zamora e Corinthia durante uma aparente luta de poder entre dois líderes poderosos: Murilo, um aristocrata, e Nabonidus, o Sacerdote Vermelho, um clérigo com uma forte base de poder. Depois de o sacerdote o ameaçar com uma orelha cortada, Murilo ouve falar da reputação de Conan como mercenário e decide pedir-lhe ajuda. Pelas mãos da G Floy chegou até nós Uma Pequena Luz, terceiro volume de Outcast. Robert Kirkman volta a surpreender com a história de Kyle Barnes, um homem que desde a infância vê a família ser possuída por demónios. Com a ajuda de um padre, tenta descobrir a razão destas manifestações sobrenaturais e porque aparenta ter poderes especiais sobre elas. Uma Pequena Luz é um volume sólido e expansivo, cada vez mais à altura do seu próprio autor, para quem as provas dadas são “que baste” para o idolatrar. Já a arte de Paul Azaceta tem vindo a melhorar. Confesso que gosto das suas ilustrações desde o primeiro volume, mas está longe de ser dos meus artistas favoritos no género. Ainda assim, grande parte da qualidade do seu trabalho está na pintura.

Sem TítuloContinuando a série Anjo da Noite de Brent Weeks, li À Margem das Sombras, publicado no Brasil pela editora Arqueiro. Se achei o primeiro volume mediano, este segundo foi francamente bom. A escrita fluída e rica é uma das maiores virtudes de Weeks. Os diálogos estão cheios de humor e sarcasmo, as descrições de batalhas, movimentos e ambientes, incríveis. O set é absolutamente apelativo. Os dedos das mãos não chegam para nomear as frases de efeito. Se À Margem das Sombras fosse um filme, seria um blockbuster. Confesso que preferi a primeira metade, mais lenta e verosímil, que a segunda, cheia de volte-faces e ritmo elevado. Mas o que dizer daquele final? O cliffhanger é de deixar qualquer um a babar pelo terceiro volume. Perto de alcançar a publicação norte-americana, o 7.º volume de Saga foi, provavelmente, um dos melhores até agora. Subversivo e original, o argumento de Brian K. Vaughan convence e a arte de Fiona Staples é um espetáculo à parte. Aliando o bom humor às cenas mais chocantes de mortes e sexo, a história é contada por uma criança fruto de uma família disfuncional resultante do choque entre duas culturas distintas. Perdidos num cometa, os protagonistas da space opera vão ter de lidar com os mais diversos problemas.

Sem TítuloUma das obras mais aclamadas de Neil Gaiman, Deuses Americanos foi recentemente adaptado a uma série de TV pela Starz. Publicado em Portugal pela Editorial Presença, a obra fala de uma luta entre os deuses antigos e os novos. Sombra é um homem que sai da prisão após cumprir uma pena, quando sabe que a esposa faleceu. Durante o voo de regresso a casa, cruza-se com um senhor que diz chamar-se Quarta-Feira, e que o conduz numa espiral alucinante de acontecimentos. Gostei do livro, mas pareceu-me bastante superestimado, com uma narrativa em forma de road trip, densa e um pouco entediante, que podia ser contada como um conto. Continuando a revista aos contos de Robert E. Howard, li A Filha do Gigante de Gelo e foi um dos contos de Conan de que menos gostei. O herói cimério encontra-se num cenário de morte após uma batalha e vê uma bela mulher semi-nua, que o ofende e foge. Conan persegue-a para descobrir ser alvo de uma armadilha… sobrenatural. Segundo volume da trilogia de ficção científica The Dark Sea War Chronicles de Bruno Martins Soares, Mission in the Dark está disponível em inglês, na Amazon. Byllard Iddo continua a sua senda de sabotagem aos Barcos Silenciosos da República Axx, ao comando da nave Arrabat. Mas a Guerra do Mar Negro está longe de chegar ao fim, e nem só de vitórias se faz o seu percurso. Gostei mais deste livro que do primeiro, mesmo assim notei tratar-se de um típico volume de transição. Uma trilogia ótima, cheia de cenas de ação e humor militar.

Resultado de imagem para lines we cross the walking dead 29Lines We Cross é o volume 29 da BD The Walking Dead, com argumento de Robert Kirkman e arte de Cliff Rathburn, Charlie Adlard e Stefano Gaudiano. Apesar de ser um volume mais morno, teve várias supresas interessantes, envolvendo Dwight, Negan, uma nova personagem chamada Princesa e até envolvimentos amorosos, com Jesus, Aaron, Magna, Yumiko e Siddiq em destaque. Ao contrário da série de TV, a série em quadradinhos está cada vez melhor. E terminei o ano literário com mais um conto de Robert E. Howard. A Rainha da Costa Negra conta como Conan se lançou a bordo do veleiro Argus, para travar amizade com um capitão chamado Tito e, posteriormente, cruzar-se com a temível pirata Bêlit, também conhecida como A Rainha da Costa Negra. A escrita é maravilhosa e a primeira metade incrível, mas tanto a paixão de Conan por Bêlit me pareceu demasiado brusca, como a parte final do conto foi demasiado fantasiosa para os meus parâmetros. Resta-me deixar os votos de um ano de 2018 repleto de boas leituras e felicidades pessoais para todos os seguidores do NDZ.

As Escolhas de 2017

O ano de 2017 está à beira do fim e chegou a altura dos balanços literários. De modo geral, acabou por ser um ano sensivelmente idêntico ao anterior, com mais de 90 leituras no seu todo, embora este ano tenham sido significativamente mais livros e menos BDs que no ano pretérito, conforme podem conferir na minha listagem de leituras de 2017. 44 livros de bandas desenhadas, 44 livros em prosa e mais alguns contos soltos perfazem um ano cheio de surpresas e boas leituras.

Robin Hobb (6 livros), Neil Gaiman (7 BDs e 2 livros), Brandon Sanderson (2 livros, 1 BD e 1 conto) e Robert Kirkman (5 BDs) foram os autores que mais li este ano, mas vários foram aqueles de que repeti a “dose”. Conheci nomes como Patrick Rothfuss (li tudo o que havia do nosso Kvothe), Michael Moorcock (três volumes de Elric), Jon Skovron (dois volumes de Império das Tormentas), Brent Weeks (dois volumes de Anjo da Noite) e Noelle Stevenson (Nimona) e terminei várias séries que tinha em suspenso, como a Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence, A Primeira Lei de Joe Abercrombie ou A Torre Negra de Stephen King.

Fiquem, então, com as minhas escolhas literárias do ano de 2017.

MELHOR LIVRO

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O Assassino do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #1), Robin Hobb

aqui a opinião

Praticamente empatado com A Súbita Aparição de Hope Arden de Claire North nas minhas preferências literárias de 2017, O Assassino do Bobo talvez tenha a vantagem de pertencer ao género que mais me agrada, a fantasia épica. Profundo, dramático, bem desenvolvido e até enternecedor, o primeiro volume da terceira trilogia de Robin Hobb foi a minha melhor leitura do presente ano. Na minha escolha, pesou também o facto de ter lido os 5 livros da série anterior este ano, e todos com nota elevada. Hobb merece a medalha de ouro.

MELHOR FANTASIA

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O Assassino do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #1), Robin Hobb

aqui a opinião

Pensei seriamente que seria mais difícil escolher o melhor livro de fantasia do ano, quando a pouco mais de um mês para o final, Robin Hobb facilitou-me a tarefa. Ainda assim, foi um ano fantástico para mim como amante do género. Deslumbrei-me com Elantris e Warbreaker de Brandon Sanderson, amei os livros da Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss e ainda tive direito à primeira parte de Os Portões da Casa dos Mortos de Steven Erikson.

MELHOR FICÇÃO CIENTÍFICA

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A Súbita Aparição de Hope Arden, Claire North

aqui a opinião

Quem também me facilitou a tarefa foi Claire North, com algumas ressalvas. Este livro está normalmente catalogado num sub-género de Fantasia, magia urbana, é também um thriller mas, acima de tudo, a trama gira em torno de uma aplicação futurista para smartphones, o que justifica encontrá-lo tantas vezes vinculado à FC, e razão pela qual acabei por incluí-lo nesta categoria. O romance venceu o The World Fantasy Award 2017 com todo o mérito. No entanto, leituras como Terrarium de João Barreiros e Luís Filipe Silva, Autoridade de Jeff VanderMeer, Os Despojados de Ursula K. Le Guin e a space opera Saga (formato BD) de Brian K. Vaughan e Fiona Staples também me ficaram na retina.

MELHOR HORROR

Sem título

Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe, Edgar Allan Poe

aqui a opinião

Entre alguns contos de Robert E. Howard e BDs como Harrow County e Outcast, acabou por ser esta lindíssima coletânea da Saída de Emergência, com ilustrações de 28 artistas nacionais, o livro que mais me marcou dentro do género Horror em 2017. Os contos que mais me agradaram foram “A Queda da Casa de Usher” e “Os Crimes da Rua Morgue”. Em 2018 espero ler mais histórias dentro deste género especulativo.

MELHOR ROMANCE HISTÓRICO

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Um Mundo Sem Fim, Ken Follett

aqui e aqui a opinião

Uma vez mais, a minha escolha no género Romance Histórico ficou dividida entre Ken Follett e Bernard Cornwell, acabando por ser o primeiro a vencer. Embora ambos sejam ótimos, a escrita de Follett encanta-me com uma profundidade a que o autor das Crónicas Saxónicas ainda não me conseguiu chegar. Um Mundo Sem Fim, dividido em Portugal em dois volumes, foi publicado pela Editorial Presença, enquanto o terceiro volume das Crónicas de Cornwell, Os Senhores do Norte, chegou até nós pelas mãos da Saída de Emergência.

MELHOR ANTOLOGIA / COLETÂNEA

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Mulheres Perigosas, Organização George R.R. Martin e Gardner Dozois

aqui a opinião

Embora tenha lido algumas coletâneas de contos, esta acabou por ser a melhor antologia que li em 2017. Permeada de autores renomeados como Melinda M. Snodgrass, Carrie Vaughn, Brandon Sanderson, Joe Abercrombie e Megan Abbott, a antologia da Saída de Emergência oscilou entre os contos muito bons e outros menos. Sam Sykes foi a grande surpresa do conjunto e George R. R. Martin voltou a mostrar aquilo que vale.

MELHOR CONTO

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Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno, Brandon Sanderson

aqui a opinião

Incluído em Mulheres Perigosas, o conto “Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno” foi não só o melhor conto da antologia, como o melhor que li em 2017. Ambientada no universo da Cosmere, a história de uma mulher cheia de recursos que gere uma estalagem numa floresta prenhe de fantasmas cativou-me. Mais um pequeno exemplo de que Brandon Sanderson é um dos autores que deve, urgentemente, voltar a ser publicado em Portugal. Destaque ainda para o ciclo de leituras em que estou a participar, no qual revisito vários dos contos de Robert E. Howard, que merecem as minhas menções de honra.

MELHOR BANDA-DESENHADA

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Saga Volume 7, Brian K. Vaughan e Fiona Staples

aqui a opinião

Este ano, Saga conseguiu suplantar The Walking Dead como a minha BD favorita, embora ambas continuem ótimas. Se o volume 6 da space opera já me havia fascinado, no 7.º o enredo só melhora. Resta-me enaltecer o trabalho da G Floy Studio neste segmento. Num ano em que li mais de 40 BDs, entre elas toda a coleção Sandman de Neil Gaiman, livros como A Garagem Hermética e A Louca do Sacré-Coeur de Moebius, acabaram por ser as BDs da Image Comics que a G Floy tem trazido até nós a marcarem-me.

Wytches, The Witched + The Divine, a trilogia Velvet, Southern Bastards, Tony Chu: Detective Canibal e Outcast são alguns dos destaques do ano, e provas de que a G Floy está a crescer a olhos vistos. Quero, porém, deixar ainda um louvor para as excelentes Nocturno de Tony Sandoval (Kingpin), Monstress: Despertar de Marjorie Liu e Sana Takeda (Saída de Emergência), Nimona de Noelle Stevenson (Saída de Emergência) e Como Falar Com Raparigas em Festas de Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá (Bertrand).

MELHOR LANÇAMENTO

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O Assassino do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #1), Robin Hobb

aqui a opinião

Não podia deixar de vencer em todas as categorias em que se insere. O Assassino do Bobo foi lançado em maio pela Saída de Emergência, mas só em novembro é que o li, porque ainda me faltava ler a segunda série protagonizada por Fitz antes de mergulhar nesta terceira. Ainda assim, este ano foi fantástico em lançamentos, nomeadamente pela Saída de Emergência no que diz respeito à fantasia e também com a sua nova incursão no mundo das bandas-desenhadas. Outros livros que foram lançados este ano e merecem o meu destaque, mas não só a nível nacional como internacional, foram Origem de Dan Brown (Bertrand) e Mitologia Nórdica de Neil Gaiman (Editorial Presença), que li neste último semestre do ano.

MELHOR NACIONAL

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Terrarium, João Barreiros e Luís Filipe Silva

aqui a opinião

2017 foi mais um ano com espaço para a literatura nacional. Li a antologia Os Monstros que nos Habitam (que inclui um conto meu), A Nuvem de Hamburgo de Pedro Cipriano, Anjos de Carlos Silva, Moving, Fighting the Silent e Mission in the Dark de Bruno Martins Soares, La Dueña de José Augusto Alves e Conquista da Liberdade de Jay Luis, mas foi a nova edição de Terrarium, revista e aumentada pelos dois autores, e publicada pela Saída de Emergência, que mais me agradou. João Barreiros e Luís Filipe Silva são os mestres da FC no nosso país e merecem todo o destaque que lhes possa ser dado, para que o seu talento possa chegar a mais e a mais pessoas.

Deixo-vos com os mais sinceros votos de um ano de 2018 cheio de boas surpresas e que para o próximo ano continuem a acompanhar as minhas indicações literárias. Boas leituras para todos.

Estive a Ler: O Assassino do Bobo, Saga Assassino e o Bobo #1

Com toda a honestidade, não existe forma de matar alguém misericordiosamente. Há aqueles que não consideram crime afogar um recém-nascido imperfeito em água aquecida, como se o bebé não lutasse desesperadamente por encher os pulmões de ar.

O texto seguinte aborda o livro “O Assassino do Bobo”, primeiro volume da série Saga Assassino e o Bobo

Margaret Lindholm Ogden, também conhecida pelos pseudónimos Megan Lindholm e sobretudo Robin Hobb, é considerada como uma das autoras que definiu a fantasia épica como é vista nos dias de hoje. O Reino dos Antigos é a macro-série que começou a publicar em 1995, que inclui, para além de duas séries anexas sem a participação de FitzCavalaria Visionário, as três trilogias protagonizadas pelo famoso assassino que dá título a este livro.

Em Portugal, a Saga do Assassino e a Saga O Regresso do Assassino catapultaram o nome Robin Hobb para os píncaros da fantasia atual, e esta Saga Assassino e o Bobo vem apenas cimentar essa condição. Com tradução de Jorge Candeias e um total de 624 páginas, a edição nacional do primeiro volume, O Assassino do Bobo foi lançado pelas mãos da Saída de Emergência, que anunciou, inclusive, a vinda da autora a Portugal para o Festival Bang! de 2018.

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Fonte: https://www.pinterest.com/twayhatch/robin-hobb/

Pergunto-me várias vezes o que mudou na narrativa de Robin Hobb para eu ter torcido o nariz à primeira série e começar a amar a história de FitzCavalaria e do Reino dos Antigos a partir da segunda. Muito possivelmente deveu-se à forma como Hobb desenvolveu o seu mundo. A primeira saga começa com um mundo marcadamente medieval, em que o jovem bastardo de um rei torna-se aprendiz de um velho assassino. A premissa não marcou pela originalidade.

No entanto, Robin Hobb apenas usou-se dos clichés como ponto de partida. O final abrupto e talvez exageradamente fantasioso da primeira série desagradou a muitos, mas a mim particularmente marcou-me como um ponto de viragem, depois da lentidão cansativa a que havia sido sujeito. As personagens foram desenvolvidas de forma absurdamente credível, com especial foco nas relações humanas. E é esse foco de desenvolvimento individual e coletivo que diferencia Robin Hobb dos restantes autores.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/o-assassino-do-bobo/

É a escrita, porém, que a coloca no meu top de autores prediletos. Envolvente, suave, elegante e charmosa, a prosa de Hobb cativa pela forma fluída e detalhada com que descreve cenários e emoções com igual ritmo. Lento, é certo, mas não um lento maçante. Antes um lento que nos delicia e faz saborear a história como ela deve ser saboreada. Como um chocolate quente e cheio de natas numa noite gelada de inverno. Neste quesito, dedico um louvor particular ao trabalho de tradução; como vem sendo hábito, o trabalho de Jorge Candeias faz jus às qualidades da autora.

“Robin Hobb consegue fazer-nos sofrer, vibrar e conhecer um homem, personagem fictício, como poucas vezes conhecemos pessoas que vivem connosco no dia-a-dia.”

O Assassino do Bobo tem todos estes ingredientes e mais alguns. Um livro com mais de 600 páginas, praticamente todo ele passado na mesma casa / propriedade e com um lote restrito de personagens, e mesmo assim consegue maravilhar com dezenas de acontecimentos, de assaltos a mortes e nascimentos, mas acima de tudo com as dúvidas e inseguranças de um homem que nós, leitores, conhecemos desde a infância.

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Fonte: http://www.telegraph.co.uk/culture/books/bookreviews/11048552/Fools-Assassin-by-Robin-Hobb-review-high-art.html

FitzCavalaria conseguiu finalmente voltar para Moli, reconquistá-la depois de anos entregue aos braços de Castro. Fixos em Floresta Mirrada com os filhos dela e com a velha Paciência, o casal parece mais feliz do que nunca, muito embora tenham que enfrentar uma dura realidade. Os anos passaram por eles. Especialmente por Moli, uma vez que uma cura da magia hereditária chamada Talento mitigou a dureza dos anos no corpo de Fitz.

A vida parece correr de feição para o casal, mas o espetro de Torre do Cervo e das redes de espiões do Trono Visionário ainda paira sobre eles, principalmente agora que Urtiga, a única filha de Fitz e Moli e legítima proprietária de Floresta Mirrada, se tornou Mestra do Talento no Castelo de Torre do Cervo. Paralelamente a isso, o antigo assassino tem ainda de lidar com as idiossincrasias dos seus muitos empregados, e a forma como eles o encaram e respeitam, agora que todos o conhecem como Depositário Tomé Texugo.

De um repente, todas as tramas parecem voltar a conduzi-lo para lá. Um aprendiz de assassino chamado Lante é visto como pouco qualificado para essa tarefa por Breu, e cabe a Fitz vir a protegê-lo e arranjar-lhe utilidade. Urtiga continua a tratar Fitz com mais frieza do que a relação de um pai e de uma filha devia impor, enquanto Enigma se estabelece cada vez mais como o grande amor da jovem e um verdadeiro amigo para o pai desta, conquanto as decisões deste não a embaracem.

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Fonte: https://robinhobb.deviantart.com/gallery/50931509/Fitz-and-the-Fool

É nas relações humanas que Hobb expande o seu mundo, deixando-nos curiosos com os povos e acontecimentos que são apenas abordados para nos fazer morder o anzol, porque sabemos que mais tarde ou mais cedo eles irão emergir na trama para virar o mundo de Fitz novamente ao contrário e arrancá-lo da realidade para mais uma demanda impossível em que será, queira ou não, o protagonista. A autora californiana conhece o seu Fitz como ninguém, e também parece não cansar-se de fazê-lo sofrer.

Todo um espetro do passado de Fitz volta à tona, quando personagens morrem, quando outras que não davam sinais de vida há décadas surgem num roldão de novas tramas, perspetivas e tarefas. Até personagens que haviam morrido ressurgem nas recordações, nos sonhos e nos sentidos. Cheiros, sensações e detalhes saltam de cada página com uma intensidade e verosimilhança notáveis.

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Fonte: https://vernichtenalles.deviantart.com/favourites/68210557/Robin-Hobb-Fan-Art

Robin Hobb consegue fazer-nos sofrer, vibrar e conhecer um homem, personagem fictício, como poucas vezes conhecemos pessoas que vivem connosco no dia-a-dia. Cada tonalidade de personalidade, cada reserva, cada vertente emocional, cada detalhe da sua pessoa. Arrisco-me, no entanto, a dizer que FitzCavalaria está longe de ser a única razão por que esta saga é incrível. Abelha, Moli, Urtiga, Breu, Enigma, Esquiva, Lante, Kettricken, assim como o enigmático Bobo, são todas elas bem construídas, que encantam pela credibilidade com que são pinceladas.

“A relação entre estes dois protagonistas transcende o amor romântico ou fraternal, porque o Profeta Branco e o Catalisador completam-se como um só.”

Olharmos para a história deste personagem, que vivemos na pele através da leitura dos livros anteriores, faz arrepiar. Faz-nos considerar as nossas próprias histórias e a dos nossos pais e avós, e pensar que a panorâmica com que as olhamos hoje pode não estar nem perto daquela que eles vivenciaram. A forma como os filhos de Moli e de Fitz encaram Castro, por exemplo, aquela personagem que deu tanto a esta trama, pode ser tão confusa para eles como incrível para nós.

A forma como Hobb escreveu este livro também foi especial. Ao contrário de um salto de tempo abrupto, ela ofereceu-nos a passagem do tempo por Fitz como gradual, um pouco à imagem do que havia feito no primeiro volume de O Regresso do Assassino. De uma mensageira misteriosa num Festival de Inverno, até ao crescimento de uma criança que vem a ganhar tanto destaque como pontos de vista. Pela primeira vez, a trama não foi exclusivamente contada pelo protagonista, ainda que ele continue sempre atolado em problemas para resolver em simultâneo.

Sem título
Fonte: https://www.reddit.com/r/robinhobb/comments/32hyri/art_farewell_spoilers_assassins_quest/

Desenganem-se, porém, se pensam que a alusão ao Bobo no título é um logro. Visível ou não, sentimo-lo presente ao longo de toda a narrativa, sobretudo nos momentos em que Fitz mais parece sentir a sua ausência. A relação entre estes dois protagonistas transcende o amor romântico ou fraternal, porque o Profeta Branco e o Catalisador completam-se como um só. Especialmente estes dois.

Mas poderão as profecias do Bobo terem sido erradas? A questão do Filho Inesperado é abordada neste livro, questionando a exatidão das previsões do Profeta Branco e, mais especialmente, a sua interpretação. Mas, na verdade, tanto a filosofia do Bobo como a sua participação acabam por estar num segundo patamar neste livro, ganhando apenas destaque no final. O livro foca-se em Fitz e na sua família, assim como nas suas capacidades para lidar com ela e com pequenas trivialidades do dia-a-dia.

“O final de O Assassino do Bobo foi qualquer coisa que me surpreendeu.”

As relações com personagens do passado também se alteraram, conforme elas amadureceram ou se separaram. Podemos não ver Esporana ou Eliânia, ter breves vislumbres de Respeitador e Obtuso, e ver a relação filial de mentor e aprendiz entre Fitz e Breu a tornar-se uma quase inimizade quando o instinto protetor que há no assassino o vê como ameaça, mas os laços que os ligam a todos estão lá e movem-se subtilmente, fazendo-se sentir nos momentos mais determinantes. Abelha, a maior adição à trama, é uma lufada de ar fresco por que, penso, ninguém podia estar à espera.

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Fonte: https://www.pinterest.com/marleenmonique/robin-hobb/

O final de O Assassino do Bobo foi qualquer coisa que me surpreendeu. E deixou-me de água na boca, tantos foram os mistérios que ficaram por resolver. Ficou não só a vontade de descodificar todos os mistérios, como de ver o discorrer daqueles acontecimentos a materializar-se. A interpretação dos Servos sobre Abelha, a génese de Esquiva e Lante e a verdade sobre o Bobo são questões pendentes que me fazem querer o segundo volume, A Revelação do Bobo, o quanto antes.

Abstenho-me a revelar pormenores sobre a trama porque acredito que a experiência de leitura deste livro pode ser tremendamente afetada por eles. A grande magia deste volume em particular, para além de tudo o supracitado, é irmos sendo surpreendidos com as mais incríveis mudanças que vão acontecendo no transcorrer do livro. E sim, apesar do ritmo aparentemente lento, elas estão sempre a acontecer. Estamos a falar de um livro lindíssimo, e tudo o que ele me inspira é ternura.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 10/10

O Reino dos Antigos:

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Saga Assassino e o Bobo (Saída de Emergência):

#1 O Assassino do Bobo

#2 A Revelação do Bobo

 

A Divulgar: Robin Hobb em Portugal em 2018

Foi no passado sábado, dia 28 de outubro, que a Edições Saída de Emergência divulgou, em pleno Festival Bang!, que a convidada do próximo ano será Robin Hobb, uma das autoras de fantasia mais aclamadas em todo o mundo. A autora californiana, divulgou num vídeo a vontade de estar com os fãs portugueses, numa data ainda a definir.

Depois de, no passado fim de semana, a autora Anne Bishop ter feito sucesso no Pavilhão Carlos Lopes, naquela que foi a primeira edição do Festival Bang!, resta esperar por mais informações sobre a edição de 2018, que trará até nós a autora das séries Saga do Assassino, Saga O Regresso do Assassino e Saga O Assassino e O Bobo, publicadas no nosso país pela Edições Saída de Emergência.

Resumo Trimestral de Leituras #11

O verão costuma ser uma estação menos dada a leituras, mas em 2017 acabei por conseguir ler mais do que nos anos anteriores durante este período. Se julho foi o mês em que li mais, com as bandas-desenhadas a conhecerem alguma predominância, agosto trouxe-me boas surpresas como Os Despojados de Ursula K. Le Guin ou Anjos de Carlos Silva. Já o mês de setembro ficou marcado pela conclusão de várias sagas que vinha a seguir, como é o caso da Saga O Regresso do Assassino de Robin Hobb, A Torre Negra de Stephen King e A Primeira Lei de Joe Abercrombie. Destaque ainda para a leitura de vários autores nacionais, como Carlos Silva, Pedro Cipriano, Jay Luís ou Bruno Martins Soares. Foi A Súbita Aparição de Hope Arden, de Claire North, porém, o livro que mais me arrebatou, tornando-se a melhor leitura do ano até ao momento.

Regressos, Southern Bastards #3 – Jason Aaron e Jason Latour

O Homem Que Roubou o Mundo, Velvet #3 – Ed Brubaker, Steve Epting e Elizabeth Breitweiser

Monge Guerreiro – Romulo Felippe

Despertar, Monstress #1 – Marjorie Liu e Sana Takeda

Conquista da Liberdade, Rebeldes Europeus #1 – Jay Luís

As Nuvens de Hamburgo – Pedro Cipriano

A Jornada do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #4 – Robin Hobb

Os Despojados – Ursula K. Le Guin

Anjos – Carlos Silva

Os Mares do Destino, Elric #3 – Michael Moorcock

Bruxas | Wytches – Scott Snyder e Jock

A Forca, A Primeira Lei #2 – Joe Abercrombie

Os Dragões do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #5 – Robin Hobb

A Súbita Aparição de Hope Arden – Claire North

One-Punch Man #3 – One e Yusuke Murata

A Torre Negra, A Torre Negra #7 – Stephen King

Moving – Bruno Martins Soares

A Coroa, A Primeira Lei #3 – Joe Abercrombie

Fighting The Silent, The Dark Sea War Chronicles #1 – Bruno Martins Soares

Sem TítuloComecei julho com o terceiro volume de Southern Bastards, Regressos. É mais um capítulo da violenta saga sobre as gentes do Alabama criada por Jason Aaron e Jason Latour, autor e ilustrador norte-americanos. Focado em seis personagens, Regressos é ambientado no período do Homecoming, em que a equipa dos Reb’s prepara-se para receber os Warriors, um jogo ensombrado pelo suicídio de Big, que se sentira esmagado pela atitude conspiratória da população em torno da morte de Earl Tubb. Os dois autores conseguiram enriquecer a série e abrir novas perspectivas para a mesma, ao mesmo tempo em que submergiram o leitor num ritmo crescente. O Homem que Roubou o Mundo é o terceiro volume de Velvet, com argumento de Ed Brubaker, arte de Steve Epting e cores de Elizabeth Breitweiser. A um ritmo alucinante, o leitor segue a espia Velvet Templeton na peugada de respostas sobre a cabala que a fez matar o homem que amava. Uma conspiração que a leva aos meandros do Caso Watergate e ao rapto do presidente Nixon. Uma conclusão de trilogia fantástica, cheia de ação, perseguições e tiroteios. Duas fantásticas BD’s trazidas até nós pelas mãos da G Floy Studio Portugal.

Sem títuloDo autor brasileiro Romulo Felippe, Monge Guerreiro é um ótimo livro histórico pincelado de fantasia. Vemos um templário montado num unicórnio, um dragão a perseguir o papa pelas cidades italianas e uma missão lançada por Luís IX de França para proteger duas relíquias sagradas: a Lança de Longinus e a Coroa de Espinhos. Com uma melhor revisão e um maior equilíbrio entre a primeira e a segunda metade, o livro seria fantástico. Com argumento de Marjorie Liu e arte de Sana Takeda, duas artistas ligadas à Marvel, Despertar é o primeiro volume de Monstress, a nova aposta das Edições Saída de Emergência. Num mundo de inspiração asiática, uma rapariga arcânica vê-se no cerne de uma disputa de anos entre humanos e arcânicos. Muito embora pareça inofensiva, Maika Meiolobo tem dentro de si um poder imensurável, o resquício de um mal muito antigo que tem permanecido adormecido. Brilhante na arte e com um argumento maravilhoso, Monstress atira-nos para um mundo que levamos tempo a compreender, no qual a liderança matriarcal e a linguagem crua e direta nos absorvem de forma natural desde o primeiro momento.

Sem títuloPrimeiro volume da série Rebeldes Europeus da autora nacional Jay Luís, publicada pela Pastel de Nata Edições, Conquista da Liberdade é uma distopia interessante sobre um grupo rebelde que tenta resgatar famílias para colónias espaciais quando o nosso mundo foi dominado por um tirano de origens islâmicas. Duas irmãs que fazem parte desse sistema lutam contra a tirania, ao mesmo tempo que tentam proteger a sua própria família. Um livro algo fraco a nível de escrita, com muito a ser melhorado num próximo volume. Num outro patamar de qualidade está o livro de Pedro Cipriano, As Nuvens de Hamburgo, publicado pela Flybooks. O autor faz-nos vestir a pele de Marta, uma estudante de Erasmus em Hamburgo que começa a ter visões de acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo que tenta descobrir o que se passa consigo, procura usar o dom para fazer algo de importante. Um livro de leitura rápida e vocabulário simples que funcionou muito bem e agradou-me. O quarto volume da Saga O Regresso do Assassino de Robin Hobb, A Jornada do Assassino, não tem nada de muito original ou rasgos de génio, mas as ligações entre os personagens e entre os personagens e o leitor são incríveis e a escrita de Hobb é simplesmente maravilhosa. Respeitador avança na sua jornada para as Ilhas Externas acompanhado de Fitz, Breu, Obtuso e companhia, mas tanto o reencontro com a narcheska Eliânia como a procura do dragão não são exatamente como esperavam. Uma fantástica série publicada pela Edições Saída de Emergência.

Sem TítuloAgosto começou com ficção científica, também publicada pela Saída de Emergência. Escrito por Ursula K. Le Guin, Os Despojados narra a estadia de um físico natural de Anarres no seu planeta gémeo, Urras, de modo a conhecer melhor aquela civilização e a ajudá-los com os seus estudos. Rapidamente, porém, Shevek percebe o alcance da manipulação de que é alvo. Um livro bastante filosófico e político, acima de tudo uma dura crítica social aos regimes capitalistas, mas que acaba por mostrar que nenhuma civilização é perfeita e nenhum estado social consegue estar imune a vários e sérios problemas. Um livro que me deliciou, em parte graças à escrita envolvente de Ursula, mas que demorei a ler, por em determinados momentos ser algo confuso e aborrecido. Vencedor do Prémio Divergência em 2015, Anjos é o romance de estreia de Carlos Silva e o primeiro livro de solar punk em Portugal. Num futuro longínquo, o nosso país foi vítima de um terramoto. Seguiu-se um período de várias mudanças a nível social e tecnológico, que se traduziu num novo modo de vida. O Portugal que conhecíamos transformou-se. É um livro pequeno e por vezes pouco equilibrado na chuva de pontos de vista que nos quer mostrar, ainda assim de uma qualidade acima da média dentro da literatura nacional.

Sem títuloOs Mares do Destino é o terceiro volume da saga Elric de Michael Moorcock, e o último publicado em Portugal pela Saída de Emergência. Nesta aventura do imperador albino, acompanhamo-lo através do Multiverso, conhecendo países e culturas que julgava impossíveis. Dos mares revoltos, onde conhece uma jovem predestinada, ao navio de um capitão onde encontra três facetas de si próprio, Elric percorre um gólgota de devastação onde a sua vida encontra-se sempre em risco. É quando conhece um duque careca e enfrenta um antepassado que a jornada ganha finalmente sentido, no encontro das suas origens e das origens do seu povo. Um volume de que gostei bastante, porque apesar de não acrescentar nada de novo à trama conseguiu envolver-me. Uma prova de que as velhas histórias de espada e feitiçaria continuam a fascinar-me. Lançado pela G Floy Studio Portugal, Bruxas | Wytches é um produto de sucesso de um dos principais argumentistas de Batman, Scott Snyder. Com ilustração de Jock, Wytches é uma história tensa e incrível sobre uma família que tenta ultrapassar uma tragédia que os marcou a todos e unir os fragmentos do que tinham. A jovem Sailor não se consegue adaptar à nova escola nem à nova vida, e nessa espiral depressiva descobre que a floresta à volta da casa nova está pejada de bruxas. Para piorar, ela está marcada para morrer. Estas bruxas de Snyder são, no entanto, bem mais monstruosas do que a visão comum das mesmas. Não me maravilhou, mas gostei bastante e a arte está brutal.

Sem títuloA minha última leitura de agosto foi A Forca, o segundo volume da série A Primeira Lei de Joe Abercrombie. Enquanto Bayaz conduz Logen Novededos, Jezal dan Luthar, Ferro Maljinn, Malacus Quai e Pé-Longo até aos confins do mundo para encontrar um artefacto mágico capaz de salvar o mundo, o major West é obrigado a enfrentar os exércitos de Bethod e resistir à futilidade das ordens do príncipe Ladisla, a quem foi confiado. No sul, os exércitos gurkeses montam cerco a Dagoska, o último bastião da União naquelas paragens, e o inquisidor Glotka é enviado para lá não só para resistir ao cerco como para descobrir o que aconteceu ao seu antecessor. Arruinar uma conspiração torna-se, no entanto, o menor dos seus problemas. Foi um volume que melhorou em relação ao anterior, mas continuo sem gostar do núcleo principal. Os capítulos de Glotka, West e Cão foram, sem dúvida, o que salvou o livro. Uma edição 1001 Mundos. Pela Saída de Emergência, iniciei setembro com Os Dragões do Assassino. Numa toada semelhante à dos volumes anteriores, Robin Hobb desdobra a capa que encerrava todos os segredos no quinto e último volume da Saga O Regresso do Assassino. Os mistérios na Ilha de Aslevjal são finalmente descobertos, o dragão Fogojelo é arrancado da sua clausura sob o gelo e personagens como Castro, Fitz, Moli, Breu, Respeitador e Eliânia conhecem fins de maior ou menor felicidade. Um ciclo que foi encerrado com grande perícia e mestria por parte da autora canadiana, ainda assim houve algo que me fez não gostar tanto deste como dos anteriores.

Sem títuloO novo livro da autora Claire North, que já o ano passado havia surpreendido com As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, foi só a minha melhor leitura deste ano até ao momento. Envolvente, rico em pormenores e extremamente ambicioso, A Súbita Aparição de Hope Arden foca-se numa rapariga que desde os 16 anos viu toda a gente esquecer-se dela. Quando as pessoas deixam de a ver por segundos, esquecem-se do seu rosto e de quem ela é ou o que fez. Hope transformou-se numa rapariga esquecível, o que a obrigou a sobreviver por sua própria conta e risco e, à margem da sociedade, caiu no mundo do crime. A história é excelente mas foi sobretudo a escrita da autora que me encantou. Com argumento de One e ilustrações de Yusuke Murata, o terceiro volume de One-Punch Man, recentemente publicado pela Devir, leva os heróis Saitama e Genos a uma prova para determinarem a classe de super-heróis a que pertencem e verem os seus nomes registados na lista oficial. Depois, terão de lidar ainda com um motim de super-heróis e com monstros aborrecidos. Apesar de ter vários pormenores interessantes, a história vale sobretudo pelo braço-de-ferro entre Saitama e Genos e a insistência do ciborgue em ser ensinado por um homem que não está nem aí, nem sabe o que lhe haveria de ensinar. Parece-me, no entanto, um mangá que está longe de justificar o sucesso que obteve.

Sem títuloCheguei finalmente ao fim da saga A Torre Negra de Stephen King, publicado no nosso país pela Bertrand Editora. O último volume, com o mesmo nome, mostra Roland, Jake, Eddie, Susannah, Oi e o padre Callahan numa corrida contra o tempo para impedirem grandes males, mas a reta final da caminhada para a Torre Negra pertence exclusivamente a Roland de Gilead. Um livro que deixou a claro toda a simbologia criada pelo autor, foi uma história que me agradou imenso, os finais foram excelentes e as cenas de mortes incríveis. O pecado do livro, tal como havia verificado em livros anteriores da série, é o volume ostensivo de páginas, quando muitos capítulos são absurdamente dispensáveis. Já o conto do autor português Bruno Martins Soares disponível na Amazon, Moving, fala sobre livros (teimosos) e sobre Paulo, um homem averso a mudanças que é obrigado a aceitá-las. A escrita do Bruno é inteligente e fluída, mas também intimista, deixando-nos vestir a pele do personagem principal e nunca abandona a toada humorística durante a narração.

Sem TítuloTerceiro e último volume da série A Primeira Lei de Joe Abercrombie, A Coroa é um desenrolar de acontecimentos frenéticos e plot-twists de cortar a respiração. Bayaz e Ferro foram os personagens de que gostei menos e toda a magia envolvida soou-me forçada e anti-natural, quebrando a fluidez narrativa que Joe demonstrou ao desenvolver personagens como Glotka, Collem West ou Cão. Ainda assim, os personagens Jezal e Logen melhoraram bastante e, ainda que não tenha “comprado” a história nem gostado muito do final, fica claro que é uma trilogia a não deixar de ler. Primeiro volume da série The Dark Sea War Chronicles, Fighting The Silent do autor nacional Bruno Martins Soares estará disponível já dia 1 de outubro na Amazon. Trata-se de uma série de ficção científica protagonizada por Byllard Iddo, onde a ação acontece num sistema solar longínquo. Ali, uma guerra é travada entre o reino de Torrance e a temida República Axx. Após o fatídico incidente, Byl juntou-se à Marinha Espacial, onde se tornou tenente na poderosa armada de Webbur, a nação aliada a Torrance que estará na linha da frente para receber o embate de uma incursão inimiga. É um livro pequeno, muito bem escrito e original.

Neste momento estou a ler Elantris de Brandon Sanderson, e autores como Steven Erikson, George R. R. Martin, Edgar Allan Poe e Andrzej Sapkowski serão seguramente comentados por mim aqui no NDZ no próximo trimestre. Também as BD’s não serão esquecidas e os novos volumes de Saga e Tony Chu não me escaparão. Fiquem atentos.

Estive a Ler: Os Dragões do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #5

Castro ergueu a cabeça. Virou-se. Ainda hoje me lembro de cada instante daquele momento. Vi-o encher os pulmões de ar e ouvi, através do ressoar que tinha nos ouvidos, o profundo rugido do seu ultraje por alguma coisa ter o desplante de ameaçar o seu filho.

O texto seguinte aborda o livro “Os Dragões do Assassino”, quinto volume da série Saga O Regresso do Assassino

Os Dragões do Assassino compreende a segunda metade do livro Fool’s Fate, terceiro e último volume da trilogia The Tawny Man da autora californiana Robin Hobb, dividida em português em cinco volumes. Publicado originalmente em 2004, a versão portuguesa chegou às livrarias em 2012, pelas mãos das Edições Saída de Emergência, com tradução de Jorge Candeias.

«Os fãs de Hobb não ficarão desapontados com esta nova série.» é a recomendação utilizada pela editora na contracapa, pegando nas palavras do Monroe News-Star, uma publicação popular no Louisiana. De facto, com esta segunda trilogia passada no mundo de FitzCavalaria Visionário, Robin Hobb cimentou o seu papel como primeira-dama do mundo da Fantasia, e as 448 páginas deste volume são evidência da sua inegável qualidade.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/506795764291048011/

Li os 5 volumes da Saga O Regresso do Assassino este ano e ainda me pergunto como o fiz com tanta facilidade e entrega, depois de ter lido a primeira saga de forma tão morosa e amargurada. A verdade é que a Saga do Assassino não é má, nunca o cataloguei como tal, mas a beleza do seu mundo e o alcance de tudo o que ocorreu nesses primeiros livros só são compreendidos e deglutinados nesta segunda sequência. O mundo de The Realm of Elderlings não me maravilhou pela simples razão que pouco de traz de novo ao universo da Fantasia, mas aquilo que Robin Hobb faz nesse mundo tão corriqueiro acabou por encantar-me.

A escrita de Hobb é, sem a menor dúvida, o ingrediente secreto. Sem a forma elegante com que escreve, os estados de alma que consegue transmitir, os dilemas e aceitações do protagonista, esta série dir-me-ia muito pouco. Mas ela transforma personagens triviais em criaturas de carne e osso, cujos desgostos e vibrações conseguimos sentir como se fossem nossos. É a maturidade com que a autora californiana põe a descoberto uma trama simples que a transforma numa série complexa, sentimental, poderosa. Dificilmente encontrarei um autor de fantasia que me faça sentir com tanta profundidade a dureza da vida real e as consequências das escolhas.

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Fonte: http://saidademergencia.com

Neste quinto volume, encontramo-nos na ilha de Aslevjal, onde o príncipe Respeitador está destinado a cortar a cabeça a um dragão e colocá-lo na lareira da narcheska Eliânia das Ilhas Externas, se pretende consumar o casamento que salvará os Seis Ducados de uma nova guerra. No entanto, a tarefa não se adivinha fácil. Não só existe o Hetgurd, o conselho de clãs das Ilhas Externas que não parece muito determinado em permitir que o dragão seja morto, como o próprio dragão de que falam as lendas, Fogojelo, está enterrado debaixo do gelo, e a tarefa de desenterrá-lo pode demorar muito mais tempo do que seria desejável.

“É a maturidade com que a autora californiana põe a descoberto uma trama simples que a transforma numa série complexa, sentimental, poderosa.”

Complicando a situação, o Círculo de Manha do príncipe sente a presença do dragão, o que não só deixa claro que ele está vivo, como também os leva a sentir relutância em matá-lo. As emoções tomam conta de todos e depressa o contingente do príncipe sente-se dividido em relação ao que deve fazer. Também Respeitador partilha das suas dúvidas e descrenças, sendo a mão sempre obstinada de Breu, o conselheiro real, a lembrá-lo dos seus deveres e das consequências que podem advir de uma mudança de planos.

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Fonte: http://www.unboundworlds.com/2016/03/cage-match-2016-round-1-fitzchivalry-farseer-and-nighteyes-vs-prince-caspian-and-reepicheep/

FitzCavalaria Visionário, conhecido pela maioria dos presentes como Tomé Texugo, um mero criado, também sente as suas próprias mágoas e considerações. Mas, acima de tudo o resto, cansaço. Toda a viagem até à ilha foi o responsável por Obtuso, o simplório criado de Breu que, não só se revelou o mais poderoso de entre os presentes na magia do Talento, como revelou-se também intratável durante a travessia dos mares. A sua aversão a barcos e os contínuos enjoos exigiram a intervenção de Urtiga, a filha de Fitz que revelara um especial dom para a arte do Talento através dos sonhos, como de Teio, o Mestre da Manha que possui uma experiência e sensatez difícil de igualar.

No entanto, comer um bolo que Peotre Águapreta, o tio de Eliânia, lhe ofereceu, foi o que realmente o deixou de rastos. O bolo continha casco-de-elfo, uma substância que aplaca o uso de Talento, mas que, naquelas circunstâncias, o deixou completamente inutilizado no uso da magia, mas também com uma especial apetência para falar. Das suas desilusões. Das suas amarguras. Do seu fado inglório.

O seu amigo Bobo, aquele que todos conhecem agora como Dom Dourado, apareceu misteriosamente na ilha, depois dos esforços concertados entre Fitz e Breu para impedirem a sua saída de Torre do Cervo, uma vez que este previra que encontraria em Aslevjal a própria morte. A relação entre Fitz e o Bobo encontra-se, então, num impasse, uma vez que Fitz traíra o seu amigo na tentativa de salvar-lhe a vida. Pouco a pouco, porém, a leitura do seu próprio ponto de vista e o transcorrer dos acontecimentos vem derreter o gelo que se implantara entre ambos.

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Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/30688013-assassin-s-fate

O Homem Negro é um dos mistérios daquela ilha. É visto como uma figura lendária, que aparece esporadicamente e só para aceitar as oferendas que lhe são deixadas. Quando ele não as faz desaparecer, é visto como um sinal de mau agouro. Mas mais terríveis dos que os assomos inesperados dessa figura escura, são as lendas que falam da Mulher Pálida, a profeta que acompanhou Quebal Pancru na liderança das Ilhas Externas durante a Guerra dos Navios Vermelhos, uma figura marginal frequentemente ligada ao ato do Forjamento, a captura emocional de um ser humano que transformara milhares de ilhéus e povos dos Seis Ducados em pouco mais do que criaturas sem valores nem consciência deles, exércitos despojados de qualquer tipo de comiseração durante os anos terríveis da guerra.

Quando Ordem e Enigma desaparecem, cabe a Fitz, ao Bobo e a Obtuso seguirem o seu rasto, mas esse rasto pode conduzi-los às profecias tecidas pelo Bobo e às mais terríveis profundezas de Aslevjal. Como sempre, cabe a Fitz, o Catalisador, operar as mudanças que revolucionarão os destinos do mundo. Mas, paralelamente a isso, há um dragão para ser desenterrado, e um outro, Tintaglia, a fêmea de Vilamonte, tem ainda uma palavra a dizer num despique que, de uma forma ou de outra, terminará em tragédia para todos.

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Fonte: https://vlac.deviantart.com/art/Fool-s-Fate-126177501

Robin Hobb deixou para este volume as maiores emoções da saga, mas, no entanto, acabou por não ser o meu volume preferido. Os Dragões do Assassino oferece-nos uma imensidão de acontecimentos, apresentou-nos vilões, dragões, batalhas, mortes importantes, revelações, reencontros e finais dignos e fidedignos para os personagens que vínhamos a acompanhar, demorei uma única semana para o devorar e, no entanto, coloco este livro um furinho abaixo dos anteriores. E, para ser sincero, não sei explicar bem porquê.

“Talvez aquilo que me fez não gostar tanto deste volume como dos anteriores foram as passagens com a Mulher Pálida.”

Adorei toda a intervenção de Castro neste volume. O homem que criara Fitz veio a ter um papel de grande importância nesta trama, e foi, ao longo das duas sagas, um dos meus personagens preferidos. Do início ao fim, apreciei tudo o que a autora lhe reservou. Deliciei-me ao ler as passagens de Paciência e Renda, e pouco me recordava delas da primeira saga; de qualquer jeito, nunca me pareceram tão maravilhosas. Breu continuou a ser Breu, com todas as tonalidades entre a sensatez de um velho conselheiro e a rebeldia de um velho senil. Respeitador e Eliânia, que belo casal. Que personagens.

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Fonte: https://vlac.deviantart.com/art/The-Narcheska-and-the-Prince-138334852

Sempre preferi que Fitz ficasse com Kettricken do que com Moli, a quem nunca achei a menor graça. Ainda assim, toda a forma como a história foi contada e o final que Hobb delineou, o modo como o contou, foi de mestre. Adorei tudo, desde os acontecimentos com os dragões, com Castro, com o Bobo, o regresso a Cervo, aos finais determinados pela autora. Gostei de Enigma, de Veloz, de Teio, dos filhos de Moli, dos dragões… Perguntem-me então por que não gostei tanto deste volume como dos anteriores?

Talvez aquilo que me fez não gostar tanto deste volume como dos anteriores foram as passagens com a Mulher Pálida. Achei uma personagem bastante cliché, como grande vilã, com propósitos algo óbvios e um tom algo decadente. Sinceramente não imagino outra forma de a qualificar, mas esperava algum volte-face em relação à sua identidade ou uma passagem menos materializada na trama. De qualquer forma, gostei da velocidade com que os acontecimentos em volta dela ocorreram e da forma como foram ultrapassados.

“Robin Hobb tornou-se uma das minhas autoras preferidas e a sua escrita maravilhou-me em toda sua extensão.”

Em jeito de balanço de saga, só posso tecer os mais rasgados elogios. Robin Hobb tornou-se uma das minhas autoras preferidas e a sua escrita maravilhou-me em toda sua extensão. Hobb ofereceu-nos uma história cheia de dilemas e debates morais, dúvidas e escolhas, mas acima de tudo ofereceu-nos um personagem plausível, atolado em problemas, que mostrou estar bem mais maduro e sensato do que o havíamos conhecido na primeira série. Nunca esperei que tivesse de passar por duas perdas tão duras durante esta saga, mas ambas fizeram-no crescer e resolver algumas das suas indecisões. Porque por vezes, quando demoramos muito tempo a escolher, a vida escolhe por nós.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Estive a Ler: A Jornada do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #4

Perguntei brevemente a mim próprio se os súbitos planos para a partida teriam alguma coisa a ver com a cena noturna que presenciara, mas depois vi a libertação de uma ave que levava a notícia da nossa partida e decidi que as novas nos teriam sem dúvida sido trazidas pelas mesmas asas.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Jornada do Assassino”, quarto volume da série Saga O Regresso do Assassino

O livro Fool’s Fate é o último da trilogia The Tawny Man, da autora de fantasia Robin Hobb. Em Portugal foi dividido em dois volumes, tratando-se este livro da sua primeira metade. Lançado em 2012 pela Edições Saída de Emergência, com tradução de Jorge Candeias, A Jornada do Assassino é o quarto volume da versão em português da saga intitulada O Regresso do Assassino.

Licenciada em Comunicação pela Universidade de Denver, a autora californiana Margaret Ogden é autora de diversos livros de fantasia contemporânea sob o pseudónimo Megan Lindholm, dedicando-se à fantasia épica com o nome Robin Hobb. Após alguns anos a viver no Alasca, reside atualmente em Tacoma, Washington.

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Fogojelo (Fonte: lollo.deviantart.com)

Os preparativos para a viagem

Para bem dos Seis Ducados, o Príncipe Respeitador deve contrair matrimónio com a princesa Eliânia, a narcheska das Ilhas Externas. Um falhanço no enlace pode conduzir os povos a uma guerra tão letal quanto foi a Guerra dos Navios Vermelhos. Todavia, uma ofensa do príncipe levou a narcheska e erguer-lhe um desafio. Para se casar com ela, deve entregar-lhe a cabeça de uma figura lendária, o dragão Fogojelo, enterrado na ilha de Aslevjal. A Jornada do Assassino começa com os preparativos para a viagem.

FitzCavalaria, sob o disfarce de Tomé Texugo, prossegue a sua função como Mestre do Talento do Príncipe. Claro está, tanto ele como o seu mentor Breu ou o atrasado Obtuso irão participar na jornada do príncipe, uma vez que são o seu Círculo de Talento, peça provavelmente fundamental na tarefa de matar o dragão. Quem também irá acompanhá-los é o Círculo de Manha de Respeitador. Para além de dotado na magia da nobreza, o Talento, o Príncipe Respeitador é também Manhoso, precisando exercitar-se na magia dos animais.

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(Fonte: starvingdesigner.blogspot.com)

O que preocupa Fitz é, acima de tudo, a profecia do Bobo. O seu velho amigo, que dá agora pelo nome de Dom Dourado, parece gastar fortunas ao jogo, apenas para se ver livre de todo o seu pecúlio. Afinal, ele profetizou que iria morrer na demanda para Aslevjal, de modo a conservar o dragão vivo e proporcionar o encontro entre Fogojelo e Tintaglia, o dragão fêmea dos Ermos Chuvosos, e garantir a sua prole. Enquanto Fitz parece bastante preocupado com a ideia de ver o amigo morrer, Breu está incomodado com a ideia do Bobo em salvar o dragão, podendo com isso arruinar os planos da Rainha.

Os temores de Breu e Fitz unem-se numa concordância: o Bobo não deve partir de Torre do Cervo. Enquanto ganha coragem para resolver velhas querelas e deixar o destino do filho adoptivo, Zar, entregue a ele mesmo, Fitz tem ainda um problema a resolver. Ele descobre que Veloz, o filho de Castro, o homem que o criou, com Moli, a mulher que sempre amou, está em Torre do Cervo para servir a Rainha e treinar a Manha, não com o aval dos pais, mas por sua própria conta e risco.

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Bobo (vlac.deviantar.com)

Aterrorizado com o desassossego dos pais para com o desaparecimento de Veloz, Fitz contacta Urtiga, a sua filha, criada por Castro como dele, dando-lhe conta de que o irmão está em segurança e que em breve estará de regresso a casa. De facto, Fitz manda-o embora, quase ao mesmo tempo que descobre algo inquietante: Teio, o Mestre da Manha, vinculado a uma gaivota chamada Risca, sabe quem ele é. FitzCavalaria Visionário, o herdeiro bastardo de Cavalaria. O lendário Bastardo Manhoso.

Breu consegue impedir que o Bobo viaje com o grupo para as Ilhas Externas. Através das suas influências, o conselheiro da Rainha faz com que o Bobo seja feito prisioneiro, pelo menos o tempo suficiente até zarparem e estarem longe e em segurança. Apesar de saber que não podia deixá-lo viajar consigo, sabendo que ele iria morrer, Fitz não se sente confortável com aquilo, pesando-lhe a consciência. A viagem para as Ilhas Externas é morosa e terrível, muito por culpa de Obtuso. Fitz é destacado para o acompanhar, o que se revela uma tarefa árdua. O jovem está sempre enjoado e a vomitar, e só quer voltar para casa.

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Fitz e o Bobo (Fonte: foolsbeloved.tumblr.com)

Apenas a ajuda de Teio socorre Fitz do seu calvário. O homem parece dotado na arte de acalmar e a forma como lida com as pessoas fá-lo lembrar do modo como Castro lidava com os animais, na sua infância. Também Urtiga, através dos sonhos, consegue acalmar Obtuso e minimizar o seu sofrimento. E é nos sonhos que Fitz é surpreendido pelo dragão Tintaglia, que tenta desesperadamente saber informações sobre Fogojelo e se é mesmo verdade haver outro dragão, um dragão vivo e capaz de lhe servir como parceiro.

Fitz descobre que Veloz desobedeceu à sua instrução e não voltou para os pais, integrando a frota e o Círculo de Manha do príncipe. Através de Urtiga, informa Castro de que o seu filho está com ele e em segurança, sabendo que, ao fazê-lo, o informa também de quem é e que está vivo. As repercussões de tal revelação podem fazer colapsar a relação de Castro com Moli, mas Fitz desconfia que essa relação está há muito puída.

A instabilidade de Obtuso é uma constante e Fitz martiriza-se por obrigá-lo a continuar, mesmo sabendo que ele é o mais poderoso de entre eles na arte do Talento. Vítimas de comentários trocistas e da volatilidade dos homens, chegam às Ilhas Externas, onde o Hetgurd, um concílio de clãs, deixa claro que, qualquer que seja o resultado da caça ao dragão, poderão haver conflitos prejudiciais para todos. Peotre Águapreta, o tio de Eliânia, rouba-os ao concílio para os levar até à narcheska. Fitz percebe que ela está mais adulta do que a conheceram em Torre do Cervo, como também percebe que o desprezo entre ela e o príncipe se transformou em algo, que pode muito bem resultar em amor.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Os poderes do Assassino tornaram-no uma lenda.
Mas quando ensinar o herdeiro a usá-los, ficará o reino mais seguro ou irremediavelmente perdido?
Depois do desafio lançado ao Príncipe Respeitador pela narcheska das Ilhas Externas, só lhe resta embarcar para o país de Eliânia em busca do dragão de Aslejval que tanto pode existir como não passar de uma lenda antiga.
Fitz, o mais famoso e temido assassino do reino, irá com ele. Mas a partida do herdeiro ao trono dos Seis Ducados para uma atribulada viagem marítima até uma terra de antepassados e inimigos não é algo que se faça de ânimo leve.
Que desafios irão ter de enfrentar os nossos heróis? As magias que ambos manejam imperfeitamente, serão uma ajuda ou um empecilho?
E o que acontecerá aos Seis Ducados se o herdeiro desaparecer
para sempre nessa terra misteriosa e distante?

OPINIÃO:

A leitura deste livro foi deliciosa. Atrevo-me a dizer que foi “só” o melhor que já li este ano. Robin Hobb supera-se, livro após livro, e só não dou este A Jornada do Assassino como o melhor livro que já li graças a um obstáculo chamado precedentes. Falta-lhe a excentricidade de Scott Lynch e a paixão visceral de George R. R. Martin, mas ainda assim a escrita dela é de uma candura, de uma maleabilidade, de um encanto, de me deixar com o queixo caído. Robin Hobb conseguiu, nesta segunda série dedicada a FitzCavalaria, tornar-se uma das minhas autoras favoritas.

O que dizer das relações que ela cria? Cada personagem é de um maravilhamento fantástico, estejamos a falar de Fitz, Bobo, Obtuso, Breu, Respeitador ou Eliânia. Até mesmo a personagens muito mais secundários como Enigma ou Berbigão a autora consegue dar uma humanidade palpável. Fitz é o cúmulo de toda a sua grandiosidade como contadora de histórias. Sentimos cada desilusão, cada nó no estômago, cada linha de relacionamento daquele personagem. E é impossível não adorá-lo, mesmo quando ele erra, mesmo quando ele se escuda de um orgulho desnecessário. É uma personagem admirável.

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Cenas de Fool’s Fate (Fonte: ginger-snuffkin.deviantar.com)

A história ganhou mais fôlego e mais potencial com a saída para as Ilhas Externas. Esta jornada é uma brisa de ar fresco na narrativa e fica a sensação de que tudo pode acontecer para os nossos protagonistas. Eles estão todos ali. E mesmo com os personagens que não vemos, como Moli, Castro ou Kettricken, sentimos o que está a acontecer com eles, através das informações que chegam ao narrador. Desde que li As Crónicas de Gelo e Fogo que não me sentia tão viciado numa série literária. Acabo este livro com vontade de devorar o próximo.

“Fitz é o cúmulo de toda a sua grandiosidade como contadora de histórias. Sentimos cada desilusão, cada nó no estômago, cada linha de relacionamento daquele personagem.”

Robin Hobb não se reserva a plot-twists. Não lhe basta fazer variações de rumo narrativo, coser linhas de relacionamentos genuínas e maravilhosas, e fazer evoluir as personalidades dos personagens. Ela também cria surpresas. E quantas. A autora consegue a proeza de contar uma história dedinho a dedinho, correndo o risco de incorrer numa narração lenta, e fazer-nos sempre tropeçar em surpresas quando menos esperamos. Até as imensas páginas de enjoos marítimos de Obtuso conseguiram agradar-me. Senti vontade que o livro não acabasse, o que é muito raro de acontecer.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino