Estive a Ler: A Jornada do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #4

Perguntei brevemente a mim próprio se os súbitos planos para a partida teriam alguma coisa a ver com a cena noturna que presenciara, mas depois vi a libertação de uma ave que levava a notícia da nossa partida e decidi que as novas nos teriam sem dúvida sido trazidas pelas mesmas asas.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Jornada do Assassino”, quarto volume da série Saga O Regresso do Assassino

O livro Fool’s Fate é o último da trilogia The Tawny Man, da autora de fantasia Robin Hobb. Em Portugal foi dividido em dois volumes, tratando-se este livro da sua primeira metade. Lançado em 2012 pela Edições Saída de Emergência, com tradução de Jorge Candeias, A Jornada do Assassino é o quarto volume da versão em português da saga intitulada O Regresso do Assassino.

Licenciada em Comunicação pela Universidade de Denver, a autora californiana Margaret Ogden é autora de diversos livros de fantasia contemporânea sob o pseudónimo Megan Lindholm, dedicando-se à fantasia épica com o nome Robin Hobb. Após alguns anos a viver no Alasca, reside atualmente em Tacoma, Washington.

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Fogojelo (Fonte: lollo.deviantart.com)

Os preparativos para a viagem

Para bem dos Seis Ducados, o Príncipe Respeitador deve contrair matrimónio com a princesa Eliânia, a narcheska das Ilhas Externas. Um falhanço no enlace pode conduzir os povos a uma guerra tão letal quanto foi a Guerra dos Navios Vermelhos. Todavia, uma ofensa do príncipe levou a narcheska e erguer-lhe um desafio. Para se casar com ela, deve entregar-lhe a cabeça de uma figura lendária, o dragão Fogojelo, enterrado na ilha de Aslevjal. A Jornada do Assassino começa com os preparativos para a viagem.

FitzCavalaria, sob o disfarce de Tomé Texugo, prossegue a sua função como Mestre do Talento do Príncipe. Claro está, tanto ele como o seu mentor Breu ou o atrasado Obtuso irão participar na jornada do príncipe, uma vez que são o seu Círculo de Talento, peça provavelmente fundamental na tarefa de matar o dragão. Quem também irá acompanhá-los é o Círculo de Manha de Respeitador. Para além de dotado na magia da nobreza, o Talento, o Príncipe Respeitador é também Manhoso, precisando exercitar-se na magia dos animais.

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(Fonte: starvingdesigner.blogspot.com)

O que preocupa Fitz é, acima de tudo, a profecia do Bobo. O seu velho amigo, que dá agora pelo nome de Dom Dourado, parece gastar fortunas ao jogo, apenas para se ver livre de todo o seu pecúlio. Afinal, ele profetizou que iria morrer na demanda para Aslevjal, de modo a conservar o dragão vivo e proporcionar o encontro entre Fogojelo e Tintaglia, o dragão fêmea dos Ermos Chuvosos, e garantir a sua prole. Enquanto Fitz parece bastante preocupado com a ideia de ver o amigo morrer, Breu está incomodado com a ideia do Bobo em salvar o dragão, podendo com isso arruinar os planos da Rainha.

Os temores de Breu e Fitz unem-se numa concordância: o Bobo não deve partir de Torre do Cervo. Enquanto ganha coragem para resolver velhas querelas e deixar o destino do filho adoptivo, Zar, entregue a ele mesmo, Fitz tem ainda um problema a resolver. Ele descobre que Veloz, o filho de Castro, o homem que o criou, com Moli, a mulher que sempre amou, está em Torre do Cervo para servir a Rainha e treinar a Manha, não com o aval dos pais, mas por sua própria conta e risco.

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Bobo (vlac.deviantar.com)

Aterrorizado com o desassossego dos pais para com o desaparecimento de Veloz, Fitz contacta Urtiga, a sua filha, criada por Castro como dele, dando-lhe conta de que o irmão está em segurança e que em breve estará de regresso a casa. De facto, Fitz manda-o embora, quase ao mesmo tempo que descobre algo inquietante: Teio, o Mestre da Manha, vinculado a uma gaivota chamada Risca, sabe quem ele é. FitzCavalaria Visionário, o herdeiro bastardo de Cavalaria. O lendário Bastardo Manhoso.

Breu consegue impedir que o Bobo viaje com o grupo para as Ilhas Externas. Através das suas influências, o conselheiro da Rainha faz com que o Bobo seja feito prisioneiro, pelo menos o tempo suficiente até zarparem e estarem longe e em segurança. Apesar de saber que não podia deixá-lo viajar consigo, sabendo que ele iria morrer, Fitz não se sente confortável com aquilo, pesando-lhe a consciência. A viagem para as Ilhas Externas é morosa e terrível, muito por culpa de Obtuso. Fitz é destacado para o acompanhar, o que se revela uma tarefa árdua. O jovem está sempre enjoado e a vomitar, e só quer voltar para casa.

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Fitz e o Bobo (Fonte: foolsbeloved.tumblr.com)

Apenas a ajuda de Teio socorre Fitz do seu calvário. O homem parece dotado na arte de acalmar e a forma como lida com as pessoas fá-lo lembrar do modo como Castro lidava com os animais, na sua infância. Também Urtiga, através dos sonhos, consegue acalmar Obtuso e minimizar o seu sofrimento. E é nos sonhos que Fitz é surpreendido pelo dragão Tintaglia, que tenta desesperadamente saber informações sobre Fogojelo e se é mesmo verdade haver outro dragão, um dragão vivo e capaz de lhe servir como parceiro.

Fitz descobre que Veloz desobedeceu à sua instrução e não voltou para os pais, integrando a frota e o Círculo de Manha do príncipe. Através de Urtiga, informa Castro de que o seu filho está com ele e em segurança, sabendo que, ao fazê-lo, o informa também de quem é e que está vivo. As repercussões de tal revelação podem fazer colapsar a relação de Castro com Moli, mas Fitz desconfia que essa relação está há muito puída.

A instabilidade de Obtuso é uma constante e Fitz martiriza-se por obrigá-lo a continuar, mesmo sabendo que ele é o mais poderoso de entre eles na arte do Talento. Vítimas de comentários trocistas e da volatilidade dos homens, chegam às Ilhas Externas, onde o Hetgurd, um concílio de clãs, deixa claro que, qualquer que seja o resultado da caça ao dragão, poderão haver conflitos prejudiciais para todos. Peotre Águapreta, o tio de Eliânia, rouba-os ao concílio para os levar até à narcheska. Fitz percebe que ela está mais adulta do que a conheceram em Torre do Cervo, como também percebe que o desprezo entre ela e o príncipe se transformou em algo, que pode muito bem resultar em amor.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Os poderes do Assassino tornaram-no uma lenda.
Mas quando ensinar o herdeiro a usá-los, ficará o reino mais seguro ou irremediavelmente perdido?
Depois do desafio lançado ao Príncipe Respeitador pela narcheska das Ilhas Externas, só lhe resta embarcar para o país de Eliânia em busca do dragão de Aslejval que tanto pode existir como não passar de uma lenda antiga.
Fitz, o mais famoso e temido assassino do reino, irá com ele. Mas a partida do herdeiro ao trono dos Seis Ducados para uma atribulada viagem marítima até uma terra de antepassados e inimigos não é algo que se faça de ânimo leve.
Que desafios irão ter de enfrentar os nossos heróis? As magias que ambos manejam imperfeitamente, serão uma ajuda ou um empecilho?
E o que acontecerá aos Seis Ducados se o herdeiro desaparecer
para sempre nessa terra misteriosa e distante?

OPINIÃO:

A leitura deste livro foi deliciosa. Atrevo-me a dizer que foi “só” o melhor que já li este ano. Robin Hobb supera-se, livro após livro, e só não dou este A Jornada do Assassino como o melhor livro que já li graças a um obstáculo chamado precedentes. Falta-lhe a excentricidade de Scott Lynch e a paixão visceral de George R. R. Martin, mas ainda assim a escrita dela é de uma candura, de uma maleabilidade, de um encanto, de me deixar com o queixo caído. Robin Hobb conseguiu, nesta segunda série dedicada a FitzCavalaria, tornar-se uma das minhas autoras favoritas.

O que dizer das relações que ela cria? Cada personagem é de um maravilhamento fantástico, estejamos a falar de Fitz, Bobo, Obtuso, Breu, Respeitador ou Eliânia. Até mesmo a personagens muito mais secundários como Enigma ou Berbigão a autora consegue dar uma humanidade palpável. Fitz é o cúmulo de toda a sua grandiosidade como contadora de histórias. Sentimos cada desilusão, cada nó no estômago, cada linha de relacionamento daquele personagem. E é impossível não adorá-lo, mesmo quando ele erra, mesmo quando ele se escuda de um orgulho desnecessário. É uma personagem admirável.

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Cenas de Fool’s Fate (Fonte: ginger-snuffkin.deviantar.com)

A história ganhou mais fôlego e mais potencial com a saída para as Ilhas Externas. Esta jornada é uma brisa de ar fresco na narrativa e fica a sensação de que tudo pode acontecer para os nossos protagonistas. Eles estão todos ali. E mesmo com os personagens que não vemos, como Moli, Castro ou Kettricken, sentimos o que está a acontecer com eles, através das informações que chegam ao narrador. Desde que li As Crónicas de Gelo e Fogo que não me sentia tão viciado numa série literária. Acabo este livro com vontade de devorar o próximo.

“Fitz é o cúmulo de toda a sua grandiosidade como contadora de histórias. Sentimos cada desilusão, cada nó no estômago, cada linha de relacionamento daquele personagem.”

Robin Hobb não se reserva a plot-twists. Não lhe basta fazer variações de rumo narrativo, coser linhas de relacionamentos genuínas e maravilhosas, e fazer evoluir as personalidades dos personagens. Ela também cria surpresas. E quantas. A autora consegue a proeza de contar uma história dedinho a dedinho, correndo o risco de incorrer numa narração lenta, e fazer-nos sempre tropeçar em surpresas quando menos esperamos. Até as imensas páginas de enjoos marítimos de Obtuso conseguiram agradar-me. Senti vontade que o livro não acabasse, o que é muito raro de acontecer.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Especial: Quem Ainda Não Leu Brandon Sanderson?

É muito difícil encontrar um fã de ficção fantástica que não tenha lido, ou pelo menos ouvido falar de Brandon Sanderson. As suas obras de fantasia estão publicadas pelo mundo inteiro, o autor escreve com uma rapidez notável e uma legião de fãs segue atentamente todos os seus passos. Dono de uma relação com o público pautada pela acessibilidade e simpatia, Brandon tem tanta facilidade para explicar ao mundo as suas ideias e processos criativos, como para colocá-los em prática. O autor esteve em novembro em Portugal, a convite da Edições Saída de Emergência, editora responsável pela publicação da saga Mistborn – Nascida das Brumas.

O seu ritmo de publicação parece imparável, de tal modo que os leitores chegam a sentir dificuldades em acompanhá-lo. Através do site de Brandon, é possível seguir a progressão do seu trabalho, saber em que eventos o autor estará presente e até ler gratuitamente um livro, Warbreaker. O autor escreve tanto para adultos como para jovens, mas pode-se dizer que redefiniu toda a conceção de fantasia através das 3 Leis que canonizou como guia para todo o bom escritor de fantástico.

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Brandon Sanderson (Fonte: sltrib.com)

Quem é Brandon Sanderson?

Natural do Nebraska, Brandon Sanderson (19 de dezembro de 1975) vive atualmente em American Fork, no Utah. Concluiu o mestrado de escrita criativa em 2005 pela Universidade de Brigham, onde trabalhou numa revista de ficção especulativa, e no ano seguinte casou-se com Emily Bushman, de quem tem dois filhos. De ideologia Mórmon, Brandon foi missionário em Seul, na Coreia do Sul. Foi ao ser escolhido por Harriet McDougal, viúva do escritor Robert Jordan, para concluir a série épica do esposo, A Roda do Tempo, que Brandon Sanderson ganhou reconhecimento mundial. Daí em diante, a sua popularidade cresceu a olhos vistos, sendo difícil não encontrar um livro seu em qualquer grande superfície livreira.

Elantris foi o primeiro livro que publicou, mas foi com a trilogia Mistborn que o seu sucesso venceu muralhas. A história de uma menina que vence um déspota tirano e percebe que cometeu um erro grave ao fazê-lo conquistou adeptos em todo o mundo, mas esses seriam apenas os primeiros passos na rica trajetória de êxitos de Brandon. Mistborn transformou-se não em uma, mas em três trilogias, com a última por publicar, mas é com The Stormlight Archive que Sanderson parece ter quebrado todos os paradigmas e conquistado definitivamente o amor do público.

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Brandon Sanderson fanart (Fonte: pastemagazine.com)

As 3 Leis de Sanderson

Um dos motivos pelos quais Brandon é reconhecido é exatamente por ter parametrizado o trabalho de um escritor de fantasia, principalmente no que concerne à utilização da magia e ao quanto é dado a conhecer ao leitor da sua conceção. Separando as águas, Brandon distingue a construção mágica credível e detalhada, aquela em que o leitor compra a ideia de forma categórica e até científica (Hard Magic), da magia mais tradicional, sem qualquer detalhe ou explicação, que se encaixa no deus ex-machina habitual nas leituras YA (Soft Magic).

O autor também reforça o papel determinante que as dificuldades dos personagens têm no envolvimento com o leitor e a importância de montar um mundo credível, honesto e bem estruturado, para que personagens ou situações não caiam de pára-quedas na história. Pessoalmente, concordo em absoluto com estas leis, ainda que me pareça que Brandon não seja um inventor, mais um estudioso sobre o assunto.

As 3 Leis são:

Lei 1: “A capacidade de um autor em resolver conflitos de forma satisfatória com a magia é diretamente proporcional ao quão bem o leitor compreenda esta magia.”

Lei 2: “As fraquezas das personagens são mais interessantes que as suas habilidades. Ou seja: limitações são mais importantes que poderes.”

Lei 3: “Expanda o seu mundo antes de adicionar novos elementos.”

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Fanart de The Stormlight Archive (Fonte: pinterest.com/sparkybeanbag)

Porque o NDZ acredita que todos devem ler Brandon Sanderson?

CONSTRUIU UM MUNDO CHEIO DE POSSIBILIDADES

Brandon publicou o seu primeiro romance, Elantris, através da editora Tor Books em 2005, com críticas muito positivas. Foi em 2006, porém, que o seu trabalho mais famoso saiu para as bancas – Mistborn. Posteriormente, Brandon dedicou-se a trabalhos mais juvenis, como Alcatraz ou Coração de Aço, mas logo regressaria com novos livros da série Mistborn e The Stormlight Archive.

Segundo o autor, a série Mistborn atravessará várias fases de vida do planeta Scadrial. Se a primeira série (publicada em Portugal pela Edições Saída de Emergência) foi o mais próximo de uma clássica fantasia épica, a segunda trilogia foca-se num período perpassado por uma austera Revolução Industrial, com perfume a western. A terceira trilogia deverá ocorrer, então, num período correspondente à nossa atualidade ou futurista, uma vez que o autor garantiu vir a tratar-se de uma trilogia de ficção científica, sempre com os seus sistemas de magia intricados como pano de fundo.

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Szeth de The Stormlight Archive (Fonte: 17th Shard)

Todos os livros de high fantasy publicados por Brandon passam-se no mesmo universo, a Cosmere. Se Scadrial é o “planeta” que serve de palco à série Mistborn, Elantris e o conto Emperor’s Soul são passados no shardworld Sel, Warbreaker em Nalthis, The Stormlight Archive em Roshar e White Sand em Taldain. De alguma forma, todos estes lugares estão conectados, muito embora se tratem de “fragmentos de mundo” muito diferentes. Há, no entanto, vários indícios de que se trata do mesmo universo (para além da confirmação do autor, vá).

Um deles é a existência misteriosa de saltadores de mundo, sendo o mais conhecido Hoid, um indivíduo que aparece como informador de confiança na primeira trilogia Mistborn, um contador de histórias em Warbreaker e contrabandista em Elantris, por exemplo, ganhando um papel de maior protagonismo em The Stormlight Archive, onde adquire a identidade de Wit. Khriss, a duquesa de White Sand, também surge em Mistborn: The Bands of Mourning e Mistborn: The Secret History.

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Vin de Mistborn (Fonte: pinterest.com)
OS SISTEMAS DE MAGIA SÃO ORIGINAIS

Brandon Sanderson é, a meu ver, um dos autores que melhor constrói sistemas de magia. Da alomância e feruquimia de Mistborn, ao breath de Warbreaker, passando pelo domínio da areia em White Sand – e falo destes porque foram os livros/sagas que li – a técnica passa pela ingestão ou absorção de uma matéria, cujo processo de metabolismo resulta na aquisição de um dom considerado mágico, incrível para um humano.

Desta forma, Vin, Kelsier, Vasher e Kenton tornaram-se personagens cativantes pelas suas habilidades, embora o autor, recorrendo à lei número 2 que definiu, crie também grandes dificuldades ao seu desenvolvimento, seja na aprendizagem das magias, na grandiosidade dos adversários ou na introdução de problemas do foro pessoal. Ainda assim, muito embora a magia de Sanderson seja algo mais científico que maravilhoso, desmantela a ilusão de super-heróis pré-concebida e apresenta uma plataforma credível e bem montada que só pode encantar os novos leitores de ficção fantástica.

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Siri e Susebron de Warbreaker (Fonte: puncker–rocker.deviantart.com)
TEM AS SUAS HABILIDADES NARRATIVAS

Quem me conhece e ao NDZ há algum tempo, sabe que não morro de amores por Brandon Sanderson, sobretudo por ser possuidor de uma escrita fast-food, principalmente em Mistborn. Brandon não revela grande riqueza de vocabulário e as imensas voltas e reviravoltas no enredo sugerem muito improviso e muito pouco de esqueleto. O recurso a salvamentos de última hora são ainda um furúnculo no seu processo narrativo, para alguém que fomenta tanto a credibilidade dos mundos criados. Neste aspeto, Brandon tem ainda muito a crescer. Esta ideia marcou-me principalmente durante a leitura da primeira trilogia Mistborn, aclamada pela grande maioria do público de fantástico.

O autor, porém, veio a ganhar-me pouco a pouco. O final de Herói das Eras encantou-me, não que tenha ficado agradado com o recurso ao espiritual, quando Brandon tanto se havia esforçado por explicar “cientificamente” todos os detalhes, mas posso dizer que a trilogia foi concluída com chave de ouro. Não gostei de muitas explicações oferecidas a esmo ao longo dos três livros, mas os maravilhosos personagens, as relações humanas e os plot-twists prenderam-me, da primeira à última página. Acabei a Era 1 de Mistborn com nostalgia e com a sensação de que podia ser melhor, mas que mesmo assim foi muito bom.

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Senhor Soberano de Mistborn (Fonte: pinterest.com/Rebeksterz)

A leitura de Warbreaker, porém, foi o cheque-mate a que se deve este artigo. A escrita do autor pareceu-me mais rica e envolvente e os plot-twists ganharam-me por completo. Cada reviravolta foi uma machadada e terminei o livro completamente apaixonado por Vivenna, Siri, Susebron, Vasher e companhia. Foi, sinceramente, uma das melhores leituras deste ano até agora. A novela gráfica White Sand, com argumento original de Brandon, não teve muita qualidade ou originalidade, mas não me desagradou. Mais uma vez, foram as surpresas e os plot-twists a conquistarem-me.

Brandon Sanderson é, inegavelmente, um dos mestres da fantasia moderna e um dos que mais fomentam aquilo que tanto me agrada no género: a construção de mundos credíveis e originais. Prevejo ler Elantris em setembro (versão pt-br) e espero que a Saída de Emergência continue a apostar neste autor que tanto tem acarinhado, seja com a segunda série de Mistborn ou com a publicação de The Stormlight Archive, aquela que, muito provavelmente, será num futuro recente a série de fantasia com melhor repercussão em todo o mundo. Cá esperamos por mais publicações, Brandon.

Vamos Viajar com Robin Hobb: Menções de Honra

Olá, olá! Espero encontrá-los bem desse lado. Como sabem, ou deviam saber, hoje é o último dia do desafio Vamos Viajar com Robin Hobb, um passatempo que tive muito gosto em organizar e que me proporcionou muitos e bons momentos nos últimos dois meses. Este desafio consistiu em ler livros da autora Robin Hobb, de 8 de maio a 8 de julho, no âmbito do lançamento nacional do livro O Assassino do Bobo. Como estive mais atrasado na leitura, acabei por ler os livros Os Dilemas do Assassino e Sangue do Assassino, da série anterior, durante este período.

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Breu Tombastrela (Fonte: moriadat.deviantart.com)

Quero agradecer a todos os que se disponibilizaram a colaborar comigo neste passatempo, nomeadamente à Edições Saída de Emergência, pelos livros cedidos, e a todos os que participaram. Organizei uma ida à Feira do Livro de Lisboa, onde estive com o Ruben Lopes (blogue Enjoy Story), o Paulo Dores (blogue Fiacha O Corvo Negro) e a São Bernardes (blogue Folhas do Mundo), um sorteio do livro O Assassino do Bobo, que foi feito em direto na minha página de facebook e que ditou a Helena Isabel Bracieira (blogue As Horas… que me Preenchem de Prazer) como vencedora, e chegou por fim a hora de encerrar este desafio com as respetivas menções de honra.

Desde o primeiro momento, o objetivo deste desafio passou por ler livros de Robin Hobb durante o período supracitado, resenhando-os em seguida. Os comentários deveriam ser-me entregues para a devida publicação neste post final. Comecei o desafio com quatro “voluntários”, número que ascendeu aos seis e que acabou pela metade, ou porque não terminaram os livros a tempo, ou porque tiveram “preguiça” para escrever uma opinião. De qualquer forma, agradeço a todos por terem participado, em especial à Mirtila Pratz, ao Paulo Dores e ao José Voller de Barros, por terem concluído os comentários a tempo (desconfio que o fariam mesmo sem o desafio 😀 ).

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Capa Saída de Emergência

Os Dilemas do Assassino (por Nuno Ferreira):

“Um mar de conflitos e de intrigas, Os Dilemas do Assassino é mais uma prova de que Robin Hobb é muito mais do que apresentou na primeira trilogia. Elegante, fluída e cheia de ritmo, esta leitura revelou-se bem mais célere e estimulante do que eu a imaginava. A promoção de reflexões interiores e a discussão sobre temas comuns a todos nós como a juventude, a honestidade e o bem-estar emocional foram maravilhosamente decompostos pela autora californiana, que em nenhum momento deixou cair o gume da sua “pena”.

Hobb apresenta-nos a um mundo fantástico e torna-o credível e isso é, sinceramente, o que mais me apraz em ler um livro. Ela relata com beleza cada cenário, sem excluir as ervas daninhas que, irrefutavelmente, povoam cada realidade. Se os momentos de introspeção, em outros momentos, me deixaram entediado com as aventuras de Fitz, aquelas que tenho agora oportunidade de ler surgem como um intervalo após cada acontecimento, levando-me a pensar sobre o mesmo, a maturar as questões e a respirar fundo. Cada introspeção revela-se tão ou mais deliciosa que os eventos em si.”

O Assassino do Bobo (por Miss Lamora):

“É com imenso gosto que escrevo esta opinião. Robin Hobb é uma das minhas autoras favoritas e desde que a Saída de Emergência começou a editar cá os seus livros que os tenho lido. Ora, depois de duas sagas maravilhosas, é uma delícia poder voltar a entrar neste reino e a visitar os Seis Ducados, Torre do Cervo e, principalmente, a encontrar FitzCavalaria Visionário, a minha personagem literária favorita. Ao começar este livro foi como se voltasse atrás no tempo ou como se voltasse a uma memória ou acontecimento muito querido. Deu-me uma sensação e emoção únicas e foi com grande alegria que me deixei levar pelas páginas desta brilhante aventura.

Robin Hobb é única. Mais uma vez dá-nos uma história que só ela podia ter escrito. As personagens continuam iguais, cheias de força e carisma, os locais também continuam a transmitir a mesma serenidade emocionante. A escrita continua a ser como que uma viagem serena, pacifica. É como um maravilhoso conto de antigamente, contado oralmente, no princípio dos tempos. Tudo neste livro faz lembrar os anteriores, tudo e nada. ”

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Vamos Viajar com Robin Hobb (Mapa Oficial dos Seis Ducados)
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Sangue do Assassino (por Nuno Ferreira):
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“Se a ação deste livro não se desenvolveu rapidamente ou de forma apaixonante, posso dizer que dificilmente seria um livro melhor se tal tivesse sucedido. A maravilha desta história não é a narrativa em si, mas sim a forma como é contada. A Saga Regresso do Assassino não se foca em magias, em sede de poder ou em batalhas, mas sim na natureza humana. Temas como o estigma e o preconceito são bastante debatidos, através das várias nuances de personagens. Fez-me rir que um personagem como Fitz, estigmatizado e até “arrancado ao mundo” primeiro por ser bastardo e depois por ser manhoso, se tenha mostrado tão desconcertado com suspeitas de homossexualidade.
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Ainda assim, a evolução do herói é digna de registo. Em alguns momentos, Fitz consegue ser mais maduro que o próprio Breu e, muito embora revele algum amadorismo na educação de Zar, os seus conselhos e advertências revelam muito do seu amadurecimento. A grande mais-valia de ler Robin Hobb é conhecer personagens credíveis e imperfeitos como Gina, a bruxa ambulante, que consegue ser uma pessoa tão palpável, real, que impressiona.”
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O Assassino do Bobo (por José Voller de Barros):
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“Robin Hobb desafia o «Viveram Felizes para Sempre” neste novo livro da Saída de Emergência. O último livro da autora já o li há alguns anos, mas mantenho presente a forma clássica com que Hobb provoca a empatia entre leitor e personagem principal, seja ainda exactamente a frustração do personagem que dê interesse ao livro. Robin Hobb joga com algo intrinsecamente humano que é a vontade de seguir a desgraça alheia, e reproduz com alguma destreza as amarguras de um personagem e as guinadas que ele tenta dar à vida, geralmente infrutíferas, para as ultrapassar.
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O Assassino do Bobo é uma sequela aliciante, partindo de um “Viveram Felizes para Sempre” para mais um carrosel vertiginoso de desgraça e cabeçada. É fidedigno o cenário psicológico montado por Hobb para o personagem-chave. Ela define o que significa acreditar numa coisa e perceber que perdeu tudo o que devia ser seu por causa disso. Fitz é um instrumento dos Visionário e a vida dele uma brincadeira de deuses. Eda e El num novelo. É preciso esperar para conhecer desenvolvimentos de relevo mas o sprint final é brilhante e a perda de um personagem surpreendeu. Desejam registar um nome? Fixem Abelha.”
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Robin Hobb (Fonte: Agnes Meszaros)
O Assassino do Bobo (por Paulo Dores):
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“Torna-se fácil considerar Robin Hobb a minha escritora favorita a nível de fantasia e sinceramente nunca esperei sentir-me tão maravilhado por regressar a Torre do Cervo e rever muitas das personagens por quem tanto sofri e adorei e ainda assim a escritora consegue surpreender-me deixando-me em muitos momentos comovido e com os sentimentos à flor da pele.
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As personagens são todas elas cativantes, a grande maioria já as conhecemos e mantém-se bem construídas, carismáticas, cheias de mistérios. Ainda assim a escritora consegue acrescentar algo deixando o leitor a suspirar por saber mais sobre as mesmas. Gostei do rumo que deu a várias e teve a coragem de nos dar um valente KO com uma que nos é bastante querida, mas que acaba por dar um grande volte face ao enredo que até ai estava a ser cativante mas sem avançar muito.
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Sério candidato a livro do ano, pelo menos na rubrica da Fantasia já não deve haver outro que me cative tanto.”
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Obrigado a todos por lerem, comentarem, ou simplesmente passarem por cá. Espero que tenham gostado de participar deste desafio (quem sabe em breve organize outro). Por cá, o desafio acabou, mas ler Robin Hobb está para durar. De momento, estou a ler A Jornada do Assassino. Fiquem atentos!

Estive a Ler: Despertar, Monstress #1

Citando os poetas… Estamos fodidos.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Despertar”, primeiro volume da série Monstress (formato BD)

A autora americana Marjorie Liu é conhecida pela participação em BD’s da Marvel Comics como X-23 ou Viúva Negra, mas foi com Monstress que acabou indicada ao Eisner, em 2016. É um trabalho a quatro mãos com a premiada artista japonesa Sana Takeda, também ela muito ligada à Marvel, em títulos como X-23 ou Miss Marvel, e à Sega, onde trabalhou como designer. Monstress é um dos títulos de maior sucesso da Image Comics, nomeado este ano para três Eisner e para o Hugo Awards na categoria Melhor História.

Publicado pela Edições Saída de Emergência, Monstress faz parte do novo segmento da editora dedicado às bandas desenhadas, iniciado com Nimona. Disponível nas bancas a partir de amanhã, dia 7 de julho, conta com a tradução de Renato Carreira e edição de Safaa Dib. O primeiro volume, Despertar, reúne os números 1 a 6 da publicação original.

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Prancha Saída de Emergência

As Cinco Raças

Os Velhos Deuses quase foram esquecidos no tempo. Pouco ou nada se sabe sobre eles, para além de serem entidades de um poder corrosivo, vistos como algo terrível no tempo em que viveram. Foram banidos do mundo pela deusa primordial, Ubasti, mas diz-se que o pior entre eles ainda vive hoje neste mundo, adormecido…  Filhos de Ubasti, os gatos são a raça mais antiga no mundo. Eles ajudaram-na a expurgar os Velhos Deuses e vivem até aos dias de hoje.

Já a origem dos anciãos é um mistério. São figuras imortais, devotas à deusa lunar, com corpos metade humanos e metade animalescos. Viveram durante séculos em guerra, divididos entre duas cortes: a Corte do Ocaso e a Corte da Aurora. Apesar da guerra, as duas castas nunca se privaram à companhia dos humanos, cuja origem remonta aos mares. E foi do cruzamento entre anciãos e humanos que nasceu uma outra espécie: os arcânicos.

O mundo de Monstress está fraturado. Uma cisão evidente entre arcânicos e humanos agudizou-se, despoletando a terrível Batalha de Constantine e a edificação de uma muralha. Os humanos sempre foram uma raça problemática, representada pela Ordem das Cumaea, bruxas que procuram crianças humanas com poderes mentais que possam igualar os poderes arcanos. São também responsáveis por flagelar arcânicos, para lhes roubar os poderes.

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Prancha Saída de Emergência

Maika Meiolobo

O poder e a ascensão das Cumaea está relacionado ao uso de lilium, uma substância que provém dos ossos dos arcânicos mortos e que pode prolongar vidas e até ressuscitá-las, o principal móbil para a guerra que impera entre as duas espécies. Maika Meiolobo é uma rapariga arcânica, pertencente à minoria desta espécie que tem aparência humana. Aprisionada e leiloada pelas Cumaea, Maika sente-se confusa em relação ao passado e ao legado da mãe.

A sua mente é atravessada por lembranças difusas e vozes que lhe sussurram fragmentos de informações. Parece ser uma menina frágil e sem um braço, mas algo dentro dela mais poderoso e terrível parece querer despertar… cheio de fome. Segundo as Cumaea, a mãe de Maika fora enviada pelo senhor do seu povo para perseguir o túmulo da Imperatriz-Xamã, a arcânica mais poderosa de sempre, responsável pelo mundo ter parecido regredir à Idade das Trevas.

Muito embora a criatura que habita dentro de si tenha a responsabilidade pelos massacres que deixa à sua passagem, a personalidade de Maika não é a de uma menina frágil. Os seus pensamentos são sempre direcionados à pequena Tuya, uma rapariga com quem partilhou os horrores da guerra. Mas é com a pequena Kippa e um gato chamado Mestre Ren que Maika irá tentar escapar às garras das Cumaea e transpôr a muralha que divide os territórios.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Num mundo alternativo de beleza art déco inspirado na Ásia oriental, eis que nos chega uma história de coragem, vingança e compaixão…

Maika Meiolobo é uma adolescente que sobreviveu a uma guerra cataclísmica entre humanos e arcânicos, uma raça híbrida que descende dos Anciãos. Escravizada por bruxas inimigas que suspeitam dos seus poderes latentes,
Maika começa a desvendar o seu misterioso passado e, durante o processo, descobre que tem uma ligação psíquica com uma poderosa criatura de outro mundo.
Perante a opressão e o terrível perigo, Maika torna-se caçadora e presa, perseguida por aqueles que desejam usá-la, colocando-a no centro de uma guerra devastadora entre forças humanas e sobrenaturais. Enquanto isso, o monstro no seu interior começa a despertar…

OPINIÃO:

Parabéns pela publicação, Edições Saída de Emergência. Monstress é, de facto, monstruoso. Precisei de pouco mais de quatro páginas para perceber que esta era uma das melhores BD’s que já li, e não me enganei. Somos atirados para o centro da ação, não compreendemos muito bem – ou quase nada – do que se está a passar, mas o mundo é original, as falas geniais e a história incrível. O contexto é oferecido ao longo do livro, e só nas últimas páginas percebemos perfeitamente o motivo e as implicações da história de guerra entre os povos apresentados.

O álbum começou com tudo. De facto, gostei muito mais dos personagens humanos, do seu modo de vida e excentricidades, do que da Corte do Ocaso, quando os anciãos foram apresentados. Maika Meiolobo, no entanto, é o cerne de toda a narrativa. Não se enganem pelo ar frágil da protagonista, ostracizada pelo mundo e derruída por uma guerra que lhe levou família, amigos e um braço. A rapariga solta palavrões com frequência, não se refreia pela moral e, graças a uma criatura terrível que tem dentro dela, é até capaz de comer criancinhas. E há ainda um gato falante que é o alívio cómico do álbum e só posso qualificá-lo de absurdamente hilariante.

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Prancha Saída de Emergência

A história passa-se na Ásia, ainda que não seja claro se se trata de uma Ásia paralela, uma vez que as crenças do passado não batem com as nossas, ou de algo muito futurista, já que armas de fogo e objetos científicos são utilizados com frequência. Marjorie Liu demonstra um talento incrível com o argumento deste livro, e não só a narrativa como a própria escrita da autora são deliciosas. A reta final do primeiro álbum revelou-se algo mais cliché, mas não deteriorou o fulgor inicial. Os vários flashbacks funcionaram muito bem no entremear da história, e o gancho final deixou muito em aberto.

“A rapariga solta palavrões com frequência, não se refreia pela moral e, graças a uma criatura terrível que tem dentro dela, é até capaz de comer criancinhas.”

As personagens são todas elas ricas e muito fortes, e até mesmo a pequena Kippa consegue representar o leitor, dando voz aos medos e inseguranças em relação à protagonista. As personagens femininas são muitas e variadas, com especial ênfase para as enigmáticas Cumaea e as Inquisidoras. O traço vivo de Sana Takeda, de fácil associação ao grafismo Marvel e ao mangá, conseguiu refletir o clima de terror e suspense, assim como atribuir-lhe os detalhes asiáticos, dos dourados às tatuagens e embutidos, que a história exigia. Com efeito, o talento de duas grandes criativas resultou numa série que tem tudo para ser brilhante.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Monstress (Saída de Emergência):

#1 Despertar

A Divulgar: Filme de “Nimona” chega em 2020

Foi a própria autora que revelou, na sua página de Instagram, que o filme animado de Nimona sairá em 2020. Noelle Stevenson, que ficou famosa pelo webcomic que se transformaria em novela gráfica, parece estar nas nuvens com a novidade. A autora norte-americana partilhou a notícia da página Screen Rant na referida rede social, onde se pode ler a seguinte descrição: “My first child is about to get a new life”.

Relembro que Nimona chegou às livrarias nacionais no passado mês de junho, pela mão das Edições Saída de Emergência, livro que tive a oportunidade de ler e cuja opinião podem ler aqui. Trata-se de uma BD divertida e irreverente, que aborda temas como a amizade, a falsidade ou o controlo dos media pelas forças de poder, num mundo marcadamente medieval com televisões, computadores e tecnologias futuristas à mistura.

Nimona, uma menina com a capacidade de mudar de forma, quer tornar-se o braço-direito do maior vilão do planeta, mas acaba por revelar ao mundo o seu lado mais sentimental. Depois de passar de tese de mestrado a webcomic, e de webcomic a livro de sucesso, tudo indica que Nimona está a um pequeno passo de saltar para os ecrãs de cinema.

 

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Publicação em causa (Fonte: instagram.com/gingerhazing)
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Flyer Saída de Emergência

Resumo Trimestral de Leituras #10

Chegámos ao meio do ano e como tal chegou a hora de proceder a um novo balanço trimestral de leituras. Neste segundo trimestre, o destaque vai para Robin Hobb, não só porque organizei um desafio relativo à autora californiana, mas também porque li três livros dela que andaram perto de ser os melhores deste trimestre. Melhor que Hobb só Patrick Rothfuss. Li as duas partes de O Medo do Homem Sábio, e embora a primeira tenha sido significativamente melhor, a Crónica do Regicida tornou-se uma das minhas sagas preferidas. As minhas leituras nos meses de abril, maio e junho foram:

One-Punch Man #1 – One e Yusuke Murata

O Diário do Meu Pai – Jiro Taniguchi

Poder e Vingança, Império das Tormentas #1 – Jon Skovron

Terra de Sonhos – Jiro Taniguchi

Presas Fáceis – Miguelanxo Prado

As Águias de Roma Livro V – Enrico Marini

O Regresso do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #1 – Robin Hobb

Como Falar com Raparigas em Festas – Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá

Dejah Thoris #1 – Frank J. Barbiere e Francesco Manna

A Dança das Andorinhas – Zeina Abirached

O Rei Macaco – Silverio Pisu e Milo Manara

Imperador dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #3 – Mark Lawrence

A Fortaleza da Pérola, Elric #2 – Michael Moorcock

A História de um Rato Mau – Bryan Talbot

Bolos Janados, Tony Chu: Detective Canibal #6 – John Layman e Rob Guillory

Os Dilemas do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #2 – Robin Hobb

Os Senhores do Norte, Crónicas Saxónicas #3 – Bernard Cornwell

A Louca do Sacré Coeur – Alejandro Jodorowsky e Moebius

A Garagem Hermética – Moebius

Nimona – Noelle Stevenson

O Medo do Homem Sábio Parte 1, Crónica do Regicida #2 – Patrick Rothfuss

All is Lost, The Walking Dead #28 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

O Medo do Homem Sábio Parte 2, Crónica do Regicida #2 – Patrick Rothfuss

One-Punch Man #2 – One e Yusuke Murata

Uma Ruína Sem Fim, Outcast #2 – Robert Kirkman e Paul Azaceta

Duas Vezes Contado, Harrow County #2 – Cullen Bunn e Tyler Crook

Sangue do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #3 – Robin Hobb

Sem TítuloComecei o segundo trimestre com a leitura de alguma banda-desenhada. Publicado pela Devir, o primeiro volume da edição em mangá de One-Punch Man apresenta um super-herói entediado com a facilidade com que derrota os adversários. A Humanidade é frequentemente atacada por monstros, que parecem não ter fim. No entanto, este herói parece mais preocupado em manter o seu apartamento inviolado. Uma história provocadora, com argumento de One e arte de Yusuke Murata, que não me fascinou pessoalmente. Depois, li duas novelas gráficas da Levoir, da autoria de Jiro Taniguchi, autor falecido em fevereiro deste ano. Para além de tocante e reflexivo, O Diário do Meu Pai mostra que aquilo que compreendemos nem sempre está próximo da realidade. O outro álbum, Terra de Sonhos, apresenta cinco contos que mesclam a ternura à reflexão. Um casal sem filhos sofre com os últimos dias do seu animal de estimação, e quando ele morre juram não mais adotar nenhum outro. Mas quando uma gata persa, grávida, lhes surge nas vidas, tudo muda.

Sem títuloPoder e Vingança é o primeiro livro de Jon Skovron no registo fantasia adulta, com a marca de qualidade Saída de Emergência. Divertido e cheio de ritmo, o Império das Tormentas é um mundo bem construído que apresenta Esperança Sombria e Ruivo, dois personagens que vêm os seus percursos cruzar-se quando os criminosos que controlam Círculo do Paraíso começam a colaborar com os biomantes, servos místicos do Imperador. A escrita do autor não me convenceu, mas foi uma boa leitura. Piratas e ladrões, coleccionadores de arte e inventores, samurais, mutações humanas e perseguições sem fim. Disfarçado de alegoria, a BD da Levoir Presas Fáceis, da autoria do autor espanhol Miguelanxo Prado, é uma história inquietante sobre os interesses nefastos da banca. A burla é o tema central. Uma série de homicídios de pessoas ligadas à banca e o suicídio de um casal de idosos arrasta a inspetora Olga Tabares para uma investigação que levanta um sério debate moral. Saltei para o livro V da série gráfica As Águias de Roma, que oferece ao leitor um sucedâneo de emoções. Da revelação da paternidade de Tito à denúncia dos planos de Armínio, Enrico Marini desenha com precisão o clima bélico da Roma Antiga e coloca o embate entre Marco e o seu irmão de criação num patamar superior. Excelente álbum das Edições Asa, que prossegue a um ritmo altíssimo.

Sem TítuloComecei a segunda série de Robin Hobb focada em FitzCavalaria Visionário. O primeiro volume de O Regresso do Assassino mostra-nos o protagonista quinze anos mais velho. O mundo pensa que ele morreu, mas a verdade é que estabeleceu-se como camponês ao lado do seu lobo Olhos-de-Noite e acolheu um jovem órfão chamado Zar. A visita do seu amigo Bobo, agora transformado em Dom Dourado, e a revelação que o príncipe Respeitador desapareceu misteriosamente, colocam de novo Fitz na órbita de Torre do Cervo e das suas intricadas intrigas. Um volume que me fascinou do primeiro ao último momento, melhorando substancialmente em relação à primeira série. Depois de já ter lido o conto, há dois anos atrás, na antologia Coisas Frágeis, foi de bom grado que li a adaptação para BD de Como Falar com Raparigas em Festas. Pelas mãos da dupla brasileira Fábio Moon e Gabriel Bá, esta história de Neil Gaiman sobre dois jovens adolescentes nos anos 70 que, dedicados a fazer sucesso numa festa cheia de raparigas, descobrem que elas não são bem aquilo que pensavam, revelou-se uma lufada de ar-fresco. Divertido e despretensioso, é mais um excelente álbum trazido para o nosso país, desta feita pelas mãos da Bertrand.

Sem títuloCom argumento de Frank J. Barbiere e ilustrações de Francesco Manna, a BD Dejah Thoris é o primeiro volume de uma série da Dynamite Entertainment sobre a princesa de Marte da obra de Edgar Rice Burroughs. Casada com o terráqueo John Carter, Dejah vê-se vítima de um complot dentro do palácio para afastar a sua família do poder, fazendo desaparecer o seu pai e culpando-a por isso. Dejah Thoris é assim obrigada a fugir da cidade e mudar de identidade. Apesar de o argumento ser relativamente bom, foi também previsível e ficou um pouco aquém das expetativas. O mesmo para a arte, que valeu pela cor. Publicada na Colecção Novela Gráfica da Levoir com o jornal Público, A Dança das Andorinhas, da libanesa Zeina Abirached, encanta pela forma inocente e quase cómica com que um grupo de pessoas lida com a guerra. Separados do mundo e refugiados num átrio, os personagens são obrigados a encarar a vida como ela lhes é oferecida. Foi uma BD que não me apaixonou, mas fez-me refletir.

Sem título 2Entrei em maio com a BD O Rei Macaco da Arte de Autor. Com arte de Milo Manara e argumento de Silverio Pisu, trata-se de um mergulho nas tradições orientais. É uma releitura da Jornada para o Oeste, para encontrar o Jovem Macaco em busca da eternidade, com o Imperador de Jade disposto a dificultar-lhe a tarefa. Apesar de ser uma obra de referência, muito bem humorada, a nível de arte já vi melhor de Manara, o que se compreende uma vez que este foi um dos seus primeiros trabalhos. O terceiro e último volume da Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence, publicado pela TopSeller, Imperador dos Espinhos veio cimentar a minha opinião sobre a obra. O autor convence com a escrita, mas a história continuou confusa, sem uma proposta clara ou um plot bem definido. Um livro mediano, numa trilogia mediana. A Fortaleza da Pérola, de Michael Moorcock, mostra-nos Elric na cidade de Quarzhasaat, onde é chantageado por um nobre local a dar-lhe uma pérola desaparecida no deserto em troca de um antídoto para a droga que lhe haviam dado. Elric inicia assim uma viagem pelo deserto que o levará a Varadia, uma menina que ficou em estado comatoso desde que viu a sua integridade violentada. Mais uma excelente leitura, como Moorcock já nos habituou.

Sem títuloBaseado na história de vida da autora de livros infantis Beatrix Potter, o autor Bryan Talbot escreveu e desenhou uma BD tocante e metafórica sobre uma jovem que, vítima dos maus tratos dos pais e sentindo-se culpada pelos abusos sexuais que sofreu, acaba nas ruas de Londres, a sobreviver como sem-abrigo. A História de Um Rato Mau foi uma leitura reflexiva, que não me agradou no seu todo pelo peso que tomou, em certo ponto. Das novelas gráficas da Levoir passei para os grandes lançamentos da G Floy. Bolos Janados é mais uma aventura do detective mais louco da BD, Tony Chu, desta feita protagonizada pela sua irmã-gémea, Antonelle. Desde um leilão polémico até a um casamento de final abrupto, passando por uma aliança inusitada entre a NASA, a FDA e a USDA, somos convidados a percorrer uma série de aventuras com a participação sempre especial do galo Poyo. A história não desilude, mantendo-se fresca, colorida, bem-humorada e com muitas, muitas vísceras à mostra. Geniais, John Layman e Rob Guillory mantêm a toada. No seguimento do meu desafio com o apoio da Saída de Emergência li Os Dilemas do Assassino de Robin Hobb. FitzCavalaria continua mais perdido do que nunca, agora que é um homem adulto e tem de lidar com uma série de questões políticas e com a imaturidade dos mais jovens. Este segundo volume tem mais mistérios e alguma magia, relacionada com um rapaz de pele escamada e com a narcheska Eliânia, mas também referências a dragões e a navivivos, que me agradou.

Sem títuloTerceiro volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, Os Senhores do Norte mostra-nos Uthred a caminho do norte, enraivecido com o Rei Alfredo pela ridícula recompensa que lhe deu depois de tudo o que fez para que vencesse a importante Batalha de Ethandun. Disposto a recuperar a Bebbanburg que o viu nascer, Uthred “tropeça” em Guthred, um dinamarquês convertido ao Cristianismo que pretendia reclamar para si o norte. Mais um magnífico livro cheio de passagens belas e inquietantes, com o selo de qualidade Bernard Cornwell e Saída de Emergência. Escrito por dois dinossauros da BD, Alejandro Jodorowsky e Moebius, A Louca do Sacré Coeur conta a história de um professor de filosofia da Sorbonne, tradicionalmente vestido de lilás que, assediado por uma das suas alunas, sucumbe à tradicional crise de meia-idade e vê-se arrastado para uma parafernália de rituais bizarros que mesclam o religioso e o misticismo a práticas sexuais completamente lunáticas. Um livro que me agradou nas ideias e no desenho, mas que achei um pouco mal executado, ou pelo menos sem brilho. Outra grande obra de Moebius pelas mãos da Levoir, A Garagem Hermética é uma história confusa de ficção científica que gira à volta do Major Grubert. O misterioso personagem concebe um asteróide que cabe no seu bolso através de treze geradores. Porém, no interior desse corpo existem três mundos e vida, possivelmente tão real como a nossa. Mas quem será este enigmático Major Grubert? Gostei imenso, mesmo não percebendo muito da história.

Sem TítuloO mês de junho começou com Nimona, da norte-americana Noelle Stevenson, que marca o regresso da Saída de Emergência à publicação de BD’s. Nasceu como um trabalho universitário da autora, mas foi como webcomic que alcançou o sucesso e transformou autora e personagem em celebridades. Dona de um traço único e de um humor aguçado, Stevenson aborda temas como a amizade, a falsidade, o controlo dos media pelas forças de poder e a homossexualidade, de forma simples e divertida, num mundo marcadamente medieval com televisões, computadores e tecnologias futuristas. Em senda de leituras maravilhosas, seguiu-se o segundo volume da Crónica do Regicida (Parte 1 e Parte 2), publicado em português pela ASA/1001 Mundos. O Medo do Homem Sábio traz-nos de volta ao mundo escrito por Patrick Rothfuss. Depois de sobreviver às artimanhas de Ambrose, Kvothe sobrevive na Universidade, pagando as “propinas” com a música que faz em Imre, a cidade vizinha, e com os empréstimos que forja com Devi, a lendária ex-aluna da Universidade. É quando uma acusação antiga lhe bate à porta que surge a oportunidade de arranjar um mecenas, o que o leva para longe, para a distinta Vintas. Enquanto a primeira parte foi, muito possivelmente, dos melhores livros que já li na vida, o segundo perdeu bastante em comparação, ainda que a escrita do autor continue como uma das maravilhas da série.

Sem títuloMais um brilhante volume da BD The Walking Dead, All is Lost prossegue na rota de sucesso do argumentista Robert Kirkman, com a arte sempre consensual de Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano. Hilltop caiu e uma legião de walkers foi canalizada pelos Sussurradores em direção a Alexandria. Negan e Rick defendem a comunidade, mas os portões caem e Rick vê no seu antigo adversário um amigo improvável, o único que consegue ajudá-lo quando tudo parece desmoronar-se à sua volta. Mais um volume excelente e uma morte impactante com repercussões no futuro das BD’s. Li também o segundo volume do mangá One-Punch Man de One e Yusuke Murata, com quem tinha iniciado o trimestre. Uma série de apontamentos divertidos fazem-me olhar com agrado para este álbum, cuja proposta ou mesmo linha narrativa não oferecem nada de original ou interessante. E regressei a Robert Kirkman. Depois de ter lido o primeiro volume no início do ano, eis que chegou às bancas o segundo álbum de Outcast, Uma Ruína Sem Fim, com argumento do autor de The Walking Dead e ilustrações de Paul Azaceta. Argumento e arte casam na perfeição numa história sobre possessões que começa a dar maiores sinais de interesse, e com os mistérios a adensarem-se. Apesar de a história parecer demorar a avançar, notam-se os laivos de genialidade que atiraram Kirkman para as bocas do mundo.

Sem título 2Tal como o álbum de Outcast, Duas Vezes Contado foi um dos mais recentes lançamentos da G Floy no nosso país, lançado no Festival de BD de Beja. O segundo volume da BD de horror Harrow County, com argumento de Cullen Bunn e arte de Tyler Crook, revela um maior amadurecimento por parte do artista, ainda que o argumento não me tenha agradado por aí além. À medida que a protagonista Emmy vem aprendendo a lidar com os seus poderes e com as criaturas sobrenaturais que habitam Harrow County, tem também de proteger a povoação de um novo inimigo: a própria irmã gémea, Kammi. E terminei o trimestre com o terceiro volume da Saga O Regresso do Assassino. Em Sangue do Assassino, Robin Hobb volta a não desiludir. Vemos o protagonista FitzCavalaria arrastado para uma chuva de situações inusitadas, desde a ganância pela magia do seu velho mentor, à preocupação com os filhos, rumores de homossexualidade e principalmente a ameaça dos pigarços à sua integridade e à da família real. A obra, porém, oferece muito mais do que isso. Oferece pessoas reais, com defeitos e virtudes, e problemas que podiam ser partilhados por qualquer um de nós. Uma história enriquecedora.

Neste momento, estou a ler o livro Monge Guerreiro do autor brasileiro Romulo Felippe, e deverei continuar com as BD’s Southern Bastards, Velvet, Monstress e mais alguns livrinhos. Entre os nomes que pretendo ler nos meses de verão estão Ursula K. Le Guin e Joe Abercrombie, mas irei também concluir a Saga O Regresso do Assassino de Robin Hobb.

A Divulgar: “Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe” em Setembro pela Saída de Emergência

Ainda faltam mais de dois meses, mas a notícia foi dada hoje. Para homenagear um dos grandes mestres do horror, a Saída de Emergência tem o prazer de lançar a 8 de setembro a edição Os Melhores Contos De Edgar Allen Poe, com 28 histórias ilustradas por 28 artistas nacionais. Uma edição de capa dura e rica em detalhes que pretende dar a conhecer o seu legado a novas gerações. A obra será lançada durante o festival Internacional de Cinema de Terror, MOTELX, que irá decorrer, em Lisboa, de 5 a 10 de setembro. A editora promete mais informações em breve, e o NDZ estará atento para vos dar conhecimento de tudo.

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Estive a Ler: Sangue do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #3

Respirar o ar frio fez-me doer as costelas sovadas. Não havia muito a fazer quanto a isso. Havia uma doentia familiaridade na dor dos meus nós dos dedos inchados. Perguntei a mim próprio, com apatia, quando seria suficientemente velho e sensato para parar de me meter em lutas físicas.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Sangue do Assassino”, terceiro volume da série Saga O Regresso do Assassino

Sangue do Assassino é o terceiro volume da série O Regresso do Assassino, segunda série da autora Margaret Ogden sob o pseudónimo Robin Hobb, publicada em português pela Edições Saída de Emergência. Corresponde, na verdade, à segunda metade do livro Golden Fool, iniciado em Portugal com o volume Os Dilemas do Assassino. Foi lançado em 2011 por terras lusitanas, com tradução de Jorge Candeias.

A leitura deste livro está incluído no desafio Vamos Viajar com Robin Hobb, por mim concebido o mês passado no âmbito do lançamento nacional do livro O Assassino do Bobo, em parceria com a Edições Saída de Emergência. Este desafio consiste na leitura de um ou mais livros desta autora. Se ainda quiserem participar, podem enviar-me até dia 8 de julho uma opinião a um dos livros de Robin Hobb que leram durante este período.

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A autora com o nosso “avô sonecas” Martin (Fonte: youtube.com)

Uma amizade quebrada

A ação continua em torno de FitzCavalaria Visionário e as suas tentativas de preservar Torre do Cervo e a família real à qual pertence. O último livro terminou com a chegada da delegação de Vilamonte, exigindo apoio numa guerra aparentemente inevitável contra Calcede, o que coincidiu com o grito de revolta de Eliânia, a narcheska das Ilhas Externas prometida ao príncipe Respeitador. Ferida pelo desinteresse do noivo, a narcheska exigiu que apenas se casaria com ele caso o príncipe cortasse a cabeça a um dragão. Fogojelo, uma lenda das Ilhas Externas. Surpreendentemente, o príncipe aceitou o repto.

As gentes de Vilamonte abandonaram Torre do Cervo, assim como o séquito de Eliânia. À medida que os preparativos para a viagem do príncipe avançavam, FitzCavalaria, sob o disfarce do criado Tomé Texugo, via vários problemas a serem resolvidos. O Bobo parecia agora irreconhecível. A aparição de Jeque, mulher da delegação de Vilamonte, veio mostrar a Fitz uma nova perspetiva sobre o seu amigo de sempre, que se exibia agora como o nobre jamailiano Dom Dourado. Em Vilamonte, o Bobo fora visto como uma mulher de nome Âmbar, e havia esculpido a proa de um navio com o rosto de Fitz.

Os inúmeros rumores sobre a sexualidade de Dom Dourado e a relação entre ambos levaram Fitz a confrontá-lo, temendo que tais comentários chegassem aos ouvidos do seu filho adotivo, Zar. O Bobo revelou então a Fitz o seu amor por si, como sublinhou também nunca lhe ter pedido nada que não lhe quisesse dar. Um fosso de amargura ergueu-se entre os dois, e desde então o Bobo começara a lidar com Fitz como se fossem Dom Dourado e o seu criado Tomé, mesmo sem testemunhas à sua volta.

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Fitz e o Bobo fan art (Fonte: foolsbeloved.tumblr.com)

O círculo de Talento

A viagem do príncipe tornou também imperial que ele aprendesse as artes do Talento, o que se tornou de difícil realização depois de ele perceber que fora constrangido mentalmente por Fitz, com uma ordem de Talento. Ultrapassada a “birra” do rapaz, Breu conseguiu instar Fitz a tornar-se Mestre do Talento, pois tornou-se necessária a existência de um círculo capaz de proteger o príncipe durante a sua aventura. Obstinado em não deixar que envolvessem a filha Urtiga nesse projeto, Fitz aceitou forjar esse núcleo. O único possuidor de Talento à vista, no entanto, era Obtuso, o criado de Breu que, embora mentalmente retardado, revelou um dom incontrolável para a magia.

Apesar de Obtuso não gostar de Fitz, a quem chamou correntemente de “fedor de cão”, o Bastardo Manhoso conseguiu suborná-lo com um apito, um cachecol e muitos doces, levando-o a confiar em si. Através dessa confiança ténue, Fitz descobriu que Obtuso era um espião dos pigarços dentro da torre, levando-lhes informações confidenciais, mesmo que não as compreendesse. Ao descobrir que Louvovinho, o líder dos pigarços, encontrava-se na cidade, e exortado por Respeitador, que acreditava ter o seu amigo Cortês Bresinga em perigo, Fitz desceu à cidade.

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Bobo e Fitz (Fonte: goodreads.com)

Os Bresinga tinham sido utilizados pelos pigarços como isco para atrair Respeitador, e continuavam a ser manietados por eles, sob a ameaça de verem exposta ao mundo a sua natureza manhosa. Fitz encontrou Cortês à beira de ser estrangulado pelos homens de Louvovinho, e entrou em campo para o salvar. A intervenção de Fitz eliminou os pigarços em questão e um cavalo, animal de manha de Louvovinho, mas apesar de ter salvo a vida a Cortês, ficou gravemente ferido e sob a acusação de homicídio.

A ação concertada de Breu e de Dom Dourado transformou o criado num herói, através da história encenada de que os pigarços haviam roubado as penas coloridas de Dom Dourado, e que o seu criado os enfrentara para recuperar tais pertences. Porém, o resgate de Fitz e o regresso a Torre do Cervo não lhe curaria as feridas. Entre a vida e a morte, viu os seus amigos mais próximos a realizar uma tarefa inusitada. Os conhecimentos anatómicos de Breu, o imenso Talento de Obtuso, o controlo de Talento de Respeitador e a ligação que unia Fitz ao Bobo conseguiram-lhe reparar a terrível ferida.

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Breu (Fonte: moriadat.deviantart.com)

A preparação para a viagem

A recuperação, porém, foi lenta. À medida que ia compreendendo que encontrara, finalmente, o Círculo de Talento de Respeitador, testemunhou também o descontrolo e sede de Talento de Breu, a quem a arte fora vedada desde sempre, por ser um bastardo. Tal preocupação enublou a relação entre ambos, e mesmo a quase morte de Fitz não restaurou a amizade entre este e o Bobo, que acreditava veementemente que a viagem com o príncipe tinha um propósito: não matar o dragão, mas encaminhá-lo, de modo a garantir a sua descendência.

FitzCavalaria mostrou-se preocupado com a viagem, com o Círculo de Talento e com os seus amigos e família, mas também com o futuro. Com a visão de Hênia, a aia da narcheska, após a morte de Louvovinho, tornou-se provável a influência da chamada Mulher Pálida, a suposta Profeta Branca que influenciou a Guerra dos Navios Vermelhos, na ameaça pigarça.

Um elo foi finalmente forjado entre a rainha Kettricken e os Manhosos, deixando que vários se tornassem seus serviçais, tentando afastar o estigma que assombrava os que se proclamavam de Sangue Antigo. Entre os novos servos estava Veloz, filho de Castro e Moli, o que atraiu novamente Fitz para o seu passado e para os seus terrores, quando, ao contactar a filha Urtiga através do Talento, foi sondado por uma voz terrível e enigmática.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:
Os poderes do Assassino tornaram-no uma lenda. Mas quando ensinar o herdeiro a usá-los, ficará o reino mais seguro ou irremediavelmente perdido? Apesar de profundamente enredado nos seus conflitos pessoais, o Assassino tem de preparar uma expedição infalível às Ilhas Externas. Para isso há que ensinar ao príncipe dos Seis Ducados tudo o que conseguir sobre as duas magias – duas misteriosas e temidas magias inerentes ao sangue que ambos partilham. Mas na vida de Fitz nada é fácil, e o seu próprio desconhecimento de muito do que diz respeito a essas magias pode ter consequências catastróficas, tanto para si como para o herdeiro… e, em última instância, para o próprio reino. Mas as ameaças não se ficam por aí: quem são realmente aqueles estranhos vilamonteses que apareceram inesperadamente em Torre do Cervo? E os manhosos, que resultará dos seus conflitos internos e que atitude tomará a respeito deles a coroa dos Seis Ducados?
OPINIÃO:

Se a ação deste livro não se desenvolveu rapidamente ou de forma apaixonante, posso dizer que dificilmente seria um livro melhor se tal tivesse sucedido. A maravilha desta história não é a narrativa em si, mas sim a forma como é contada. A Saga Regresso do Assassino não se foca em magias, em sede de poder ou em batalhas, mas sim na natureza humana. Temas como o estigma e o preconceito são bastante debatidos, através das várias nuances de personagens. Fez-me rir que um personagem como Fitz, estigmatizado e até “arrancado ao mundo” primeiro por ser bastardo e depois por ser manhoso, se tenha mostrado tão desconcertado com suspeitas de homossexualidade.

Ainda assim, a evolução do herói é digna de registo. Em alguns momentos, Fitz consegue ser mais maduro que o próprio Breu e, muito embora revele algum amadorismo na educação de Zar, os seus conselhos e advertências revelam muito do seu amadurecimento. A grande mais-valia de ler Robin Hobb é conhecer personagens credíveis e imperfeitos como Gina, a bruxa ambulante, que consegue ser uma pessoa tão palpável, real, que impressiona.

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Capas originais da trilogia

Também a relação entre Fitz e o Bobo é digna de destaque. Com tanta fantasia e irrealidade, vemos ali uma ligação extremamente humana, a prova visível como uma amizade pode levar anos a forjar-se e que basta um ato irrefletido para provocar danos irreversíveis. Tudo isto demonstra uma grande maturidade por parte da autora. Robin Hobb é maravilhosa a descrever relações, seja entre pessoas ou com animais, e é esse grande parte do seu mérito.

“A grande mais-valia de ler Robin Hobb é conhecer personagens credíveis e imperfeitos como Gina, a bruxa ambulante, que consegue ser uma pessoa tão palpável, real, que impressiona.”

Esta série tem um ligeiro problema que é, passo a redundância, o excesso de problemas com que o protagonista se depara em simultâneo. Ele tem de manter uma fachada, lidar com pessoas e as suas idiossincrasias, resolver atritos pessoais e as expectativas dos outros, preocupar-se com os filhos e com o uso desmesurado do Talento por parte dos seus alunos. Para além disso, tem uma viagem para preparar, a ameaça pigarça e o fantasma daquilo que os espera, a pairar no horizonte, quando for obrigado a lutar com mais inimigos e talvez dragões nas Ilhas Externas. Um rol de problemas que, ao mesmo tempo que se tornam cansativos, também acrescentam ritmo e uma sequência corrente de ações à narrativa.

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WTF (Fonte: knowyourmeme.com)

A inclusão do contingente das Ilhas Externas e a promessa de criaturas sobrenaturais é um sopro de ar fresco nesta história de traço tão marcadamente medieval e credível. É, também, a expectativa em torno dessa demanda que me leva a desejar ter o próximo livro na mão o quanto antes. A temática da Manha tem sido até aqui muito bem explorada, mas – matem-me! – dei por mim a sentir também um certo preconceito para com os manhosos e para com as coisas que são capazes de fazer.

Resumindo, Sangue do Assassino resolve grande parte das questões levantadas em Os Dilemas do Assassino (trata-se do mesmo livro na versão original) e desenvolve de forma contínua e dinâmica as relações humanas entre os vários personagens. E, ainda que não esteja entre as personagens mais desenvolvidas, Kettricken continua a ser uma das minhas preferidas. Como é possível não a adorar? Tudo se encaminha para um final de série em grande, com os dois volumes finais.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Vamos Viajar com Robin Hobb: Sorteio no Facebook

Viva, pessoal!

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Pois é, o sorteio que eu organizei aqui no blogue não teve muita recetividade e – confesso – assim como alguns participantes se sentiram confusos ao pensar que era necessário inscreverem-se no desafio e fazerem algo para participar, também eu senti-me algo confuso na forma de o colocar em prática. Daí que tenha optado por sortear o livro em questão na página de facebook do NDZ. Uma solução de contingência que me pareceu mais funcional e prática.

Trata-se do livro O Assassino do Bobo, primeiro volume da série O Assassino e o Bobo da autora californiana Robin Hobb, um sorteio que faz parte do desafio “Vamos Viajar com Robin Hobb“, em colaboração com a editora Saída de Emergência, sorteio este no qual todos podem participar.

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Se inicialmente precisavam escrever uma frase para participar no sorteio, agora tal não é necessário, e tão pouco precisam de ler o livro até dia 8 de julho e escrever uma opinião sobre o mesmo. Existem várias pessoas que estão a participar no desafio que termina nesse dia e irão escrever uma opinião que será por mim publicada aqui no blogue, mas este sorteio, apesar de estar incluído no desafio, não obriga a que os participantes no sorteio também participem do desafio, até porque muito possivelmente só terão o livro em mãos após o termo do mesmo.

Apenas uma pessoa irá ganhar o livro, através de um sorteio em direto que irei realizar na minha página do facebook, no próximo dia 27 de junho. Para te habilitares, basta colocares gosto na publicação (aqui) e escreveres o nome de dois amigos teus, amantes de literatura, nos comentários. Logo que todos saibamos o nome do vencedor, entrarei em contacto com ele para proceder ao envio do livro. Nada mais simples.

Boa sorte a todos!

A Divulgar: “A Espada do Destino” e “Monstress: Despertar” pela Saída de Emergência

A Edições Saída de Emergência não para de surpreender e em julho traz mais duas pérolas da ficção fantástica para o nosso país. Trata-se do livro A Espada do Destino de Andrzej Sapkowski, segundo livro da saga The Witchercujo volume inaugural li no final do ano passado, e ainda a exótica BD Monstress de Marjorie Liu e Sana Takeda, com o primeiro volume Despertar. Se The Witcher acompanha as aventuras de um bruxo caçador de criaturas das trevas, personagem celebrizado pela adaptação da obra de Sapkowski para o mundo dos videojogos, Monstress é uma série gráfica bastante visual que vive uma quase tradicional caça às bruxas, onde uma jovem se vê enredada num jogo estratégico sem precedentes entre forças antagónicas num cenário matriarcal alternativo inspirado na tradição asiática.

De realçar que Andrzej Sapkowski foi recentemente confirmado na ComicCon Portugal deste ano, a realizar-se em Dezembro em Matosinhos. Mais um motivo válido para pegar nos livros do autor polaco e conhecer a sua obra “até à medula”. Dono de uma prosa riquíssima, Sapkowski não só mexe com o poder das palavras e revela uma erudição maravilhosa, mas também destaca todo o esplendor da cultura escandinávia, bem presente ao longo dos livros. Já a autora americana Marjorie Liu é conhecida principalmente pela participação em BD’s da Marvel Comics, chegando a ser nomeada para o Eisner em 2016 com este Monstress, trabalho a quatro mãos com a premiada artista japonesa Sana Takeda, também ela muito ligada à Marvel. Razões mais do que válidas para não perder tempo e pegar nestas duas obras de arte, que estarão nas bancas já a 7 de julho.

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Chancela: Saida de Emergência
Saga/Série: Saga The Witcher  Nº: 2
Data 1ª Edição: 07/07/2017
ISBN: ESPADAOFERTA
Nº de Páginas: 688
Dimensões: [160×230]mm
Encadernação: Capa Mole
SINOPSE:

Este produto tem como oferta o livro Assassin´s Creed – Renascença

Continuando as histórias narradas em O Terceiro Desejo, este é o regresso do misterioso Geralt de Rivia, um homem temido pela sua reputação de bruxo e assassino sem misericórdia. Ele erra pelas florestas e cidades à caça de monstros e demónios saídos de lendas antigas, protegendo inocentes e vítimas do mal.

As suas aventuras como viajante e feiticeiro irão levá-lo aos quatro cantos do mundo, conhecendo personagens que irão influenciar o seu destino e envolvendo-o nas mais extraordinárias histórias de amor, sacrifício, coragem e compaixão. Aos poucos prepara-se o caminho para o maior desafio da sua vida: a guerra iminente que se avizinha entre todas as raças.

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Saga/Série: Monstress Nº: 1
Data 1ª Edição: 07/07/2017
ISBN: 9789897730627
Nº de Páginas: 208
Dimensões: [16,8×25,9]mm
Encadernação: Capa Mole
SINOPSE:

Num mundo alternativo de beleza art déco inspirado na Ásia oriental, eis que nos chega uma história de coragem, vingança e compaixão…

Maika Meiolobo é uma adolescente que sobreviveu a uma guerra cataclísmica entre humanos e arcânicos, um a raça híbrida que descende dos Anciãos. Escravizada por bruxas inimigas que suspeitam dos seus poderes latentes,
Maika começa a desvendar o seu misterioso passado e, durante o processo, descobre que tem uma ligação psíquica com uma poderosa criatura de outro mundo.
Perante a opressão e o terrível perigo, Maika torna-se caçadora e presa, perseguida por aqueles que desejam usá-la, colocando-a no centro de uma guerra devastadora entre forças humanas e sobrenaturais. Enquanto isso, o monstro no seu interior começa a despertar…