Estive a Ler: O Assassino do Bobo, Saga Assassino e o Bobo #1

Com toda a honestidade, não existe forma de matar alguém misericordiosamente. Há aqueles que não consideram crime afogar um recém-nascido imperfeito em água aquecida, como se o bebé não lutasse desesperadamente por encher os pulmões de ar.

O texto seguinte aborda o livro “O Assassino do Bobo”, primeiro volume da série Saga Assassino e o Bobo

Margaret Lindholm Ogden, também conhecida pelos pseudónimos Megan Lindholm e sobretudo Robin Hobb, é considerada como uma das autoras que definiu a fantasia épica como é vista nos dias de hoje. O Reino dos Antigos é a macro-série que começou a publicar em 1995, que inclui, para além de duas séries anexas sem a participação de FitzCavalaria Visionário, as três trilogias protagonizadas pelo famoso assassino que dá título a este livro.

Em Portugal, a Saga do Assassino e a Saga O Regresso do Assassino catapultaram o nome Robin Hobb para os píncaros da fantasia atual, e esta Saga Assassino e o Bobo vem apenas cimentar essa condição. Com tradução de Jorge Candeias e um total de 624 páginas, a edição nacional do primeiro volume, O Assassino do Bobo foi lançado pelas mãos da Saída de Emergência, que anunciou, inclusive, a vinda da autora a Portugal para o Festival Bang! de 2018.

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Fonte: https://robinhobb.deviantart.com/gallery/50931509/Fitz-and-the-Fool

Pergunto-me várias vezes o que mudou na narrativa de Robin Hobb para eu ter torcido o nariz à primeira série e começar a amar a história de FitzCavalaria e do Reino dos Antigos a partir da segunda. Muito possivelmente deveu-se à forma como Hobb desenvolveu o seu mundo. A primeira saga começa com um mundo marcadamente medieval, em que o jovem bastardo de um rei torna-se aprendiz de um velho assassino. A premissa não marcou pela originalidade.

No entanto, Robin Hobb apenas usou-se dos clichés como ponto de partida. O final abrupto e talvez exageradamente fantasioso da primeira série desagradou a muitos, mas a mim particularmente marcou-me como um ponto de viragem, depois da lentidão cansativa a que havia sido sujeito. As personagens foram desenvolvidas de forma absurdamente credível, com especial foco nas relações humanas. E é esse foco de desenvolvimento individual e coletivo que diferencia Robin Hobb dos restantes autores.

É a escrita, porém, que a coloca no meu top de autores prediletos. Envolvente, suave, elegante e charmosa, a prosa de Hobb cativa pela forma fluída e detalhada com que descreve cenários e emoções com igual ritmo. Lento, é certo, mas não um lento maçante. Antes um lento que nos delicia e faz saborear a história como ela deve ser saboreada. Como um chocolate quente e cheio de natas numa noite gelada de inverno. Neste quesito, dedico um louvor particular ao trabalho de tradução; como vem sendo hábito, o trabalho de Jorge Candeias faz jus às qualidades da autora.

“Robin Hobb consegue fazer-nos sofrer, vibrar e conhecer um homem, personagem fictício, como poucas vezes conhecemos pessoas que vivem connosco no dia-a-dia.”

O Assassino do Bobo tem todos estes ingredientes e mais alguns. Um livro com mais de 600 páginas, praticamente todo ele passado na mesma casa / propriedade e com um lote restrito de personagens, e mesmo assim consegue maravilhar com dezenas de acontecimentos, de assaltos a mortes e nascimentos, mas acima de tudo com as dúvidas e inseguranças de um homem que nós, leitores, conhecemos desde a infância.

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Fonte: http://www.robinhobb.com/2013/10/the-fools-assassin/

FitzCavalaria conseguiu finalmente voltar para Moli, reconquistá-la depois de anos entregue aos braços de Castro. Fixos em Floresta Mirrada com os filhos dela e com a velha Paciência, o casal parece mais feliz do que nunca, muito embora tenham que enfrentar uma dura realidade. Os anos passaram por eles. Especialmente por Moli, uma vez que uma cura da magia hereditária chamada Talento mitigou a dureza dos anos no corpo de Fitz.

A vida parece correr de feição para o casal, mas o espetro de Torre do Cervo e das redes de espiões do Trono Visionário ainda paira sobre eles, principalmente agora que Urtiga, a única filha de Fitz e Moli e legítima proprietária de Floresta Mirrada, se tornou Mestra do Talento no Castelo de Torre do Cervo. Paralelamente a isso, o antigo assassino tem ainda de lidar com as idiossincrasias dos seus muitos empregados, e a forma como eles o encaram e respeitam, agora que todos o conhecem como Depositário Tomé Texugo.
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De um repente, todas as tramas parecem voltar a conduzi-lo para lá. Um aprendiz de assassino chamado Lante é visto como pouco qualificado para essa tarefa por Breu, e cabe a Fitz vir a protegê-lo e arranjar-lhe utilidade. Urtiga continua a tratar Fitz com mais frieza do que a relação de um pai e de uma filha devia impor, enquanto Enigma se estabelece cada vez mais como o grande amor da jovem e um verdadeiro amigo para o pai desta, conquanto as decisões deste não a embaracem.

É nas relações humanas que Hobb expande o seu mundo, deixando-nos curiosos com os povos e acontecimentos que são apenas abordados para nos fazer morder o anzol, porque sabemos que mais tarde ou mais cedo eles irão emergir na trama para virar o mundo de Fitz novamente ao contrário e arrancá-lo da realidade para mais uma demanda impossível em que será, queira ou não, o protagonista. A autora californiana conhece o seu Fitz como ninguém, e também parece não cansar-se de fazê-lo sofrer.

Todo um espetro do passado de Fitz volta à tona, quando personagens morrem, quando outras que não davam sinais de vida há décadas surgem num roldão de novas tramas, perspetivas e tarefas. Até personagens que haviam morrido ressurgem nas recordações, nos sonhos e nos sentidos. Cheiros, sensações e detalhes saltam de cada página com uma intensidade e verosimilhança notáveis.

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Fonte: https://www.pinterest.com/twayhatch/robin-hobb/

Robin Hobb consegue fazer-nos sofrer, vibrar e conhecer um homem, personagem fictício, como poucas vezes conhecemos pessoas que vivem connosco no dia-a-dia. Cada tonalidade de personalidade, cada reserva, cada vertente emocional, cada detalhe da sua pessoa. Arrisco-me, no entanto, a dizer que FitzCavalaria está longe de ser a única razão por que esta saga é incrível. Abelha, Moli, Urtiga, Breu, Enigma, Esquiva, Lante, Kettricken, assim como o enigmático Bobo, são todas elas bem construídas, que encantam pela credibilidade com que são pinceladas.

“A relação entre estes dois protagonistas transcende o amor romântico ou fraternal, porque o Profeta Branco e o Catalisador completam-se como um só.”

Olharmos para a história deste personagem, que vivemos na pele através da leitura dos livros anteriores, faz arrepiar. Faz-nos considerar as nossas próprias histórias e a dos nossos pais e avós, e pensar que a panorâmica com que as olhamos hoje pode não estar nem perto daquela que eles vivenciaram. A forma como os filhos de Moli e de Fitz encaram Castro, por exemplo, aquela personagem que deu tanto a esta trama, pode ser tão confusa para eles como incrível para nós.

A forma como Hobb escreveu este livro também foi especial. Ao contrário de um salto de tempo abrupto, ela ofereceu-nos a passagem do tempo por Fitz como gradual, um pouco à imagem do que havia feito no primeiro volume de O Regresso do Assassino. De uma mensageira misteriosa num Festival de Inverno, até ao crescimento de uma criança que vem a ganhar tanto destaque como pontos de vista. Pela primeira vez, a trama não foi exclusivamente contada pelo protagonista, ainda que ele continue sempre atolado em problemas para resolver em simultâneo.

Desenganem-se, porém, se pensam que a alusão ao Bobo no título é um logro. Visível ou não, sentimo-lo presente ao longo de toda a narrativa, sobretudo nos momentos em que Fitz mais parece sentir a sua ausência. A relação entre estes dois protagonistas transcende o amor romântico ou fraternal, porque o Profeta Branco e o Catalisador completam-se como um só. Especialmente estes dois.

Mas poderão as profecias do Bobo terem sido erradas? A questão do Filho Inesperado é abordada neste livro, questionando a exatidão das previsões do Profeta Branco e, mais especialmente, a sua interpretação. Mas, na verdade, tanto a filosofia do Bobo como a sua participação acabam por estar num segundo patamar neste livro, ganhando apenas destaque no final. O livro foca-se em Fitz e na sua família, assim como nas suas capacidades para lidar com ela e com pequenas trivialidades do dia-a-dia.

“O final de O Assassino do Bobo foi qualquer coisa que me surpreendeu.”

As relações com personagens do passado também se alteraram, conforme elas amadureceram ou se separaram. Podemos não ver Esporana ou Eliânia, ter breves vislumbres de Respeitador e Obtuso, e ver a relação filial de mentor e aprendiz entre Fitz e Breu a tornar-se uma quase inimizade quando o instinto protetor que há no assassino o vê como ameaça, mas os laços que os ligam a todos estão lá e movem-se subtilmente, fazendo-se sentir nos momentos mais determinantes. Abelha, a maior adição à trama, é uma lufada de ar fresco por que, penso, ninguém podia estar à espera.
O final de O Assassino do Bobo foi qualquer coisa que me surpreendeu. E deixou-me de água na boca, tantos foram os mistérios que ficaram por resolver. Ficou não só a vontade de descodificar todos os mistérios, como de ver o discorrer daqueles acontecimentos a materializar-se. A interpretação dos Servos sobre Abelha, a génese de Esquiva e Lante e a verdade sobre o Bobo são questões pendentes que me fazem querer o segundo volume, A Revelação do Bobo, o quanto antes.
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Abstenho-me a revelar pormenores sobre a trama porque acredito que a experiência de leitura deste livro pode ser tremendamente afetada por eles. A grande magia deste volume em particular, para além de tudo o supracitado, é irmos sendo surpreendidos com as mais incríveis mudanças que vão acontecendo no transcorrer do livro. E sim, apesar do ritmo aparentemente lento, elas estão sempre a acontecer. Estamos a falar de um livro lindíssimo, e tudo o que ele me inspira é ternura.
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Avaliação: 10/10
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O Reino dos Antigos:
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Saga do Assassino (Saída de Emergência):#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Saga Assassino e o Bobo (Saída de Emergência):

#1 O Assassino do Bobo

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Estive a Ler: Liberdade e Revolução, Império das Tormentas #2

— Tens andado a contar histórias sobre mim, Hume?

O texto seguinte aborda o livro “Liberdade e Revolução”, segundo volume da série Império das Tormentas

Após a chegada de Poder e Vingança, o primeiro volume do Império das Tormentas de Jon Skovron, em março, eis que a Saída de Emergência não perde tempo em lançar o segundo volume, publicado pelo autor em fevereiro deste ano. Conhecido dentro do género Young Adult, onde escreveu livros como Misfit, Man Made Boy e This Broke Wondrous World, Skovron sai da sua área de conforto para conceber o Império das Tormentas, uma trilogia de fantasia adulta passada num mundo onde piratas e feiticeiros coexistem com hostilidade.

Jon Skovron tem vários contos publicados em revistas como a ChiZine e a Baen’s Universe, assim como em antologias como Summer Days e Summer Nights, da Harlequin Teen. Vive com os dois filhos e os gatos nas proximidades de Washington, nos Estados Unidos. Bane and Shadow, o segundo volume de Império das Tormentas foi publicado pela Saída de Emergência como Liberdade e Revolução, um livro de 432 páginas com tradução de Maria João Trindade.

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Fonte: https://www.orbitbooks.net/2015/07/23/meet-jon-skovron/

Quando falamos de fantasia é difícil não comparar um autor com outro, mas por vezes tal empresa é ingrata. O Império das Tormentas de Jon Skovron dificilmente seria comparado a um Robert E. Howard ou a uma Robin Hobb, uma vez que tanto as temáticas como o estilo são incomensuravelmente distintos. Agora, se estivermos a falar de um Scott Lynch ou de um Brandon Sanderson, são nomes que me vêm à cabeça de imediato, tal a semelhança a nível de ambiente e plot utilizados. Infelizmente, ao estabelecermos tal comparação, Jon Skovron fica a perder por larga escala.

Alquimistas malignos, ninjas, piratas, gangues, ladrões e prostitutas são alguns dos ingredientes que Skovron nos oferece neste Império das Tormentas. O worldbuilding tem grande qualidade e a ambientação é das que mais me agradam neste género de fantasia. O que falta ao autor para chegar ao nível de alguns dos melhores escritores da nova geração é mesmo mais credibilidade, senso de continuidade narrativa e um maior propósito em fazer o leitor comprar a história. Mas… já lá vamos. Sinceramente, acho que este segundo volume trouxe um salto qualitativo em relação ao primeiro.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/liberdade-e-revolucao/

A história de Liberdade e Revolução começa um ano após os acontecimentos narrados em Poder e Vingança. Se não leste o primeiro volume, aviso que este texto trará spoilers. Se podíamos esperar ver o Ruivo amarrado ou feito prisioneiro numa cela às mãos dos biomantes, encontramo-lo mais endiabrado e irreverente do que nunca. Ele é usado pelos biomantes e treinado por eles, mas vive uma tranquila vida de lorde no Palácio Imperial de Pico da Pedra. Aliás, os servos do Imperador encarregaram-se de eliminar o seu avô para atribuir-lhe o título de Lorde Pastinas mas, apesar da rédea curta, Ruivo passeia-se pelo Palácio e redondezas a seu bel-prazer.

Conhecemos também a família imperial, de quem nem sequer conhecíamos os nomes no volume inaugural da história. Durante o ano que ninguém viu, o protagonista – filho de uma pintora e de um prostituto, que sobrevivera nos bairros da lata de Círculo do Paraíso após a morte destes – tornou-se amigo íntimo do Príncipe Leston. O príncipe é tímido e inseguro, para além de não conhecer muito do que se passa para lá das suas próprias paredes e nem suspeitar da malignidade dos biomantes. Sim, os alquimistas do Imperador fazem experiências com homens e animais e sequestram pessoas em todos os cantos do Império para esse efeito.

“Alquimistas malignos, ninjas, piratas, gangues, ladrões e prostitutas são alguns dos ingredientes que Skovron nos oferece neste Império das Tormentas.”

Já o Imperador Martarkis é praticamente apenas a casca de um homem, com mais de um século de vida. Usou o poder dos biomantes para se rejuvenescer, permitindo-lhe conceber um filho que prolongasse a sua dinastia, mas nos dias de hoje permite que o Conselho de Biomantes faça a gestão do Império a seu bel-prazer. A fragilidade do Imperador é conhecimento da população, tanto que várias figuras da cidade tramam uma conspiração para depor o imperador e colocar no trono o seu filho, Leston. Isto fez-me lembrar Elantris, muito embora a atitude deste príncipe não se equipare à da personagem de Brandon Sanderson.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/497577458804169268/

Leston é gentil mas solitário, e tenta desesperadamente fugir ao cerco das suas pretendentes, usando Ruivo para o ajudar. O que Ruivo não previa era que ele próprio caísse na pretensão de uma das damas da corte. Com um humor apurado e um espírito leve, lady Merivale Hempist é uma das melhores personagens do livro e aquela que mais me agradou. Ela ajudará Ruivo a fugir de apuros… quando não for ela o seu maior apuro. Já a mãe de Leston, a Imperatriz Pysetcha, refugiou-se em Ponta do Ocaso, na península, possivelmente para estar longe das tramas dos biomantes.

Um dos principais motivos pelo qual as ações aberrantes dos biomantes são encaradas tão levianamente é a perspetiva de salvaguarda que eles tentam demonstrar. Não são apenas um grupo de alquimistas poderosos tentando dominar o mundo com a sua prepotência e com as suas artes, eles acreditam e levam a acreditar, que o seu comportamento é uma defesa para o futuro. As suas experiências têm como resultado desejável toda a sorte de recursos para proteger o Império dos inimigos. Segundo a profecia do Mago Negro, um povo estrangeiro virá para os esmagar a todos, e o único povo estrangeiro com uma civilização tão sofisticada que fosse capaz de ombrear com o Império é Aukbontar.

Por isso, quando Pico de Pedra recebe uma delegação de Aukbontar com o intuito de encetar alianças com o Império, delegação essa encabeçada pela embaixadora Nea Omnipora e por um curioso estudioso da flora chamado Etcher, os biomantes começam a mover os seus cordelinhos para os silenciarem. Cabe ao príncipe Leston e a Ruivo enfrentá-los, mesmo que o preço a pagar seja, quiçá, demasiado caro.

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Fonte: https://www.pinterest.com/explore/arte-pirata/

A mulher por quem Ruivo se apaixonou, a guerreira Vinchen Esperança Sombria, procura desesperadamente encontrar soluções para resgatar Ruivo às mãos dos biomantes. Durante o ano que se passou espalhou o terror pelos mares do Império, sob o título Terrível Desgraça, acompanhada por Brigga Lin, o biomante que mudara de sexo e desafiara a ordem, e pelos velhos amigos de Ruivo, Urtigas, Grosso, Sadie, Ausente Finn e o primo Alash. Ao conquistarem o navio Guardião, capitaneado pelo corajoso capitão Brice Vaderton, Grosso e Urtigas reconhecem o pequeno Jillen como Jilly, uma menina de Círculo do Paraíso que se fizera grumete para procurar a mãe.

“Sem a necessidade de apresentar a sua linguagem peculiar, a introdução das falas típicas daquele mundo pareceu-me muito mais fluída neste Liberdade e Revolução.”

A guerra contra os biomantes, porém, ainda nem sequer começara. Quando surgem evidências de que os biomantes andam a sequestrar centenas de meninas para formar exércitos sobrenaturais, Esperança Sombria recorre à Velha Yammy, a velha amiga de Ruivo com o dom da adivinhação, mas também ela havia desaparecido. A maré leva Urtigas e Grosso de novo a Círculo de Paraíso, com o intuito de recrutar gente para a sua causa, mas tudo o que encontram é morte e vingança, enquanto Esperança procura recuperar a fé e a sua própria esperança.

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Fonte: https://pbario.deviantart.com/art/Pirate-attack-114247588

A nível de escrita, a gíria criada por Jon Skovron para o seu mundo não teve tanto impacto neste livro como no primeiro. Não me parece, porém, que tal se deva somente ao entranhar da mesma na minha mente. Sem a necessidade de apresentar a sua linguagem peculiar, a introdução das falas típicas daquele mundo pareceu-me muito mais fluída neste Liberdade e Revolução.

“Em suma, Liberdade e Revolução é um livro descomplexado e sem grandes propósitos, mas que se lê muito bem.

De facto, este volume é todo ele mais fluído e maduro do que o primeiro, assim como exibe uma aura mais negra. As personagens apresentadas no primeiro volume são bem desenvolvidas, e as adições ao elenco são refrescantes e bem-vindas. Adorei Merivale, Heme, Vassoura e a bela Lymestria, assim como a história do passado de Urtigas e os deliciosos Moxy Poxy e Senhor Chapeleira. Toda a ação foi intensa e o ritmo elevadíssimo. E somos surpreendidos. Vimos personagens importantes a morrer.

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Fonte: https://za.pinterest.com/pin/669980882036219167/

O livro só não é aquela coca-cola toda porque, de facto, se Ruivo continua carismático e fora da caixa, por vezes de tal forma exagerado que faz o livro parecer um mangá, Esperança Sombria continuou sem expressão, sem a fibra que me parecia ser necessária para realizar tudo o que ela realizou. Já Brigga Lin, que era suposto ser outra personagem mega badass, passou-me completamente ao lado. Não gostei dela nem um pouco.

A verdade é que, se a magia fosse explicada e não parecesse tão básica e fácil, e se o autor não se focasse tanto nos problemas amorosos e lamechices das personagens, este seria um livro extraordinário. Se já havia gostado da Batalha dos Três Cálices no primeiro volume, os núcleos de Círculo do Paraíso, de Pico da Pedra e o discorrer de batalhas navais foram todos eles bem desenvolvidos neste novo livro. Em suma, Liberdade e Revolução é um livro descomplexado e sem grandes propósitos, mas que se lê muito bem.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 7/10

Império das Tormentas:

#1 Poder e Vingança

#2 Liberdade e Revolução

A Divulgar: “Saga do Império Malazano” Terá Sequela

Steven Erikson é o autor da série Malazan Book of The Fallen, traduzida para português pela Saída de Emergência como Saga do Império Malazano. Aparentemente imerso na escrita da Trilogia Kharkanas, uma prequela que ocorre 300 mil anos antes dos eventos narrados em Jardins da Lua, o autor canadiano anunciou que se encontra a preparar uma nova trilogia, chamada Toblakai, que será uma continuação da série principal. De realçar que a saga tem 10 livros como coluna vertebral, iniciados com Jardins da Lua, mas tanto Erikson com Ian C. Esslemont têm escrito vários livros e pequenas séries como ramificações da mesma.

A Trilogia Kharkanas, em que Erikson se encontrava a trabalhar, conta já com dois livros publicados, Forge of Darkness e Fall of Light, narrando as raízes dos Tiste Andii, entre outros. O último volume da trilogia, Walk in Shadow, pode ter que esperar então para ser publicado. The God is not Willing é o título do primeiro volume da Trilogia Toblakai, que será focada no personagem Karsa Orlong logo após os eventos com que a Saga do Império Malazano é encerrada.

Entretanto, Steven Erikson encontra-se também envolvido em outros projetos literários, como o terceiro volume da sua space opera Wildfuld Child intitulado The Search For Spark e ainda um romance stand-alone de ficção científica chamado Rejoice, A Knife to the Heart. Ótimos motivos para continuar a acompanhar o trabalho deste autor que, no nosso país, tem já publicados os livros Jardins da Lua e a primeira parte de Os Portões da Casa dos Mortos.

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Fonte: http://malazan.wikia.com/wiki/Karsa_Orlong

 

A Divulgar: “Moonspell” no Festival Bang! 2017

O Festival Bang! está a chegar. É já este sábado, dia 28 de outubro, no pavilhão Carlos Lopes, um evento recheado de belas surpresas. Para além da presença de Anne Bishop, autora de sagas como Os Outros ou As Joias Negras, a Edições Saída de Emergência tem o prazer de anunciar a presença dos Moonspell. A conhecida banda de heavy metal lisboeta foi formada em meados de 1989, na Brandoa, transformando-se gradualmente de uma mera banda de garagem num dos mais famosos grupos nacionais do género. 1755 foi o último álbum, lançado já este ano.

No evento do próximo fim-de-semana, os Moonspell vão revelar pela primeira vez alguns dos detalhes da biografia da banda, escrita por Ricardo Amorim que será publicada pela Saída de Emergência em 2018. O momento inclui ainda a leitura de alguns excertos da biografia, em exclusivo e ainda antes do lançamento da obra, para além de que, ao final da sessão, os presentes terão a oportunidade de assistir a um show case da banda. Mais um aliciante para aquele que promete ser o primeiro de muitos eventos com a chancela Bang! da Saída de Emergência.

Programa_Festival_Bang_NOVO

Programa_Festival_Bang_NOVO

Estive a Ler: Mulheres Perigosas

Aquilo a que os colonos chamavam de “vão branco” era uma secção da estrada ladeada por campos de cogumelos. Levaram cerca de uma hora pelas Florestas para alcançarem o vão e Silêncio, quando chegou, estava a sentir o preço de uma noite sem sono.

O texto seguinte aborda o livro Mulheres Perigosas

Depois de, em finais de 2015 e meados de 2016, a Edições Saída de Emergência ter lançado em dois volumes a célebre antologia Rogues organizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois, com os títulos Histórias de Aventureiros e Patifes e Histórias de Vigaristas e Canalhas, a editora volta a apostar na série de antologias organizadas pelos célebres autor e editor. Mulheres Perigosas traz até nós vários dos contos apresentados no original Dangerous Women, mas ainda é uma incógnita se os restantes serão publicados, como aconteceu com a anterior antologia.

Com tradução de Rui Azeredo e um volume de 448 páginas, a mais recente antologia da Coleção Bang! traz até nós uma panóplia de contos de alguns dos maiores autores no campo da Ficção Especulativa atual. O original foi publicado originalmente em dezembro de 2013, cruzando géneros como a ficção científica, a fantasia, o mistério, o romance paranormal, o thriller psicológico e o western, embora a peça uniforme em todos eles seja o tema que dá título ao livro: a mulher perigosa. E quem melhor para nos falar delas que o renomeado autor de A Guerra dos Tronos?

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Fonte: http://www.businessinsider.com/george-rr-martin-role-of-religion-got-game-of-thrones-westeros-2015-4

No cômputo geral, a antologia prima pela variância de géneros literários e de estilos linguísticos, mas acima de tudo tem o mérito de, ao falarem sobre o mesmo tema, os contos não caírem na repetição. Todas as histórias têm uma alma própria e os plots dizem muito dos seus autores, mais até do que sobre as mulheres perigosas. Cada conto, por si só, podia ser o preâmbulo de um livro que eu, pessoalmente, não me importaria de ler. Ainda assim, claro está, acabei por preferir os contos de fantasia, talvez por ser o género que nos dias de hoje mais me apaixona.

Mulheres Perigosas é uma oferta bem consistente da Edições Saída de Emergência ao público nacional. Dos traços mais contemporâneos aos cenários mais vintage, os vários contos coligidos por George R. R. Martin e Gardner Dozois parecem apelar ao interesse de variados públicos, o que vai, sem qualquer dúvida, fazer com que os fãs de cada género elejam certamente dois ou três contos em detrimento dos restantes e, por natureza, influenciar negativamente a avaliação do livro no seu todo. Mas essa é, porém, uma consequência que não rouba o mérito à antologia.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/litfantastica-bang/fantasia-o-202346/-mulheres-perigosas/

O primeiro dos contos apresentados é Completamente Perdida de Joe Abercrombie. Ambientado no mundo de A Primeira Lei, Red Country e Best Served Cold, a história apresenta Shy South, a protagonista de Red Country, num cenário de faroeste. Apercebi-me que se passava no mundo da trilogia A Primeira Lei pela referência à moeda (o marco) e à União, mas mais tarde percebi que o próprio conto era o spin-off de um romance, o que justifica, talvez, a falta de um maior worldbuilding por parte do autor. O conto está bem escrito e puxa pelo leitor, mas mais um final em aberto deixa-me a ideia que Abercrombie está determinado em frustrar os seus leitores. Faltou ali um plot-twist e um pouquinho mais de sal para o conto me encher as medidas.

“E quem melhor para nos falar delas (mulheres perigosas) que o renomeado autor de A Guerra dos Tronos?”

Megan Abbott escreveu para esta antologia o conto Ou o Meu Coração Está Destroçado. Muito ao estilo de Gillian Flynn, este conto de pressão psicológica apresenta-nos o casal Lorie e Tom Ferguson e fala-nos sobre o desaparecimento da pequena Shelby, a filha deles. O conto passou muito por levar o leitor a olhar para a esposa como a “mulher perigosa” da trama, apostando muito no julgamento público para tentar um volte-face final que, não só não surpreendeu, como quis ser mais do que foi. História bem ok, ganha a Flynn em termos de escrita.

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Fonte: https://www.joeabercrombie.com/2013/06/10/lamb-shy-and-essential-fantasy/

O conto As Mãos Que Não Estão Lá é a única história de ficção científica deste volume. Escrita por Melinda M. Snodgrass, que participou, entre outras, na série Star Trek: The Next Generation, situa-nos num bar onde o segundo-tenente da Liga Solar Tracy Belmanor ouve uma história mirabolante da boca de um alcóolico. Rohan narra a forma como se apaixonou pela mestiça cara / humana Samarith, uma stripper mais conhecida como Sammy, e as consequências que daí resultaram. Muito bem escrito e envolvente, só pecou por exagerar na ridicularização do comportamento sexual dos homens.

Raisa Stepanova é o conto de Carrie Vaughn. Apesar de gostar desta autora, que para além de escrever bem consegue ser extremamente credível na criação e desenvolvimento das suas histórias, este conto passou-me muito ao lado. Ele fala sobre uma jovem piloto de caças russa na Segunda Guerra Mundial, nas cartas que enviava ao irmão e nas suas melhores amigas: a colega Inna e o seu próprio Yak. Foi um conto que caiu muito para o romântico, mas valeu sobretudo pela forma como a autora contextualizou os personagens.

Escrito por Lawrence Block, Eu Sei Escolhê-las a Dedo foi o pior conto da antologia. Ainda que estivesse relativamente bem escrito, o tom degradante e as revelações doentias sobre o passado do personagem central, Gary, foram o mote para uma série de descrições eróticas desnecessárias. O conto caiu no banal e a resolução final soou forçada. Para além de as mulheres perigosas deste conto não o serem tanto quanto foi o protagonista. Fica a sensação que o autor queria escrever sobre um personagem com tendência para escolher as mulheres erradas, mas acabou por fazer o inverso e a história soou fraca.

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Fonte: https://www.amazon.co.uk/Dangerous-Women-George-R-R-Martin/dp/0007549407

O conto de Brandon Sanderson é mais uma viagem alucinante ao universo da Cosmere. Passado no mundo de Threnody, o conto Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno é, de longe, o melhor da antologia. Enquanto os ricos vivem protegidos em fortes, as florestas são lar de espíritos de olhos verdes que devoram quem quer que faça barulho ou derrame sangue nos seus territórios. Mas aqueles domínios são frequentemente cruzados por mercadores, comerciantes, e é num desses caminhos tortuosos que fica a estalagem de Silêncio Montane, uma boa mulher que pode esconder alguns… esqueletos no armário. História bem escrita e bem desenvolvida, embora confesse que esperava um final mais Woow!

“O conto de Brandon Sanderson é mais uma viagem alucinante ao universo da Cosmere. Passado no mundo de Threnody, o conto «Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno» é, de longe, o melhor da antologia.”

Uma Rainha no Exílio de Sharon Kay Penman foi um conto aborrecido. Embora a história de Constança de Hauteville e do seu esposo Henrique von Hohenstaufen, Rei da Germânia e herdeiro do Sacro Império Romano-Germânico seja bastante interessante, a forma documental como foi contada deu-me sono. Para além de que a mulher só se revela realmente perigosa… na nota de autora final. Faltou-lhe aqui muita coisa para me agradar.

Passado no mundo de Os Mágicos, a obra mais conhecida do autor Lev Grossman, A Rapariga no Espelho foi um conto engraçado e juvenil. A escrita revelou-se competente e o mundo uma clara “imitação” de Harry Potter, com uma pequena e deliciosa referência a Hermione Granger. Passada na escola de Brakebills, fala de como a presidente da Liga, Plum, investiga a razão por que Wharton anda a servir muito pouco vinho às refeições. Simples e dinâmico, serviu para entreter mas só.

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Fonte: http://mirandameeks.com/portfolio/brandon-sanderson-book-cover/

Chegamos então àquele que foi, para mim, a maior revelação da antologia. Eu já conhecia o trabalho de Sam Sykes pelas redes sociais e plataformas digitais, mas nunca tinha lido nada dele. Ao ter o primeiro contacto com a sua prosa, adorei. Posso dizer que a sua escrita bastava para tornar este conto um dos meus preferidos da antologia. Mas houve mais. O filho de Diana Gabaldon trouxe em Dar Nome à Fera uma das suas criações literárias, os shicts. Eles assemelham-se a elfos com ar de índios, mas talvez sejam mais parecidos ainda aos na’vi do filme Avatar.

Sam atira-te para um ritual de iniciação inusitado, não te entrega a história e obriga-te a um esforço permanente para não te sentires perdido. Todo narrado pelo ponto de vista da shict Kalindris, em dois planos temporais distintos, o conto faz-nos temer as feras para surpreender quando elas são finalmente reveladas e fazer-nos questionar quem é quem. A questão que permeia o terço final do conto fica sem resposta, mas a ideia que passa é que os povos estão tão agarrados às suas tradições que aquilo que fazem é justificável por si só porque tal faz parte da sua identidade.

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Fonte: http://www.samsykes.com/lost-pages/shicts/

As Mentiras Que A Minha Mãe Me Contou é o penúltimo conto da antologia. Passada no ambiente da série antológica de George R. R. Martin Wild Cards, a história de Caroline Spector apresenta-nos os Wild Cards Michelle, que projeta bolhas, Joey, fabricante de zombies, e ainda Adesina, uma menina cujo rosto pende de um corpo de inseto mas ainda assim pergunta-se se será cortejada pelos colegas de escola. Uma história divertida, simples e leve, mas que, talvez por não ser bem o meu género, e ser bem longa, não me agradou por aí além.

A antologia termina com a maior de todas as histórias do livro. A Princesa e a Rainha ou Os Negros e os Verdes, de George R. R. Martin, conduz-nos ao mundo de A Guerra dos Tronos, para narrar o período conhecido como A Dança dos Dragões. O rei Viserys I Targaryen deixou claro que o Trono de Ferro seria herdado pela filha mais velha, Rhaenyra, filha única do seu primeiro matrimónio, mas quando morre, nem a sua viúva, a Rainha Alicent, nem o filho de ambos, Aegon II, nem mesmo a Mão do Rei, Sor Criston Cole, parecem dar grande consideração a tal facto, pois é inconcebível que o trono seja tomado por uma mulher. Assim, Rhaenyra e Aegon começam uma batalha incrível que colocará todos os Sete Reinos em sentido.

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Fonte: http://char-portraits.tumblr.com/post/142748682337/fire-and-blood-by-ludvikskp

A história é enorme e contada de forma meio documental, com o discurso direto usado pontualmente. Confesso que prefiro, muito mas muito mais, os pontos de vista usados por Martin nas suas Crónicas. Mas, se o conto de Sharon Kay Penman, narrado desta forma, não me aliciou minimamente, posso dizer que George R. R. Martin agarrou-me sobremaneira e só consegui largar a história ao último parágrafo. Uma sequência vertiginosa de combates entre dragões, mortes e traições, “A Princesa e A Rainha ou Os Negros e Os Verdes” é uma história extraordinária, bem melhor que o “Príncipe de Westeros” que Martin escrevera em Histórias de Aventureiros e Patifes.

“Mas, se o conto de Sharon Kay Penman, narrado desta forma, não me aliciou minimamente, posso dizer que George R. R. Martin agarrou-me sobremaneira e só consegui largar a história ao último parágrafo.”

Esta história de George R. R. Martin peca um pouco no que diz respeito à edição, por não conciliar totalmente os termos com os usados nas Crónicas de Gelo e Fogo da mesma editora (por exemplo, o Estranho é aqui chamado de Forasteiro), já para não falar de algumas falhas de coerência, ao usar tanto a palavra valiriano, como valyriano ou valyrian na mesma história. Também Larys começa por ter o cognome Pé-Torto para terminar como Larys, o Coxo.

Concluindo, Mulheres Perigosas é uma excelente antologia que, tão certamente não agradará a todos, como todos terão histórias de que irão gostar. A nível de edição, confesso que adorei a capa e o facto de a lombada casar na perfeição com as das antologias anteriores. O conto de Brandon Sanderson, “Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno” é o meu preferido, com “Dar Nome à Fera” de Sam Sykes na segunda posição, mais pelo que me fez sentir do que pela história em si, e “A Princesa e a Rainha ou Os Negros e os Verdes “de George R. R. Martin encerra o meu Top 3, graças ao envolvimento e ação que me fez matar as saudades daquele mundo incrível que é Westeros.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 7/10

Estive a Ler: Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe

Os homens chamaram-me louco; mas a ciência ainda não nos ensinou se a loucura é ou não a suprema inteligência, se quase tudo o que é glória, se tudo o que é profundidade, não vem de uma doença do pensamento, de um modo do espírito exaltado a expensas do intelecto geral.

O texto seguinte aborda o livro Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe

Conhecido por escrever sobre o mórbido e sobre o enigmático, Edgar Allan Poe foi um dos primeiros escritores norte-americanos de contos, visto como o precursor da ficção policial e um dos mais controversos autores noir da sua época, sendo um dos fundadores do que é habitualmente conhecido como o cenário de fundo dos dramas policiais, o ambiente enublado e soturno. A Poe é também reconhecida a contribuição para a ficção científica, mas o seu percurso passa sobretudo pelo horror.

Nome de vulto da ficção fantástica na primeira metade do século XIX, Edgar foi o primeiro escritor americano a ganhar a vida apenas da escrita, o que lhe proporcionou um percurso espinhoso com vários amargos de boca. Morreu aos 40 anos, por razões ainda hoje desconhecidas, mas deixou um legado que influenciou milhares e milhares de escritores em todo o mundo.

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Fonte: https://www.poetryfoundation.org/poets/edgar-allan-poe

Para dar a conhecer este nome e a sua riquíssima obra, amplamente difundida mas com tendência a cair no esquecimento, às novas gerações, a Edições Saída de Emergência lançou uma edição de luxo no nosso país com 28 dos seus contos mais emblemáticos, cuja edição bem cuidada está a cargo de Safaa Dib. Com 496 páginas e encadernação em capa dura, Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe chega até nós acompanhado pelos desenhos de 28 prodígios da ilustração nacional, que casam na perfeição com os temas tratados.

As ilustrações estão a cargo dos seguintes artistas: Zé Burnay, Leonor Pacheco, Carlos Correia, João Sequeira, Ana Afonso, André Coelho, Luís Corte Real, Patrícia Cassis, Sónia Oliveira, Mosi, Ricardo Cabral, Daniela Viçoso, Uma Joana, Filipe Alves, Ricardo Venâncio, Patrícia Furtado, Luís Morcela, Susana Monteiro, Nuno Saraiva, Jorge Coelho, Osvaldo Medina, Sofia Neto, Miguel Mendonça, Luís Cavaco, Pedro Brito, Tiago Pimentel, Sofia Lobato, André Caetano. Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe foi apresentado no Cinema São Jorge a 7 de setembro, incluído no evento MOTELX 2017.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/litfantastica-bang/-o-202348/-os-melhores-contos-de-edgar-allan-poe/

Não foi um livro que li de fio a pavio, até porque já conhecia vários dos contos apresentados, mas permitiu-me revisitar um autor de que é impossível ficar-se indiferente. Reli uma ou outra história que já conhecia, como Os Crimes da Rua Morgue, Berenice e O Poço e o Pêndulo, e adorei algumas que ainda não tinha lido, como é o caso de Eleonora, O Coração Delator ou A Queda da Casa de Usher, em especial esta última.

“Morreu aos 40 anos, por razões ainda hoje desconhecidas, mas deixou um legado que influenciou milhares e milhares de escritores em todo o mundo.”

De assinalar uma certa harmonia editorial e até uma simbiose entre os temas tratados nos contos, assim como uma sequência de histórias protagonizadas pelo mesmo personagem, como acontece com Auguste Dupin, o peculiar “detetive” que surge em Os Crime da Rua Morgue, O Mistério de Marie Rogêt e A Carta Furada. Tal fluidez editorial não seria possível, porém, sem o maravilhoso trabalho realizado por Edgar Allan Poe.

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Fonte: Saída de Emergência

A escrita é intimista e cativante, arranca-nos do nosso mundo e eleva-nos aos estados psíquicos mais selvagens, hipnotiza-nos e sacode-nos, de uma realidade à outra, com toques de humor, com momentos de suspense e de êxtase, mexendo nos medos mais primários, tocando os lugares menos prováveis da nossa mente, fazendo-nos sorrir da nossa própria ingenuidade. Ler Poe é regressar ao quente aconchego de um velho clássico, e sentirmo-nos em casa ao inquietar-nos.

Porque Edgar Allan Poe foi, acima de tudo, um autor que não se preocupou somente em ser original, em fundar um género, em criar algo novo. Poe preocupou-se em não deixar de surpreender, em inquietar o leitor e agitá-lo até aos seus próprios limites. De alguma forma, segue o padrão dos autores da sua época, do mundo da sua época, extrapolando-o na insanidade que, costuma-se dizer, só aos poetas é permitida. Poe trabalhou tanto o poema como a prosa, mas em ambas foi sublime.

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Fonte: http://gqportugal.pt/os-melhores-contos-edgar-allan-poe/

Comparo facilmente a escrita de Poe à de H. P. Lovecraft, um dos seus “discípulos” mais famosos. Ambos escrevem na primeira pessoa, inquietam com a proximidade que estabelecem com o leitor e sobretudo com a forma com que trabalham os medos e os receios mais básicos deste. No entanto, enquanto Lovecraft criou uma mitologia e trabalhou com um terror mais fantasioso, Poe vai aos pormenores mundanos que mais nos aterrorizam. O crime, a morte, o próprio significado da vida.

“A escrita é intimista e cativante, arranca-nos do nosso mundo e eleva-nos aos estados psíquicos mais selvagens, hipnotiza-nos e sacode-nos, de uma realidade à outra”

Edgar Allan Poe não escreve somente sobre detetives e criminosos, escreve sobre mortos-vivos, vampiros, orangontangos e canibais. As suas histórias estão tão repletas de pormenores, sujos e viscerais, que acabamos por nos perguntar como conseguem ser tão simples e de tão fácil interpretação. Independentemente do tempo em que escreveu, a obra de Allan Poe é intemporal e um cânone para todo o autor de ficção policial e de horror.

Resta ainda deixar um louvor à Saída de Emergência, não só por “desenterrar” este ícone, mas por todo o cuidado de edição do livro. Trata-se de uma edição lindíssima em capa dura, uma verdadeira edição de colecionador com “belas” e arrepiantes ilustrações de nomes nacionais que, independentemente do desenvolvimento das suas carreiras, permanecerão eternizados nestas páginas. Todo o trabalho de promoção do livro merece também os meus elogios. Quem quiser ver a exposição dedicada a Edgar Allan Poe, não faltem dia 28 de outubro ao Festival Bang! no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

Estive a Ler: A Espada do Destino, The Witcher #2

— Não faz mal. Já estou molhado e já… Repara, não é assim tão fundo. Aqui, no primeiro degrau, a água nem chega à cintura, e o degrau é tão largo quanto um salão de baile. Oh, que treta…

O texto seguinte aborda o livro “A Espada do Destino”, segundo volume da série The Witcher 

Conhecido pela criação da personagem Geralt de Rivia e da série The Witcher, o autor polaco Andrzej Sapkowski venceu um rol de prémios importantíssimos, entre eles o Zajdel Award, o Polityka Magazine’s Literature Passport, o Spanish Ignotus Award e o David Gemmell Legends Award. A sua obra já foi traduzida para mais de vinte línguas, entre elas inglês, checo, russo, lituano, alemão, espanhol, francês, ucraniano e português. A sua saga literária The Witcher inspirou uma série de videojogos de grande popularidade que vendeu mais de 20 milhões de cópias no mundo inteiro.

Depois de a Edições Saída de Emergência ter publicado no ano passado o primeiro volume, com o título O Terceiro Desejo, chega agora às bancas o segundo, A Espada do Destino. Este livro segue a estrutura episódica do primeiro, sendo que a narrativa linear com um plot central será apenas iniciada no terceiro volume. Mais um sucesso da Coleção BANG!, A Espada do Destino é um livro de 336 páginas, com tradução de Tomasz Barcinski e adaptação de Rui Azeredo.

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Fonte: http://lodz.naszemiasto.pl/artykul/andrzej-sapkowski-z-world-fantasy-award-2016,3796189,art,t,id,tm.html

Ainda que ache este livro mais bem organizado que o primeiro, e com personagens bem mais aliciantes (para além de ter muito mais Jaskier e Yennefer que O Terceiro Desejo), confesso que não gostei por aí além. Não desgostei, mas nem me surpreendeu, nem me satisfez, e até me aborreceu. Gostei de três contos e não gostei de outros tantos, mas mesmo os contos de que gostei achei muita conversa fiada, com muitos diálogos que não trouxeram nada de mais e as ações por vezes nem foram sequer mostradas, apenas contadas.

O melhor do livro é mesmo a escrita direta do autor e a forma simples com que ele nos consegue fazer sentir imersos no mundo apresentado. Muito embora conheçamos bem muitas daquelas raças, nomeadamente elfos, anões, sereias e outras criaturas do folclore eslavo, o autor conseguiu apresentá-los a todos de forma coesa e descomprometida, de um jeito fluído e natural. As histórias em si, porém, só começaram a melhorar na ponta final.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/a-espada-do-destino/

No primeiro conto, O Limite do Possível, vemos o encontro de Geralt de Rivia, o bruxo caçador de monstros, com o sujeito conhecido por Três Gralhas, que o conduz numa épica caça a dragões onde vários bruxos e caçadores conceituados terão de unir forças para apanhar um raríssimo dragão dourado. Esse dragão, porém, tem um segredo bastante peculiar. O segundo conto intitula-se Um Fragmento de Gelo. Geralt chega a uma cidade de elfos, onde é obrigado a competir pelo amor de Yennefer com um feiticeiro chamado Istredd.

“Gostei de três contos e não gostei de outros tantos, mas mesmo os contos de que gostei achei muita conversa fiada”

Em O Fogo Eterno, Geralt encontra-se em Novigrad, onde descobre que o ananico Dainty Biberveldt foi copiado por uma criatura que se consegue adaptar à forma de qualquer um e adquirir as suas expressões. Com a ajuda de Geralt e do seu amigo gabarolas, o trovador Jaskier, Biberveldt tentará dar caça à criatura, conhecida vulgarmente como mímico, doppler ou vexling, antes que esta destrua a sua reputação e a sua fortuna. A participação de Chappelle, o vicário encarregado dos Serviços Secretos locais, irá causar uma reviravolta inesperada.

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Fonte: https://www.origin.com/irl/en-us/store/witcher/the-witcher/enhanced-edition

O conto Um Pequeno Sacrifício fala de amor. Do amor entre o príncipe Agloval pela sereia Sh’eenaz, que terá Geralt como tradutor entre os dois, e dos pequenos sacrifícios que nenhum deles parece disposto a fazer. A sereia quer fazer um feitiço para dar uma barbatana ao príncipe, o príncipe quer dar pernas à sereia, o que resulta num impasse. Mas é também do amor que nasce na trovadora Essi Daaven, conhecida como Belos Olhos, por Geralt, que trata este conto. Um amor a que, aparentemente, Geralt não corresponde.

Em A Espada do Destino somos apresentados a Ciri, uma pequena princesa que, depois de fugir ao casamento combinado pela avó, a rainha de Cintra, com Kristin, é capturada às portas de Brokilon, a terra das dríades. Geralt encontra o barão Freixenet ferido e pouco depois a menina. São levados até ao coração de Brokilon pela dríade chamada Braenn, onde os espera a anciã Eithné, que revela intenções distintas para cada um deles. A verdade, é que uma profecia antiga une Geralt à pequena Ciri, profecia que ele parece disposto a desdenhar.

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Fonte: https://www.hdwallpapers.in/ciri_the_witcher_3_wild_hunt-wallpapers.html

No último conto, Algo Mais, Geralt encontra-se ferido e é salvo por um homem chamado Yurga. Do estado febril ao encontro com Yennefer na noite de Belleteyn, da verdade escondida pelo druida Myszowor à surpresa revelada pela esposa de Yurga, Zlotolika, Geralt descobre a verdade sobre Ciri, que esta é a filha órfã de Duny e Pavetha e neta de Calanthe de Cintra: a Criança Surpresa. Um excelente mote para o que deverá ser a série iniciada com o próximo volume.

“A verdade, é que uma profecia antiga une Geralt à pequena Ciri, profecia que ele parece disposto a desdenhar.”

Apesar de parecer incluir conteúdos muito interessantes, os contos passam muito pelo diálogo entre os personagens, muitas páginas com conversas que não interessam nada e pouca é a ação que se pode encontrar entre estas páginas. O primeiro conto foi a aventura com mais ritmo, mas sinceramente uma caça aos dragões, mesmo que o final tenha sido agradável e surpreendente, não me aliciou muito. O segundo e o quarto contos foram meramente sentimentalóides, conversas e mais conversas sobre os amores de Geralt por Yennefer e de Essi por Geralt. Nada trouxeram de interesse ao livro.

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Fonte: https://www.candb.com/en/artwork/1912/geralt-and-ciri-witcher-3-cd-projekt-red.html

O terceiro conto foi o mais ritmado e bem-humorado. O núcleo de Novigrad foi todo ele uma lufada de ar fresco, e tanto o ananico Biberveldt como o mímico que o imitava foram excelentes adições ao “elenco”. Já para não falar do final de que gostei muito. O penúltimo conto, que dá o título ao livro, porém, foi aquele de que mais gostei. Apesar de Sapkowski não se ter esforçado minimamente para descolar a história e as moradas das dríades da visão mitológica e tolkieniana dos elfos, Ciri revelou-se uma personagem e tanto.

“Ciri revelou-se uma personagem e tanto.”

A menina conseguiu mesmo alguns dos melhores momentos do volume e deu alguma utilidade e mistério à figura de Geralt de Rivia. Foi mesmo a história dela que me deu motivos para continuar a leitura. Embora o último conto tenha encerrado (ou iniciado, dependendo do ponto de vista) esta história como eu mais esperava e gostava, acabou por ser algo confuso e misterioso, valendo essencialmente pelas revelações sobre Ciri e sobre Cintra, que teriam sido bem melhores se fossem mostradas ao invés de contadas.

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Fonte: http://www.gameblast.com.br/2015/05/livro-ultimo-desejo-witcher-resenha.html

A Espada do Destino é um livro que tem qualidade, mas que me pareceu somente uma história para crianças contada com recurso frequente a palavrões para parecer adulta. Geralt de Rivia é uma personagem com quem facilmente se cria empatia, é impossível não rir com as piadas de Jaskier ou não sentir a falta da proximidade de Yennefer, mas o livro acaba por não me encher as medidas. Aborreceu-me em maior medida do que me cativou. Ainda assim, não deixo de reconhecer alguma qualidade na prosa de Sapkowsky, tanto nos diálogos como nas cenas retratadas que, a meu ver, poucas foram as que encontrei neste volume.

Não é por acaso que Andzej Sapkowski é um dos autores de fantasia vivos mais publicados em todo o mundo. Acima de tudo, a popularidade da série deve-se ao videojogo baseado nos livros, mas os dotes de contador de histórias são um dos principais atributos do autor polaco, que estará em Portugal nos dias 14, 15, 16 e 17 de dezembro na EXPONOR, para a edição de 2017 da ComicCon Portugal. Um evento a que nenhum fã do autor deverá faltar.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 5/5

The Witcher (Edições Saída de Emergência):

#1 O Terceiro Desejo

#2 A Espada do Destino

A Divulgar: “Espada de Vidro” e “Cartas de Profecia” pela Saída de Emergência

Um dos lançamentos mais esperados do ano, Espada de Vidro é o segundo volume da série iniciada com A Rainha Vermelha, da norte-americana Victoria Aveyard. Trata-se de um dos produtos de fantasia YA mais aclamados em todo o mundo, que granjearam à autora o Goodreads Choice Awards para Melhor Estreia de Autor(a) no Goodreads. Espada de Vidro estará à venda já a partir do dia 20 de outubro, encontrando-se já em pré-venda no site da Saída de Emergência. E quem comprar o livro através do site, terá a oferta do primeiro volume. Assim sendo, quem ainda não conhece as aventuras de Mare Barrow poderá adquirir os dois de uma só vez, e quem já conhece pode sempre oferecer o primeiro.

Outro dos próximos lançamentos da Saída de Emergência é o livro Cartas de Profecia, o quinto volume da série Os Outros de Anne Bishop. O lançamento nacional será a 3 de novembro, mas a editora está a preparar um pré-lançamento para o dia 28 de outubro, data em que a autora norte-americana estará em Portugal, no Festival Bang! Desta forma, podem adquirir o vosso exemplar no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, e sair de lá com o vosso exemplar assinado pela autora. Uma ideia que deverá agradar e muito aos seguidores de Anne Bishop.

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Chancela: Saida de Emergência
Data 1ª Edição: 20/10/2017
ISBN: OFERTAVIDRO
Nº de Páginas: 384
Dimensões: [160×230]mm
Encadernação: Capa Mole
SINOPSE:
Este produto tem como oferta o livro Rainha Vermelha

O sangue de Mare Barrow é vermelho mas a sua capacidade Prateada, o poder de controlar os relâmpagos, transformou-a numa arma que a corte real tenta controlar. A coroa acusa-a de ser uma farsa, mas quando ela foge do príncipe Maven – o amigo que a traiu –, Mare faz uma descoberta surpreendente: ela não é a única da sua espécie.
Perseguida por Maven, Mare parte para descobrir e recrutar outros combatentes Vermelhos e Prateados que se juntem à batalha contra os seus opressores. Mas Mare encontra-se num caminho mortífero, em risco de se tornar exatamente no tipo de monstro que está a tentar derrotar.
~
Será que ela vai ceder sob o peso das vidas exigidas pela rebelião?
~
Ou a traição e a deslealdade tê-la-ão endurecido para sempre?
~
Sem Título
Chancela: Saida de Emergência
Saga/Série:Série Os Outros Nº: 5
Data 1ª Edição: 03/11/2017
ISBN: 9789897730863
Nº de Páginas: 432
Dimensões: [160×230]mm
Encadernação: Capa Mole
SINOPSE:
Anne Bishop regressa ao mundo de Os Outros, enquanto os humanos lutam para sobreviver na sombra de criaturas poderosas.

Depois de uma insurreição humana ter sido brutalmente abortada pelos Anciãos – uma forma primitiva e letal de Os Outros –, as poucas cidades que os humanos controlam estão dispersas. Os seus habitantes conhecem apenas o medo e a escuridão da terra de ninguém.

À medida que algumas dessas comunidades lutam para se reconstruir, Simon Wolfgard, o líder lobo metamorfo, e Meg Corbyn, a profetisa de sangue, trabalham com os humanos para manter a frágil paz. Mas todos os seus esforços são ameaçados quando uma misteriosa figura humana aparece.

Com os humanos desconfiados em relação a um dos seus, a tensão aumenta, atraindo a atenção dos Anciãos, curiosos sobre o efeito que este predador terá na matilha. Mas Meg já conhece o perigo, pois viu nas cartas de profecia como tudo terminará: com ela ao lado de uma campa.

Resumo Trimestral de Leituras #11

O verão costuma ser uma estação menos dada a leituras, mas em 2017 acabei por conseguir ler mais do que nos anos anteriores durante este período. Se julho foi o mês em que li mais, com as bandas-desenhadas a conhecerem alguma predominância, agosto trouxe-me boas surpresas como Os Despojados de Ursula K. Le Guin ou Anjos de Carlos Silva. Já o mês de setembro ficou marcado pela conclusão de várias sagas que vinha a seguir, como é o caso da Saga O Regresso do Assassino de Robin Hobb, A Torre Negra de Stephen King e A Primeira Lei de Joe Abercrombie. Destaque ainda para a leitura de vários autores nacionais, como Carlos Silva, Pedro Cipriano, Jay Luís ou Bruno Martins Soares. Foi A Súbita Aparição de Hope Arden, de Claire North, porém, o livro que mais me arrebatou, tornando-se a melhor leitura do ano até ao momento.

Regressos, Southern Bastards #3 – Jason Aaron e Jason Latour

O Homem Que Roubou o Mundo, Velvet #3 – Ed Brubaker, Steve Epting e Elizabeth Breitweiser

Monge Guerreiro – Romulo Felippe

Despertar, Monstress #1 – Marjorie Liu e Sana Takeda

Conquista da Liberdade, Rebeldes Europeus #1 – Jay Luís

As Nuvens de Hamburgo – Pedro Cipriano

A Jornada do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #4 – Robin Hobb

Os Despojados – Ursula K. Le Guin

Anjos – Carlos Silva

Os Mares do Destino, Elric #3 – Michael Moorcock

Bruxas | Wytches – Scott Snyder e Jock

A Forca, A Primeira Lei #2 – Joe Abercrombie

Os Dragões do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #5 – Robin Hobb

A Súbita Aparição de Hope Arden – Claire North

One-Punch Man #3 – One e Yusuke Murata

A Torre Negra, A Torre Negra #7 – Stephen King

Moving – Bruno Martins Soares

A Coroa, A Primeira Lei #3 – Joe Abercrombie

Fighting The Silent, The Dark Sea War Chronicles #1 – Bruno Martins Soares

Sem TítuloComecei julho com o terceiro volume de Southern Bastards, Regressos. É mais um capítulo da violenta saga sobre as gentes do Alabama criada por Jason Aaron e Jason Latour, autor e ilustrador norte-americanos. Focado em seis personagens, Regressos é ambientado no período do Homecoming, em que a equipa dos Reb’s prepara-se para receber os Warriors, um jogo ensombrado pelo suicídio de Big, que se sentira esmagado pela atitude conspiratória da população em torno da morte de Earl Tubb. Os dois autores conseguiram enriquecer a série e abrir novas perspectivas para a mesma, ao mesmo tempo em que submergiram o leitor num ritmo crescente. O Homem que Roubou o Mundo é o terceiro volume de Velvet, com argumento de Ed Brubaker, arte de Steve Epting e cores de Elizabeth Breitweiser. A um ritmo alucinante, o leitor segue a espia Velvet Templeton na peugada de respostas sobre a cabala que a fez matar o homem que amava. Uma conspiração que a leva aos meandros do Caso Watergate e ao rapto do presidente Nixon. Uma conclusão de trilogia fantástica, cheia de ação, perseguições e tiroteios. Duas fantásticas BD’s trazidas até nós pelas mãos da G Floy Studio Portugal.

Sem títuloDo autor brasileiro Romulo Felippe, Monge Guerreiro é um ótimo livro histórico pincelado de fantasia. Vemos um templário montado num unicórnio, um dragão a perseguir o papa pelas cidades italianas e uma missão lançada por Luís IX de França para proteger duas relíquias sagradas: a Lança de Longinus e a Coroa de Espinhos. Com uma melhor revisão e um maior equilíbrio entre a primeira e a segunda metade, o livro seria fantástico. Com argumento de Marjorie Liu e arte de Sana Takeda, duas artistas ligadas à Marvel, Despertar é o primeiro volume de Monstress, a nova aposta das Edições Saída de Emergência. Num mundo de inspiração asiática, uma rapariga arcânica vê-se no cerne de uma disputa de anos entre humanos e arcânicos. Muito embora pareça inofensiva, Maika Meiolobo tem dentro de si um poder imensurável, o resquício de um mal muito antigo que tem permanecido adormecido. Brilhante na arte e com um argumento maravilhoso, Monstress atira-nos para um mundo que levamos tempo a compreender, no qual a liderança matriarcal e a linguagem crua e direta nos absorvem de forma natural desde o primeiro momento.

Sem títuloPrimeiro volume da série Rebeldes Europeus da autora nacional Jay Luís, publicada pela Pastel de Nata Edições, Conquista da Liberdade é uma distopia interessante sobre um grupo rebelde que tenta resgatar famílias para colónias espaciais quando o nosso mundo foi dominado por um tirano de origens islâmicas. Duas irmãs que fazem parte desse sistema lutam contra a tirania, ao mesmo tempo que tentam proteger a sua própria família. Um livro algo fraco a nível de escrita, com muito a ser melhorado num próximo volume. Num outro patamar de qualidade está o livro de Pedro Cipriano, As Nuvens de Hamburgo, publicado pela Flybooks. O autor faz-nos vestir a pele de Marta, uma estudante de Erasmus em Hamburgo que começa a ter visões de acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo que tenta descobrir o que se passa consigo, procura usar o dom para fazer algo de importante. Um livro de leitura rápida e vocabulário simples que funcionou muito bem e agradou-me. O quarto volume da Saga O Regresso do Assassino de Robin Hobb, A Jornada do Assassino, não tem nada de muito original ou rasgos de génio, mas as ligações entre os personagens e entre os personagens e o leitor são incríveis e a escrita de Hobb é simplesmente maravilhosa. Respeitador avança na sua jornada para as Ilhas Externas acompanhado de Fitz, Breu, Obtuso e companhia, mas tanto o reencontro com a narcheska Eliânia como a procura do dragão não são exatamente como esperavam. Uma fantástica série publicada pela Edições Saída de Emergência.

Sem TítuloAgosto começou com ficção científica, também publicada pela Saída de Emergência. Escrito por Ursula K. Le Guin, Os Despojados narra a estadia de um físico natural de Anarres no seu planeta gémeo, Urras, de modo a conhecer melhor aquela civilização e a ajudá-los com os seus estudos. Rapidamente, porém, Shevek percebe o alcance da manipulação de que é alvo. Um livro bastante filosófico e político, acima de tudo uma dura crítica social aos regimes capitalistas, mas que acaba por mostrar que nenhuma civilização é perfeita e nenhum estado social consegue estar imune a vários e sérios problemas. Um livro que me deliciou, em parte graças à escrita envolvente de Ursula, mas que demorei a ler, por em determinados momentos ser algo confuso e aborrecido. Vencedor do Prémio Divergência em 2015, Anjos é o romance de estreia de Carlos Silva e o primeiro livro de solar punk em Portugal. Num futuro longínquo, o nosso país foi vítima de um terramoto. Seguiu-se um período de várias mudanças a nível social e tecnológico, que se traduziu num novo modo de vida. O Portugal que conhecíamos transformou-se. É um livro pequeno e por vezes pouco equilibrado na chuva de pontos de vista que nos quer mostrar, ainda assim de uma qualidade acima da média dentro da literatura nacional.

Sem títuloOs Mares do Destino é o terceiro volume da saga Elric de Michael Moorcock, e o último publicado em Portugal pela Saída de Emergência. Nesta aventura do imperador albino, acompanhamo-lo através do Multiverso, conhecendo países e culturas que julgava impossíveis. Dos mares revoltos, onde conhece uma jovem predestinada, ao navio de um capitão onde encontra três facetas de si próprio, Elric percorre um gólgota de devastação onde a sua vida encontra-se sempre em risco. É quando conhece um duque careca e enfrenta um antepassado que a jornada ganha finalmente sentido, no encontro das suas origens e das origens do seu povo. Um volume de que gostei bastante, porque apesar de não acrescentar nada de novo à trama conseguiu envolver-me. Uma prova de que as velhas histórias de espada e feitiçaria continuam a fascinar-me. Lançado pela G Floy Studio Portugal, Bruxas | Wytches é um produto de sucesso de um dos principais argumentistas de Batman, Scott Snyder. Com ilustração de Jock, Wytches é uma história tensa e incrível sobre uma família que tenta ultrapassar uma tragédia que os marcou a todos e unir os fragmentos do que tinham. A jovem Sailor não se consegue adaptar à nova escola nem à nova vida, e nessa espiral depressiva descobre que a floresta à volta da casa nova está pejada de bruxas. Para piorar, ela está marcada para morrer. Estas bruxas de Snyder são, no entanto, bem mais monstruosas do que a visão comum das mesmas. Não me maravilhou, mas gostei bastante e a arte está brutal.

Sem títuloA minha última leitura de agosto foi A Forca, o segundo volume da série A Primeira Lei de Joe Abercrombie. Enquanto Bayaz conduz Logen Novededos, Jezal dan Luthar, Ferro Maljinn, Malacus Quai e Pé-Longo até aos confins do mundo para encontrar um artefacto mágico capaz de salvar o mundo, o major West é obrigado a enfrentar os exércitos de Bethod e resistir à futilidade das ordens do príncipe Ladisla, a quem foi confiado. No sul, os exércitos gurkeses montam cerco a Dagoska, o último bastião da União naquelas paragens, e o inquisidor Glotka é enviado para lá não só para resistir ao cerco como para descobrir o que aconteceu ao seu antecessor. Arruinar uma conspiração torna-se, no entanto, o menor dos seus problemas. Foi um volume que melhorou em relação ao anterior, mas continuo sem gostar do núcleo principal. Os capítulos de Glotka, West e Cão foram, sem dúvida, o que salvou o livro. Uma edição 1001 Mundos. Pela Saída de Emergência, iniciei setembro com Os Dragões do Assassino. Numa toada semelhante à dos volumes anteriores, Robin Hobb desdobra a capa que encerrava todos os segredos no quinto e último volume da Saga O Regresso do Assassino. Os mistérios na Ilha de Aslevjal são finalmente descobertos, o dragão Fogojelo é arrancado da sua clausura sob o gelo e personagens como Castro, Fitz, Moli, Breu, Respeitador e Eliânia conhecem fins de maior ou menor felicidade. Um ciclo que foi encerrado com grande perícia e mestria por parte da autora canadiana, ainda assim houve algo que me fez não gostar tanto deste como dos anteriores.

Sem títuloO novo livro da autora Claire North, que já o ano passado havia surpreendido com As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, foi só a minha melhor leitura deste ano até ao momento. Envolvente, rico em pormenores e extremamente ambicioso, A Súbita Aparição de Hope Arden foca-se numa rapariga que desde os 16 anos viu toda a gente esquecer-se dela. Quando as pessoas deixam de a ver por segundos, esquecem-se do seu rosto e de quem ela é ou o que fez. Hope transformou-se numa rapariga esquecível, o que a obrigou a sobreviver por sua própria conta e risco e, à margem da sociedade, caiu no mundo do crime. A história é excelente mas foi sobretudo a escrita da autora que me encantou. Com argumento de One e ilustrações de Yusuke Murata, o terceiro volume de One-Punch Man, recentemente publicado pela Devir, leva os heróis Saitama e Genos a uma prova para determinarem a classe de super-heróis a que pertencem e verem os seus nomes registados na lista oficial. Depois, terão de lidar ainda com um motim de super-heróis e com monstros aborrecidos. Apesar de ter vários pormenores interessantes, a história vale sobretudo pelo braço-de-ferro entre Saitama e Genos e a insistência do ciborgue em ser ensinado por um homem que não está nem aí, nem sabe o que lhe haveria de ensinar. Parece-me, no entanto, um mangá que está longe de justificar o sucesso que obteve.

Sem títuloCheguei finalmente ao fim da saga A Torre Negra de Stephen King, publicado no nosso país pela Bertrand Editora. O último volume, com o mesmo nome, mostra Roland, Jake, Eddie, Susannah, Oi e o padre Callahan numa corrida contra o tempo para impedirem grandes males, mas a reta final da caminhada para a Torre Negra pertence exclusivamente a Roland de Gilead. Um livro que deixou a claro toda a simbologia criada pelo autor, foi uma história que me agradou imenso, os finais foram excelentes e as cenas de mortes incríveis. O pecado do livro, tal como havia verificado em livros anteriores da série, é o volume ostensivo de páginas, quando muitos capítulos são absurdamente dispensáveis. Já o conto do autor português Bruno Martins Soares disponível na Amazon, Moving, fala sobre livros (teimosos) e sobre Paulo, um homem averso a mudanças que é obrigado a aceitá-las. A escrita do Bruno é inteligente e fluída, mas também intimista, deixando-nos vestir a pele do personagem principal e nunca abandona a toada humorística durante a narração.

Sem TítuloTerceiro e último volume da série A Primeira Lei de Joe Abercrombie, A Coroa é um desenrolar de acontecimentos frenéticos e plot-twists de cortar a respiração. Bayaz e Ferro foram os personagens de que gostei menos e toda a magia envolvida soou-me forçada e anti-natural, quebrando a fluidez narrativa que Joe demonstrou ao desenvolver personagens como Glotka, Collem West ou Cão. Ainda assim, os personagens Jezal e Logen melhoraram bastante e, ainda que não tenha “comprado” a história nem gostado muito do final, fica claro que é uma trilogia a não deixar de ler. Primeiro volume da série The Dark Sea War Chronicles, Fighting The Silent do autor nacional Bruno Martins Soares estará disponível já dia 1 de outubro na Amazon. Trata-se de uma série de ficção científica protagonizada por Byllard Iddo, onde a ação acontece num sistema solar longínquo. Ali, uma guerra é travada entre o reino de Torrance e a temida República Axx. Após o fatídico incidente, Byl juntou-se à Marinha Espacial, onde se tornou tenente na poderosa armada de Webbur, a nação aliada a Torrance que estará na linha da frente para receber o embate de uma incursão inimiga. É um livro pequeno, muito bem escrito e original.

Neste momento estou a ler Elantris de Brandon Sanderson, e autores como Steven Erikson, George R. R. Martin, Edgar Allan Poe e Andrzej Sapkowski serão seguramente comentados por mim aqui no NDZ no próximo trimestre. Também as BD’s não serão esquecidas e os novos volumes de Saga e Tony Chu não me escaparão. Fiquem atentos.

A Divulgar: “Os Portões da Casa dos Mortos” pela Saída de Emergência

É já no mês de novembro que será lançado em terras lusitanas o segundo volume da afamada série de fantasia Saga do Império Malazano de Steven Erikson. Depois do auspicioso início com Jardins da Lua, o autor canadiano mostra neste segundo volume que apenas mostrou uma pontinha do véu do que é este extenso império fantástico. É, seguramente, um dos lançamentos mais esperados do ano, até porque o segundo volume é apontado como muito superior ao primeiro, que por si só já deixou milhares rendidos à escrita e imersão narrativa do autor. Os Portões da Casa dos Mortos está já em pré-venda no site da Saída de Emergência, que inclui ainda a oferta do livro O Mago – A Filha do Império, para quem o adquirir online.

Aparentemente, este segundo volume será dividido em dois, a avaliar pelo número de páginas exibido na página da editora, o que é uma má notícia dentro de uma excelente que é o próprio lançamento. Espero que a editora consiga sustentar assim uma das maiores e melhores sagas dentro do género na atualidade. Quem ainda não leu o primeiro volume, do que é que estão à espera? Podem ler a minha opinião a Jardins da Lua e também um Especial de Introdução ao Império Malazano, que escrevi este mês aqui no NDZ.

Sem Título
Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/litfantastica-bang/fantasia-o-202346/os-portoes-da-casa-dos-mortos-oferta/