A Divulgar: Rainbow Rowell no Facebook da Saída de Emergência

No dia 15 de setembro foi lançado o mais recente livro da autora norte-americana Rainbow Rowell, Carry On. Conhecida por escrever YA e romances adultos contemporâneos (Eleanor & Park, Fangirl e Anexos são os seus livros mais populares no nosso país), Rainbow foi convidada pela Edições Saída de Emergência para contactar os seus fãs nacionais. Assim sendo, amanhã, dia 20, a autora norte-americana estará na página de facebook da editora para responder, das 16h às 17h, a todas as questões dos seus leitores. Uma ótima oportunidade para os fãs interagirem com ela e descobrirem mais sobre a autora.

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Fonte: http://saidadeemergencia.com
SINOPSE:
Esta é a história de Simon Snow, a personagem fictícia que povoava a vida e imaginação de Cath em Fangirl, o fabuloso romance de Rainbow Rowell

Na famosa Escola de Magia de Watford, Simon desempenha um papel especial: ele é o Escolhido, aquele que irá salvar todos do Mal. Mas a verdade é que, metade das vezes, Simon não consegue fazer a sua varinha funcionar, e, na outra metade, pega fogo a tudo. O seu mentor evita-o, a sua namorada deixou-o, e existe um monstro que se alimenta de magia e que utiliza o rosto de Simon. Para piorar as coisas, Baz, a némesis irritante de Simon, desapareceu. Só pode estar a preparar alguma!
Carry On – A História de Simon Snow está repleto de fantasmas, amor, mistérios. Tem exatamente a quantidade de beijos e de conversa que seria de esperar numa história de Rainbow Rowell – mas muito, muito mais monstros.
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Especial: Introdução ao Império Malazano de Erikson

Montanhas voadoras, dragões, zombies, deuses a jogar o jogo dos tronos e cães horríveis cheios de raiva a verter das mandíbulas. É muito disto o que nos oferece Steven Erikson no seu livro inaugural, Jardins da Lua, publicado em Portugal pela Saída de Emergência no outono de 2016. É para dissecar os eventos do primeiro livro e para conhecer mais ao pormenor este mundo completamente louco que escrevo uma breve introdução ao Império Malazano. Em boa verdade, não nos é permitido conhecer muito mais antes de sair o segundo livro, mas esta saga começa com imensas informações que são importantes reter antes de continuar a leitura da mesma, ainda que no segundo volume, Deadhouse Gates, apenas quatro personagens transitem do livro inaugural.

O acontecimento conhecido como Cerco de Pale pode ser considerado como o momento chave do livro de Steven Erikson Jardins da Lua, não só porque é o ponto de partida dramático para a série, como é o primeiro momento onde nós – os leitores – nos conseguimos de facto situar na história e perceber o que está ali a acontecer. O cerco é descrito de forma pouco precisa mas esclarecedora que baste para o rumo da história, e os eventos narrados são de um cuidado maravilhoso e com um tom de decadência e queda que deixa claros os dotes literários do autor canadiano.

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Fonte: https://bibliosanctum.com/2016/02/15/short-sweet-review-gardens-of-the-moon-by-steven-erikson/

Mas quem é este tal de Erikson?

Nascido em 1959 em Toronto (Canadá), Steven Erikson é o pseudónimo de Steve Rune Lundin, um escritor formado em arquelogia e antropologia. Depois de casar-se, viveu no Reino Unido com a família, mas regressou ao Canadá, onde se fixou em Winnipeg. Erikson iniciou-se no mundo das letras com um ciclo de contos intitulados A Ruin of Feathers sobre um arqueólogo da América Central, a que se seguiram vários livros. Com o pseudónimo Steven Erikson, porém, viria a ganhar notoriedade quando se dedicou à fantasia, mais concretamente com a saga de grande envergadura Malazan Book of The Fallen, conhecida em Portugal como Saga do Império Malazano.

Que série é esta?

O universo Malazan foi criado por Steven Erikson e Ian C. Esslemont no início dos anos 80, para uma campanha de RPG, inspirado no jogo de mesa Dungeons & Dragons e na obra de Glen Cook, The Black Company, autor que viria a considerar Malazan uma obra-prima da imaginação e uma possível marca de água futura para o género fantástico. Erikson escreveu os dez volumes da série The Malazan Book of The Fallen, do qual Jardins da Lua é o primeiro de dez, mas para além desta sequência, existe uma série de contos e prequelas escritas pelos dois criadores, Erikson e Esslemont. Amigo pessoal de Erikson, o co-criador do universo é também ele um arqueólogo de origem canadiana que viria a publicar a sua própria série de seis volumes, Novels of the Malazan Empire.

“Ao ler Jardins da lua, as pessoas vão odiar ou amar o meu trabalho. Não há meio-termo. […] Os livros dessa série não são para leitores preguiçosos. Não é possível apenas passar por eles. Para piorar, o primeiro romance começa no meio do que parece ser uma maratona: ou você entra a correr e consegue manter-se em pé ou então fica para trás.” Steven Erikson

Erikson não perde muito tempo a narrar-nos batalhas nem momentos concretos das mesmas. Não nos conta como o personagem x chegou ali e porquê, não nos conta o que o personagem y andou a fazer antes ou qual o seu propósito específico. Ele apresenta-nos a imagem do que está a acontecer em primeiro plano, e geralmente, a sua narrativa ocorre após determinadas calamidades. O pós-guerra, o pós-morte, a depressão daí resultante, é o momento mais querido e explorado pelo autor ao longo do livro, assim como o pré-traição, o pré-colapso, na fase final.

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Steven Erikson | Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=5FljiPBUc18

Se os acontecimentos após o Cerco de Pale são os mais depressivos e tensos, é quando a luta pela resistência dos povos livres se estreita e Darujhistan se torna o centro de todas as atenções, que conhecemos alguns dos personagens mais incríveis e os momentos mais ativos e intensos da história. Uma história de literatura fantástica que todo o fã do género deve ler – e mais do que uma vez – na vida. Os parágrafos seguintes contêm SPOILERS de Jardins da Luapor isso estás por tua própria conta e risco.

As partes envolvidas

O Cerco a Pale é o momento de guerra aberta mais evidente ao longo do primeiro volume, mas o clima de tensão e disputa está presente em todo o livro. De um lado, está o Império, representado pela Imperatriz Laseen, do outro as Cidades Livres de Genabackis, que são obrigadas a recorrer às forças de exércitos de mercenários como a Guarda Escarlate e os Tiste Andii. A Cria da Lua, uma montanha voadora cheia de corvos, vigia as Cidades Livres e tanto pode disparar raios como enviar corvos e dragões para defender as terras visadas.

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Fonte: https://www.tor.com/2016/09/19/a-beginners-guide-to-malazan-characters-gardens-of-the-moon/
O IMPÉRIO

Os Manda-Chuvas do Império

Eles podem ser considerados os chefões lá do sítio. Laseen fora comandante da Garra, a principal força armada do Império, mas traiu o Imperador Kellanved e tornou-se Imperatriz. Lorn é a sua conselheira, uma mulher enigmática com várias fragilidades, que ainda assim não deixa de ser uma guerreira exímia, sem medo de sujar as mãos ou de percorrer o mundo em jornada para alcançar os seus intentos (como ressuscitar múmias, por exemplo). Usa uma espada de otaratal. Tayschreen é o Alto Mago, o homem forte da magia para a Imperatriz. Mas é uma pessoa tão mesquinha que nem os seus sequazes parecem muito dispostos a confiar nele. Dujek Umbraço é, por sua vez, o Alto Punho. Rosto do exército, é um homem a percorrer o outono da vida, que não obstante a sua lealdade ao Império, não deixa de ver a atual Imperatriz como uma traidora.

Os Queimadores de Pontes

O Nono Pelotão dos Queimadores de Pontes é um dos instrumentos da Imperatriz. Whiskeyjack é o sargento. Fora um dos homens mais poderosos do Império, mas com a queda de Kellanved perdeu estatuto e poder, embora todos se recordem de quem ele foi um dia. Ben Ligeiro é um mago poderoso, escuro e delgado, pode viajar entre Labirintos. Kalam é um ex-assassino da Garra, também de pele escura. O pelotão inclui ainda Piedade, uma assassina de aspeto inofensivo, Azarve e Violinista, escavadores, Trote, um guerreiro barghastiano e Marreta, um curandeiro.

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Fonte: https://www.tor.com/2016/09/19/a-beginners-guide-to-malazan-characters-gardens-of-the-moon/

Os Magos

Hairlock é um mago muito especial. Especialmente porque é cortado ao meio da primeira vez que aparece em cena, durante a batalha às portas de Pale. Ainda assim, continua na história, com a mente transportada para um boneco. Tattersail, por sua vez, é a feiticeira mais poderosa apresentada no livro. Meio gordinha e com alguns problemas pessoais, mas isso nada que tem a ver para o caso. Se ela quisesse, poderia ser a Alta Maga do Império sem problemas. A cena em que enfrenta um cão é das mais bem escritas do livro e graças a uma carta que lhe sai no baralho dos dragões, uma moeda vai andar boa parte da narrativa a girar.

Mesmo agora, ao aproximar-se da tenda de comando, o som fraco continuava dentro da sua cabeça, como ficaria durante algum tempo, acreditava ela. A moeda girava e girava. Oponn rodopiava duas caras para o cosmos, mas era a aposta da Senhora. Continua a girar, prata. Continua a girar.

Ganoes Paran

Pode-se considerar o Macho Alfa lá do sítio. Paran aparece, ainda em criança, no Prólogo, é visto como o homem certo para desempenhar as tarefas mais arriscadas, é capitão do exército, enviado pela Conselheira Lorn para aniquilar uma miúda possuída por um Ascendente (ao melhor estilo Exorcista), são dele os momentos Nicholas Sparks do livro, fica “amigo” do grupo mais badass do exército, é morto, enfrenta seres do além, ressuscita e ainda tem tempo de proteger os pobres e necessitados. Um aparte: é o herói da história mas está do lado dos maus. Caput?

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Fonte: http://subterraneanpress.com/gardens-of-the-moon
A RESISTÊNCIA

Anomander Rake

É o senhor de quem se fala, A Juba do Caos, Senhor da Cria da Lua e um daqueles papões de quem o Império deve temer. Sim, é dele a imagem da capa do livro e é mesmo tão badass como imaginam. Trata-se de um Tiste Andii de cabelo prateado, dois metros de altura, pele negra e uma imensa espada às costas, chamada Dragnipur. As Cidades Livres podem contar com a sua experiência e perícia em combate inigualável. Até se pode transformar em dragão, por curiosidade. As suas intenções, no entanto, são dúbias. Alegadamente, é aliado de Caladan Brood, um senhor da guerra lendário que lidera as companhias terrenas de Tiste Andii.

O Conselho de Darujhistan

A cidade é governada pelo Conselho, um grupo de nobres pouco ortodoxos, em que se incluem Lady Simtal, Turban Orr e Estrasyan D’Arle. Estes são ricos e todos cheios de não-me-toques, mas em vez de se preocuparem com a segurança da cidade e com a sua liberdade, parecem mais interessados em enrolarem-se uns com os outros, fazer festas e trocar favores. São todos eles meio frívolos, meio conspiradores, e estão diretamente relacionados com os personagens centrais da trama.

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Fonte: http://malazan.wikia.com/wiki/Gardens_of_the_Moon

A Sociedade dos Assassinos

A Sociedade dos Assassinos é liderada por Vorcan, uma mulher enigmática. Eles trocam favores e encetam acordos com o Conselho, mas medem forças com o escol conselhio pela liderança de Darujhistan. É muito comum encontrar assassinos desta sociedade a saltitarem pelos telhados da cidade, e também a matar gente por encomenda, aqui e ali.

A Cabala

O Conselho e a Sociedade de Assassinos pensam que controlam Darujhistan, mas a verdade é que existe uma cabala de magos, onde se encontra por exemplo Mammot, um historiador, e Baruk, um alquimista, que move as peças a seu bel-prazer. Baruk é frequentemente visitado por Anomander Rake e pela sua mensageira, um corvo peculiar chamado Bruxa.

O Centro de Tudo

O centro de tudo podia muito bem ser a Taberna da Fénix, até porque é onde os personagens principais da segunda metade do livro se encontram sempre. Kruppe é um homem de grande apetite e humor apurado, que interfere nas principais ações da trama… nos seus sonhos. Coll é um antigo nobre caído em desgraça. Rallick Nom, um assassino da Sociedade. Murillio, um jovem atraente que seduz mulheres de poder. E o jovem ladrão Crokus Jovemão, o sobrinho de Mammot, pode ser visto como o Frodo, o Jon Snow lá do sítio, porque a moeda que não para de girar cai-lhe nas mãos do nada e ele torna-se o special one, o escolhido, o maravilhoso Crokus. Um pormenor: vai-se apaixonar pela miúda do Exorcista.

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Fonte: http://malazan.wikia.com/wiki/Gardens_of_the_Moon/Dramatis_Personae
QUANDO OS MUNDOS CHOCAM

Tudo explode. Bem, nem tudo. A verdade é que os Queimadores de Pontes e Paran se encaixam na perfeição à narrativa de Darujhistan, revêm um pouco os seus valores, há personagens que morrem, outros transformam-se, outros cruzam-se e ficam amiguinhos, há combates nos telhados da cidade em que estamos a seguir a escrita do autor e não sabemos quem é quem, há combates através de Labirintos – o sistema de magia – e uma ressurreição a fazer lembrar muito o Imhotep e algumas passagens do filme A Múmia, mas tudo bem, e armadilhas e planos por baixo de planos e pessoas a mudar de lado e um baile a acontecer quando o mundo está para acabar. Mas o mundo de Malazan está longe do fim, ainda que nem todos os lugares ou personagens possam dizer o mesmo.

WORLDBUILDING

Só nos é dado a conhecer um bocadinho do Império Malazano, principalmente o território entre Pale e Darujhistan no continente de Genabackis. Sabemos que o Império foi fundado no ano de 1058 do Sono da Cresta na pequena ilha de Malaz. Posteriormente, Kellanved nomeou como capital do Império Unta, uma das Sete Cidades, sendo que Sete Cidades é o nome pelo qual é conhecido o maior continente de todos. Neste mundo, para além das raças supracitadas, há espécies que já foram extintas e só existem ainda como zombies, cheias de nomes estranhos, jaghut, t’lan imass e afins, há os exércitos de moranthianos que têm como transporte voador uma espécie de abelhas gigantes, os Qorl; há os barghastianos, os vários graus de Tiste, e outros que ainda haveremos de ouvir falar.

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Fonte: https://www.reddit.com/r/Malazan/comments/5226fh/gardens_of_the_moon/
OS ASCENDENTES

Esta espécie de seres divinos são muito importantes na trama, porque eles podem aparecer quando bem lhes apetece e interferir na história. Em nenhum momento senti o “deus na máquina”, porque eles são muito mais importantes do que isso. Eles têm objetivos específicos, tiveram vida e têm uma história e um passado, como podem mexer-se a favor do Império ou das Cidades Livres, dependendo dos seus interesses. Sim, porque se há coisa que Oponn, Cotillion, Trono Sombrio e afins são é interesseiros.

A MAGIA

A magia é um dos aspetos mais interessantes de Jardins da Lua. Os Labirintos são dimensões a que magos e Ascendentes podem recorrer e retirar deles o seu poder, assim como usá-los para percorrer grandes distâncias em pouquíssimo tempo, se possuírem tal habilidade. Os Labirintos são lugares em que se pode entrar e sair, todos eles com uma geografia e história própria. Existem Labirintos próprios de magos humanos, como o Thyr, usado por Tattersail, ou os Labirintos Ancestrais, como o Kurald Galain usado por Anomander Rake e o poderoso Omtose Phellack, o Labirinto Jaghut usado pela “múmia”, o Tirano Jaghut. E o Ligeirinho tem a capacidade de aceder a vários Labirintos em simultâneo, o que o transforma num personagem para lá de maravilhoso.

PS: A única coisa capaz de anular o poder de um Labirinto é o minério conhecido como otaratal, e já vos disse quem é que tem uma espada feita de otaratal, não já?

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Fonte: http://www.fantasybookreview.co.uk/blog/top-10-fantasy-series/
CONCLUSÃO

Entrar em Jardins da Lua pode não parecer fácil. Eu, por exemplo, adorei a escrita de Erikson, principalmente na primeira metade do livro, muito embora seja ótima em todo, mas a grande maioria do fandom odiou o prólogo, por isso quem ainda não leu não desanime às primeiras. Em muitos, mas muitos momentos mesmo, vi-me obrigado a andar páginas para trás para compreender o que estava ali a acontecer, se tinha sido eu que não tinha lido bem, se estava meio a dormir ou distraído, mas a narrativa é mesmo complexa e obriga a alguma atenção para não deixar passar pormenores ao lado. Apesar disso, a história é muito boa e não é exagero meu considerar esta uma das melhores estreias literárias no género nos últimos anos. Malazan não deve muito à consistência temporal, como já foi dito pelo próprio autor, mas é uma saga que entra facilmente no top de favoritas de qualquer apaixonado pelo género.

Estive a Ler: A Súbita Aparição de Hope Arden

Eu sou os meus pés nas suas botas pretas enquanto ando pelo hotel, eu sou justiça, eu sou vingança, vai-te foder mundo se pensas que me podes fazer isto, vai-te foder se pensas que eu não sei como ripostar, se pensas que simplesmente me deixarei rolar e morrer, o meu pai olhava assassinos nos olhos, a minha irmã seria capaz de trespassar com um sabre de luz a porra da cabeça do demónio, e eu

Ei Macarena!

O texto seguinte aborda o livro A Súbita Aparição de Hope Arden

A britânica Catherine Webb estreou-se no mundo da literatura aos 14 anos com Mirror Dreams, e com sete romances de fantasia em carteira, enveredou pelo mundo da ficção científica, onde se viria a destacar sob o pseudónimo Claire North. Em 2014, o primeiro romance sob este pseudónimo tornou-se um best-seller. Trata-se de As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, publicado pela Edições Saída de Emergência o ano passado. Em 2015, Claire North publicou Touch e em 2016, The Sudden Appearence of Hope.

A Súbita Aparição de Hope Arden, título da versão portuguesa, traz Claire North novamente para as estantes nacionais, cerca de dez meses após a publicação de As Primeiras Quinze Vidas de Harry August. Mais uma vez, pelas mãos da Saída de Emergência. Com 448 páginas e tradução de Teresa Martins Carvalho, a versão nacional tem edição de Luís Corte Real e pertence à Colecção Bang!, chancela que acolhe o melhor da Ficção Especulativa publicada em português.

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Fonte: http://file770.com/?p=23130

Sempre se ouviu dizer que “primeiro estranha-se e depois entranha-se” e foi isso mesmo o que me aconteceu durante a leitura de A Súbita Aparição de Hope Arden. Comecei esta leitura com o pé atrás; se leram a minha opinião a As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, desta autora, sabem que gostei mas que podia ter sido uma experiência muito, mas muito melhor. Ele tinha todo o potencial para isso, e uma vez mais atraído pelo potencial e pela premissa, pedi este novo livro da autora. O livro trata de uma rapariga que as pessoas se esquecem quando deixam de a ver, não é louco? Pois bem, comecei a ler o livro e achei o início estranho. Primeiro estranhei…

… E depois entranhei.

Fui atirado para uma narrativa sobre beleza e perfeição e uma rapariga que usa o seu dom (ou será maldição?) para roubar joias a personalidades famosas e afins. Pareceu-me algo um pouco superficial e uma perspetiva bem feminina. E depois? Depois mordi o isco e fui puxado para um thriller de tirar o fôlego, um policial cheio de reviravoltas, centrado na questão da tal rapariga que narra a história ser esquecida pelo mundo. O plot é bom, a forma como a história é conduzida incrível, os conhecimentos sobre história, arquitetura e medicina bem agradáveis, mas esqueçam isso tudo porque o que manda neste livro acima de tudo o resto é a escrita da autora. Aos solavancos. Insana. Brilhante. A Súbita Aparição de Hope Arden é um dos melhores livros que já li na vida.

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Capa Saída de Emergência

Hope Arden é uma rapariga de quem o mundo esqueceu. A mãe atravessou a pé o deserto do Sudão a Istambul, até chegar a Inglaterra na caixa de um camião; acabou a pedir esmola. O pai, um polícia local, cuidara dela por uma noite. Alguns anos depois, reencontraram-se e casaram. Hope foi a filha mais velha. A mais nova, Gracie, sofre de graves problemas de saúde. Talvez por isso, a atenção concentrou-se na benjamim da família. Talvez por isso, Hope tenha ficado para trás. Talvez por isso se tenham esquecido dela. Não. Todas as pessoas se esquecem dela. Começou quando fez 16 anos. As pessoas olham para ela, falam com ela, mas se ela se afastar por uns segundos, esquecem-se não só do seu rosto como daquilo que ela disse ou fez. Hope é esquecível.

A Súbita Aparição de Hope Arden é um dos melhores livros que já li na vida.”

Quando mais ninguém se lembrava dela, quando começou a ser vista com surpresa pelos membros da própria família, Hope saiu de casa. Com essa capacidade, facilmente adentrou no mundo do crime. Precisava roubar para sobreviver. Pouco a pouco, tornou-se uma ladra. Esperta, ágil, intocável. O seu calcanhar de Aquiles? As câmaras de vigilância. As pessoas podem esquecer-se, mas os computadores não. Ainda assim, as câmaras de nada valem às autoridades. Podem capturá-la, sempre acabarão por esquecer-se dela.

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Fonte: https://twitter.com/denisewalker_

Hope não é, no entanto, a única pessoa esquecível no mundo. Em tempos, enamorou-se de um rapaz chamado Parker. Possuía a mesma capacidade. Sempre que se encontravam um com o outro, era a primeira vez. Começaram a escrever notas um sobre o outro, diários; começaram a tirar fotografias. A dada altura, acabaram por não voltar a encontrar-se. Hope está agora no Dubai para roubar o diamante Crisálida, que será transportado por Shamma bint Badar, uma descendente real, numa festa de elite. É ali que conhece a milionária Reina bint Badr al Mustakfi, e tornam-se amigas, ainda que Reina não se recorde dela de cada vez que a vê.

É através de Reina que Hope conhece o Perfection. Um aplicativo de beleza que busca a perfeição e tornou-se a tendência do momento. Todas as pessoas querem ser perfeitas, e essa app acumula ou subtrai pontos consoante o estilo de vida dos usuários. Por exemplo, quanto mais fizeres dieta, quanto mais exercício fizeres, quantos mais tratamentos de beleza fizeres, mais pontos acumularás no Perfection. Esquece o fast food e os pequenos pecados da vida. Todas as pessoas podem ter o Perfection, mas parece evidente que só os mais ricos podem alcançar o sucesso com a aplicação.

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Fonte: http://www.telegraph.co.uk/travel/destinations/middle-east/united-arab-emirates/dubai/

O Clube 106 é uma elite privada, composta pelos 106 membros com maior pontuação, granjeados com moradia privada e acesso às melhores festas. O Perfection é criação dos Pereyra-Conroy, uma família riquíssima. Matheus Pereyra-Conroy, o patriarca, morreu, deixando toda a herança aos dois filhos. Filipa foi a mente por detrás do Perfection, mas foi Rafe quem o tornou um instrumento de obsessão. Infeliz por não conseguir ser bonita, derrotada pelas exigências do Perfection, Reina suicida-se. E Hope ganha uma aversão muito pessoal à aplicação e aos seus criadores.

“As pessoas podem esquecer-se, mas os computadores não.”

O roubo do Crisálida é apenas o início desta história. Ao colocar o diamante no mercado negro, Hope é interpelada por duas enigmáticas figuras na net: Byron14 e mugurski71. Ambos competem pela compra da joia, mas as suas intenções parecem abarcar muito mais do que a mera aquisição de um diamante roubado, e o Perfection está no centro de todo esse despique. Antigos amantes em lados opostos da barricada, Byron e Gauguin jogarão com Hope a seu bel-prazer para alcançar as suas intenções. Hope, no entanto, está determinada em ser mais do que um joguete nas suas mãos. E tem um trunfo: nenhum deles se pode lembrar dela.

Paralelamente a esse jogo sinistro que a colocará entre a vida e a morte por várias vezes, Hope tem ainda de lidar com os seus próprios sentimentos. Ela ama Luca Evard, o Inspetor da Interpol que a persegue há anos, mas nem ele se lembra de cada vez que a encontra, nem lhe parece que a quereria caso se lembrasse. Do Dubai a Istambul, de Hong Kong a S. Paulo, de Veneza à Escócia, a luta pela sobrevivência de Hope torna-se uma luta pela sobrevivência humana.

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Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Lord_Byron

O livro é mesmo esta maravilha toda. Mas, como referi acima, foi a escrita da autora, muito mais do que a história, que me deliciou. Tudo bem, irritei-me um pouco no terço inicial do livro com a quantidade de vezes que a palavra “conquanto” foi repetida, e o final não foi tão apoteótico e esclarecedor como eu imaginara, mas não deixa de ser um dos melhores livros que já li. Catherine Webb, Claire North ou como raio te chamas, minha cara, escreves bem que te fartas.

“O plot é bom, a forma como a história é conduzida incrível, os conhecimentos sobre história, arquitetura e medicina bem agradáveis, mas esqueçam isso tudo porque o que manda neste livro acima de tudo o resto é a escrita da autora.”

Somos brindados do início ao fim com revelações sobre o passado da personagem feitas a espaços, através de flashbacks. Conhecemos pormenores bastante interessantes da sua vida, por vezes a meio de cenas de ação. Os capítulos são pequenos, fluídos e entusiásticos, de uma forma muito personalizada. Já tinha gostado da escrita da Claire em As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, mas aqui a autora ultrapassou-se claramente.

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Fonte: https://www.bloomberg.com/news/articles/2013-11-12/wi-fi-networks-shouldnt-become-spy-networks

Também somos granjeados com várias citações de políticos, historiadores, figuras da Antiguidade, curiosidades sobre povos antigos, imensos nomes técnicos sobre anatomia humana e ainda vários trechos de músicas ao longo da narrativa. Os poemas de Lord Byron são um aspeto central da obra, uma vez que uma das personagens refugia a sua identidade no poeta britânico, mas toda a obra é também ela perpassada por outro clássico. Nos momentos mais inusitados, Claire presenteia-nos com Ei, Macarena!, o que me fez rir por mais do que uma vez. A música de Los Del Rio parece estar sempre na cabeça da protagonista / narradora, o que justifica a sua aparição ao longo da narrativa.

Concluindo, leiam este livro. Não sei se posso qualificá-lo como ficção científica, porque se tirarmos o facto de a protagonista ser “esquecível”, trata-se de um thriller policial / de espionagem narrado do ponto de vista do ladrão. E que grande thriller. Acho que a passagem em que se dá uma certa matança é só dos textos mais insanos, brilhantes e velozes que já li.

Avaliação: 10/10

 

 

A Divulgar: Apresentação de “Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe” no S. Jorge

É verdade, é já esta quinta-feira, dia 7 de setembro, que o famoso autor de Vampiros e Dog Mendonça e PizzaBoy, Filipe Melo, apresenta o livro Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe, na sala 2 do Cinema S. Jorge em Lisboa. O livro é uma edição especial da Edições Saída de Emergência, que reúne os melhores contos do icónico autor, ilustrados por 28 artistas nacionais. O evento faz parte da programação do Motelx – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa.

Consulta todas as informações sobre o livro aqui e sobre o Motelx aqui, nos posts anteriores de divulgação. Em nome da Saída de Emergência, considerem-se convidados para esta apresentação, onde poderão maravilhar-se com a obra icónica de Edgar Allan Poe.

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A pergunta impõe-se:
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Quem foi Edgar Allan Poe? Um bardo tocado pelos deuses ou nada mais do que um homem atormentado pela loucura e pobreza e que desapareceu misteriosamente nos últimos dias antes da sua morte?
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As histórias que deixou para trás mostram como o seu génio literário não se detinha perante nada. Abriu novos caminhos de ficção e tornou-se assim pai de histórias de detetives, pioneiro na ficção científica, um mestre do suspense e horror.Reconhecido como uma das vozes mais influentes e inspiradoras do século XIX, a presente edição especial convida-o a apreciar 28 dos melhores contos do autor ilustrados por artistas nacionais, dando a conhecer o legado de Edgar Allan Poe a novas gerações.

Estive a Ler: Os Dragões do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #5

Castro ergueu a cabeça. Virou-se. Ainda hoje me lembro de cada instante daquele momento. Vi-o encher os pulmões de ar e ouvi, através do ressoar que tinha nos ouvidos, o profundo rugido do seu ultraje por alguma coisa ter o desplante de ameaçar o seu filho.

O texto seguinte aborda o livro “Os Dragões do Assassino”, quinto volume da série Saga O Regresso do Assassino

Os Dragões do Assassino compreende a segunda metade do livro Fool’s Fate, terceiro e último volume da trilogia The Tawny Man da autora californiana Robin Hobb, dividida em português em cinco volumes. Publicado originalmente em 2004, a versão portuguesa chegou às livrarias em 2012, pelas mãos das Edições Saída de Emergência, com tradução de Jorge Candeias.

«Os fãs de Hobb não ficarão desapontados com esta nova série.» é a recomendação utilizada pela editora na contracapa, pegando nas palavras do Monroe News-Star, uma publicação popular no Louisiana. De facto, com esta segunda trilogia passada no mundo de FitzCavalaria Visionário, Robin Hobb cimentou o seu papel como primeira-dama do mundo da Fantasia, e as 448 páginas deste volume são evidência da sua inegável qualidade.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/506795764291048011/

Li os 5 volumes da Saga O Regresso do Assassino este ano e ainda me pergunto como o fiz com tanta facilidade e entrega, depois de ter lido a primeira saga de forma tão morosa e amargurada. A verdade é que a Saga do Assassino não é má, nunca o cataloguei como tal, mas a beleza do seu mundo e o alcance de tudo o que ocorreu nesses primeiros livros só são compreendidos e deglutinados nesta segunda sequência. O mundo de The Realm of Elderlings não me maravilhou pela simples razão que pouco de traz de novo ao universo da Fantasia, mas aquilo que Robin Hobb faz nesse mundo tão corriqueiro acabou por encantar-me.

A escrita de Hobb é, sem a menor dúvida, o ingrediente secreto. Sem a forma elegante com que escreve, os estados de alma que consegue transmitir, os dilemas e aceitações do protagonista, esta série dir-me-ia muito pouco. Mas ela transforma personagens triviais em criaturas de carne e osso, cujos desgostos e vibrações conseguimos sentir como se fossem nossos. É a maturidade com que a autora californiana põe a descoberto uma trama simples que a transforma numa série complexa, sentimental, poderosa. Dificilmente encontrarei um autor de fantasia que me faça sentir com tanta profundidade a dureza da vida real e as consequências das escolhas.

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Fonte: http://saidademergencia.com

Neste quinto volume, encontramo-nos na ilha de Aslevjal, onde o príncipe Respeitador está destinado a cortar a cabeça a um dragão e colocá-lo na lareira da narcheska Eliânia das Ilhas Externas, se pretende consumar o casamento que salvará os Seis Ducados de uma nova guerra. No entanto, a tarefa não se adivinha fácil. Não só existe o Hetgurd, o conselho de clãs das Ilhas Externas que não parece muito determinado em permitir que o dragão seja morto, como o próprio dragão de que falam as lendas, Fogojelo, está enterrado debaixo do gelo, e a tarefa de desenterrá-lo pode demorar muito mais tempo do que seria desejável.

“É a maturidade com que a autora californiana põe a descoberto uma trama simples que a transforma numa série complexa, sentimental, poderosa.”

Complicando a situação, o Círculo de Manha do príncipe sente a presença do dragão, o que não só deixa claro que ele está vivo, como também os leva a sentir relutância em matá-lo. As emoções tomam conta de todos e depressa o contingente do príncipe sente-se dividido em relação ao que deve fazer. Também Respeitador partilha das suas dúvidas e descrenças, sendo a mão sempre obstinada de Breu, o conselheiro real, a lembrá-lo dos seus deveres e das consequências que podem advir de uma mudança de planos.

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Fonte: http://www.unboundworlds.com/2016/03/cage-match-2016-round-1-fitzchivalry-farseer-and-nighteyes-vs-prince-caspian-and-reepicheep/

FitzCavalaria Visionário, conhecido pela maioria dos presentes como Tomé Texugo, um mero criado, também sente as suas próprias mágoas e considerações. Mas, acima de tudo o resto, cansaço. Toda a viagem até à ilha foi o responsável por Obtuso, o simplório criado de Breu que, não só se revelou o mais poderoso de entre os presentes na magia do Talento, como revelou-se também intratável durante a travessia dos mares. A sua aversão a barcos e os contínuos enjoos exigiram a intervenção de Urtiga, a filha de Fitz que revelara um especial dom para a arte do Talento através dos sonhos, como de Teio, o Mestre da Manha que possui uma experiência e sensatez difícil de igualar.

No entanto, comer um bolo que Peotre Águapreta, o tio de Eliânia, lhe ofereceu, foi o que realmente o deixou de rastos. O bolo continha casco-de-elfo, uma substância que aplaca o uso de Talento, mas que, naquelas circunstâncias, o deixou completamente inutilizado no uso da magia, mas também com uma especial apetência para falar. Das suas desilusões. Das suas amarguras. Do seu fado inglório.

O seu amigo Bobo, aquele que todos conhecem agora como Dom Dourado, apareceu misteriosamente na ilha, depois dos esforços concertados entre Fitz e Breu para impedirem a sua saída de Torre do Cervo, uma vez que este previra que encontraria em Aslevjal a própria morte. A relação entre Fitz e o Bobo encontra-se, então, num impasse, uma vez que Fitz traíra o seu amigo na tentativa de salvar-lhe a vida. Pouco a pouco, porém, a leitura do seu próprio ponto de vista e o transcorrer dos acontecimentos vem derreter o gelo que se implantara entre ambos.

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Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/30688013-assassin-s-fate

O Homem Negro é um dos mistérios daquela ilha. É visto como uma figura lendária, que aparece esporadicamente e só para aceitar as oferendas que lhe são deixadas. Quando ele não as faz desaparecer, é visto como um sinal de mau agouro. Mas mais terríveis dos que os assomos inesperados dessa figura escura, são as lendas que falam da Mulher Pálida, a profeta que acompanhou Quebal Pancru na liderança das Ilhas Externas durante a Guerra dos Navios Vermelhos, uma figura marginal frequentemente ligada ao ato do Forjamento, a captura emocional de um ser humano que transformara milhares de ilhéus e povos dos Seis Ducados em pouco mais do que criaturas sem valores nem consciência deles, exércitos despojados de qualquer tipo de comiseração durante os anos terríveis da guerra.

Quando Ordem e Enigma desaparecem, cabe a Fitz, ao Bobo e a Obtuso seguirem o seu rasto, mas esse rasto pode conduzi-los às profecias tecidas pelo Bobo e às mais terríveis profundezas de Aslevjal. Como sempre, cabe a Fitz, o Catalisador, operar as mudanças que revolucionarão os destinos do mundo. Mas, paralelamente a isso, há um dragão para ser desenterrado, e um outro, Tintaglia, a fêmea de Vilamonte, tem ainda uma palavra a dizer num despique que, de uma forma ou de outra, terminará em tragédia para todos.

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Fonte: https://vlac.deviantart.com/art/Fool-s-Fate-126177501

Robin Hobb deixou para este volume as maiores emoções da saga, mas, no entanto, acabou por não ser o meu volume preferido. Os Dragões do Assassino oferece-nos uma imensidão de acontecimentos, apresentou-nos vilões, dragões, batalhas, mortes importantes, revelações, reencontros e finais dignos e fidedignos para os personagens que vínhamos a acompanhar, demorei uma única semana para o devorar e, no entanto, coloco este livro um furinho abaixo dos anteriores. E, para ser sincero, não sei explicar bem porquê.

“Talvez aquilo que me fez não gostar tanto deste volume como dos anteriores foram as passagens com a Mulher Pálida.”

Adorei toda a intervenção de Castro neste volume. O homem que criara Fitz veio a ter um papel de grande importância nesta trama, e foi, ao longo das duas sagas, um dos meus personagens preferidos. Do início ao fim, apreciei tudo o que a autora lhe reservou. Deliciei-me ao ler as passagens de Paciência e Renda, e pouco me recordava delas da primeira saga; de qualquer jeito, nunca me pareceram tão maravilhosas. Breu continuou a ser Breu, com todas as tonalidades entre a sensatez de um velho conselheiro e a rebeldia de um velho senil. Respeitador e Eliânia, que belo casal. Que personagens.

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Fonte: https://vlac.deviantart.com/art/The-Narcheska-and-the-Prince-138334852

Sempre preferi que Fitz ficasse com Kettricken do que com Moli, a quem nunca achei a menor graça. Ainda assim, toda a forma como a história foi contada e o final que Hobb delineou, o modo como o contou, foi de mestre. Adorei tudo, desde os acontecimentos com os dragões, com Castro, com o Bobo, o regresso a Cervo, aos finais determinados pela autora. Gostei de Enigma, de Veloz, de Teio, dos filhos de Moli, dos dragões… Perguntem-me então por que não gostei tanto deste volume como dos anteriores?

Talvez aquilo que me fez não gostar tanto deste volume como dos anteriores foram as passagens com a Mulher Pálida. Achei uma personagem bastante cliché, como grande vilã, com propósitos algo óbvios e um tom algo decadente. Sinceramente não imagino outra forma de a qualificar, mas esperava algum volte-face em relação à sua identidade ou uma passagem menos materializada na trama. De qualquer forma, gostei da velocidade com que os acontecimentos em volta dela ocorreram e da forma como foram ultrapassados.

“Robin Hobb tornou-se uma das minhas autoras preferidas e a sua escrita maravilhou-me em toda sua extensão.”

Em jeito de balanço de saga, só posso tecer os mais rasgados elogios. Robin Hobb tornou-se uma das minhas autoras preferidas e a sua escrita maravilhou-me em toda sua extensão. Hobb ofereceu-nos uma história cheia de dilemas e debates morais, dúvidas e escolhas, mas acima de tudo ofereceu-nos um personagem plausível, atolado em problemas, que mostrou estar bem mais maduro e sensato do que o havíamos conhecido na primeira série. Nunca esperei que tivesse de passar por duas perdas tão duras durante esta saga, mas ambas fizeram-no crescer e resolver algumas das suas indecisões. Porque por vezes, quando demoramos muito tempo a escolher, a vida escolhe por nós.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Estive a Ler: Os Mares do Destino, Elric #3

E ouviu qualquer coisa, uma coisa que não eram os sussurros taciturnos do mar: uma chiadeira regular, como a que um homem faz ao andar quando veste couro rígido. A mão direita desceu-lhe à anca esquerda e à espada que daí pendia. Deu uma volta, olhando em todas as direcções em busca da origem do ruído, mas a névoa distorcia-o. Podia vir de qualquer parte.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Os Mares do Destino”, terceiro volume da série Elric

O terceiro volume de Elric chegou às prateleiras nacionais em 2009, pelas mãos da Edições Saída de Emergência. Foram, porém, nos distantes anos de 1976 que o original conheceu a luz do dia. Os Mares do Destino, do famigerado autor britânico Michael Moorcock, foi o segundo volume da saga, ainda que a edição portuguesa tenha decidido respeitar a ordem cronológica da série, transformando-o na terceira publicação em terras nacionais e, na verdade, o último a ser publicado por cá.

Os Mares do Destino é um livro de 208 páginas, com edição de Luís Corte Real e tradução de Luís Rodrigues. O escritor, Michael Moorcock, é um dos símbolos da literatura fantástica, autor de uma centena de livros e vencedor de diversos prémios literários. Para além de escritor, Moorcock é editor de revistas, politicamente anarquista, músico controverso e cronista respeitado. É, também, um dos mais influentes autores de Fantasia vivos.

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Michael Moorcock ( Fonte: http://avclub.com )

Elric é o imperador albino de Melniboné, o herdeiro de um império outrora ufano e glorioso, conhecido pelo caráter soberbo e cruel dos seus habitantes. Revelou-se, porém, um governante mais benévolo que os antecessores, mas também mais pensativo e preocupado. A inveja do primo Yyrkoon levou-o a estabelecer um pacto com o Duque Arioch, uma divindade do Caos, que o conduziu a uma espada sugadora de almas, a terrível Tormentífera. Obstinado em conhecer os Reinos Jovens, livres do domínio de Melniboné, para perceber a razão do declínio da sua nação e impedir a sua queda, Elric deixa a terra natal e lança-se numa aventura sem igual.

Se A Fortaleza da Pérola levou Elric pelo mundo dos sonhos, Os Mares do Destino convida-o a enlear-se numa viagem entre mundos e tempos, de uma forma mais bem conseguida do que eu augurava. A prosa de Moorcock é maravilhosa, por vezes demasiado detalhada, mas sem perder flexibilidade ou fluidez narrativa. Os acontecimentos sucedem-se em catadupa, sem serem explorados ad nauseam. Por muito que Moorcock nos leve por uma fantasia mais tradicional (reparem há quantos anos o livro foi escrito!), somos presenteados por uma narrativa misteriosa em que acabamos por ser sempre surpreendidos. Pelo menos, eu fui.

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Capa Saída de Emergência ( Fonte: http://fnac.pt )

Dividido em quatro partes, Os Mares do Destino apresenta-nos o conto “A Canção da Espada Negra”, que serve de introdução ao livro. Elric procura a cidade de Xanardwys, mas o que encontra é um cenário terrivelmente apocalíptico, uma verdadeira chuva de anjos. São, na verdade, os Senhores do Caos, que parecem ter perdido uma batalha celestial contra os seus arqui-inimigos, os Senhores da Lei, enviados da Singularidade. De entre os anjos cadentes, Elric encontra o seu padroeiro, Arioch, que parece demasiado frágil para lhe dar atenção.

“A prosa de Moorcock é maravilhosa, por vezes demasiado detalhada, mas sem perder flexibilidade ou fluidez narrativa.”

Nessa constatação, Elric encontra um cavaleiro chamado Renark von Bek, um conde que parece ter vindo do nosso mundo. É a primeira evidência da viagem que Elric iria empreender pelos caminhos do Multiverso. Elric e Renark encontram um navio, na qual um grupo de crianças velam o corpo de um feiticeiro moribundo chamado Patrius, e um capitão de dúbias intenções, Quelch, alerta-os para a viagem que os espera: uma viagem entre mundos e entre tempos distantes. Após a introdução ao livro, seguem-se três secções intituladas “Rumo ao Futuro”, “Rumo ao Presente” e “Rumo ao Passado”.

Na primeira, Elric encontra-se perdido, depois de fugir de Pikarayd, o mais oriental dos Reinos Jovens. Sem cavalo e a entrar em desespero, sem um caminho visível que o conduzisse às Ilhas das Cidades Púrpuras, o albino depara-se com um navio de grandes dimensões. Algo no seu íntimo, porém, segreda-lhe que algo ali está errado. Aparte o capitão do navio ser cego e o timoneiro ser o seu irmão-gémeo, alguns dos tripulantes da embarcação parecem ter algo das feições do próprio Elric nos seus rostos. Erekose, Corum e Hawkmoon são os três homens, a que se junta Elric. O capitão chama-os Os Quatro, e destaca-os para se infiltrarem numa cidade terrível e destruir duas criaturas poderosas chamadas Agak e Gagak.

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Elric (Fonte: http://geek.com )

Em “Rumo ao Presente”, Elric é obrigado a tomar uma decisão sobre o caminho a seguir. O capitão oferece-lhe uma escolha, entre ficar numa ilha desolada e procurar o Portal Carmim que o pode conduzir a casa, ou seguir viagem com ele. Uma viagem que não terá retorno. Elric decide então procurar o caminho de casa, mas a ilha terrível que o espera contém várias surpresas, entre a quais um sol azul e um exército de saqueadores vindos de várias áreas e períodos do seu mundo. Com Tormentífera em punho, Elric não encontra dificuldades em enfrentá-los, muito embora seja a ação de Smiorgan Careca, um conde das Cidades Púrpuras, a influenciar o rumo dos acontecimentos.

Na última parte, “Rumo ao Passado”, Elric regressa ao seu mundo, onde é salvo pelo navio do Duque Avan Astran da Velha Hrolmar, um aventureiro de renome. Astran mostra a Elric um mapa de R’lin K’ren A’a, a mítica terra de onde, se diz, o povo de Melniboné teve origem, antes de fundar o seu império na Ilha dos Dragões. Elric aceita acompanhá-lo e provar a existência de tal civilização, na tentativa de obter respostas para os mistérios que o perseguem, mas a morte e a desolação são bem mais constantes e reveladores.

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Elric (Fonte: http://tapiocamecanica.com.br-os-quadrinhos-que-o-tempo-esqueceu-29/ )

Com exceção de Elric, os restantes personagens não foram muito desenvolvidos ou explorados, muito embora a prosa de Moorcock nos consiga deixar uma imagem nítida e peculiar sobre eles. Muitas vezes, passamos pelas histórias e deixamo-las com mais perguntas do que respostas, e ainda assim elas sucedem-se como peças de um puzzle que devemos compreender como um todo. São as perguntas e as dicotomias de Elric a verdadeira essência deste livro, que tanto podem frustrar a experiência de leitura como fazer-nos aceitá-la como aquilo que ele tem para oferecer.

“Elric decide então procurar o caminho de casa, mas a ilha terrível que o espera contém várias surpresas, entre a quais um sol azul e um exército de saqueadores vindos de várias áreas e períodos do seu mundo.”

As demandas e as aventuras de Elric não são impressionantes ou originais, talvez por tantos terem sido os autores que se inspiraram na obra de Moorcock, mas garanto que transportam consigo o melhor da tradição de Espada e Feitiçaria. Os vários enigmas, assim como a sensação de continuidade, em que nenhuma trama consegue ficar definitivamente encerrada na mente do personagem-título, oferecem uma certa mística e sentimento de dúvida que me agradou.

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Elric (Fonte: http://foroparalelo.com/general/elric-melnibone-lectores-fantasia-heroica-36313/ )

De certa forma, pode-se considerar que este livro está dividido em contos, todos eles permeados por uma história maior, que se vai interligando à medida que a narrativa avança. As relações de Elric com a sua génese, com a espada Tormentífera e com o seu patrono Arioch são desenvolvidas de forma gradual e com um cuidado notável. A escrita de Moorcock cativa, mas é sobretudo a forma como ele conta estas histórias oníricas que me faz gostar delas.

“Muitas vezes, passamos pelas histórias e deixamo-las com mais perguntas do que respostas, e ainda assim elas sucedem-se como peças de um puzzle que devemos compreender como um todo.”

Elric de Melniboné é um personagem digno de se ler, não só pela sua estrutura mental, uma inconstância de valores que se materializa num rol de charadas sem resposta, como por aquilo que ela suscita. Faz-nos pensar sobre as nossas origens, sobre aquilo que julgamos certo, sobre até que ponto a nossa integridade está ligada à educação que conhecemos. Os Mares do Destino é uma bela experiência de leitura, para quem embarcar nele sem esperar uma narrativa sólida, com princípio, meio e fim. Ler Michael Moorcock é ler o melhor do género de Espada e Feitiçaria.

Avaliação: 7/10

Elric (Saída de Emergência):

#1 Príncipe dos Dragões

#2 A Fortaleza da Pérola

#3 Os Mares do Destino

Estive a Ler: Os Despojados

O ar da loja era doce e quente, como se todos os perfumes da primavera estivessem ali aglomerados. Shevek ficou ali, entre os expositores de pequenos luxos bonitos, alto, pesado, sonhador, como os animais de grande porte nos seus cercados, os carneiros e os touros estupefactos pelo nostálgico calor da primavera.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro Os Despojados

Chegou aos escaparates nacionais a obra Os Despojados (1974), da autora norte-americana Ursula K. Le Guin. Este livro pertence ao Ciclo Hainish, uma série de Ficção Científica que propõe uma reflexão sobre o nosso modo de vida e sobre a forma como os sistemas políticos e sociais foram instituídos. Pelas mãos da Edições Saída de Emergência, a edição nacional de The Dispossessed tem tradução de Fernanda Semedo e possui uma Carta da Editora escrita por Safaa Dib.

Autora muito premiada e nome inconfundível no género da Ficção Especulativa, Ursula K. Le Guin tem mais de 22 romances publicados, para além de várias coletâneas de contos, livros YA, poesia e ensaios. Foi ao explorar o sentido cívico do Homem e as questões de identidade social nos seus livros de FC que Ursula ganhou maior expressão a partir dos anos 70. A viver em Portland, a autora foi distinguida em 2014 com a medalha do National Book Foundation pelo seu contributo para as Letras Americanas.

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Fonte: http://www.yesmagazine.org

Ursula K. Le Guin é um monstro da Ficção Especulativa e a sua prosa é qualquer coisa que me fascina sempre que leio um livro dela. A maturidade literária da escritora é fenomenal e Os Despojados é um claro exemplo dessa experiência. A par de uma escrita elegante, maleável e bem temperada, Ursula brinda-nos com conhecimentos de física, com a sua própria visão sobre temas de profundo caráter científico e, acima de tudo, temas sociais. Aquilo que somos, a forma como somos escalados pela sociedade e como esta funciona ou não são temas debatidos de forma minuciosa pela autora norte-americana.

Os Despojados é um livro dividido em 13 capítulos, que se alternam entre o passado e o presente. O protagonista é Shevek, um físico natural de Anarres que é convidado a visitar o planeta Urras, o que por si só consiste numa inovação para ambas as civilizações. Anarres é visto pelos urrastis como uma lua, lugar que sabem ser habitado mas que nem por isso guardam grande interesse em visitar.

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Capa Saída de Emergência

Enquanto Urras é uma sociedade capitalista, estandardizada e organizada segundo padrões previamente estabelecidos, Anarres é um mundo muito mais livre, onde nem o dinheiro nem o altruísmo possuem valor, e as pessoas seguem determinados comportamentos porque sentem ser a coisa certa a fazer. Não há prisões nem castigos, porque aquilo que realmente os condena é a opinião do vizinho. Os anarrestis regem-se pela opinião dos outros sobre si, que é algo de muito importante na sua sociedade.

Shevek foi abandonado pela mãe, Rulag, aos dois anos de idade, sendo educado pelo pai. A cultura anarresti aplaude a união entre o homem e a mulher, ainda que não crie qualquer oposição à fragmentação das famílias quando o trabalho, determinado pela organização chamada Divtrab, assim o exige. As mulheres são vistas como iguais, tendo semelhante direito ao trabalho e às posições sociais que lhe são inerentes, algo que já não acontece na cultura de Urras. Como tal, Shevek fez parceria com Takver e com ela teve dois filhos, Sadik e Pilun, ainda que tenha sido obrigado, por mais de uma vez, a separar-se deles. É um personagem bastante constante, agregado à sua cultura e aos credos odonianos. Porém, não pára de os questionar, e de se questionar a si mesmo.

“Ursula brinda-nos com conhecimentos de física, com a sua própria visão sobre temas de profundo caráter científico e, acima de tudo, temas sociais.”

Odo é uma figura severamente respeitada em Anarres, uma mulher que terá estabelecido a ordem e criado uma religião em seu redor. Ao aceitar o convite que lhe foi endereçado, viajando para Urras para desenvolver os seus estudos de física, Shevek sabe que terá de lidar com uma cultura mais sofisticada, para quem Odo significa pouco mais que uma filósofa lunar, que terá envolvido toda a civilização anarresti com as suas ideologias. Shevek terá também que se despojar do právico, o seu idioma natal, e habituar-se ao iótico, uma língua que foi obrigado a aprender no âmbito dos seus estudos.

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Fonte: http://www.goodreads.com/book/show/13651.The_Dispossessed

A inserção de Shevek em Urras ocorre de forma rápida e processual. Se, por vezes, a sua adaptação parece transcorrer de maneira mais natural e de assimilação contínua, por outras lembra um mergulho abrupto, tais as diferenças entre as duas sociedades. Em Anarres, as pessoas são cabeludas. Em Urras, até as mulheres são carecas. Em Anarres, as mulheres podem trabalhar em qualquer ofício. Em Urras, são reservadas a tarefas do lar e a prazeres mundanos, e não parecem sentir qualquer infelicidade por isso.

O Inferno dos anarrestis é a própria Urras, um mundo capitalista onde todos tentam aproveitar-se uns dos outros para fins comerciais ou políticos, e Shevek descobre, em pouco tempo, que aqueles que o convidaram para ali estar apenas o fizeram porque acreditam que os seus conhecimentos lhes podem ser úteis. Do mesmo jeito, Shevek percebe que os círculos que lhe são apresentados reservam-se às classes altas da sociedade urrasti. Onde estão as pessoas pobres? Porque o tentam manter longe delas?

Este livro agradou-me, tanto pela premissa, pela história em si, como pela escrita da autora, que eu já tinha o gosto de conhecer. Mas houve algo neste livro que não funcionou para mim. Mea Culpa da minha falta de dedução lógica, só percebi que o livro ia saltando entre passado e presente quase a meio do livro, e em vários momentos perguntei-me o que personagens do passado de Shevek estavam a fazer em Urras, quando a ação se passava em Anarres. Isso, confesso, criou alguma confusão na minha cabeça.

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Fonte: http://www.dialecticmusic.com/2015/10/15/books-the-dispossessed

Os Despojados, é, no entanto, um livro brilhante em detalhes. A instrução de Shevek é incrível, como incríveis são os conhecimentos de física que a autora revela ou parece revelar, as questões que ela interpõe entre o personagem e esses mesmos conhecimentos, aquilo que nós pensamos de nós mesmos e da sociedade onde vivemos. É um livro para refletir, acima de tudo, sobre a nossa identidade coletiva. Não esperem momentos de grande ação. Algo que, para mim, não funcionou muito bem neste livro, foram os vários momentos de conversas e de desenvolvimento entre personagens no passado do personagem que tornaram estes mundos reais e críveis, mas que acabaram por tornar o livro aborrecido. Gostei do livro, mas sim, é um livro aborrecido de se ler.

“Shevek descobre, em pouco tempo, que aqueles que o convidaram para ali estar apenas o fizeram porque acreditam que os seus conhecimentos lhes podem ser úteis.”

Shevek acaba por ser arrastado para um mundo em que ele não acredita, um mundo que ele não tolera. É um personagem que vive em permanente arrastamento, usando oportunidades que lhe são dadas, sabendo que estas não são mais que imposições. Ele é explorado, de certa forma, por todos aqueles que o rodeiam, seja em Anarres ou em Urras, e a única coisa que ele sabe que deseja, realmente, é estar em paz com a sua família. Por aquilo que ele acredita que é o seu dever, porém, até isso relega para segundo plano. Shevek deixa-se levar permanentemente pelas circunstâncias, empurrado pelas necessidades prementes. É um personagem bem desenvolvido, mas demasiado frugal, demasiado mole, sem grandes atrativos que levem o leitor a gostar dele.

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Fonte: http://www.booksonthewall.com/blog/ursula-le-guin-quote-dispossessed

As culturas de Urras e Anarres são o que de mais rico a autora nos dá neste livro. Os planetas são a antítese um do outro, mas ainda assim existem em ambos os casos coisas boas e más, preconceitos, intrigas, desigualdades sociais, fome e presunção de legitimidade. Podemos achar que viver num destes planetas é melhor do que viver no outro, mas a autora dá-nos a capacidade de questionar se seria mesmo isso o que preferiríamos. Acho que depende muito do modo de ser de cada um, da maneira de pensar, da educação, daquilo em que acreditamos. Se o capitalismo não é um sistema social perfeito, também a anarquia não o é. Podemos acreditar que há mundos melhores para se viver, ou que podemos tornar o mundo em que vivemos num mundo melhor.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 6/10

A Divulgar: “Os Melhores Contos de H. P. Lovecraft #6” e “A Súbita Aparição de Hope Arden” pela Saída de Emergência

Agosto é mês de férias para muitos, mas a nossa editora preferida não tem tempo para pausas. É já esta sexta-feira que são lançados mais dois maravilhosos livros pelas mãos da Edições Saída de Emergência. Os Melhores Contos de H. P. Lovecraft são já uma tradição da editora, sendo este o sexto volume, recheado de inéditos na língua de Camões. Lovecraft é um dos pioneiros do género de terror, criador de uma mitologia original que serviu de inspiração para milhares de autores em todo o mundo, como Stephen King, e uma figura tão ilustre como Edgar Allan Poe ou Robert E. Howard. Mais uma coletânea a não perder.

A Súbita Aparição de Hope Arden é o novo livro de Claire North, a autora de As Primeiras Quinze Vidas de Harry August. Este volume parece vincar a tendência da autora britânica em falar-nos de personagens inusitados. Se o personagem do primeiro livro voltava a nascer depois de morto e recordava-se de tudo o que passara na vida anterior, a personagem central deste livro é uma rapariga que, faça o que fizer, desaparece da memória daqueles que a vêm ou com quem convive. Uma premissa que tem pano para mangas e me parece muito atrativa. Vais de férias e ainda não sabes o que ler? Deixo-te aqui duas ótimas alternativas. De realçar que, na compra do livro de Claire North pelo site da editora, receberás ainda como oferta o livro A Rainha Vermelha de Victoria Aveyard, e na compra do livro de Lovecraft, ganharás o primeiro volume da coleção.

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Chancela: Saida de Emergência
Coleção: BANG
Saga/Série: Coleção Lovecraft  Nº: 6
Data 1ª Edição: 04/08/2017
ISBN: LOVECRAFTOFERTA
Nº de Páginas: 608
Dimensões: [160×230]mm
Encadernação: Capa Mole
SINOPSE:

Este produto tem como oferta o livro Os Melhores Contos de H.P. Lovecraft vol.1

O mestre do horror clássico está de volta com contos que ajudaram a moldar a definição de horror na literatura. Com tradução do Prof. José Manuel Lopes, este é mais um volume que ficará para a história do género em Portugal.
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Chancela: Saida de Emergência
Data 1ª Edição: 04/08/2017
ISBN: HOPEOFERTA
Nº de Páginas: 800
Dimensões: [160×230]mm
Encadernação: Capa Mole
SINOPSE:

Este produto tem como oferta o livro Rainha Vermelha

O meu nome é Hope Arden, sou a rapariga de quem ninguém se lembra. Primeiro esquecem o meu rosto, depois a minha voz e, por fim, as consequências dos meus atos. Desapareço da memória sem deixar rasto.

Começou quando tinha 16 anos, um momento de cada vez. O meu pai esqueceu-se de me levar à escola, um professor esqueceu-se que eu era sua aluna, a minha mãe colocou mesa para três, em vez de quatro. Um amigo olhou para mim e só viu uma estranha.

Por mais que eu tente, por mais pessoas que magoe ou crimes que cometa, nunca se lembram de mim. E isso torna-me única… e particularmente perigosa.

Esta é a história de Hope Arden, a rapariga que todos esqueceram.
Uma saga de amor, esperança, desespero e ânsia de viver o momento e deixar uma marca na vida.

Estive a Ler: A Jornada do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #4

Perguntei brevemente a mim próprio se os súbitos planos para a partida teriam alguma coisa a ver com a cena noturna que presenciara, mas depois vi a libertação de uma ave que levava a notícia da nossa partida e decidi que as novas nos teriam sem dúvida sido trazidas pelas mesmas asas.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Jornada do Assassino”, quarto volume da série Saga O Regresso do Assassino

O livro Fool’s Fate é o último da trilogia The Tawny Man, da autora de fantasia Robin Hobb. Em Portugal foi dividido em dois volumes, tratando-se este livro da sua primeira metade. Lançado em 2012 pela Edições Saída de Emergência, com tradução de Jorge Candeias, A Jornada do Assassino é o quarto volume da versão em português da saga intitulada O Regresso do Assassino.

Licenciada em Comunicação pela Universidade de Denver, a autora californiana Margaret Ogden é autora de diversos livros de fantasia contemporânea sob o pseudónimo Megan Lindholm, dedicando-se à fantasia épica com o nome Robin Hobb. Após alguns anos a viver no Alasca, reside atualmente em Tacoma, Washington.

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Fogojelo (Fonte: lollo.deviantart.com)

Os preparativos para a viagem

Para bem dos Seis Ducados, o Príncipe Respeitador deve contrair matrimónio com a princesa Eliânia, a narcheska das Ilhas Externas. Um falhanço no enlace pode conduzir os povos a uma guerra tão letal quanto foi a Guerra dos Navios Vermelhos. Todavia, uma ofensa do príncipe levou a narcheska e erguer-lhe um desafio. Para se casar com ela, deve entregar-lhe a cabeça de uma figura lendária, o dragão Fogojelo, enterrado na ilha de Aslevjal. A Jornada do Assassino começa com os preparativos para a viagem.

FitzCavalaria, sob o disfarce de Tomé Texugo, prossegue a sua função como Mestre do Talento do Príncipe. Claro está, tanto ele como o seu mentor Breu ou o atrasado Obtuso irão participar na jornada do príncipe, uma vez que são o seu Círculo de Talento, peça provavelmente fundamental na tarefa de matar o dragão. Quem também irá acompanhá-los é o Círculo de Manha de Respeitador. Para além de dotado na magia da nobreza, o Talento, o Príncipe Respeitador é também Manhoso, precisando exercitar-se na magia dos animais.

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(Fonte: starvingdesigner.blogspot.com)

O que preocupa Fitz é, acima de tudo, a profecia do Bobo. O seu velho amigo, que dá agora pelo nome de Dom Dourado, parece gastar fortunas ao jogo, apenas para se ver livre de todo o seu pecúlio. Afinal, ele profetizou que iria morrer na demanda para Aslevjal, de modo a conservar o dragão vivo e proporcionar o encontro entre Fogojelo e Tintaglia, o dragão fêmea dos Ermos Chuvosos, e garantir a sua prole. Enquanto Fitz parece bastante preocupado com a ideia de ver o amigo morrer, Breu está incomodado com a ideia do Bobo em salvar o dragão, podendo com isso arruinar os planos da Rainha.

Os temores de Breu e Fitz unem-se numa concordância: o Bobo não deve partir de Torre do Cervo. Enquanto ganha coragem para resolver velhas querelas e deixar o destino do filho adoptivo, Zar, entregue a ele mesmo, Fitz tem ainda um problema a resolver. Ele descobre que Veloz, o filho de Castro, o homem que o criou, com Moli, a mulher que sempre amou, está em Torre do Cervo para servir a Rainha e treinar a Manha, não com o aval dos pais, mas por sua própria conta e risco.

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Bobo (vlac.deviantar.com)

Aterrorizado com o desassossego dos pais para com o desaparecimento de Veloz, Fitz contacta Urtiga, a sua filha, criada por Castro como dele, dando-lhe conta de que o irmão está em segurança e que em breve estará de regresso a casa. De facto, Fitz manda-o embora, quase ao mesmo tempo que descobre algo inquietante: Teio, o Mestre da Manha, vinculado a uma gaivota chamada Risca, sabe quem ele é. FitzCavalaria Visionário, o herdeiro bastardo de Cavalaria. O lendário Bastardo Manhoso.

Breu consegue impedir que o Bobo viaje com o grupo para as Ilhas Externas. Através das suas influências, o conselheiro da Rainha faz com que o Bobo seja feito prisioneiro, pelo menos o tempo suficiente até zarparem e estarem longe e em segurança. Apesar de saber que não podia deixá-lo viajar consigo, sabendo que ele iria morrer, Fitz não se sente confortável com aquilo, pesando-lhe a consciência. A viagem para as Ilhas Externas é morosa e terrível, muito por culpa de Obtuso. Fitz é destacado para o acompanhar, o que se revela uma tarefa árdua. O jovem está sempre enjoado e a vomitar, e só quer voltar para casa.

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Fitz e o Bobo (Fonte: foolsbeloved.tumblr.com)

Apenas a ajuda de Teio socorre Fitz do seu calvário. O homem parece dotado na arte de acalmar e a forma como lida com as pessoas fá-lo lembrar do modo como Castro lidava com os animais, na sua infância. Também Urtiga, através dos sonhos, consegue acalmar Obtuso e minimizar o seu sofrimento. E é nos sonhos que Fitz é surpreendido pelo dragão Tintaglia, que tenta desesperadamente saber informações sobre Fogojelo e se é mesmo verdade haver outro dragão, um dragão vivo e capaz de lhe servir como parceiro.

Fitz descobre que Veloz desobedeceu à sua instrução e não voltou para os pais, integrando a frota e o Círculo de Manha do príncipe. Através de Urtiga, informa Castro de que o seu filho está com ele e em segurança, sabendo que, ao fazê-lo, o informa também de quem é e que está vivo. As repercussões de tal revelação podem fazer colapsar a relação de Castro com Moli, mas Fitz desconfia que essa relação está há muito puída.

A instabilidade de Obtuso é uma constante e Fitz martiriza-se por obrigá-lo a continuar, mesmo sabendo que ele é o mais poderoso de entre eles na arte do Talento. Vítimas de comentários trocistas e da volatilidade dos homens, chegam às Ilhas Externas, onde o Hetgurd, um concílio de clãs, deixa claro que, qualquer que seja o resultado da caça ao dragão, poderão haver conflitos prejudiciais para todos. Peotre Águapreta, o tio de Eliânia, rouba-os ao concílio para os levar até à narcheska. Fitz percebe que ela está mais adulta do que a conheceram em Torre do Cervo, como também percebe que o desprezo entre ela e o príncipe se transformou em algo, que pode muito bem resultar em amor.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Os poderes do Assassino tornaram-no uma lenda.
Mas quando ensinar o herdeiro a usá-los, ficará o reino mais seguro ou irremediavelmente perdido?
Depois do desafio lançado ao Príncipe Respeitador pela narcheska das Ilhas Externas, só lhe resta embarcar para o país de Eliânia em busca do dragão de Aslejval que tanto pode existir como não passar de uma lenda antiga.
Fitz, o mais famoso e temido assassino do reino, irá com ele. Mas a partida do herdeiro ao trono dos Seis Ducados para uma atribulada viagem marítima até uma terra de antepassados e inimigos não é algo que se faça de ânimo leve.
Que desafios irão ter de enfrentar os nossos heróis? As magias que ambos manejam imperfeitamente, serão uma ajuda ou um empecilho?
E o que acontecerá aos Seis Ducados se o herdeiro desaparecer
para sempre nessa terra misteriosa e distante?

OPINIÃO:

A leitura deste livro foi deliciosa. Atrevo-me a dizer que foi “só” o melhor que já li este ano. Robin Hobb supera-se, livro após livro, e só não dou este A Jornada do Assassino como o melhor livro que já li graças a um obstáculo chamado precedentes. Falta-lhe a excentricidade de Scott Lynch e a paixão visceral de George R. R. Martin, mas ainda assim a escrita dela é de uma candura, de uma maleabilidade, de um encanto, de me deixar com o queixo caído. Robin Hobb conseguiu, nesta segunda série dedicada a FitzCavalaria, tornar-se uma das minhas autoras favoritas.

O que dizer das relações que ela cria? Cada personagem é de um maravilhamento fantástico, estejamos a falar de Fitz, Bobo, Obtuso, Breu, Respeitador ou Eliânia. Até mesmo a personagens muito mais secundários como Enigma ou Berbigão a autora consegue dar uma humanidade palpável. Fitz é o cúmulo de toda a sua grandiosidade como contadora de histórias. Sentimos cada desilusão, cada nó no estômago, cada linha de relacionamento daquele personagem. E é impossível não adorá-lo, mesmo quando ele erra, mesmo quando ele se escuda de um orgulho desnecessário. É uma personagem admirável.

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Cenas de Fool’s Fate (Fonte: ginger-snuffkin.deviantar.com)

A história ganhou mais fôlego e mais potencial com a saída para as Ilhas Externas. Esta jornada é uma brisa de ar fresco na narrativa e fica a sensação de que tudo pode acontecer para os nossos protagonistas. Eles estão todos ali. E mesmo com os personagens que não vemos, como Moli, Castro ou Kettricken, sentimos o que está a acontecer com eles, através das informações que chegam ao narrador. Desde que li As Crónicas de Gelo e Fogo que não me sentia tão viciado numa série literária. Acabo este livro com vontade de devorar o próximo.

“Fitz é o cúmulo de toda a sua grandiosidade como contadora de histórias. Sentimos cada desilusão, cada nó no estômago, cada linha de relacionamento daquele personagem.”

Robin Hobb não se reserva a plot-twists. Não lhe basta fazer variações de rumo narrativo, coser linhas de relacionamentos genuínas e maravilhosas, e fazer evoluir as personalidades dos personagens. Ela também cria surpresas. E quantas. A autora consegue a proeza de contar uma história dedinho a dedinho, correndo o risco de incorrer numa narração lenta, e fazer-nos sempre tropeçar em surpresas quando menos esperamos. Até as imensas páginas de enjoos marítimos de Obtuso conseguiram agradar-me. Senti vontade que o livro não acabasse, o que é muito raro de acontecer.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Especial: Quem Ainda Não Leu Brandon Sanderson?

É muito difícil encontrar um fã de ficção fantástica que não tenha lido, ou pelo menos ouvido falar de Brandon Sanderson. As suas obras de fantasia estão publicadas pelo mundo inteiro, o autor escreve com uma rapidez notável e uma legião de fãs segue atentamente todos os seus passos. Dono de uma relação com o público pautada pela acessibilidade e simpatia, Brandon tem tanta facilidade para explicar ao mundo as suas ideias e processos criativos, como para colocá-los em prática. O autor esteve em novembro em Portugal, a convite da Edições Saída de Emergência, editora responsável pela publicação da saga Mistborn – Nascida das Brumas.

O seu ritmo de publicação parece imparável, de tal modo que os leitores chegam a sentir dificuldades em acompanhá-lo. Através do site de Brandon, é possível seguir a progressão do seu trabalho, saber em que eventos o autor estará presente e até ler gratuitamente um livro, Warbreaker. O autor escreve tanto para adultos como para jovens, mas pode-se dizer que redefiniu toda a conceção de fantasia através das 3 Leis que canonizou como guia para todo o bom escritor de fantástico.

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Brandon Sanderson (Fonte: sltrib.com)

Quem é Brandon Sanderson?

Natural do Nebraska, Brandon Sanderson (19 de dezembro de 1975) vive atualmente em American Fork, no Utah. Concluiu o mestrado de escrita criativa em 2005 pela Universidade de Brigham, onde trabalhou numa revista de ficção especulativa, e no ano seguinte casou-se com Emily Bushman, de quem tem dois filhos. De ideologia Mórmon, Brandon foi missionário em Seul, na Coreia do Sul. Foi ao ser escolhido por Harriet McDougal, viúva do escritor Robert Jordan, para concluir a série épica do esposo, A Roda do Tempo, que Brandon Sanderson ganhou reconhecimento mundial. Daí em diante, a sua popularidade cresceu a olhos vistos, sendo difícil não encontrar um livro seu em qualquer grande superfície livreira.

Elantris foi o primeiro livro que publicou, mas foi com a trilogia Mistborn que o seu sucesso venceu muralhas. A história de uma menina que vence um déspota tirano e percebe que cometeu um erro grave ao fazê-lo conquistou adeptos em todo o mundo, mas esses seriam apenas os primeiros passos na rica trajetória de êxitos de Brandon. Mistborn transformou-se não em uma, mas em três trilogias, com a última por publicar, mas é com The Stormlight Archive que Sanderson parece ter quebrado todos os paradigmas e conquistado definitivamente o amor do público.

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Brandon Sanderson fanart (Fonte: pastemagazine.com)

As 3 Leis de Sanderson

Um dos motivos pelos quais Brandon é reconhecido é exatamente por ter parametrizado o trabalho de um escritor de fantasia, principalmente no que concerne à utilização da magia e ao quanto é dado a conhecer ao leitor da sua conceção. Separando as águas, Brandon distingue a construção mágica credível e detalhada, aquela em que o leitor compra a ideia de forma categórica e até científica (Hard Magic), da magia mais tradicional, sem qualquer detalhe ou explicação, que se encaixa no deus ex-machina habitual nas leituras YA (Soft Magic).

O autor também reforça o papel determinante que as dificuldades dos personagens têm no envolvimento com o leitor e a importância de montar um mundo credível, honesto e bem estruturado, para que personagens ou situações não caiam de pára-quedas na história. Pessoalmente, concordo em absoluto com estas leis, ainda que me pareça que Brandon não seja um inventor, mais um estudioso sobre o assunto.

As 3 Leis são:

Lei 1: “A capacidade de um autor em resolver conflitos de forma satisfatória com a magia é diretamente proporcional ao quão bem o leitor compreenda esta magia.”

Lei 2: “As fraquezas das personagens são mais interessantes que as suas habilidades. Ou seja: limitações são mais importantes que poderes.”

Lei 3: “Expanda o seu mundo antes de adicionar novos elementos.”

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Fanart de The Stormlight Archive (Fonte: pinterest.com/sparkybeanbag)

Porque o NDZ acredita que todos devem ler Brandon Sanderson?

CONSTRUIU UM MUNDO CHEIO DE POSSIBILIDADES

Brandon publicou o seu primeiro romance, Elantris, através da editora Tor Books em 2005, com críticas muito positivas. Foi em 2006, porém, que o seu trabalho mais famoso saiu para as bancas – Mistborn. Posteriormente, Brandon dedicou-se a trabalhos mais juvenis, como Alcatraz ou Coração de Aço, mas logo regressaria com novos livros da série Mistborn e The Stormlight Archive.

Segundo o autor, a série Mistborn atravessará várias fases de vida do planeta Scadrial. Se a primeira série (publicada em Portugal pela Edições Saída de Emergência) foi o mais próximo de uma clássica fantasia épica, a segunda trilogia foca-se num período perpassado por uma austera Revolução Industrial, com perfume a western. A terceira trilogia deverá ocorrer, então, num período correspondente à nossa atualidade ou futurista, uma vez que o autor garantiu vir a tratar-se de uma trilogia de ficção científica, sempre com os seus sistemas de magia intricados como pano de fundo.

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Szeth de The Stormlight Archive (Fonte: 17th Shard)

Todos os livros de high fantasy publicados por Brandon passam-se no mesmo universo, a Cosmere. Se Scadrial é o “planeta” que serve de palco à série Mistborn, Elantris e o conto Emperor’s Soul são passados no shardworld Sel, Warbreaker em Nalthis, The Stormlight Archive em Roshar e White Sand em Taldain. De alguma forma, todos estes lugares estão conectados, muito embora se tratem de “fragmentos de mundo” muito diferentes. Há, no entanto, vários indícios de que se trata do mesmo universo (para além da confirmação do autor, vá).

Um deles é a existência misteriosa de saltadores de mundo, sendo o mais conhecido Hoid, um indivíduo que aparece como informador de confiança na primeira trilogia Mistborn, um contador de histórias em Warbreaker e contrabandista em Elantris, por exemplo, ganhando um papel de maior protagonismo em The Stormlight Archive, onde adquire a identidade de Wit. Khriss, a duquesa de White Sand, também surge em Mistborn: The Bands of Mourning e Mistborn: The Secret History.

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Vin de Mistborn (Fonte: pinterest.com)
OS SISTEMAS DE MAGIA SÃO ORIGINAIS

Brandon Sanderson é, a meu ver, um dos autores que melhor constrói sistemas de magia. Da alomância e feruquimia de Mistborn, ao breath de Warbreaker, passando pelo domínio da areia em White Sand – e falo destes porque foram os livros/sagas que li – a técnica passa pela ingestão ou absorção de uma matéria, cujo processo de metabolismo resulta na aquisição de um dom considerado mágico, incrível para um humano.

Desta forma, Vin, Kelsier, Vasher e Kenton tornaram-se personagens cativantes pelas suas habilidades, embora o autor, recorrendo à lei número 2 que definiu, crie também grandes dificuldades ao seu desenvolvimento, seja na aprendizagem das magias, na grandiosidade dos adversários ou na introdução de problemas do foro pessoal. Ainda assim, muito embora a magia de Sanderson seja algo mais científico que maravilhoso, desmantela a ilusão de super-heróis pré-concebida e apresenta uma plataforma credível e bem montada que só pode encantar os novos leitores de ficção fantástica.

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Siri e Susebron de Warbreaker (Fonte: puncker–rocker.deviantart.com)
TEM AS SUAS HABILIDADES NARRATIVAS

Quem me conhece e ao NDZ há algum tempo, sabe que não morro de amores por Brandon Sanderson, sobretudo por ser possuidor de uma escrita fast-food, principalmente em Mistborn. Brandon não revela grande riqueza de vocabulário e as imensas voltas e reviravoltas no enredo sugerem muito improviso e muito pouco de esqueleto. O recurso a salvamentos de última hora são ainda um furúnculo no seu processo narrativo, para alguém que fomenta tanto a credibilidade dos mundos criados. Neste aspeto, Brandon tem ainda muito a crescer. Esta ideia marcou-me principalmente durante a leitura da primeira trilogia Mistborn, aclamada pela grande maioria do público de fantástico.

O autor, porém, veio a ganhar-me pouco a pouco. O final de Herói das Eras encantou-me, não que tenha ficado agradado com o recurso ao espiritual, quando Brandon tanto se havia esforçado por explicar “cientificamente” todos os detalhes, mas posso dizer que a trilogia foi concluída com chave de ouro. Não gostei de muitas explicações oferecidas a esmo ao longo dos três livros, mas os maravilhosos personagens, as relações humanas e os plot-twists prenderam-me, da primeira à última página. Acabei a Era 1 de Mistborn com nostalgia e com a sensação de que podia ser melhor, mas que mesmo assim foi muito bom.

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Senhor Soberano de Mistborn (Fonte: pinterest.com/Rebeksterz)

A leitura de Warbreaker, porém, foi o cheque-mate a que se deve este artigo. A escrita do autor pareceu-me mais rica e envolvente e os plot-twists ganharam-me por completo. Cada reviravolta foi uma machadada e terminei o livro completamente apaixonado por Vivenna, Siri, Susebron, Vasher e companhia. Foi, sinceramente, uma das melhores leituras deste ano até agora. A novela gráfica White Sand, com argumento original de Brandon, não teve muita qualidade ou originalidade, mas não me desagradou. Mais uma vez, foram as surpresas e os plot-twists a conquistarem-me.

Brandon Sanderson é, inegavelmente, um dos mestres da fantasia moderna e um dos que mais fomentam aquilo que tanto me agrada no género: a construção de mundos credíveis e originais. Prevejo ler Elantris em setembro (versão pt-br) e espero que a Saída de Emergência continue a apostar neste autor que tanto tem acarinhado, seja com a segunda série de Mistborn ou com a publicação de The Stormlight Archive, aquela que, muito provavelmente, será num futuro recente a série de fantasia com melhor repercussão em todo o mundo. Cá esperamos por mais publicações, Brandon.