Especial Páscoa: 5 Razões Para Ler Scott Lynch

Se para muitos Scott Lynch é considerado como um dos mais problemáticos casos de sucesso da literatura fantástica recente – obstáculos patológicos como ansiedade e depressão têm sistematicamente adiado o lançamento do seu próximo livro, o que o coloca em vias de se tornar mais um “Martin & Rothfuss da vida” – para mim ele é não só um dos mais promissores autores do género como um dos melhores. Efetivamente.

Perdoe-me o fandom de Brandon Sanderson, mas dos 6 livros que já li dele, nenhum me causou tanto impacto e vertigem quanto os bem mais despretensiosos livros de Scott Lynch. E isso porque Scott não dá destaque à magia e ao wordbuilding, ainda que estes sejam alicerces para a sua obra. Os mundos criados não são o mais importante, importa sim o maravilhamento do que está lá dentro. O próprio mistério em torno do seu passado coletivo só alimenta a imaginação dos leitores. E se o que estiver lá dentro forem personagens incríveis e credíveis, com uns pozinhos de magia como cereja no topo do bolo, então estamos no caminho certo. 

A ideia deste artigo é fazer um pequeno passeio pelos seus trabalhos e apontar razões válidas para que mais pessoas o possam ler. Convém, por isso, começar pelo início.

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Scott Lynch e Elizabeth Bear (Fantasy-Faction)

Quem é Scott Lynch?

Se és fã de fantasia e não sabes quem é Scott Lynch… espero que pelo menos já tenhas ouvido falar de As Mentiras de Locke Lamora, o seu único romance publicado em Portugal. Primeiro de três irmãos, Scott nasceu a 2 de abril de 1978, em St. Paul, Minnesota. Depois de passar por uma série de empregos, de barman a bombeiro, Scott viria a tornar-se um sucesso de vendas com o seu primeiro romance. Vive em Massachusetts e é casado com a também escritora Elizabeth Bear.

Completamente apaixonado por jogos de computador e RPG’s, Scott revelou-se desde cedo um ótimo contador de histórias. Tanto a escrita como a imaginação revelam uma tremenda irreverência, própria de um espírito vivo e enérgico que tenta, a todo o momento, sacudir o mundo em que vive. Essa inquietação e sede de mudança reflete-se nos seus personagens, ricos em carisma e em dissonâncias. Locke Lamora é o exemplo perfeito.

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Locke Lamora (scottlynch78.tumblr)

 

O NDZ dá-te 5 razões para leres Scott Lynch

UMA ESCRITA RICA E FLUÍDA

Scott Lynch começou a sua carreira literária em 2006, um início tão auspicioso que por si só fala muito sobre as suas capacidades. O romance de estreia, As Mentiras de Locke Lamora, foi finalista do Prémio World Fantasy Award em 2007. Também em 2007, e por dois anos seguidos, foi nomeado para o Prémio John W. Campbell para Melhor Novo Escritor. Em 2008, venceu o Prémio Sydney J. Bound para Melhor Recém-Chegado pela academia British Fantasy Society.

Só em 2014, porém, ouvi falar deste autor e, impulsionado pela extraordinária ressonância do seu sucesso, me adentrei neste mundo fantástico. As Mentiras de Locke Lamora tornou-se um dos meus livros preferidos de sempre.

Sem grandes saídas poéticas, Scott não deixa de ser fenomenal enquanto escritor. Ele consegue levar o sorriso aos lábios do leitor mais desprevenido ao cozinhar frases aparentemente simples de uma forma irreverente e divertida. Paralelamente à grande capacidade de narração, ele parece sempre imbuído de uma adrenalina altíssima, que faz parecer estar constantemente inspirado. Ritmo e riqueza de vocabulário caminham permanentemente, lado a lado.

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Locke Lamora (kejablank em deviantart)
UM MUNDO CREDÍVEL

The Gentleman Bastards é uma sequência de sete livros, dos quais apenas três estão escritos e publicados. Somos apresentados a um mundo credível, inspirado no Mediterrâneo renascentista, um mundo selvagem e insano baseado no salve-se quem puder que propicia a disseminação de toda a espécie de vigaristas e criminosos. Locke Lamora começa a narrativa como um menino problemático entregue a um padre cego, que se revela um treinador de ladrões disciplinado e munido de várias artimanhas e recursos, ensinando aos seus sequazes o seu míster.

É aí que Locke Lamora se torna prodigioso na arte de usar as mãos e a passar despercebido, ao mesmo tempo que encontra nos seus companheiros órfãos uma família. Pouco a pouco, vai reclamando um lugar silencioso à sombra dos canais, nas ruas esquálidas de Camorr. Os planos tornam-se mais ousados, um após o outro, de forma tão perigosa para os protagonistas que se torna viciante. E é aí, ao tocar nas “pessoas certas” que eles despertam a atenção dos poderes latentes na cidade.

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Capas originais de The Gentleman Bastards

Ainda que seja um mundo fantástico, a ousadia paga-se caro. Os personagens não têm aqui capacidades extra-humanas para os livrarem com facilidade de problemas criados. Eles sofrem abusos, estupros, espancamentos, tentativas de afogamento, e por aí fora. Exemplos são muitos. Uma menina é morta e entregue ao pai dentro de um barril cheio com urina de cavalo. O protagonista é completamente humilhado por uma boa dezena de vezes.

Se Camorr é inspirada na Veneza renascentista, outras cidades costeiras fazem-nos lembrar lugares preciosos da nossa História, banhados pelo familiar Mar Mediterrâneo. Karthain, a terra que serve de sede aos terríveis magos-servidores, surge no terceiro livro da sequência e recende à Grécia do período supra-citado. Scott revela mão para criar cenários reais. Sem descurar, claro está, a estoica política desses locais maravilhosos.

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Camorr (Fredrik Dahl)
UM AMBIENTE FANTÁSTICO

Embora bastante credível, o mundo construído por Scott Lynch não dispensa a sua boa dose de fantasia. As construções mantêm o remanescente de uma arquitetura milenar produzida com vidrantigo, uma substância de origem enigmática. Tão enigmática como os seus construtores, um povo antigo conhecido como os Ancestres, que por alguma razão desconhecida desapareceu do mundo.

Para além de uma boa série de animais originais, Scott também criou um desporto de gladiadores com tubarões, abrilhantado pelas irmãs Berangias. As ciências alquímicas também fazem parte da trivialidade do mundo. Mas é com os magos-servidores, porém, que o autor norte-americano mais explora o fantástico. Eles são uma estirpe de pessoas dotadas de uma grande variedade de recursos mágicos, capazes de controlar um indivíduo se souberem o seu nome verdadeiro. Com tais capacidades, dedicaram-se a um ofício: servir aqueles que os podem remunerar, em troca dos seus serviços. Daí vem o termo que lhes dá nome.

As origens de Locke Lamora também estão envoltas em fantasia e irrealidade, mas irei poupar-me às revelações do terceiro livro para não cair em spoilers. A mitologia criada revela tanto ou tão pouco que nos deixa a salivar por mais. Num total de treze deuses, os mais interessantes são Aza Guilla, a deusa da morte e do silêncio, Perelandro, o bondoso Pai das Misericórdias e o misterioso Treze Sem Nome, o senhor dos ladrões.

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Personagens de The Gentleman Bastards (scottlynch78.tumblr)
AUDÁCIA, HUMOR E ORIGINALIDADE

A audácia e a originalidade estão interligadas em toda a obra de Scott Lynch, e são uma constante. Se em As Mentiras de Locke Lamora assistimos a um sem-número de peripécias à Ocean’s Eleven protagonizadas por um miúdo franzino com alma de Jack Sparrow, o estratagema das cadeiras que permeia todo o livro Mares de Sangue e os jogos em volta de Requin e Selendri nunca serão esquecidos. Locke Lamora é um personagem incrível em cada livro. A culpa, claro está, é de Scott.

O risco a que submete os seus personagens aumenta a cada volume. De um afogamento, espancamento, envenenamento e quase morte, Locke Lamora prova os sabores mais amargos a que um ser humano pode ser submetido – incluindo a morte de entes-queridos – sem nunca perder o sentido de humor. Se há alguém que sabe entremear uma tragédia com uma boa dose de humor, é Scott Lynch. Os seus livros são trágicos, dramáticos e cruéis. E conseguem ser permanentemente divertidos.

 

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Jean Tannen e Locke Lamora (dottedmelonart.tumblr)

Scott entrou para a minha lista de autores preferidos de chapão, e parece quase karma que ele me responda às minhas perguntas interiores a cada livro que leio. As Mentiras de Locke Lamora fizeram-me rir num outono insalubre, Mares de Sangue deram-me inspiração num momento desinspirado e República de Ladrões falou-me como curar feridas de amor quando mais precisei de o fazer.

A relação incrível entre Locke Lamora e Sabetha Belacoros veio mostrar o lado mais sentimental do personagem, que ainda assim se transforma num combate de personalidades, uma disputa apaixonada nada lamechas. Jean Tannen é o protetor que todos gostariam de ter. Para além de esperto, o melhor amigo de Locke tem a força de braços e o poderio físico que ele não possui. E Calo e Galdo, os gémeos ladrões, são o alívio cómico que permeia toda a obra. Não há margem para dúvidas, o humor é um dos pontos fortes do autor.

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The Gentleman Bastards (scottlynch78.tumblr)
LOCKE LAMORA E AMARELLE PARATHIS

Os três volumes de The Gentleman Bastards e o conto Um Ano e Um Dia na Velha Theradane (publicado em Portugal na antologia Histórias de Aventureiros e Patifes) são os trabalhos mais conhecidos de Scott. Por isso, é impossível não comparar o Espinho de Camorr à Duquesa Invisível do seu conto.

Ainda que os mundos sejam substancialmente diferentes – o conto apresenta dragões, bestas e criaturas ainda mais estranhas – os genes do autor estão lá. Personagens muito bem construídos, originais e acima de tudo irreverentes. Desde um autómato fora de forma a uma mecânica lésbica, somos presenteados com um braço-de-ferro entre um ladrão – a super mundana Amarelle Parathis – e um feiticeiro. Algo que também assistimos no mundo de Locke Lamora, em que a magia ocupa um lugar bem menos importante.

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Scott Lynch (flyer da Phoenix ComiCon)

De qualquer forma, os dois personagens parecem ser a outra metade um do outro. Amarelle Parathis é a versão feminina de Locke Lamora, em toda a sua rebeldia e ostentação. E tudo se resume a golpes ousados e logros e canecas e gargalhadas e miséria. Por todos estes motivos e mais alguns, a obra de Scott Lynch é a minha preferida no mundo da fantasia e não me canso de recomendá-la como se se tratasse de um bom chocolate. Boa Páscoa a todos.

 

TAG – Carnaval Literário

Boa tarde! Hoje trago-vos uma TAG literária propícia à quadra. É a TAG – Carnaval Literário e e todos estão convidados a fazer a sua. Vamos ver o que me vai calhar. :p

#1 O melhor carro alegórico

Um livro que todos adoraram, tu estavas com medo de ler e acabaste por cair no hype

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O Império Final é, definitivamente, um livro que eu tinha a certeza que ia odiar antes de ler. Felizmente Brandon Sanderson trocou-me as voltas e embora Mistborn tenha as suas falhas, é uma saga que recomendo a todos os amantes de boa fantasia.

#2 A vida são dois dias, mas o Carnaval são três

Um livro que lias, lias, lias, e parecia nunca mais acabar

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O quarto livro da Saga do Assassino de Robin Hobb, A Vingança do Assassino, foi uma verdadeira indigestão. Sequências lentas repetiram-se umas atrás das outras, e apesar de não ter desgostado do livro no seu todo (e confesso já ter saudades da saga), foi um volume de tamanho médio que demorei muito tempo a ler.

#3 Camarote VIP

Um livro que leste antes de virar moda

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Bem, não posso dizer que fui um pioneiro na leitura de A Guerra dos Tronos (nem pouco mais ou menos), mas li-o mal saiu a primeira temporada da série de televisão e o hype ainda não era nada comparado ao que se tornou.

#4 Atrás da multidão

Um livro que “toda a gente leu” e tu ainda não

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A par das séries de Peter V. Brett e Robert Jordan, Crónicas do Regicida de Patrick Rothfuss é uma das mais famosas que ainda não tive o privilégio de ler. Apesar de já ter lido um conto de Rothfuss que não me convenceu, espero que este seja o ano em que finalmente leia O Nome do Vento.

#5 Loucura Total

Um livro que todos te aconselharam e… não gostaste

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Sandman, de Neil Gaiman, é uma das obras mais consensuais dentro do universo das bandas-desenhadas. Apesar de não ter gostado do primeiro volume, Prelúdios e Nocturnos, insisti na leitura e li toda a série. Não conseguiu agradar-me por aí além em nenhum momento, mas reconheço o seu mérito.

#6 Terça-Feira é o último dia

Um livro que chegou ao fim, mas querias que não acabasse ali

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Sem dúvida um dos meus livros preferidos de sempre, República de Ladrões de Scott Lynch não conseguiu atingir o patamar de excelência do primeiro volume da sua série, As Mentiras de Locke Lamora, mas ainda assim deixou-me com aquele gostinho de “quero mais” pela chuva de expectativas que o final deixa para o quarto volume.

#7 Depois do Carnaval, a ressaca

O livro que te deixou com a maior ressaca literária

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O último livro das Crónicas de Gelo e Fogo. Pois é, senhor Martin. Temos muito que falar. Deixar os leitores anos e anos à espera para saber o que aconteceu, quando os protagonistas da saga estavam em situações críticas, é mau demais. Os Reinos do Caos deixou-me de ressaca até hoje.

Sintam-se à vontade para participar e responder à TAG – Carnaval Literário.

Especial: Como Erikson, Sanderson e Companhia Esmagaram os Orcs

Se na primeira metade do século XX um senhor de cachimbo na boca criou aquele que viria a ser o mais badalado worldbuilding de fantasia da era moderna, os seus iguais e seguidores criaram um sem número de mundos tão ou mais ricos que o apresentado em O Hobbit ou na trilogia O Senhor dos Anéis. Estou a falar de J. R. R. Tolkien. Não foi o percursor do género fantástico nem talvez o escritor mais dotado, mas deixou uma marca indelével na História da ficção fantástica. Muitos foram os autores que lhe seguiram os passos, replicando história, características humanas e terrestres. Mas as tendências mudam, e os elfos, orcs e anões foram vítimas de uma extinção em massa, desaparecendo quase por completo. Correndo o risco de parecer um daqueles senhores despenteados do Canal História, vou tentar explicar o porquê.

O mundo é cíclico. Já Robert Jordan propõe uma teoria bastante interessante em A Roda do Tempo, saga de fantasia que – shame on me – ainda não tive a oportunidade de ler. E tudo o que hoje é adorado, amanhã torna-se chato e enfadonho. Foi o que aconteceu aos discípulos de Tolkien. Mas, quem sabe, volte a haver um grande hype em torno de elfos e orcs daqui por muitos anos? Tudo bem, ainda hoje há escritores a repetir a fórmula e muitos fãs dos mundos tradicionais por aí, da mesma forma como eu confesso ser um grande admirador das antigas histórias de espada e feitiçaria de Robert E. Howard, mas parece inevitável admitir que Terry Brooks, Christopher Paolini e companhia já não conseguem surtir o efeito que teriam conseguido páginas da vida atrás, porque, na minha humilde opinião, falta-lhes o essencial em qualquer ofício praticado pelo Homem: a inovação.

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Gimli e Legolas de O Senhor dos Anéis (ghostofdener em deviantart)

O sucesso depende de muitos factores, mas oferecer qualidade não chega. Há que oferecer algo de novo. É isso que define o sucesso, foi isso que fez J. R. R. Tolkien ficar imortalizado nas areias do tempo, e não só ele. Muitos como eu não tiveram o privilégio de ler Fritz Leiber, Jack Vance, Stephen Donaldson ou Glen Cook, entre outros, mas estes nomes – abafados pela hegemonia de outros géneros – influenciaram alguns dos melhores autores da actualidade. Não vou pronunciar-me sobre literatura virada para público juvenil, porque corro o risco de criticar J. K. Rowling, Rick Riordan, T. A. Barron e outros que tais só porque não gosto.

É, em grande parte, a originalidade dos mundos que me fascina. Se Neil Gaiman me encanta pela escrita e pela forma doce e negra com que remexe nos sentimentos humanos, o seu imaginário nunca me conseguiu prender, talvez por seguir uma linha mais subversiva das mitologias urbanas. Seguindo um registo distinto mas numa toada semelhante, Stephen King apresenta em A Torre Negra um diálogo mais aberto e intimista, conseguindo os seus picos de humor de forma mais genuína. O horror presente em King também se coaduna mais com o meu ADN de leitor, mais visceral e preto-no-branco.

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O ka-tet de A Torre Negra (Browsing Tradicional Art em deviantart)

Terror e ficção-científica são dois géneros da ficção especulativa que me cativam, menos que a fantasia, mas que se fundem a ela em grandes obras de referência. No entanto, é a História a verdadeira base do meu culto à fantasia, e são as Histórias criadas de raiz que mais me fascinam. Se foi o Senhor dos Anéis a implementar-me hábitos de leitura, fazendo-me entrar nas espadas e feitiçarias de Robert E. Howard (um dos meus autores preferidos de sempre) e nos livros role-playing Fighting Fantasy de Ian Livingston e semelhantes, a vida literária levara-me para os romances de mistério e espionagem, históricos, policiais e simbologias. Há poucos anos, o advento de uma série de televisão fez-me perceber que um autor conseguira englobar tudo o que havia nos meus géneros preferidos… e quando li os livros, viciei-me nas Crónicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin.

A Tormenta de Espadas/A Glória dos Traidores (interpretemos os dois livros como um só, como o é na versão original) tornou-se de imediato o meu livro preferido de sempre, suplantando A Chave de Rebecca e Ivanhoe, que até ali eram incontestáveis. No entanto, penso que as Crónicas de Gelo e Fogo, inacabadas até hoje, valem pelo todo. O mundo de George R. R. Martin é riquíssimo e vasto, com tantos ingredientes e uma complexidade que o fazem tornar-se real. Um mundo inspirado na nossa Antiguidade, com guerras credíveis e protagonistas que morrem. A magia existe, mas até a forma como é apresentada num mundo tão seco e credível agrada-me. [Martin, leva o tempo que quiseres, mas não morras sem escrever mais qualquer coisinha.]

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Jorah Mormont de Crónicas de Gelo e Fogo (Browsing Fan Art em deviantart)

George R. R. Martin venceu pela ousadia, pela originalidade (que não é assim tanta, mas os autores a quem foi buscar ideias nunca conseguiram algo tão grande e épico), mas sobretudo pela capacidade de aguentar um mundo destes na “carapaça” como a tartaruga que sustenta o nosso, em tantas crenças – e nos livros do Terry Pratchett.  Mas quando parecia impossível superar George R. R. Martin no empreendedorismo fantástico, os últimos anos vieram mostrar que, independentemente do contexto, Nelson Mandela tinha razão:

Só é impossível até acontecer.

Não vou falar de autores que desconheço, como Brian McClellan e o seu mundo que mistura uma espécie de Revolução Francesa com magia, Sam Sykes e os homens-dragões e outras bizarrices, ou Brent Weeks, já publicado no Brasil com aparente boa aceitação. Existem imensos autores emergentes que conseguem reinventar a fantasia a cada dia que passa, com magias originais e mundos complexos. Nenhum destes consegue ainda igualar George R. R. Martin na imponência e complexidade, mas há três autores que lhe fazem sombra.

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A trupe de ladrões de As Mentiras de Locke Lamora (SPN, deviantart)

Scott Lynch é o meu mais-que-tudo (salvo seja). A braços com graves problemas de depressão e ansiedade, poucos livros publicados e nenhum mundo de quebra-cabeças, Scott conseguiu surpreender os fãs do género com o seu livro de estreia. Inspirado na Itália renascentista, o seu mundo sem nome parece ter sido criado por uma espécie alienígena que depois o abandonou. Mas não há nenhuma guerra épica a ser travada. A saga de Scott Lynch fala de ladrões e de tramóias, de redes de espiões, de política e de sobrevivência. Fala de um ladrão sem vergonha de encher os bolsos, e é ele que faz as delícias do leitor.

Scott conquista pela simplicidade e pela astúcia, tanto do seu protagonista lingrinhas, como dele próprio como autor, pelos diálogos hilariantes, pelos plot-twists, pela leveza e brilhantismo literário. Com uma simplicidade inigualável, As Mentiras de Locke Lamora tornou-se o meu livro preferido de todos os tempos. Ele tem toques de steampunk, uma aura do período renascentista, truques sem fim e até combates de tubarões. Os restantes livros já publicados da série The Gentleman Bastards agradaram-me quase tanto como o primeiro e até o conto Um Ano e Um Dia na Velha Theradane encantou-me pela irreverência. [Recupera rápido e escreve mais, Scott.] Não será o melhor autor de fantasia da atualidade, mas é o meu preferido.

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Vin de Mistborn (Evan Montero em writeups)

E depois há Sanderson. Pois é. Brandon Sanderson, este sim considerado por muitos como o melhor autor de fantasia da atualidade. O homem escreve pelo menos um livro por ano, criou um universo – a Cosmere – e várias das suas sagas (sim, sagas!) passam-se em planetas desse mesmo universo. Ao ler a Era 1 de Mistborn (uma trilogia, publicada em 4 livros em Portugal ), não me fascinei. Reconheço-lhe enorme qualidade e é uma das obras mais aclamadas do autor, mas nem a sua escrita me encantou, nem as explicações dadas para a complexidade da sua criação me pareceram sólidas. Fala de um grupo de escravos que se rebela para destronar um deus-rei malvado, e ao fazê-lo, os personagens percebem que meteram o pé na poça. Ainda assim, os personagens são bem profundos e incríveis. Apesar de não ser idêntico a nível narrativo, costumo qualificar em jeito de brincadeira Mistborn como um Crónicas de Riddick feito pela Disney. O final deixou-me com a boca mais aberta do que no Casamento Vermelho de George R. R. Martin.

Foi com Warbreaker, no entanto, que Sanderson me agarrou. Um livro simplesmente brutal onde os papéis dos personagens se distorcem completamente ao longo do livro e as capacidades exploradas são fantásticas. Exércitos de zombies comandados por palavras e uma espada falante, só como exemplo. Homens que regressam à vida e se tornam deuses. Duas princesas a darem-se bem no sítio errado. Cada sistema de magia de Sanderson parece mais original do que o anterior e, como diz um dos chavões de Mistborn: sempre há outro segredo. Plot-twists geniais não lhe faltam. Não fosse o excesso de deus ex-machina e cenas forçadas, Sanderson estaria já no topo dos meus autores preferidos. Para já, quero muito ler Stormlight Archive, a série-chave deste caso sério de sucesso.

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Anomander Rake de Jardins da Lua (malazan wiki)

Bem, Sanderson é o autor do momento, mas sim… é possível haver um autor de fantasia vivo melhor que Sanderson ou até mesmo que Martin. E não estou a falar de Lynch, que apesar de ser o meu preferido ainda é bem subestimado. Estou a falar de Steven Erikson. Com Ian C. Esslemont, criou o universo Malazan, mas nem conheço a escrita de Esslemont nem ouço tantos elogios às suas obras como às de Erikson.

Não posso ainda afiançar que a Saga do Império Malazano é mais complexa (ou melhor) que o mundo de George R. R. Martin, uma vez que só li o primeiro livro, Jardins da Lua, mas seguramente está lá perto. Uma guerra épica, uma imperatriz de pele azul que quer conquistar o mundo, uma montanha voadora, deuses que interferem nos acontecimentos, raças inovadoras, cães tenebrosos, dragões e corvos, conspirações e segredos… mas acima de tudo personagens, muitos e apaixonantes. O que realmente me agarrou neste autor foi a escrita e os diálogos vívidos, especialmente entre os militares. Do mundo, ao que parece imenso, não vi ainda quase nada. E sei que o que me espera no segundo volume será ainda mais empolgante e dramático. Erikson entrou direitinho para a lista dos meus autores prediletos, logo com o primeiro livro.

Para mim, estes são “os tais” da atualidade dentro do género, ainda que mantenha bem presentes as referências mais antigas e tenha ainda um manancial de obras por descobrir. Li muito pouco de Rothfuss (não me convenceu), um único livro de Abercrombie (ipsis verbis) e ainda não me convenci a ler Peter V. Brett nem Robert Jordan (não é o facto de ter sido Sanderson a terminar A Roda do Tempo a fazê-lo, por enquanto). Também Mark Lawrence não me agradou por aí além, com um sem número de recursos forçados na narrativa, e se acho insípida a ficção de Guy Gavriel Kay (Tigana e Leões de Al-Rassan foram bons mas não me “encheram a boca”), a Saga do Assassino de Robin Hobb revelou-se cansativa e repetitiva. Sei, porém, que qualquer um destes tem potencial para vir a surpreender-me.

No fundo, esta avalanche de novos autores com o seu brainstorm imparável foi o meteorito que causou a quase extinção dos elfos, orcs e anões, e de toda essa panóplia de “mais do mesmo” oriunda dos lugares-comuns do nosso passado. Nunca os esqueceremos, mas a estagnação é amiga da morte e nós queremos mais. Mais e melhor, se possível.

TAG – Os Cavaleiros do Apocalipse

Boa noite, amigos! Trouxe-vos uma tag literária e espero que se divirtam. Os Cavaleiros do Apocalipse? Eu sei que parece estranho, mas depressa vão perceber. Usando pormenores de trechos da Bíblia, mais propriamente do Livro da Revelação, identificarei capas de livros. Vamos a isso?

#1 Peste

E eu vi, e eis um cavalo branco; e o que estava sentado nele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e ele saiu vencendo…

#1.1. Um livro com um cavalo na capa

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A Tormenta de Espadas, de George R. R. Martin

Mais do que um verdadeiro refresh na literatura de fantasia, George R. R. Martin veio dar um novo significado a este género literário, mostrando ao mundo que fantasia não é feita somente de elfos e princesas guerreiras. Tormenta de Espadas é o terceiro livro de Crónicas do Gelo e Fogo, sendo o quinto da edição portuguesa e um dos mais empolgantes da série literária.

# 1.2. Um livro com um arco na capa

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A Manopla de Karasthan, de Filipe Faria

Primeiro volume de Crónicas de Allaryia, A Manopla de Karasthan foi das primeiras obras de fantasia a emergir no panorama nacional no início deste século, à época em que a adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis acrescentava uma legião de fãs para o género. Amado por uns e odiado por outros, Filipe Faria conquistou lugar cativo nas livrarias portuguesas.

#1.3. Um livro com uma coroa na capa

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O Rei de Ferro e a Rainha Estrangulada, de Maurice Druon

Esta edição compreende os dois primeiros volumes da série Os Reis Malditos, na qual Maurice Druon narra a história de Filipe, o Belo, rei de França. Mais do que isso, fala da maldição que o acossou, como à sua prole, após ter queimado vivo o grão-mestre da Ordem dos Templários, condenando a confraria à extinção. Um rigor histórico notável e uma escrita rápida e vibrante.

#2 Guerra

E saiu outro, um cavalo vermelho; e ao que estava sentado nele foi concedido tirar da terra a paz, para que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada.

#2.1. Um livro com capa vermelha

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O Herói das Eras Parte 1, Brandon Sanderson

Mistborn – Nascidos da Bruma é uma das séries literárias de fantasia mais faladas da atualidade. Brandon Sanderson ganhou fama ao terminar a série A Roda do Tempo após a morte de Robert Jordan e desde então não parou. Conhecido por publicar com grande frequência, sempre com sistemas de magia originais, tem em Misborn uma das suas protagonistas mais carismáticas, Vin.

#2.2. Um livro com a palavra “Terra” na capa

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Os Pilares da Terra, de Ken Follett

Com uma prosa elegante e uma capacidade raríssima de fazer o leitor sentir-se na época descrita, Ken Follett apresenta-nos um livro emocionante, que relata um período conturbado da História de Inglaterra, onde a construção de um mosteiro ganha protagonismo num braço de ferro entre a Igreja e a Coroa. Os Pilares da Terra é um dos livros mais emocionantes que já li.

#2.3. Um livro com uma espada na capa

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Histórias de Aventureiros e Patifes, Vários Autores

Com organização de George R. R. Martin e Gardner Dozois, Histórias de Aventureiros e Patifes é a primeira parte da antologia Rogues, uma colectânea de contos sobre patifes, escrita por alguns dos mais conceituados autores de fantasia, ficção científica e romance policial. A segunda metade já foi publicada e também opinada no blogue.

#3 Fome

E eu vi, e eis um cavalo preto; e o que estava sentado nele tinha uma balança na mão. E eu ouvi uma voz como que no meio das quatro criaturas viventes dizer: “Um litro de trigo por um denário, e três litros de cevada por um denário; e não faças dano ao azeite de oliveira e ao vinho.

#3.1. Um livro com capa preta

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Príncipe dos Espinhos, Mark Lawrence

Primeiro volume da Trilogia dos Espinhos, de Mark Lawrence, Príncipe dos Espinhos apresenta o Príncipe Honório Jorg Ancrath, e a sua sede de vingança pela morte da mãe e irmão. Um mundo medieval pós-apocalíptico bem constuído, uma escrita envolvente e elegante, mas um desenvolvimento aquém das expectativas.

#3.2. Um livro com uma mão na capa

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O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

Com uma escrita envolvente, Oscar Wilde fala sobre o egocentrismo e sobre o papel que as aparências ocupam nas nossas vidas. Ao mesmo tempo que as hipocrisias de comportamento são retratadas com grande rigor, a obsessão pela beleza também é um dos principais temas do livro.

#3.3. Um livro com vigaristas na capa

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As Mentiras de Locke Lamora, Scott Lynch

Um dos meus autores de eleição, Scott Lynch revolucionou o mundo da fantasia com uma trama ao mesmo tempo leve e complexa, num mundo inspirado na Itália renascentista. Uma trupe de jovens ladrões protagoniza a história, recorrendo somente à sua matreirice para ludibriar os mais poderosos senhores do submundo camorri. A escrita deliciosa e os diálogos cómicos são os ex-libris deste autor.

#4 Morte

Então ouvi a quarta Criatura:”Venha” e apareceu um cavalo baio, o nome do cavaleiro era Morte e o Inferno o seguia de perto.

#4.1. Um livro com uma Criatura na capa

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Lisboa Triunfante, David Soares

Esta raposa não é somente uma raposa. É uma criatura mitológica, que atravessa as eras e interfere nos seus acontecimentos. Do lado oposto tem um miserável lagarto, e os dois têm medido forças ao longo dos séculos, participando ativamente na construção da Lisboa que hoje conhecemos. Com uma escrita excelente e um conhecimento histórico impressionante, David Soares criou um romance extraordinário de fantasia histórica.

#4.2. Um livro com a palavra “Morte” na capa

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A Morte Persegue-me, Ed Brubaker e Sean Phillips

Este livro de banda-desenhada é o primeiro volume da série Fatale. Uma mulher misteriosa que traz azar a todos aqueles com quem se cruza é a protagonista desta história sinistra que mescla temas como a imortalidade, a corrupção e o ocultismo. O legado de H. P. Lovecraft surge inegavelmente associado às criaturas apresentadas.

#4.3. Um livro com a palavra “Inferno” na capa

Inferno

Inferno, Dan Brown

Com uma estrutura similar a outros livros do autor, como O Código DaVinci ou Anjos e Demónios, Inferno distingue-se pelo tema (a sobrepopulação) e pela originalidade na conceção do vilão. Assustador e extremamente visual, esta aventura de Robert Langdon está entre as minhas favoritas do escritor norte-americano.

Sintam-se à vontade para fazer a vossa tag. Mas, pormenor importante, só conta livros que já tenham lido, mesmo que ainda não tenham comentado. Até à próxima.

TAG – A Seleção

Viva! Chegamos ao novo semestre e antes de sair a primeira review, nada melhor do que responder a mais uma TAG. Aqui vai:

#1 Qual o livro que mais queres ler?

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Tenho muita vontade de ler Lâmina de Joe Abercrombie este ano, mas só depois de terminar algumas séries que estão pendentes.

#2 O melhor livro que leste nos últimos anos

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Esta nem se questiona. O primeiro volume de Cavalheiros Bastardos de Scott Lynch foi uma surpresa enorme, e os volumes seguintes não me desiludiram.

#3 O livro que mais te desiludiu

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Podia falar de Pedro Chagas Freitas, mas se fosse por aí tinha muito que falar. Zafón foi um autor que ouvi falar muito bem, de tal modo que fiquei extremamente desiludido quando peguei em O Palácio da Meia-Noite e encontrei uma escrita extremamente juvenil, assim como uma história completamente banal e fantasiosa.

#4 Qual é o teu personagem preferido

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Alguns personagens ficam gravados na nossa memória e, por nenhuma razão em especial, lembro-me de Gimli de O Senhor dos Anéis quando me perguntam qual o personagem preferido. Esse personagem marcou uma fase da minha adolescência. Ainda assim, personagens como a incrível Miss Marple dos livros de Agatha Christie, Leigh Teabing de O Código DaVinci, Locke Lamora de Cavalheiros Bastardos e Jean Valjean de Os Miseráveis merecem a minha menção de honra.

#5 Qual a história mais marcante?

Feast

Poderia enumerar uma série de histórias. Os Pilares da Terra, Ivanhoe, Os Miseráveis, O Senhor dos Anéis. Cada história teve o seu sabor especial, em cada altura da minha vida, mas As Crónicas de Gelo e Fogo foram talvez aquelas que mais fomentaram o meu amor pela escrita e pelo género fantástico, uma história mais dramática e emocionante.

#6 Que história gostarias de viver?

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A saga A Torre Negra leva-nos até ao Mundo Médio, um lugar onde os descendentes do Rei Artur tornaram-se cowboys. Seria muito interessante acompanhar Roland nas suas aventuras em busca da profética Torre Negra, lutando contra demónios, vampiros e outras criaturas bizarras.

#7 A capa mais bonita da tua estante

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Apesar de os dois últimos volumes de Mistborn terem ficado um pouco diferentes dos primeiros, a coleção é das mais bonitas da minha estante em termos de lombada, e o primeiro volume, O Império Final, tem a capa que visualmente mais me agrada.

#8 A capa mais feia da tua estante

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O Amigo Fritz. Não preciso de explicar porquê, ou preciso? É dos livros mais antigos que tenho em casa, apesar de ser muito bem estimado.

#9 O teu livro preferido de sempre

Rebecca

Não é nenhum fenómeno literário, nem sequer dos mais aclamados do autor, mas encantei-me com este livro de Ken Follett da primeira à última página. A história não é o seu maior atrativo. O clima de espionagem, a tensão sexual, o calor do Egito e a envolvente nazi conquistaram-me de tal modo, que A Chave para Rebecca é o livro que vem à minha memória quando penso em livro favorito.

# 10 O livro que estás a ler

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A Vingança do Assassino, quarto volume da Saga do Assassino de Robin Hobb. Está a ser uma leitura um tanto ou quanto demorada, mas espero terminá-lo em breve.

Sintam-se à vontade para comentar e responder à TAG – Seleção.

 

 

 

Always

2016 ainda agora começou e já nos roubou alguns grandes símbolos da Arte. Lemmy dos Motorhead, David Bowie e… Alan Rickman. Confesso que as duas primeiras mortes não me chocaram tanto quanto esta última, mas todas elas representam o fim de lendas vivas, que se eternizarão nas nossas memórias. É com a melancolia da perda que vemos partir pessoas que, de uma forma ou de outra, admiramos, seja por aquilo que representaram ou por aquilo que foram. É um lamento em menor escala ao sentido com pessoas com as quais lidamos diariamente, mas nem por isso deixa de ser um lamento profundo com o qual sabemos viver mas que, seguramente, não queremos viver. A propósito disso, deixarei algumas palavras que o escritor Scott Lynch deixou a propósito da morte, em março passado, do também escritor Terry Pratchett:

“Quando algumas pessoas morrem, eles deixam-nos com a sensação de que já arrumaram as palavras e o calor e levaram-nos como bagagem para a viagem, que nunca podemos ouvi-los novamente. Terry ofereceu-nos tanto de si mesmo – setenta livros, só para começar, e um mundo e os seus habitantes que poderiam muito bem ser uma religião para milhões. Uma boa religião, uma religião útil. O tipo onde há sempre um pouco de luz bruxuleante e dourada atrás de uma das janelas da igreja a qualquer hora da noite, e então tu sabes que há lá alguém para conversar contigo sobre qualquer coisa, que não vão trancar as portas.”

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É isto que escritores, músicos e actores nos oferecem. Vida. A mesma vida que vemos correr por aqueles com quem vivemos todos os dias; alguns dos quais a doença tem levado, muitos que vemos lutar contra ela. Fica também a esperança daqueles que resistem, daqueles que vencem. Daqueles que ficam.

“Olhe para mim. Sou um dos muitos que atravessou essa área das tormentas, mas já estou deste lado da fronteira em terra firme e à sua espera.
Mantenha essa coragem e vá em frente.
Daqui a algum tempo, quando nos voltarmos a encontrar, não vão ser precisas palavras para você me dizer, que eu tinha mesmo razão.
Basta que nos abracemos e que os nossos cabelos se toquem, numa cumplicidade de quem sabe…que a vida por vezes, é mesmo assim!” (António Sala em carta aberta a Sofia Ribeiro)

Perante a efemeridade da vida, vivamo-la com gozo. Com amor. Com um mega sorriso. Com diversão. Com bom humor. Sem nos levarmos muito a sério. Vivamos.

 

Resumo Trimestral de Leituras #4

Chegamos ao fim do ano e, mais do que o habitual resumo trimestral de leituras, exige-se um breve resumo de tudo o que li este ano. Foi um ano excelente, em que consegui ler mais do que imaginava e livros que tinha vontade de conhecer há muito tempo.

Aqui vai a “listinha” :p :

Lisboa no ano 2000 – Org. João Barreiros
O Espião que Saiu do Frio – John le Carré
O Coração é um Predador Solitário – João Barreiros
O Saque de Lampedusa – João Barreiros
A Cativa, Wulfric #1 – Manuel Alves
Mares de Sangue, The Gentleman Bastards #2 – Scott Lynch
Exhalation – Ted Chiang
Suspeito – Robert Crais
Os Anjos Não Têm Asas – Ruy de Carvalho
A Lenda do Vento, A Torre Negra #4,5 – Stephen King
As Raparigas Cintilantes – Lauren Beukes
Operação Tolerância Zero, X-Men #65 – Scott Lobdell
Os Anos Perdidos, Merlin #1 – T. A. Barron
Coisas Frágeis – Neil Gaiman
The New Atlantis – Ursula K. Le Guin
Bons Augúrios – Neil Gaiman e Terry Pratchett
Operação Tolerância Zero, Wolverine #13 – Scott Lobdell
Voo Nocturno – Antoine de Saint-Exupery
O Miniaturista – Jessie Burton
As Terras Devastadas, A Torre Negra #3 – Stephen King
As Cidades Invisíveis – Italo Calvino
O Monarca – Vassilis Vassilikos
Alice in Wonderland – Lewis Carroll
O Punhal do Soberano, Saga do Assassino #2 – Robin Hobb
Duna, Crónicas de Duna #1 – Frank Herbert
A Grande Matança, Sin City – Frank Miller
República de Ladrões, The Gentleman Bastards #3 – Scott Lynch
Cardiga: De Comenda a Quinta da Ordem de Cristo (1529 – 1630) – Luís Batista
Os Leões de Al-Rassan – Guy Gavriel Kay
A Rapariga no Comboio – Paula Hawkins
A Voz da Vingança, Tigana #2 – Guy Gavriel Kay
O Império Final, Mistborn #1 – Brandon Sanderson
A Sombra Sobre Lisboa – Org. Rogério Ribeiro
Lisboa Triunfante – David Soares
O Feiticeiro e a Bola de Cristal, A Torre Negra #4 – Stephen King
A Tumba – H. P. Lovecraft
A Corte dos Traidores, Saga do Assassino #3 – Robin Hobb
O Poço da Ascensão, Mistborn #2 – Brandon Sanderson
O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
Histórias de Aventureiros e Patifes – Org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
A Celebração – H. P. Lovecraft
O Herói das Eras, Mistborn #3 Parte 1 – Brandon Sanderson
Tis The Season – China Miéville

Sem títuloEste último trimestre começou com a leitura de dois livros comprados a 5 euros na Feira do Livro do Porto. A Sombra Sobre Lisboa é uma antologia muito interessante, de vários autores portugueses e um ou outro internacional, que formaram contos inspirados na obra de H.P. Lovecraft passados na nossa Lisboa. Para mim os melhores contos foram as criações de João Seixas, João Barreiros e David Soares. Desde um Eça de Queirós a lutar contra zombies e um arroz de polvo feito do mítico Cthulhu, podemos encontrar de tudo. Logo depois li Lisboa Triunfante, de David Soares, e adorei. É um livro que atravessa Lisboa em todos os espaços temporais, começa a contar a história de um menino no neolítico, apresenta-nos vários personagens ao longo da história de Lisboa, como Aquilino Ribeiro, Sá de Miranda, Frei Gil Valadares, com papéis muito importantes na narrativa, e não como simples figurantes. Mas é um livro de fantasia, de imaginação, carregado de simbolismos, desde a Pré-História ao futuro, passando pelos templários. É uma amálgama de tantas histórias quase verídicas, nas quais não saímos alheios à pesquisa notável do autor, utilizadas para o seu proveito narrativo, que se interligam numa história rocambolesca. É que tudo gira à volta de uma raposa e de um lagarto, que interferem no destino do mundo desde a sua génese. Como podem ver neste post, elegi-o como o melhor romance que li este ano.

Sem títuloContinuei então a saga A Torre Negra de Stephen King com o quarto volume, O Feiticeiro e a Bola de Cristal.  É um livro que me deixa excelentes recordações e me dá vontade de continuar a saga, apesar de ter sido uma leitura cansativa, porque a história podia ter sido contada em metade das páginas. Pois, são 840 páginas, e a maioria é a contar uma história do passado do protagonista, uma história de amor no faroeste do Mundo Médio. No entanto, vamos percebendo que aqueles enredos tiveram uma razão de ser e o final deixou-me de água na boca. Também notei bastante que o autor estava um pouco perdido na narrativa por esta altura do campeonato. A Tumba é um conto de terror de H. P. Lovecraft. É extremamente envolvente e negro, mas em momento nenhum cheguei a sentir-me perturbado. Conta a história de um homem internado num asilo psiquiátrico, que em jeito de autobiografia fala da sua infância e com normalidade aponta as coisas “não vivas” que lhe despertavam interesse, em especial uma sepultura de família que ele venerava com uma obsessão doentia. Gostei bastante dos acontecimentos em torno dessa sepultura, mas fica no ar a incerteza sobre se o homem era louco ou se aquilo foi real. A Corte dos Traidores é o terceiro volume da Saga do Assassino da Robin Hobb. É uma saga passada num ambiente medieval, com personagens de nomes estranhamente pitorescos. A escrita de Robin Hobb é fluente e as relações humanas são extremamente bem retratadas, não é à toa que Hobb é chamada a Primeira Dama da Fantasia. Ainda assim, e apesar de este volume ter bem mais ritmo e acontecimentos de destaque em volta do protagonista Fitz, não consigo gostar muito da série.

Sem título 4Terminei Novembro com O Poço da Ascensão, segundo volume da saga Mistborn. Se O Império Final foi uma agradável surpresa para mim, O Poço da Ascensão já não gostei tanto, e os poderes “mágicos” da protagonista contribuíram para perder a credibilidade do mundo apresentado. Ainda assim, foi um livro muito interessante, com vários dilemas morais. Brandon Sanderson fez-me refletir bastante sobre relações humanas, de amor e amizade, mas acima de tudo os debates em volta da honestidade de um rei e no papel que ele deve ter fez-me lembrar o Príncipe de Maquiavel. A questão religiosa e a forma como a fé interfere no nosso modo de vida foi muito pertinente. Uma surpresa muito agradável foi O Retrato de Dorian Gray. Nunca vi o filme, mas adorei o livro. A história de um jovem aristocrata britânico idolatrado por todos graças à sua beleza, que o torna obcecado pelo superficial da vida e pelo prazer momentâneo. Uma experiência enriquecedora, porque tanto a escrita de Oscar Wilde como todas as críticas que ele apresentou de forma discreta fizeram imenso sentido para mim. Seguiu-se Histórias de Aventureiros e Patifes. Já queria ter esta antologia desde que foi publicada no Brasil. Organizada por George R. R. Martin, o autor de A Guerra dos Tronos, e com contos de autores como Neil Gaiman, Patrick Rothfuss e Scott Lynch, só podia ser um brilhante livro de contos. De facto, não foi tão brilhante como eu presumia, mas não deixou de ser uma leitura muito agradável. No conjunto, o conto de Lynch foi o meu preferido. Não conhecia o trabalho de Gillian Flynn, nem de Connie Willis, mas fiquei deliciado com as duas escritoras.

Sem títuloA Celebração (The Festival) é um ótimo conto de H. P. Lovecraft. Um sujeito encontra-se a revolver o passado da sua família e encontra um livro, o maligno Necronomicon, que o coloca numa espécie de transe que o conduz às catacumbas sob uma igreja, onde vive um mal muito antigo. É arrepiante a descrição pormenorizada dos rituais, das criaturas, da procissão. Adorei. Voltei a Brandon Sanderson para ler a primeira parte do terceiro volume original de Mistborn. Em O Herói das Eras, Vin e Elend estão mais unidos do que nunca, agora que ele finalmente revela todo o seu potencial. Os cenários mudam e o casal tenta manter o Império unido, ao mesmo tempo que precisam lutar contra o mal incorpóreo que libertaram no Poço da Ascensão. Nota-se um excelente desenvolvimento de personagens, as pontas estão a ser bem amarradas, mas ainda assim algumas explicações dadas pelo autor pareceram forçadas e as espécies criadas pelo Senhor Soberano desagradaram-me.  Tis The Season é um conto natalício do autor de ficção científica China Miéville. É passado num futuro em que tudo o que está relacionado ao Natal tornou-se marca registada de uma empresa. Ao mesmo tempo crítico e cómico, o conto fala-nos sobre um pai divorciado que, ao procurar uma prenda para a filha, ganha bilhetes para comemorar o Natal no centro de Londres. É aí que estala a confusão. Gostei bastante, este é um autor que só oiço falar muito bem e tenho pena de ainda não estar publicado em português. E assim termina o meu 2015 em termos literários. Um excelente 2016 para todos vós que seguem o meu blogue. 😀

 

Histórias de Aventureiros e Patifes, Rogues #1

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Histórias de Aventureiros e Patifes”, primeira parte da antologia Rogues

Um detetive a viajar por mundos paralelos, um bardo com o poder do teletransporte, um marquês que perdeu o seu precioso casaco, um príncipe devasso, uma ladra louca ao ponto de desafiar feiticeiros, um bom malandro apostado em desmascarar a indústria cinematográfica e uma punheteira são alguns dos aventureiros e patifes que podemos encontrar nesta antologia que mistura fantasia, ficção científica, policial e terror.

Todos adoram um patife… embora, às vezes, as pessoas sobrevivam para se arrepender.

É esta a premissa com que George R. R. Martin, o célebre autor de Crónicas de Gelo e Fogo, inicia esta aventura literária chamada Histórias de Aventureiros e Patifes. Em parceria com Gardner Dozois, Martin organizou no ano passado uma antologia chamada Rogues, sendo que este volume inclui apenas metade dela, com contos dos prestigiados Neil Gaiman, Patrick Rothfuss, Gillian Flynn, Scott Lynch ou do próprio George R. R. Martin, entre outros. Fica a esperança que publiquem o restante da obra, porque há outros autores interessantes como Joe Abercrombie, Daniel Abraham e Steven Saylor nesta antologia.

O objetivo foi exatamente reunir grandes nomes do mundo literário e escrever contos sobre grandes patifes. Esta antologia já me tinha chamado a atenção aquando da publicação no Brasil, com o título Príncipe de Westeros e Outras Histórias, pelo que não tardei muito a adquirir o livro após a publicação em Portugal. Mais do que a sedução de ler boas histórias de patifes, saltam à vista os nomes dos autores. Posso dizer que Scott Lynch e George R. R. Martin estão entre os meus autores preferidos, e Neil Gaiman, do pouco que li, também agradou-me bastante.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Recomendamos cautela a ler estes contos: há muitos patifes à solta.

Há personagens malandras e sem escrúpulos cujo carisma e presença de espírito nos faz estimá-las mais do que devíamos. São patifes, mercenários e aldrabões com códigos de honra duvidosos mas que fazem de qualquer aventura uma delícia de ler.
George R. R. Martin é um grande admirador desse tipo de personagens – ou não fosse ele o autor de A Guerra dos Tronos. Nesta monumental antologia, não só participa com um prefácio e um conto introduzindo uma das personagens mais canalhas da história de Westeros, como também a organiza com Gardner Dozois. Se é fã de literatura fantástica, vai deliciar-se!

Ao ler este livro, estará a assinar um pacto de comunhão com os seguintes autores:
Gillian Flynn – autora de Em Parte Incerta
Neil Gaiman – autor de Sandman
Patrick Rothfuss – autor de O Nome do Vento
Scott Lynch – autor de As Mentiras de Locke Lamora
Connie Willis – autora de O Dia do Juízo Final

E muitas outras mentes perversas da literatura fantástica.

OPINIÃO:

As altas expectativas pregam-nos partidas, e foi o que se sucedeu com este livro. Apesar dos nomes sonantes, não o considero um livro em nada superior aos nacionais Lisboa no ano 2000 ou Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa. Ainda assim, não posso classificar nenhum conto desta antologia como mau. Cada um à sua maneira, cada conto foi trabalhado de forma a mostrar ao leitor que as intenções dos protagonistas nem sempre são as que imaginávamos. E é na busca por esse patife encantador que autores tão formidáveis como George R. R. Martin ou Patrick Rothfuss conceberam estas Histórias.

A introdução do livro, pelo próprio Martin, soube apelar ao encanto da bandidagem na literatura e no cinema, e também alimentar as expectativas já por si elevadas em relação à antologia. Como o Marquês Recuperou o seu Casaco, foi uma pergunta à qual Neil Gaiman soube responder com a mestria que lhe é habitual. Habitado no mundo do seu livro Neverwhere, que ainda não tive oportunidade de ler, o Marquês de Carabás inicia uma aventura para recuperar o seu maravilhoso casaco, na insólita Londres-de-Baixo. Para aquilo que já li de Gaiman, e do que se esperava deste conto, achei-o um tanto ou quanto fraco, apesar de respeitar o proposto e deixar uma moral.

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Marquês de Carabás (Forfaxia em deviantart)

Proveniência, de David W. Ball, foi uma narrativa um pouco confusa em espaços temporais e até ligeiramente maçuda, de qualquer forma como amante de arte e de História não pude deixar de gostar de muitos dos factos apresentados ligados ao Renascimento e até ao período Nazi. O final acabou por deixar a claro o que a narrativa tinha confundido. Não foi de fácil leitura, mas surpreendeu. Por sua vez, Qual É a sua Profissão?, de Gillian Flynn, fez-me querer e muito ler os seus livros Em Parte Incerta e Lugares Escuros e Objetos Cortantes. Neste conto, conhecemos uma “punheteira” que devido a um problema no pulso começa a testar os seus dotes de charlatã, mas isso acaba por levá-la a uma casa possivelmente assombrada. A escrita da autora é deliciosa, e o seu conto foi um híbrido entre comédia e terror, brilhante em ambos os géneros. A parte final podia ter sido mais convincente, apesar disso o final em aberto veio coroar a história. Uma Forma Melhor de Morrer, de Paul Cornell, foi um conto que começou muito bem, com um interessante jogo de cartas, e acabou por ter um desfecho algo fraco. Trata-se de um conto de ficção científica, onde um agente secreto ao serviço de Sua Majestade encontra uma forma de si mais jovem num dos mundos em que o nosso se desdobra.

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Um Ano e um Dia na Velha Theradane (kenlaager)

Pelas mãos de Scott Lynch, passamos Um Ano e um Dia na Velha Theradane. Bem, eu sou suspeito porque adoro a escrita e as histórias de Scott, mas este foi certamente o meu conto preferido da antologia. Repetindo a fórmula de sucesso da saga de Locke Lamora, numa perspetiva mais feminina, o autor apresenta-nos uma grande trapaceira e o seu bando aparentemente reformado, composto por uma maga e a sua esposa artesã mecânica e armeira (sim, esposa), um autómato e uma “funcionária pública” com escamas na pele e um sem-número de recursos nos brincos. Num mundo em que os feiticeiros se enfrentam pelo poder, de uma forma quase cómica, encontramos espécies que podiam ter saído de um Star Wars, uma estalagem feita no esqueleto de um dragão, diálogos divertidíssimos e uma missão quase impossível. A Caravana para Nenhures, de Phyllis Eisenstein apresenta um personagem comum na escritora, Alaric, um bardo que consegue teletransportar-se de um lado para o outro. Perseguindo uma cidade presumivelmente imaginária, onde as questões dos oásis e as drogas ganham predominância no enredo, assistimos a uma viagem pelos desertos. A escrita é boa e a própria premissa também, mas no fim fica a sensação de que pouco aconteceu e nada prendeu o leitor.

O conto Galho Vergado de Joe R. Lansdale é um policial moderno e duro, com uma linguagem violenta (que se adaptou e me agradou) e uma escrita atraente, contando uma história de Hap e Leonard, uma dupla já conhecida deste escritor. Aqui, Hap vê a sua companheira desesperada pelo desaparecimento da filha, uma rapariga que, atraída pelo mundo das drogas e da prostituição, se viu parar em mãos pouco recomendáveis. Para salvar a garota, Hap recorre à polícia, que o aconselha a procurar fazer justiça pelas próprias mãos. A escrita é agradável, mas o protagonista pareceu um pouco chocho e algumas situações foram forçadas e estranhas, para além de tudo parecer um pouco cliché neste género de policiais.

Nunca li nada de Patrick Rothfuss, pelo que este Árvore Reluzente foi a minha estreia no mundo de O Nome do Vento. Confesso que esperava mais. A escrita é ótima, os diálogos cativantes, mas os personagens não me prenderam, o mundo apresentado provavelmente é o que de menos importa na obra do escritor mas não cativou nada, e as tramóias de Bast levaram tanto tempo a serem concluídas que me perdi completamente no meio de tantos recados e juramentos.

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Daemon Targaryen (ironthronerp)

Connie Willis é outra das autoras que não conhecia e fiquei agradavelmente surpreso. Em Exibição é uma crítica contundente ao mercado cinematográfico, à frivolidade da juventude e ao mundo em que vivemos. De forma divertida, a autora mostra-nos um futuro não muito longínquo, em que o Homem de Ferro 8, Os Piratas das Caraíbas 9 e o Dr. Who estão nos cinemas, e uma jovem adolescente vê-se arrastada para um terrível complot que a impede de ver o filme de Natal que deseja. E se os filmes em exibição não estivessem realmente em exibição? Adorei a escrita e o desenrolar dos acontecimentos. Por fim, O Príncipe de Westeros ou O Irmão do Rei, de George R. R. Martin, não foi nada do que eu esperava. Trata-se apenas de uma nota documental sobre um período de Westeros em que Viserys e o seu irmão Daemon Targaryen conspiravam um contra o outro. Credível, tanto nos pormenores apresentados, como nas várias interpretações que existem para os mesmos factos históricos, é um conto importante para quem deseja saber mais sobre os períodos que antecederam a Dança dos Dragões onde Daemon desapareceu misteriosamente após o confronto com Aemond, no Olho de Deus, provavelmente morto. Sendo uma simples nota documental, foi agradável de ler mas teve nada de extraordinário.

Por fim, fica a ideia que é uma antologia agradável, mas um pouco abaixo daquilo que eu esperava. O conto de Scott Lynch ganha o ouro das minhas preferências, ficando Gillian Flynn com a prata e Connie Willis com o bronze. De facto, estes três contos foram muito melhores que os restantes, na minha opinião. A todos os que gostem de uma boa história de vigaristas, claro que recomendo.

Avaliação: 7/10

Rogues (Saída de Emergência):

#1 Histórias de Aventureiros e Patifes

#2 Histórias de Vigaristas e Canalhas

Feira do Livro do Porto 2015

Oh yeah!!! É verdade, ontem comemorei um ano do lançamento do meu primeiro livro e decidi ir celebrá-lo… na Feira do Livro do Porto. Uma série de factores conjugaram-se para passar um dia memorável e assim foi. Aproveitei o bom tempo para conhecer mais da cidade do Porto e ainda andei à procura da Sara Carbonero, mas a malvada devia andar a passear com o apanha-bolas espanhol, e faltou ao nosso encontro. 😀 😀 😀 Ainda assim, boa companhia não me faltou e visitei a Feira do Livro com grande entusiasmo. Em comparação com a Feira de Lisboa, a imagem é bem mais humilde e tristonha, mas compensou com a abundância de sombras e o número de representações em bancas deve ter sido ela por ela, com destaque para livrarias da zona do Porto e alfarrabistas. Os Jardins do Palácio de Cristal são o palco do evento, que não é feito só de livros. Gostei bastante dos momentos musicais e da animação constante. A afluência foi muita, mas os jardins têm muitos e bons escapes para uma pessoa relaxar e tirar fotografias com vista para o Douro. Dei o tempo por muito bem empregue e aconselho quem puder ir, a não deixar escapar essa oportunidade, podem fazê-lo até ao dia 20 de Setembro.

20150906_164151Findo este passeio, tenho já em vista o próximo fim-de-semana, onde me esperam responsabilidades acrescidas: sábado, com a apresentação de um evento de desfiles em Vestidos de Chita, e domingo, com mais uma sessão de autógrafos, desta feita na ALPIAGRA, em Alpiarça.

Deixo-vos, então, com um pequeno balanço do que comprei na Feira do Livro do Porto. Depois de correr toda a Feira do Livro, optei pela banca da Saída de Emergência, que normalmente reúne livros que mais me agradam. Ao excelente preço de 5 euros, comprei o Lisboa Triunfante de David Soares e ainda a antologia Sombra Sobre Lisboa, que já há algum tempo me despertava interesse. Adquiri ainda o Herói das Eras do Brandon Sanderson. Neste momento ainda estou a ler o primeiro volume, mas o preço agradou-me e como estou a gostar do livro apostei nele. Falta-me adquirir o segundo volume, mas vou esperar mais uns tempos. As Mentiras de Locke Lamora chamaram-me desde logo a atenção. É verdade que já li o livro, mas precisava tê-lo na estante e o preço de feira é bem mais razoável que o preço normal. Trouxe ainda gratuitamente o Dardo de Kushiel de Jacqueline Carey e A Filha de Sangue de Anne Bishop, mas não são para mim.

Sem títuloHERÓI DAS ERAS (MISTBORN #3), Brandon Sanderson

Para pôr fim ao Império Final e restaurar a harmonia e a liberdade, Vin matou o Senhor Soberano. Mas, infelizmente, isso não significou que o equilíbrio fosse restituído às terras de Luthadel. A sombra simplesmente tomou outras formas, e a Humanidade parece amaldiçoada para sempre.

O poder divino escondido no mítico Poço da Ascensão foi libertado após Elend e Vin terem sido ludibriados. As correntes que aprisionavam essa força destrutiva  foram quebradas e as brumas, agora mais do que nunca, envolvem o mundo, assassinando pessoas na escuridão. Cinzas caem constantemente do céu e terramotos brutais abalam o mundo. O espírito maléfico libertado infiltra-se subtilmente no exército do Imperador Elend e os seus oponentes. Cabe à alomante Vin e a Elend descobrir uma forma de o destruir e assim salvar o mundo. Que escolhas irão ser ambos forçados a tomar para sobreviver?

Sem títuloAS MENTIRAS DE LOCKE LAMORA (CAVALHEIROS BASTARDOS #1), Scott Lynch

Diz-se que o Espinho de Camorr é um espadachim imbatível,um ladrão mestre, um amigo dos pobres, um fantasma que atravessa paredes. De constituição franzina e quase incapazde pegar numa espada, Locke Lamora é, para mal dosseus pecados, o afamado Espinho. As suas melhores armas são a inteligência e manha à sua disposição. E embora seja verdade que Locke roube dos ricos (quem mais vale a pena roubar?), os pobres nunca vêem um tostão. Todos os ganhos destinam-se apenas a ele e ao seu bando de ladrões: os Cavalheiros Bastardos. O submundo caprichoso e colorido da antiga cidade de Camorr é o único lar que o bando conhece. Mas tudo vai mudar: uma guerra clandestina ameaça destruir a própria cidade e os jovens são lançados num jogo de assassinos e traidores onde terão de lutar desesperadamente pelas suas vidas. Será que, desta vez, as mentiras de Locke Lamora serão suficientes? 

Sem títuloLISBOA TRIUNFANTE, David Soares

O romance definitivo sobre uma Lisboa mágica, simultaneamente um tesouro literário e um triunfo da imaginação.

Lisboa Triunfante é um romance épico sobre a rivalidade entre duas figuras misteriosas, cuja contenda milenária se cruza com a história da capital portuguesa. Desde as origens pré-históricas de Lisboa até aos anos turbulentos que antecederam a implantação da República, passando pela elevação da cidade a capital do Reino por Afonso III e pela construção enigmática do Mosteiro dos Jerónimos, a galeria de personagens que dão vida a Lisboa Triunfante contém figuras como Frei Gil de Santarém, D. João V e Aquilino Ribeiro. Reunindo elementos de romance histórico e fantástico, este é o livro definitivo sobre uma Lisboa mágica, que possui tanto de reconhecível quanto de maravilhoso. Lisboa Triunfante é um triunfo da imaginação.

Sem títuloA SOMBRA SOBRE LISBOA, Vários Autores

Contos Lovecraftianos na cidade das sete colinas
“O que aconteceria se o fabuloso imaginário de Howard Phillips Lovecraft? considerado o maior escritor de terror fantástico de sempre fosse aplicado à cidade de Lisboa, às suas colinas inclinadas, becos escuros e prédios seculares? Guiados pela imaginação de autores tão diferentes como Rhys Hughes, António de Macedo, David Soares, João Barreiros ou José Manuel Lopes, entre outros, somos convidados para um passeio ao longo da história milenar de Lisboa e dos seus segredos mais obscuros. Entrelaçando artefactos, criaturas e intrigas lovecraftianas com factos e personagens históricas da nossa capital, o resultado é uma obra original, simultaneamente divertida e perturbadora, verdadeiro tributo não só a Lovecraft mas também à cidade de Lisboa. Prepare-se para descobrir que horrores presenciaram os fenícios na foz do Tejo… O que levou a que os mouros invadissem a península… Que monstros encontraram as caravelas durante os descobrimentos… Qual a verdadeira razão para o terramoto de 1755… Que estranhos cultos combateu Eça de Queiroz… Qual a verdadeira razão para a interrupção das obras do metro da Baixa… E muito mais!”

República de Ladrões, The Gentleman Bastards #3

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “República de Ladrões”, terceiro volume da série The Gentleman Bastards

É impossível falar de Locke Lamora sem falar do seu criador, Scott Lynch. Apesar do seu trabalho ser pouco valorizado no nosso país, aqueles que realmente leram e se encantaram pelo mundo de Lamora e companhia tornaram-se fãs acérrimos do autor. Como escritor (ou aspirante a tal), revejo-me imenso na maneira de escrever de Scott e em oito meses li três livros da sua saga. Perdoem-me aqueles que detestam Dan Brown e adoram as peripécias de Locke Lamora, mas para mim, Scott Lynch é o Dan Brown do fantástico. República de Ladrões é o terceiro da série The Gentleman Bastards e como é seu apanágio, não faltam truques, roubos e engodos naquela que é a ambiciosa aventura de um jovem ladrão, com tanto de inteligente como de exuberante.

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Locke Lamora (tumblr)

O segundo volume deixou os leitores apreensivos em relação ao futuro do personagem principal. Locke foi envenenado e tudo parece correr mal para o nosso príncipe das tramóias, mas mesmo num cenário tão realista como é este mundo sem nome, algo de mágico há de surgir para salvar a vida ao herói. Começamos este livro com uma sufocante busca por um antídoto que reverta o estado terrível do protagonista, busca essa protagonizada pelo seu inseparável amigo Jean Tannen. Pois bem, depois de tanto desespero, eis que alguém aparece e oferece a cura a Locke, mas… normalmente quando a esmola é muita, o pobre desconfia. E com razão.

Jean e Locke são obrigados a viajar para Kartane, a cidade habitada pelos terríveis magos-servidores. Desta vez, em vez de usarem os outros como peões para as suas tramóias, são eles a ser utilizados para influenciar – e boicotar – o desenlace de umas eleições. O que Locke Lamora não podia adivinhar era que viria a encontrar tanto do seu passado naquela cidade tão estranha e desconhecida.

O que mais me fascina neste mundo fantástico (para além da escrita deliciosa do autor e do humor ácido sempre presente) é a sua aura renascentista, com toques de steampunk que fazem este mundo poder pertencer a um espaço temporal do passado ou futuro, ou até localizar-se num outro planeta. Recordo que o mundo de Lynch foi concebido por extraterrestres (os Ancestres), que certo dia resolveram abandoná-lo, por alguma razão desconhecida, deixando como herança todo aquele vasto leque de ilhas e cidades costeiras com os seus múltiplos dialetos, para além de construções idílicas de uma matéria robusta (presume-se ser uma espécie de vidro) chamado vidrantigo.

Sem Título
Capa Arqueiro
SINOPSE:

Envenenado e à beira da morte, Locke Lamora segue para o norte com o seu parceiro, Jean Tannen, em busca de refúgio e de um alquimista para curá-lo. Porém, a verdade é que ninguém pode salvá-lo. Com a sorte, o dinheiro e a esperança esgotados, os Cavalheiros Bastardos recebem uma oferta de seus arqui-rivais, os Magos-Servidores. As eleições do conselho dos magos aproximam-se e as fações precisam de alguém para fazer o trabalho sujo, manipulando votos. Se Locke aceitar, o veneno será purgado do seu corpo com o uso de magia – mas o processo será tão excruciante que ele vai desejar morrer. Locke acaba cedendo ao saber que o partido da oposição contará com uma mulher do seu passado: Sabetha Belacoros, a única pessoa capaz de se igualar a ele nas habilidades criminosas e mandar no seu coração. Novamente numa disputa para ver quem é o mais inteligente, Locke precisa decidir-se entre enfrentar Sabetha ou cortejá-la, e a vida dos dois pode depender dessa decisão. 

OPINIÃO:

O segundo volume, apesar de cenas incríveis como as do casino e de personagens memoráveis como Requin, Maxilan Stragos e Ezri Delmastro, desiludiu-me em alguns aspetos. A descrição da vida no mar foi morosa e Locke pareceu perder algum brilho. De qualquer forma, continuei atraído pela escrita de Scott Lynch e pela audácia dos seus personagens, e foi com saudades do Locke Lamora do primeiro livro que peguei no terceiro volume. E não é que o reencontrei? Todo o ambiente renascentista regressa neste volume, e somos convidados a entrar no lado mais esotérico deste mundo fictício.

Em Lashane, Locke Lamora e Jean Tannen são convidados pelos maquiavélicos magos-servidores a ter participação nas eleições de Kartane. Por outras palavras, são obrigados a usar de toda a sua ardileza e perspicácia para manobrar as votações entre os dois principais partidos políticos da cidade-estado.

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Pormenor da capa francesa

É um livro com grande carga política, que testa aos limites a capacidade de estratégia e improviso de Locke, e também do seu grande rival. Rival este que, como a própria sinopse revela (um grande spoiler, portanto), trata-se de Sabetha, o grande amor da vida de Locke Lamora. Ela é linda, esperta e audaz, e a relação de Locke e Sabetha é de uma verdadeira guerra de amor-ódio até ao fim, mais uma batalha contra os seus próprios sentimentos do que pelas suas cores políticas. Identifiquei-me imenso com a relação dos dois e posso dizer que o modo que Locke tem de encarar a vida ajudou-me também a encarar a minha situação pessoal. Revi-me a 100% no personagem e isso ajuda a que eu ache este livro brilhante. Hilariante e genial.

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Locke Lamora (Browse Art em deviantart)

Não gostei tanto da verdadeira identidade e nome do Locke, nem da decisão final (algo abrupta) dos magos, descaracterizando um pouco a imagem que tinha de Kartane. Os interlúdios, principalmente o passado dos Cavalheiros Bastardos em Espara, também me desagradaram; cortando essa parte o livro seria perfeito. Ainda assim, este é dos melhores livros que eu já li na vida. E o epílogo… Ah, o epílogo foi um bónus extra. Lembram-se do temível mago-servidor, o Falcoeiro? Bem, ele está de regresso.

Avaliação: 9/10

The Gentleman Bastards: 

#1 As Mentiras de Locke Lamora (Saída de Emergência)

#2 Mares de Sangue (Arqueiro)

#3 República de Ladrões (Arqueiro)