Especial Páscoa: 5 Razões Para Ler Scott Lynch

Se para muitos Scott Lynch é considerado como um dos mais problemáticos casos de sucesso da literatura fantástica recente – obstáculos patológicos como ansiedade e depressão têm sistematicamente adiado o lançamento do seu próximo livro, o que o coloca em vias de se tornar mais um “Martin & Rothfuss da vida” – para mim ele é não só um dos mais promissores autores do género como um dos melhores. Efetivamente.

Perdoe-me o fandom de Brandon Sanderson, mas dos 6 livros que já li dele, nenhum me causou tanto impacto e vertigem quanto os bem mais despretensiosos livros de Scott Lynch. E isso porque Scott não dá destaque à magia e ao wordbuilding, ainda que estes sejam alicerces para a sua obra. Os mundos criados não são o mais importante, importa sim o maravilhamento do que está lá dentro. O próprio mistério em torno do seu passado coletivo só alimenta a imaginação dos leitores. E se o que estiver lá dentro forem personagens incríveis e credíveis, com uns pozinhos de magia como cereja no topo do bolo, então estamos no caminho certo. 

A ideia deste artigo é fazer um pequeno passeio pelos seus trabalhos e apontar razões válidas para que mais pessoas o possam ler. Convém, por isso, começar pelo início.

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Scott Lynch e Elizabeth Bear (Fantasy-Faction)

Quem é Scott Lynch?

Se és fã de fantasia e não sabes quem é Scott Lynch… espero que pelo menos já tenhas ouvido falar de As Mentiras de Locke Lamora, o seu único romance publicado em Portugal. Primeiro de três irmãos, Scott nasceu a 2 de abril de 1978, em St. Paul, Minnesota. Depois de passar por uma série de empregos, de barman a bombeiro, Scott viria a tornar-se um sucesso de vendas com o seu primeiro romance. Vive em Massachusetts e é casado com a também escritora Elizabeth Bear.

Completamente apaixonado por jogos de computador e RPG’s, Scott revelou-se desde cedo um ótimo contador de histórias. Tanto a escrita como a imaginação revelam uma tremenda irreverência, própria de um espírito vivo e enérgico que tenta, a todo o momento, sacudir o mundo em que vive. Essa inquietação e sede de mudança reflete-se nos seus personagens, ricos em carisma e em dissonâncias. Locke Lamora é o exemplo perfeito.

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Locke Lamora (scottlynch78.tumblr)

 

O NDZ dá-te 5 razões para leres Scott Lynch

UMA ESCRITA RICA E FLUÍDA

Scott Lynch começou a sua carreira literária em 2006, um início tão auspicioso que por si só fala muito sobre as suas capacidades. O romance de estreia, As Mentiras de Locke Lamora, foi finalista do Prémio World Fantasy Award em 2007. Também em 2007, e por dois anos seguidos, foi nomeado para o Prémio John W. Campbell para Melhor Novo Escritor. Em 2008, venceu o Prémio Sydney J. Bound para Melhor Recém-Chegado pela academia British Fantasy Society.

Só em 2014, porém, ouvi falar deste autor e, impulsionado pela extraordinária ressonância do seu sucesso, me adentrei neste mundo fantástico. As Mentiras de Locke Lamora tornou-se um dos meus livros preferidos de sempre.

Sem grandes saídas poéticas, Scott não deixa de ser fenomenal enquanto escritor. Ele consegue levar o sorriso aos lábios do leitor mais desprevenido ao cozinhar frases aparentemente simples de uma forma irreverente e divertida. Paralelamente à grande capacidade de narração, ele parece sempre imbuído de uma adrenalina altíssima, que faz parecer estar constantemente inspirado. Ritmo e riqueza de vocabulário caminham permanentemente, lado a lado.

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Locke Lamora (kejablank em deviantart)
UM MUNDO CREDÍVEL

The Gentleman Bastards é uma sequência de sete livros, dos quais apenas três estão escritos e publicados. Somos apresentados a um mundo credível, inspirado no Mediterrâneo renascentista, um mundo selvagem e insano baseado no salve-se quem puder que propicia a disseminação de toda a espécie de vigaristas e criminosos. Locke Lamora começa a narrativa como um menino problemático entregue a um padre cego, que se revela um treinador de ladrões disciplinado e munido de várias artimanhas e recursos, ensinando aos seus sequazes o seu míster.

É aí que Locke Lamora se torna prodigioso na arte de usar as mãos e a passar despercebido, ao mesmo tempo que encontra nos seus companheiros órfãos uma família. Pouco a pouco, vai reclamando um lugar silencioso à sombra dos canais, nas ruas esquálidas de Camorr. Os planos tornam-se mais ousados, um após o outro, de forma tão perigosa para os protagonistas que se torna viciante. E é aí, ao tocar nas “pessoas certas” que eles despertam a atenção dos poderes latentes na cidade.

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Capas originais de The Gentleman Bastards

Ainda que seja um mundo fantástico, a ousadia paga-se caro. Os personagens não têm aqui capacidades extra-humanas para os livrarem com facilidade de problemas criados. Eles sofrem abusos, estupros, espancamentos, tentativas de afogamento, e por aí fora. Exemplos são muitos. Uma menina é morta e entregue ao pai dentro de um barril cheio com urina de cavalo. O protagonista é completamente humilhado por uma boa dezena de vezes.

Se Camorr é inspirada na Veneza renascentista, outras cidades costeiras fazem-nos lembrar lugares preciosos da nossa História, banhados pelo familiar Mar Mediterrâneo. Karthain, a terra que serve de sede aos terríveis magos-servidores, surge no terceiro livro da sequência e recende à Grécia do período supra-citado. Scott revela mão para criar cenários reais. Sem descurar, claro está, a estoica política desses locais maravilhosos.

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Camorr (Fredrik Dahl)
UM AMBIENTE FANTÁSTICO

Embora bastante credível, o mundo construído por Scott Lynch não dispensa a sua boa dose de fantasia. As construções mantêm o remanescente de uma arquitetura milenar produzida com vidrantigo, uma substância de origem enigmática. Tão enigmática como os seus construtores, um povo antigo conhecido como os Ancestres, que por alguma razão desconhecida desapareceu do mundo.

Para além de uma boa série de animais originais, Scott também criou um desporto de gladiadores com tubarões, abrilhantado pelas irmãs Berangias. As ciências alquímicas também fazem parte da trivialidade do mundo. Mas é com os magos-servidores, porém, que o autor norte-americano mais explora o fantástico. Eles são uma estirpe de pessoas dotadas de uma grande variedade de recursos mágicos, capazes de controlar um indivíduo se souberem o seu nome verdadeiro. Com tais capacidades, dedicaram-se a um ofício: servir aqueles que os podem remunerar, em troca dos seus serviços. Daí vem o termo que lhes dá nome.

As origens de Locke Lamora também estão envoltas em fantasia e irrealidade, mas irei poupar-me às revelações do terceiro livro para não cair em spoilers. A mitologia criada revela tanto ou tão pouco que nos deixa a salivar por mais. Num total de treze deuses, os mais interessantes são Aza Guilla, a deusa da morte e do silêncio, Perelandro, o bondoso Pai das Misericórdias e o misterioso Treze Sem Nome, o senhor dos ladrões.

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Personagens de The Gentleman Bastards (scottlynch78.tumblr)
AUDÁCIA, HUMOR E ORIGINALIDADE

A audácia e a originalidade estão interligadas em toda a obra de Scott Lynch, e são uma constante. Se em As Mentiras de Locke Lamora assistimos a um sem-número de peripécias à Ocean’s Eleven protagonizadas por um miúdo franzino com alma de Jack Sparrow, o estratagema das cadeiras que permeia todo o livro Mares de Sangue e os jogos em volta de Requin e Selendri nunca serão esquecidos. Locke Lamora é um personagem incrível em cada livro. A culpa, claro está, é de Scott.

O risco a que submete os seus personagens aumenta a cada volume. De um afogamento, espancamento, envenenamento e quase morte, Locke Lamora prova os sabores mais amargos a que um ser humano pode ser submetido – incluindo a morte de entes-queridos – sem nunca perder o sentido de humor. Se há alguém que sabe entremear uma tragédia com uma boa dose de humor, é Scott Lynch. Os seus livros são trágicos, dramáticos e cruéis. E conseguem ser permanentemente divertidos.

 

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Jean Tannen e Locke Lamora (dottedmelonart.tumblr)

Scott entrou para a minha lista de autores preferidos de chapão, e parece quase karma que ele me responda às minhas perguntas interiores a cada livro que leio. As Mentiras de Locke Lamora fizeram-me rir num outono insalubre, Mares de Sangue deram-me inspiração num momento desinspirado e República de Ladrões falou-me como curar feridas de amor quando mais precisei de o fazer.

A relação incrível entre Locke Lamora e Sabetha Belacoros veio mostrar o lado mais sentimental do personagem, que ainda assim se transforma num combate de personalidades, uma disputa apaixonada nada lamechas. Jean Tannen é o protetor que todos gostariam de ter. Para além de esperto, o melhor amigo de Locke tem a força de braços e o poderio físico que ele não possui. E Calo e Galdo, os gémeos ladrões, são o alívio cómico que permeia toda a obra. Não há margem para dúvidas, o humor é um dos pontos fortes do autor.

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The Gentleman Bastards (scottlynch78.tumblr)
LOCKE LAMORA E AMARELLE PARATHIS

Os três volumes de The Gentleman Bastards e o conto Um Ano e Um Dia na Velha Theradane (publicado em Portugal na antologia Histórias de Aventureiros e Patifes) são os trabalhos mais conhecidos de Scott. Por isso, é impossível não comparar o Espinho de Camorr à Duquesa Invisível do seu conto.

Ainda que os mundos sejam substancialmente diferentes – o conto apresenta dragões, bestas e criaturas ainda mais estranhas – os genes do autor estão lá. Personagens muito bem construídos, originais e acima de tudo irreverentes. Desde um autómato fora de forma a uma mecânica lésbica, somos presenteados com um braço-de-ferro entre um ladrão – a super mundana Amarelle Parathis – e um feiticeiro. Algo que também assistimos no mundo de Locke Lamora, em que a magia ocupa um lugar bem menos importante.

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Scott Lynch (flyer da Phoenix ComiCon)

De qualquer forma, os dois personagens parecem ser a outra metade um do outro. Amarelle Parathis é a versão feminina de Locke Lamora, em toda a sua rebeldia e ostentação. E tudo se resume a golpes ousados e logros e canecas e gargalhadas e miséria. Por todos estes motivos e mais alguns, a obra de Scott Lynch é a minha preferida no mundo da fantasia e não me canso de recomendá-la como se se tratasse de um bom chocolate. Boa Páscoa a todos.

 

TAG – Carnaval Literário

Boa tarde! Hoje trago-vos uma TAG literária propícia à quadra. É a TAG – Carnaval Literário e e todos estão convidados a fazer a sua. Vamos ver o que me vai calhar. :p

#1 O melhor carro alegórico

Um livro que todos adoraram, tu estavas com medo de ler e acabaste por cair no hype

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O Império Final é, definitivamente, um livro que eu tinha a certeza que ia odiar antes de ler. Felizmente Brandon Sanderson trocou-me as voltas e embora Mistborn tenha as suas falhas, é uma saga que recomendo a todos os amantes de boa fantasia.

#2 A vida são dois dias, mas o Carnaval são três

Um livro que lias, lias, lias, e parecia nunca mais acabar

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O quarto livro da Saga do Assassino de Robin Hobb, A Vingança do Assassino, foi uma verdadeira indigestão. Sequências lentas repetiram-se umas atrás das outras, e apesar de não ter desgostado do livro no seu todo (e confesso já ter saudades da saga), foi um volume de tamanho médio que demorei muito tempo a ler.

#3 Camarote VIP

Um livro que leste antes de virar moda

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Bem, não posso dizer que fui um pioneiro na leitura de A Guerra dos Tronos (nem pouco mais ou menos), mas li-o mal saiu a primeira temporada da série de televisão e o hype ainda não era nada comparado ao que se tornou.

#4 Atrás da multidão

Um livro que “toda a gente leu” e tu ainda não

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A par das séries de Peter V. Brett e Robert Jordan, Crónicas do Regicida de Patrick Rothfuss é uma das mais famosas que ainda não tive o privilégio de ler. Apesar de já ter lido um conto de Rothfuss que não me convenceu, espero que este seja o ano em que finalmente leia O Nome do Vento.

#5 Loucura Total

Um livro que todos te aconselharam e… não gostaste

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Sandman, de Neil Gaiman, é uma das obras mais consensuais dentro do universo das bandas-desenhadas. Apesar de não ter gostado do primeiro volume, Prelúdios e Nocturnos, insisti na leitura e li toda a série. Não conseguiu agradar-me por aí além em nenhum momento, mas reconheço o seu mérito.

#6 Terça-Feira é o último dia

Um livro que chegou ao fim, mas querias que não acabasse ali

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Sem dúvida um dos meus livros preferidos de sempre, República de Ladrões de Scott Lynch não conseguiu atingir o patamar de excelência do primeiro volume da sua série, As Mentiras de Locke Lamora, mas ainda assim deixou-me com aquele gostinho de “quero mais” pela chuva de expectativas que o final deixa para o quarto volume.

#7 Depois do Carnaval, a ressaca

O livro que te deixou com a maior ressaca literária

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O último livro das Crónicas de Gelo e Fogo. Pois é, senhor Martin. Temos muito que falar. Deixar os leitores anos e anos à espera para saber o que aconteceu, quando os protagonistas da saga estavam em situações críticas, é mau demais. Os Reinos do Caos deixou-me de ressaca até hoje.

Sintam-se à vontade para participar e responder à TAG – Carnaval Literário.