Estive a Ler: A Torre Negra, A Torre Negra #7

Bebé lindo, quero que tragas,

Bebé adorado, as tuas bagas

Chussit, chissit, chassit!

Vem encher esta cestinha!

O texto seguinte aborda o livro “A Torre Negra”, sétimo volume da série A Torre Negra

A Torre Negra é o último volume da série homónima, a conclusão épica para a visionária história concebida por Stephen King ao longo de trinta anos de paragens e arranques. O autor dispensa apresentações. Famoso autor de thrillers de terror e suspense, como It, Under The Dome, Carrie ou Shinning, King transporta para as páginas os medos mais básicos do ser humano, contando histórias mais ou menos credíveis com uma mestria ímpar.

A Bertrand Editora chega, em 2017, à publicação do último volume da saga, um livro com 888 páginas que narra a chegada do pistoleiro Roland de Gilead à tão almejada Torre Negra. A edição conta com tradução de Rosa Amorim e com ela é assente um pesado tijolo como conclusão para a história épica de Stephen King, um autor que se torna ele próprio personagem no mundo criado, um personagem-chave, que se insere tão bem nesse mundo como os personagens de outras obras, como é o padre Callahan.

Sem Título
Fonte: http://www.rollingstone.com/culture/features/stephen-king-the-rolling-stone-interview-20141031

Vim acompanhando, durante os últimos anos, a travessia do deserto de Stephen King que foi esta A Torre Negra. Na nota de autor, ele deixa claro que esteve longe de ser um trabalho bem sucedido no seu todo, mas não existem livros ou séries perfeitas e eu estou perto de sublinhar essa afirmação. Foi uma saga escrita ao sabor do vento, com nomes e criaturas e simbologias criadas do pé para a mão, por auto-recriação do autor. Foi uma série permanentemente em aberto, onde a imaginação de King imperou quando lhe faltava uma linha a seguir, o que se notou permanentemente.

Se houve um esqueleto previamente determinado para a saga A Torre Negra, ele transformou-se em pó ainda no primeiro terço do caminho. A partir do quarto livro, ficou claro que King andava ao sabor do vento, criando novas temáticas e símbolos para desenvolver a narrativa. E a verdade é que funcionou muito, mas muito bem, a partir do momento em que percebemos que os tão falados números 19 e 99, que apareciam permanentemente, cada um num dos mundos, estavam diretamente relacionados à data em que o autor foi atropelado durante uma caminhada a pé.

Sem título
Fonte: Bertrand Editora

Claro está, o volume final de A Torre Negra está repleto de duelos interessantes e grandes confrontos, mortes, confissões, perdas e esperanças. Não irei estragar a surpresa aos possíveis leitores, mas o texto seguinte contem alguns spoilers dos volumes anteriores. Não muitos. Estás por tua conta e risco.

“Na nota de autor, ele deixa claro que esteve longe de ser um trabalho bem sucedido no seu todo, mas não existem livros ou séries perfeitas e eu estou perto de sublinhar essa afirmação.”

A partir do momento em que Stephen King, ainda no volume A Canção de Susannah, se torna ele mesmo um personagem da saga, muitos dos disparates inventados por King começam – forçadamente ou não – a fazer sentido e a apontar para o final apoteótico desta grande saga literária. Apoteótico pode não ser a palavra adequada e o final não me parece ter enchido grandemente as medidas a ninguém, nem sequer ao autor, mas foi o final mais coerente e sentenciador que se podia esperar.

Este volume final começa com Jake, Oi e o padre Callahan a entrarem no Dixie Pig de armas em punho. O bar estava empestado de canibais, fossem eles vampiros, taheen ou outras coisas hediondas. O grupo estava separado, devido às diferentes missões que foram atribuídas aos diferentes membros do ka-tet, mas no mundo real, estes três personagens estavam destinados a tentar salvar Susannah, que havia sido levada por ali por Richard Sayre, um terrível vampiro.

Sem Título
Fonte: http://darktower.wikia.com/wiki/Dark_Tower

Susannah e Mia podiam ser vistas como uma e a mesma pessoa, muito embora não o fossem. Mia era uma criatura faminta e carente que necessitava absurdamente de ser mãe. Susannah fora a hospedeira, engravidando no momento em que haviam aberto o portal para Jake entre os mundos e ela fora obrigada a fornicar com um demónio para o distrair. Assim sendo, a criança teria duas mães (Susannah e Mia) e dois pais (Roland e o Rei Rubro). Sayre levou-a para o trabalho de parto através do Dixie Pig, numa sala confinada onde finalmente nasceu Mordred. O menino parecia um bebé normal, mas rapidamente se transformou numa aranha com cabeça de bebé. E com os olhos de Roland.

Roland Deschain de Gilead e Eddie Dean de Nova Iorque, por sua vez, viajaram para outro quando do nosso mundo, na tentativa de encontrar Stephen King e obrigá-lo a escrever a história da Torre Negra, de modo a salvar o Feixe. Tarefa concluída, são obrigados a tratar de certos pormenores para impedir certos paradoxos e decidem-se a reencontrar os seus companheiros, usando a palavra mágica Chassit.

O restante da história é um arrastar de acontecimentos viciante, dos confrontos armados no Dixie Pig, ao assalto a Algul Siento, à corrida contra o tempo para salvar King, às participações mais do que especiais de Sheemie, Ted Brautigan, Moses Carver, Joe Cullum e Patrick Danville. Só posso revelar que, no fim, Roland de Gilead encontra a Torre Negra e é mesmo uma torre e é mesmo negra, tal como o nosso imaginário coletivo a reproduz, embora possa não ser exatamente aquilo que Roland esperava. A caça de Mordred ao seu pai e o encontro com o Rei Rubro (com as suas sneetches do Harry Potter) são alguns dos momentos mais tensos da obra, sem deixar de lado uma certa dose de diversão.

Sem Título
Fonte: https://www.inverse.com/article/32091-stephen-king-books-the-dark-tower-cujo

Em vários momentos da reta final, o livro fez-me lembrar o Senhor dos Anéis. O tom de desolação, a atração da Torre, o mal que nela vive, a sensação de que alguém espia os personagens, remete bastante para a perseguição de Gollum aos hobbits e àquela última caminhada de Frodo e Sam em direção a Mordor. Mas a descrição de Stephen King inebria-nos com o cheiro das rosas, com os sons na cabeça de Roland, com a dor e com os sentimentos que florescem no personagem. King é dono de um poder de descrição que nos transporta de pronto para os lugares imaginados.

Mas é quando mata personagens que ele se supera. As cenas de mortes são as melhores dos livros e compensam largamente os momentos de literal palha que permeiam a série. Porque sim, são muitos. Este volume final tem quase 900 páginas e podia perfeitamente ser cortado pela metade e contar a mesma história. King enche chouriços com diálogos imensos e alguns até absurdos, capítulos do ponto de vista de personagens novos e sem importância só para os ver a morrer a seguir, por exemplo.

Sem Título
Fonte: https://www.theverge.com/2017/8/3/16088532/dark-tower-movie-review-adaptation-stephen-king-idris-elba

Vi-me, durante várias passagens do livro, a pensar por que raio escolheram Idris Elba para protagonista do filme quando o autor sublinha várias vezes que Roland é parecido com Clint Eastwood. E dei por mim a sorrir quando, num dos trechos finais do livro, há uma voz qualquer que diz ao personagem que ele vai obscurecer e mudar de cor. Faça sentido ou não, continuo a não gostar da escolha para o papel, mas como diz o povo, isso são outros quinhentos.

“Mas é quando mata personagens que ele se supera.”

É uma série que recomendo. Não entra no topo das minhas favoritas, mas é uma saga com cabeça, tronco e membros, com muitos momentos divertidos, com uma simbologia única e incrível que remete grandemente para a própria vida do autor e para outras das suas obras, e que nos faz criar uma conexão muito grande com o grupo protagonista. É impossível não passar ao lado do final que King reservou para cada um deles. Obrigado-sai. Longos dias e noites agradáveis.

Avaliação: 8/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e a Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

#7 A Torre Negra

Anúncios

Resumo Trimestral de Leituras #8

Chego ao final do ano com a sensação de objetivos cumpridos e um ano pleno de excelentes leituras. Este último trimestre foi rico em obras diversificadas, com algumas das melhores avaliações do ano a ocorrerem neste período. Podem ver a lista anual aqui e segue em baixo os livros lidos no último trimestre:

Proxy: Antologia Cyberpunk – Vários Autores

O Cavaleiro da Morte, Crónicas Saxónicas #2 – Bernard Cornwell

Fome de Vencer, Tony Chu: Detective Canibal #5 – John Layman e Rob Guillory

A Canção de Susannah, A Torre Negra #6 – Stephen King

Suíte do Apocalipse, Umbrella Academy #1 – Gerard Way e Gabriel Bá

As Primeiras Quinze Vidas de Harry August – Claire North

Saga Vol. 5 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

A Lâmina, A Primeira Lei #1 – Joe Abercrombie

Dallas, Umbrella Academy #2 – Gerard Way e Gabriel Bá

Prelúdios e Nocturnos, Sandman #1 – Neil Gaiman

Jardins da Lua, Saga do Império Malazano #1 – Steven Erikson

Casa de Bonecas, Sandman #2 – Neil Gaiman

Terra do Sonho, Sandman #3 – Neil Gaiman

Rei dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #2 – Mark Lawrence

The Horror in the Museum – H. P. Lovecraft

Aniquilação, Área X #1 – Jeff Vandermeer

The Walking Dead: The Alien – Brian K. Vaughan e Marcos Martin

Estação das Brumas, Sandman #4 – Neil Gaiman

O Terceiro Desejo, The Witcher #1 – Andrzej Sapkowski

sem-tituloO mês de outubro começou com a leitura de uma excelente coletânea de contos portugueses. Antologia da Editorial Divergência, Proxy: Antologia Cyberpunk conta com alguns dos autores nacionais mais talentosos. Reúne seis histórias mirabolantes passadas em mundos futuristas que conquistam pela originalidade. Todos os contos são protagonizados por mulheres; os que mais me agradaram foram Alma Mater de José Pedro Castro e Bastet de Mário Coelho. Logo depois li O Cavaleiro da Morte. O segundo volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell traz-nos um Uthred imaturo e intempestivo, que continua dividido entre o sangue saxão que lhe corre nas veias, e o fervor guerreiro dos viquingues, que o criaram. As contingências colocam-no do mesmo lado que Alfredo, o Rei saxão, e contra o seu irmão de criação. Uma escrita brilhante, um dos melhores romances históricos que já li.

sem-titulo-2Em Fome de Vencer, com argumento de John Layman e ilustração de Rob Guillory, a banda-desenhada Tony Chu: Detective Canibal volta a surpreender. Neste quinto volume, a filha de Tony Chu é raptada pelo terrível Mason Savoy, enquanto ele e o seu parceiro são despromovidos. Mais tarde, o próprio Chu é raptado por um jornalista desportivo, que quer usar os seus dons cibopáticos para descobrir os podres das principais estrelas de futebol. A Canção de Susannah é o penúltimo volume da saga visionária de Stephen King, A Torre Negra. Soberbo em toda a sua largura, King consegue oferecer um livro cheio de ação e suspense, dividindo o ka-tet (grupo de protagonistas) em três grupos. Susannah, grávida de um demónio, caminha para o parto na Nova Iorque de 1999; Jake, Oi e o Padre Callahan seguem as pistas na sua peugada, enquanto Roland e Eddie viajam para o passado, onde se encontram com um jovem escritor chamado Stephen King e o obrigam a escrever a história de A Torre Negra. Um livro cheio de referências e twists deliciosos, como o autor já nos habituou. Umbrella Academy (Vol. 1 e Vol. 2) é uma série de banda-desenhada divertidíssima, escrita pelo vocalista da extinta banda My Chemical Romance, Gerard Way, e com ilustrações do brasileiro Gabriel Bá. 43 crianças nascem do ventre de mulheres que não teriam dado qualquer sinal de gravidez, e todas mostram super-poderes. Ou… quase todas. Reginald Hargreeves, um cientista, recolhe 7 dessas crianças e educa-as na sua mansão, criando uma escola de super-heróis, The Umbrella Academy. Porém, as relações entre eles virão a fraturar-se, com o passar dos tempos. O segundo e último volume já publicado revelou-se ainda melhor que o primeiro.

sem-titulo-2Em novembro comecei por ler As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, livro de Claire North, pseudónimo da britânica Catherine Webb. Harry August é um jovem ruivo, fruto de uma violação, criado por um casal de origens humildes. Não sabe nada sobre as suas origens, até morrer. Mas Harry volta à sua data de nascimento, e poucos anos depois, tem consciência de que tudo aquilo já lhe aconteceu. Morte após morte, Harry volta ao ponto de partida, recordando-se de tudo o que ficou para trás. Certo dia, descobre que não é o único a possuir esse dom. Brilhante livro de suspense e mistério, contado na primeira pessoa, o livro perde por saltar de vida para vida como alguém que conta uma história e volta para trás por se ter esquecido de algum pormenor. Li também o quinto volume da série de banda-desenhada Saga, escrita por Brian K. Vaughan e ilustrada por Fiona Staples. Mais uma vez brilhante, neste volume acompanhamos a demanda de Marko e Robot IV, declarados inimigos, em busca dos seus filhos raptados por Dengo, enquanto Gwendolyn e Marca procuram sémen de dragão para curar o freelancer Vontade. Claro está, cenas hilariantes, disparates, sexo e sátiras não faltam. Simplesmente delicioso.

sem-tituloHá muito que queria ler Joe Abercrombie e a trilogia A Primeira Lei. Sand dan Glotka foi em tempos um soldado promissor, mas a guerra inutilizou-lhe a perna e foi capturado pelo temido Império Gurkhul. Quando regressou, coxo e sem dentes, tornou-se um inquisidor, aplicando a tortura a prisioneiros para conseguir as confissões que mais fossem convenientes aos seus superiores. Logen Novededos é um guerreiro famoso no Norte, bárbaro sanguinário que incutiu massacres às ordens do terrível Bethod. Agora, com o advento de criaturas horripilantes no norte e a perda dos seus companheiros, Logen decide lutar contra Bethod. Jezal dan Luthar é um jovem capitão de linhagem nobre. Egoísta e vaidoso, prefere passar os dias a jogar e a embebedar-se, do que a cumprir os seus deveres. É Bayaz, o famigerado Primeiro dos Magos, que irá unir estes três homens tão diferentes, com um único propósito. A Lâmina não me conquistou, porque tinha as expectativas altas e esperava algo mais credível, ainda assim os personagens são incríveis, e a história promissora. Continuei o mês a ler boa fantasia. Escrito por Steven Erikson, Jardins da Lua é o primeiro volume da Saga do Império Malazano. O continente de Genabackis está sob fogo cruzado. De um lado, o Império em expansão, com os exércitos de Dujek Umbraço a ganhar terreno graças ao apoio dos moranthianos e dos Altos Magos. Do outro, as últimas cidades livres, com a proteção dos Tiste Andii liderados por Anomander Rake e Caladan Brood. A cidade de Pale é destruída e ocupada pelos homens de Umbraço; entre eles está o sargento Whiskeyjack, que inclui no seu pelotão uma recruta possuída por um Ascendente. Após o cerco a Pale, Darujhistan torna-se a única cidade livre. Repleta de personagens riquíssimos, Darujhistan é uma cidade governada por um conselho corrupto e por uma sociedade de assassinos, embora sejam os magos a deter o verdadeiro poder, vinculados a Anomander Rake. Um grupo de amigos que se reune frequentemente numa taberna torna-se o centro de toda a ação. Esta foi, de longe, a melhor leitura do ano de 2016.

sem-titulo-3Terminei novembro e comecei dezembro a ler a BD Sandman de Neil Gaiman (Vol. 1, Vol. 2, Vol. 3 e Vol. 4). Se o primeiro e o terceiro volumes da icónica série de banda-desenhada não me conquistaram, parecendo mantas de retalhos cheias de referências e com pouco conteúdo, o segundo e o quarto volumes apresentaram histórias bem amarradas, cheias de tramas paralelas que se entrelaçaram e revelações credíveis sobre os personagens apresentados. Prelúdios e Noturnos é focado no cativeiro em que o Senhor dos Sonhos esteve submetido, depois de ter sido convocado acidentalmente para o mundo real, onde permaneceu durante 70 anos sob uma redoma de vidro. Casa de Bonecas foca-se em várias mulheres (e no seu papel para a sociedade). Rose Walker é uma menina que, por uma qualquer estranha razão, causou um distúrbio no mundo dos sonhos, de onde fugiram vários pesadelos. Terra do Sonho divide-se em várias short stories intrigantes que, ainda assim, não me encheram as medidas, limitando-se a aumentar o significado simbólico da mitologia concebida por Gaiman.  O quarto volume, Estação das Brumas, foi melhor. Com genialidade, o autor humaniza o protagonista ao colocá-lo com problemas de consciência. Lúcifer comunica a Sonho que libertou todas as criaturas, e entrega-lhe as chaves do Inferno para que ele possa fazer dele o que quiser.

sem-titulo-3

Rei dos Espinhos é o segundo volume da Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence. Aliando uma escrita cuidada e de qualidade a um background pós-apocalíptico cheio de deliciosas referências, Lawrence escreveu mais um livro com um dos personagens mais badass da fantasia moderna, Jorg Ancrath. No entanto, as boas ideias não conseguiram cativar-me. As várias linhas temporais confusas e uma condução de história deficiente e pouco credível desiludiram-me. Já o elegi The Horror in the Museum como o melhor conto que li este ano. Escrito por Lovecraft como ghost writer de Hazel Heald, apresenta-nos um protagonista cético que julga louco o escultor de um museu de cera, uma vez que este alega que as criações que apresenta não são esculturas mas sim monstros que caçou e enbalsamou. É uma fantástica narrativa que consegue inspirar ao leitor o mais profundo e inquietante dos terrores. The Alien é um volume isolado da BD The Walking Dead escrito por Brian K. Vaughan, o autor de Saga. Sem uma história propriamente original ou muito diferente, apresenta-nos dois personagens na cidade de Barcelona, no início da propagação do vírus. Apesar de pequeno e cliché, apresentou algumas surpresas.

sem-titulo-3Li este mês aquele que elegi o melhor livro de ficção científica deste ano. Primeiro volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer, Aniquilação é o relato de uma bióloga que se voluntariou para estudar uma área selvagem abandonada pelos humanos, depois de o seu esposo ter regressado de lá como uma sombra do que um dia foi. Envolvente e cheio de suspense, faz-nos pensar sobre os segredos da natureza e da evolução humana. A última leitura do ano foi O Terceiro Desejo. O primeiro volume de The Witcher apresenta uma sequência de contos protagonizados por Geralt de Rivia, um bruxo que mata monstros a troco de pagamento. Obstinado em afirmar que não trabalha como assassino a soldo, Geralt enfrenta vampiros, elfos e génios, num livro muito bem escrito por Andrzej Sapkowski. Para o ano há mais. Votos de um 2017 cheio de felicidades e boas leituras para todos os seguidores do blogue.

A Canção de Susannah, A Torre Negra #6

Eu recuso-me a acreditar nisso. Recuso-me a acreditar que fui criado em Brooklyn simplesmente por causa do erro de algum escritor, algo que acabará por ser corrigido nas segundas provas. Ei, père, estou contigo… recuso-me a acreditar que sou uma personagem. Esta é a porra da minha vida!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Canção de Susannah”, sexto volume da série A Torre Negra.

A Torre Negra é a obra mais visionária do autor Stephen King. A Canção de Susannah, o sexto volume, prossegue a demanda de Roland Deschain, o pistoleiro, em busca da onírica torre, focando-se no estado de “graças” de Susannah Dean.

O contexto

Em 19 de junho de 1999, Stephen King foi atropelado durante uma caminhada a pé. Depois de algum tempo entre a vida e a morte, o famoso escritor do Maine recuperou, embora tenha ficado marcado para o resto da vida, e a sua obra literária também sofreu com o acidente. Um pouco influenciado pelas torrentes de fãs, que tinham pensado perder o seu autor preferido sem que tivesse concluído A Torre Negra, King decidiu pôr um ponto final na série, concluindo-a com mais três livros – Lobos de Calla, A Canção de Susannah e A Torre Negra.

sem-titulo
Susannah Dean (Daria T-s, deviantart)

Stephen King desenvolveu a narrativa e atou pontas soltas, usando a história de Os Sete Samurais como base e parodiando vários blockbusters, como Harry Potter ou Star Wars. Transformou também a data do seu acidente num símbolo da série, usando frequentemente os números 19 e 99 com tremenda frequência na história, fazendo os personagens reconhecerem o seu grande simbolismo. O ka-tet de Roland (o seu grupo unido pelo mesmo destino) tornou-se o ka-tet do 19. Da mesma forma, usa-se de vários recursos mitológicos e personagens de outras obras (como o urso Shardik e a tartaruga Maturin) e usa-os como símbolos de grande poder.

sem-titulo
A Torre Negra (Marvel)

A Canção de Susannah

Lobos de Calla termina com o desaparecimento súbito de Susannah, quando já todos tinham percebido que ela estava a ser manietada por uma entidade demoníaca chamada Mia, ou Mãe, e que estava grávida, fruto da relação sexual com o demónio descrita em Terras Devastadas, que permitiu a viagem de Jake para o Mundo Médio. A Canção de Susannah mostra-nos três focos narrativos distintos. Ao contrário dos restantes livros, este não é dividido por capítulos, mas por estrofes, e cada um termina com uma estrofe da cantiga que dá título ao livro. Susannah e Mia viajam para o ano de 1999 (familiar?), onde se conhecem mutuamente e procuram os seus pontos fortes e fraquezas, tentando demover-se uma à outra dos seus intentos. Os temíveis servos do Rei Rubro – homens vis, vampiros e outros – pretendem colocar-lhes as mãos em cima, para receber a criança que se chamará Mordred. Tal como o personagem da lenda arturiana, destinado a assassinar o seu pai.

Com a ajuda dos índios manni, o resto do grupo consegue atravessar um portal para o nosso mundo, mas qual realidade será mais real? Jake, Oi e o padre Callahan seguem as pistas de Susannah na Nova Iorque de 1999, mas os outros dois têm outra missão. Em 1977, Roland e Eddie voltam a enfrentar Jack Andolini e os homens de Balazar, mas vão também obrigar Calvin Tower a cumprir o prometido (Cal, Calla, Callahan), ou seja, vender-lhes o terreno onde está a Rosa no nosso mundo (onde fica a Torre Negra no mundo de Roland). Depois disso, procuram um tal Stephen King, escritor que parece reconhecer Roland de uma história que havia deixado numa gaveta. Roland hipnotiza-o, instigando-o a continuar a história da Torre Negra. No final do livro, em jeito de autobiografia, King noticia a sua própria morte na tragédia de 99.

sem-titulo
Capa Bertrand Editora

SINOPSE:

Na sua viagem em direção à torre, Roland e o seu ka-tet enfrentam adversidades sem fim: Susannah Dean foi levada por um demónio-mãe e usa a Treze Negra para ir para Nova Iorque. Mas quem é o pai da criança? E que papel desempenha o Rei Rubro nesta história? Roland envia Jake para tentar desviar Susannah do seu terrível destino, ao passo que ele próprio se dirige ao Maine para conversar com um certo Stephen King, autor de Salems Lot: A Hora do Vampiro. Um livro surpreendente que deixará os leitores desesperados pelo capítulo final desta série…

OPINIÃO:

Stephen King conseguiu fazer, neste livro, o que lhe faltou nos anteriores. Condensação. A Canção de Susannah, sexto e penúltimo volume da série A Torre Negra, tem pouco mais de 400 páginas, sem os tempos mortos que eu havia criticado nos livros anteriores. A narrativa, porém, não avançou muito, apesar do ritmo constante e crescente e dos vários encontros saborosos que King nos proporciona – um deles, consigo mesmo.

Commala-vem-ver

A batalha vai agora ser!

E os inimigos dos homens e da rosa

Erguem-se ao anoitecer.

As referências a obras do autor e de outros autores são constantes, como se esta luta contra o tempo desesperante fizesse parte de uma piada privada, como se os deuses se rissem e se divertissem com as desgraças dos personagens. Também encontrei referências ao nosso mundo real, como a palantír aka Treze Negra escondida num cofre secreto sobre o World Trade Center. Aquele humorzinho negro de King, sempre presente.

sem-titulo
Servo do Rei Rubro (pinterest)

A ironia de King não o poupa a si mesmo, e as suas inversões e piadas são constantes. Por vezes, estamos tão imbuídos na adrenalina e no sentimento dos personagens, que não reparamos logo na presença de certas referências. Felizmente, King não se nega a esforços de nos fazer vê-las. É ele quem mais se diverte com as reviravoltas rocambolescas do seu ka-tet. As próprias parcerias (Jake, Oi e Callahan; Roland e Eddie) tomam rumos diferentes do que haveríamos suposto, pertencendo ao rapaz e ao padre o papel principal nos eventos que estão prestes a acontecer, ainda que o pistoleiro deva ter uma função determinante nesse desfecho. O final de A Canção de Susannah foi, em simultâneo, um gancho miserável e saboroso. O impasse para o último volume faz-se através de um prenúncio terrível. O Rei Rubro está de olhos bem abertos, e o desfile de servos malignos começa agora a mostrar o seu rosto. Os personagens do ka-tet estão posicionados para cenas de grande ação, e fiquei de água na boca por ler o livro final desta série.

Avaliação: 8/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e a Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

#7 A Torre Negra

TAG – A Seleção

Viva! Chegamos ao novo semestre e antes de sair a primeira review, nada melhor do que responder a mais uma TAG. Aqui vai:

#1 Qual o livro que mais queres ler?

Sem Título

Tenho muita vontade de ler Lâmina de Joe Abercrombie este ano, mas só depois de terminar algumas séries que estão pendentes.

#2 O melhor livro que leste nos últimos anos

Sem título

Esta nem se questiona. O primeiro volume de Cavalheiros Bastardos de Scott Lynch foi uma surpresa enorme, e os volumes seguintes não me desiludiram.

#3 O livro que mais te desiludiu

Sem título

Podia falar de Pedro Chagas Freitas, mas se fosse por aí tinha muito que falar. Zafón foi um autor que ouvi falar muito bem, de tal modo que fiquei extremamente desiludido quando peguei em O Palácio da Meia-Noite e encontrei uma escrita extremamente juvenil, assim como uma história completamente banal e fantasiosa.

#4 Qual é o teu personagem preferido

Sem Título

Alguns personagens ficam gravados na nossa memória e, por nenhuma razão em especial, lembro-me de Gimli de O Senhor dos Anéis quando me perguntam qual o personagem preferido. Esse personagem marcou uma fase da minha adolescência. Ainda assim, personagens como a incrível Miss Marple dos livros de Agatha Christie, Leigh Teabing de O Código DaVinci, Locke Lamora de Cavalheiros Bastardos e Jean Valjean de Os Miseráveis merecem a minha menção de honra.

#5 Qual a história mais marcante?

Feast

Poderia enumerar uma série de histórias. Os Pilares da Terra, Ivanhoe, Os Miseráveis, O Senhor dos Anéis. Cada história teve o seu sabor especial, em cada altura da minha vida, mas As Crónicas de Gelo e Fogo foram talvez aquelas que mais fomentaram o meu amor pela escrita e pelo género fantástico, uma história mais dramática e emocionante.

#6 Que história gostarias de viver?

Sem título

A saga A Torre Negra leva-nos até ao Mundo Médio, um lugar onde os descendentes do Rei Artur tornaram-se cowboys. Seria muito interessante acompanhar Roland nas suas aventuras em busca da profética Torre Negra, lutando contra demónios, vampiros e outras criaturas bizarras.

#7 A capa mais bonita da tua estante

Sem título

Apesar de os dois últimos volumes de Mistborn terem ficado um pouco diferentes dos primeiros, a coleção é das mais bonitas da minha estante em termos de lombada, e o primeiro volume, O Império Final, tem a capa que visualmente mais me agrada.

#8 A capa mais feia da tua estante

Sem Título

O Amigo Fritz. Não preciso de explicar porquê, ou preciso? É dos livros mais antigos que tenho em casa, apesar de ser muito bem estimado.

#9 O teu livro preferido de sempre

Rebecca

Não é nenhum fenómeno literário, nem sequer dos mais aclamados do autor, mas encantei-me com este livro de Ken Follett da primeira à última página. A história não é o seu maior atrativo. O clima de espionagem, a tensão sexual, o calor do Egito e a envolvente nazi conquistaram-me de tal modo, que A Chave para Rebecca é o livro que vem à minha memória quando penso em livro favorito.

# 10 O livro que estás a ler

Sem título 2

A Vingança do Assassino, quarto volume da Saga do Assassino de Robin Hobb. Está a ser uma leitura um tanto ou quanto demorada, mas espero terminá-lo em breve.

Sintam-se à vontade para comentar e responder à TAG – Seleção.

 

 

 

Resumo Trimestral de Leituras #6

Passado mais um trimestre, é hora de fazer um novo resumo de leituras. Os meses de abril, maio e junho foram prósperos em muitas bandas-desenhadas, mas todos os livros lidos foram muito bons e espero conseguir ler ainda mais nos próximos meses. Nomes como Alan Moore, Frank Miller, Frank Herbert, Robert Kirkman, Stephen King e Mark Lawrence acompanharam-me nos últimos meses. Aqui fica a minha ordem de leituras:

Ao Gosto do Freguês, Tony Chu: Detective Canibal #1 –  John Layman e Rob Guillory

Sabor Internacional, Tony Chu: Detective Canibal #2 – John Layman e Rob Guillory

Enfarda Brutos, Tony Chu: Detective Canibal #3 – John Layman e Rob Guillory

Too Far Gone, The Walking Dead #13 – Robert Kirkman, Charlie Adlard e Cliff Rathburn

No Way Out, The Walking Dead #14 – Robert Kirkman, Charlie Adlard e Cliff Rathburn

We Find Ourselves, The Walking Dead #15 – Robert Kirkman, Charlie Adlard e Cliff Rathburn

A Larger World, The Walking Dead #16 – Robert Kirkman, Charlie Adlard e Cliff Rathburn

Something To Fear, The Walking Dead #17 – Robert Kirkman, Charlie Adlard e Cliff Rathburn

What Comes After, The Walking Dead #18 – Robert Kirkman, Charlie Adlard e Cliff Rathburn

A Balada de Antel – Eric M. Souza

Prelúdio Para as Trevas, Vampirella – Nancy A. Collins e Christian Zamora

The Statement of Randolph Carter – H. P. Lovecraft

March To War, The Walking Dead #19 – Robert Kirkman, Charlie Adlard e Cliff Rathburn

All Out War (Part 1), The Walking Dead #20 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

All Out War (Part 2), The Walking Dead #21 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

Colossus, X-Men Origins #1 – Chris Yost e Trevor Hairsine

Jean Grey, X-Men Origins #2 – Sean McKeever e Myke Mayhew

A New Beginning, The Walking Dead #22 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

Golpe em Argos Parte 3, Conan o Bárbaro #6 – Brian Wood, James Harren e Dave Stewart

300 – Frank Miller e Lynn Varley

Fúria na Fronteira, Conan o Bárbaro #7 – Brian Wood, Becky Cloonan e Dave Stewart

Whispers Into Screams, The Walking Dead #23 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

Life and Death, The Walking Dead #24 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

O Messias de Duna, Crónicas de Duna #2 – Frank Herbert

A Cidade do Pecado, Sin City #1 – Frank Miller

No Turning Back, The Walking Dead #25 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano

Saga #4 – Brian K. Vaughan e Fiona Staples

As Águias de Roma #1 – Enrico Marini

Sopa de Letras, Tony Chu: Detective Canibal #4 – John Layman e Rob Guillory

Lobos de Calla, A Torre Negra #5 – Stephen King

As Águias de Roma #2 – Enrico Marini

As Águias de Roma #3 – Enrico Marini

Príncipe dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #1 – Mark Lawrence

Os Contos Inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy – Filipe Melo, Juan Cavia e Santiago Villa

As Águias de Roma #4 – Enrico Marini

A Morte Persegue-me, Fatale #1 – Ed Brubaker e Sean Phillips

V de Vingança – Alan Moore e David Lloyd

Sem TítuloSe terminei o mês de março a ler excelentes bandas-desenhadas, o mês de abril continuou na mesma senda. Li a graphic novel Tony Chu (Vol. 1, Vol. 2, Vol. 3 e Vol. 4).  É uma série muito divertida com argumento de John Layman e ilustração de Rob Guillory, em que somos apresentados a um detetive com um dom raro: ele vê o percurso de vida daquilo que come, e é utilizado no seu departamento de polícia para isso – ao provar as vítimas, descobre quem as matou. Numa realidade em que o consumo de frango foi proibido pelo governo após uma terrível gripe aviária, Chu tem a função de denunciar casos insólitos relacionados com uma rede ilegal de tráfico de frango. Uma história cheia de ação, intriga e muita comédia. Também prossegui com a leitura da BD The Walking Dead (Vol. 13, Vol. 14, Vol. 15, Vol. 16, Vol. 17, Vol. 18, Vol. 19, Vol. 20, Vol. 21, Vol. 22, Vol. 23, Vol 24 e Vol. 25). Com argumento de Robert Kirkman e arte de Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano, estes volumes lidos compreendem a ação desde pouco depois da chegada do grupo de Rick Grimes a Alexandria, até à atualidade dos lançamentos internacionais, ou, para quem segue a série de tv, corresponde à ação desde o final da 5.ª temporada, até ao que será, eventualmente, meados da 8.ª. Viciante e tensa, continua a manter-se a um nível altíssimo.

Sem título 2Vencedor do Prémio Bang! da editora Saída de Emergência, A Balada de Antel, escrito por Eric M. Souza, foi uma agradável surpresa. Somos apresentados a um mundo imaginário, inspirado na Antiguidade Clássica, onde duas nações defrontam-se há muito tempo, sem nenhuma sair vencedora. O advento de um novo senhor da guerra torna-se a mais-valia dessa civilização. Antel é o homem de quem todos falam. Armado de duas espadas com cristais que lhe dão vigor, e com um séquito de homens e mulheres fascinados pelo seu líder, Antel irá viver uma batalha de vida ou morte contra Ajedurala, uma governante fria e implacável, conhecida pelos seus métodos cruéis e pelo filho irresponsável. Vivendo uma homossexualidade clandestina, Ajedurala esconde muitos podres, mas também muitos trunfos na manga, o que não será suficiente para parar o carismático herói. Prelúdio Para as Trevas é a BD que nos leva a conhecer a fantástica personagem Vampirella, uma vampira que trabalha para uma agência secreta da Igreja, que visa combater demónios e outras criaturas das trevas. Com argumento de Nancy A. Collins e ilustração de Christian Zamora, esta revista mostrou duas aventuras. Na primeira, Vampirella disfarça-se de freira para desvendar a série de desaparecimentos misteriosos numa catedral francesa. Na segunda história, que acontece antes de ela se juntar à Igreja, encontramos Vampirella como ajudante de um mágico que, a bordo de um cruzeiro, torna-se a escolhida por um temível monstro como merenda sacrificial.

Sem título 2The Statement of Randolph Carter é mais um conto de terror de H. P. Lovecraft. Apesar de muito curto, foi também bastante saboroso. Randolph Carter é vítima de um interrogatório policial, após o desaparecimento do seu amigo Harley Warren. Os dois investigavam livros antigos em línguas ininteligíveis, e seguiram pistas até a um cemitério, onde Warren entrou numa cripta e pediu a Carter para ficar no exterior. O que ele encontrou foi algo medonho. O medo sentido por Carter é extremamente palpável. Gostei imenso da história e tive pena de ser tão curta. Ainda em abril li duas BD’s da série X-Men Origins. Colossus, escrita por Chris Yost e ilustrada por Trevor Hairsine, narra a origem do personagem dos X-Men Colossus. Piotr Rasputin ficou perturbado após a morte do seu irmão Michail, que o jurara proteger, e foi viver para uma quinta comunitária na Antiga União Soviética. Ali viu nascer a sua outra irmã, Ilyana, que viu como fuga para o seu desgosto. Às escondidas, num celeiro, ele transformava a sua pele em aço, uma habilidade que escondia do mundo, e a sua pequena irmã adorava vê-lo transformar-se. Revista boa a nível gráfico, história simples. Na BD dedicada a Jean Grey, com argumento de Sean McKeever e arte de Myke Mayhew, somos apresentados à origem da personagem dos X-Men. Tudo começou quando ela viu a melhor amiga a morrer atropelada e descobriu os seus dons de ler a mente. Fechou-se no quarto, completamente isolada do mundo. Os seus pais recorrem ao professor Charles Xavier, que a ajudou durante algum tempo, criando barreiras psíquicas e ensinando-a a controlar os seus poderes. A história foi arrastada, e a ilustração foi horrível para aquilo que a Marvel já me habituou. Não gostei.

Sem TítuloLi dois exemplares da BD Conan, o Bárbaro (Vol. 6 e Vol. 7) de Brian Wood. Após os eventos em Messantia, nos quais Conan e Belit vergaram os cruéis habitantes da cidade-portuária com a sua brutalidade, Conan leva a rainha dos piratas para a Ciméria, sua terra natal, onde ela não é aceite pela população. Ou, pelo menos, não da forma que ela esperava. Sou suspeito para falar, porque sou grande fã de Conan e as suas histórias raramente me desiludem. Icónica graphic novel de Frank Miller, 300 narra a Batalha de Termópilas, na qual 300 espartanos, sob o comando de Leónidas, mostram a Xerxes e aos exércitos persas que têm uma palavra a dizer. Um livro muito visual, que destaca o estoicismo dos espartanos e a forma como o seu sacrifício viria a mudar o rumo da Grécia Antiga. Messias de Duna foi um livro publicado originalmente em 1969, por Frank Herbert. É o segundo volume das Crónicas de Duna. Depois de Paul Atreides ter derrotado os seus inimigos Harkonnen e deposto o imperador do planeta Arrakis, tornando-se Imperador e Deus, neste volume vemos os acontecimentos 12 anos após a sua tomada de posse. Apesar do seu povo, os Fremen, serem responsáveis por imensos genocídios feitos em seu nome, Paul está de mãos e pés atados, dependente das suas visões e temente dos que o rodeiam. Uma conspiração é levada a cabo para o destruir, assim como à sua irmã Alia. Um livro mais calmo e meditativo do que o primeiro, com muitas questões filosóficas e políticas. Gostei bastante.

Sem título 2O mês de maio começou com o primeiro volume de Sin City, outra obra de Frank Miller. Destaque para os tons negros e brancos, imagens bastante fortes que conseguem, só por si, contar uma história. Marv é um perdedor nato que se vê envolvido numa perseguição sem limites, depois de ter a sorte, ou o azar, de passar uma noite com a maravilhosa Goldie. Um trama delirante em que as sensações de injustiça e de barbaridade são quase palpáveis. Voltei à graphic novel Saga. No quarto volume da famosa space opera com argumento de Brian K. Vaughan e arte de Fiona Staples, a história continua incrível, entremeando ação e humor nas doses certas. Este volume conta como Alana e Marko se separaram, e mostra uma versão da pequena Hazel mais crescida. Entretanto, no planeta Robot, o pequeno príncipe nasce e um servo mata a mãe e rapta-o. Li os quatro volumes publicados em Portugal da BD As Águias de Roma (Vol. 1, Vol. 2, Vol. 3, Vol. 4). Enrico Marini une uma narrativa adulta e coesa, com intriga, lutas e muito sexo, a uma arte gráfica cheia de cor e expressividade. Marco e Armínio foram criados juntos, mas depressa as suas diferenças vêm à tona quando Marco se apaixona e Armínio usa todas as armas ao seu alcance para prejudicar o amigo. Mais tarde, Marco percebe que o seu irmão de criação pode estar envolvido numa rebelião contra Roma.

Sem título 2Quinto volume da saga A Torre Negra de Stephen King, Lobos de Calla mostra o ka-tet formado por Roland, Eddie, Susannah, Jake e Oi a chegar à povoação de Calla Bryn Sturgis, uma comunidade de rancheiros onde é frequente as crianças nascerem gémeos. De tempos a tempos, um grupo de cavaleiros com cabeças de lobo visita a região, levando consigo um exemplar de cada par de gémeos. Passado pouco tempo, um comboio devolve as crianças, mas elas vêm com deficiências mentais e crescem de forma anormal até morrerem em agonia. O grupo é obrigado a resolver esse problema, ao mesmo tempo que descobrem que o padre esconde uma bola de cristal negra sob a Igreja, conduzindo-os a Nova Iorque quando adormecem. Gostei muito. Comecei junho com Príncipe dos Espinhos, o primeiro volume da Trilogia de Espinhos de Mark Lawrence. Narrado pelo personagem principal, o livro conta-nos a história do príncipe Jorg Ancrath, filho mais velho do Rei Olidar, que é atirado para um espinheiro por um membro da guarda, que o salva da chacina a que o irmão mais novo e a mãe são alvos. Com os espinhos a perfurar-lhe a pele, Jorg vê a família ser assassinada e jura vingança. À frente de uma companhia de saqueadores, Jorg jura a si mesmo que será Rei quando completar 15 anos. Gostei bastante do mundo criado – pós-apocalíptico com aparência medieval – e da escrita do escritor. Peca por desenvolver muito pouco os personagens secundários e o desenrolar dos acontecimentos. A edição da TopSeller é muito boa.

Sem TítuloEscrito por Filipe Melo, com ilustrações de Juan Cavia e cores de Santiago Villa, Os Contos Inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy é a primeira BD portuguesa a ser publicada primeiro nos E.U.A. que em Portugal, e a primeira deste século a tornar-se best-seller. Peca pelas poucas páginas, narrando as origens do lobisomem de Tondela, Dog Mendonça, de forma hilariante. Recomendo. Com argumento de Ed Brubaker e arte de Sean Phillips, o primeiro volume da BD Fatale, A Morte Persegue-me não tem muitos acontecimentos, mas apresenta-nos o mistério relacionado à morte de um escritor, à inscrição estranha na sua lápide e aos seus escritos mais antigos. Tudo gira em volta de uma mulher que parece atrair a fatalidade para onde quer que ela vá. Um volume promissor, carregado de ambiente noir. Chegou finalmente a Portugal a BD V de Vingança, do icónico Alan Moore, com arte de David Lloyd. Na Inglaterra distópica dos anos 90, um governo totalitário condena as minorias raciais e sexuais a campos de concentração e mantém as ruas vigiadas por câmaras. É nesse cenário que surge um anti-herói mascarado, que se apresenta como V e começa a fazer justiça pelas próprias mãos. Uma novela gráfica surpreendente, que vai melhorando no decorrer da leitura e só pecou por alguns problemas de revisão/ tradução.

Foi um trimestre em que acabei por ler mais BD’s, mas todos os livros que li foram bons. Quero deixar os meus parabéns à G Floy Portugal, Edições Tinta da China e TopSeller pela forte aposta atual no mercado. Neste momento estou a ler os dois últimos volumes da primeira Saga do Assassino de Robin Hobb. E vocês, já leram algum destes livros?

TAG – Meio Ano de Leituras

Estamos a chegar ao final do primeiro semestre, como tal é a altura propícia para responder a uma TAG sobre os livros lidos durante os primeiros seis meses do ano. Divirtam-se.

#1 A maior surpresa

Sem título 2

Saga é uma graphic novel repleta de bom humor com elementos sci-fi e fantásticos. Acompanhamos a par e passo a fuga de Alana e Marko, com a sua bebé, a pequena Hazel. Uma lufada de ar fresco a todos os níveis, com argumento de Brian K. Vaughan e ilustrações de Fiona Staples.

#2 O melhor final

Sem título 2

A saga Mistborn nunca me “encheu as medidas”, por assim dizer, mas o último volume veio amarrar pontas soltas. Posso dizer que toda a trilogia de Brandon Sanderson me deixou com um sabor agridoce. Momentos geniais e outros forçados, história super original fustigada por uma escrita banal, um mundo com muitas lacunas salvo por um ambiente bem agradável. No fim, ficam as melhores recordações da série e o final surpreendeu-me muito, o que foi ótimo. Ainda assim, tenho o primeiro volume como o melhor da trilogia.

#3 A melhor saga

Sem Título

Na lista das minhas séries preferidas consta A Torre Negra de Stephen King (não é por acaso que é esta a saga que tem lugar de honra na minha mesa-de-cabeceira). E com monstros como Scott Lynch e George R. R. Martin nas suas pausas sabáticas, é a saga de King a escolhida para liderar as minhas preferências do primeiro semestre, no que diz respeito a sagas. Lobos de Calla, o quinto volume, não me desapontou.

#4 O melhor livro

Sem título

Os Pilares da Terra, de Ken Follett, foi seguramente a melhor leitura até ao momento. Um rol de personagens fascinantes, descrições deliciosas e uma composição de personalidades sublimes. Segredos sobre segredos e a construção de uma catedral servem de motor narrativo para uma história densa e emocionante sobre os problemas entre a Coroa e a Igreja na Inglaterra do século XII.

#5 A melhor BD

Sem título 2

Embora Saga e Tony Chu tenham sido as maiores surpresas neste género, The Walking Dead foi, seguramente, a melhor BD. Li todos os vinte e cinco volumes até agora publicados e, no seu todo, fascinaram-me. Os instintos de sobrevivência e o drama vivido após o apocalipse walker são explorados ao máximo, ao ponto de comportamentos serem discutidos e a dicotomia bem e mal ser posta à prova. Um trabalho genial de Robert Kirkman.

#6 O mais bem humorado

Sem Título

A par de Saga, as aventuras do cibopata Tony Chu foram as mais divertidas que li este ano. Após uma terrível gripe aviária, o comércio de frango foi proibido e começou a ser traficado como uma droga ilegal. É nesse contexto que uma entidade reguladora de saúde do governo norte-americano contrata Chu, um homem capaz de “ler” o percurso de vida de tudo aquilo que ingere. A série divertiu-me desde o início, mas demorou a deslumbrar-me. Neste momento é uma das minhas BD’s preferidas.

#7 A maior desilusão

Sem título 1

Depois de ler as Histórias de Aventureiros e Patifes e ter ficado fascinado com a escrita de Gillian Flynn, vim para este Em Parte Incerta com as expectativas bem altas. O livro desapontou-me em toda a largura. Desenvolvimento forçado, personagens desinteressantes e escrita cansativa.

#8 A melhor capa

Sem Título

Gostei imenso da capa do quarto volume de As Águias de Roma, de Enrico Marini. A cena bélica é cativante e a expressão do rosto coaduna-se ao personagem Armínio. Podia escolher as capas dos outros volumes da série, ou até mesmo uma das muitas e excelentes capas da BD The Walking Dead, mas esta acabou por ser mesmo a que achei mais cativante.

#9 A pior capa

Sem título 2

A capa do livro A Balada de Antel, de Eric M. Souza, acabou por me cativar somente pelas cores utilizadas. As expressões faciais têm um aspeto estranho e o livro merecia um trabalho gráfico mais elaborado por parte da editora Saída de Emergência.

#10 A melhor composição gráfica

Sem título 2

Podia referir alguma BD, mas escolhi o livro Príncipe dos Espinhos, de Mark Lawrence. O trabalho gráfico da TopSeller agradou-me imenso. Não só manteve a capa original, como todo o interior foi trabalhado com bom gosto, em tons negros e brancos para sublinhar o carácter dark da obra. Deu-me muito gosto desfolhar este pequeno livro.


Sintam-se à vontade para comentar e responder à TAG do primeiro semestre. 🙂

Lobos de Calla, A Torre Negra #5

– E as sneetches – disse Eddie. – Já ouviste falar do Harry Potter?

– Acho que não. Tu já?

– Não, e vou dizer-te porquê. Porque as sneetches são do futuro. Talvez de um livro de banda desenhada da Marvel que vai sair em 1990 ou 1995. Percebes o que estou a dizer?

Jake anuiu com a cabeça.

O texto seguinte contém spoilers do livro “Lobos de Calla”, quinto volume da série A Torre Negra.

Lobos de Calla é o quinto volume da visionária saga de Stephen King, A Torre Negra. A história acompanha a viagem do pistoleiro Roland Deschain, de Gilead, na peugada do seu objetivo final, a misteriosa A Torre Negra.

O que é a Torre Negra?

A Torre Negra pode ser considerado o lugar onde tudo acaba, o cume da montanha, o Santo Graal da epopeia de Roland. É também o lugar onde vive o poderoso vilão Rei Rubro.  Na saga é comum dizerem que “o último andar da Torre encontra-se vazio” para dizer que Deus não existe. Tudo isto num mundo paralelo ao nosso, onde os descendentes do Rei Artur tornaram-se cowboys. Para Roland, o seu ka (destino) é encontrar a Torre, e para isso veio buscar ao nosso mundo, através de portais, três companheiros de aventura: Jake, Eddie e Susannah, a que se juntou o caricato billy-bumbler Oi. Juntos, formam o ka-tet do dezanove.

Os Lobos de Calla.

Após uma série de aventuras, o ka-tet chega a Calla, uma remota zona de rancheiros onde a população vive assolada por uma ameaça terrível. De tempos a tempos, um grupo de cavaleiros com cabeças de lobo invade a população e rapta-lhes as crianças. Acontece que os naturais de Calla normalmente têm gémeos, e os Lobos levam-lhes um exemplar de cada. Passado pouco tempo, um comboio devolve as crianças raptadas, mas vêm com grandes atrasos mentais, deformando-se fisicamente com o passar dos anos até morrerem de dor. Chamam-lhes os roont. Para além dos rancheiros e das suas famílias, em Calla também vivem os manni (um clã de índios), um robot que serve como criado (Andy) e um padre (Callahan) saído de outro livro de Stephen King (Salem’s Lot – A Hora do Vampiro).

sem-titulo
ka-tet do 19 (pinterest)

Roland e o seu ka-tet vêm dar a este povo uma esperança de enfrentar os temíveis Lobos, planeando metodicamente uma emboscada aos seus inimigos. Treiná-los não é uma tarefa difícil, uma vez que a maioria das mulheres da população está familiarizada com o lançamento do prato, relacionado com o culto a uma deusa chamada Riza. Paralelamente a esse desafio, o grupo enfrenta outros. Susannah está grávida de um demónio, depois de ter sido obrigada a copular com ele para trazer Jake ao Mundo Médio no terceiro volume, e uma nova e terrível personalidade chamada Mia parece querer possuí-la. O padre Callahan torna-se também ele membro do ka-tet de Roland e conta-lhes todas as suas aventuras desde os eventos vividos em Salem’s Lot até chegar a Calla Bryn Sturgis. Mas há também viagens ao nosso mundo. Os servos do Rei Rubro planeiam comprar um lugar em Nova Iorque onde apenas existe uma rosa (o correspondente à Torre Negra no nosso mundo), propriedade nas mãos de um livreiro chamado Calvin Tower, o mesmo que vendeu o livro Charlie Pouca-Terra a Jake antes de ele viajar para o Mundo Médio. Os pistoleiros do ka-tet têm como missão convencer Tower a vender a eles a propriedade.

Entre traições, romances, descobertas inacreditáveis e visões do mais absoluto terror, Roland e os seus companheiros enfrentam os Lobos num confronto tão trágico quanto hilariante. Pelo meio, têm de se adaptar aos hábitos estranhos do povo de Calla, como por exemplo a palavra commala, que é usada para um sem-número de fins, com uma conotação muitas vezes sexual.

Sem Título

SINOPSE:

Roland Deschain e o seu ka-tet atravessam as florestas do Mundo Médio em direção à Torre Negra. O caminho leva-os aos arredores de Calla Bryn Sturgis, onde, sob a calma vida campestre, se esconde algo horrível. A cada geração, vindos das trevas do Trovão, chegam seres com máscaras de lobos , montados em cavalos cinzentos, para roubarem as crianças da vila. Resistir-lhes implica arriscar tudo, mas os pistoleiros fazem do risco a sua vida. As suas armas, contudo, não serão suficientes…

OPINIÃO (SEM SPOILERS):

Depois de, no último volume, a história de Roland e o seu ka-tet ter-me desapontado um pouco, com mais de 500 páginas de flashback sobre o passado do herói e um final pouco convincente, eis que Lobos de Calla volta a ganhar-me como fã. Tal como nos anteriores volumes, somos convidados a ler um grande calhamaço cheio de informação demasiado detalhada sobre aspetos que parecem de pouca importância. Desta vez, coube ao personagem padre Callahan o protagonismo da chamada palha. A história que ele contou acabou por ter algum interesse, mas pouco acrescentou ao enredo e podia ter sido cortada pela metade que todos saíriamos a ganhar.

Adorei o núcleo de Calla Bryn Sturgis. Todos os personagens acabaram por ter a sua importância e foi um sentimento bom ver o ka-tet parcialmente dividido, a lidar com as suas tramas pessoais e a conhecer outras pessoas; parados depois de tantas passagens fugazes por tantos outros locais. Apesar de muitas vozes preferirem o Feiticeiro e a Bola de Cristal a este Lobos de Calla – percebo que teve mais informações importantes para a busca pela Torre Negra -, gostei mais deste livro. Algumas tramas ficaram por resolver, mas encerrou-se aquela a que este volume se propunha, terminando com um bom gancho para o livro seguinte.

sem-titulo
Lobos de Calla (31daysofhell)

O sentido de humor de Stephen King é a grande mais-valia desta saga, mais ainda que a sua capacidade de contar e descrever histórias e cenários. As referências aparecem quando menos esperamos, e nesta história abrangem A Guerra das Estrelas, Harry Potter, Sherlock Holmes e num momento especial, King faz referência a ele próprio. Ao contrário do que aconteceu no volume anterior, termino este livro com a sensação que as peças se estão a encaixar com mais fluidez, e a vontade em ler o seguinte aumentou. Só posso dizer: vem vem commala.

Avaliação: 8/10

Livros Publicados (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e a Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

#7 A Torre Negra

O Feiticeiro e a Bola de Cristal, A Torre Negra #4

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Feiticeiro e A Bola de Cristal”, quarto volume da série A Torre Negra

O Feiticeiro e a Bola de Cristal é o quarto volume da saga literária A Torre Negra, de Stephen King, o mestre do terror. Considerada por muitos como a sua obra mais visionária, demorou décadas a ser concluída e tem sido colocada várias vezes como hipótese para virar filme ou série de tv, o que não se adivinha tarefa fácil. O próprio King assume que, mesmo com as várias crises de inspiração ao longo da obra, ela é a mais complexa e expandida que alguma vez criou.

Roland de Gilead, Eddie, Jake e Susannah de Nova Iorque, acompanhados pelo afável billy-bumbler Oi, são um ka-tet. O ka é o destino, e o ka-tet é um grupo de pessoas (Oi é a exceção) ligadas pelo mesmo destino. No volume anterior, As Terras Devastadas, o grupo ficou finalmente unido. Jake viajou da sua Nova Iorque para o Mundo Médio de Roland, graças ao esforço conjunto dos restantes, que implicou uma cena sexual entre Susannah com um demónio que guardava o portal, e isso pode ter implicações no futuro da personagem. Depois de atravessarem terras inóspitas, chegam à cidade de Lud e embarcam num comboio louco dominado pelo demónio Blaine, obcecado por adivinhas, e aí percebem que este pretende suicidar-se e levá-los consigo para a morte.

sem-titulo
Mapa de Mejis (pinterest)

Neste volume, o ka-tet consegue estabelecer um trato com a criatura: se Blaine não souber a resposta a uma das suas adivinhas até chegarem à paragem de Topeka em que eles pretendem sair, o comboio parará nesse destino e deixá-los-á sair em segurança. Tornou-se uma situação desesperante, mas o pistoleiro Roland e os seus companheiros sempre conseguem surpreender em situações de maior urgência.

Ultrapassado o susto, chegam a Topeka, uma cidade que se parece com uma povoação do Kansas, futura ao espaço temporal de onde vieram Jake, Suse ou Eddie. Um mundo que nem é o deles, nem o de Roland. É nesse mundo que enfrentam novos desafios, estranhos enigmas, e que Roland lhes fala de Susan Delgado, a mulher que amou, e lhes conta uma história passada no ambiente western do Mundo Médio, na longínqua Mejis, uma história que está mais relacionada com os dias que ali vivem do que podem imaginar.

Sem título

SINOPSE:

No quarto livro da série fantástica de Stephen King, Roland, o último dos pistoleiros, e os seus companheiros continuam a sua demanda pela Torre Negra. Depois de terem escapado por pouco à morte, os cinco companheiros iniciam uma viagem aterradora por uma paisagem urbana devastada a bordo de um comboio suicida. Roland terá de enfrentar um velho e astucioso inimigo de grande astúcia e a tentação da diabólica bola de vidro do feiticeiro, uma força poderosa no primeiro amor de Roland. E a torre está mais perto…

OPINIÃO:

Escrever opinião a este livro revela-se mais difícil do que fui ajuizando no decorrer da leitura. Traz-me um sabor agridoce: a minha verdadeira opinião é que esta saga é extremamente bizarra. Nota-se que nada foi muito pensado, que as coisas saíram de forma empolgada e improvisada pelo autor, e se há autor que pode fazer isso com mestria é Stephen King. Fica a sensação que as coisas vão sendo escritas ao sabor do vento, e que King se refugia no passado já estabelecido do personagem principal para ir desenvolvendo a narrativa e montar as peças do puzzle. A forma como ele fez a analogia ao Feiticeiro de Oz foi rebuscada mas acabou por fazer sentido.

Houve momentos em que odiei este livro. Ele tem 840 páginas e o grosso delas foi passado em recordações. Ou seja, percebi desde logo que a ação propriamente dita da saga ia ser muito pouca ou nenhuma. E ao longo dessas muitas e muitas páginas, Roland conta como conheceu Susan, o grande amor da sua vida, e a sua passagem por Mejis, um vilarejo de cowboys onde vivia a rapariga. Os núcleos foram muito bem trabalhados pelo autor… bem demais. A história é muito boa, há personagens que marcam, como o fantástico Eldred Jonas e os seus cavaleiros com caixões tatuados nos dedos, a referência a Sheb, o pianista que surgiu no primeiro livro da saga ou mesmo Rhea, a bruxa, uma personagem que não gostei nada, que me conseguiu irritar do princípio ao fim mas que mostrou fazer muito sentido para toda a história do Roland.

sem-titulo-2
Rhea de Coos (RedHeretic)

Metade das páginas teria sido o suficiente para narrar a aventura com o devido desenvolvimento, e isso desanimou-me imenso ao longo da leitura. Cansou-me, é verdade. Mas King é perito em animar-nos quando as coisas estão a dar para o torto e a sua linguagem intimista e nuances de falsa infantilidade relançaram-me para a leitura.

Não fico com a melhor das impressões sobre esta história tão repleta de vilões e personagens desprezíveis, que não terminou da melhor maneira… mas não consigo dizer que não gostei. Foi bem construída e ajudou a dar mais alma à personagem principal da saga. E no fim, bem, as poucas páginas no final do livro que voltaram ao presente da narrativa fizeram desenvolver de uma forma rápida a ação da trama, atar pontas soltas, trazer respostas e um novo rol de perguntas.

Sem título

Não tenho grandes ilusões em relação a esta saga. Percebe-se facilmente que o autor não sabia o que viria a fazer à obra e foi escrevendo conforme a imaginação dele assim o ditava, mas o empolgamento e a riqueza deste estranho mundo que mistura a lenda do Rei Artur, cowboys, viagens pelo tempo e dimensões, e utiliza de uma forma inteligente pedaços do folclore americano e das suas criações literárias, a par da elegância e empolgamento do escritor, vão-me mantendo com vontade de ir lendo estes livros e chegar, tal como Roland e o seu ka-tet, à malfadada Torre Negra para descobrir os seus mistérios.

Recomendo esta saga a quem queira embrenhar-se no mundo do bizarro e do fantástico de uma forma descomplexada, tentando acompanhar o raciocínio do autor e os traços multifacetados destes personagens tão ricos que vão aparecendo. Aviso que os livros vão-se tornando cada vez maiores e menos interessantes, mas a curiosidade vai sendo fomentada pelo autor. Porque o mundo avança, e os personagens avançam com ele. É o ka. Os livros estão todos escritos, e a curiosidade não me permite parar por aqui.

Avaliação: 7/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e A Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

#7 A Torre Negra

As Terras Devastadas, A Torre Negra #3

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “As Terras Devastadas”, terceiro volume da série A Torre Negra

O que mais tenho a dizer sobre o autor Stephen King? Já todos sabem que é um dos meus escritores favoritos e um dos mais célebres no género fantástico/terror. Aliando uma introspeção narrativa a uma descrição subtil de cenários e personagens, este autor consegue conquistar-nos com um sarcasmo permanente e muitas vezes impercetível a quem não estiver mais atento às camadas internas da narrativa. Essa ironia constante, aliada a um humor perverso e a uma sombra de terror cada vez mais aguçada, está uma vez mais presente no terceiro volume desta saga A Torre Negra.

2

Esta saga acompanha o pistoleiro Roland de Gilead, o último dos pistoleiros remanescentes que sobreviveram ao avanço do mundo, e o seu ka-tet: Jake, o rapaz de lunetas, Eddie, o ex-viciado em heroína, Susannah, uma afro-americana sem pernas e Oi, um billy-bumbler (um animal com traços de texugo e doninha). Em As Terras Devastadas, o grupo dá de caras com um urso gigante… com uma antena parabólica na cabeça. Isso é apenas o início de uma aventura que atingirá o seu ápice na cidade perdida de Lud, onde um diabólico comboio comandado por um demónio muito antigo os poderá matar a todos.

Viagens à Lareira #5: Este mês o desafio Viagens à Lareira “obrigava-me” a ler um livro de fantasia. Apesar de ter começado este livro no mês de Abril, demorei bastante tempo a acabá-lo, por isso é ele o eleito para o desafio.

Sem Título 2

SINOPSE:

 Neste terceiro volume da série de culto, Roland prossegue com a sua demanda pela Torre Negra, mas agora já não está sozinho. Treinou Eddie e Susannah, que entraram no Mundo Médio em momentos diferentes no livro anterior, à velha maneira dos pistoleiros. Mas o seu ka-tet ainda não está completo. Falta escolher um terceiro elemento: alguém que já esteve no Mundo Médio, um menino que morreu não uma, mas duas vezes, mas que continua vivo. Os quatro do ka-tet, unidos pelo destino, terão de fazer uma longa viagem até às terras devastadas e à cidade destruída de Lud, que fica para além delas. Pelo caminho, encontrarão a fúria de um comboio, que pode muito bem ser o seu único meio de fuga…

«Momentos de fantasia encantadores, episódios de uma tensão extraordinária e uma cena de terror arrasadora.»
Publishers Weekly
«Stephen King no seu melhor.»
Library School

OPINIÃO:

Este não foi um livro fácil. A leitura foi morosa, a acção lenta, arrastada… mas tantas introspecções, e tantas aventuras que me pareciam inúteis acabaram por fazer sentido no seu todo, e cheguei ao final com a sensação que adorei o livro e cada vez mais adoro a maneira de King nos relatar cada evento. O que dá um certo encanto à narrativa é que vemos que King escreveu ao sabor da maré, nem ele sabe o que quer para a história e os acontecimentos vão surgindo e surpreendendo não só o leitor como também o autor. A história é muito simples, e consegue ser original, mesmo que os personagens e os contextos não o sejam. De uma forma muito subtil, o autor vai fazendo piadas a outras obras, literárias, musicais ou cinematográficas. O perfil do protagonista remete-nos ao Velho Oeste, e mesmo a ação lenta do livro faz-me lembrar a lentidão dos western spaghetti.

Mas o livro é muito mais do que isso. Tem demónios, cidades destruídas, ficção científica, quebra-cabeças que puxam pela nossa astúcia, uma fantástica química entre personagens e uma coesão incrível a formar-se entre eles. Se há momentos em que quase parece que estamos a ler um livro infantil – tão básica e simples que se torna a história e os diálogos – essa imagem é completamente esmagada quando percebemos a complexidade do Mundo Médio, o khef, ka, ka-tet (parece chinês, não?), e quando vemos a linguagem áspera e os diálogos cheios de palavrões entre os personagens.

sem-titulo
Ka-tet (pinterest)

Gostei também de o livro conter imagens. Não só torna os sinais encontrados pelos personagens mais identificáveis, como nos dá folga a tantas letras; este terceiro volume são 550 páginas com letras um pouco para o pequenas – o formato habitual da Bertrand. O livro no seu todo é bom, mas peca pela lentidão da leitura. O terço final do livro é excelente, e termina no seu auge, com um gancho muito apetecível para o próximo volume. Recomendo vivamente aos amantes de fantasia e, como diria Roland: não se esqueçam do rosto do vosso pai. 😛

Avaliação: 8/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e A Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

#7 A Torre Negra

Aquisições de Abril 2015

Depois de no mês de Março ter feito as primeiras três compras do ano no que diz respeito a livros (As Raparigas Cintilantes, A Lenda do Vento e Merlin: Os Anos Perdidos), eis que chegamos a Abril e uma ida às compras fez-me encontrar dois dos livros da minha wishlist: Terras Devastadas, volume 3 da saga A Torre Negra de Stephen King, e O Miniaturista de Jessie Burton. Pois, primeiro trinquei os lábios, depois fiz contas de cabeça e não pensei mais. Não podia deixar fugir esta oportunidade, senão podia acontecer-me o mesmo que com o Tigana: A Voz da Vingança, que aqui na minha zona não o consigo encontrar em lado nenhum. Terá de esperar por uma ida à FNAC.

Aqui estão os meus mais novos 😛 :

Sem título2

Neste terceiro volume da série de culto, Roland prossegue com a sua demanda pela Torre Negra, mas agora já não está sozinho. Treinou Eddie e Susannah, que entraram no Mundo Médio em momentos diferentes no livro anterior, à velha maneira dos pistoleiros. Mas o seu ka-tet ainda não está completo. Falta incluir um terceiro elemento: alguém que já esteve no Mundo Médio, um menino que morreu não uma, mas duas vezes, mas que continua vivo. Os quatro do Ka-tet, unidos pelo destino, terão de fazer uma longa viagem até às terras devastadas e à cidade destruída de Lud, que fica para além delas. Pelo caminho, encontrarão a fúria de um comboio, que pode muito bem ser o seu único meio de fuga…
«Momentos de fantasia encantadores, episódios de uma tensão extraordinária e uma cena de terror arrasadora.»
Publishers Weekly
«Stephen King no seu melhor.»
Library School
______________________________________________________________________________________

Sem título2 Num dia de outono de 1686, a jovem Nella Oortman, recém-casada com um próspero mercador de Amesterdão, Johannes Brandt, chega à cidade na expetativa da vida esplendorosa que este casamento auspicioso lhe promete. Mas, entre a amabilidade distante do marido e a presença repressiva da cunhada, Nella sente-se sufocar na sua nova existência. Até que um dia, Johannes lhe oferece uma réplica perfeita, em miniatura, da casa onde vivem. Nella encomenda então a um miniaturista algumas peças para ornamentar a casa. Mas algo de surpreendente acontece: novas encomendas de miniaturas continuam a chegar sem terem sido solicitadas, como presságios silenciosos de futuras tragédias. Um romance de estreia magnífico, sobre amor e traição, que evoca com grande sensualidade a atmosfera da Amesterdão do século XVII.

Jessie Burton nasceu em Inglaterra em 1982. Estudou na Universidade de Oxford e na Central School of Speech and Drama. O Miniaturista, o seu primeiro romance, tornou-se um bestseller do New York Times e do Sunday Times. Foi Livro do Ano da Waterstones e recebeu o Specsavers National Book Award Best New Writer of the Year.

Parece que me esperam ótimas leituras, hein? 😛