Sessão de Autógrafos na Feira da Ascensão (Chamusca)

Chegamos a maio e maio abre-nos a porta às épocas festivas com a grande Feira da Ascensão, na Chamusca, uma das mais famosas do Ribatejo. Este ano tive o prazer de estar presente, não só como espectador, como é habitual, mas também como autor convidado da Feira do Livro do certame. Depois de já ter tido o privilégio de ser convidado pela Rota do Livro para a Alpiagra, em setembro, voltei a aceitar o convite da organização. Ao lado da autora Cátia Salvado Fonseca, enfrentei a noite de temporal, que não impediu que fossem vários os transeuntes a chegar e a adquirir o meu livro Espada que Sangra. Uma noite de autógrafos para recordar e repetir. Aqui ficam as fotos:

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Dia Mundial do Livro

Dia 23 de abril de 2016. 20:45. Passei aqui para comemorar este Dia Mundial do Livro, que se traduz naquilo que, afinal de contas, vivemos diariamente – nós, bookaholics, os que não passamos sem um bom volume aveludado entre os dedos, alimentando os olhos e polindo a mente.

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E assim, em jeito de quem não quer a coisa, despeço-me com um anúncio: dia 7 de Maio, pelas 21 horas, espero por vocês no edifício do Centro Cultural da Chamusca, para uma sessão de autógrafos do meu livro Espada que Sangra, incluída na Feira do Livro da Feira da Ascensão. E ainda estão a tempo de aproveitar os descontos do Dia Mundial do Livro, nas lojas online da FNAC e Bertrand.

Não percam a oportunidade.

200 Posts, Peça a Peça

Que Aan me valha! Ainda nem passou um ano e já dupliquei o volume de posts no meu blogue. Como podem ver neste link, atingi a marca dos 100 posts a 20 de Abril do ano passado, e já alimento este cantinho desde 2012, o que significa que tenho andado a trabalhar bem. :p A verdade é que sou um saudosista nato e sempre gostei muito de olhar para o retrovisor, se bem que com a vida me tenho tornado bem mais pragmático e virado para o presente. Seja como for, quem é que não gosta de dar uma espreitadela ao que fez no passado? Isso sempre me aconteceu e de alguma forma consigo tirar algum prazer disso, afinal foi o passado que fez de mim o que sou hoje, e as experiências, tanto as negativas como positivas, são o que nos enriquece. 100 posts após a última marca, só posso sentir-me orgulhoso…
… e não me refiro apenas ao blogue. Entre desilusões, cargas excessivas de trabalho e projetos sem luz ao fundo do túnel, o ano de 2015 terminou com um certo sabor agridoce, e 2016, apesar de ter iniciado com algumas reservas e os pés bem assentes na terra, tem-se mostrado muito positivo até à data. Afinal, tudo depende de como abordamos as circunstâncias e do respeito que temos por nós próprios. Depositar a energia certa e viver o dia com tudo o que ele tem de bom, é o segredo para sermos felizes hoje, e não esperarmos por amanhã. Conhecer novas pessoas também ajuda.
Sem título 2As aventuras em Zallar continuam. Sei que estou em falta para com os fãs que já mereciam ter o segundo volume nas mãos, mas as coisas com a Chiado Editora não foram fáceis e preciso de mais uns meses para terem novidades nesse sentido. Entretanto, já estou a escrever o quinto volume e pretendo encerrar a escrita da saga por altura do verão. Tento sempre alterar as minhas rotinas, e escrever tem-se tornado um hobbie cada vez mais prazeroso. Ultimamente, tenho-me sentido mais inspirado a escrever num caderno, em lugares mais isolados – como por exemplo numa esplanada – e passar posteriormente a computador.
Há semanas mais loucas, em que os trabalhos no Clube e no Hospital não me dão energia para escrever, mas mesmo aí ninguém me rouba o prazer da leitura (nem de partilhar as minhas opiniões convosco aqui no blogue). Ultimamente ando mais virado para as bandas-desenhadas, mas continuo a ler bons livros. Terminar a saga Mistborn foi uma experiência muito boa, acreditem; ao contrário de outros autores como Scott Lynch ou George R. R. Martin, não vejo Brandon Sanderson como uma inspiração, porque tenho para mim a arrogância de que sei fazer melhor do que ele, mas apreciei realmente o fim da série.

The Walking Dead tem sido a minha febre do momento, tanto em série de tv como em bandas-desenhadas, e é já uma das minhas grandes paixões da ficção, a par de Dragon Ball e Gentleman Bastards. Ler bandas-desenhadas está a permitir-me ser mais assíduo aqui no blogue, e apesar dos meus dias serem cheios, tenho sempre um bocadinho para vir ao vosso encontro. Muito obrigado pelo feedback positivo que vou recebendo, não só ao livro como ao blogue, e estou desejoso de continuar a montar peça a peça este castelo ao vosso lado. Obrigado a todos!!!

As Origens de Zallar #10: Histórias Vermelhas

A história é émula do tempo, repositório dos factos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro. Miguel de Cervantes

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

É numa época extremamente sensível no que diz respeito a religiões e a ecos da História que encerro a primeira série de artigos sobre As Origens de Zallar. É tempo de refletir sobre a nossa própria História, e sobre o quanto dela usei para construir este mundo fantástico.

Síria, Jordânia, Palestina, E. U. A., Inglaterra, França… Os ataques terroristas sucedem-se, em nome de grupos extremistas com a mesma base religiosa. Não é uma questão pacífica e nem todos concebemos o mesmo olhar sobre o assunto. Ao ler estas linhas, podem presumir uma comparação entre os extremistas muçulmanos e os hediondos mahlan, raça que um dia predominou em Terra Parda, a partir da qual sofreu alterações genéticas decorrentes do seu afastamento para os desertos, onde de alguma forma voltaram a evoluir. A verdade é que não pretendo estigmatizar uma civilização tão rica quanto é a muçulmana, nem de uma forma alegórica. Não porque o politicamente correto me embargue, mas porque a minha crítica dirige-se a toda a barbárie, e não a uma religião ou nacionalidade em particular.

Exige-se uma leitura aprofundada à nossa História, à filosofia cristã e à islâmica, para chegar-se a um efetivo esclarecimento sobre qual das visões foi a mais bárbara, em tempos vagamente retratados na saga. Mais do que um olhar filosófico e histórico, a própria perspetiva teológica das ideologias por mim montadas nesta série literária são extremamente divergentes em relação às crenças cristãs e muçulmanas, uma vez que elas se aproximam mais das teologias cosmológicas da Antiguidade. As ilações precisas ficam, então, reduzidas aos fatores históricos e estratégicos de ambas as civilizações.

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Comum a todas as religiões, mono ou politeístas, está o sentido de sagrado, entre os fiéis de diversos credos, ateus ou agnósticos. É uma questão vinculada à própria noção de alma humana, à sua mentalidade individual ou coletiva. A diferença de experimentos, de pensamentos ou até mesmo de sentimentos – todos eles uma cadência ligada à perceção humana – é combustível para separatismos e guerras em todo o mundo, desde a aurora dos tempos.

Em Histórias Vermelhas de Zallar, a questão religiosa parece sempre subliminar aos interesses do Homem. O Homem parece agir por interesse próprio, movido por vingança ou por ganância, e pouco demonstra o lado fervoroso do sentimento religioso. Isso verifica-se, efetivamente, numa perspetiva intimista e pessoal, mas o mundo religioso está presente, as suas diferenças são patentes e sabe-se de antemão que muitos dos conflitos iniciaram-se por querer fazer valer a sua ideologia. Isso é religião. Foi para espalhar a sua mensagem que Ameril Ozilliar colonizou todas as Terras Quentes, da mesma forma que Maomé avassalou Meca e Medina. Com diferenças ao nível da perspetiva, do comportamento e do modo de agir, Maomé, Buda e Jesus Cristo foram mensageiros da sua própria doutrina, colocando-a em prática e tornando-se heróis por terem sido pioneiros e, mais do que isso, por terem sido bem-sucedidos. Como diz o ditado, dos fracos não reza a história.

Passou muito tempo até que Hamsha se habituasse à temperatura de Welçantiah, às paredes frias do Palácio Real, aos monumentos imponentes dedicados a reis deuses ímpios e pagãos. Nunca fora uma verdadeira fiel, mas habituara-se a homenagear a Estrela Flamejante, a prostrar-se aos reis solares, e por isso os deuses dos terrapardianos pareciam-lhe distantes e cruéis. Mas todo esse tempo depois, os novos deuses que conhecera já não lhe pareciam tão pétreos nem implacáveis, quando ali chegara as figuras nos painéis policromos e nas inexpugnáveis estátuárias de mármore pareciam mais graves e severas, censurando-a nas suas ações e prometendo condená-la ao frio eterno. Espada que Sangra

Os leitores de Espada que Sangra perceberam que o livro foca-se muito mais nas questões históricas do que nas religiosas, apesar de um rol de ritos, costumes e preconceitos entre culturas transparecer para quem o lê. O tempo religioso – cíclico – é manifestado sobretudo através dos dias da semana, mas não existe uma evidência efetiva de dias festivos como o Natal ou o Ramadão, que incitem os fiéis a uma verdadeira metamorfose no estilo de vida diário. Daí que classifique a leitura do Espada que Sangra como uma leitura mais histórica do que religiosa.

A nossa ideia do que é uma religião descende de duas crenças – a judaica e a cristã –  que implementaram um sistema de organização ética, ao contrário da religião muçulmana, cujas ideologias se tornaram intimamente contíguas às leis políticas e normas sociais. No mundo literário, em Terra Parda e nas suas principais cidades-estado – as espadas -, preocupei-me em focar-me no lado mais materialista e objetivo do estado social, nas preocupações estratégicas e políticas. No entanto, umas pinceladas de noética – o estudo científico sobre a produção dos fenómenos do pensamento, oriundas da filosofia ateniense – e um sentido empírico das questões sobrenaturais são e serão encontradas em tempo oportuno.

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Para perceber como funcionam as religiões e o porquê de elas terem colorido de vermelho as Histórias, é necessário recorrer ao Antigo Testamento, um retrato complexo e bastante credível no que diz respeito à vontade dos homens e às suas consequências num contexto real. Importa perceber que na Antiguidade, todos os malefícios do mundo, fossem doenças, frustrações pessoais, posições solares ou desgraças climáticas, eram atribuídas a erros de um todo, um mundo cósmico. Por conseguinte, esses erros seriam corrigidos através de dádivas ou sacrifícios, o que constituía uma crueldade animalesca, inerente à natureza humana. Rituais de sangue que desde cedo pincelaram de vermelho o solo pisado pela Humanidade. Segundo as escrituras, depois do pacto de sangue entre Abraão e Deus, ao qual é atribuído o início do judaismo, a humanidade abriu-se para uma nova realidade, separando a ideia de um todo universal para o simbolizar através de uma única divindade.

Se partirmos deste pressuposto, as Histórias Vermelhas de Zallar são um retrato fantasioso daquilo que o Antigo Testamento quis mostrar. A génese de uma série de culturas, um compêndio de histórias sobre civilizações confusas, que podem ser o fim ou o início de algo, cisões entre culturas distintas e os seus atritos internos, o cruzar e entrecruzar de personagens, capitais para contar a história a que me propus. Um mundo de pessoas que morrem e pessoas que sobrevivem, pessoas que fogem e pessoas que enfrentam, pessoas que são aceites ou ostracizadas. O pano de fundo é uma panóplia de culturas extremamente enraizadas, com uma noção mais prática ou teórica do mundo, diversas formas de abordar os problemas e contorná-los. Reinos quebrados e impérios em formação são o velo em que é tingido este Espada que Sangra e as Histórias Vermelhas que se vivem em Zallar.

Não é apenas a cultura islâmica que divide o mundo em “o meu mundo” (o mundo de paz), o mundo em que “as normas têm de ser efetivamente cumpridas ou sangue será derramado”, e o mundo dos “outros”, o mundo da guerra, dos infiéis, dos pagãos, dos quais se forma a ideia de intolerância. Infelizmente, ainda hoje muitos ocidentais encaram a vida desta forma, vislumbrando no derramamento de sangue a solução efetiva, prática e única para a resolução de um problema. É tempo de refletir se, na era da informação em que vivemos, somos um povo assim tão civilizado como pensamos, ou se continuamos tão primitivos como nos tempos em que se matava crianças para satisfazer os apetites de um deus mudo.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Pesquisei também na net a citação de Miguel de Cervantes sobre história e um pouco sobre a cultura judaica.

As Origens de Zallar #9: A Religião Terrapardiana

Deus não tem religião. Mahatma Gandhi

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Um dos aspetos que me dá mais gozo enquanto autor destas Histórias Vermelhas de Zallar é a construção dos sistemas de crenças. Entre as várias religiões presentes na obra, a terrapardiana é a que aufere maior destaque neste primeiro volume. Se, num dos artigos mais recentes, foquei-me na Sociedade Sem Voz, uma confraria secreta de especial importância para o curso narrativo, este serve para apresentar a religião como um todo, uma vez que a referida organização baseia-se nas suas crenças, mas inclui também todo o tipo de figuras pagãs e divindades, atribuindo uma faceta humana aos deuses. A Sociedade Sem Voz acreditava que Anoris, o primeiro Rei de Terra Parda, era a encarnação do próprio Aan, deus-pai dos terrapardianos, o que difere grandemente da visão geral do terrapardiano, que vê o deus como algo intangível, inumano. É através da personagem Hamsha que somos apresentados a todo esse rico panteão.

À luz de uma vela de sebo, Hamsha fitou uma imagem colorida no centro da lauda. Nela, encontrava-se desenhada uma grande roda coberta de símbolos, e pequenas reproduções de animais e indivíduos se podiam ver à sua volta.
― Os trabalhos agrícolas iniciam-se ao primeiro dia da semana. O shalíngo é consagrado ao deus da fertilidade, o Lavrador, e neste dia as comunidades unem-se para a lavoura dos terrenos.
Hamsha acompanhou o indicador enrugado do homem para uma das representações na grande roda, onde mostrava uma formiga gigante de cor nívea, cujos olhos expressivos mostravam a forma de duas folhas brancas nas pupilas. Assim as considerou, porque o seu mentor acabara de lhe explicar que o Lavrador era o deus da fertilidade, da agricultura e da natureza, mas essa ideia fora-lhe recusada de imediato.
― Não, minha querida. Isto que vês nas pupilas não são folhas, mas penas brancas. Todos os deuses se transmutaram quando foram acolhidos no limbo pelo Povo das Nuvens. E ao mesclarem-se com as nuvens, ganharam também as suas características. As aves brancas que vês no céu, vêm das Terras do Povo das Nuvens, são os mensageiros que fazem a ponte entre o nosso mundo e o deles.

Posso afiançar que esta ideia de os deuses serem dotados de elementos aviários está relacionada com o que pensei inicialmente para este mundo de Zallar. A minha primeira ideia foi criar uma fauna semelhante à que existia no Período Cenozoico do nosso mundo, habitat de imensas espécies de aves do terror. Na fase de construção que se seguiu, abandonei ligeiramente essa ideia, mas mantive a vontade em fazer de Zallar um mundo de aves. Como tal, atribuí características aviárias a muitas das espécies animais, refletidas na própria natureza humana. Cito, como exemplo, a crença do céu e inferno que nos é tão comum. Se o inferno é chamado de Qaos pelos terrapardianos, o céu em que acreditam é apelidado de Terras do Povo das Nuvens, onde o falecido ganha características de aves. Para além de mensageiras entre os dois mundos, as aves brancas são vistas como seres veneráveis, enquanto as de penas negras são catalogadas como aziagas, como é o caso das gralhas-de-sangue.

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― O segundo dia da semana é o aaczto, dedicado à deusa da Paz, chamada de Alada. ― O homem tateou a página para mostrar a imagem de um maravilhoso cisne branco com uma gargantilha em ouro pendurada ao pescoço. ― Dedicado às orações caseiras, neste dia as mulheres ficam em casa, pedindo pelos seus entes-queridos à deusa. É representada como um cisne, mas antes da transformação terá sido uma bela mulher, uma rainha complacente e benévola.


― Ao terceiro dia do mundo, O Ente concebeu Shiin, também chamado de Rei Caçador ou O Cavalo de Aan, patrono da velha Welçantiah. Por isso, o terceiro dia da semana é a ele dedicado – o shiinaro.
Hamsha viu um belo cavalo de penas brancas, que de imediato associou ao unicórnio da cota de armas real de Welçantiah.
― Os templos de Misera agitam-se no miser. Este dia da semana é devoto à deusa Misera. ― Abaixo do cavalo, ao lado de um elaborado texto com a caracterização da deusa, via-se o retrato de uma mulher nua de pele verde vestida de penas brancas. ― Todos esperam que a deusa tenha misericórdia por eles e por aqueles que já se foram, que vivem agora no reino celeste junto ao Povo das Nuvens.
Do outro lado da página, estava uma mulher bailarina com uma pomba na mão.
― O quinto dia da semana é dedicado a Amável, a deusa bailarina. O amailon é um dos mais importantes dias da liturgia welçantiana. Os grandes bailes da corte são concedidos nesta noite. A deusa é representada como uma mulher a dançar com uma pomba na mão, e em alguns casos, mesmo como uma pomba branca. O Rei surge sempre nestes bailes com uma máscara de penas brancas sobre o rosto. ― O homem tossiu, apontou para debaixo da dançarina, e ali encontrou desenhada uma truta com penas brancas em vez de escamas. ― O sexto dia é o anoron, dedicado ao Anor, O Pescador de Homens. É o protetor das famílias, das crianças e dos marinheiros. Diz-se que habita na terra que há para lá do mar, e quando os homens se afogam e se perdem nas águas, Anor pesca as suas almas para o lado de lá. O anoron é o dia do lazer, dos jogos de família, e ao primeiro de cada mês, é atribuída a todas as famílias um abono relativo ao número de filhos que cada casal possui, auxiliando as famílias na sua subsistência. Por fim, o sétimo e último dia da semana – o aanir – é consagrado a Aan, o Supremo, o deus homem, o deus entre os deuses.
O homem explicou-lhe que era um dia dedicado às artes, às grandes aparições públicas e aos discursos do Rei. A representação de Aan, na base da roda, era um homem belo de longos cabelos negros e vestido de penas brancas, com uma serpente emplumada em cada mão. No norte acreditavam que a representação de Aan era mesmo uma serpente emplumada. De entre as pernas saía-lhe um comprido pénis com cabeça de serpente, conhecido entre os welçantianos como Lança de Aan, símbolo de virilidade muito adorado, mas também escarnecido pelas mentes promíscuas quando se tratava de ofender alguém. As prostitutas eram muitas vezes apelidadas de lanceiras de Aan, uma metáfora relativa ao seu ofício.

A crença de que um deus da fertilidade seja o mais venerado do panteão só encontra similaridades nas religiões matriarcais pagãs, que prestavam culto à Deusa-Mãe, seja Brígida, Sarasvati, Nibada, Cibele, Reia, dependendo da cultura que a observava. Também o nórdico Thor tenha talvez sido um deus da fertilidade tão adorado, mas o Aan da religião terrapardiana foi beber muito mais à mitologia inca do que ao imaginário viquingue. E, muito embora o deus Min não seja uma figura de destaque no panteão egípcio, a sua figura é a inspiração maior para o deus mais evocado pelo terrapardiano, essencialmente no que diz respeito à sua representação itifálica. A deusa Amável foi buscar inspiração às religiões clássicas, à Hera/Juno e à Vénus/Afrodite, mas para a conceção dos restantes deuses, foi a todas estas culturas acima citadas que bebi características relativas a ofício, estratificação social ou estado físico. A fisionomia dos mesmos adquire um contraste entre o greco-romano e o meso-americano, embora me tenha esforçado para torná-los originais, dentro do permitido pela minha imaginação. Tauret, Bes, Tiamat, Izanagi, Bhairavi são exemplos de inspirações. Ao contrário dos outros panteões apresentados nas Histórias, o terrapardiano tem espaço para uma cartela de deuses negros, correspondente à visão cristã dos anjos caídos.

O velho desfolheou umas quantas páginas para revelar uma outra representação. Nela apareciam dez gralhas-de-sangue, da cor do vinho tinto, a cor mais escura do sangue que lhes dera o nome: os akhamay. O senhor do Qaos era Moo’ron, e o seu séquito era composto por Mortmer, Moshin, Moltor, Dhalsi, Dhim, Magul, Moro, Meer e Shogon, dez deuses corrompidos no início dos tempos, que com as suas forças infernais conceberam o Qaos, um inferno imenso cujo caminho era feito através das dez misteriosas e ardentes Cabeças do Qaos. Alguns julgavam que as Cabeças do Qaos eram os próprios akhamay, outros garantiam que eram estradas negras fendidas no solo, e podiam até jurar conhecer as suas sombrias localizações.

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Aparte as caracterizações físicas e significância de cada uma destas figuras adoradas pelos terrapardianos, a mitologia em “Histórias Vermelhas de Zallar” tende a mostrar-se credível, dentro da esfera de vida dos crentes. Nesta saga, ela toca a realidade por diversas vezes, mas nunca de uma forma explícita. Obriga a que toda a sua complexidade seja desvendada, camada após camada. Sempre fui apaixonado por mitologia, por isso é com prazer que exploro estas questões, sempre de um ponto de vista mais estudioso que esotérico, ao longo da série literária. Os mistérios deixados pelos ancestrais e a génese das lendas é também um ponto a explorar. Acredito que esses imensos microcosmos de deuses e deusas que encontramos espalhados por civilizações do nosso mundo real, são faces das mesmas moedas, todos eles interpretações diferentes da mesmíssima coisa, facetas de um macrocosmos de deídades cujo significado está muito para além do divino.

E é essa perspetiva que pretendo espelhar na minha saga, despindo por frações todas as verdades encriptadas, muito mais ligadas à ciência do que ao etéreo, como o fizeram ao longo dos séculos sábios, irmandades secretas e confrarias. Dos mistérios da Ordem do Templo à Maçonaria, dos segredos envoltos à vida e morte de Jesus Cristo, às paixões pelos símbolos de poder evidenciadas por Adolf Hitler, são muitos os enigmas da humanidade que dão azo a mil e uma ideias que se coadunam com o meu imaginário. Para saber mais sobre este mundo de Zallar, pejado de mistérios, não há como pegar neste Espada que Sangra e iniciar a leitura.

Os símbolos sexuais, masculino e feminino, nasceram na mitologia grega. O círculo com a cruz representa o espelho de Afrodite (Vênus), símbolo da mulher… e o círculo com a flecha dirigida para cima representa o escudo e a lança de Ares (Marte), o símbolo do homem. Otávio Conti

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Pesquisei também na net as citações de Gandhi e Conti sobre religião e mitologia.

Sessão de Autógrafos na ALPIAGRA

Pois é, foi com uma grande honra que acedi ao convite da Rota do Livro para estar presente na 33.ª Feira Agrícola e Comercial de Alpiarça – a ALPIAGRA – em mais uma sessão de autógrafos. Tive a oportunidade de privar com os escritores Paulo Gomes (Quadras de Amor Vol I e II) e Maria João de Sousa Carvalho (Jantei Ontem em Seattle), pessoas muito gentis e bem-humoradas, com quem passei um momento de reflexão e convívio. O tempo não estava convidativo e a afluência pecou por escassa, mas foi um evento interessantíssimo a nível cultural. Acutilante e irónico pormenor, os exemplares do “Espada que Sangra” chegaram à Feira pelas minhas mãos, e não pelas da editora como seria suposto. Este pormenor daria azo a uma série de parágrafos sobre o funcionamento da editora e sobre a aparente falta de profissionalismo, mas prefiro ficar-me por aqui. Resta-me a garantia de que nunca mais trabalharei com ela, a não ser que a senilidade me embarace, não por esta, mas por inúmeras razões.

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Depois de um fim de semana pacífico, com a apresentação de um concurso de Vestidos de Chita e uma sessão de autógrafos que decorreu durante a tarde e princípio da noite de domingo, resta-me dedicar ao trabalho, à escrita, à leitura e à vida do dia-a-dia. Novos eventos e peripécias me aguardam. Aqui ficam algumas fotos do evento:

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As Origens de Zallar #8: A Traição Dyekken

Até tu, Brutus, meu filho! [Júlio César]

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Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Toda a boa história está impregnada de uma certa dose de conspiração e traições. O meu Espada que Sangra não é a exceção à regra. No último artigo falei-vos de jogos de poder, e qual é o jogo de poder em que não há traições pelo meio? Voltaire já nos dizia que os desconfiados convidam à traição, conquanto haja motivo para tal. O principal visado de traição no jogo político é aquele que detém o poder, e no caso específico do Espada que Sangra esse homem é Ameril Hymadher, o rei de Welçantiah. Por inveja ou por ambição, aqueles que o atraiçoaram fizeram-no, na grande maioria das vezes, para o próprio benefício. Existe um vasto leque de motivos por detrás das maiores traições da nossa História, grande parte deles relacionados com predisposições religiosas ou partidárias. No meu livro, Hymadher é “apunhalado” por vários dos personagens que lhe são próximos, e escuso-me a dizer os nomes ou os laços de afeto que os unem. Uma das maiores traições de que foi alvo, porém, ocorreu antes do início do livro, conforme vos relato a dado capítulo.  A traição de Dyekken Jacoh à causa Ameril.

O capitão, conhecido pela sua fanfarronice, fora enviado à frente de uma delegação para negociar com uma raça considerada “superior” em conhecimentos, os el’ak, que tornar-se-ia um apoio determinante para a guerra que os welçantianos travavam nas fronteiras. As cidades-estado de Terra Parda uniram-se para defender o país de um exército de criaturas dos desertos, os mahlan, que haviam evoluído nas suas componentes técnico-táticas. Estas criaturas usavam também ooti, uma raça de répteis voadores (os quais me inspirei nos nossos velhos amigos pterodáctilos), como montaria no ataque aéreo.

Por sua vez, a defesa terrapardiana aparava os avanços com poder de fogo: o uso do tormento negro, bem semelhante à nossa pólvora, havia-se tornado um meio crucial para a sobrevivência humana. Ainda assim, tal instrumento não se revelou autossuficiente e foi de certa forma um ato de desespero aquele que levou Ameril Hymadher a pedir apoio aos el’ak, que décadas atrás haviam decidido não voltar a entrar em nenhuma guerra que não lhes dissesse diretamente respeito.  Dyekken Jacoh liderou a delegação welçantiana na abordagem aos el’ak, mas as suas intenções revelaram-se dúbias desde o primeiro instante. Perante a descrença dos visados nas suas palavras, fazendo respeitar as juras dos antigos e mostrando-se indisponíveis para servir de carne para flechas, o capitão enviou um relatório a Welçantiah, que mais não foi do que um sério pedido de reforços. Alegadamente, os el’ak haviam-nos hostilizado e a refrega tornara-se inevitável. Hymadher enviou reforços para apoiar Dyekken, mas assim que se sentiu confortável para isso, o capitão deu ordens para ocupar a fortaleza el’ak, Torre das Harpas. Após violentos confrontos armados, e graças ao poder de fogo que os el’ak não possuíam essencialmente por o considerarem produto das trevas, Dyekken Jacoh levou a melhor e ocupou a fortaleza. Não só fez o rei el’ak refém como controlou Torre das Harpas, não a favor do seu rei e senhor, Ameril Hymadher, mas para seu próprio proveito. Jacoh renunciou aos Ameril e fez de si mesmo soberano de Torre das Harpas.

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Francesco Sforza foi uma das minhas inspirações para a composição deste personagem. Nascido na Toscânia, lutou desde cedo ao lado do pai, Muzio Sforza, e tornou-se admirável pela habilidade de dobrar barras de metal com as mãos. Foi um grande comandante de campo e estratega formidável. Lutou não só para os napolitanos (em Nápoles acabaria por perder os seus feudos), como para os milaneses, com quem travara uma relação de amizade de vários “capítulos” com o duque de Milão, Filippo Visconti. O trabalho para o papado conferira-lhe estatuto entre os exércitos. Aquando da morte do duque, e à falta de um filho varão que lhe sucedesse no cargo, Sforza fora agraciado com a distinção, tornando-se duque de Milão. No poder, revelou várias habilidades de gestão, flexibilizou a política externa e garantiu a independência do estado italiano face aos predadores vizinhos. Faleceu em março de 1466, sendo substituído pelo filho, mas a sua obra perdurou através dos séculos.

É esta a visão que a História nos oferece de Francesco Sforza, e o “meu” Dyekken Jacoh não tem nem um pouco da honra que a biografia de Sforza transpira. Jacoh era um homem acossado por um complexo de inferioridade gritante, capaz dos mais rebuscados métodos para encobrir a sua cobardia genética. No entanto, alguns traços do percurso de Sforza serviram de inspiração para este personagem.

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Brutus é um dos traidores mais famosos da História. A sua memorável traição remonta a 44 a.C., quando apunhalou Júlio César nos degraus do senado. A relação de Brutus para com César era a de um filho para com um pai. Pertencente à casa dos Júnios – que se diziam ser descendentes da deusa Juno – a mãe havia sido amante de César, e mais tarde o conhecido líder romano tomou-o como seu favorito. Brutus alinhou, no entanto, na conspiração de Cássio para o matar. Acabaria por não obter grandes recompensas desse assassínio e suicidou-se dois anos mais tarde, após uma frustrante derrota na Batalha de Filipos. Jacoh não conspirou para matar Hymadher de uma maneira tão objetiva, desejando estabelecer-se como líder militar antes de golpear o inimigo. Nesse campo, personagens como Goròn agiram de um modo mais cerebral, com a desejada liquidação do opositor a funcionar como o trampolim para o poder. No entanto, cabe-me considerar que as elegias cantadas a Brutus seriam porventura tão tristes quanto as que poderiam ser cantadas à memória ensombrada de Jacoh.

Dyekken Jacoh colocou-se de imediato em pé, com as suas gorduras a baloiçarem-lhe na barriga bojuda, coberta de pelos claros que se estendiam até ao sexo definhado. Era um homem feio de nariz abolachado e bochechas caídas, e uma grande barba loura a tender para o ruivo caía-lhe ao nível do peito peludo. Os seus olhos eram castanhos como nogueira. [Espada que Sangra, Nuno Ferreira]

A “troca de camisa” de Dyekken Jacoh tivera também uma componente religiosa. Nem Welçantiah nem Torre das Harpas eram estados laicos, cada um reverenciava os seus deuses e todo o líder político detinha a responsabilidade de prestar culto aos seus. Pelo comportamento de Jacoh, o único deus em que acreditava era nele próprio. O seu endeusamento tornou-o cego de compreender o modo de vida dos el’ak, o povo que passou a governar, mas acima de tudo a não imposição de um novo credo aos novos súbditos passa muito pela sua natureza cobarde. O terror que sentia por sofrer uma rebelião dentro do domínio conquistado instalara-se em Jacoh como um veneno, que o conduziu lentamente ao desfecho que conhecemos. Faltou-lhe a coragem de um Akhenaton, que em 14 a.C. aboliu toda a religião egípcia em favor de um único deus: Aton. A incisiva empresa levada a cabo pelo faraó foi vista como uma traição terrível aos olhos dos súbditos, mas Akhenaton conseguira fazer valer as suas ideias e muitas das construções erigidas durante o seu reinado são maravilhas da arquitetura milenar egípcia ainda hoje visíveis aos nossos olhos. Mais do que coragem, faltou a Jacoh um propósito. Ele quis governar por despeito, por revolta, por saber que era menos capaz do que o seu rei. Um rei que nunca amara. Um rei que nunca soubera igualar. Um homem melhor.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Procurei também na Wikipedia informações sobre Brutus e Sforza para não pecar em imprecisões. 

As Origens de Zallar #7: Os Jogos de Poder

A sorte não existe. Aquilo a que chamais sorte é o cuidado com os pormenores. Winston Churchill

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Hoje venho falar-vos sobre jogos de poder. Mais do que as movimentações entre irmãos pela conquista do poder (reparem que os Ameril governam há imenso tempo e sempre houve despiques entre irmãos pela posse do trono), quero falar-vos de movimentos que lhes estão subjacentes: as camadas inferiores da governação. O Conselho de Estado que tem sempre um voto na matéria, composto por homens que já deram tanto de si à Espada e que foram nomeados para aqueles cargos tão veneráveis. Quem são estes homens? Quais as suas verdadeiras intenções? Há todo um jogo de bastidores que coordena as engrenagens de Welçantiah? Em que me inspirei para a criação deste Conselho?

Na monarquia romana, uma das funções mais decisivas era a de escolher o rei, o que acontecia no período a que se convencionou chamar interregnum. Quando um rei morria, um membro do senado indicava um candidato para substituir o rei. Durante o primeiro intervalo de tempo que se deu após o desaparecimento de Rómulo, o senado de cem homens dividiu-se em dez decurias, cada uma delas era representada por um decurio. Esse sujeito desempenhava a função de interrex durante cinco dias, sendo substituído logo após esse período por outro senador, o que se sucedeu durante um ano. Ao final desse ano, um novo rei foi eleito, após ser aprovada a candidatura pelo senado, dar-se a eleição pelo povo e novamente pelo senado, que tinha sempre a última palavra, o que por si só mostrava o poder desta faixa política. É também de destacar a influência que esse senado tinha a nível legistativo e consultivo; as suas palavras tornaram-se sinónimo de sabedoria e o conselho do senado romano um famigerado exemplo de sucesso.

A única coisa a fazer com os bons conselhos é passá-los a outros; pois nunca têm utilidade para nós próprios. Oscar Wilde

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À sua volta gravitavam homens que colecionavam competências ímpares no jogo de estratégia e um tato apurado para todo o tipo de questões palacianas. No entanto, o que os olhos – e os ouvidos – de Hymadher lhe mostravam eram sombras expectantes, que esperavam ansiosamente pela sua oportunidade para lhe meterem as garras em cima.

Sombras que mordem.

A organização do governo de Welçantiah era complexa. O órgão máximo da cadeia era o Rei, também chamado de xer ou Príncipe Maior. Ele era o sumo responsável por todos os desígnios da sua espada e ninguém detinha mais poder do que ele. A sua ação estava mais intimamente ligada às questões marciais, pois era o principal representante do exército, mas estava também encarregue dos poderes administrativos e legislativos. Em ambos os casos, tinha alguém em quem delegar funções. As questões administrativas eram essencialmente desempenhadas pelo Rei, mas muitas questões menores eram ministradas pelo chanceler: uma figura institucional ocupada por dois ou três conselheiros da sua máxima confiança. Mesmo nas questões de maior importância, eram pedidas Assembleias em que o voto de um chanceler tinha grande peso na decisão finalEspada que Sangra

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No meu livro Espada que Sangra, o Conselho de Welçantiah desempenha um papel em muito semelhante ao do senado romano nos seus tempos monárquicos. É neste cenário que emergem figuras políticas tão ricas como controversas; estou a falar de nomes como Fel Manny, Vax Mohill, Agnim Wilfred-Hunther, personagens importantíssimos no decorrer desta saga conquanto cada um deles tenha a sua motivação secreta, o seu requinte de intriga e uma palavra a dizer no que concernia à governação daquela que foi a Espada mais poderosa em Terra Parda. Curioso?

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Procurei também na Wikipedia informações sobre o senado romano para não pecar em imprecisões. 

Deus… Menor

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O medo enfraquece o homem. Torna-o reativo, apaixonado mas lento, torna-o parvinho. Simplesmente acontece. São palavras escritas no computador portátil de um simples autor; um deus criador para o mundo que escreve e que, quase inexplicavelmente, ganha vida própria. Pergunto-me se o Criador do nosso universo se sente assim tão perplexo ao redigir as tramas das nossas vidas. É com agradável entusiasmo que me encontro já a garatujar o quarto volume das Histórias Vermelhas de Zallar, cujo título de trabalho (e muito possivelmente o definitivo) será Deus Menor. Os meus personagens ganharam vida própria, é verdade, mas continuam meus, e a corresponder às expectativas que criei para eles. Sob um teto de estrelas, a ação avança e as histórias interligam-se. Os personagens seguem os trajetos que desenhei e convergem no caminho de um final coerente e verosímil. Não sei se é a minha vontade a falar quando digo isto, ou se é mesmo a minha análise de autor a concordar com essa mesma vontade, mas sinto-me empolgado com o rumo da obra e sinto que não negligenciei nenhum núcleo. Sou um autor muito perfeccionista e sentir isto é formidável. Se há alguém que se pode queixar, é o meu computador, pelas dedadas esmagadoras de um autor assassino de personagens – e, claro está, essas mesmas personagens que se encontram a dormitar para a eternidade no cemitério dos que já se foram.

Sou um homem pragmático em algumas coisas, em outras nem tanto, mas gosto de ir ao cerne da questão. Para os que gostam do meu trabalho, e para os que não gostam sem terem tocado sequer nele, posso dizer que as Histórias vão continuar o seu percurso de brutalidades e a intensidade vai aumentar. Agradeço todo o carinho com que aquele importante núcleo de pessoas que admira o meu trabalho continua a tratar-me. Apesar de estar a escrever o quarto volume, o segundo não foi esquecido e acendam uma velinha a Aan para que ele saia este ano. Todos os meus esforços vão nesse sentido e a revisão do livro está a caminhar a passos de gigante. Gostava de vos falar mais sobre ele, sobre o que vem por aí, mas só vos posso dizer que os próximos livros são volumes cheios de emoção, aliando uma fantasia verosímil baseada na Antiguidade Clássica, Civilizações Meso-americanas e Egípcias a uma análise profunda do comportamento humano, com personagens tão ambíguos quanto apaixonantes. Como diz Stephen King na tão famosa Dark Tower Saga que estou a ler neste momento, o mundo avança, e acrescento: à medida que ficamos mais experientes naquilo que fazemos, forçamo-nos a saudar o passado com a humildade de quem erra e a sabedoria de quem sabe que tem muito ainda para aprender. A vida é como uma bola, quantos mais pontapés lhe dás, mais ela enfraquece e definha.

Ergam as espadas e tenham um mês de Maio cheio de grandes leituras, boa gente de Zallar. 😛

As Origens de Zallar #6: A Reconquista

O ontem não é nosso para recuperar, mas o amanhã é nosso para ganhar ou perder. Lyndon B. Johnson

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Entre aqueles que leram o Espada que Sangra, as opiniões dividem-se. Houve os que adoraram e os que detestaram a raça chamada mahlan. Conforme conta a história, o mundo de Zallar foi povoado inicialmente pelos Homens Demónio, a primeira raça de hominídeos. Eram sujeitos com pernas idênticas às de uma avestruz, tronco e braços de primata (espécie à qual nos incluímos), e rosto de lagarto, embora todo o corpo fosse revestido de penas. Com o passar dos séculos, aqueles a que chamamos humanos surgiram do oeste para reclamar o domínio da zona a que mais tarde se convencionou chamar Terra Parda. Depois de ferozes batalhas, os humanos rechaçaram os Homens Demónio e apoderaram-se da sua sofisticada cultura, obrigando os sobreviventes dessa espécie a refugiarem-se nos desertos, onde, geração após geração, foram perdendo a sofisticação. Tornaram-se tribos nómadas e deixaram de representar qualquer perigo para a civilização humana. A verdade é que, séculos depois, os descendentes dos Homens Demónio – os mahlan – começaram a melhorar os seus armamentos e voltaram a evoluir, contrariando a tendência até ali observada. Esse progresso e o despoletar de ataques mais ousados fez com que os soberanos das espadas terrapardianas erguessem muralhas nas fronteiras, muralhas essas que travaram essas ofensivas durante décadas. No entanto, o progresso dos mahlan cresceu e as muralhas podem já não conseguir suster avanço tão feroz. Estaremos à beira de uma reconquista de Terra Parda?

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Na arte de criação dos mahlan, fui buscar referências a várias fontes. Queria um inimigo comum arquetípico, como Os Outros do lado de lá da Muralha de George R. R. Martin ou os walkers de The Walking Dead. Mas a ideia de hordas de mortos-vivos não me convenceu nem convenceria quem lesse a minha obra. Queria construir algo de raiz, que também estivesse identificado com as próprias raízes de Zallar. Os tradicionais Homens Lagarto da fantasia heróica foram uma das inspirações mais fortes para a imagem física destes sujeitos, mas acrescentei-lhes mais alguns dados interessantes: física e intelectualmente. No Iraque foram encontradas antigas peças de barro sumérias com imagens de “deuses-répteis”, e desde logo imensas teorias foram tecidas em torno dessas figuras. As teorias mais polémicas defendem que os antigos deuses eram extraterrestres que vieram à Terra para decidir o futuro da raça humana. A Teoria dos Astronautas Antigos defende que não só os deuses das antigas civilizações eram extraterrestres que deixaram pistas, leis, para se regerem (ou para se salvarem), como também aparições de anjos seriam manifestações dessas criaturas: mensagens de criaturas de outros mundos. São incríveis as coincidências e os pormenores interessantes que estudiosos na matéria encontram, como por exemplo as medições e formatos de pirâmides em civilizações em tudo distintas. Com base nessa ideia de reptilianos criadores da espécie humana concebi os Homens Demónio, como uma possibilidade de raça primordial.

O dealbar do homem – não como o conhecemos hoje, não como o imaginamos quando ouvimos a palavra “homem” – ocorreu aproximadamente dez mil anos após a Criação de Zallar. Eram os nebulosos feéricos os donos e senhores do mundo quando eles se revelaram. A maioria das narrações indicam que, percebendo as potencialidades alimentares da terra, pequenos anfíbios e répteis haviam galgado as margens, abandonando o patrono dos mares, enquanto as aves teriam deixado o seu senhor dos céus, buscando subsistência na terra. Os deuses decidiram castigar esses mesmos animais por aquilo que consideravam alta traição e explícita violação dos seus dogmas, e o resultado de um presumível concílio divino abalou as próprias fundações de Zallar. Unindo os seus esforços, os deuses fizeram uma grande tempestade de cem anos se abater sobre Zallar. Oriundo da força singular do relâmpago, emergiu uma nova criatura: exibia um corpo reto, uma cabeça, um tronco, dois braços e duas pernas. Diz-se que todos os animais que abandonaram os seus patronos foram destruídos, e parte dos seus traços físicos foi agregada a esta nova e sublime espécie. Espada que Sangra

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Foto: http://www.hourofwolves.org

Afigura-se então, com a ascensão mahlan, uma luta pela reconquista do poder. E para retratar uma reconquista, não há como fugir à nossa própria História. Em momento nenhum da minha saga irei retratar um facto histórico, isso poderia ser uma inibição à minha criatividade, mas muitos pontos entre a Reconquista Mahlan e a Reconquista Cristã irão convergir ao longo da narrativa.

O objetivo da Reconquista Cristã (que se iniciou no século VIII na Península Ibérica) era a recuperação das terras que haviam sido perdidas para os árabes durante a Invasão Muçulmana. Foi um longo processo que durou oito séculos. Havia começado com a revolta de Pelágio, que à frente de um grupo de refugiados fizera frente ao domínio árabe, e abrira um precedente para as gerações vindouras. Os líderes religiosos apelaram a uma participação efusiva das Cruzadas no projeto de recuperação (a Guerra Santa, que estalara em 1096) e outras instituições religiosas e militares tiveram o seu papel, como os Templários. O nosso país havia expulsado os mouros com a conquista de Faro por D. Afonso III em 1249, mas a Reconquista apenas se considerou concluída em 1492 com a tomada de Granada. Para isso contribuiu o papel decisivo de reinos feudais como os de Leão, Navarra, Aragão e Castela e uma importante aliança entre os Reis Católicos, figuras que inspiraram a criação dos personagens Owenn e Hengeld, os Reis Cléricos da História Zallariana.

Curioso para saber mais sobre esta Reconquista Mahlan e que em que moldes ela se poderá aproximar à Cristã? Continua a ler as Histórias Vermelhas de Zallar e fica atento aos posts dedicados às Origens de Zallar.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Procurei também na Internet dados sobre A Reconquista Cristã, assim como na Enciclopédia Larousse da Língua Portuguesa.