Sessão de Autógrafos na Feira da Ascensão (Chamusca)

Chegamos a maio e maio abre-nos a porta às épocas festivas com a grande Feira da Ascensão, na Chamusca, uma das mais famosas do Ribatejo. Este ano tive o prazer de estar presente, não só como espectador, como é habitual, mas também como autor convidado da Feira do Livro do certame. Depois de já ter tido o privilégio de ser convidado pela Rota do Livro para a Alpiagra, em setembro, voltei a aceitar o convite da organização. Ao lado da autora Cátia Salvado Fonseca, enfrentei a noite de temporal, que não impediu que fossem vários os transeuntes a chegar e a adquirir o meu livro Espada que Sangra. Uma noite de autógrafos para recordar e repetir. Aqui ficam as fotos:

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Dia Mundial do Livro

Dia 23 de abril de 2016. 20:45. Passei aqui para comemorar este Dia Mundial do Livro, que se traduz naquilo que, afinal de contas, vivemos diariamente – nós, bookaholics, os que não passamos sem um bom volume aveludado entre os dedos, alimentando os olhos e polindo a mente.

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E assim, em jeito de quem não quer a coisa, despeço-me com um anúncio: dia 7 de Maio, pelas 21 horas, espero por vocês no edifício do Centro Cultural da Chamusca, para uma sessão de autógrafos do meu livro Espada que Sangra, incluída na Feira do Livro da Feira da Ascensão. E ainda estão a tempo de aproveitar os descontos do Dia Mundial do Livro, nas lojas online da FNAC e Bertrand.

Não percam a oportunidade.

200 Posts, Peça a Peça

Que Aan me valha! Ainda nem passou um ano e já dupliquei o volume de posts no meu blogue. Como podem ver neste link, atingi a marca dos 100 posts a 20 de Abril do ano passado, e já alimento este cantinho desde 2012, o que significa que tenho andado a trabalhar bem. :p A verdade é que sou um saudosista nato e sempre gostei muito de olhar para o retrovisor, se bem que com a vida me tenho tornado bem mais pragmático e virado para o presente. Seja como for, quem é que não gosta de dar uma espreitadela ao que fez no passado? Isso sempre me aconteceu e de alguma forma consigo tirar algum prazer disso, afinal foi o passado que fez de mim o que sou hoje, e as experiências, tanto as negativas como positivas, são o que nos enriquece. 100 posts após a última marca, só posso sentir-me orgulhoso…
… e não me refiro apenas ao blogue. Entre desilusões, cargas excessivas de trabalho e projetos sem luz ao fundo do túnel, o ano de 2015 terminou com um certo sabor agridoce, e 2016, apesar de ter iniciado com algumas reservas e os pés bem assentes na terra, tem-se mostrado muito positivo até à data. Afinal, tudo depende de como abordamos as circunstâncias e do respeito que temos por nós próprios. Depositar a energia certa e viver o dia com tudo o que ele tem de bom, é o segredo para sermos felizes hoje, e não esperarmos por amanhã. Conhecer novas pessoas também ajuda.
Sem título 2As aventuras em Zallar continuam. Sei que estou em falta para com os fãs que já mereciam ter o segundo volume nas mãos, mas as coisas com a Chiado Editora não foram fáceis e preciso de mais uns meses para terem novidades nesse sentido. Entretanto, já estou a escrever o quinto volume e pretendo encerrar a escrita da saga por altura do verão. Tento sempre alterar as minhas rotinas, e escrever tem-se tornado um hobbie cada vez mais prazeroso. Ultimamente, tenho-me sentido mais inspirado a escrever num caderno, em lugares mais isolados – como por exemplo numa esplanada – e passar posteriormente a computador.
Há semanas mais loucas, em que os trabalhos no Clube e no Hospital não me dão energia para escrever, mas mesmo aí ninguém me rouba o prazer da leitura (nem de partilhar as minhas opiniões convosco aqui no blogue). Ultimamente ando mais virado para as bandas-desenhadas, mas continuo a ler bons livros. Terminar a saga Mistborn foi uma experiência muito boa, acreditem; ao contrário de outros autores como Scott Lynch ou George R. R. Martin, não vejo Brandon Sanderson como uma inspiração, porque tenho para mim a arrogância de que sei fazer melhor do que ele, mas apreciei realmente o fim da série.

The Walking Dead tem sido a minha febre do momento, tanto em série de tv como em bandas-desenhadas, e é já uma das minhas grandes paixões da ficção, a par de Dragon Ball e Gentleman Bastards. Ler bandas-desenhadas está a permitir-me ser mais assíduo aqui no blogue, e apesar dos meus dias serem cheios, tenho sempre um bocadinho para vir ao vosso encontro. Muito obrigado pelo feedback positivo que vou recebendo, não só ao livro como ao blogue, e estou desejoso de continuar a montar peça a peça este castelo ao vosso lado. Obrigado a todos!!!

Sessão de Autógrafos na ALPIAGRA

Pois é, foi com uma grande honra que acedi ao convite da Rota do Livro para estar presente na 33.ª Feira Agrícola e Comercial de Alpiarça – a ALPIAGRA – em mais uma sessão de autógrafos. Tive a oportunidade de privar com os escritores Paulo Gomes (Quadras de Amor Vol I e II) e Maria João de Sousa Carvalho (Jantei Ontem em Seattle), pessoas muito gentis e bem-humoradas, com quem passei um momento de reflexão e convívio. O tempo não estava convidativo e a afluência pecou por escassa, mas foi um evento interessantíssimo a nível cultural. Acutilante e irónico pormenor, os exemplares do “Espada que Sangra” chegaram à Feira pelas minhas mãos, e não pelas da editora como seria suposto. Este pormenor daria azo a uma série de parágrafos sobre o funcionamento da editora e sobre a aparente falta de profissionalismo, mas prefiro ficar-me por aqui. Resta-me a garantia de que nunca mais trabalharei com ela, a não ser que a senilidade me embarace, não por esta, mas por inúmeras razões.

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Depois de um fim de semana pacífico, com a apresentação de um concurso de Vestidos de Chita e uma sessão de autógrafos que decorreu durante a tarde e princípio da noite de domingo, resta-me dedicar ao trabalho, à escrita, à leitura e à vida do dia-a-dia. Novos eventos e peripécias me aguardam. Aqui ficam algumas fotos do evento:

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As Origens de Zallar #8: A Traição Dyekken

Até tu, Brutus, meu filho! [Júlio César]

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Toda a boa história está impregnada de uma certa dose de conspiração e traições. O meu Espada que Sangra não é exceção à regra. No último post falei-vos de jogos de poder, e qual é o jogo de poder em que não há traições pelo meio? Voltaire já nos dizia que os desconfiados convidam à traição, mas depende do caso. O principal visado de traição no jogo político é aquele que detém o poder -, e no caso específico do Espada que Sangra, esse homem é Ameril Hymadher, o rei de Welçantiah. Por inveja ou por ambição, aqueles que o atraiçoaram fizeram-no, na grande maioria das vezes, para o seu próprio benefício. Existe um vasto leque de motivos por detrás das maiores traições da nossa História, grande parte deles relacionados com predisposições religiosas ou partidárias. No meu livro, Hymadher é “apunhalado” por vários dos personagens que lhe são próximos – e escuso-me a dizer os nomes ou os laços de afeto que os unem. Uma das maiores traições de que foi alvo, porém, ocorreu antes do início do livro, conforme vos relato no capítulo seis.  A traição de Dyekken Jacoh à causa Ameril.

O capitão, conhecido pela sua fanfarronice, foi enviado à frente de uma delegação para negociar com uma raça considerada “superior” em conhecimentos, os el’ak, que tornar-se-ia um apoio determinante para a guerra que Hymadher travava nas fronteiras.  As cidades-estado de Terra Parda uniram-se para defender o país de um exército de criaturas dos desertos, os mahlan, que evoluíam cada vez mais rapidamente nas suas componentes técnico-táticas. Estas criaturas usavam também ooti, uma raça de répteis voadores (os quais me inspirei nos nossos velhos amigos pterodáctilos), como montaria no ataque aéreo. A defesa aparava os avanços com poder de fogo – o tormento negro, bem semelhante à nossa pólvora; ainda assim, isso não se revelou suficiente e foi de certa forma um ato de desespero aquele que levou Hymadher a pedir apoio aos el’ak, que há décadas haviam decidido não voltar a entrar em nenhuma guerra que não lhes dissesse diretamente respeito.  Dyekken Jacoh liderou a delegação, mas as suas intenções revelaram-se dúbias. Perante a descrença dos el’ak nas suas palavras, respeitando as juras dos antigos e mostrando-se indisponíveis para servir de carne para flechas, Jacoh enviou um relatório a Welçantiah, que mais não foi que um sério pedido de reforços. Alegadamente, os el’ak haviam-nos hostilizado e a refrega tornara-se inevitável. Hymadher enviou reforços para apoiar Dyekken, mas assim que se sentiu confortável para isso, o capitão deu ordens de ocupar a fortaleza el’ak, Torre das Harpas. Depois de violentos confrontos, e graças ao poder de fogo que os el’ak não utilizavam por o considerarem produto das trevas, Dyekken Jacoh levou a melhor e ocupou a fortaleza. Fez o rei el’ak refém e controlou Torre das Harpas, não a favor do seu rei e senhor, Ameril Hymadher, mas para o seu próprio proveito. Ele renunciou aos Ameril e fez de si mesmo rei de Torre das Harpas, ao lado do seu filho, o imberbe Benn.

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Francesco Sforza foi uma das minhas inspirações para a composição deste personagem. Nascido na Toscânia, lutou desde cedo ao lado do pai, Muzio Sforza, e tornou-se admirável pela sua habilidade de dobrar barras de metal com as mãos. Foi um grande comandante de campo e estratega formidável. Lutou não só para os napolitanos (em Nápoles acabaria por perder os seus feudos), como para os milaneses, com quem travara uma relação de amizade de vários capítulos com o duque de Milão, Filippo Visconti. O trabalho para o papado conferira-lhe estatuto entre os exércitos. Aquando da morte do duque, e à falta de um filho varão que lhe sucedesse no cargo, Sforza fora agraciado com a distinção, tornando-se duque de Milão. No poder, revelou várias habilidades de gestão, flexibilizou a política externa e garantiu a independência do estado italiano face aos predadores vizinhos. Faleceu em março de 1466, sendo substituído pelo filho, mas a sua obra perdurou através dos séculos.

É esta a visão que a História nos oferece de Francesco Sforza, e o meu Dyekken Jacoh não tem nem um pouco da honra que a biografia de Sforza transpira. Jacoh era um homem acossado por um complexo de inferioridade gigante, capaz de tudo para ocultar a sua cobardia. No entanto, alguns traços do percurso de Sforza serviram de inspiração para este personagem.

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Brutus é um dos traidores mais famosos da História. A sua memorável traição remonta a 44 a.C., quando apunhalou Júlio César nos degraus do senado. A relação de Brutus para com César era a de um filho para com um pai. Pertencente à casa dos Júnios – que se diziam ser descendentes da deusa Juno -, a sua mãe havia sido amante de César, e mais tarde o conhecido líder romano tomou-o como seu favorito. Brutus alinhou, no entanto, na conspiração de Cássio para o matar. Acabaria por não obter grandes vitórias desse assassínio, e suicidou-se dois anos mais tarde, depois de uma frustrante derrota na Batalha de Filipos. Jacoh não conspirou para matar Hymadher de uma maneira tão objetiva, desejando estabelecer-se como líder militar antes de golpear o inimigo. Nesse campo, personagens como Goròn agiram de um modo mais cerebral, com a desejada eliminação do opositor a funcionar como o trampolim para o poder. No entanto, as elegias cantadas a Brutus seriam porventura tão tristes quanto as que poderiam ser cantadas à memória ensombrada de Jacoh.

Dyekken Jacoh colocou-se de imediato em pé, com as suas gorduras a baloiçarem-lhe na barriga bojuda, coberta de pelos claros que se estendiam até ao sexo definhado. Era um homem feio de nariz abolachado e bochechas caídas, e uma grande barba loura a tender para o ruivo caía-lhe ao nível do peito peludo. Os seus olhos eram castanhos como nogueira. [Espada que Sangra, Nuno Ferreira]

A “troca de camisa” de Dyekken Jacoh tivera também uma componente religiosa. Nem Welçantiah nem Torre das Harpas eram estados laicos, cada um reverenciava os seus deuses e todo o líder político tinha a responsabilidade de prestar culto aos seus. Pelo comportamento de Jacoh, o único deus em que acreditava era nele próprio. O seu endeusamento tornou-o cego de compreender o modo de vida dos el’ak, o povo que passou a governar, mas acima de tudo, ele não impôs uma nova religião aos seus novos súbditos, porque nunca deixou de ser um cobarde. O medo de rebeliões dentro do domínio conquistado instalara-se dentro de Jacoh como um veneno, que o conduziu lentamente ao desfecho que encontrou. Faltou-lhe a coragem de um Akhenaton, que em 14 a.C. aboliu toda a religião egípcia em favor de um único deus – Aton. Isso foi visto como uma imensa traição aos olhos dos seus súbditos, mas o faraó conseguira fazer valer as suas ideias e muitas das construções erigidas durante o seu reinado são maravilhas da arquitetura milenar egípcia ainda hoje visíveis aos nossos olhos. Mais do que coragem, faltou a Jacoh um propósito. Ele quis governar por despeito, por revolta, por saber que era menos capaz que o seu rei. Um rei que nunca amara. Um rei que nunca soube igualar.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Procurei também na Wikipedia informações sobre Brutus e Sforza para não pecar em imprecisões. 

As Origens de Zallar #7: Os Jogos de Poder

A sorte não existe. Aquilo a que chamais sorte é o cuidado com os pormenores. Winston Churchill

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Hoje venho falar-vos sobre jogos de poder. Mais do que as movimentações entre irmãos pela conquista do poder (reparem que os Ameril governam há imenso tempo e sempre houve despiques entre irmãos pela posse do trono), quero falar-vos de movimentos que lhes estão subjacentes: as camadas inferiores da governação. O Conselho de Estado que tem sempre um voto na matéria, composto por homens que já deram tanto de si à Espada e que foram nomeados para aqueles cargos tão veneráveis. Quem são estes homens? Quais as suas verdadeiras intenções? Há todo um jogo de bastidores que coordena as engrenagens de Welçantiah? Em que me inspirei para a criação deste Conselho?

Na monarquia romana, uma das funções mais decisivas era a de escolher o rei, o que acontecia no período a que se convencionou chamar interregnum. Quando um rei morria, um membro do senado indicava um candidato para substituir o rei. Durante o primeiro intervalo de tempo que se deu após o desaparecimento de Rómulo, o senado de cem homens dividiu-se em dez decurias, cada uma delas era representada por um decurio. Esse sujeito desempenhava a função de interrex durante cinco dias, sendo substituído logo após esse período por outro senador, o que se sucedeu durante um ano. Ao final desse ano, um novo rei foi eleito, após ser aprovada a candidatura pelo senado, ter sido eleito pelo povo e novamente pelo senado, que tinha sempre a última palavra a dizer, o que por si só mostrava o poder desta faixa política. É também de destacar a influência que esse senado tinha a nível legistativo e consultivo. As suas palavras tornaram-se sinónimo de sabedoria e o conselho do senado romano um famigerado exemplo de sucesso.

A única coisa a fazer com os bons conselhos é passá-los a outros; pois nunca têm utilidade para nós próprios. Oscar Wilde

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À sua volta gravitavam homens que colecionavam competências ímpares no jogo de estratégia e um tato apurado para todo o tipo de questões palacianas. No entanto, o que os olhos – e os ouvidos – de Hymadher lhe mostravam eram sombras expectantes, que esperavam ansiosamente pela sua oportunidade para lhe meterem as garras em cima.

Sombras que mordem.

A organização do governo de Welçantiah era complexa. O órgão máximo da cadeia era o Rei, também chamado de xer ou Príncipe Maior. Ele era o sumo responsável por todos os desígnios da sua espada e ninguém detinha mais poder do que ele. A sua ação estava mais intimamente ligada às questões marciais, pois era o principal representante do exército, mas estava também encarregue dos poderes administrativos e legislativos. Em ambos os casos, tinha alguém em quem delegar funções. As questões administrativas eram essencialmente desempenhadas pelo Rei, mas muitas questões menores eram ministradas pelo chanceler: uma figura institucional ocupada por dois ou três conselheiros da sua máxima confiança. Mesmo nas questões de maior importância, eram pedidas Assembleias em que o voto de um chanceler tinha grande peso na decisão finalEspada que Sangra

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No meu livro Espada que Sangra, o Conselho de Welçantiah desempenha um papel em muito semelhante ao do senado romano nos seus tempos monárquicos. É neste cenário que emergem figuras políticas tão ricas como controversas; estou a falar de nomes como Fel Manny, Vax Mohill, Agnim Wilfred-Hunther, personagens importantíssimos no decorrer desta saga. Cada um deles tem a sua motivação secreta, o seu requinte de intriga e uma palavra a dizer no que concerne à governação daquela que é a Espada mais fulgurante de Terra Parda. Curioso?

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Procurei também na Wikipedia informações sobre o senado romano para não pecar em imprecisões. 

Lego “Espada que Sangra”

Olá, caros seguidores do planeta Zallar. Como sabem, sou grande fã da marca Lego, e não resisti a criar este desafio, que me permite promover o meu livro enquanto me divirto. O objetivo é ir reproduzindo cenas do Espada que Sangra com peças de Lego. Bem, a tarefa não se adivinhava fácil, até porque as minhas peças, por muito bem estimadas que estejam, já têm alguns anos… mas correu melhor do que eu esperava. A primeira cena que eu irei reproduzir encontra-se nos primeiros capítulos do livro, a chegada dos hurkk ao Palácio de Alabastro em Hyldegard e a receção da rainha aos mensageiros.

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Aqui ficam excertos da cena em questão, para aqueles que não leram o livro se contextualizarem:

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“Percebendo quem se encontrava à sua frente, ambos os hurkk decidiram proceder às suas respetivas reverências. A Rainha sorriu perante a beleza daqueles dois exemplares. Mas o seu olhar voou para além deles.”

“O animal aninhou-se aos pés de Ezzila e fechou os olhos. Instalada na sua poltrona, a Rainha olhou então gravemente para os mensageiros.

– Os meus nobres olhos observam que vêm da Espada do Unicórnio. Ventos frios trazem-me maus prenúncios. Que novas há?!

Um dos hurkk deu dois passos à frente e fez descer o joelho direito até ao solo de mármore branco com uma excelsa graciosidade. Fletiu o esquerdo. Vergando ligeiramente a cabeça, evitou o olhar penetrante da Rainha, e tomou a palavra numa voz fina e estridente.”

Também o personagem Ruth Amarion, esposo de Ezzila e lorde-camareiro de Hyldegard, é apresentado nesta cena:

“Ruth Amarion era o seu cônjugue.

– Minha querida esposa! – lançou em tom jocoso. – Tenha a bondade de nos brindar com a sua adorada companhia.

Lego 1Amarion, no entanto, não era rei, e tampouco fora o seu primeiro marido. Era o segundo, e se Ezzila não amara o primeiro, muito menos se podia dizer daquele espantalho palaciano. Ainda na vigência do seu falecido esposo, o Rei Maskean Olegos, Ruth Amarion fora um simples ministro na base do governo. Mas isso mudou. Olegos morreu, Ezzila sucedeu-lhe no poder, e quando a fome assolou Hyldegard, a Rainha revelou as suas imensas fragilidades como governante – ainda que fosse amada por muitos, ainda que tivesse um invulgar dom da palavra, era lamentavelmente unânime a opinião de que a sua apetência para a administração da cidadela era medíocre. Naquele momento, tudo parecia estar perdido, e Ezzila viu-se na eminência de conceder ao Conselho de Estado livre-arbítrio na sua ação. Amarion era já o primeiro-ministro, e rapidamente se transformou no herói que chegou e corrigiu a calamitante conjuntura social da época.”

A reprodução sofre de algumas imprecisões. À falta de um tigre-dentes-de-sabre fui obrigado a transformar Skygga num gatinho, e alguns pormenores foram ocultados, como as pilhas de livros em volta do trono ou a harpa tocada por Hzora, o jovem príncipe. A estátua da deusa Amável também foi substituída, desta feita pela estátua de um homem encapuzado. Tentei manter-me fiel à história que escrevi e aqui fica o resultado final desta primeira reprodução. 😀 Quem quiser participar neste desafio, toca a ir buscar legos ao baú e mergulhem no mundo de Zallar 😀 😀

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Deus… Menor

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O medo enfraquece o homem. Torna-o reativo, apaixonado mas lento, torna-o parvinho. Simplesmente acontece. São palavras escritas no computador portátil de um simples autor; um deus criador para o mundo que escreve e que, quase inexplicavelmente, ganha vida própria. Pergunto-me se o Criador do nosso universo se sente assim tão perplexo ao redigir as tramas das nossas vidas. É com agradável entusiasmo que me encontro já a garatujar o quarto volume das Histórias Vermelhas de Zallar, cujo título de trabalho (e muito possivelmente o definitivo) será Deus Menor. Os meus personagens ganharam vida própria, é verdade, mas continuam meus, e a corresponder às expectativas que criei para eles. Sob um teto de estrelas, a ação avança e as histórias interligam-se. Os personagens seguem os trajetos que desenhei e convergem no caminho de um final coerente e verosímil. Não sei se é a minha vontade a falar quando digo isto, ou se é mesmo a minha análise de autor a concordar com essa mesma vontade, mas sinto-me empolgado com o rumo da obra e sinto que não negligenciei nenhum núcleo. Sou um autor muito perfeccionista e sentir isto é formidável. Se há alguém que se pode queixar, é o meu computador, pelas dedadas esmagadoras de um autor assassino de personagens – e, claro está, essas mesmas personagens que se encontram a dormitar para a eternidade no cemitério dos que já se foram.

Sou um homem pragmático em algumas coisas, em outras nem tanto, mas gosto de ir ao cerne da questão. Para os que gostam do meu trabalho, e para os que não gostam sem terem tocado sequer nele, posso dizer que as Histórias vão continuar o seu percurso de brutalidades e a intensidade vai aumentar. Agradeço todo o carinho com que aquele importante núcleo de pessoas que admira o meu trabalho continua a tratar-me. Apesar de estar a escrever o quarto volume, o segundo não foi esquecido e acendam uma velinha a Aan para que ele saia este ano. Todos os meus esforços vão nesse sentido e a revisão do livro está a caminhar a passos de gigante. Gostava de vos falar mais sobre ele, sobre o que vem por aí, mas só vos posso dizer que os próximos livros são volumes cheios de emoção, aliando uma fantasia verosímil baseada na Antiguidade Clássica, Civilizações Meso-americanas e Egípcias a uma análise profunda do comportamento humano, com personagens tão ambíguos quanto apaixonantes. Como diz Stephen King na tão famosa Dark Tower Saga que estou a ler neste momento, o mundo avança, e acrescento: à medida que ficamos mais experientes naquilo que fazemos, forçamo-nos a saudar o passado com a humildade de quem erra e a sabedoria de quem sabe que tem muito ainda para aprender. A vida é como uma bola, quantos mais pontapés lhe dás, mais ela enfraquece e definha.

Ergam as espadas e tenham um mês de Maio cheio de grandes leituras, boa gente de Zallar. 😛

As Origens de Zallar #5: A Sociedade Sem Voz

Todas as religiões são a verdade sagrada para quem tem a fé mas não passam de fantasia para os fiéis das outras religiões. Isaac Asimov

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Um dos capítulos que tem suscitado mais interesse aos meus leitores é aquele que incide na introdução da Sociedade Sem Voz na narrativa. O que é, na verdade, aquela sociedade? É uma seita, uma sociedade secreta, ou uma religião? Vivemos num mundo multicultural em que não só as culturas se cruzam como também as religiões. E dentro de cada religião, existem também os seus derivados, ramificações que empolam certas características em detrimento de outras. As comunidades católicas, protestantes e ortodoxas são as várias ramificações que a religião cristã alberga, diferentes interpretações de uma mesma Bíblia, daí que a Sociedade Sem Voz seja, mais do que uma sociedade, um ramal à própria religião terrapardiana. Qual a importância, então, desta crença nas Histórias Vermelhas de Zallar?

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1 – Ezzila.

É-vos revelado, no referido capítulo, que o pai de Ezzila conduzira-a à Mansão, o templo da comunidade, e nele se deitaram nus, de barriga para o teto, a orar. Tal prática era tradicional na sociedade, uma manifestação de fé. Disse-vos também que havia muito tempo que ela não voltara lá, mas que ainda assim não abolira a Sociedade, conhecendo as suas práticas. A relação entre Ezzila e os membros da sociedade é de uma velha amizade, mas também de algum remorso e tensão, o que adensa o mistério. Por várias vezes fui abordado se Caiffat, o delfim da Mansão (o alto-sacerdote da comunidade), é na verdade o pai de Ezzila, que todos julgavam exilado. Várias vezes ele a aborda por: “minha filha”. A resposta a essa pergunta deixarei que descubram no segundo volume desta saga.

2 – A mensagem.

Quando Ezzila entra na Mansão, somos apresentados a vários personagens, a maioria velhos e misteriosos. Lynkos parece ser o mais próximo da Rainha. Conhecemos também Sentyr, o velho arlequim, dois velhos guardas e um sujeito gordo e apático, que se diverte a brincar com frutas caramelizadas. No final do capítulo percebemos que esse indivíduo havia desaparecido, e que os restantes lhe haviam encomendado uma tarefa – contar o ocorrido a alguém. O resto fica em suspense, e nada mais nos é dito a respeito neste primeiro volume da série.

3 – As mortes.

Capítulos à frente, encontramos a aia da rainha, a jovem Selenya, preocupada com o estado vegetativo da soberana. Ela procura o curandeiro, e quando chega a sua casa encontra uma multidão à porta, acusando-o de charlatanice. Logo ela percebe que algo de errado se passou, porque o velho curandeiro sempre foi bem sucedido nas suas mezinhas. Ela lá arranja uma forma de entrar em casa do velho… para o encontrar enforcado na sala. Nem todas as pessoas fizeram a dedução, mas o curandeiro chamava-se Caiffat, e sim, ele era o delfim da Sociedade Sem Voz. Provavelmente já setenta por cento dos leitores se havia esquecido desta sociedade quando é revelado que Ruth Amarion, o esposo e grande inimigo da Rainha, assassinou Lynkos, um dos membros da Sociedade. Pode parecer estranho e pouco significativo para o enredo, mas no próximo volume terão respostas sobre estes eventos.

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A história da Mansão confundia-se com a própria história de Hyldegard. A congregação surgiu ao terceiro mês do ano de 149, por iniciativa de um grupo de artistas que fugia da perseguição religiosa. Por intermédio de um importante mecenas da época, Carx Aquilon, os seus fundadores conseguiram um alvará do Rei que lhes concedia autorização para as suas atividades ocultas. A sociedade inicialmente chamou-se Sociedade do Grande Anoris, mas o Rei Herbert, no ano de 163, declarou a morte da confraria, e apenas três anos mais tarde, Allan II voltou a permitir a liberdade dos associados, com uma série de condições. Foi obrigatório o pagamento de uma joia e uma taxa fixa de quarenta jallas de ouro por ano. Para além desse pagamento, a congregação tinha a obrigação de se manter nas sombras, para não chocar com a conservadora tradição religiosa que crescia na época. Espada que Sangra

Inspirei-me em sociedades ocultistas como a Maçonaria ou a Carbonária para os primeiros traços desta “Sociedade Sem Voz”. “Sem Voz” não significa que a oração necessite de silêncio, nem, como Ezzila sugere na narrativa, que os seus filiados “silenciem” os inimigos através da lâmina. “Sem Voz” significa sem expressão. Esta não é a religião em voga em Hyldegard, nem em nenhum outro estado. É uma religião marginal, um pouco até clandestina.

Imerso mais profundamente nos meandros da Sociedade Sem Voz, recrutei traços de uma crença ainda mais profunda e polémica. O catarismo. No desenvolvimento destas Histórias, a Sociedade Sem Voz irá buscar elementos ao mais famoso movimento ascético cristão.  O catarismo foi uma ameaça séria para o pensamento cristão entre os anos 1100 e 1200, defendendo a ideia de um deus bom (o do Novo Testamento) e um deus mau (Satanás). Acreditavam que todo o mundo físico havia sido criado por Satanás e que as nossas almas eram almas sem sexo de anjos, que teriam sido aprisionadas nos nossos invólucros carnais. O catarismo teve na cidade de Albi um dos seus principais centros, pelo que os cátaros foram também chamados de albigenses. O movimento teve as suas raízes em outros existentes na Arménia e na Bulgária, e caiu vítima da perseguição religiosa. Por iniciativa do Papa Inocêncio III foi instaurada a Cruzada Albigense que consistia na acérrima perseguição aos cátaros, que a Igreja Católica considerava pura heresia. Montsegur (1244) e Quéribus (1255) foram das últimas fortificações cátaras a caírem às mãos da Igreja.

Os cátaros servem de inspiração para a Sociedade Sem Voz em que moldes? No seu pensamento radical? Na forma como se disseminou? Na forma como caiu? Através de que mão atingirão eles o seu auge, ou a sua queda? Todas essas respostas apenas poderão estar disponíveis nos próximos volumes.

“Matem todos eles, Deus saberá quem são os seus” Atribuído a Arnold Amaury, líder da Ordem dos Monges Cistercienses

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Procurei também na Wikipedia informações sobre os cátaros para não pecar em imprecisões. A Enciclopédia Larousse também me esclareceu uma pequena dúvida. 

Encontro com Nuno Ferreira – Divulgação

Amanhã, dia 18 de Março, pelas 10:45 estarei com os alunos do secundário da escola D. Maria II de Vila Nova da Barquinha para um encontro literário. O objetivo é, mais do que divulgar o meu livro, falar sobre o processo de criação de um autor e tentar despertar naqueles alunos o bichinho pela leitura e pela escrita. O encontro faz parte do programa da Semana da Leitura e tenho a certeza que será um momento muito bem passado. Deixo em baixo a calendarização do evento.

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