Terrarium


– Olá… – murmura Triste Judite com uma expressão tão triste, que os amigos e colegas de Clara certamente achariam muito divertida. – Estou grávida, sabem? Uma micro-singularidade emprenhou-me. Gravidezes destas dispenso-as! Gente como vocês também eu dispenso. Acho que vou lá dentro num instante matar-me… Fiquem aqui à espera. Isto não demora nada.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Terrarium”

1996. João Barreiros e Luís Filipe Silva lançavam aquele que viria a ser conhecido por muitos como o melhor romance português de Ficção Científica de sempre – Terrarium: Um Romance em Mosaicos. O livro fazia parte de uma coleção de FC da Editorial Caminho que, não obstante a qualidade reconhecida à obra, viria a desaparecer fulgurantemente do mercado. Terrarium tornou-se, em pouco tempo, um tesouro de alfarrabista.

Eis que, vinte anos depois, a Edições Saída de Emergência ressuscita o clássico, lançando uma versão melhorada de Terrarium, numa edição Redux, revista e aumentada pelos autores. O livro inclui ilustrações de Tiago Pimentel e termina com uma BD da autoria de Diniz Conefrey.

João Barreiros é hoje um autor icónico da FC nacional e uma das vozes mais ativas do género, organizador de antologias, envolvido em atividades e eventos literários. A obra A Bondade dos Estranhos, a colectânea Se Acordar Antes de Morrer e a antologia Lisboa no Ano 2000 são alguns dos seus trabalhos mais reconhecidos no passado recente. Luís Filipe Silva é o outro nome de destaque dentro do género. Paralelamente a Terrarium, Galxmente e O Futuro à Janela são as suas obras de maior dimensão, tendo organizado as antologias Vaporpunk e Os Anos de Ouro da Pulp-Fiction Portuguesa.

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Capa Saída de Emergência

Um braço de ferro

O planeta Terra foi vítima de uma verdadeira invasão extraterrestre. Várias espécies provenientes de outros planetas coabitam connosco. Eles são os vulpis, humanóides com aparência de raposa; os kreepo, uma espécie de insetos de estatura humana, compostos por pinças, um cefalotórax, um abdómen e uma tromba; ou as simulatrix, que não são mais que reproduções fake de antigas estrelas de cinema e personalidades famosas do passado. Todas essas espécies são apelidadas pelos humanos de exóticos.

Vários tremores político/sociais subverteram o nosso planeta. Vivemos em aparente harmonia com os exóticos, mas muito mudou desde que Bruxelas foi destruída como revanche política por entidades superiores. Inúmeras carcaças de naves espaciais formam um anel nos céus, como um parque de estacionamento gigante – ou talvez mesmo um ferro-velho. Mas estes exóticos não estão na orla da Terra por livre e espontânea vontade. Eles foram confinados ao nosso planeta, isolados do resto do Universo. Os exóticos foram postos em cativeiro e o planeta Terra transformado num Terrarium.

TERRARIUM: Terreno isolado onde são mantidos em cativeiro animais de vida terrestre.

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Flyer Saída de Emergência

Mas que entidade seria essa capaz de subjugar desta forma tantas espécies e culturas? Não uma, mas várias. As Potestades são seres poderosos, autoridades no cosmos que escolhem imagens referenciais da cultura humana – por norma anjos – para se revelarem ao mundo. Avatares. Essas aparições podem ser mortas, mas voltarão a surgir, uma vez que uma Potestade só pode ser eliminada se se eliminar a sua matrix. O sangue destas Potestades é sagrado e dourado, chamado de Sacramento, e existe uma força cósmica que parece garantir o curso pré-determinado dos acontecimentos – o Fragmento.

No entanto, por detrás do poder apresentado pelas Potestades, existe uma força suprema, invisível, ultra-secreta. Um vírus ou uma legião de deuses? Salvadores ou suicidas? Eles são os IXytil, entidades criadoras que através dos seus agentes yurulan movem as peças no tabuleiro restrito que é o Sistema Solar. As Potestades são suas criações, mas tudo indica que é com eles que o braço de ferro será travado. O próprio Sol está em risco. A vida na Terra parece um mero dano colateral. É Mr. Lux, o Inimigo dissidente, quem poderá influenciar as contas deste despique. Mr. Lux… e não só.

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Mr. Lux (Tiago Pimentel)

O Terrarium

Cada conto apresenta uma perspetiva dentro deste contexto. Queda e Ascensão do Império Krill é um Prólogo em dois atos, apresentando-nos Mr. Lux, um senhor de aparência simpática que é apenas e só uma das criaturas mais poderosas do Universo. Nele, assistimos à tentativa de assalto de “Sete Anões” a três artefactos sagrados: uma caixa de Pandora, a estatueta negra de um falcão e uma revista pulp chamada Amazing Stories. Três objetos que conduzem os seus portadores à desgraça eminente. Através dos olhos de Pastor, vemos as movimentações de Mr. Lux e como ele se usa de todos os recursos à sua volta de forma exímia e genial.

A Arder Caíram os Anjos é o conto de João Barreiros premiado no Brasil com o Prêmio Nova 1994 na categoria Melhor Ficção Curta Estrangeira, como nos revela o Prefácio de Gerson Lodi-Ribeiro. Passado em Londres, apresenta-nos Roy Bakker, um jovem vendedor na loja Fantasy Inn, e o seu colega de trabalho, um kreepo chamado Mr. K cuja voz reproduz o som da atriz Mae West. Depois de Pastor, é a vez de Roy ser escolhido por Mr. Lux como peão no seu joguinho, mas quando uma inteligência artificial dos IXytil – uma SANA – se aloja na mente de Roy, tudo pode acontecer. No meio da confusão instalada, uma Postestade chamada Ariel com a fisionomia de um arcanjo bastante viril parece tornar-se um vértice do conflito.

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Clara de Sousa (Tiago Pimentel)

Logo depois somos apresentados a uma história mais longa. Somewhere Under the Rainbow apresenta-nos Clara de Sousa, uma senhora de elite, sediada em Luna, toda coquete, e o seu furão Filofax chamado João, um bichinho de estimação bastante falador. Clara e João são influenciados pelos yurulan a viajar com um propósito bem específico e fulcral para o rumo dos acontecimentos. Ao lado de um Bonecreiro (yurulan), de uma simulatrix que imita a atriz Shirley Temple, de uma mulher-bomba deprimida chamada Triste Judite, de alguns vulpis e kreepos, Clara encontra uma nave simulatrix cheia de cadáveres… e isso é apenas o início.

A Agonia da Arte Reprimida leva-nos para VilleCiel, no Canadá, onde o jovem Joel Renaud não parece muito agradado com as restrições que os pais lhe impõem para agradar ao seu hóspede. Trata-se de um volpex – uma criatura com cabeça em forma de funil – chamado Mestre Gra, um Visitante que parece ter mudado os hábitos da sua família. Apesar de desconfiado, Joel vê-se filiado a um vulpis chamado Ka-lir, que vem a descobrir ser filho do Embaixador vulpis na Terra. A Madrugada dos Deuses complementa a história deste conto. Nele, Joel e Ka-lir vêm-se na posse de uma mala multi-usos e descobrem a existência de uma droga especial, à medida que entram na Colômbia e descobrem segredos terríveis sobre o destino da Humanidade. Os cartéis de droga quillé são o menor dos seus problemas, quando entidades superiores pretendem usá-los no seu joguinho.

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Joel e o vulpis (Tiago Pimentel)

No Coração da Luz tem a forma de um pequeno romance. Nele, conhecemos Todd Rod, um rapaz tímido que vive numa cidade chamada Normalville, atacada frequentemente por terríveis vilões. Mas, graças-a-todos-os-deuses, existe o Superjovem para os salvar a todos, com a ajuda do seu mentor, o Professor Ford. Todd é um adolescente frustrado, vive uma vida entediante e refugia-se nas revistas pulp para esquecer as discussões permanentes entre os pais, para esquecer que a rapariga que ele gosta é louca pelo Superjovem, e que esse super-herói deve mesmo ser o rapaz mais popular da escola. Mas um dia, quando um dos supostos vilões lhe pede ajuda, Todd descobre que pode estar a viver uma grande farsa.

A trama de Todd interfere indiretamente no contexto global da obra. Todas as outras tramas entrelaçam-se nesta história, com Mr. Lux, Roy, Joel, Ka-lir, Clara de Sousa, João e até mesmo o Pastor a cruzarem-se num confronto épico entre forças superiores cujo resultado final é decidido pelos mais frágeis. Com a Amazónia como palco, uma das forças vence e a outra é derrotada. Um disparo leva a três finais alternativos – O Mundo Sem Homens, O Mundo Sem Potestades e O Mundo Sem YXytil.

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Um Kreepo (Tiago Pimentel)
SINOPSE:

BEM-VINDOS AO FUTURO E AO COLAPSO DE TODAS AS UTOPIAS POR NÓS SONHADAS.

Estamos a meio do novo milénio e a Fortaleza Europa acabou de vez. Bruxelas não é mais do que uma cratera radioactiva, as zonas costeiras foram alagadas pela subida das águas e a temperatura ambiente aqueceu até o clima ser quase tropical. Quem olhar para o alto, nos raros dias onde ainda se podem ver as estrelas, vai descobrir um anel gigantesco composto pelas carcaças das naves de exóticos migrantes.
Mas isso não é o pior. A verdade é que entre esses exóticos que nos vieram pedir guarida, existem criaturas ainda mais monstruosas que resolveram transformar o planeta num lugar de consumo: num TERRARIUM, a bem dizer…
Preparem-se para viver num mundo prestes a ser assimilado, para o bem ou para o mal, numa nova e efémera Utopia… Agora só nos resta resistir.

OPINIÃO:

O romance em mosaicos de João Barreiros e Luís Filipe Silva, rotulado como o melhor livro português de Ficção Científica, é um exemplo claro de que temos escritores nacionais de qualidade elevada, subestimados pelo seu próprio mercado. Rico em vocabulário, extremamente visual e com um ritmo invulgarmente veloz para um tomo deste tamanho, Terrarium deixou de ser um tesouro de alfarrabista. Não li a versão original, mas esta edição da Saída de Emergência é um verdadeiro tesouro no mercado. Quase 600 páginas e três semanas depois, chego ao fim deste livro maravilhoso.

Imprescindível a quem gostar de FC, Terrarium apresenta-nos dois escritores com estilos distintos que conseguiram encaixar na perfeição. O que não seria tarefa fácil. João Barreiros é um escritor único, dono de um estilo inconfundível, enérgico, mordaz, usando o humor como motor e o ridículo como artifício. Luís Filipe Silva é senhor de uma prosa mais temperada, assaz competente, mas sem margem para dúvidas bem mais calma que a do seu companheiro de escrita. Aqui e ali, é possível distinguir na perfeição qual deles escreveu o quê. Quem emerge na leitura, porém, acaba por ver essas paredes diluídas no entrosamento geral da obra. Se, porventura, só um deles tivesse escrito Terrarium, o resultado não teria sido tão bom. Quando um agitou as águas, o outro moderou-as. O casamento resultou na perfeição.

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Terrarium (Tiago Pimentel)

A história é digna de uma graphic novel. Quando lia o livro, pensei mais do que uma vez que Terrarium merecia também uma versão em quadradinhos (e quanto gostei que o livro terminasse com uma pequena BD dedicada à Triste Judite), mas desde logo verifiquei que a magia de ler Terrarium está também na sua escrita. O vocabulário é riquíssimo e a escrita nunca perdeu o ritmo. Deliciei-me com os personagens, de Roy Bakker à Triste Judite, passando pela Clara de Sousa e o seu furão. E maravilhei-me também com as referências a nomes do cinema, da literatura, às pulps – que têm um significado imenso dentro da história. Terrarium é muito mais do que a batalha campal e a história cheia de sumo e protagonistas que Silva e Barreiros nos ofereceram. A magia de Terrarium passa muito pelo imaginário construído que nos remete aos “Flash Gordon da nossa infância”, pela ironia constante e pela desconstrução de clichés e de heróis tradicionais.

Não é, porém, um livro para todos. Bem, para já, é um livro enorme e com letras pequenas. E os termos. Ah… os termos. Quem lê João Barreiros já tem de estar precavido para a chuva de termos técnicos, científicos e futuristas que se confundem numa amálgama provavelmente ininteligível para os virgens na matéria. Provavelmente ininteligível, mas ainda assim apaixonante. Todos os fãs de FC têm de ler Terrarium. E se são novatos nisto, é para investigar, conhecer, mastigar e deglutinar todas as informações que lhes são oferecidas.

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Edição original (Caminho)

As revelações sobre Mr. Lux, as Potestades e os IXytil pareceram-me permanentes, umas por cima das outras, como se o que um diz, o outro desdiz, até que as peças encaixem e cheguemos ao final apoteótico. Tudo o que supostamente seria o contexto inicial – quem é quem neste Universo enxameado de espécies – acaba por tornar-se a grande interrogação do livro. Somos atirados para o centro da ação com ela em movimento, e os autores espicaçam o leitor ao negar-nos a informação, fazendo finca-pé e gritando-nos aos ouvidos que, quem quiser compreender alguma coisa da história, tem de ler até ao fim. Pouco a pouco, todas as peças são disponibilizadas para que completemos o puzzle.

Estamos perante um romance em mosaicos, mosaicos esses que são pequenos contos com histórias isoladas que podem ser lidos em separado, mas quando avançamos para o coração da narrativa, elas complementam-se, respostas são fornecidas e a leitura de tudo o que ficou para trás é essencial para compreender o todo. Quando terminei a leitura, forcei-me a reler o Prólogo, e informações que me tinham entrado por um olho e saído pelo outro fizeram muito sentido. Terrarium não é somente um livro para ler. É para ler e reler. E tem um bónus: a edição é lindíssima.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

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2 thoughts on “Terrarium

  1. Viva,

    Ainda conseguiste acabar muito primeiro que eu e sem duvida que o teu comentário está BRILHANTE, muito parabens mesmo está ai tudo 😉

    Um livro único de leitura obrigatória já me vejo ao teu lado a pedir autografo aos dois escritores lá terá que ser 😀

    Uma releitura deve valer BEM a pena

    Abraço e boas leituras

  2. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #9 – Nuno Ferreira

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