Estive a Ler: Kingsbridge: O Amanhecer de Uma Nova Era


A construção de barcos abrandara desde o recomeço dos ataques viquingues no Sul de Inglaterra, quando ele tinha nove anos. O comércio e a pesca eram atividades perigosas enquanto os saqueadores permanecessem por perto. Só os mais corajosos compravam embarcações.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO KINGSBRIDGE: O AMANHECER DE UMA NOVA ERA

Eis a primeira opinião de 2021! Licenciado em Filosofia no University College, Ken Follett começou a sua carreira como jornalista no South Wales Echo e, mais tarde, no London Evening News. Trocou a profissão de jornalista pela de editor e continuou a escrever no tempo livre. A sua primeira obra foi publicada em 1978 sob o título Eye of the Needle, um thriller que venceu o Edgar Award e deu origem a um filme. Depois de vários romances de espionagem, Follett ganhou maior prestígio com a publicação da sua obra maior, Os Pilares da Terra.

O sucesso no âmbito do romance histórico e a legião de seguidores que granjeou com a vida no priorado de Kingsbridge fez com que voltasse àquele mesmo local dezoito anos depois, com a publicação de Um Mundo Sem Fim, abordando os problemas da Peste Negra. Seguiu-se Uma Coluna de Fogo, narrando a luta entre protestantes e católicos. Follett decidiu então fazer uma prequela para contar as origens do povoado, o que resultou neste Kingsbridge: O Amanhecer de Uma Nova Era. A edição nacional da Editorial Presença conta com 672 páginas e tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral.

Com uma média de cem leituras por ano, talvez metade desse número em bandas-desenhadas, para ser mais honesto, ainda não encontrei um autor que me consiga efectivamente emocionar como Ken Follett o consegue. Alguns chegam lá perto, mas ao ponto de querer entrar dentro de um livro para estrangular os vilões? Nem tanto. Há anos que sou fã de algibeira de Ken Follett, mas tenho de confessar que os seus romances de espionagem não chegam aos calcanhares do seu trabalho com o ciclo de Kingsbridge.

A vida é feita de voltas e reviravoltas, e destas voltas e reviravoltas, um lugar ermo transformou-se em Kingsbridge, a ponte do rei.

O que de há tão interessante em livros gigantescos focados na construção de igrejas?, perguntará quem não os conhece. As histórias de Ken Follett transcendem muito esse lado educativo que é, também ele, uma das mais-valias da obra. Os conhecimentos do autor e as suas pesquisas elaboradas conferem credibilidade e conteúdo à narrativa, mas a somar à consistência histórica e visão estreita do que era a vida naquelas épocas, está toda a emotividade que o escritor desperta nos seus leitores, que não é pouca.

Vibramos com as suas personagens, torcemos pelos protagonistas, queremos os piores finais possíveis para os vilões e revoltamo-nos com os seus comportamentos. Follett é um autor cruel, que comete as maiores atrocidades com os seus protagonistas, mas também nos reserva volte-faces surpreendentes onde o bem acaba sempre por triunfar contra o mal, e não há leitor que não rejubile com as punições que ele reserva para os seus antagonistas.

A escrita de Follett é, como sempre, muito competente. Kingsbridge: O Amanhecer de Uma Nova Era, é tão bom como Os Pilares da Terra, Um Mundo Sem Fim e Uma Coluna de Fogo. Não tenho como escolher um deles como preferido, e se tivesse de escolher fá-lo-ia com Os Pilares da Terra porque, como se costuma dizer, em caso de empate não há amor como o primeiro. Pensar que vou ter de esperar mais alguns anos para voltar a Kingsbridge, se Follett se decidir a voltar a escrever sobre o lugar, chega a ser inquietante.

A PARTIR DAQUI PODES ENCONTRAR MINOR SPOILERS SOBRE O LIVRO

Kingsbridge: O Amanhecer de Uma Nova Era é uma prequela de Os Pilares da Terra. Corre o ano de 997 d.C. e no centro desta narrativa encontramos três irmãos muito poderosos: Wilfwulf, Wynstan e Wigelm. O primeiro é o senhor de Shiring, o segundo o seu bispo e o terceiro, o segundo na linha de sucessão e atualmente responsável pelo povoado de Combe. Muito semelhantes em aparência, os três irmãos não são flor que se cheire, sendo o mais velho o “menos mau”, mas todos eles causando muitos problemas e situações terríveis ao longo da narrativa.

O protagonista é Edgar. Ele é filho de um construtor de barcos em Combe e prepara-se para fugir com a sua apaixonada Sunnigu (mais conhecida por Sunni), uma mulher casada. Mas os seus planos são arruinados quando um ataque viquingue ataca Combe e tudo perde o sentido. Sunni é assassinada e também o pai de Edgar perde a vida na tragédia. Com o negócio arruinado, a família de Edgar junta-se aos peticionários que cercam Wilfwulf, Wynstan e Wigelm, pedindo ajuda financeira para se reerguerem.

Personagens de Um Mundo Sem Fim | Fonte: https://www.imdb.com/title/tt2208558/

O bispo Wynstan tem a solução ideal para a família de Edgar. Concede-lhes uma fazenda desolada junto ao rio, a algum tempo de distância de Combe, ainda que eles não saibam que o lugar é pouco fértil e que apenas vão fazer um favor ao bispo ao instalar-se ali. Perto da fazenda fica um pequeno reduto de frades, liderado por Degbert, e uma taberna, propriedade do barqueiro Dreng. Tanto um como o outro são intragáveis, primos dos senhores de Shiring, e apoiados na sua influência vivem vidas ociosas e pouco católicas, tendo até escravos e várias mulheres.

Na distante Cherbourg encontramos Ragna, uma jovem nobre normanda que deixa os progenitores em grande preocupação por afugentar todos os possíveis pretendentes. Ela sabe estar e falar, mas não se coíbe a dar a sua opinião e não aceita qualquer um, independentemente do seu prestígio e linhagem. Um dia, porém, um nobre inglês visita o seu pai e ela cai de amores por ele. É com Wilfwulf, o senhor de Shiring, que ela perde a virgindade, e quando ele vai embora pensa tê-lo perdido para sempre. Para seu júbilo, certo dia o nobre faz chegar ao pai as suas pretensões, e Ragna viaja então para Inglaterra para se desposar.

Este livro cria o cenário onde se passa Os Pilares da Terra | Fonte: https://www.dailymotion.com/video/x6ewyhj

Aldred é o outro protagonista do romance. Monge da abadia de Shiring, é um homem íntegro e honesto, que sonha com uma carreira de prestígio fundeada no desenvolvimento da Igreja e no culto das suas virtudes mais sagradas. É também relutante na luta pela justiça e por ela luta até às últimas consequências contra tiranos e homens corruptos como Wynstan ou Degbert. O seu único telhado de vidro são os homens; no passado foi apanhado aos beijos com outro monge e a sua reputação ficou por um fio. Quando conhece Edgar, agradece a Deus que o rapaz seja heterossexual, ou certamente arruinaria a sua vida.

Quando Ragna atravessa o rio na barcaça de Dreng, é Edgar quem a conduz. Acha piada ao rapaz e pensa que ele seria um bom partido para uma das suas damas de companhia, mas não perde muito tempo com essa questão. O seu presente de casamento para Wilfwulf foi roubado por um fora-da-lei e falhar dessa forma ao futuro marido deixa-a irritada. Mas os seus problemas começam verdadeiramente quando ela chega a Shiring, e com a influência nefasta da madrasta do noivo, Gytha, bem como dos seus irmãos, Ragna percebe rapidamente que a sua liderança por ali não será uma batalha fácil.

Rico, meticuloso e nem sempre previsível, Kingsbridge: O Amanhecer de Uma Nova Era é um livro extraordinário que apaixonará qualquer pessoa que tenha o coração no sítio. Os dilemas das personagens, as crueldades que enfrentam e a maldade inerente a tantas pessoas fez-me refletir um pouco sobre se, nos dias que correm, a nossa sociedade será assim tão diferente da que existia naquela época. As barbaridades que todos os dias se ouvem deixam-me com sérias dúvidas sobre isso.

Esta diferenciação entre pessoas boas e más não é rasa. Todas as personagens têm as suas características. Todas têm defeitos. Mas é sobretudo vinculativa de que nem tudo é o que parece e que a ignorância e a ganância por vezes suportam-se entre si para dar proveito a quem menos faz, a quem menos merece. Follett fez-me maravilhar por Edgar e Ragna, pelas suas peculiaridades e talentos, mas sobretudo pelos sentimentos que emergem no ser humano quando eles menos podiam esperar. A vida é feita de voltas e reviravoltas, e destas voltas e reviravoltas, um lugar ermo transformou-se em Kingsbridge, a ponte do rei.

Avaliação: 10/10

6 comentários em “Estive a Ler: Kingsbridge: O Amanhecer de Uma Nova Era

  1. “Os Pilares da Terra” é das minhas ´series históricas preferidas, se não a preferida mesmo! Infelizmente, até hoje, nenhum dos outros livros do Ken Follet (fora dessa série) me pareceram tão bons… Mas pelo menos ainda tenho este e o “Uma Coluna de Fogo” para ler 🙂

    1. Olá Mariana. Obrigado pela visita.

      Dos livros de Ken Follett também prefiro de longe esta série. ☺️

      Boas leituras.

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