Mares de Sangue, The Gentleman Bastards #2


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Mares de Sangue”, segundo volume da série The Gentleman Bastards

Um romance ousado, de um autor ousado. Red Seas Under Red Skies é o segundo volume da saga The Gentleman Bastards de Scott Lynch, o autor que surpreendeu o mundo da fantasia com As Mentiras de Locke Lamora. Lembro que este jovem escritor saltou para a ribalta a um ritmo vertiginoso graças ao imenso sucesso do romance de estreia, sucesso esse que instabilizou Scott e contribuiu para uma depressão que viria a interferir no processo de escrita deste livro.

Não esperem encontrá-lo nas livrarias nacionais, uma vez que ele não foi (nem se prevê que venha a ser) publicado em Portugal. Não deixem, porém, de experimentar o primeiro livro, As Mentiras de Locke Lamora, porque pode ser lido como um romance fechado e é de extrema qualidade. Acabei por ler este segundo volume em português do Brasil, formato digital, onde a editora Arqueiro o baptizou de Mares de Sangue.

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Zamira, Locke e Jean Tannen (Lee Tao)

Locke Lamora e o seu amigo Jean Tannen fugiram de Camorr após as confusões criadas em As Mentiras de Locke Lamora – como se costuma dizer, deixaram o circo a pegar fogo. Agora em Tal Verrar, supõe-se que venham a criar confusões semelhantes. Logo no prólogo, Scott Lynch surpreende. Num molhe de embarque, a dupla enfrenta dois adversários em pé de igualdade, com bestas apontadas à cabeça uns dos outros… e então Jean muda de lado e Locke vê-se sozinho contra três adversários.

Como Assim?

A resposta vem de imediato. Só pode ser mais uma jogada da dupla, previamente definida. Porém, a dúvida permanece durante muito tempo. É que essa cena só ocorre muito mais tarde no livro. E as respostas para ela também.

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Locke e Jean (flavianos em Deviantart)

Locke e Jean conhecem os meandros da cidade e desde logo a sua ambição revela-se maior que o bom-senso. As ideias mais loucas não param de germinar na cabeça de Locke. No interior de um casino, eles vão ganhando jogo atrás de jogo para vir a subir de nível, recorrendo sempre aos géneros mais extrapolados de batota. O objetivo: chamar a atenção. E é quando conseguem que são finalmente apresentados a Requin, o dono do casino, e a Selendri, o seu braço-direito, uma mulher de rosto queimado.

Isto é só o início de algo muito mais complexo. Existem inúmeras fações a agir no íntimo da cidade e depressa o arconte Maxilan Stragos vê neles alguma inconveniência, enviando-os com uma missão para o mar. Sem saber nada da vida no mar, Locke é obrigado a vestir a pele de um pirata e a enganar – mais uma vez – todos à sua volta. Depois de imensos volte-faces, Jean Tannen conhece o amor e Locke percebe que o preço da sua ambição pode ser demasiado caro.

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SINOPSE:

Após uma batalha brutal no submundo do crime, o golpista Locke Lamora e seu fiel companheiro, Jean Tannen, fogem de sua cidade natal e desembarcam na exótica Tal Verrar para se recuperar das perdas e feridas. Porém, mesmo no extremo ocidental da civilização, não conseguem descansar por muito tempo e logo estão de volta ao que fazem de melhor: roubar dos ricos e embolsar o dinheiro. Desta vez, eles têm como alvo o maior dos prêmios, a Agulha do Pecado, a mais exclusiva casa de jogos do mundo, onde a regra de ouro é punir com a morte qualquer um que tente trapacear. É o tipo de desafio a que Locke não consegue resistir… só que o crime perfeito terá que esperar. Antigos rivais dos Nobres Vigaristas revelam o plano a Stragos, o ambicioso líder militar verrari, que resolve manipulá-los em favor de seus próprios interesses. Em pouco tempo, a dupla se vê envolvida com o mundo da pirataria, um trabalho inusitado para ladrões que mal sabem diferenciar a proa da popa de um navio. Em Mares de Sangue, Locke e Jean terão que se mostrar malabaristas de mentiras, enganando todos ao seu redor sem a mínima falha, para que consigam sair vivos. Mas até mesmo isso pode não ser o bastante…

OPINIÃO:

Demorei algum tempo a ler este livro (cerca de mês e meio). Não só porque me apareceram outras leituras pelo meio, como também a leitura em formato digital se tornou mais morosa. Mas foi uma oportunidade incrível de conhecer mais deste escritor em quem muito me revejo e não foi, de modo algum, tempo mal entregue. O que dizer quando um autor nos dá fantasia, romance, aventura e ação dentro do mesmo pacote? Gostas de Ocean’s Eleven, Prison Break e Piratas das Caraíbas? Com Scott Lynch tens tudo isto num mundo criado de raiz inspirado em cenários renascentistas.

Como descrever Locke Lamora, este personagem tão peculiar? Uma estatura franzina, com pouco jeito para a luta, mas com uma inteligência e humor geniais. Sem medo de se meter em sarilhos, ele tenta passar a perna aos sujeitos mais poderosos e mesmo quando se dá muito mal, o que acontece quase sempre, arranja sempre maneira de escapar com vida, deixando os seus inimigos afundados em pura frustração.

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Jean e Ezri (deviantart)

Locke e Jean são o centro da narrativa, são loucos, saudavelmente loucos, e os seus diálogos conseguem fazer rir de uma forma leve e natural. Como já referi na minha opinião a As Mentiras de Locke Lamora, a ironia e a fluidez dos diálogos é o grande ex-libris deste autor, assim como a forma como consegue descrever os locais e ambientes de uma forma metódica e pormenorizada sem se tornar cansativa.

Concentrando-me neste segundo volume, o livro começou muito bem. Adorei conhecer Tal Verrar, os seus personagens e tradições. Os personagens Requin e Selendri foram uma agradável surpresa, e gostei bastante dos finais que Scott deu para eles.

No entanto, a partir de um certo ponto comecei a sentir que a leitura estava estagnada, os personagens andavam muito e nada se resolvia, as descrições da vida no mar custaram a digerir e as intrigas ficaram muito complexas e sem final à vista. Se posso dizer que algo na escrita leve e rápida de Scott foi maçadora, foram esses momentos, apesar de darem algum volume e credibilidade ao livro.

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Requin e Selendri (Amanda Elm)

Pelas razões apontadas, não posso dar uma nota tão positiva a este volume quanto dei ao primeiro. As Mentiras de Locke Lamora foram uma total lufada de ar fresco e adorei a vida em Camorr, surpreendi-me com as lutas de tubarões, com a guerra de Capas e até a astúcia de Locke esteve muito mais fresca.

Senti que neste livro ele foi mais um sobrevivente do que um estratega, mas até que se deu bem numa ou outra situação e fiquei simplesmente deliciado com o truque das cartas e das cadeiras, nenhum pormenor foi descurado e cada truque é mais refinado que o anterior.

Penso que o autor deveria ter apostado mais na vertente mental de Locke e menos nos confrontos físicos. Os personagens andaram permanentemente a brincar com o fogo e só com muita sorte e a boa vontade do escritor os protagonistas não morreram (pelo menos meia dúzia de vezes). Apesar disso, eles não se saíram propriamente bem nem as suas vidas estão livres de risco.

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Zamira (Spadert)

Exceptuando estes pequenos reparos, Mares de Sangue não desiludiu. Acabei por ficar surpreendido por este volume não ter um final tão fechado quanto o do primeiro, e se já haviam inimigos poderosos a quererem vingança dos nossos protagonistas, acredito que agora ainda vão haver mais. Esperemos que o mundo de Locke não seja tão pequeno quanto o nosso.

O terceiro volume da saga, Republic of Thieves (República de Ladrões em português), sairá em Maio no Brasil, por isso espero ter acesso a ele dentro de pouco tempo. Não me canso de recomendar esta saga.

Avaliação: 8/10

The Gentleman Bastards:

#1 As Mentiras de Locke Lamora (Saída de Emergência)

#2 Mares de Sangue (Arqueiro)

#4 República de Ladrões (Arqueiro)

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22 thoughts on “Mares de Sangue, The Gentleman Bastards #2

  1. Barreiros

    Nope. O Lynch inspirou-se em Fahlfrad e Grey Mouser do Fritz Leiber. Esqueçam o Tolkien ao menos uma vez na vida! Lê o Ciclo das Espadas para perceberes as referências. E é verdade, a parte dis piratas ficou um bocadinho chatinha. Dejá vu. Mas o assalto ao Casino estava óptimo.

    1. Boas! Não é uma questão de ter Tolkien na ideia. As semelhanças são demasiado gritantes para eu não achar que as fontes são essas. 😀 Acredito que se tenha inspirado no Lieber, mas como não o conheço não posso afirmá-lo. 😛 Realmente, a parte do casino é excelente 🙂

  2. Barreiros

    E passa a ler em Inglês, pois terás os livros nas mãos em três ou quatro dias, muito mais baratos e com a benção da Tia Amazon.

  3. Olá Nuno!

    Voces falam tão bem deste autor que fico cada vez mais tentada a aventurar-me. Encontrei o primeiro volume em e-book no meu pc (sim, arranjaram-me quase 1gb em ebooks em ing e este mês andei a organizar tudo por autor – só agora vi o que cá tenho). Ando tentada a pegar nele, mas sinto que o meu inglês precisa de mais treino. Mas lá chegarei. E tenho este também. São os únicos que tenho do autor.

    Ia recomendar-te o mesmo que o Barreiros, em relação a ler em inglês. É uma treta querer ler um livro bom e não o encontrarmos traduzido na nossa lingua, ou então ser estupidamente caro. Ainda a propósito da minha resposta ao teu comentário no meu blog, se houver algum livro mais simples que queiras começar em inglês, fala comigo. Tenho aqui tanto e-book que talvez te consiga ajudar (também tenho o Charlie end the Chocolate Factory heheh)

    beijinhos

    1. Acho que fazes muito bem, é um autor enérgico com muita paixão pelo que escreve, o que resulta em mil aventuras sempre cheias de humor e de boas vibrações.
      Obrigado pelas sugestões, assim que me decida a ler em inglês digo-te 😀

  4. Elsa

    Olá Nuno,

    Neste segundo volume dos Gentleman Bastards, Lynch surpreendeu-me ainda mais, achei a aventura ainda mais ousada do que a do primeiro livro.Os personagens e a trama foram muito originais e geniais. Gosto especialmente de leituras no presente e passado, de forma a acompanharmos o desenvolvimento dos personagens. Lynch ‘criou’ estes personagens desde a infância, ou seja, o personagem não ‘aparece’ já em idade adulta como na maior parte dos livros,aqui o leitor acompanha a ‘formação’ dos seus aventureiros, e naquilo em que se tornam.

    Para ser sincera, Locke, Jean, Sabetha , os gémeos Caldo e Galdo etc, não me fizeram lembrar nenhum personagem de Tolkien e muito menos de Martin. Nada nestes 3 livro me fez associar a outros livros ou personagens. Achei tudo e todos originais, brilhantes e imbatíveis. Lynch é um Génio (e lindo de morrer e casado 😞).

    Bjos

    1. Eu gostei mais do primeiro livro, mas este é sem dúvida alguma outra grande pérola do escritor. Imaginação não lhe falta. 😀
      Eu ter dito que ele se inspirou em outros personagens não é de modo nenhum um descrédito, até porque Locke e Jean são muito melhores que os personagens do Tolkien 😛 E até melhores que os de Martin xD Mas não pude deixar de encontrar analogias entre eles 😀
      Ahahah agora fizeste-me rir 🙂 Já vi que tens uma paixão platónica pelo Scott Lynch xD

  5. Saudações mestre 😀

    Bem que dizer desre escritor que já não tenhas dito ? Genial, estou como tu a ressacar pelo seguinte mas mal tenha oportunidade de o ler na versão brasileira digital nem vou olhar para trás, alias é até ao momento o único livro que li em digital.

    Exelente comentário e não me revejo nas semelhanças com outras personagens, Locke e Jean são unicos 🙂

    Abraço e boas leituras

    1. Oie!!

      Somos dois a esperar pelo próximo 😀
      Pois, parece que sou o único a encontrar semelhanças, mas as que encontro é na estrutura de personagens: 2 amigos, um magrelas e outro gordinho, e uma grande cumplicidade. E os outros pequeninos, tagarelas e refilões, mas o Scott fez questão de os despachar bem cedo. 😀 Não há como negar essas semelhanças e isso não faz destes personagens menos únicos e fantásticos.

      Abraço e obrigado.

      1. Opa o Jean não o vejo como gordinho, mas sim alguem com grande cabedal, mas percebo o que queres dizer.

        O que não entendo e não vale a pena bater mais no ceguinho é o porque de não ser publicado por cá, custa mesmo a acreditar que a malta prefira éroticos e paranormal, é triste

  6. Olá Nuno!

    Gostei muito da tua opinião. Fiquei contente por teres gostado e por teres referidos os pontos essenciais sobre a obra. Também achei que havia alguns pontos mais mornos, principalmente nas partes no mar alto lá para o meio do livro, mas que acabam por ser importantes para contextualizar e para dar corpo à história.

    O Locke e o Jean são a dupla perfeita. Divertidos, com diálogos ricos e realistas, amigos verdadeiros, companheiros de viagem, de aventura e de perigo. Passam por mil aventuras mirabolantes e continuam a meter-se em confusão. Não há melhor dupla! Gosto muito do Locke, por causa da mente dele e de estar sempre metido em sarilhos, sempre cheio daquele charme que acaba sempre por vir em seu socorro. E também gosto muito do Jean, sempre perto do Locke, forte e sempre de olho em possíveis inimigos. Houve momentos em que temi pela amizade de ambos, mas ainda bem que ficou tudo como ficou. Aquele prólogo…UI! =P

    E claro…aquele final. Dos melhores finais em termos de suspense e de expectativa. A esperteza do Locke para salvar o Jean está brilhante e resulta naquilo que nós sabemos. Depois do final do primeiro livro, não podia haver melhor final.

    Agora tens de ler o terceiro, que é mais parecido com o primeiro livro e tem um mistério bastante grande por trás. Com este final, já deves estar a adivinhar um milhar de aventuras. Ah! E temos a Sabetha, finalmente!

    Beijinhos

    1. Olá Miss Lamora!

      Cada vez fico com mais vontade de ler o 3.º Eheheh
      Sem dúvida que eles são um par formidável. Eu não fiquei assustado com o prólogo, porque percebi logo qual era a intenção do autor, apenas me deixou com mais vontade de chegar até lá xD

      Beijinho e boas leituras

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