Histórias de Vigaristas e Canalhas, Rogues #2


Certas frases assombram-me. Continuo a ouvir a voz doce e suave de Alcinda a dizer «não posso culpá-lo» e «ele não podia fazer nada», mas também recordo um polícia que resmungou: «O veneno é uma arma feminina.»

O TEXTO SEGUINTE PODE CONTER SPOILERS DO LIVRO “HISTÓRIAS DE VIGARISTAS E CANALHAS”, SEGUNDO VOLUME DA ANTOLOGIA ROGUES

George R. R. Martin e Gardner Dozois reuniram alguns dos melhores criadores de patifes literários para dar “voz” a esta fantástica antologia sobre grandes vigaristas. Se, no primeiro volume, pudemos ler contos de Neil Gaiman, Scott Lynch, Patrick Rothfuss ou até do mesmo George R. R. Martin, o segundo volume conta com autores igualmente talentosos.

Joe Abercrombie abriu as honras com um conto sobre uma cidadezinha de ladrões, onde todos parecem andar atrás de um estranho pacote – o que não significa que saibam qual é o seu conteúdo. Nem nós chegámos a saber qual é. Cherie Priest leva-nos ao encontro de um cadáver de mineiro “possuído” por um demónio, enquanto Carrie Vaughn nos apresenta um thriller paranormal, onde um clube bem frequentado de vampiros, zombies e outras criaturas da noite se torna palco de mais um dos truques de Madame M. e Pauline, ainda que tenham de enfrentar a astúcia da poderosa Gigi.

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Vampiro (asusta2)

Bradley Denton apresenta um conto irónico sobre um professor que se divide entre descobrir as tramóias de um grupo de adolescentes envolvidos no roubo de uma peça de música (tentando lucrar com isso) e lidar com o novo relacionamento da sua ex-mulher. Transformar Diamantes em Tequila parece ser a fórmula secreta de Walter Jon Williams, num conto em que Sean Makin, estrela de cinema em ascensão, se vê arrastado para o homicídio da sua suposta parceira. No entanto, Sean tem pouco de vítima e arranja forma de ganhar vantagem com os eventos que se seguiram ao terrível “acidente”.

Sir Hereward, um cavaleiro errante, e Mister Fitz, um mago transformado em marioneta, são os protagonistas do conto de Garth Nix, escritor australiano. Nele, a inusitada dupla enfrenta uma tarefa perigosíssima: destruir catorze estatuetas, onde se encontra aprisionada uma colectânea de deuses antigos. No entanto, uma ladra surge para lhes atrapalhar os planos, e apenas podem contar com uma besta trombuda chamada Rosie para os ajudar.

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Sir Hereward e Mr. Fitz (capa Amazon)

Matthew Hughes apresenta-nos um ladrão, chamado Raffalon, que tenta escapar das garras de uma raça de sujeitos terríveis, chamados vandaayo, quando encontra uma estatueta. Nela está presa uma divindade caída em esquecimento, que entra na mente de Raffalon e o convence a libertar um homem que se encontra capturado pelos canibais. Raffalon acaba por aceder, mediante certas contrapartidas, e liberta não só o religioso como uma mulher que também lá se encontrava. Nem tudo, porém, é como parece, e apenas uma conjugação de vários factores levam Raffalon a dar-se bem na sua tarefa. Diga-se, até, bastante bem.

Steven Saylor presta uma bela homenagem ao escritor Fritz Leiber em mais uma aventura do seu célebre personagem Gordiano. O jovem Gordiano encontra-se com o seu tutor, Antípatro, na cidade portuária de Tiro, onde conhece várias lendas relacionadas com os personagens de Leiber, Fafhrd e Rateiro Cinzento. No entanto, quando Antípatro compra uma poção da invisibilidade, nenhum dos dois podia imaginar que estavam a ser alvos de um grande embuste.

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Fafhrd e Rateiro Cinzento (comic vine)

O autor de ficção científica Michael Swanwick convida-nos a conhecer melhor os seus personagens Darger e Surplus, dois grandes trapaceiros num mundo pós-apocalíptico onde humanos convivem com mastodontes, serpentes marinhas e uma infinidade de zombies. Podem, no entanto, dar-se mal, quando utilizam uma beldade raríssima para tentar enganar pessoas muito poderosas. Lisa Tuttle apresenta-nos um conto enigmático sobre um estranho caso ao melhor género Sherlock Holmes. Uma menina dirige-se ao gabinete de detetives secretos para contar o ocorrido com a sua meia-irmã Alcina. A jovem morreu, mas a irmã garante tê-la visto, bem viva, num cemitério, junto de um homem estranhíssimo. Um mistério que leva o casal de detetives a investigar o mistério guardado a sete-chaves pelo dono de uma funerária.

O último conto, de Daniel Abraham, apresenta-nos Steppan e Asa. O primeiro é um príncipe exilado, escondido numa região sem jurisdição, próspera em contrabando, e o segundo o seu protector e amigo. Quando Steppan se apaixona perdidamente por uma jovem prestes a ser vendida como escrava, envia Asa para a comprar, mas nem tudo corre bem. É que Asa está apaixonado pelo amigo e não vê qualquer vantagem na aquisição, mas quando um grupo de caçadores de recompensas procura um antigo chanceler para o julgar por genocídio, Asa envolve a jovem escrava numa teia complexa que acaba por o colocar nos braços da rapariga.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Recomendamos cautela ao ler estes contos: Há muitos vigaristas e canalhas à solta.

Se gostou de ler Histórias de Aventureiros e Patifes, então não vai querer perder novas histórias com alguns dos maiores vigaristas e canalhas. São personagens infames que se recusam a agir preto no branco, e escolhem trilhar os seus próprios caminhos, à margem das leis dos homens. Personagens carismáticas, eloquentes, sem escrúpulos, que chegam até nós através de um formidável elenco de autores.  

Com organização de George R. R. Martin, um nome que já dispensa apresentações, e Gardner Dozois, tem nas mãos uma antologia de géneros multifacetados e que reúne algumas das mentes mais perversas da literatura fantástica.

Ao ler este livro, estará à assinar um pacto de comunhão com os seguintes autores:
Joe Abercrombie – autor da trilogia A Primeira Lei

Garth Nix – autor da trilogia Sabriel
Lisa Tuttle – co-autora de Windhaven
Daniel Abraham – autor da série The Expanse
OPINIÃO:

Histórias de Vigaristas e Canalhas é a segunda e última parte da célebre antologia Rogues, organizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois, dividida em Portugal em dois livros. O primeiro, Histórias de Aventureiros e Patifes, foi uma das últimas leituras do ano anterior, e apesar de me ter agradado, não me surpreendeu no seu todo. Este segundo volume manteve o mesmo nível.

Está Difícil para Todos, de Joe Abercrombie, foi um extraordinário conto de fantasia sobre um pacote que passa de mão em mão e todos tentam roubar. Apesar da escrita excelente, o ritmo alucinante e os personagens incríveis o terem feito um dos meus contos preferidos, faltou um final mais esclarecedor e surpreendente. Heavy Metal, de Cherie Priest, foi uma leitura completamente dispensável. Minutos desperdiçados de leitura. Uma história completamente descabida, um mistério que até podia ter potencial com um final incrivelmente decepcionante.

Carrie Vaughn brindou-nos com Loucos Anos Vinte, um conto muito bem escrito e com tudo para ser muito bom, mas que acabou por não dar em nada de novo ou relevante. Os dois contos seguintes, Cara de Metal de Bradley Denton e Diamantes de Tequila, de Walter Jon Williams, seguiram a mesma lógica. Dois “quase” policiais interessantes, mas uma escrita murcha e poucos aspetos de interesse.

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Capa da versão ilustrada norte-americana (subterraneanpress)

Garth Nix fez a antologia melhorar muito, com Um Carregamento de Marfins. A aventura de Sir Hereward e Mister Fitz aliou um ritmo alucinante a uma história bem contada, com uma escrita competente. A Estalagem das Sete Dádivas foi um conto interessante de Matthew Hughes, ainda que tenha sido aborrecido na maior parte, ganhando mais valor na reta final. Steven Saylor escreveu o meu conto preferido desta antologia. Invisíveis em Tiro alia romance histórico e fantasia numa grande homenagem a Fritz Leiber. Toda a história foi bem escrita, credível e com um desfecho agradável.

Tawny Petticoats foi também um bom conto de ficção científica, irónico e divertido, passado num mundo já escrito por Michael Swanwick em outras obras. Lisa Tuttle apresentou O Curioso Caso das Esposas Mortas, um grande conto de policial obscuro, que não só nos leva a pensar que nem tudo o que parece é, como nos deixa uma série de dúvidas no fim. A par da investigação, a autora aproveita para debater também a questão de género e o papel das mulheres na sociedade. Por fim, O Significado do Amor é um divertido conto de fantasia escrito por Daniel Abraham, autor de The Expanse. Personagens muito bem construídos, uma conspiração bem tecida, um mundo credível e uma escrita de grande qualidade.

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As histórias de Joe Abercrombie e Daniel Abraham poderiam passar-se neste cenário (pinterest)

Tirando três ou quatro contos, foi uma antologia muito agradável de ler, mais equilibrada que a primeira parte. O conto de Steven Saylor foi o meu conto preferido, com Daniel Abraham e Joe Abercrombie na segunda e terceira posições. Recomendo a todos os que gostaram da primeira parte. Mesmo podendo não ter nomes tão sonantes, não lhe fica atrás.

Avaliação: 7/10

Rogues (Saída de Emergência):

#1 Histórias de Aventureiros e Patifes

#2 Histórias de Vigaristas e Canalhas

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7 thoughts on “Histórias de Vigaristas e Canalhas, Rogues #2

  1. Olá,

    parabéns pela parceria! Espero que tenhas boas leituras através dela.
    Li a primeira parte e gostei bastante, vamos lá ver se gosto tanto desta como dessa.

    Bjs e boas leituras

    1. Olá Mirtila 🙂 Obrigado. Também espero que sim eheheh
      Eu acho que é ela por ela. Da primeira metade do livro só gostei do primeiro, mas a partir daí foi sempre a melhorar. 🙂
      Beijinho e boas leituras

  2. Ois Nuno,

    Em primeiro lugar parabens pela parceria, tenho a certeza que rapidamente te tornarás uma enorme mais valia para a editora e dos melhores comentadores de livros.

    Quanto ao livro, gostei da primeira parte e pelo que percebo este está igualmente a bom nivel sendo que uns contos te agradaram mais que outros, mas pronto faz parte.

    Abraço e boas leituras

    1. Obrigado, amigo. 🙂
      Bem, eu já há muito tempo que comento os livros deles, mas agora sem dúvida que há uma maior responsabilidade :p
      Este livro melhora substancialmente a partir do meio. Tirando o primeiro (que gostei muito e me fez ter ainda mais vontade de ler Abercrombie, apesar de esperar outro tipo de conclusão), depois há três ou quatro contos algo fracos, na minha óptica.
      Abraço e boas leituras 😀

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