Jardins da Lua, Saga do Império Malazano #1


Mesmo agora, ao aproximar-se da tenda de comando, o som fraco continuava dentro da sua cabeça, como ficaria durante algum tempo, acreditava ela. A moeda girava e girava. Oponn rodopiava duas caras para o cosmos, mas era a aposta da Senhora. Continua a girar, prata. Continua a girar.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Jardins da Lua”, primeiro volume da série Saga do Império Malazano

A construção do Império Malazano é um caso de estudo no âmbito da alta fantasia mundial. Jardins da Lua é o primeiro de dez volumes da aclamada série The Malazan Book of the Fallen, mas para além desta sequência, existe uma série de contos e prequelas escritas pelos dois criadores: Steven Erikson e Ian C. Esslemont.

O universo Malazan foi criado por Erikson e Esslemont no início dos anos 80, para uma campanha de RPG, abertamente inspirado no jogo de mesa Dungeons & Dragons e na obra de Glen Cook, The Black Company. Steven Erikson escreveu os dez volumes da série The Malazan Book of The Fallen, do qual este Jardins da Lua é o primeiro livro, escrito entre 1991 e 1992, sendo publicado em 1999. O último livro da saga, The Crippled God, foi publicado em fevereiro de 2011.

No ano de 2005, Esslemont começou a publicar a sua própria série de seis volumes, Novels of the Malazan Empire, iniciada com Night of Knives. Esslemont e Erikson colaboraram no enredo de todos os dezasseis livros e estes completam-se entre si.

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Capa Saída de Emergência

O contexto geográfico e histórico

Não existe um nome oficial para o mundo em questão, mas é vulgarmente chamado de Wu pelos fãs, após uma brincadeira com o autor. Esse mundo inclui vários continentes, sendo o maior deles conhecido como Sete Cidades. A ação do primeiro livro ocorre no continente de Genabackis, embora o segundo volume venha a passar-se num outro continente e só mais tarde as ações deste livro venham a repercutir-se e a maioria dos personagens a cruzar-se, numa grande teia de aranha Erikson.

O Império Malazano formou-se a partir de uma pequena ilha chamada Malaz, no ano de 1058 do Sono da Cresta, por Kellanved, que viria a fazer de Unta, nas Sete Cidades, a capital. Junto do seu conselheiro Dançarino, governou por vários anos, até que Surly, a Comandante da Garra, o assassinou e lhe usurpou o trono. A Garra era a elite de assassinos leal ao Império, e Surly, uma mulher de pele azul (napaniana), tornou-se a Imperatriz Laseen.

Jardins da Lua

As Cidades Livres de Genabackis sofrem com a expansão do Império. Para resistir às forças de Laseen, acordaram alianças com uma série de exércitos mercenários. São eles a Guarda Escarlate, comandada pelo Príncipe K’Azz D’Avore, e os Tiste Andii. Se os primeiros têm pouco destaque neste primeiro volume, o mesmo não se pode dizer do povo de pele escura que vive numa montanha voadora, a Cria da Lua.

Ela é comandada por Anomander Rake, um Tiste Andii de cabelo prateado, dois metros de altura e uma imensa espada nas costas, chamada Dragnipur. Dragões e corvos defendem a Cria da Lua e emergem dela quando necessário. As Cidades Livres podem contar também com a experiência de Caladan Brood, um Senhor da Guerra lendário, aliado de Rake, que lidera os exércitos de Tiste Andii por terra.

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Anomander Rake (malazanempire)

Por sua vez, o Império pode contar com os exércitos de Dujek Umbraço, o Alto Punho. Ele lidera os Segundo, Quinto e Sexto Exércitos, compostos tanto de soldados, como por magos, representados pelo Alto Mago Tayschreen, mas também as legiões de moranthianos, que se transportam através das criaturas voadoras Quorl.

Ganoes Paran é um homem de famílias nobres. Cresceu na capital do Império e tornou-se capitão. É enviado pela Conselheira Lorn, leal à Imperatriz, para Pale, uma das últimas Cidades Livres. O objetivo, alcançar o Nono Pelotão dos Queimadores de Pontes, liderados pelo Sargento Whiskeyjack, e afastar uma jovem recruta, chamada Piedade, que provocou massacres por onde passava, manietada pela força de um Ascendente: Cottilion, o Patrono dos Assassinos e lugar-tenente do poderoso Trono Sombrio.

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Cottilion possui Piedade (deviantart)

O Nono Pelotão dos Queimadores de Pontes encontra-se no cerco a Pale, onde o Alto Mago Tayschreen enfrenta cara a cara Anomander Rake. Rake destrói os exércitos de Dujek Umbraço e mata vários magos poderosíssimos. Ainda assim, a cidade de Pale é incendiada e a Cria da Lua move-se, afastando-se dos destroços e rumando a Darujhistan, a última cidade livre de Genabackis. Tattersail, uma feiticeira que só não é Alta Maga por opção pessoal, é das poucas sobreviventes à chacina, e encontra o mago Hairlock entre a vida e a morte. Cortado ao meio, Hairlock envia a sua mente para uma marioneta, onde permanece vivo.

Tattersail encontra também Whiskeyjack e os seus homens. O sargento foi outrora um dos homens mais poderosos do Império, mas com a queda do Imperador perdeu o estatuto, embora todos se recordem de quem ele foi. Dois homens de cor escura seguem-no: um é Ben Ligeiro, um mago poderoso; o outro é Kalam, ex-assassino da Garra. O grupo inclui ainda Piedade, uma jovem recruta que parece ter nascido para matar, Azarve e Violinista, escavadores, Trote, um guerreiro barghastiano e Marreta, o curandeiro do grupo. Tattersail socorre-se de um Baralho de Dragões para ver o futuro, e quando o faz encontra Oponn, os deuses gémeos que simbolizam a sorte e o azar, e desde aí uma moeda não para de girar.

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Oponn (misteradam)

Aqui conhecemos um sistema de magia baseado em Labirintos, que são dimensões a que magos e Ascendentes podem recorrer e retirar deles o seu poder, assim como usá-los para percorrer grandes distâncias em pouquíssimo tempo, se possuírem tal habilidade. Os Labirintos são lugares em que se pode entrar e sair, todos eles com uma geografia e história própria. Existem Labirintos próprios de magos humanos, como o Thyr, usado por Tattersail, ou os Labirintos Ancestrais, como o Kurald Galain usado por Anomander Rake e o poderoso Omtose Phellack, o Labirinto Jaghut. Há ainda um personagem que consegue aceder a vários Labirintos em simultâneo, mas não vos irei estragar a surpresa. A única coisa capaz de anular o poder de um Labirinto é o minério conhecido como otaratal, de que é feita a espada da Conselheira Lorn.

Com Pale em destroços, o exército de Dujek Umbraço ocupa a cidade. Ganoes Paran chega e procura por Whiskeyjack, mas é surpreendido pela recruta Piedade, que se encarrega de o silenciar. Paran vive uma experiência no além-mundo, conhece vários deuses e Oponn toca-lhe na espada, transformando-o num protegido pela sorte. Em Pale, Marreta cuida dos ferimentos de Paran, sem conseguir acreditar que ele sobreviveu.

Whiskeyjack e Tattersail suspeitam que alguém os traiu, e elaboram um plano. O sargento e o seu pelotão dirigem-se então a Darujhistan, a última cidade livre, enquanto Tattersail fica junto de Paran e ajuda-o a recuperar-se. Uma série de encontros, ataques e intrigas sucedem-se na cidade e um sentimento amoroso desperta entre o capitão e a maga. Depressa percebem que Whiskeyjack e os seus homens correm risco de vida, e decidem também eles rumar a Darujhistan para os salvar.

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Ganoes Paran (yapattack em deviantart)

Darujhistan é uma cidade maravilhosa, iluminada por luzes de tom azul. É lá que a Cria da Lua se encontra agora, preparada para defendê-la de um ataque. A cidade é governada pelo Conselho, um grupo de nobres pouco ortodoxos, em que se incluem Lady Simtal, Turban Orr e Estrasyan D’Arle, e a Sociedade dos Assassinos, liderada por Vorcan, que apesar de trocarem favores entre si, lutam pelo controlo da cidade. Porém, existe uma cabala de magos, liderada por Baruk, um alquimista poderoso, que move as suas peças a seu bel-prazer. Baruk é frequentemente visitado por Anomander Rake e pela sua mensageira, um corvo chamado Bruxa. As suas peças mais importantes, porém, costumam reunir-se na Taberna da Fénix.

Trata-se de um grupo de amigos encabeçado por Kruppe, um sujeito sarcástico de grandes apetites, que parece controlar tudo e interfere nas principais ações da trama… a partir dos seus sonhos. Há Coll, um antigo nobre que está sempre bêbado; Rallick Nom, um assassino da Sociedade; Murillio, um jovem atraente que seduz mulheres de poder; e o jovem ladrão Crokus Jovemão, sobrinho de Mammot, um historiador. Crokus pode ser visto como o personagem fulcral de toda a trama, uma vez que a moeda de Oponn para de girar e cai nas suas mãos.

A escala de épico rebenta quando todos os personagens se cruzam nas ruas de Darujhistan, com interesses que nem sempre nos são revelados. E se não bastasse a intriga política no interior da cidade e uma nova batalha prestes a estalar entre exércitos inimigos, a Conselheira Lorn empreende uma jornada para acordar um mal muito antigo.

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O meu exemplar
SINOPSE:

Quebrado pela guerra, o vasto império Malazano ferve de descontentamento. Os Queimadores de Pontes do Sargento Whiskeyjack e Tattersail, a feiticeira sobrevivente, nada mais desejam do que chorar os mortos do cerco de Pale. Mas Darujhistan, a última das Cidades Livres, ainda resiste perante a ambição sem limites da Imperatriz Laseen.Todavia, parece que o Império não está sozinho neste grande jogo. Sinistras forças das trevas estão a ser reunidas à medida que os próprios deuses se preparam para entrar na contenda…Concebido e escrito a uma escala panorâmica, Jardins da Lua é uma fantasia épica da mais elevada qualidade, uma aventura cativante da autoria de uma excecional nova voz.

OPINIÃO:

Jardins da Lua é um épico de tirar o fôlego. Combates entre dragões, zombies, cães tenebrosos, muita estratégia militar e um sistema de magia bem explorado e convincente. Homens que se tornam deuses, deuses que interferem diretamente no rumo dos acontecimentos, transmitindo claramente as suas intenções, receios e humores. Ler Steven Erikson é ler o melhor da high fantasy mundial. Para criar a Saga do Império Malazano, o autor canadiano retirou o melhor do género fantástico e transformou-o numa narrativa envolvente, pejada de personagens profundos e carismáticos.

Somos atirados para o meio de uma guerra entre duas fações distintas, mas mesmo dentro dessas fações existem forças antagónicas, interesses secretos e motivos nebulosos. São imensos os personagens que temos o gosto de conhecer, e todos eles podem ser vistos como protagonistas deste livro. A maior parte deles têm pontos de vista, e mesmo acompanhando-os, nem sempre compreendemos de que lado se encontram. O autor não perde tempo com explicações detalhadas. Caímos no meio da selva e temos de ir percebendo, aqui e ali, o que está a acontecer. Muitas vezes só entendemos os acontecimentos mais tarde.

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Ilustração dos personagens principais, presente na edição portuguesa (slaine69 em deviantart)

A ação é permanente. Se uma das críticas mais apontada a esta saga é a complexidade e o difícil entendimento, posso dizer que recebi-os a ambos de bom grado. A escrita é fluída e envolvente, apesar de o livro ir perdendo alguma riqueza de vocabulário conforme a ação se vai tornando mais ritmada. O ritmo só aumenta, à medida que a leitura avança. E as descrições de batalha, vívidas e enérgicas, são uma grande confusão. Magia jorra de todos os lados. Nomes estranhos são-nos atirados à cara às dezenas, criaturas ainda mais estranhas aparecem não sabemos de onde e chegamos a testemunhar batalhas em que não fazemos ideia quem está a lutar contra quem, porque assumimos o ponto de vista de um personagem que não conhece aquele com quem está a lidar. Só podemos adivinhar. E quando compreendemos, finalmente, somos tentados a reler o que ficou para trás.

Os personagens são incríveis. Kruppe, Crokus, Ben Ligeiro, Kalam, Paran, Whiskeyjack, Paciência, Rallick, Baruk, Anomander Rake, Bruxa, Murillio, Dujek Umbraço, entre tantos outros. Aqueles que já leram esta saga apontam este livro como um dos mais fracos dos dez, então eu só posso imaginar aquilo que está à minha espera. Espero que a Saída de Emergência continue a publicação desta saga, que merece os meus maiores elogios.

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Ben Ligeiro e Kalam (Nether83 em deviantart)

Não tem um humor tresloucado e uma narrativa genial como As Mentiras de Locke Lamora, nem uma credibilidade palpável como A Guerra dos Tronos, livros inaugurais das minhas séries de fantasia preferidas, mas Jardins da Lua chegou ao pódio.

O núcleo de Darujhistan, todas as intrigas tecidas, as personagens da Taberna, as perseguições nos telhados e os eventos catastróficos em volta de um baile de fim de ano – em que finalmente descobrimos tudo o que estava a ser tecido sem que déssemos conta – foram fantásticos, mas o que mais me marcou neste livro foi a ação na cidade devastada de Pale. Os personagens, as conversas de cariz militar, o respeito entre patentes, os atentados perpetrados por Ascendentes, as relações que nasceram a partir de simples ações, fazem de Jardins da Lua um livro para recordar. A ação em Darujhistan é incrível, mas a imensa chuva de forças secretas e a difícil perceção das mesmas fez-me sentir perdido aqui e ali. Pessoalmente, perde em relação à ação em Pale, mas ainda assim é superior a praticamente tudo o que é escrito no género.

Uma nota de rodapé para a fantástica edição da Saída de Emergência. Sabendo que seria um livro de grande complexidade, forneceram uma listagem de personagens, um glossário de expressões, um mapa de Genabackis e tanto a parte interior da capa como da contracapa têm ilustrações dos personagens principais, com o respetivo nome abaixo. Todo o trabalho de publicação está muito bom, sem erros dignos de registo.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Saga do Império Malazano (Saída de Emergência):

#1 Jardins da Lua

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7 thoughts on “Jardins da Lua, Saga do Império Malazano #1

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