O Império Final, Mistborn #1


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Império Final”, primeiro volume da trilogia Mistborn – Nascida das Brumas

Mistborn: Nascida das Brumas é uma das séries de fantasia mais aclamadas do autor norte-americano Brandon Sanderson, também conhecido por ter concluído a saga A Roda do Tempo de Robert Jordan após a sua morte, e por outras obras como Stormlight Archive, Elantris ou a juvenil Alcatraz, através das quais criou uma grande base de fãs e tornou-se um dos autores de fantasia e ficção científica mais famosos da atualidade.

O Império Final é o volume inaugural da primeira trilogia Mistborn, publicado em Portugal pela Saída de Emergência (primeira trilogia, porque o autor escreveu uma outra, passada séculos depois, num ambiente ao estilo western).

No nosso país, já saiu a primeira parte do último livro – O Herói das Eras -, e se a pressão para não dividirem os dois primeiros funcionou junto da editora, a escassez de vendas obrigou à divisão deste último, pelo que teremos quatro volumes de Mistborn para ler.

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Kelsier (tumblr)

Na ação de O Império Final é-nos apresentado um mundo encoberto de brumas e cinzas; diz-se que o Herói profetizado para salvar o mundo da terrível Profundeza tornou-se ele próprio um monstro. Desde a sua Ascensão, começaram a cair cinzas do céu todos os dias, e o Herói tornou-se um deus. Um deus de carne e osso, mas não um deus benévolo: o Senhor Soberano é um tirano impiedoso que se diz imortal e nunca ninguém o conseguiu vencer. Em Kredik Shaw, o seu palácio em Luthadel, ele vive protegido pelos Inquisidores de Aço, sujeitos aparentemente inquebráveis com bocados de ferro a atravessarem-lhes a cabeça dos olhos até à nuca.

Existem também os impositores com as suas tatuagens em volta dos olhos, são os responsáveis máximos pela Igreja e pela Banca. Neste mundo de crueldades, as classes sociais resumem-se à nobreza e aos escravos. Enquanto os nobres vivem fechados no seu jogo político, defendendo as suas casas e alianças partidárias, alheios ao resto, esses escravos, chamados de skaa, passam os dias a varrer as cinzas da noite e a fazer todo o tipo de serviços mundanos. Os skaa são vistos como seres inferiores pela nobreza, quase desprovidos de inteligência ou sentimentos, pelo que a sua morte e maus tratos não os afeta minimamente. Para os serviços de maior importância, como os de mordomo, são requisitados terrisanos, sujeitos oriundos de Terris, com orelhas unidas à cabeça, prenhes em adereços.

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Capa Saída de Emergência

Falta escrever, claro está, sobre o sistema de magia. Os nobres possuem o dom da alomância, ou seja, a capacidade de ingerir metais e depositá-los em reservas internas. Ao conseguir “queimar” esse abastecimento, eles têm acesso a poderes incríveis. Mas atenção, cada metal tem uma função e a maioria dos “mágicos” são apenas brumeiros, ou seja, apenas conseguem extrair poder de um metal específico. Quando um desses sujeitos consegue mexer com mais do que um poder, então isso significa que tem acesso aos oito metais alomânticos. Significa que é um “nascido das brumas”.

Para evitar que nasçam skaa brumeiros ou nascidos das brumas, estes indivíduos poderosos matam as escravas skaa que usam para o seu próprio prazer, logo após a violação. No entanto, de quando em quando deixam-nas fugir, de quando em quando, lá nasce um brumeiro skaa. É neste contexto que somos apresentados a Kelsier e Vin, os dois protagonistas da trama. Enquanto Vin é uma jovem rapariga skaa que se tornou ladra para sobreviver e pouco a pouco vai descobrindo os seus poderes, Kelsier é o Sobrevivente de Hatshin, aquele que foi condenado aos Poços e o único que conseguiu sair de lá com vida. Ele irá conceber uma verdadeira rebelião contra o Senhor Soberano, juntando para isso uma bela equipa de brumeiros skaa com tanto de valentia, como de bom coração – cada um com um poder específico -, e claro, Vin. Tal como Kelsier, uma nascida das brumas.

Viagens à Lareira #9: Eu sei, Brandon Sanderson não é um autor novo como o desafio me obrigava. Mas não é um autor novo em que sentido? Por já publicar livros há vários anos? Não só O Império Final é o primeiro livro dele em Portugal, como foi o primeiro de Sanderson que li. Por isso, este conta para o desafio. 😛

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O meu exemplar
SINOPSE:

Num mundo onde as cinzas caem do céu e as brumas dominam a noite, o povo dos Skaa vive escravizado e na absoluta miséria. Durante mais de mil anos, o Senhor Soberano governou com um poder divino inquestionável e pela força do terror. Mas quando a esperança parecia perdida, um sobrevivente de nome Kelsier escapa do mais terrível cativeiro graças à estranha magia dos metais – a Alomancia – que o transforma num “nascido nas brumas”, alguém capaz de invocar o poder de todos os metais.
Kelsier foi outrora um famoso ladrão e um líder carismático no submundo. A experiência agonizante que atravessou tornou-o obcecado em derrubar o Senhor Soberano com um plano audacioso. Após reunir um grupo de elite, é então que descobre Vin, uma órfã skaa com talento para a magia dos metais e que vive nas ruas. Perante os incríveis poderes latentes de Vin, Kelsier começa a acreditar que talvez consiga cumprir os seus sonhos de transformar para sempre o Império Final…

OPINIÃO:

Este foi, de facto, um livro que me surpreendeu imenso pela positiva. Talvez por isso, começarei pelos aspetos menos positivos. A criança ingénua e desprotegida que aprende com um mestre para poder derrotar o senhor das trevas… onde é que já vimos isto? Sanderson consegue fazê-lo com êxito, é um plot que consegue sempre alcançar sucesso e o autor tem mérito na forma como faz evoluir a personagem e as suas relações, de qualquer forma levei tempo a gostar da Vin e sempre esperei um Senhor Soberano com outras nuances.

Penso que as bases do mundo têm graves erros de conceção. Sim, é fantástico, e sou dos que mais defende a liberdade de criação neste tipo de mundos; Sanderson até o tornou bastante verosímil em muitos aspetos, mas falhou ligeiramente noutros. Não é explicado do que é que as pessoas vivem; num ecossistema tão fustigado como aquele, devia existir uma alternativa natural aos alimentos ditos convencionais do nosso mundo. Para além de que as plantas não se conseguiriam reproduzir, mesmo nos seus tons descolorados – pelo menos naqueles moldes – depois de milhares de anos a chover cinza dos céus.

Embora a narrativa, seja no seu todo, messiânica, e aqui ou ali fique a sensação que o livro é um tanto ou quanto religioso, faltou maior atrevimento, maior maturidade nos diálogos (essencialmente nos bailes), e também uma ou outra cena de sexo. Ok, não de uma forma forçada à Guy Gavriel Kay, mas neste registo, Mistborn dá a imagem de um livro juvenil quando é muito mais do que isso. Relembro que, sem uma única cena de sexo explícita, As Mentiras de Locke Lamora de Scott Lynch consegue ser bem mais realista e cru – um registo que aprecio.

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Mistborn art – Marc Simonetti

No que diz respeito à escrita – e faço aqui uma ponte entre os defeitos e as virtudes -, O Império Final tem uma escrita rica e fluída, e ainda assim faltou-lhe mais uma pitada de humor. Consegui encontrá-lo nos diálogos entre Kelsier e o seu bando, alguns dos quais deliciosos. Faltaram, ainda assim, mais frases de efeito e um maior malabarismo gramatical. Digo que faltaram, porque se tudo o que aqui apresento como defeitos fosse como aconselho, o livro seria perfeito.

Não se deixa de amar alguém simplesmente porque te magoam – disse ele. – Se isso acontecesse, as coisas certamente seriam mais fáceis. O Império Final, Mistborn #1 (pag. 502)

Adorei o mundo, a forma como foi explicado detalhadamente o sistema de alomância e a feruquimia, e os personagens riquíssimos, construídos de uma forma muito inteligente. Kelsier, Dockson, Brisa, Susto, Marsh, Elend e o kandra “Renoux” foram os meus preferidos, mas é impossível não gostar de Vin com tanto destaque que ela vai ganhando, com as suas dúvidas e receios. Foi um tanto ou quanto irrealista tudo o que ela fez, tudo a que ela escapou, mas Sanderson passou, acima de tudo, um rol de mensagens subliminares na forma como ela cresceu. Se o bando de Kelsier e o seu plano foi, para mim, o melhor do livro (claro que a alomância e os fantásticos Inquisidores de Aço contribuiram para que ele me tenha surpreendido pela positiva), as dúvidas existenciais de Kelsier e Vin deram uma alma imensa a este primeiro volume.

O que é a crença, o que é a fé, se não continuarmos a tê-la depois do falhanço? O Império Final, Mistborn #1 (pag. 559)

Espero que personagens como Brisa, Ham, Dockson, o Coxo e o próprio Marsh tenham mais destaque nos próximos livros, mas também temo que lhes aconteça o mesmo que a Sazed. Gostei dele ao início, mas pouco a pouco foi-se tornando um personagem chato e melancólico, graças ao protagonismo que recebeu.

É um livro grande, com mais de 600 páginas, com um início brilhante e um final muito bem conseguido. Faltou alguma paixão na grande fatia central do livro, mas nem por isso se tornou aborrecido, pelo que o considero um livro de leitura compulsiva. A vontade de virar a página e saber o que aconteceria a seguir, esteve sempre presente. Não tem a genialidade de um Scott Lynch ou a consistência de uma Robin Hobb, mas a ação é constante e o ritmo entusiasmante, pelo que não admira ter tanto ou mais sucesso que eles.

Sem dúvida, é uma saga que pretendo seguir e que recomendo muito a todos os fãs de fantasia. O mundo criado por Sanderson tem as suas incongruências, e mesmo assim é ótimo.

Avaliação: 8/10

Mistborn (Saída de Emergência):

#1 O Império Final

#2 O Poço da Ascensão

#3 O Herói das Eras Parte 1

#4 O Herói das Eras Parte 2

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20 thoughts on “O Império Final, Mistborn #1

  1. Olá, Nuno,
    Foi a descoberta de um autor até antes desconhecido para ti :p
    Como já disse, estou curiosa com esta trilogia, ainda para mais com o sistema mágico do universo. Ainda não li Scott Lynch, nem Robin Hobb (eu sei, sou uma pecadora) pelo que se calhar era melhor começar por este…

    bjs e boas leituras!

    1. Que pecado tão grave xD
      Eu pessoalmente gostei mais de Mistborn do que da Saga do Assassino de Hobb, mas a escrita dela é muito mais consistente e é bem cativante. Acho que sim, podes começar por esta saga, apesar da complexidade do enredo e do sistema de magia, é mais soft que Hobb. E Lynch… se tiveres a mesma opinião que eu, depois de leres Lynch tudo o resto em fantasia vai parecer pouco. xD Se livros fossem alimentos, os livros do Locke Lamora eram a sobremesa.
      Beijinho e boas aventuras literárias.

  2. Saudações,

    Bem começas logo mal a dizer que preferes o Sanderson à Robin Hobb 😛

    Concordo com muito do teu comentario embora não seja de ir tão ao pormenor para comentar um livro mas está tudo certo o que referes, embora ainda vai ser muito desenvolvido o universo pelo escritor, coisas do passado mas isso será lá mais para a frente.

    E ai o que o nosso bando foi fazer, se soubesses o que está por trás disto tudo, o senhor Suberano não era assim tão mau como se pode pensar, bem pelo contrario, mas depois logo falamos quando leres os seguintes, sei que já tens O Heroi das Eras, faltando-te o 2 volume 🙂

    Fico contente que tenhas gostado e ainda vais ter umas surpresas e o Kelsier tinha a sua piada e humor 😀

    Abraço e boas leituras

    1. Viva 🙂
      A Robin Hobb escreve bem melhor que o Sanderson, mas a nível de história, do que li ainda está muito fraquinha. :p Bem, muito me contas. Pelos vistos ainda vamos ter muito mais reviravoltas. Espero que seja bem desenvolvido.
      É verdade, ver se entretanto arranjo o segundo volume. 🙂
      Sim, o Kelsier foi o melhor personagem 😀
      Abraço e obrigado por comentares.
      xD

      1. A Robin Hobb prova que não é necessário um universo muito complicado e com muitas personagens para se escrever um bom livro e ainda vai ter algumas surpresas, verás 😀

        Será que a queda do senhor Soberano foi mesmo boa ? É que não sei como ficou o final desse livro mas ainda vai levar um belo desenvolvimento 😉

        Bem o Kelsier estará sempre presente, será inspiração para muita gente mas vais ter outras persoangens interessantes, alias elas não faltam 😀

      2. Ai Fiacha, Fiacha, que estás a dar spoilers a quem não leu o primeiro livro 😛 Será que o Senhor Soberano partiu alguma perna ao cair? kkk
        Mas pelo que vejo a saga tem pano para mangas e muitas reviravoltas vão acontecer. Tipo, a história do Kelsier é quase a história de Jesus Cristo, o bando dele são os apóstolos 😛
        Quanto à Robin Hobb, concordo 😉

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