Histórias de Vigaristas e Canalhas

Certas frases assombram-me. Continuo a ouvir a voz doce e suave de Alcinda a dizer «não posso culpá-lo» e «ele não podia fazer nada», mas também recordo um polícia que resmungou: «O veneno é uma arma feminina.»

O TEXTO SEGUINTE CONTÉM SPOILERS DO LIVRO HISTÓRIAS DE VIGARISTAS E CANALHAS

George R. R. Martin e Gardner Dozois reuniram alguns dos melhores criadores de patifes literários para dar “voz” a esta fantástica antologia sobre grandes vigaristas. Se, no primeiro volume, pudemos ler contos de Neil Gaiman, Scott Lynch, Patrick Rothfuss ou até do mesmo George R. R. Martin, o segundo volume conta com autores igualmente talentosos.

Joe Abercrombie abriu as honras com um conto sobre uma cidadezinha de ladrões, onde todos parecem andar atrás de um estranho pacote – o que não significa que saibam qual é o seu conteúdo. Nem nós chegámos a saber qual é. Cherie Priest leva-nos ao encontro de um cadáver de mineiro “possuído” por um demónio, enquanto Carrie Vaughn nos apresenta um thriller paranormal, onde um clube bem frequentado de vampiros, zombies e outras criaturas da noite se torna palco de mais um dos truques de Madame M. e Pauline, ainda que tenham de enfrentar a astúcia da poderosa Gigi. Bradley Denton apresenta um conto irónico sobre um professor que se divide entre descobrir as tramóias de um grupo de adolescentes envolvidos no roubo de uma peça de música (tentando lucrar com isso) e lidar com o novo relacionamento da sua ex-mulher. Transformar Diamantes em Tequila parece ser a fórmula secreta de Walter Jon Williams, num conto em que Sean Makin, estrela de cinema em ascensão, se vê arrastado para o homicídio da sua suposta parceira. No entanto, Sean tem pouco de vítima e arranja forma de ganhar vantagem com os eventos que se seguiram ao terrível “acidente”. Sir Hereward, um cavaleiro errante, e Mister Fitz, um mago transformado em marioneta, são os protagonistas do conto de Garth Nix, escritor australiano. Nele, a inusitada dupla enfrenta uma tarefa perigosíssima: destruir catorze estatuetas, onde se encontra aprisionada uma colectânea de deuses antigos. No entanto, uma ladra surge para lhes atrapalhar os planos, e apenas podem contar com uma besta trombuda chamada Rosie para os ajudar.

Matthew Hughes apresenta-nos um ladrão, chamado Raffalon, que tenta escapar das garras de uma raça de sujeitos terríveis, chamados vandaayo, quando encontra uma estatueta. Nela está presa uma divindade caída em esquecimento, que entra na mente de Raffalon e o convence a libertar um homem que se encontra capturado pelos canibais. Raffalon acaba por aceder, mediante certas contrapartidas, e liberta não só o religioso como uma mulher que também lá se encontrava. Nem tudo, porém, é como parece, e apenas uma conjugação de vários factores levam Raffalon a dar-se bem na sua tarefa. Diga-se, até, bastante bem. Steven Saylor presta uma bela homenagem ao escritor Fritz Leiber em mais uma aventura do seu célebre personagem Gordiano. O jovem Gordiano encontra-se com o seu tutor, Antípatro, na cidade portuária de Tiro, onde conhece várias lendas relacionadas com os personagens de Leiber, Fafhrd e Rateiro Cinzento. No entanto, quando Antípatro compra uma poção da invisibilidade, nenhum dos dois podia imaginar que estavam a ser alvos de um grande embuste.

O autor de ficção científica Michael Swanwick convida-nos a conhecer melhor os seus personagens Darger e Surplus, dois grandes trapaceiros num mundo pós-apocalíptico onde humanos convivem com mastodontes, serpentes marinhas e uma infinidade de zombies. Podem, no entanto, dar-se mal, quando utilizam uma beldade raríssima para tentar enganar pessoas muito poderosas. Lisa Tuttle apresenta-nos um conto enigmático sobre um estranho caso ao melhor género Sherlock Holmes. Uma menina dirige-se ao gabinete de detetives secretos para contar o ocorrido com a sua meia-irmã Alcina. A jovem morreu, mas a irmã garante tê-la visto, bem viva, num cemitério, junto de um homem estranhíssimo. Um mistério que leva o casal de detetives a investigar o mistério guardado a sete-chaves pelo dono de uma funerária. O último conto, de Daniel Abraham, apresenta-nos Steppan e Asa. O primeiro é um príncipe exilado, escondido numa região sem jurisdição, próspera em contrabando, e o segundo o seu protector e amigo. Quando Steppan se apaixona perdidamente por uma jovem prestes a ser vendida como escrava, envia Asa para a comprar, mas nem tudo corre bem. É que Asa está apaixonado pelo amigo e não vê qualquer vantagem na aquisição, mas quando um grupo de caçadores de recompensas procura um antigo chanceler para o julgar por genocídio, Asa envolve a jovem escrava numa teia complexa que acaba por o colocar nos braços da rapariga.

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SINOPSE:

Recomendamos cautela ao ler estes contos: Há muitos vigaristas e canalhas à solta.

Se gostou de ler Histórias de Aventureiros e Patifes, então não vai querer perder novas histórias com alguns dos maiores vigaristas e canalhas. São personagens infames que se recusam a agir preto no branco, e escolhem trilhar os seus próprios caminhos, à margem das leis dos homens. Personagens carismáticas, eloquentes, sem escrúpulos, que chegam até nós através de um formidável elenco de autores.  

Com organização de George R. R. Martin, um nome que já dispensa apresentações, e Gardner Dozois, tem nas mãos uma antologia de géneros multifacetados e que reúne algumas das mentes mais perversas da literatura fantástica.

Ao ler este livro, estará à assinar um pacto de comunhão com os seguintes autores:
Joe Abercrombie – autor da trilogia A Primeira Lei

Garth Nix – autor da trilogia Sabriel
Lisa Tuttle – co-autora de Windhaven
Daniel Abraham – autor da série The Expanse
OPINIÃO (SEM SPOILERS):

Histórias de Vigaristas e Canalhas é a segunda e última parte da célebre antologia Rogues, organizada por George R. R. Martin e Gardner Dozois, dividida em Portugal em dois livros. O primeiro, Histórias de Aventureiros e Patifes, foi uma das últimas leituras do ano anterior, e apesar de me ter agradado, não me surpreendeu no seu todo. Este segundo volume manteve o mesmo nível.

Está Difícil para Todos, de Joe Abercrombie, foi um extraordinário conto de fantasia sobre um pacote que passa de mão em mão e todos tentam roubar. Apesar da escrita excelente, o ritmo alucinante e os personagens incríveis o terem feito um dos meus contos preferidos, faltou um final mais esclarecedor e surpreendente. Heavy Metal, de Cherie Priest, foi uma leitura completamente dispensável. Minutos desperdiçados de leitura. Uma história completamente descabida, um mistério que até podia ter potencial com um final incrivelmente decepcionante. Carrie Vaughn brindou-nos com Loucos Anos Vinte, um conto muito bem escrito e com tudo para ser muito bom, mas que acabou por não dar em nada de novo ou relevante. Os dois contos seguintes, Cara de Metal de Bradley Denton e Diamantes de Tequila, de Walter Jon Williams, seguiram a mesma lógica. Dois “quase” policiais interessantes, mas uma escrita murcha e poucos aspetos de interesse.

Garth Nix fez a antologia melhorar muito, com Um Carregamento de Marfins. A aventura de Sir Hereward e Mister Fitz aliou um ritmo alucinante a uma história bem contada, com uma escrita competente. A Estalagem das Sete Dádivas foi um conto interessante de Matthew Hughes, ainda que tenha sido aborrecido na maior parte, ganhando mais valor na reta final. Steven Saylor escreveu o meu conto preferido desta antologia. Invisíveis em Tiro alia romance histórico e fantasia numa grande homenagem a Fritz Leiber. Toda a história foi bem escrita, credível e com um desfecho agradável. Tawny Petticoats foi também um bom conto de ficção científica, irónico e divertido, passado num mundo já escrito por Michael Swanwick em outras obras. Lisa Tuttle apresentou O Curioso Caso das Esposas Mortas, um grande conto de policial obscuro, que não só nos leva a pensar que nem tudo o que parece é, como nos deixa uma série de dúvidas no fim. A par da investigação, a autora aproveita para debater também a questão de género e o papel das mulheres na sociedade. Por fim, O Significado do Amor é um divertido conto de fantasia escrito por Daniel Abraham, autor de The Expanse. Personagens muito bem construídos, uma conspiração bem tecida, um mundo credível e uma escrita de grande qualidade.

Tirando três ou quatro contos, foi uma antologia muito agradável de ler, mais equilibrada que a primeira parte. O conto de Steven Saylor foi o meu conto preferido, com Daniel Abraham e Joe Abercrombie na segunda e terceira posições. Recomendo a todos os que gostaram da primeira parte. Mesmo podendo não ter nomes tão sonantes, não lhe fica atrás.

Nota: 7/10

Livros Publicados (Saída de Emergência):

#1 Histórias de Aventureiros e Patifes

#2 Histórias de Vigaristas e Canalhas

A Demanda do Visionário, A Saga do Assassino #5

Sou uma menestrel. Sei mais sobre mentir do que tu alguma vez descobrirás. E os menestréis sabem que por vezes é de mentiras que um homem mais precisa. Para fazer delas uma nova verdade.

O texto seguinte contém spoilers do livro “A Demanda do Visionário”, quinto volume da série A Saga do Assassino

Assassin’s Quest é o terceiro e último volume da primeira saga do assassino FitzCavalaria, da autora Robin Hobb. Em Portugal, as duas sagas publicadas foram divididas, sendo que este quinto volume compreende a segunda metade do terceiro livro original.

A Demanda do Visionário narra os eventos desde que Esporana, Panela e Olhos-de-Noite salvaram a vida a Fitz, que havia sido enclausurado por homens de Majestoso. Enquanto deixa Panela e Esporana seguirem o seu caminho, para as proteger da caça de que é alvo, Fitz segue com o seu lobo, mas acaba por sofrer uma emboscada e ficar gravemente ferido. É quando acorda que percebe encontrar-se nos domínios da Montanha, onde Kettricken se escondeu, mas também reencontra velhos amigos. Kettricken, Bobo, Breu, e até mesmo Panela e Esporana, que seguiam viagem em busca do Profeta Branco.

Fitz depressa percebe que Esporana falou mais do que devia, contando os segredos sobre a filha a Breu, que logo coloca como prioridade colocar a pequena Urtiga no trono, como herdeira direta da linhagem Visionário. Breu viaja para Torre do Cervo, mas os que ficam acabam por também ser obrigados a empreender uma viagem. Com as feridas saradas, Fitz percebe que o Reino da Montanha está em vias de ser atacado, e o tempo urge. Como tal, está na hora de voltar a seguir o chamamento e ir em busca de Veracidade. Kettricken decide ir com ele, uma vez que perdeu o bebé e nada mais a prende à vida do que encontrar o marido vivo e contar-lhe a fatalidade ocorrida. Bobo, Olhos-de-Noite, Panela e Esporana vão com eles, empreendendo uma longa jornada. Durante o caminho, vários são os percalços que têm de enfrentar, principalmente os desafios colocados por Majestoso através dos seus círculos de Talento. Fitz percebe que o Profeta Branco que Panela procurava é Bobo, que se manifesta frequentemente doente e manifesta várias mutações desde que deixou Cervo.

É na pedreira onde encontram Veracidade, velho e cansado, a esculpir rocha, que grande parte da ação deste livro acontece. Ali percebem quem são os Antigos, como fazê-los voltar à vida e como Veracidade pretende sacrificar-se para erradicar tanto Majestoso como os terríveis Navios Vermelhos. Panela ajuda-o nessa tarefa, pois revela ter participado, ela mesma, de um círculo de Talento. Kettricken sofre com a apatia do marido, mas depressa percebe que ele foi obrigado a colocar todos os seus sentimentos na escultura de pedra, para dar-lhe vida. Vários são os dilemas e reveses, até que, graças ao Talento de Fitz, Veracidade, Panela e a escultura tornam-se um só e a estátua ganha vida, tornando-se um dragão. Kettricken e Esporana montam-no, rumando a Cervo, para enfrentar os Navios Vermelhos e os salteadores. Quebrado por perceber que a mulher que ama e o homem que sempre viu como um pai estão juntos como casal, Fitz enfrenta os exércitos de Majestoso, controla o rei através de Vontade e afasta-se com o seu lobo, para levar uma vida de eremita. Vários dragões seguem Veracidade, trazendo a paz aos Seis Ducados.

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SINOPSE:

O verdadeiro rei dos Seis Ducados desapareceu numa missão misteriosa em busca dos Antigos para salvar o reino da ameaça dos Navios Vermelhos. O seu irmão usurpador está determinado a impor uma tirania cruel e não abrirá mão do poder, a não ser com a própria morte.
Fitz sabe que a única forma de por fim ao reinado do príncipe usurpador é iniciar uma demanda em direção ao reino das Montanhas onde irá descobrir a verdade sobre as profecias do Bobo. Mas a sua missão enfrenta um novo perigo com a magia do Talento a precipitar a sua alma para a beira do abismo.
Conseguirá resistir à magia e ainda enfrentar os obstáculos que surgem à sua demanda?

OPINIÃO (SEM SPOILERS):

Posso dizer claramente que este foi o melhor livro dos cinco publicados em português. A ação continuou lenta, mas desta vez muitos mais foram os acontecimentos que se desdobraram, uns após os outros, para dar sentido a tudo o que ficou para trás, assim como ao final imprevisível da saga. Com várias revelações importantes, ficamos a conhecer o destino de alguns personagens que nos tinham acompanhado ao longo dos livros, como Fitz, Moli, Castro, Breu, Bobo, Kettricken, Majestoso ou Veracidade. Esporana e Panela, que tinham surgido no último livro quase como remendos narrativos, também acabaram por fazer sentido e ter o seu destino bem definido. O final pouco “cor-de-rosa” agradou-me, e algumas frases de efeito provaram a maturidade da autora e um realismo satisfatório.

Podia apontar a forma como os Antigos são feitos, ou mesmo a existência de animais mitológicos, como defeitos. Apesar do cliché em fantasia, a forma como eles surgiram foi bastante original, ainda que irreal (ou um pouco forçada). Assim como a narração final de tudo o que aconteceu em Cervo e na luta contra os salteadores, que podia ter sido mais explorada, ou, pelo menos, levar mais um capítulo ou dois a mostrar o que aconteceu. O estilo utilizado, uma narração pela rama, no entanto, fez sentido. Não só o protagonista e narrador não estava presente, como a ideia que fica em todo o livro é que o importante não é como a história termina. O importante é o percurso que é levado até lá. Nesse sentido, apesar de os seus livros serem lentos e cansativos, Robin Hobb teve mérito. Lerei a segunda série, mas não para já.

Nota: 8/10

Livros Publicados (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Soberano

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

 

Estou no Wattpad #3

Olá a todos! Aqui estou eu para disponibilizar o terceiro capítulo do meu livro de leitura online, Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, escrito exclusivamente para o Wattpad e também difundido aqui no blogue. Espero que gostem.

CAPÍTULO TRÊS: HEREGES

“Seja quem for esse Landon X que se auto-denomina Imperador, não passa de um herege. O seu Império foi forjado com base no maior crime jamais perpetrado: o deicídio. Limitou-se a herdar o Império de Cacetel, o maior conquistador da História de Semboula, que se suicidou três meses após a Seca. Os deuses a que se proclamara tributo haviam desaparecido; toda a sua crença e motivação também. A ascensão de Landon X está envolta em mistério, mas todos falam em como era um bom negociador no tráfico de escravos, e a forma como se apoderou dos Poços pode estar muito mais próxima de uma estratégia negocial do que de um ato de saque. Isso não atenua as náuseas que sinto por saber que esse homem se tornou Imperador. Com que direito? Com que direito?”

As roupas aderiam aos corpos com o suor. O rumor de confabulações matraqueava aos seus ouvidos. O sol toldava-lhes a visão, e tudo à sua volta resumia-se a ondulações de calor e a fortes clarões amarelos. O camelo montado por Língua de Ferro colocou-se entre dois dos Doze Vermelhos, num dos quais se encontrava o jovem que chamara de Empecilho, a ser guiado por um dos discípulos de Dooda.

― O que fizeste para ir parar à Prisão?

O rapaz esticou-lhe uma mão, exibindo os tocos de dedos de pontas cortadas.

― O que lhe parece? Tentei roubar o edifício da conservatória, em Veza. Cortaram-me as pontas dos dedos em público, como exemplo. Tinha apenas onze anos…

Língua de Ferro não mostrou qualquer expressão. Levantou o olhar para o horizonte, levando as mãos forradas a mitenes de couro desbotado ao cabelo turquesa, afastando-o para trás de uma orelha. Esticou um braço, entorpecido pela viagem.

― Talvez consiga ensinar-te a não ser apanhado, Empecilho!

O jovem arqueou o sobrolho.

― Porque me chama isso? O meu nome é Catata. Catata LaCelles. E não faço tenções de voltar a roubar.

Língua de Ferro soltou uma gargalhada.

― LaCelles. És alguma coisa ao pretor Vecia LaCelles?

― Sobrinho-neto ― revelou sem hesitar. ― O sobrinho mais novo dele, Cesare, virou-o contra o meu pai, para o deserdar e apoderar-se de toda a sua fortuna e poder. O meu pai caiu num ardil e acabou como negociador de lãs, na Marca de Llama. Cesare não se deu por contente e arruinou o negócio do meu pai, quando soube que ele estava a dar-se bem… Nos últimos anos em que estive com ele, o meu pai estava arruinado e eu e os meus irmãos fomos obrigados a roubar para comer.

O jovem baixou a cabeça. A lembrança embaraçava-o.

― Não digas a ninguém o teu verdadeiro nome ― disse-lhe Língua de Ferro. ― As coisas mudaram um pouco. LaCelles foi morto por traição, assim como Cesare e a sua esposa e filhos. Se souberem que existe mais algum LaCelles por aí, muitos homens serão capazes de te levar ao Imperador em busca de alguma recompensa.

O rapaz engoliu em seco e assentiu.

― Então… como devo chamar-me?

― Empecilho parece-me um ótimo nome. Acho até que nunca conheceste outro… ou estou enganado?

Empecilho sorriu.

― Nunca conheci outro, senhor…

 

A Costa de Rezos era agora uma elevação de terra que separava os imensos desertos que outrora foram o Mar de Rezos do continente de Eygotia, o mais setentrional dos antigos cinco continentes de Semboula. Uma área árida, coberta de taludes de terra e cidades que outrora tiveram enorme importância no comércio marítimo, agora destinadas ao isolamento e à humildade de quem depende das bolsas do Império para sobreviver.

Os membros da caravana de Língua de Ferro avistaram a costa à quadragésima hora do dia, quando o sol estava mais baixo. Ouviram o som de chicotes e o grunhir agudo dos homens que se aproximavam, cercando a comitiva com hostilidade. Eram homens escuros, cobertos de peles curtidas e desgastadas que empregavam como coletes e lorigões. Usavam tranças longas e negras e tinham rostos angulares, trazendo ao peito longos colares de couro com peças de marfim e madeira, em forma de caveiras. Montavam animais de cor carmesim, malhados de negro. Tinham focinhos de hiena e aparência felina, mas eram altos como cavalos. Diabos…, pensou Língua de Ferro, que tivera um como animal doméstico. Hije. Os seus rosnares soavam a gritos maléficos, e agitavam as cabeças felpudas com rebeldia. As quatro patas terminavam em cascos.

― Adoradores de Khsem! ― grunhiu um dos Doze Vermelhos. ― Saqueadores, idólatras, hereges. Arrancadores de escalpes.

Os selvagens brandiam sabres reluzentes com punhos incrustados de pedras preciosas, e grunhiam palavras de morte e violência. Tochas tremeluziam sombriamente de dedos escuros e ossudos. Língua de Ferro sabia que os adoradores de Khsem, divindade demoníaca que ganhara expressão após o deicídio, tornaram-se assaltantes de templos e piratas dos desertos, atacando em grupo com as suas diabólicas montadas.

― Não se separem. Compactos. Mantenham-se compactos ― ordenou.

O grupo tentou aproximar-se e manter-se comprimido, mas os camelos eram lentos e pareciam subitamente nervosos. Ao clamor de tiros de bacamarte juntava-se o fumo da pólvora, mas as armas de fogo dos Doze Vermelhos não obtiveram grande êxito face à agilidade e rapidez dos adversários.

Língua de Ferro desembainhou Apalasi com um rumor abafado pelos guinchos dos animais e saltou do seu camelo com agilidade. Segurava a espada com as duas mãos quando os selvagens os abordaram. Ouviu-se o entrechocar de sabres contra sabres, com os Vermelhos a baterem-se com bravura. As cortinas de areia e vapor tornavam turva a peleja, mas entre todos eles destacava-se Língua de Ferro. Leidviges Valentina viu um diabo a aproximar-se de si com ar de fome, e a cabeça do animal ficou pendurada do corpo com um só golpe. Os joelhos do animal curvaram-se para a frente e o homem que o montava ampliou o olhar de terror quando percebeu que ia cair para a frente. Língua de Ferro arrancou-o da sela com uma mão e degolou-o com a outra. Boa viagem, cavalheiro.

― Fechem as alas ― gritava Dooda, com uma expressão austera no rosto. ― Mantenham-se juntos.

Língua de Ferro olhou por cima do ombro e viu dois adversários a galgarem terreno na sua direção. Esperou que eles o alcançassem. Amputou o braço do primeiro adversário e fê-lo gritar de dor, enquanto dirigia a atenção para o segundo oponente. Travou o ataque com a sua espada, e o choque produziu fagulhas. Crispou o rosto com o esforço e separou a espada da dele, rodopiando-a com as duas mãos acima da cabeça, para golpear o adversário no ventre e depois enterrar a lâmina pela zona das carótidas. Porque é na arte dos mortos que vivem os vivos, trilhando estradas fendidas por conspirações de antanho, pensou. Afirmam-se os estilos, drenam-se pântanos de lodo cognitivo, dançam-se coreografias que os bárbaros da ignorância desenharam em telas imaginárias. Camada sob camada, sussurram as verdades.

O diabo grunhia, desgovernado, quando Língua de Ferro recuperou a sua lâmina e montou o animal, com um sorriso. O cabelo turquesa levitava às suas costas, quando controlou o diabo na direção dos outros. Pegou no cabresto com a mão esquerda, enquanto girava a espada na direita, com mestria e ligeireza. Decapitou o homem a quem decepara o braço e enfrentou outros adversários, que não tiveram argumentos face à sua fúria e brutalidade. Bloqueou um ataque e cortou uma perna pela virilha, fazendo o inimigo esvair-se em sangue. O aço brilhava com cortinas líquidas de sangue.

Degolou um inimigo e enterrou Apalasi nas costelas de um outro. No final, os inimigos não passavam de um monte de cadáveres, e os diabos que sobreviveram fugiam como loucos pelo horizonte, inclusive aquele que Língua de Ferro montara durante a escaramuça. O sorriso no rosto de Língua de Ferro apagou-se, porém, quando percebeu que vários camelos haviam sido feridos e dois mesmo teriam morrido com dentadas de diabos. Entre os Doze Vermelhos, haviam falecido três homens. Dooda chorava por eles, de joelhos entre os cadáveres.

Língua de Ferro sentiu-se tentado em levar uma mão ao ombro do seu amigo, mas deixou-o fazer o seu luto. Dirigiu-se a Empecilho, que tremia como varas verdes.

― Estás bem?

O rapaz assentiu, trémulo. Tinha um arranhão no ombro esquerdo e uma espada ensanguentada na mão.

― Acho que nunca tinha morto um homem, senhor…

― Já estavas na idade de perder a virgindade, garoto. Qualquer homem pode pegar numa espada e julgar-se um herói, mas só poderá gabar-se disso se encontrar um inimigo mais forte e tiver a sorte de o ver morrer.

Empecilho concordou com hesitação.

― O prisioneiro?

Língua de Ferro viu alguns membros do grupo a recolocarem Dom Michelle no camelo, mas antes de lhe enfiarem o saco sobre a cabeça, deixaram-no cuspir um jato de sangue. Os seus lábios ficaram escarlates como granadas. Um rasto de sangue rasgava a zona das costelas, mas os pulsos continuavam agrilhoados. Isto não é bom, pensou.

Acamparam à sombra dos contrafortes que delimitavam a Costa de Rezos até ao amanhecer. Língua de Ferro amarrou o seu camelo e deitou-se num colchão de campanha junto à fogueira acesa a pederneira e aço. Cheirava a corpos suados e a vinho azedo. Homens haviam morrido, mas ainda havia ânimo para festejos. Adormeceu ao som de uma canção obscena, embalado pelas sombras trémulas produzidas pela fogueira. Dormiu algumas horas, mas os seus sonhos estavam repletos de mortos. Sangue e morte. Desolação. E a visão dos seios de Lucilla a consumi-lo como um fogo faminto.  

            A manhã chegou e a caravana estava preparada para seguir viagem. Tinham já subido os contrafortes quando encontraram um vale desolado, onde um pequeno vilarejo parecia ter sido passado pelo fogo.

― Aqueles malditos adoradores de Khsem ― grunhiu Dooda Vvertagla.

Quando chegaram à povoação, os poucos habitantes receberam-nos com fundas, da entrada entre duas altas paliçadas de madeira, construídas de troncos de azinheiro e entrançados de madeira e cânhamo. Na maioria, os homens que defendiam o lugarejo eram crianças, velhos e coxos. Depois de perceberem que as pedras não iriam impedir o seu avanço, um velho magríssimo, com grandes varizes nas pernas e uma barba rala e hirsuta, avançou com ar empertigado. Vestia um colete velho e desgastado, de cor escura, e uns calções de material grosseiro.

― Ou os meus velhos olhos me enganam, ou estou diante dos Doze Vermelhos. Esta vila está arruinada. Não há nada que possam saquear. O que querem vocês de nós?

Língua de Ferro desceu do seu camelo e apresentou-se.

― O meu nome é Língua de Ferro. Por ora, pretendo saber o que aconteceu aqui. Chegamos por bem.

O rosto do velho endureceu por momentos, mas depois aligeirou-se e soltou uma gargalhada.

― Língua de Ferro, hein? Ouvi dizer que esse canalha tinha ido parar à Prisão. Não me parece que algum homem consiga sair da Prisão, hein!

Língua de Ferro acompanhou-o na gargalhada, com Apalasi na anca esquerda, e avançou dois passos.

― A mim também não me parece que homem algum consiga matar um deus, e, no entanto, parece que foi isso o que aconteceu.

O sorriso morreu-lhe nos lábios. O velho franziu o rosto com expressão cética e asseverou:

― Crendices! O que quer você daqui? Língua de Ferro é um saqueador. Os Vermelhos são saqueadores. Nada há aqui o que saquear. Aqueles malditos idólatras chegaram antes de vós.

― Eu sei ― ripostou Língua de Ferro. ― Leva-me ao teu líder e dir-lhe-ei ao que venho.

O líder do vilarejo era um homem gordo e moreno, com uma grande careca e uma barriga imponente. Tinha mamas descaídas para o ventre e vestia apenas uma grande tanga de caxemira. Estava sentado sobre almofadas quando o encontraram, numa das poucas casas poupadas pelo fogo incréu. Entre os seus dedos gordos, segurava uma caneca de cerveja.

― Língua de Ferro, você?

O sujeito parecia nervoso, e não parava de suar. Os olhos de Língua de Ferro prenderam-se na belíssima mulher ao seu lado. Parecia trinta anos mais nova que ele, e era pálida como marfim. O que faz uma uraniana na Costa?, perguntou-se. Tinha olhos magnéticos, de um verde selvagem, e um par de lábios suculentos. Os seus membros eram esguios e brilhantes, e envergava apenas uma túnica curta, azul, que lhe dava por cima dos joelhos.

― É sua mulher?

― O lugar de Selaba foi atacado por selvagens ― disse o homem, voltando a sorver um gole de cerveja, que lhe escorreu pelo queixo. ― Escondemo-nos no armazém sob o outeiro até que fossem embora… e você, famigerado ladrão dos desertos, entra na minha terra fustigada para me cobiçar a mulher? Vá-se foder, Língua de Ferro. Não encontra nada aqui para si.

A mulher sorriu para o salteador e encolheu os ombros, para depois se ajoelhar atrás do seu marido e o abraçar por baixo dos braços. Língua de Ferro retribuiu-lhe o sorriso com malícia. A casa onde o receberam fora outrora opulenta em tapeçarias e colgaduras, mas agora era uma austeridade: quatro paredes de pedra, um telhado de colmo e um punhado de mobílias sem qualquer vestígio de riqueza nos seus frisos e chanfraduras. Língua de Ferro fez estalar os ossos das mãos, apertando-a uma na outra.

― Talvez lhe agrade saber que matamos os bastardos que lhe fizeram isto, Rivia! Pretendo uma recompensa por isso.

O sujeito soltou uma gargalhada e engasgou-se.

― Uma recompensa? Uma recompensa? Se é verdade o que me diz, fê-lo por livre-arbítrio. Nada lhe devo, seu maldito cabrão.

Dois homens enormes ladearam o governante, mostrando estar ali para o defender. Língua de Ferro não perdeu tempo a fitá-los. Já os havia estudado mais cedo. Tinham cabelos longos e sedosos e rostos imberbes, não obstante a sua trabalhada condição física. Não lhe fariam oposição, se o seu desígnio fosse esventrar Rivia.

― Pois bem, não me deixa alternativa. Pretendo apoderar-me do seu vilarejo desolado. E da sua uraniana, também. Se quiser deixar o lugar, está à sua vontade. Se quiser ficar, não mostrarei oposição. Preciso de um posto estratégico na tarefa que irei empreender.

Rivia trocou um olhar inquieto com um dos seus súbditos e volveu o olhar para Língua de Ferro.

― E se eu recusar… as suas pretensões?

― Provará do seu próprio sangue. ― As palavras, desprovidas de humor, gelaram todos os presentes. Atrás de si, Dooda, Empecilho e meia-dúzia de Vermelhos assistiam serenos ao diálogo. Os dedos da mão de espada de Língua de Ferro acariciaram os frisos grotescos nas guardas de Apalasi.

Os súbditos de Rivia preparavam-se para investir contra Língua de Ferro, quando o homem deixou cair um braço e soltou um esgar de desagrado, resignado. Pegou na mulher por um braço e fê-la erguer-se, de joelhos fletidos, passando para a sua frente. Os membros eram maleáveis e exibiam músculos de ginasta.

― Pretende ficar com Ravella e com estas malditas ruínas… mas esta gente precisa de mim. Posso saber que tarefa é essa que pretende encetar?

Língua de Ferro viu a expressão dócil de Ravella a aligeirar-se. Por momentos, Ravella fê-lo lembrar-se de outra mulher. Lucilla, minha querida Lucilla. Sorriu-lhe com gentileza e virou o rosto lentamente para Rivia.

― Matar o Imperador e colocar a coroa de acanto na cabeça de Mario Bortoli. O meu… empregador.

Os olhos de Rivia estreitaram-se.

― Bortoli? Esse escroto?

― Isso não tem, por uma fatalidade. Mas tem dinheiro. Muito dinheiro. E tem o apoio de várias tribos rezolis. E a minha espada ao seu serviço. Conquistarei o Império para ele.

― E o que ganha com isso?

Língua de Ferro pegou no braço de Ravella e puxou-a para si. O seu corpo ficou a um palmo de distância da mulher e sentiu o peito dela a pular com a proximidade. Os seus lábios entreabriram-se, perigosamente próximos.

― Mulheres, poder e títulos. Para além de uma pequena vingançazinha pessoal.

Rivia soltou uma gargalhada, e Língua de Ferro voltou a fitá-lo.

― Se quer matar Landon X, vai precisar saber muito sobre ele. Duvido que queira pisar areias movediças.

Língua de Ferro fuzilou-o com o olhar.

― O que tem para mim…

― Poderá saber o que tenho para si, mediante ligeiras condições.

Língua de Ferro afastou Ravella com um gesto brusco e desembainhou Apalasi com elegância. Aquele aço antigo e cintilante maravilhava qualquer um. Brilhava como prata polida.

― Pensei que tivesse sido claro.

Rivia ofereceu-lhe um sorriso sardónico, com espuma de cerveja a marginar os seus lábios carnudos.

― Mate-me, e perderá as informações valiosas que tenho em meu poder.

Língua de Ferro voltou a embainhar a espada.

― Tenho outros modos de roubar-lhe informações.

― Tortura? Talvez… um homem sob tortura é sempre muito imaginativo. Porém, nem todas as suas informações são críveis.

― Não mais do que um homem nu em busca de um trunfo ― corrigiu Língua de Ferro. Ainda assim, concedeu-lhe a vitória. ― O que pretende, Rivia?

― Esta história cheira a merda por todos os lados, Língua de Ferro. Talvez seja melhor sentar-se. Em troca, dê-me Ravella e deixe-nos ficar. Se quiser a minha mulher, valeu-me sessenta peças de prata no mercado de Constania.

Língua de Ferro fez como lhe fora orientado e sentou-se no chão, de perna trocada, em frente para Rivia. Cruzou os braços, pacientemente.

― Avaliarei a sua situação depois de perceber se essas informações são, de facto, relevantes.

O homem meditou na questão por momentos, até que aceitou o proposto.

― Há duas semanas atrás, recebemos a visita de um sujeito. Dizia-se refugiado da Batalha dos Três Elefantes. Acolhemo-lo, mas depressa percebemos que ele não era quem dizia ser. Tratava-se de Regan, irmão mais novo de Landon X. Estava visivelmente cansado, e muito ferido. A gangrena consumia-lhe um braço, onde um corte terrível infetara. Morreu após dois dias. Antes de morrer, contou-me um segredo. O irmão era controlado por um terrível feiticeiro, o mesmo que se responsabilizara pela morte dos deuses. Dizia que esse feiticeiro controlava o irmão através de feijões. Feijões que o Imperador consome compulsivamente, mas que o tornam escravo desse feiticeiro. Um homem terrível, que controlou também o senado de Chrygia à sua vontade.

― Regan?! Um homem alto, de cabelo dourado? Cerca de cinquenta anos?

Rivia assentiu, com um franzido na testa. O olhar ardente do interlocutor assustava-o. Língua de Ferro engoliu em seco. O homem dissera-lhe muito mais do que podia imaginar. Ele sabia quem era Regan. Regan era o verdadeiro nome de Dzanela, o velho amigo que o traíra. Se isto é verdade, e Dzanela é irmão de Landon X, esse feiticeiro pode ser Anéis da Morte. Mas já vivi o bastante para não acreditar em feitiçarias.

O jogo estava a ficar cada vez mais aliciante.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse

Capítulo Um: A Prisão

Capítulo Dois: Os Doze Vermelhos

Capítulo Três: Hereges

 

4 anos de Blogue

É verdade, estamos todos de Parabéns!!

Sem título 3

Há quatro anos atrás, neste preciso dia, começava o blogue então chamado “Deixa-me Ler-te”, que ganhou um novo nome e fulgor há cerca de dois anos, quando lancei o meu primeiro livro e o blogue de opinião literária transformou-se também num site de autor. Nestas andanças fiz amigos, travei conhecimentos e obtive um enriquecimento imenso a nível pessoal e cultural, por isso não posso deixar de agradecer a todos os que contribuíram para que este blogue seja aquilo que é hoje. Sem o vosso feedback maravilhoso, nada disto valeria a pena.

A reedição de Espada que Sangra está nos meus planos, mas a minha vida na literatura tem atravessado um processo moroso. A saga Histórias Vermelhas de Zallar está escrita e apenas falta iniciar um processo de revisão, daqui por um ou dois meses. Agradeço os vários convites que me têm sido endereçados e tenho esperança que ouçam falar de mim em breve. Até lá, podem acompanhar a minha publicação quinzenal no Wattpad. Trata-se de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, uma aventura inspirada no personagem Conan de Robert E. Howard, num mundo steampunk onde os deuses morreram e os mares secaram.

Espero que todos os que têm percorrido comigo esta longa caminhada continuem a seguir o blogue por mais quatro e mais quatro e mais quatro, e que novos companheiros se juntem com o decorrer dos anos. Boas férias (ou trabalho, se for o caso) e divirtam-se!!

 

 

 

Mão Crua

O texto seguinte contém spoilers do livro “Mão Crua”

Com um percurso académico ligado às ciências forenses e criminais, Sílvia Gil seguiu os caminhos da arte corporal, tendo desenvolvido e disseminado pelo mundo uma série de trabalhos relacionados com design e joalharia. Mão Crua é a sua primeira incursão pelo mundo literário, onde liga o amor ao estudo criminal à sua vivência pessoal.

Mão Crua apresenta-nos Lara, uma contabilista forense que rapidamente é arrastada para uma vida dupla, seduzida por prazeres sádicos que seriam prontamente reprovados pela sociedade moralista em que vivemos, caso viessem a público. Cansada do machismo exacerbado em que sempre viveu, como um pai austero e um patrão odioso, Lara segue a sua colega de trabalho, Cristina, que a apresenta a um mundo diferente e marginal que lhe oferece a liberdade que ela sempre almejou.

De coração dividido entre Cristina, a sua musa, e Victor, um polícia musculado, Lara é arrastada para um cenário dantesco onde os papéis se confundem. A sensação de endeusamento que a dominação lhe confere transforma-a numa justiceira, quando os valores mais básicos da sua essência se mesclam com o poder que as atividades clandestinas lhe oferecem. Fazer justiça com as próprias mãos, no entanto, pode transformá-la numa assassina, e perder as pessoas que mais ama.

Sem Título

SINOPSE:

Lara é uma contabilista forense, independente e de vida regrada.
Ao aceitar um encontro às cegas com um desconhecido vê a sua vida alterar-se drasticamente ficando presa num mundo de sexo e vícios.
Após um revés na empresa na qual trabalhava e sem meios financeiros para subsistir, vê-se forçada a entrar no mundo da Dominação Profissional.
Apaixonada por um colega na Polícia fica numa posição vulnerável mas não consegue afastar-se dos prazeres proibidos.
Tudo corre bem até receber um pedido mais extremo…
…um submisso viciado em asfixia erótica quer ser deixado inconsciente… no limiar entre a vida e a morte!
Mas algo corre mal…

OPINIÃO (SEM SPOILERS):

Este livro veio-me parar às mãos pouco depois da autora, a simpática Sílvia Gil, me convidar a opiná-lo. Comecei com algumas reticências, porque o romance erótico não é propriamente o meu estilo favorito, mas avancei sem receios.

A nível de história, é um livro bem construído. Sem tempos mortos, lê-se rapidamente, com a constante vontade de saber o que vai acontecer em seguida com a protagonista. O tipo de sadismo enunciado, o modo de vida das pessoas que vivem essa “segunda vida”, está muito bem retratado pela autora. Pensei tratar-se de um livro isolado, e fiquei um pouco com o pão tirado da boca quando chego à última página e percebo que, não só o livro tem continuação, como o livro terminou no momento do clímax. Um gancho interessante para fazer-nos acompanhar o restante num próximo volume.

A nível literário, achei um pouco pobre. A autora tem potencial para escrever, mas devia trabalhar mais essa parte. Com um vocabulário mais treinado, o livro seria levado mais “a sério”. Como sabemos, a Chiado Editora não exerce qualquer trabalho de revisão, e apesar de Mão Crua não exibir erros ortográficos que embaracem a leitura, alguns pormenores incomodaram-me, nomeadamente as expressões estrangeiras não serem colocadas em itálico, os diálogos terem “etiquetas” sem travessões a separar e, principalmente, algum vocabulário mais vulgar. Este tipo de literatura erótica destina-se a um público mais feminino, e ao escrever erotismo é preciso algum tato para não cair na vulgaridade. Se os personagens podem usar palavrões e apelidos de conotação sexual, o mesmo não deve acontecer na narração, como se sucede várias vezes ao longo deste livro. Não que seja uma linguagem que choque (quem pega neste livro já terá de ter uma mente aberta), mas que retira um pouco o brilho que a boa literatura erótica oferece. E Sílvia Gil pode deixar a sua marca neste campo, se melhorar esse aspeto. A nível de ritmo e de história, não tenho defeitos a apontar e espero ler mais da autora.

Nota: 4/10

Livros Publicados (Chiado Editora):

#1 Mão Crua

 

 

 

Estou no Wattpad #2

Conforme agendado, aqui estou eu para divulgar o segundo capítulo do meu livro Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, escrito exclusivamente para o Wattpad e protegido por direitos de autor. Se ainda não leste o primeiro primeiro capítulo, e preferes ler no blogue, podes lê-lo aqui, e seguir de imediato para o segundo. Divirte-te.

 

CAPÍTULO DOIS: OS DOZE VERMELHOS

“Conheci os Doze Vermelhos meio por acaso. Não era mais que um vagabundo, a perambular por aí. Lembro-me de ouvir trovejar em Coleza, no dia em que conheci Dooda e Lucilla. Eram trinta e seis horas da manhã quando o feiticeiro saiu do convés. Pagaram-me duas cabeças de gado pela cabeça dele. Lutamos uma tarde inteira, causando não mais que ferimentos superficiais. Nenhum de nós caiu. Aprendemos a gostar um do outro, como sempre aprendemos a gostar de quem nos desafia. Eu já tinha vivido o suficiente para perceber que a amizade de um homem não valia duas cabeças de gado. Dooda era esse homem. Juntei-me a ele, e depressa percebi que os seus truques de feitiçaria eram meras ilusões de ótica. Conheci a mulher dele, e apaixonei-me por ela. Isso não destruiu a nossa amizade, embora possa dizer que, de uma forma ou de outra, os tenha perdido aos dois.”

― O Imperador não vai gostar disto! ― resmoneou um dos seguranças de Dom Michelle, colocado sob grilhetas. Dooda tinha um sabre encostado à garganta do máximo responsável pela Prisão, do lado de trás de uma secretária de ébano polido.

O gabinete ficava no andar mais elevado do complexo prisional, uma divisão com três portas, adornado com madeiras quentes e peças trabalhadas em marfim enfileiradas numa prateleira sobre a parede. Michelle era um homem de ombros largos e cabelo a rarear, com traços de quem tinha tendência para engordar. Vestia uma camisa branca com o brasão do Império bordado à lapela.

Língua de Ferro fitava-o com um sorriso divertido no rosto.

― O Imperador nem vai sonhar com o que está aqui a acontecer ― disse. Alvejou Dooda com o olhar, franzindo a testa. ― Como estão as coisas por Rezos?

― Rezos? As tribos continuam a matar-se, se é isso que procuras saber…

― E o Imperador a bater palminhas por isso ― concluiu Língua de Ferro com desagrado. ― Bortoli continua a colaborar com eles?

Dooda pareceu sobressaltado com a referência, mas assentiu.

― O mecenas tenta unir as tribos, para enfrentar o Imperador.

Língua de Ferro soltou uma gargalhada.

― Estava para dizer que é o único com os ditos no sítio para enfrentar o Imperador, mas lembro-me que lhe arranquei o escroto à dentada. Pobre Bortoli… Ainda assim, pode vir a ser-nos útil.

― O que estás a pensar? ― perguntou Dooda.

― A Prisão continua na posse de Michelle. O Imperador continua a achar-se dono e senhor do mundo. Tudo está bem para nós. Irei aparecer como herói renascido e Bortoli irá pagar-me para lhe entregar a cabeça do Imperador.

Dooda girou lentamente a cabeça. Por detrás dos seus olhos macios de corça, escondia-se um estoicismo antigo.

― Se conseguires matar o Imperador com a facilidade que auguras, mais depressa te consagrarás Imperador pelas tuas próprias mãos. O que te leva a querer um pagamento?

Língua de Ferro baixou a cabeça com um sorriso.

― Não quero ser Imperador! Colocarei Bortoli nesse lugar, sem mágoa. Não vou sujar as minhas mãos sem uma justificação. Sou um mercenário. Fiz um juramento de não matar ninguém sem receber um preço justo por isso. Troça de mim, velho amigo. Tenho os meus valores.

Dooda meneou a cabeça, sem compreender. Michelle babou-se, mas parecia uma tentativa de cuspidela.

― Você… você é louco ― tartamudeou com uma voz críptica.

― Ainda bem que reconhece! ― respondeu, e virou-se para Boca de Sapo. ― Boca de Sapo, como te chamas?

O homem trocou um olhar confuso com Empecilho e disse:

― Está a falar para mim? Raymon, senhor! Opyas Raymon…

Língua de Ferro sorriu. Boca de Sapo parecia-me um nome bem mais adequado, pensou.

― A partir de hoje, serás Dom Michelle.

Os homens à sua volta entreolharam-se, aturdidos. Língua de Ferro afastou-se por uma das portas e debruçou-se sobre a balaustrada de ferro que lhe dava uma visão primordial sobre aquela zona da Prisão. Pensamentos complexos picotavam a sua mente. Os seus olhos incidiram sobre as centenas de prisioneiros libertos que, mal o viram, começaram a gritar o seu nome.

― Língua de Ferro!

― Língua de Ferro!

― Língua de Ferro!

As pontas dos seus lábios ergueram-se com malícia.

                                                                                       ***

Os Doze Vermelhos era um grupo de piratas que se extinguiu ainda antes da morte dos deuses. Chamava-se assim porque os seus membros originais tinham como predicado exibirem-se sempre vestidos de vermelho. Foram doze, nos seus tempos lendários, quando se diz que Língua de Ferro se juntou a eles. Boatos sugerem até que foi o mítico mercenário que levou à cisão da quadrilha. Cada um dos salteadores tomou o seu rumo, a maioria fundando as suas próprias companhias de mercenários, após a Seca. O conhecimento popular falava que Brovios e Agravelli fundaram a Companhia dos Ossos, Dagias Marovarola tornou-se líder dos Maus Rapazes e Dzanela juntou-se à Trupe da Morte, fundada anos antes pelo temível Merren “Anéis da Morte” Eduarda. Mario Bortoli tornou-se contrabandista, depois tesoureiro e por fim importante mecenas na cidade mercante de Veza. Antigo inimigo de Landon X, Bortoli tornou-se um rival silencioso do Imperador. Conspirava arduamente para lhe roubar o lugar.

Sobre os restantes elementos dos Doze Vermelhos, pouco se sabia. Alguns pertenciam a tripulações de navios, dos quais muitos morreram quando os mares secaram. Língua de Ferro tinha algumas informações a mais sobre alguns dos sobreviventes. Dooda Vvertagla fora o único que se mantivera de vestes vermelhas, recrutando novos membros para o grupo original, do qual se tornou líder máximo. Os Doze Vermelhos eram hoje mais de sessenta, e escondiam-se nas dunas do deserto, para assaltar caravanas e comboios a vapor. Todos os membros o chamavam de Patriarca. Sobre a sua esposa, Lucilla, teceram-se lendas. Em todas elas morrera. Numa lengalenga, o próprio Língua de Ferro fora a mão que a esventrara. Essa ideia repudiava-o.

― Tenho algo que te pertence! ― disse-lhe Dooda de cima de um camelo, com o rosto escuro traçado de suor. Acariciou a sela do animal e levou uma espada embainhada a pele de suricata ao seu velho amigo.

Montado num camelo velho e macilento, com baba a pender-lhe do focinho, Língua de Ferro desembainhou a magnífica espada que lhe valera a alcunha. Apalasi era um exemplar antigo, que lhe fora oferecido por um xamã uraniano trinta anos antes da Seca. A lâmina cintilava ao sol como uma peça de ourivesaria. Os gumes eram ligeiramente redondos, afilando-se à medida que se aproximavam das guardas esculpidas em marfim, com a forma grotesca de demónios.

Língua de Ferro gargarejou.

― Onde é que está a piada? ― perguntou Dooda.

― Ainda não és demasiado velho para aprender a rir, Dooda. Na vida, só existem duas opções. Vencer ou morrer. Rir ou chorar. Opto sempre pela primeira. ― Fez uma pausa, endurecendo a expressão. ― Como é que a recuperaste?

― Interceptamos uma caravana do Império, há duas semanas atrás…

O olhar de Língua de Ferro aprofundou-se.

― E Hije?

― Não encontramos o teu diabo. Suponho que esteja no covil do Imperador! Lamento.

Os lábios do mercenário franziram-se, e puxou um lenço vermelho para cima do queixo.

― Espero recuperá-lo, quando arrancar a cabeça ao cobarde… ― Fez uma pausa. ― Sabes que foi Dzanela quem me traiu, não sabes?

― Dzanela? Isso significa que…

― A Trupe da Morte está a trabalhar para o Imperador ― disse Língua de Ferro.  ― Ouvi em Constania que foi o próprio Anéis da Morte quem matou os deuses… e por estranho que pareça, isso não me parece totalmente impossível. Já enfrentei Eduarda uma vez e vi a morte nos seus olhos.

― E o tipo na cela de vidro?

Língua de Ferro pareceu pensativo.

― Inquietante. Poderia dizer que é apenas um charlatão, mas é mais do que isso. Pode ser uma peça a utilizar a meu favor, mais tarde. Com Anéis da Morte é diferente. Pode parecer impossível que um homem mate um deus, mas se existe algum capaz de o fazer, esse homem seria Anéis da Morte. Depois de ver aquele homem, preso na cela de vidro, fiquei ainda mais convencido disso. Dzanela tornou-se um esbirro do líder da Trupe da Morte, e aproximou-se de mim com uma oferta. Queria que eu matasse a viúva de um sacerdote, em Constania, mas só me levou até lá para ser apanhado pelos homens do Imperador. A viúva era uma puta, e encontrei-a na cama com o próprio Imperador.

Dooda ampliou o olhar.

― Viste o Imperador?

― Não posso afirmar que era mesmo ele. Nunca vi Landon X, nem sei se Landon X é o Imperador. Tudo o que sabemos tem base em mexericos, e mexericos são tão confiáveis como serpentes. A identidade dos homens mais poderosos do nosso mundo está envolta em poeira. Capturaram-me. Acusaram-me de o tentar matar. Podia ter fugido. Matá-los a todos. Mas eu já me prevenira para aquilo. Daí ter enviado a mensagem ao nosso contacto em Constania. O plano estava montado e deixar-me prender foi apenas a primeira parte da minha estratégia.

― E posso saber qual é a estratégia?

― Já te disse. Fazer com que Bortoli me pague pela cabeça do Imperador… Estamos a quanto tempo do seu acampamento?

Dooda olhou para o sol, e ponderou alguns segundos.

― Talvez um dia de viagem, se mantivermos este ritmo.

Língua de Ferro sorriu, quando lançou o olhar sobre o deserto, e viu um rastilho de vapor a aproximar-se da linha de horizonte, seguindo o trajeto de uma linha-férrea.

― Creio que podemos abreviar esta viagem.

As nuvens de areia misturavam-se com o vapor produzido pela máquina térmica do comboio que se aproximava, quando os camelos flanquearam a carroçaria. Cavalos talvez conseguissem acompanhar a sua velocidade, tempo suficiente para abordar o comboio com outra fluidez. Um diabo seria muito mais eficaz. Língua de Ferro não tinha cavalos nem diabos. Tinha camelos, e usou um para travar a marcha do comboio, atravessando-o sobre a linha ferroviária. Era o método padrão dos desertos.

Quando a locomotiva começou a reduzir a velocidade, Língua de Ferro saltou para as traseiras e pontapeou a porta, entrando na carruagem com um ar galante. Sentiu uma pontada nas costas e todo um terror cresceu dentro de si. Estás a ficar enferrujado, Val, disse a si próprio. A piada em volta do seu epíteto nunca fora tão adequada. Muito tempo agachado sob grilhetas garantia as suas sequelas. As mãos suavam quando disse a si mesmo que não havia tempo para hesitações e desembainhou a espada. Aço murmurou contra couro e todos os passageiros sentiram o toque do horror. Mulheres abafaram gritos sob os dedos gordos dos seus maridos. Crianças começaram a chorar. Um gigante de dois metros, vestido de camisa e com um laço ao pescoço, ergueu-se com ar ofendido, e Língua de Ferro não hesitou em levar a ponta da lâmina logo abaixo do seu queixo.

― Perdoem-me o atrevimento, mas vamos fazer um pequeno desvio. Mantenham-se sentados e nada de mal vos acontecerá!

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Os dias eram contados em setenta horas, e não demoraram quarenta até que chegassem ao acampamento de Mario Bortoli. Na verdade, era um rudimentar acampamento tribal, com peles de camelo curtidas como tecido de pavilhão. Língua de Ferro caminhou a pé ao lado de Dooda, com alguns dos seus homens atrás de si.

― Uma tribo aguala! ― murmurou.

― Bortoli tem o apoio de três das sete tribos rezoli… ― disse Dooda. ― Já esteve mais longe do seu propósito.

Língua de Ferro sorriu.

― Se contratar os meus serviços, não vai precisar de nenhuma tribo.

Dooda assentiu com a cabeça, quando foram abordados por um grupo de tribais. Eram homens altos, escuros e muito ossudos, visivelmente subnutridos. Vestiam tangas de tecidos grosseiros, possivelmente pele de algum animal dos desertos, e andavam armados com longas azagaias e lanças de madeira. O líder dos Doze Vermelhos trocou algumas palavras com os tribais, no dialeto rezoli, e foram encaminhados até a um dos pavilhões mais exuberantes do acampamento. Uma longa haste de madeira com a caveira de um búfalo e adornada com penas de abutre denunciava a importância do recinto. Quando alçaram a aba da tenda, a luz do sol inundou o seu interior, denunciando uma mesa de xadrez onde dois homens estavam sentados, a comer uma galinha.

Um dos homens era um velho negro e ossudo, com marcas de tinta no rosto. Muito possivelmente, o líder da tribo. O outro era um sujeito obeso, cujo traseiro enorme afundava-se num par de almofadas carmesim. Tinha compridas melenas grisalhas caídas para a testa, e um duplo queixo marginado por bochechas desmaiadas. Vestia um colete de couro pintado de vermelho, demasiado pequeno para o seu tamanho, deixando a descoberto um peito peludo com vários colares de cobre e bronze com contas de vários tamanhos e feitios. Estava descalço e tinha calças de bom couro. Os seus olhos de rato perderam a arrogância quando virou o rosto para a abertura e reconheceu Língua de Ferro. Gordura de galinha escorreu pela sua boca e queixo.

― Leidviges? Dooda? O que?…

Língua de Ferro trazia vestido o manto vermelho dos Doze, mas trazia também um revólver na anca esquerda e a sua espada Apalasi na direita. Removeu a bainha da espada da cintura e colocou-a aos seus pés.

― O meu nome é Língua de Ferro para todos os que me temem ou servem. O meu nome é Valentina para os meus inimigos, Val para os amigos. Se me tratas por Leidviges, calculo que ainda preserves a admiração paternal de outrora.

O homem tartamudeou, trocando um olhar com o tribal, e voltando a fitar os seus antigos companheiros.

― Depois de tudo?…

Língua de Ferro sabia ao que ele se estava a referir. Sim, meu menino. Depois de tudo. Soltou um assobio e cruzou o caminho que o distava da mesa. Com o olhar, distinguiu uma gamela com uvas e tâmaras. Levou uma mão ao recipiente e beliscou uma uva, conduzindo-a à boca e mastigando a fruta com ar fiscalizador. Quando retirou o caroço da boca, fitou Bortoli com uma expressão jovial.

― Sempre ouvi dizer que os eunucos tinham uma certa tendência para engordar. Não é que é verdade? Aparte disso, meu bom Bortoli, também pareces alimentar-te melhor do que nunca. Esquece as nossas diferenças e contrata os meus serviços.

Bagos de suor desceram da testa pálida de Mario Bortoli.

― Os teus serviços? Queres trabalhar para mim? Tu?

― Não questiones as minhas motivações. Acabei de fugir da Prisão e sou a tua melhor hipótese para derrotar Landon X. Sabes disso. Paga-me o devido valor e farei de ti Imperador. Colocarei Apalasi ao teu serviço.

O mecenas pareceu subitamente aterrado, mas o terror transformou-se numa enorme gargalhada. Esmurrou o próprio peito e estremeceu. Como ninguém partilhou o seu sentido de humor, a gargalhada esmoreceu e o seu rosto ficou tenso.

― Como planeias fazer isso, rapaz?

Língua de Ferro fez sinal com a cabeça a Dooda e este chamou alguém à entrada da tenda. Chegaram dois membros do seu grupo, com o jovem prisioneiro que Língua de Ferro chamara Empecilho e ainda com um outro sujeito, de punhos agrilhoados e cabeça tapada com um saco de couro. Língua de Ferro destapou a cabeça do prisioneiro, revelando o rosto exasperado de Dom Michelle.

― Este amigo vai-nos fazer entrar no Palácio. Depois, é comigo e com Apalasi. Sabes bem do que somos capazes. Trago-te a cabeça do Imperador, tens o meu juramento. Em troca, quero o controlo de um dos Poços do Império.

 Algo em Língua de Ferro pressentiu que Bortoli tivera uma súbita comichão no lugar onde lhe arrancara os genitais. Mas foi só um pressentimento. Bortoli conhecia Leidviges “Língua de Ferro” Valentina como poucos. E ouvira as histórias das suas façanhas. Língua de Ferro era o homem certo para a tarefa adequada. O antigo traficante de escravos conhecido como Landon X iria morrer no seu próprio palácio e Mario Bortoli seria o próximo Imperador.

Pelo menos, é o que ele julga, pensou Língua de Ferro com um sorriso. Ninguém sonha, com o que está para vir.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse

Capítulo Um: A Prisão

Capítulo Dois: Os Doze Vermelhos

Call To Arms, The Walking Dead #26

Civilização é um mito. Essa é a verdade que esse mundo nos ensinou. Nós não evoluímos além dos nossos instintos mais básicos… Isso foi o que sempre nos incentivou, e sempre irá incentivar.

O TEXTO SEGUINTE CONTÉM SPOILERS DO LIVRO “CALL TO ARMS”, VIGÉSIMO SEXTO VOLUME DE THE WALKING DEAD (FORMATO BD)

A série em quadradinhos The Walking Dead chega ao volume vinte e seis, que compreende os números 151 ao 156. É a mais recente edição escrita por Robert Kirkman, com arte de Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano.

Em Alexandria, Rick prepara um exército. Com a ajuda de Dwight e dos Salvadores, ele treina a população para o treino de armas, seguindo os conselhos de Negan, certo que uma vingança orquestrada é a única forma de controlar a fúria dos alexandrinos face à matança perpetrada pelos Sussurradores, e é também o único meio de se manter na liderança. Eugene repara o rádio quando estabelece contacto com outra pessoa ou comunidade, que guarda reservas em revelar identidade. Enquanto Maggie se prepara para regressar a Hilltop, Rick propõe Michonne para liderar o Reino, que ficara sem líder após a morte de Ezekiel. Entretanto, Brandon, filho de um dos homens que tentara conspirar contra Rick, revolta-se por este lhe ter morto o progenitor. O adolescente luta com Rick e sofre uma lição; como vingança, liberta Negan da prisão, e ambos saem de Alexandria, disfarçados no grupo de Maggie.

Rick descobre o ocorrido demasiado tarde, quando Negan e Brandon se afastam da comitiva que viajava para Hilltop e se escondem na floresta. Assim que Brandon leva o vilão ao domínio dos Sussurradores, Negan mata o adolescente, prosseguindo viagem sozinho. Michonne e Aaron iniciam uma busca, desconfiando que Negan planeia juntar-se aos Sussurradores. Encontram o cadáver de Brandon junto às estacas que dividem os territórios e rapidamente são cercados por inimigos, que os teriam morto não fosse a aparição de Dwight e o seu grupo. Negan é recebido no seio dos Sussurradores, e em pouco tempo conquista a confiança de Alpha. Depois de tentar salvar uma jovem do grupo de ser violada, Negan desarma a carapaça emocional da líder dos selvagens, com votos de amizade, para logo depois a degolar e arrancar-lhe a cabeça.

Sem Título

SINOPSE:

After being betrayed by members of his own community, Rick Grimes charts a new course and marshals his forces against the Whisperers.

OPINIÃO:

Surpreendente. Com uma simplicidade genial, Robert Kirkman leva-nos ao imprevisível, conduzindo-nos do terror absoluto ao humor delicioso com um episódio cheio de tensão, permeado por alguns momentos mais mornos que apenas tornam esta construção crível e harmoniosa. Call to Arms não está entre os melhores volumes, mas é talvez dos melhores neste novo arco de história.

Chegamos ao último volume já publicado de The Walking Dead, com momentos mais agitados do que outros, mas sem perder a capacidade de nos surpreender. A cena final foi seguramente inesperada, e o sentido de humor do vilão mais “amado” da novela gráfica é um espetáculo à parte. Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano continuam o seu competente trabalho de ilustração. Provavelmente, só sairá um próximo volume daqui por alguns meses, mas depois de ler este volume e ter visto o trailer da sétima temporada da série de tv, que saiu esta semana, só ficou a vontade de saber mais deste universo pós-apocalíptico.

Nota: 7/10

Livros Publicados:

#1 Dias Passados |  #2 Um Longo Caminho | #3 Segurança na Prisão | #4 O Desejo do Coração | #5 A Melhor Defesa | #6 Esta Triste Vida | #7 A Calma Antes | #8Feitos para Sofrer | #9 Aqui Permanecemos | #10 Aquilo Em Que Nos Tornamos| #11 Temam os Caçadores | #12 Viver entre Eles | #13 Too Far Gone | #14 No Way Out | #15 We Find Ourselves | #16 A Larger World | #17 Something To Fear | #18What Comes After | #19 March To War | #20 All Out War Part 1 | #21 All Out War Part 2 | #22 A New Beginning | #23 Whispers Into Screams | #24  Life and Death| #25 No Turning Back | #26 Call To Arms

A Vingança do Assassino, A Saga do Assassino #4

Agora compreendo por que temos de os matar a todos, disse ele calmamente. Se não matarmos, nunca nos deixarão em paz. Temos de os perseguir até ao covil onde se escondem e matá-los a todos.

Era o único conforto que ele podia oferecer-me.

O texto seguinte contém spoilers do livro “A Vingança do Assassino”, quarto volume da série A Saga do Assassino

Robin Hobb, pseudónimo da autora Margaret Ogden, escreveu várias sagas literárias narrando a vida de FitzCavalaria, estando publicadas em português somente as duas primeiras trilogias, cada uma dividida em cinco volumes. Publicado pela Saída de Emergência em 2010, A Vingança do Assassino é a primeira metade do terceiro volume da primeira trilogia, intitulado Assassin’s Quest, originalmente publicado em 1997.

Neste volume, assistimos aos eventos que se sucederam à suposta morte de Fitz às mãos de Majestoso, depois deste usurpar o trono dos Seis Ducados ao próprio pai. Com a morte do Rei Sagaz e o desaparecimento de Veracidade, Majestoso viu o caminho aberto para o trono, sacudindo culpas e semeando intrigas e boatos. O dom da Manha exibido por Fitz foi narrado como uma habilidade mostruosa, em que o filho bastardo de Cavalaria adquirira traços de um lobo horrível, enquanto Kettricken, a esposa de Veracidade, era considerada uma feiticeira selvagem e Breu, o mentor de Fitz e irmão de Sagaz, uma personificação do mitológico e aterrador Homem Pustulento.

Fitz foi espancado até à morte, mas mesmo em cadáver obteve os cuidados de Paciência, que lhe tratou das feridas antes de ser conduzido à sepultura. Após o enterro, Breu e Castro procederam a um ritual que devolveu Fitz à vida, com recurso à magia da Manha. Como consequência, Fitz regressou com comportamentos animalescos, por conta da sua ligação ao lobo Olhos-de-Noite. Pouco a pouco, Castro recuperou o homem que existia nas profundezas de Fitz, e fê-lo recordar-se de tudo o que lhe acontecera. Recuperado, Fitz apenas tinha uma ideia em mente: vingar-se de Majestoso. Separado de Castro e Breu, seguiu o seu próprio caminho, mas quando a cabana onde se escondia foi atacada por Forjados, viu-se obrigado a fugir. Mais tarde, descobriu que Castro regressara à cabana e, ao encontrar um forjado com o seu tamanho e roupas, e com o alfinete que lhe pertencera, pensou que Fitz tinha, desta feita, morrido de vez. Através da magia do Talento, Fitz descobriu também que Moli era a amiga que Castro disse proteger, e que ela teve uma filha, fruto do amor que os uniu.

A demanda até Vaudefeira, onde Majestoso se escondia, reservou imensos percalços, levou-o a cruzar-se com Forjados, com uma família de músicos e com Rolfe Preto, um manhoso que o informou melhor sobre a magia da Manha. Contando apenas com a ajuda do seu lobo, Olhos-de-Noite, Fitz chegou finalmente ao Palácio de Majestoso, mas falhou na tentativa de o matar e ainda desvendou a sua identidade, o que apenas fez aumentar os boatos sobre a sua monstruosidade. Veracidade entrou em contacto com Fitz através da magia do Talento, revelando estar vivo algures para lá das Montanhas, e chamou-o para si. A ligação mostrou-se mais forte que a sede de vingança por Majestoso ou o amor por Moli. Novos empregos, peripécias e a amizade com uma menestrel chamada Esporana levaram-no a cruzar o caminho que o conduzia às Montanhas, fazendo-o cruzar-se com Dardo, um antigo inimigo, Nico, um contrabandista, e Emaranhado, um dos mágicos do Talento às ordens de Majestoso. Com a ajuda de Esporana, Olhos-de-Noite e uma velha chamada Panela, Fitz enfrentou o ódio do seu maior inimigo.

Sem título 2

SINOPSE:

FitzCavalaria renasce dos mortos graças à magia desprezada da Manha, mas a sua fuga das garras da morte deixou-o mais selvagem do que humano. Os seus velhos amigos têm que ensiná-lo a ser um homem de novo, e depois deixá-lo escolher o seu próprio destino. Incapaz de esquecer a tortura a que foi submetido às mãos do príncipe usurpador, Fitz planeia vingança enquanto recupera a sua alma e sanidade. Até ao momento em que o seu verdadeiro rei o chama para o servir numa missão misteriosa com consequências inimagináveis.Numa terra arruinada pela ganância e crueldade onde Fitz se tornou uma lenda temida, ele fará tudo para restaurar a verdadeira regência nos Seis Ducados. Mas primeiro terá que escapar dos seus inimigos que lhe movem uma perseguição sem quartel… Não perca mais um excecional volume da Saga do Assassino recheado de emoção, magia pura e personagens memoráveis.

OPINIÃO (SEM SPOILERS):

Ainda não foi desta que Robin Hobb me conquistou. A ação lenta e repetitiva levou-me a ler este livro de 400 e poucas páginas durante mais de um mês. As peripécias pareciam reproduções umas das outras. Personagens apareciam apenas para encher páginas sem nada de prazeroso ou entusiasmante nas suas cenas, sem nada a adiantar à trama. As descrições eram demoradas e sem relevo. As cenas de ação sucediam-se, mas pareciam padrões de azulejos, uns iguais aos outros. A mais aguardada aconteceu rapidamente, sem nenhum confronto especial, sem o embate que se esperava ou qualquer acontecimento que surpreendesse. Soou forçada a forma como o objetivo de Fitz tornou-se seguir um personagem, de um momento para o outro, por meio de um chamamento mágico. Ficou evidente que a autora chegara ao clímax do livro muito antes do esperado, e que optou por esse meio menos natural para chegar onde queria. Este livro podia ter sido cortado pela metade, sem perder um pingo de qualidade. Desconcerta-me pensar que se trata apenas da primeira metade de um livro, no seu original. A nível de construção de personagens, continuo sem nutrir qualquer empatia pelo lobo de Fitz, Olhos-de-Noite, que me parece só uma criatura ciumenta e nada mais. A relação entre ele e o personagem principal, no entanto, foi muito bem desenvolvida.

Como fui afirmando ao longo da saga, nem tudo é mau. Neste volume desagradaram-me mormente as repetições de cenas, empregos, disfarces, seduções e dilemas, mas posso considerar a descrição de Robin Hobb genial. Para além da ótima escrita (ainda que pouco entusiasmante), a autora faz-nos acreditar naquele mundo. Tudo ali é credível, apesar da magia estar muito presente ao longo da história. Os personagens são bem descritos e ricos (embora alguns tenham ficado pelo caminho e espero que não tenham sido meros figurantes). Esta é a primeira metade de um último livro de trilogia, mas parece antes o primeiro livro de uma nova aventura, pois tudo foi mais explorado e diferente dos primeiros livros da saga. Confio que a segunda metade (o quinto volume) seja mais fluída e entusiasmante.

Pela qualidade de escrita e de credibilidade apresentadas, custa-me dar uma pontuação tão baixa, mas foi um livro extremamente chato de ler.

Nota: 6/10

Livros Publicados (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Soberano

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

 

 

Estou no Wattpad #1

Como os meus seguidores e amigos de facebook já descobriram, estou a escrever uma história de fantasia para o Wattpad. Chama-se Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, e trata-se de um livro passado no planeta Semboula. Irei partilhar todos os capítulos convosco, em simultâneo na plataforma Wattpad e também aqui no blogue. Abaixo fica a sinopse e o primeiro capítulo. Espero que gostem.🙂

SINOPSE:

Leidviges “Língua de Ferro” Valentina é um dos muitos salteadores do deserto rezoli, onde em tempos ficara o Mar de Rezos. Montado no seu diabo de estimação, tornou-se lendário nos trajetos entre cidades mercantes, assolando caravanas de camelos e comboios a vapor. Contratado para assaltar a viúva de um sacerdote na cidade de Constania, não podia suspeitar que estava a ser alvo de uma armadilha que o iria conduzir à terrível Prisão, para onde o Imperador envia todos os que o tentam enfrentar. Seguindo uma teia de segredos e conspirações relacionados com o homem que dirige os destinos do mundo, ele encontrará a verdade no terror de um velho amigo e nas profecias de uma prostituta. Nada é o que parece neste fim-de-mundo, onde uma grande batalha pode estar prestes a ser travada. Uma aventura de Língua de Ferro: “Um Sacana Qualquer”.

CAPÍTULO UM: A PRISÃO

“Os deuses de Semboula eram uns filhos da mãe, todos o sabiam… mas quando um sacana qualquer resolveu matá-los, as coisas não ficaram mais famosas. Foi nesses dias negros que me tornei salteador, ladrão, mercenário, pirata do deserto. Mares tornaram-se desertos, rios tornaram-se vales, pragas de gafanhotos assolaram culturas agrícolas, a pecuária e a pastorícia definharam… e um contrabandista tornou-se Imperador. Salários começaram a ser pagos a água, oriunda dos Poços do Império, duas megalíticas construções que albergam toda a água que restou do mundo. Ninguém sabe ao certo quem matou os deuses, se foi homem ou diabo, mas esse traficante de escravos conhecido entre os cãezinhos do submundo como Landon X apoderou-se dos Poços e vozinhas repugnantes começaram a chamá-lo Imperador. Aposto o meu polegar da sorte em como um dia irão pagar-me pela sua cabeça. Fico louco de pensar na recompensa. Rezo ardentemente por esse dia. A que deus, não sei explicar”

 

Julgavam que ele estava a dormir.

Enganaram-se.

Língua de Ferro não dormia quando as luzes estavam acesas. Geralmente, era quando os homens morriam.

Com as pálpebras semicerradas, distinguia as grades de sombras projetadas sobre o piso de cimento. Os ouvidos captavam os ruídos abafados, o som de pedra a raspar em pedra e unhas a raspar em metal, o chinfrim metálico das chaves a abrir trincos e os gritos terríveis que terminavam em estertores de agonia e em silêncio. Língua de Ferro sabia que a sua vez chegaria. Não estava ali por acaso. Diziam que tentara matar o Imperador.

Brincadeirinha.

A cela escura estava cheia de odores. Urina, excrementos, ratos e coisas piores. Tinha a cabeça coberta de vermes, que contorciam-se e passeavam-se pelo couro cabeludo, entrando por entre as longas melenas do seu cabelo azul-turquesa. Os braços, encordoados de músculos, estavam cobertos de feridas abertas e pústulas, onde insetos repugnantes e inomináveis provaram do seu sangue.

Língua de Ferro envergava um par de bragas de couro. Pesadas grilhetas cingiam-lhe os pulsos e os tornozelos, e uma coleira em malha de aço, flexível, estava apertada em volta do seu pescoço. Tinha as pernas inchadas, grossas como raízes de sequóia. Os músculos latejavam. Tinha sede. De água e de sangue. No mundo em que vivia, o sangue era bem mais acessível que a água.

Haviam-se passado dez anos desde que os mares secaram. Há um ano, Língua de Ferro era o terror dos desertos. Salteador de caravanas e de comboios a vapor, montava Hije, o seu diabo de estimação, e manejava com fluidez a espada que lhe valera o apelido. Língua de Ferro era um notável no mundo assolado pelo saque, onde piratas dos desertos tornaram-se governadores. Arrogantezinhos que se mijam nas calças de cada vez que ouvem o meu nome, disse a si próprio.

Seis meses atrás, fora contactado por um velho amigo para assaltar a viúva de um sacerdote. O prémio era pago a água – de resto, era a recompensa que ele mais almejava, mais que peças de prata ou de ouro. No fim, tudo não passou de uma armadilha para o capturar. Uma armadilha tecida pelo próprio Imperador. Se quisesse, conseguiria escapar e dar-lhe uma morte rápida. Mas Língua de Ferro era mais ambicioso – queria ser pago para matá-lo. Há anos que esperava por essa proposta. Odiava o Imperador. Odiava-o com todas as suas forças. Não que o conhecesse pessoalmente, mas ouvira falar dele. Odiava-o por nenhuma razão em particular. Odiava-o porque sim, e iria matá-lo por isso.

Língua de Ferro era uma lenda dos desertos. O Imperador não era ninguém. Landon X era apenas um nome. Poucos eram os que o conheciam, e os boatos segredavam a sua fragilidade e cobardia. Se o Imperador esmagasse a lenda dos desertos, essas questões desapareceriam. Acho que foi assim que tudo começou.

A luz acendeu-se junto às grades da cela, fazendo-o erguer o olhar. Demorou alguns instantes a adaptá-lo ao clarão amarelo, mas conseguiu discernir a silhueta esguia de Fortune. Fortune, um escrotozinho com mania que é mau. O pior de tudo é que era mesmo. Um shanui, como chamavam aos torturadores. Era magro e fraco de ombros, mas compensava a ténue compleição física com uma velocidade surpreendente. Tinha longas tranças negras caídas ao nível do ventre e parecia estar sempre a sorrir, uma expressão escarninha que servia unicamente para desdenhar dos homens e do mundo. Envergava o uniforme da Prisão, uma camisa de zibelinas com uma estampa de couro ao peito, na qual ostentava o brasão do Império. Eram duas torres em tudo idênticas, que simbolizavam os Poços, reservatórios nos quais fora armazenada toda a água que restara no mundo. As calças de couro negro ficavam-lhe justas sobre o corpo, o que só o fazia mais delgado. Sapatos polidos, de fina pele de suricata, completavam o seu uniforme.

― Perdoem-me a intrusão. A estadia está do vosso agrado? ― A sua voz era tão teatral quanto o olhar, injetado de sangue. Fortune tinha um queixo trémulo, mas sabia ser provocador.

Sentado num canto, Língua de Ferro deslizou o olhar para os companheiros de cela. Nunca lhes falara, nem sabia os seus nomes. Isso não o impediu de lhes dar alcunhas. Boca de Sapo estava deitado no cimento, com o peito peludo cheio de feridas e hirsutas cerdas de barba castanha manchadas de baba. Conseguia ver o seu olhar apavorado perante a chegada de Fortune. Empecilho não parecia mais alegre. Era um rapaz de quinze anos, com uma expressão assustada e cabelos negros como a noite rezoli, caídos sobre os ombros morenos. Na mão direita, faltavam-lhe as pontas dos dedos. Não que lhe fossem fazer falta. Qualquer um dos três prisioneiros sabia o que acontecia quando Fortune trazia a luz.

O torturador incidiu o olhar no prisioneiro sentado no canto mais sombrio da cela.

― Valentina, queres ser o primeiro?

Língua de Ferro soltou um rosnido, de lábios franzidos, e baixou o olhar.

― Não sou a puta que procuras, shanui

d

O sorriso jocoso de Fortune abriu-se numa risada. Colocou a chave na fechadura e o metal gemeu. Quando entrou na cela, a luz obrigou os prisioneiros a fechar os olhos. Caminhou na direção do seu alvo.

― Leidviges Valentina, mais conhecido no deserto rezoli como Língua de Ferro. Cresceu na Sélia, filho de um relojoeiro e de uma tecelã. Órfão aos doze anos, tornou-se aprendiz na forja de Chacar, que era também um contrabandista. Pertenceu aos Doze Vermelhos, uma irmandade de piratas, e tornou-se uma lenda dos desertos, depois da Seca. Capturado por tentativa de assassinar o Imperador. Negas ser este homem?

Língua de Ferro não pôde deixar de sorrir. Divertia-o assumir que as alegações dos que o capturaram não tinham qualquer respaldo na verdade dos factos.

― Sim, nego-o!

Tão rápida quanto a sua resposta, foi a pronta ação do torturador. Fortune desferiu-lhe um violento pontapé no rosto, que fez saltar um dente e uma rajada de sangue da sua boca. O rosto projetado de Língua de Ferro contorceu-se de dor. Sentiu a boca arruinada, viscosa e quente. A sede era tanta que aproveitou para engolir o próprio sangue.

Fortune fitou-o com uma expressão zombeteira. Fez sinal aos guardas que aguardavam no exterior e eles entraram na cela, um a um. Enormes e musculados, eram bisontes no corpo de homens. Envergavam coletes de zibelina, mas os amplos músculos mamários e as grelhas abdominais entreviam-se por entre as suas abas. As calças eram grosseiras, couro de camelo com cordas de cânhamo atadas aos tornozelos.

Língua de Ferro julgou que o iriam espancar até à morte, mas o que fizeram foi libertá-lo das grilhetas que o prendiam à parede e colocá-lo noutras, unidas por grossas correntes de ferro, que o conduziriam para fora da cela. Fizeram o mesmo a Boca de Sapo e Empecilho, e pastorearam-nos como ovelhas para o exterior. As correntes eram tão curtas que eles mal se conseguiam manter em pé. Os seus passos trôpegos eram dignos de uma trupe de palhaços.

O salteador fitou, sem admiração, a imponência do bloco prisional. Mais de duzentos metros de altura, setenta de comprimento e dez andares de celas, com uma nave de sessenta metros de largura ao centro. As grades pareciam enferrujadas, e muitas eram as vozes, lamentos e súplicas, que emergiam de entre elas. A cela de Língua de Ferro era num quinto andar, e Fortune fê-los seguir por um lance de degraus na extremidade mais a oriente do seu piso. Aquele solo cinzento e frio já fora pisado pelos maiores criminosos de toda a Semboula oriental.

― Para onde ias, quando foste preso? ― sussurrou ao ouvido de Boca de Sapo. O sujeito franziu o rosto e demorou algum tempo a responder, mais preocupado com os violentos empurrões de que era alvo.

― Veza. Ouvi dizer que fabricam por lá bons couros ― cuspiu. ― Uma oportunidade de água…

O olhar de Língua de Ferro parecia sonhador. Por momentos, era tudo menos um perjuro, a caminhar para o cadafalso. A fermentação de uma revolta fazia estremecer o seu âmago.

― A cidade dos ladrões ― murmurou para si mesmo. Um bom destino, em caso de fuga.

Estava habituado aos desertos, ao Sol a queimar, à privação da água e aos combates corpo a corpo. Mas A Prisão… era o Inferno que todos os homens temiam. Os relatos de torturas, os cadáveres despejados nas imediações do complexo a cada manhã, a fama de tártaro inexpugnável, tudo alimentava o medo e o respeito pelo Imperador. De certa forma, fora um ato suicida atirar-se para aquele ninho de podridão. Mas Língua de Ferro costumava jogar na linha de risco, no fio da navalha entre a vida e a morte, e internar-se na Prisão era a única forma de consumar a sua vingança.

Demoraram vinte minutos a atravessar a ala este. Havia ali uma cela incomum, que se destacava pela exuberância. Na nave central erguia-se uma torre de betão que terminava num cubo de vidro. Um homem nu, pálido como um uraniano, estava em pé no seu interior, com as mãos colocadas sobre o vidro que o separava do mundo. Não tinha qualquer pelo em todo o corpo, mas teria mais de trinta anos. Os lábios eram uma linha branca e amarga. Parecia acompanhá-los com o olhar, embora os olhos fossem cegos, brancos como leite.

Língua de Ferro esforçou-se por não o fitar.

― Para onde nos levam?

Fortune sorriu e estugou o passo. Caminhava com elegância, ao contrário dos enormes guardas que o seguiam. Havia outros de plantão, vigiando a cela de vidro e os blocos de celas à sua volta.

― Digamos que… Dom Michelle quer tratar de vocês pessoalmente.

Dom Michelle era o responsável pela Prisão, antigo guarda doméstico no Palácio Imperial, que ganhara títulos atrás de títulos após a ascensão do novo Imperador. Sabia do que Fortune estava a falar. Michelle iria extrair-lhe informações, torturá-lo pessoalmente, quebrando-lhe dedo a dedo e dente a dente até o matar. Conseguia sentir o cheiro das suas próprias entranhas, o matraquear dos instrumentos de tortura, e agarrou-se aos lamentos dos reclusos à sua volta, medindo as probabilidades de eles serem as últimas palavras que ouviria numa ligeira posição de vantagem. A sua vida era medida por isso. Vantagem e desvantagem. Tudo era uma questão de probabilidades.

Foi então que o impensável aconteceu. Facas escuras surgiram das sombras para degolar os monólitos de carne que guardavam as celas, e uma mancha de vestes carmesim surgiu, proveniente de várias portas e andares, para cercar o pequeno grupo que caminhava para a morte. Afinal eles vieram, pensou Língua de Ferro, com uma gargalhada febril. Eles vieram mesmo. A vantagem que há muito aguardava.

Quadrelos de besta atravessaram a pele da barriga dos guardas e sangue e vísceras entornaram-se para o solo, com corpos nauseados a cair como bonecos. Fortune pegou no cabelo do jovem Empecilho e encostou uma faca à sua jugular. Língua de Ferro sabia que tinha vencido, desde que Fortune perdera o sorriso e uma linha de suor descera-lhe da testa. O shanui olhava para um lado e para o outro, cercado por homens armados de facas e de bestas, trajados com longas vestes vermelhas, lenços sobre as bocas e turbantes da mesma cor. Com um grito animalesco, Língua de Ferro abriu os braços e as pernas. As correntes que os uniam explodiram em mil estilhaços, espalhando-se pelo chão como pedras preciosas.

O imenso salteador investiu para o torturador, pegando-lhe no pescoço e afastando-o de Empecilho antes que a faca lambesse a pele ao rapaz. Fortune era veloz, mas não podia adivinhar aquilo. A brutalidade de Língua de Ferro era lendária. Com um só movimento, partiu-lhe o pescoço. Tudo ficou demasiado silencioso nos momentos que se seguiram. Até os lamentos e grunhidos provenientes das celas pareceram desaparecer. Um dos guerreiros de vermelho baixou o lenço, revelando um rosto moreno, forrado de barba.

― Pensei que estavas enferrujado, Val!

Língua de Ferro apertou os ossos das suas próprias mãos, fazendo-os estalar.

― Há piadas que nunca ficam velhas, Dooda. Não posso dizer o mesmo de vocês, pela demora.

― Não tens de quê, velho amigo! Agradece-me quando estivermos de perna esticada, com um charuto nos lábios e um copo de brande na mão.

Língua de Ferro assentiu com um sorriso caloroso. Boca de Sapo e Empecilho fitaram-nos, assombrados. O homem na cela de vidro permaneceu inexpressivo. Tinha as mãos colocadas sobre o vidro, a procurar avaliar o que se estava ali a passar. Então, a falta de expressão transformou-se num sorriso.

― É Valentina, não é? ― perguntou, com uma voz de barítono. ― O lendário Língua de Ferro. Ouvi dizer que estava cá. Tentou matar o Imperador.

Língua de Ferro soltou uma gargalhada. Os longos cabelos turquesa espalharam-se pelo rosto suado.

― Não, não tentei. Foi um ardil! ― asseverou. ― Quando eu tentar matar o Imperador, o Imperador morrerá.

O sujeito soltou um risinho abafado.

― Sabe quem eu sou, Leidviges Valentina?

Língua de Ferro sorriu, cheio de malícia.

― Um homem. Pouco mais que um rapaz. Nu. Cego. Preso numa cela de vidro.

― Preso numa cela de vidro, porque assassinei seres superiores. Se quer matar o Imperador, vai precisar de mim.

Língua de Ferro cofiou o queixo, pensativo.

― Devo então calcular que é o enigmático Assassino dos Deuses? Tão poderoso que se deixou ser aprisionado por um mero mortal?

Os lábios do homem franziram-se ligeiramente.

― Não subestime o Imperador, nem os seus métodos… Precisará de mim para matar aquele bastardo.

O sorriso nos lábios do homem cego morreu. Ele tem razão, pensou Língua de Ferro. Vou precisar dele. Mesmo que não passe de um reles charlatão.

― Não suplique mais! Podia ficar o resto da noite a ouvir as preces de um anátema, mas sou um homem pragmático. Deixei-me aprisionar para chegar aqui. Talvez arranje utilidade para si. Talvez…

O sobrolho do prisioneiro arqueou-se.

― Pois bem, então aqui me tem. Tire-me desta cela e não se irá arrepender.

Língua de Ferro soltou uma gargalhada.

― Nunca pensei que fosse…

― Cego?! ― alvitrou. ― Lutar com deuses tem as suas consequências.

― Não ― disse Língua de Ferro com serenidade. ― Nunca pensei que fosse tão novo, nem tão ingénuo. Você vai ficar aí, onde está.

A maçã-de-adão do homem moveu-se, mas nada disse. Língua de Ferro voltou-se para os aturdidos Boca de Sapo e Empecilho, e depois para os homens de vermelho, dos quais só conseguia distinguir os olhos brilhantes. Estes baixaram os lenços e começaram a gritar o nome por que todos o conheciam:

― Língua de Ferro!

― Língua de Ferro!

― Língua de Ferro!

Começaram a ouvir-se rumores vindos das celas. A sua alcunha começava a ser cantada por vozes embargadas e sussurrantes. Com uma expressão divertida, Língua de Ferro volveu o olhar para a cela de vidro.

― Vou ocupar o que resta desta Prisão e fazer destes homens, o meu exército. De hoje em diante, este vai ser o meu quartel-general.

O prisioneiro suspirou fundo, resignado. A sua expressão não mostrava surpresa, apenas desilusão; era como se já o aguardasse, embora tivesse uma ligeira esperança que as suas palavras repercutissem efeito. Foi isso que inquietou Língua de Ferro. Foi isso que o impediu de matá-lo.

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TAG – A Seleção

Viva! Chegamos ao novo semestre e antes de sair a primeira review, nada melhor do que responder a mais uma TAG. Aqui vai:

#1 Qual o livro que mais queres ler?

Sem Título

Tenho muita vontade de ler Lâmina de Joe Abercrombie este ano, mas só depois de terminar algumas séries que estão pendentes.

#2 O melhor livro que leste nos últimos anos

Sem título

Esta nem se questiona. O primeiro volume de Cavalheiros Bastardos de Scott Lynch foi uma surpresa enorme, e os volumes seguintes não me desiludiram.

#3 O livro que mais te desiludiu

Sem título

Podia falar de Pedro Chagas Freitas, mas se fosse por aí tinha muito que falar. Zafón foi um autor que ouvi falar muito bem, de tal modo que fiquei extremamente desiludido quando peguei em O Palácio da Meia-Noite e encontrei uma escrita extremamente juvenil, assim como uma história completamente banal e fantasiosa.

#4 Qual é o teu personagem preferido

Sem Título

Alguns personagens ficam gravados na nossa memória e, por nenhuma razão em especial, lembro-me de Gimli de O Senhor dos Anéis quando me perguntam qual o personagem preferido. Esse personagem marcou uma fase da minha adolescência. Ainda assim, personagens como a incrível Miss Marple dos livros de Agatha Christie, Leigh Teabing de O Código DaVinci, Locke Lamora de Cavalheiros Bastardos e Jean Valjean de Os Miseráveis merecem a minha menção de honra.

#5 Qual a história mais marcante?

Feast

Poderia enumerar uma série de histórias. Os Pilares da Terra, Ivanhoe, Os Miseráveis, O Senhor dos Anéis. Cada história teve o seu sabor especial, em cada altura da minha vida, mas As Crónicas de Gelo e Fogo foram talvez aquelas que mais fomentaram o meu amor pela escrita e pelo género fantástico, uma história mais dramática e emocionante.

#6 Que história gostarias de viver?

Sem título

A saga A Torre Negra leva-nos até ao Mundo Médio, um lugar onde os descendentes do Rei Artur tornaram-se cowboys. Seria muito interessante acompanhar Roland nas suas aventuras em busca da profética Torre Negra, lutando contra demónios, vampiros e outras criaturas bizarras.

#7 A capa mais bonita da tua estante

Sem título

Apesar de os dois últimos volumes de Mistborn terem ficado um pouco diferentes dos primeiros, a coleção é das mais bonitas da minha estante em termos de lombada, e o primeiro volume, O Império Final, tem a capa que visualmente mais me agrada.

#8 A capa mais feia da tua estante

Sem Título

O Amigo Fritz. Não preciso de explicar porquê, ou preciso? É dos livros mais antigos que tenho em casa, apesar de ser muito bem estimado.

#9 O teu livro preferido de sempre

Rebecca

Não é nenhum fenómeno literário, nem sequer dos mais aclamados do autor, mas encantei-me com este livro de Ken Follett da primeira à última página. A história não é o seu maior atrativo. O clima de espionagem, a tensão sexual, o calor do Egito e a envolvente nazi conquistaram-me de tal modo, que A Chave para Rebecca é o livro que vem à minha memória quando penso em livro favorito.

# 10 O livro que estás a ler

Sem título 2

A Vingança do Assassino, quarto volume da Saga do Assassino de Robin Hobb. Está a ser uma leitura um tanto ou quanto demorada, mas espero terminá-lo em breve.

Sintam-se à vontade para comentar e responder à TAG – Seleção.