Autoridade, Área X #2

Uma planta. Um rato morto. Uma espécie de imprecação irracional. Ou um qualquer tipo de piada ou partida. Ou a contínua evidência de uma espiral descendente, um salto da falésia para um oceano repleto de monstros. Talvez lá para o fim, quando decidiu integrar a décima segunda expedição, a diretora estivesse a praticar uma qualquer variação perversa do Scrabble.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Autoridade”, segundo volume da trilogia Área X

É a segunda vez, em pouco mais de dois meses, que vos falo de Jeff Vandermeer. O autor norte-americano, que cresceu nas Ilhas Fiji e tem livros publicados em mais de vinte línguas, é um dos nomes mais notáveis do sub-género New Weird Fiction e a sua trilogia Southern ReachÁrea X em Portugal – está na base de toda a empolgação.

Vencedor de vários prémios, Vandermeer é vulgarmente comparado a nomes como H. P. Lovecraft ou China Miéville, sendo um dos percursores de uma literatura especulativa que mescla o terror psicológico ao bizarro. A trilogia de que vos falo hoje é interpretada largamente como uma metáfora dos perigos que o Homem suscita ao interferir na natureza.

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Capa Saída de Emergência

Aniquilação – Um breve resumo

No primeiro volume, vimos quatro mulheres a ser atiradas para o interior de uma zona rural inusitada, a Área X, tendo em vista explorar a sua vegetação abundante e as suas peculiaridades. Supostamente, são a décima segunda expedição e aqueles que voltaram daquele lugar anteriormente, regressaram sem emoções, tendo vindo a falecer de cancro. A protagonista é uma bióloga, e tal como as restantes personagens não lhe é conhecido o nome – a organização que as enviou (a Extensão Sul) trabalhou no sentido para que não viessem a estabelecer qualquer relação afetiva. Sabemos, no entanto, que esta bióloga está ali para descobrir o que matou o esposo, um membro da expedição anterior que regressou como uma mera sombra da pessoa que fora, até acabar por morrer. Sabemos também que o marido chamava-a vulgarmente de Pássaro Fantasma.

Das outras três mulheres, pouco é revelado. Uma é psicóloga, as restantes topógrafa e antropóloga. Desde que encontram uma torre afundada na terra com uma misteriosa frase apocalíptica escrita por fungos numa parede, os acontecimentos sucedem-se e duas delas acabam por desaparecer misteriosamente. A bióloga descobre que a psicóloga guardava grandes segredos, e que estava a hipnotizá-las. Descobre também um farol com uma fotografia sinistra e diários horripilantes de antigas expedições, uma natureza transtornada e completamente inquietante.

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Ilustração (fsgworkinprogress)

Autoridade – A Extensão Sul

O segundo volume, Autoridade, começa atrás de uma secretária. O protagonista deste segundo volume é John Rodriguez, o novo diretor da agência Extensão Sul. Porém, gosta que todos o tratem por uma alcunha antiga – Control. Através dele, sabemos que a psicóloga do primeiro volume era muito mais do que isso; Cynthia era a diretora da agência, que decidira tirar conclusões pelos próprios olhos. Sabemos também que foi a única desta última expedição a não regressar. A topógrafa e a antropóloga regressaram para as suas famílias, enquanto a bióloga – que protagonizou o primeiro volume – surgiu num terreno baldio.

Control tem em mãos a tarefa árdua de resolver um puzzle intricado: continuar o trabalho da anterior diretora, descobrir porque ela deixou um rato morto e uma planta dentro de um vaso no seu escritório (para além de uma parede coberta de palavras arrepiantes, as mesmas que haviam sido encontradas na torre da Área X), e interrogar a bióloga, de modo a descobrir os mistérios que a Área X esconde e o porquê de ter aparecido naquele terreno. Mas Control tem muito mais com que lidar.

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Villa Altona (abduzeedo) – próximo do que imagino ser a sede da Extensão Sul

Autoridade – Os mistérios

Em primeiro lugar, Control tem de debater-se com a sua própria identidade. Vive ensombrado pelo fantasma da mãe, Jackie Severance, uma mulher misteriosa que desde muito cedo o educou com mão de ferro, oferecendo-lhe pouquíssimo afeto, mas sempre tenha parecido munida de grandes contactos e influências para o livrar de todos os sarilhos. Apesar do apelido, Control sempre teve muito pouco controlo sobre a própria vida. Partilha casa com um gato chamado El Chorizo, e responde sempre perante uma Voz, o seu exigente contacto com a Central da agência. Recorda-se vulgarmente do pai, que o acompanhou até morrer, e do avô materno, Jack Severance, que o fez pegar numa arma pela primeira vez.

No duche, começou a chorar porque ainda não conseguia esquecer-se da sensação da parede na sua mão, por mais que tentasse. Não conseguia esquecer o modo como a chuva parecera desaparecer, a expressão no rosto de Whitby, a pose rígida de Grace ou o facto de que tudo aquilo tinha acontecido apenas uma hora antes e ele ainda não tinha qualquer explicação.

Depois, há que lidar com os subalternos. Grace, a sub-diretora da Extensão Sul, é uma mulher negra que o vê como um mero diretor interino, desvalorizando-o constantemente, como se esperasse que a qualquer momento a diretora regresse para continuar o seu trabalho, o que faz com que ambos estejam normalmente em desacordo.

Mike Cheney, o chefe do departamento científico, é um tagarela. Jessica Hsyu, a linguista de serviço, parece cínica. E Whitby Allen, pau para toda a obra no departamento científico, é o enigmático cicerone de Control dentro da Extensão Sul. Pior do que encontrar oposição em alguns deles, é ter a sensação que nenhum deles o respeita como seria suposto, e perceber que todos lhe escondem coisas.

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Jeff Vandermeer (culturesofenergy)

Por fim, trabalhar com o Pássaro Fantasma. Os interrogatórios com a bióloga são abstratos e é difícil tirar-lhe informações de relevo, como se a mulher se divertisse em dificultar-lhe a vida. Pouco a pouco, porém, os interrogatórios com a bióloga tornam-se mais informais, e embora ela não lhe pareça menos provocatória ou obscura, Control começa a apaixonar-se por ela.

A partir do momento em que Control descobre os experimentos científicos que a Extensão Sul realizava, há anos e anos, na Área X, percebe que a verdade – ainda turva – é de uma dimensão muito maior do que podia especular. As perguntas sucedem-se e as bizarrices também. Os vídeos tenebrosos que James Lowry trouxe, ao sobreviver à primeira expedição. Os limites da suposta fronteira com a Área X a avançar. Uma torre na Área X que Control começou por chamar como “anomalia topográfica” e que a bióloga apelida de “túnel”. As crípticas palavras com que a diretora estava obcecada. Um faroleiro e uma menina. Uma luz em espiral. Um portal cintilante. Um mosquito espalmado no pára-brisas sem que se tenha lembrado de matar qualquer inseto. O telemóvel da diretora na sua mochila sem o ter posto lá. O papel da mãe de Control e como ele se tornou diretor da Extensão Sul. A identidade da Voz. A sala de arrumos onde encontra Whitby com uma expressão aterrorizada. Centenas de coelhos junto à fronteira. A bióloga que, subitamente, diz não ser a bióloga.

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Join the expedition (jeffvandermeer)
SINOPSE:

Após 30 anos, os únicos traços humanos detetados na Área X – uma estranha zona contaminada cercada de uma fronteira invisível e sem traços de civilização – são os que foram deixados por expedições sucessivas sob autoridade de uma agência tão secreta que quase foi esquecida.
Face à tumultuosa 12.ª expedição narrada em Aniquilação, a agência tem um novo diretor nomeado, John Rodrigues, também conhecido por Control. A braços com uma equipa desesperada e frustrada por uma série de incidentes e vídeos perturbantes, Control começa a desvendar lentamente os segredos da Área X e dos mistérios narrados no primeiro volume, mas a cada descoberta que faz, é forçado a confrontar verdades sobre ele próprio e a agência que jurou servir.

OPINIÃO:

Se o primeiro volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer – Aniquilação – pareceu um verdadeiro tesouro de ficção científica com evocação ao bizarro, este segundo volume apresentou-nos a mesma história de uma perspetiva completamente diferente. Extremamente panorâmica, esta trilogia traz-nos agora John “Control” Rodriguez como um protagonista complexo e interessante. Em Aniquilação, o problema das terríveis mutações ambientais na Área X é tratado in loco, sendo testemunhado todo o horror através de um cenário verdejante próximo ao mar. Já Autoridade é passado quase integralmente nos escritórios de uma agência secreta. A mesma agência que enviou as exploradoras para a zona contaminada.

Na verdade, os dilemas interiores e os problemas burocráticos de Control não foram tão atraentes do que a vivência da bióloga, chegando até a tornar-se cansativo que este volume tenha passado tanto pela investigação e pelo trabalho atrás da secretária. Desenganem-se, porém, que isso lhe rouba mérito. A nível de mistérios e revelações, Autoridade ultrapassa o primeiro volume em surpresas, e posso dizer que a partir da metade, só consegui parar na última página.

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O meu exemplar

Esqueçam o terror visual do primeiro livro. Este segundo volume vem, não só, complementar o que testemunhamos anteriormente, como nos oferece um terror psicológico mais vívido e inquietante. Tudo o que parece errado pode estar certo, como tudo tem uma razão de ser que nem sempre conseguimos perceber à primeira vista. Neste livro não temos todas as respostas para os eventos do primeiro, mas as revelações são brutais e novos mistérios são deixados para o volume final da trama.

Jeff Vandermeer é um escritor ambicioso, calculista e genial. Ele consegue operar aqui todas as pinceladas próprias dos géneros terror/mistério e começa a unir os cabos do que será uma teia perfeita de ficção científica arrepiantemente próxima ao que poderia ser a realidade. Vandermeer expõe a arrogância do Homem em todo o seu esplendor, e mostra o que ele é – um mosquito que pode facilmente ser esborrachado num pára-brisas – diante da força maior a que chamamos Natureza.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

Área X (Saída de Emergência):

#1 Aniquilação

#2 Autoridade

#3 Aceitação

Estou no Wattpad #15

Cá estou eu a divulgar mais um capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, o meu livro de leitura online. Desde já quero agradecer a quem me enviou mensagens a elogiar o último capítulo e espero que este não vos deixe desiludidos. Depois de descobrir a verdadeira identidade de Averze e a conspiração que o levou até Ccantia, Língua de Ferro soube também que Lucilla e Eduarda tiveram duas filhas e que elas estão nas mãos do inimigo comum, o antigo senador Sander Camilli. Agora, Língua de Ferro terá de lidar com um perigo mais premente: Mario Bortoli capturou Luce e os seus exércitos começaram a saquear a cidade.

CAPÍTULO QUINZE: O SANGUE NAS NOSSAS MÃOS

“A verdade do que fui e do que fiz não desapareceu com o tempo. Ingressei num galeão pirata, chamado Alma Sangrenta, antes da Seca. Que terrível ironia. Gritei aos treze mares que ninguém conseguiria derrubar Língua de Ferro, mas o que tinha na minha mente era bem mais truculento e ingrato. A certeza de que havia perdido Luce para sempre. O sangue nas minhas mãos. Menos de um ano depois, o Alma Sangrenta encontrou uma frota naval bem vigorosa. Dizem que as chamas do fogo refulgiam no meu rosto e na minha lâmina, como se eu fosse um deus da guerra. Mas só me lembro do cheiro hediondo a suor e a piche, do solo pegadiço de sangue e entranhas, dos vómitos e da carnificina à minha volta. Acabei por saltar ao mar, como os outros. Fui dos poucos sobreviventes. Acordei com a boca cheia de areia. Um prenúncio do que estaria para vir.”

― Matem-na! ― gritou Allen, com um guincho. ― Matem-na! Matem-na! Ela é a culpada de tudo. O verdadeiro rosto do Império.

Empecilho desceu os degraus cautelosamente, enquanto o cenário na sala comum da estalagem – transformado em quartel-general de Mario Bortoli – se tornava mais claro. Bortoli estava de mãos nas ancas junto à janela, onde o borrão vermelho-alaranjado das chamas exteriores se coadunava com o estourar das bancas de mercado e com os gritos dos oprimidos.

Ele deu as ordens. Aquilo é obra dele.

Ccantia estava sob ferro e fogo, com indígenas e rhovianos a espalhar o terror. Bortoli entrara em Ccantia com vontade de ser parcimonioso e diplomático, mas desde que Averze se recusara a conceder-lhe uma audiência, a paciência do Mecenas implodira. Também Marovarola lhe prometera mundos e fundos, uma aliança promissora, e desaparecera sem uma nota de despedida. Por fim, Agravelli Domasi e Donatello Brovios apareceram mortos.

Por essa altura, Vance Cego capturou Lucilla e conduziu-a à estalagem, onde os rhovianos às ordens de Bortoli a acobertaram com uma pele de cabril e a ataram nos pulsos e tornozelos. Eram sete, os rhovianos ali presentes. Também havia um par de indígenas rezolis e cinco antigos prisioneiros da Prisão. Um deles era Opyas “Boca de Sapo” Raymon, que agora parecia trabalhar como taberneiro particular de Bortoli, substituindo aquele que tinha sido morto por Marovarola.

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Prisoner of War (morbidprince em deviantart)

Lucilla parecia pálida e inexpressiva, resistindo a todas as perguntas e ameaças com meras evasivas e provocações. Colocaram-na sentada sobre uma mesa, com uma adaga afiada a um palmo da sua garganta. Allen caminhava de um lado para o outro, com um rosto afogueado, maxilar tenso e olhar assustado, e parecia lembrar Bortoli a cada segundo de quem Lucilla era, sempre com um indicador acusatório acima da cabeça para enfatizar os seus argumentos. A mente de Bortoli, contudo, parecia longe dali.

Empecilho tentou imaginar o que ruminava por detrás daquele cenho franzido. Devastar a cidade-sombra e avançar para Chrygia, levando Lucilla como troféu ou refém parecia ser a medida mais lógica, tendo em conta os últimos acontecimentos. A ideia de ganhar Chrygia com venenos e usar Língua de Ferro como bode expiatório caíra por terra. Tinham chamado demasiado a atenção, Língua de Ferro desaparecera misteriosamente e agora tinham ali Lucilla ao seu dispor.

Porém, o Mecenas era muitas vezes imprevisível.

Allen argumentava com alguma aflição para que se livrassem dela, que Lucilla era muito mais perigosa do que a sua aparência sugeria. Parecia agora, no entanto, encetar um monólogo. A sessão de parada e resposta que os rhovianos incutiram à mulher tinha findado, e até Vance Cego parecia limitar-se a esperar, encostado a uma parede com os braços cruzados e uma espada larga embainhada à anca direita. Ravella estava ao seu lado, igualmente expectante.

― Não foi para isto que viemos até aqui? Para acabar com ela? ― continuava Allen, recebendo indiferença como resposta.

Ravella soltou um suspiro enfadado. De resto, a uraniana tinha modificado ligeiramente o seu comportamento desde que Vance a reclamara para si. Quando era amante do rhoviano, parecia evidente o seu esforço por agradar, mostrar-se cortês e tudo isso redundava num comportamento visualmente teatral. Com Vance, Ravella era ela mesma. Não sabia o que ele lhe teria dito, mas os dois pareciam falar uma mesma linguagem, talvez por comungarem da mesma origem – os seus traços pálidos revelavam os traços naturais da vasta província do Urão, a norte. Nunca os vira agarrados ou a partilhar gestos ostensivos de carinho ou desejo, mas partilhavam o mesmo quarto e lá passaram várias horas.

― O que estão à espera para matar essa cabra? ― insistiu Allen, cada vez mais nervoso. Empecilho acreditava que, a qualquer momento, podia dar-lhe uma síncope. Bortoli voltou-se então, sem qualquer sombra de humor na expressão facial, e fitou cada um dos presentes com um grande suspiro.

― A situação fugiu-me do controlo. Eu não queria nada disto.

Lucilla sorriu levemente.

― Pariste um monstro, Mario Bortoli. E agora não sabes como domá-lo.

Um murro atingiu-a severamente no rosto, atirando-lhe a cabeça para o lado e colando-lhe cabelos à boca, condimentados de sangue. O rhoviano que a atingiu cerrou os dentes com um misto de náuseas e orgulho. Bortoli mandou-o afastar-se com um gesto e aproximou-se da mulher em passos lentos. Afastou-lhe o cabelo dos olhos e viu as marcas escuras que o seu homem lhe deixara no rosto. Lucilla cuspiu-lhe para cima, mas não com força suficiente para o atingir.

― Sabes bem o que são monstros difíceis de domar, não sabes, pequenina? ― perguntou-lhe com um olhar perscrutador. ― Porquê? Porque é que deixaste as coisas chegarem a este ponto? Tinhas poder, tinhas tudo o que tanto almejaste. Responde-me só a isto… O que fazes tu neste fim-de-mundo?

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The Hollow Schrine (forums.nrvnqsr)

Empecilho julgava que Lucilla lhe responderia com desafio. Mas o que viu no seu olhar foi uma humildade assustadora.

― Não saberás pela minha boca, eunuco…

A provocação atingiu Bortoli exactamente onde mais o inflamara. O Mecenas trincou um lábio e voltou a suspirar profundamente para não a esmurrar.

― Há quanto tempo julgas tu que eu procuro chegar a ti, ter-te nesta posição, sob a minha mercê? O que julgas tu que eu te vou fazer? Posso cortar-te em pedaços e enviar-te por correio a Eduarda. Hein? O que me dizes?

― Faz o que quiseres. Eduarda será o menor dos teus problemas se me matares.

Mario Bortoli sorriu, finalmente.

― Ah, estás a falar de Valentina? O teu eterno amante? Duvido que ele ainda sinta alguma coisa por ti, para além de desprezo. Estás sozinha, Lucilla. Estás sozinha desde o momento em que assestaste uma coroa sobre a tua cabeça.

Dessa vez, foi Lucilla a soltar uma gargalhada. O olhar que lançou a Bortoli parecia uma qualquer tentativa de barganha, um desafio antigo, mas era uma tentativa embotada. A humildade da sua posição – e algo mais – ficavam-lhe por baixo. Camadas sob camadas. Bortoli quis ver mais de perto essa humildade e apartou as abas da pele de cabril que a cobria, pondo-lhe à vista os seios. Abriu a mão para receber a adaga do rhoviano que a coagia e brincou com a adaga, levemente, à volta de um mamilo da mulher. Aquilo roubou-lhe o sorriso do rosto. Em pouco tempo, uma senda vermelha envolvia os lugares onde Bortoli passeava com a adaga. Ainda assim, havia cobiça no seu olhar.

― Não estava a falar de Val ― disse ela por fim, com um ar sério. ― Estou a falar de Sander Camilli. É ele quem sustenta o Império.

― Mata-a ― grunhiu Allen. ― Fá-la calar-se.

Lucilla virou o rosto subitamente para Allen.

― Porque é que não lhe contas tu a verdade… Allen? ― Allen pareceu encolher-se e recuou um passo. Bortoli voltou o olhar para Allen e depois novamente para Lucilla.

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Cloud de Final Fantasy (nintendolife)

― Qual verdade, Lucilla? ― perguntou Bortoli. ― Eu sei quem é Sander Camilli. Sei que ele tem poder no Império, mas não foi ele quem o conquistou, pois não? Foste tu e Eduarda, com a ajuda preciosa de Dzanela. Não me parece, no entanto, que Camilli fique muito embaraçado se eu me livrar de ti e te enviar por correspondência. Será um aviso.

― Um aviso? ― perguntou Luce.

― Um aviso daquilo que acontece a quem se coloca no meu caminho. Que nenhum de vós gozará de vantagem quando se prostrar diante de mim. Um aviso… para que percebam finalmente com quem se estão a meter.

Lucilla sorriu.

― Ainda assim, algo te demove a matar-me. Só te vejo a palrar. Se me quisesses morta, já o tinhas feito.

Bortoli pareceu hesitar na resposta, e Jupett Vance deu um passo em frente, descruzando os braços.

― Há vantagem em mantê-la viva ― respondeu Vance. ― Enviá-la morta, como um aviso, será também um alerta. Redobrarão as suas defesas. Isso não nos será conveniente… Relembro que somos uma grande força militar, mas vamos enfrentar a sede do Império. Não há guarnição ou posto avançado tão reforçado como a própria Chrygia. Podemos usar Lucilla ainda como um trunfo, se a mantivermos como prisioneira.

Lucilla assentiu, como se parte do seu medo tivesse passado como uma nuvem pelo seu olhar. Mario Bortoli, no entanto, revolvia-se por dentro. Engoliu em seco e suspirou.

― Isso é uma loucura ― rebateu Allen. ― Vocês nunca viram esta mulher a lutar. Ela fugiria à primeira oportunidade, e se calhar a aliar-se a Língua de Ferro… Não os subestimem. Será difícil que Camilli não proteja as defesas de Chrygia, depois deste massacre. Estamos a dois passos de Chrygia e as notícias sabem-se depressa.

Empecilho viu os rostos de Allen e de Vance a cruzarem-se. Se Vance Cego tivesse expressão no olhar, censuraria o suposto Landon X pela petulância. Os dois aconselhavam Bortoli à sua maneira, e cada um com as suas motivações. Para Empecilho, tais motivações escapavam como manteiga derretida pelos dedos. Ainda assim, Mario Bortoli tomou uma decisão.

Esticou o braço com a mão aberta, mantendo a adaga pousada sobre o punho. As probabilidades não abonavam para Lucilla. O rosto por detrás de Landon X. A mulher que Língua de Ferro mais amou em toda a vida. Vance Cego caminhou em passos lentos para Bortoli. Se ele desrespeitasse as suas decisões, perderia não só o seu posto como comandante, como também a confiança de Bortoli. Empecilho era um bom observador, e apesar de saber pouco sobre o homem, sabia que Vance Cego faria de tudo para manter a sua posição. O seu interesse principal parecia residir na batalha entre as forças de Bortoli e o Império, e tudo o resto seria acessório.

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Guerreiro similar a Vance Cego (Boris em animeonly)

Ao colocar-se ao lado de Mario Bortoli, Vance pareceu perscrutá-lo.

― Os desígnios do tempo são incertos, Bortoli ― disse o homem cego. ― Mas se encontrar vitória nesta cruzada, saberá que os seus homens vieram movidos por promessas de ouro e de água, e não por liberdade. E as falsas vitórias costumam ter um preço amargo.

Bortoli fungou.

― Isso é um ultraje, comandante?

Vance Cego fechou os olhos e voltou a abri-los. A palma da mão de Bortoli ainda estava aberta. O olhar de Lucilla girava, suplicante, entre um e outro.

― Saberá a seu tempo. ― Ao dizê-lo, Vance Cego pegou no punho da adaga e, com um movimento veloz, cravou-a na testa de Lucilla.

Os olhos da mulher ampliaram-se subitamente, no momento em que o coração subiu-lhe à boca e o último suspiro morreu-lhe com a vida. Uma linha vermelha desceu pela testa, contornou o nariz e galgou os relevos suaves dos seus lábios. Vance Cego empurrou a adaga até que o sangue começou a sair aos borbotões. Allen soltou uma risadinha de alívio. Mais ninguém ali parecia contente, nem mesmo Bortoli. Empecilho estremeceu. Ele matou-a… Matou-a mesmo. O grande amor de Língua de Ferro tinha sido silenciado.

Para sempre.

Vance Cego virou as costas ao cadáver, que tinha caído para o lado, como um fantoche deixado ao abandono pelo titereiro. Mario Bortoli não se moveu.

― Não precisávamos dela, Vance ― disse Bortoli, como se a consciência lhe estivesse de algum modo a pesar, ou como se devesse qualquer explicação ao seu comandante. ― O sofrimento que eles me causaram… Tinha de pôr um termo a isto. E ainda temos Allen. Usá-lo-emos como refém.

Allen pareceu subitamente ter mudado de ideias, começando a gaguejar, quando os rhovianos se acercaram dele com expressões ameaçadoras. Vance Cego já caminhava para a escadaria, determinado, mas estacou.

― As premissas mantêm-se, mas os peões mudam ― disse Vance. A mensagem era endereçada a Allen. ― Sei o que ainda significas para o Império. Sei o que julgas e o que procuras.

― Eu só quero acabar com esta cáfila… comandante ― grunhiu Allen, tenso.

― Não ― replicou Vance Cego. ― Ainda tens algo a ganhar, e estás a jogar com as peças que tens. Peças quentes, que te escaldam a palma das mãos e não sabes o que fazer com elas a não ser movê-las por impulso. Não tens estofo para jogar este jogo, ainda que tenhas conseguido enfraquecer uma das fações, e por isso limitas-te a criar ruído em volta de peças obsoletas, mas esse ruído chama as atenções para ti. Foste atirado para o tabuleiro pelo professor que te ensinou a jogar, levado a acreditar que eras mais importante. Lamento informar-te, mas enganaram-te desde o início. Só agora entraste no jogo. Tinhas passado despercebido até hoje.

― O que raio está para aí a dizer? ― perguntou Allen, já abespinhado.

― O sangue de Lucilla está nas nossas mãos, e ainda que isso pouco signifique para mim, será o teu fim.

Com essas palavras, Vance lançou-se escadaria acima. Ravella seguiu-o, não sem antes atirar uma expressão de desdém para Allen. Os rhovianos amarravam agora os pulsos ao irmão de Dzanela.

― Hey! Bortoli, o que raio me estão a fazer?

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Homicídio em How Comes (myanimelist)

Bortoli tinha estado a fitar o rosto morto de Lucilla durante aquele tempo. O corpo parecia mole e lânguido, a testa enegrecia em volta da adaga, mas a pele ainda parecia quente. Cobriu o peito exposto do cadáver com as abas da pele de cabril e voltou-se para os seus homens, ligeiramente desorientado.

― Ela morreu, Allen ― disse Bortoli. ― E preciso de um novo refém… Vance tinha razão! Ele parece ter sempre razão.

Enquanto os seus pulsos eram apertados por cordas de cânhamo, Allen ia ficando mais nervoso.

― Se concordava com ele, porque é que a mandou matar?

― Lucilla não vai ser enviada para Chrygia. Parte do que lhe disse foi uma patranha. A morte dela será um aviso, sim, mas para alguém que ainda está entre nós. E ele virá, Allen. Ele virá até mim! Nem que seja a última coisa que faça.

Allen engoliu em seco, a estremecer. Empecilho compreendeu aquilo a que Mario Bortoli estava a referir-se. Lucilla será um aviso, e um isco. Bortoli quer que Língua de Ferro vá até ele, onde quer que ele esteja.

― Mãos à obra ― vozeou Bortoli ao abrir a porta da rua. ― Temos uma longa viagem a fazer. Até Chrygia.

Para ler pelo Wattpad:

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